Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação. Organizado por José Manuel Paquete de Oliveira, Gustavo Leitão Cardoso e José Jorge Barreiros

June 4, 2017 | Autor: Gustavo Cardoso | Categoria: Sociology, Media Studies, New Media, Internet Studies
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Descrição do Produto

Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação.

José Manuel Paquete de Oliveira Gustavo Leitão Cardoso José Jorge Barreiros (Organizadores)

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Traduções de: Catarina Lorga [Socióloga, investigadora na área da Sociologia da Comunicação no ISCTE]. Alexandra Lemos [Socióloga, investigadora no Observatório da Comunicação] Revisão Científica: Gustavo Leitão Cardoso e José Jorge Barreiros

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ÍNDICE Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação. José Manuel Paquete de Oliveira, Gustavo Cardoso e José Jorge Barreiros Capítulo I : desafios globais O século dos media: a evolução da comunicação de massa no século XX Peppino Ortoleva (Itália) Desafios globais e respostas nacionais na Era da Informação Frank Webster (Reino Unido) A Internet na construção de uma cidadania participada José Manuel Paquete de Oliveira, José Jorge Barreiros e Gustavo Cardoso (Portugal) Capítulo II: as diferentes faces da Internet A world wide web da vigilância: a Internet e os fluxos de poder “offworld” David Lyon (Canadá) Apoio Comunitário virtual? A política social e a emergência da ajuda social mediada por computador Brian D. Loader (Reino Unido) A Internet e os seus Jornalismos: Teoria, Pesquisa e Estratégia da Produção de Notícias Online Mark Deuze (Holanda) Capítulo III: complementariedade tecnológica e apropriação social A indústria discográfica e o desafio da rede Giuseppe Richeri (Itália) A utilização do telemóvel em Itália nos anos 90: Modelos interpretativos Fausto Colombo (Itália) A Internet e a Sociedade em Rede

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Manuel Castells (Espanha) Capítulo IV: a ética da informação Porquê estudar os media?: 11 de Setembro e a ética da distancia. Roger Silverstone (Reino Unido) Desafios Morais na Sociedade de Informação Cees J. Hamelink (Holanda)

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SOBRE OS AUTORES José Manuel Paquete de Oliveira, licenciado em Sociologia pela Faculdade de ciências sociais da Universidade Gregoriana – P.U.G., de Roma, Doutorado em Sociologia da Cultura e da Comunicação pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa - ISCTE da Universidade Técnica de Lisboa. Actualmente Vice-Presidente do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – ISCTE, onde exerce também funções de docência e coordenação científica no Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação. Avaliador de projectos de investigação junto da European Science Foundation /Standing Commmitee for the Social Sciences (desde 1996). Coordenador científico de projectos nacionais e internacionais: Ciberfaces A Sociedade da Informação em análise. Internet, Interfaces do social, Lisboa, ISCTE/FCT-MCT (2000); MSSTUDY I and MSSTUDY II- “Study on Assessing the Situation of the Markets for Electronic Information Services in the European Economic Area” - European Commission DGXIII (1996/1997 e 1998/1999); Membro da equipa internacional por parte de Portugal, do Projecto "News Media and European Unity" - Press Analysis, Info Europa (1992-1993).

Gustavo Cardoso é docente no Departamento de Ciências e Tecnologias de Informação do ISCTE em Lisboa, Portugal. É membro do editorial board da revista académica ICS - Information, Communication & Society - e do conselho técnico científico da revista Trajectos do ISCTE e da revista Observatório do Obercom Observatório da Comunicação. Tem vários artigos publicados em revistas académicas e publicou na Editora Celta "Para Uma Sociologia do Ciberespaço", e na editora Quimera " O que é Internet " em 2003. É director do Centro de Tecnologias Audiovisuais do ISCTE (CAV_ISCTE) onde coordena a participação portuguesa nos projectos europeus, COST A14 (Government and Democracy in the Information Age) e COST A20 (The Impact of the Internet in the Mass Media in Europe)

José Jorge Barreiros, licenciado em sociologia. Docente do Departamento de Sociologia do ISCTE, com actividade de leccionação e orientação de dissertações na licenciatura em Sociologia e no Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação. Investigador na área, da Sociologia da Comunicação e dos Media, com participação em várias pesquisas com destaque para: Ciberfaces A Sociedade da Informação em Análise. Internet, Interfaces do Social, Lisboa, ISCTE/FCT-MCT, 2000

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e Study on Assessing the Present Situation of the Markets of Electronic Information Services in the European Economic Area, Lisboa, ISCTE/JNICT/Comissão Europeia (DGXIII), 1996.

Peppino Ortoleva. Docente universitario, publicou mais de uma centena de trabalhos científicos (livros, artigos, publicações em obras colectivas) sobre media, história, sociedade; em particular, têm-se ocupado, com o uso dos media na investigação histórica e na transmissão do conhecimento sobre o passado, e as consequências sociais e culturais da inovação no campo dos media. Entre 1992 e 1997 ensinou Comunicação de massa na Università di Torino; posteriormente ensinou Novos media na Università di Siena, onde é docente de Comunicação de massa. É também membro do Conselho de admministração da Scuola nazionale di cinema.

Frank Webster é actualmente docente na City University de Londres. Até essa data foi Director do Departamento de Cultural Studies e Sociologia da University of Birmingham. Têm ensinado ao longo dos anos em variadas universidades inglesas e nos Estados Unidos e desde 1997 que é Professor visitante no Departamento de Jornalismo e Comunicação de Massa na Universidade de Tampere University na Finlândia. Desde há muito que têm interesse no ensino sobre sociedades contemporâneas, mudança social, assim como sobre o papel da informação e comunicação na sociedade. O seu interesse na investigação tem sido centrado nas tendências da comunicação e informação, e têm incluído analíse conceptual e crítica às mesmas, os efeitos das tecnologias nas bibliotecas, mudança urbana e novos media. Desenvolve actualemnte investigação osbre a democratização e novos media. Os seus livros encontram-se traduzidos para diversas línguas. David Lyon é investigador na Universidade de Queens, Canadá. Os seus interesses de pesquisa e ensino centram-se em torno das grandes transformações sociais no mundo moderno. Questões sobre a sociedade de informação, globalização, vigilância, secularização e pós-modernidade são uma presença constante no seu trabalho. O trabalho actual de David Lyon preocupa-se com o surgimento das denominadas sociedades de informação na Europa, América do Norte e Asia-Pacífico. Aspectos particulares merecedores da sua atenção são as origens sociais e consequências do processamento de dados pessoais – isto é a vigilância – incluindo o digital, o vídeo,

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biométrica, e dados genéticos. David Lyon dirige o projecto internacional Surveillancecuja base se encontra na Universidade de Queen’s. É autor de numerosos livros, encontrando-se a escrever actualmente uma obra sobre a Sociologia do Ciberespaço. Brian D. Loader docente de Informatíca e Comunidade e Director do CIRA (Community Informatics Research and Applications Unit) na Univerisdade de Teeside no Reino Unido. Os seus interesses académicos estão focados em torno da emergência das novas tecnologias de informação e comunicação, como a Internet, e os factores sociais, políticos e económicos que moldam o seu desenvolvimento e e difusão e as suas implicações para a mudança social economiaca, governamental e cultural. É o editor da revista Information, Communication and Society. Os seus livros incluem The Governance of Cyberspace: Politics, Technology and Global Restructuring, (London: Routledge 1997), The Cyberspace Divide: Equality, Agency and Policy in the Information Society (London: Routledge 1998); Digital Democracy: Discourse and Decision-Making in the Information Age (com Barry Hague) (London: Routledge 1999); Cybercrime: Law Enforcement, Security & Surveillance in the Information Age (with Doug Thomas) (London: Routledge 2000); É também membro do COST A14 em ICTs, social movements & citizens. Mark Deuze é professor e investigador associado na Amsterdam School of Communication Research (ASCoR). Durante os últimos anos tem desenvolvido intensa actividade de investigação em diversas universidades como sejam a Utrecht School for Journalism (1998-2000); o departamento de Film & Television da University of Amsterdam (2000); a Fontys graduate School for Journalism em Tilburg, Holanda (2000 e 2001); Windesheim School for Journalism em Zwolle, Holanda (2000 e 2002); Erasmus University Rotterdam’s post-doctoral Journalism program (2001); ISCTE University em Lisbon Portugal (2001).

Giuseppe Richeri é professor de Estratégia dos Media na Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade Suíça-Italiana de Lugano. É autor de alguns livros e numerosos ensaios publicados em Itália e noutros países, sendo a sua mais recente obra 'La fabbrica delle idee' (Baskerville, Bologna 2000). Desenvolve actividades de investigação

e consultoria para diversas instituições públicas e empresas privadas à escala internacional. Na sua actividade académica tem ensinado em diversas universidades de França e Espanha (onde foi titular da catedra da UNESCO para a comunicação). Foi

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membro da comissão do Ministero delle Comunicazioni italiano para a concessão televisiva nacional e local (1999/2001) e é membro da Commissione ministeriale para a TV Digital Terrestre.

Fausto Colombo é Professor e investigador da Universidade Católica de Milão. De entre a sua actividade de investigação destacam-se: o Istituto Gemelli-Musatti para os problemas da comunicação (Milano); RAI, Servizio Verifica Qualitativa Programmi Trasmessi; Fundação G. Agnelli; Fundação Collodi; Istituto Regionale di Ricerca (Irer) da Lombardia; Ministero dell'Università e della Ricerca Scientifica; União Europeia (representante italiano na acção COST A20). Em 1995 idealizou e criou o Osservatorio sulla Comunicazione, centro de investigação sobre os media do qual é director. É também membro do comité editorial da revista "Comunicazioni Sociali. Rivista di Media, Spettacolo e Studi Culturali" e da "Problemi dell'Informazione" e participa regularmente em colaborações com a Biennale di Venezia e com a Triennale di Milano.

Manuel Castells é Professor de sociologia e Professor de planeamento urbano e regional na Universidade da Califórnia, Berkeley, onde colabora desde 1979. De 1994 a 98 foi director do UC Berkeley's Center for Western European Studies. Entre 1967 and 1979 ensinou sociologia na Universidade de Paris, primeiro no campus de Nanterre, e depois, a partir de 1970, na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Foi igualmente professor e director do Instituto para a Sociologia das Novas Tecnologias, na Universidad Autonoma de Madrid, e professor visitante em 15 universidades na Europe, nos Estados Unidos, Canadá, Asia, e América Latina. De entre as suas obras destacam-se a trilogia “A Era da Informação” e a sua última obra “A Galáxia Internet” (ambas publicadas pela Fundação Gulbenkian em Portugal). Roger Silverstone é desde 1998 professor de Media and Communications na Londos School of Economics e director do [email protected] Antes de ocupar o cargo na LSE, foi professor de Media Studies e director do programa de investigação em Cultura e Comunicação na University of Sussex. A sua area de investigação abrange desde o estudo da narrativa até aos utilizadores dos novos media e a relação entre media, tecnologia e mudança social. De entre as suas obras destaca-se “Why Study the Media?” (Sage 2000).

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Cees J. Hamelink é professor de comunicação internacional na Universidade de Amesterdão e também professor de media, religião e cultura na Universidade Livre de Amesterdão.

É professor visitante na Universidade Católica de Leuven e na City

University de Londres. É também editor chefe da Gazette (o jornal internacional em estudos de comunicação), presidente honorário da International Association for Media and Communication Research e membro da direcção da International Communication Association. Publicou mais de 200 artigos e 16 livros sobre comunicação, cultura e direitos humanos.

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INTRODUÇÃO O presente livro é o fruto de cinco anos de pesquisa realizada no ISCTE e de debates com vários investigadores europeus e norte-americanos realizados no quadro do mestrado de Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação do Departamento de sociologia do ISCTE. Trata-se de um trabalho iniciado em 1999 e constantemente actualizado por via das diversas investigações realizadas sobre a Internet e as novas tecnologias de informação na sociedade portuguesa e no mundo. Com o objectivo de enquadrar o leitor desta obra valerá a pena sintetizar algumas das conclusões dos estudos realizados no ISCTE numa perspectiva mais vasta – a das sociedades de informação- e também justificar a organização escolhida para apresentar as contribuições dos diversos autores. O projecto que lançou esta equipa na reflexão sobre o utilizar das tecnologias de informação denominava-se Ciberfaces: A Sociedade de Informação em Análise Internet, Interfaces do Social inserido no âmbito dos projectos de investigação científica e tecnológica, financiados pelo Programa PRAXIS XXI da Fundação para a Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência e da Tecnologia (FCT/MCT). O projecto desenvolvido teve por objectivo realizar um estudo sobre a Internet no domínio pt. O resultado da análise desses dados e dos debates que procurámos promover ao longo dos últimos anos encontra-se aqui apresentada. No entanto, este livro não é o lugar para a publicação extensa de quadros e dados, pelo que optámos por convidar o leitor a visitar o endereço http://ciberfaces.iscte.pt e por si próprio analisar os dados aí registados tendo por enquadramento à sua reflexão os textos presentes nas próximas páginas. Temos igualmente consciência que este livro é, nas suas partes constitutivas, algo diferenciado. Dada a vastidão das matérias em análise, houve necessidade de dividi-lo em quatro partes de algum modo autónomas. Preferenciámos o respeito pelo estilo peculiar de cada um dos autores e pela gramática discursiva própria a cada registo dos diferentes ângulos de abordagem disciplinar de um livro que tendo uma forte perspectiva sociológica, não pode deixar de ser, pela natureza do objecto em análise, interdisciplinar. Este livro visa assim contribuir para a constituição de uma base de conhecimento, científico e socialmente útil, que proporcione, em geral, a compreensão dos factores, processos e dinâmicas de mudança social e o apoio à decisão informada por parte dos

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agentes sociais com responsabilidades nos diversos domínios da vida colectiva na sociedade portuguesa. Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação No contexto de um rápido desenvolvimento e crescimento das Tecnologias de Informação e Comunicação e de uma globalização dos mercados, a consolidação da Sociedade da Informação aparece como factor estratégico para a constituição de novos modelos económicos e sociais. Assim, actualmente, a Informação assume uma importância central enquanto vector estruturante de um conjunto plural de domínios socioculturais, económicos e políticos. Portugal, que na última década tem vindo a assistir à constituição e organização de agentes, instituições e infra-estruturas ao nível da Sociedade da Informação, necessita de constituir uma base de informação que permita avançar no conhecimento do sector. A Internet como infra-estrutura mundial de informação e comunicação, assume um papel cada vez mais preponderante na redefinição das representações existentes acerca da Sociedade da Informação. Configura-se, portanto, como objecto de estudo prioritário no âmbito da investigação científica. O conhecimento sociológico desde há muito que evidenciou o lugar central da informação/comunicação, enquanto vectores estruturantes de um conjunto plural de domínios sócio-culturais, económicos e políticos. É inegável a centralidade de que se revestem as temáticas relacionadas com a informação e a comunicação nas sociedades contemporâneas. As infra-estruturas e o negócio da informação assumem cada vez mais importância no contexto da economia capitalista globalizada, sendo o volume e o fluxo de informação superior aos precedentes e desempenhando um papel estratégico a vários níveis da vida social. Multiplicam-se, nos mais diversos domínios científicos, as reflexões teóricas e os questionamentos sobre a emergência, e prováveis consequências, das redes globais de informação de que a Internet é a primeira expressão generalizada. Actualmente, os países da União Europeia apontam o sector da informação e telecomunicações como um sector estratégico que urge estudar, compreender e caracterizar, tal como se encontra expresso no Livro Branco para o “Emprego, Desenvolvimento e Competitividade”, no estudo elaborado pela Comissão Europeia que teve expressão no “Relatório Bangmann para a Sociedade da Informação” e ainda na concretização do Livro Verde “Para a Sociedade da Informação em Portugal” e nos

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dois projectos “e-europe” que têm acompanhado as políticas nacionais e europeias dos últimos anos. Num sector caracterizado por transformações aceleradas, onde os aspectos de natureza global se cruzam com as especificidades de cada país, urge desenvolver uma reflexão e orientações próprias. Neste contexto, também Portugal – que na última década tem assistido à constituição e organização de agentes, instituições e infraestruturas ao nível da Sociedade da Informação – necessita de definir e implementar políticas nestes sector estratégico da economia mundial. Espera-se, com este livro, sistematizar uma análise integrada de diferentes facetas do espaço mediático e comunicacional presente na Internet, produzindo um contributo e uma reflexão sobre os impactos e consequências da Internet nos processos de inovação e mudança social que desencadeia. O estudo do fenómeno Internet deve como tal permitir trazer à discussão as questões sociais, económicas, políticas e culturais que caracterizam a nossa actualidade. A emergência deste novo meio de comunicação e informação deve ser pensada como mais uma faceta da nova realidade, permitindo iluminar o questionamento em torno das grandes linhas estruturais que se mantêm da modernidade e as mudanças que as reconfiguram. A sua problematização, enquanto objecto de estudo insere-se no âmbito mais vasto da discussão em torno da constituição e da consolidação da Sociedade de Informação.

Internet, Interfaces do Social Quando há alguns anos iniciámos este projecto movia-nos uma particular determinação: contribuir para o estudo da «Sociedade da Informação» a partir do nosso lugar e do nosso espaço nessa sociedade. Ou seja: numa perspectiva sociológica e de observação específica à realidade nacional. A grande maioria dos estudos e investigações realizados sobre a «Sociedade da Informação» inscrevem-se em especial nas vertentes tecnológica e económica. Por outro lado, os discursos produzidos sobre a Internet, como grande axioma e supremo paradigma dessa dita sociedade, referem normalmente parâmetros internacionais da dimensão global do fenómeno. Daí o nosso propósito de partida era o de tentar colher elementos informativos que ajudassem a perceber que posição estava a ocupar Portugal na «Sociedade da Informação» e colocar essa informação ao dispor de quem, afinal, tem poder e competência para decidir o nosso futuro. A denominação «Sociedade da Informação» está muito generalizada, mas está longe de ter um entendimento comum. No sentido que lhe deu a Missão para a Sociedade

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da Informação, no seu Livro Verde1, refere-se «a um modo de desenvolvimento social e económico, em que a aquisição, armazenamento, processamento, valorização, transmissão, distribuição e disseminação de informação conducente à criação de conhecimento e à satisfação das necessidades dos cidadãos e das empresas, desempenham um papel central na actividade económica, na criação de riqueza, na definição da qualidade de vida dos cidadãos e das suas práticas culturais». A «Sociedade da Informação» cuja expressão é atribuída a sociólogos norteamericanos, entre os quais se destaca Daniel Bell, na sua análise ao pósindustrialismo2, vem na concepção de que, com as novas tecnologias da informação e comunicação, a informação passa a ser a fonte principal da produção de valor e consagra a primazia das actividades informacionais em relação às actividades do sector secundário e terciário. A «indústria pesada» é assim substituída pela informação e o valor-trabalho pelo valor-saber. Informação e conhecimento sobrepõem-se à força-do-trabalho e ao próprio capital. Informação e comunicação tornam-se componentes fixas de todas as formas de produção3. A «Sociedade da Informação» baseia o seu funcionamento e o seu desenvolvimento em três vectores principais: as tecnologias de informação, o complexo conglomerado do audiovisual e as telecomunicações. Todavia, em toda a configuração, realista ou imaginária, da «Sociedade da Informação» e o mundo globalizado e em globalização que ela preconcebe e preconiza, efectivamente, é a Internet, a sua estrutura emblemática4. A Internet é o paradigma duma sociedade em rede e o instrumento potenciador da sua concretização. 1

Por isso decidimos avançar para um projecto que nos ajudasse a percepcionar essa

plataforma estrutural da «Sociedade da Informação», no particular segmento da sociedade portuguesa, em especial, no que diz respeito aos actores sociais da comunidade nacional, nas utilizações que vão fazendo desse espaço e nos conteúdos com que o substancializam.

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1 Missão para a Sociedade de Informação, (1997), Livro Verde para a Sociedade de Informação em Portugal, Lisboa, MSI, pp.7. 2 BELL, Daniel, (1976), The Coming of Post-Industrial Society, New York, Basic. 3 PORAT, Marc, (1977) The Information Economy, Washington, United States Department of Commerce, citado in MIÉGE, Bernard, (2000), O Pensamento Comunicacional, Petrópolis, Vozes, pp. 113. 4 MIÉGE, Bernard, (2000), O Pensamento Comunicacional, Petrópolis, Vozes, pp. 112. CIBERFACES - A Sociedade de Informação em Análise: Internet, Interfaces do Social Apresentação

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O grande primeiro obstáculo às nossas pretensões é de teor metodológico e epistemológico. O nosso objecto de investigação contém uma contradição de raiz na sua concepção: Como delimitar um domínio (um território embora virtual) que se inscreve num espaço cuja característica essencial é ser universal? Porém, nesta antinomia residia a originalidade possível do projecto. Tentar abstrair do todo para ajudar a delimitar o espaço português, de como se vai formando o nosso território nesse espaço global «desterritorializado». A configuração em rede por suporte electrónico é apresentada como uma reinvenção da sociedade. Numa sociedade em rede electrónica não é a relação a um território, a um país, que define a condição e qualidade de cidadania. Mas para aceder e usufruir dessa sociedade em rede são indispensáveis infra-estruturas físicas, técnicas, tecnológicas, disponibilidade financeira por parte dos diferentes países. Por outro lado, por parte dos indivíduos para além dessas précondições, porventura garantidas por programas nacionais, são exigíveis algumas competências, predisposição psicológica, cultural, social para o acesso a essa «cidade virtual» e para a utilização, manuseamento, rendibilidade dessas ferramentas, aproveitamento e produtividade da «matéria -prima» que é a informação como via para o desenvolvimento. As diferentes abordagens teóricas, a reflectir por vezes outros tantos posicionamentos politicoideológicos, face à « Sociedade da Informação» são tendentes a acentuar, cumulativa ou separadamente, estes cinco vectores de análise : o tecnológico, o económico, o ocupacional, o espacial e o cultural.5 Ao acentuarem a importância do vector tecnológico a maior parte dos autores que o fazem, privilegiam de alguma maneira a tecnologia, a invenção tecnológica, como responsável de todas as transformações nas mais diversas actividades humanas, ao nível local, nacional e internacional. Imprimem assim à mudança social, no âmbito das nações ou do mundo, um valor determinístico ao vector tecnológico.6 A esta visão da tecnologia como factor determinístico, outros estudos neste domínio contrapõem o carácter de condicionamento, e não determinístico, que a tecnologia coloca ao desenvolvimento económico, cultural e social. A análise dos vectores económico e ocupacional salienta sobretudo as alterações que a «informação», como «nova mercadoria» veio introduzir em todo o sistema produtivo, alterando as formas das organizações, a dinâmica do emprego, os ritmos da produtividade, a criação de novos bens e serviços, estabelecendo profundas modificações na criação, acumulação e distribuição de riqueza.

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Efectivamente, um vector fundamental de análise à lógica de implementação e realização de uma «sociedade de informação», de um «mundo globalizado», é esta nova organização nacional da dimensão espacio-temporal do mundo. A libertação do espaço e do tempo, operada pelas novas infra-estruturas da informação e comunicação, ao tornarem «o mundo um lugar único» na expressão de R. Robertson, é um pré-requisito para a globalização.7 Esta vertente é igualmente importante enquanto eixo fundamental nas alterações das relações sociais e que merecem na obra de autores como Giddens análise específica. Enquanto para Giddens8 a globalização é consequência directa da modernização, para Robertson é a globalização que viabiliza a modernidade da sociedade.2 O vector cultural amplia-se entre uma análise que considera os factores causais e as consequências neste eixo de uma «sociedade em rede» ou «aldeia global», com a abordagem específica da confluência dos velhos e novos media na criação de uma sociedade global. A globalização é um processo multifactorial e multicausal que tem de ser analisado nos seus mais variados aspectos, e em particular na sua dimensão económica, política e cultural. E se, por um lado, como defende Wallerstein9, a economia mundial é cada vez mais a extensão do sistema mundial capitalista, dominada pelas grandes empresas transnacionais que se impõem ao próprio poder político, a industrialização da cultura, intrinsecamente associada aos velhos e novos media, é factor axial no processo da globalização e, por isso, merece atenção especial. O alongamento espacio-temporal é um pré-requisito para a globalização. Ou , por outras palavras, a compressão do espaço e do tempo é seguramente um dos efeitos mais conseguidos pelas tecnologias da informação. E se para este efeito contribuíram já de modo bastante incisivo os media tradicionais, a imprensa, a rádio, a televisão, é indubitável que esse novo media que é a Internet contribui decisivamente para fazer «do mundo um só local». A globalização da cultura e da informação é uma componente fundamental que está por detrás de todas as outras dimensões institucionais da globalização10 . E se para a formação do processo de globalização, convertido hoje em modelo da modernidade, é interessante verificar na análise dos mais diferentes autores (Mc

5 WEBSTER, Frank (1995), Theories of the Information Society, London and New York, Routledge. 6 ROSENAU , J., (1990), The Study of Global Interdependence, New York, Nichols, citado in WATERS, Malcolm, (1999), Globalização, Oeiras, Celta, pp.28. 7 ROBERTSON, R., (1992), Globalization, London, Sage, pp.8. 8 GIDDENS, Anthony, (1990), As Consequências da Modernidade, Oeiras, Celta, pp. 64. 2

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Luhan, Giddens, Harvey, Roseneau, Robertson, e outros), o contributo que para isso tiveram, o aparecimento do relógio mecânico, a invenção do dinheiro e da electricidade, esse prolongamento do sistema nervoso central, e os rápidos meios de transporte11, é imprescindível estudar e investigar o influxo que a Internet veio trazer para a implosão de uma sociedade global, embora em tempos diferidos de várias globalizações. A Internet é, provavelmente, «o mais eficaz meio para realizar a compressão espaço- tempo »12. Tal como outros autores também defendemos que a globalização sempre foi uma meta preconizada através dos tempos e das civilizações, com momentos mais fortes e mais fracos. Contudo, só na contemporaneidade, recebeu uma enorme aceleração. Evidentemente que não é agora o lugar de considerarmos toda a complexidade deste processo, nem tão pouco questionarmos a dimensão ideológica que o próprio conceito de globalização comporta. Seja qual for a perspectiva de análise parece-nos que fica patente a oportunidade de investigar a Internet, como media e ferramenta decisiva para a compressão do espaço e do tempo, como infra-estrutura base que delimita a distância e condiciona a forma como as relações sociais decorrem. Voltamos talvez a Lévi- Strauss para quem estudar as civilizações é sempre estudar o seu sistema de trocas. Por isso, com propriedade, o já referido Malcolm Watters avança com este teorema: «as trocas materiais localizam, as trocas políticas internacionalizam e as trocas simbólicas globalizam». Com efeito, perante a Internet não estamos apenas diante de uma ilimitada tecnologia de acesso e fornecimento de informação. Estamos diante de uma tecnologia social onde milhares ou milhões de diversos actores e sujeitos sociais interagem, criando, portanto, dimensões novas de relação social e projectando até porventura novas formas de organização social. A análise desta dupla dimensão da Internet, como tecnologia de informação e como tecnologia social, enquanto de algum modo ordenadora de novos modos e formas de vivencialidade e convivialidade3, é complexa. Nem poderemos pretender abarcá-la neste programa de investigação. Ainda nem completámos a análise dos efeitos sociais ocasionados pelos media da primeira 3

9 WALLERSTEIN, I., "Culture as the Ideological Battleground of the modern World-System" citado FEATHERSTONE, Mike, (org.) Global Culture, (1990), London, Sage, pp. 31-56. 10 GIDDENS, Anthony, (1990), op. cit., pp.77. 11 McLUHAN, Marshall (1964), Understanding Media - The Extensions of Man, London, Routledge, pp. 358. 12 WATERS, Malcolm, (1999), op. cit., pp. 143. 13 POSTER, Mark (1995), The Second Media Age, Cambridge, Polity Press, pp. 31. 14 ROBERTSON, R., (1992), op. cit., pp. 22- 41.

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geração, por nós aqui identificados como media tradicionais, e já estamos confrontados com as mudanças operadas pelos media da segunda geração13. Como tecnologia social, talvez mais expressamente dito, como tecnologia de transformação social, a Internet é ainda uma realidade pouco conhecida. Nesta nossa investigação nem vamos avançar por aí. Limitamo-nos a ficar à porta ou talvez até no patamar da porta desse mundo ciberespacial de que a Internet é um uma parte, mas não o todo desse «admirável mundo novo». Queremos contribuir para perceber num perfil sociológico quem são geralmente os habitantes desse novo espaço, quem são os utilizadores desse novo media e que tipo de utilização dele fazem. Estamos perante um campo de conhecimento a que a sociologia não pode ficar alheia. Por outro lado, como acentua Robertson, sendo a globalização um fenómeno à escala mundial, não dispensa, antes «envolve a relativização de pontos de referência nacionais e individuais perante os de natureza geral ou supranacional». Isto exige uma análise com a interligação entre estes quatro elementos: indivíduo, sociedade nacional, sistema internacional e humanidade14. Achamos por isso pertinente discutir aqui as condições de acesso dos cidadãos que do território e da sociedade portuguesa entra nesse novo mundo que é a Internet e o que procura fazer ele nesse novo espaço.4 Da comunicação global à ètica da informação Este livro inicia-se com um capítulo dedicado aos desafios globais que a comunicação coloca hoje às nossas sociedades. Peppino Ortoleva no seu texto procura analisar o percurso da comunicação no século XX como a comunicação de massa se tornou num elemento central das nossas sociedades e vidas. O desenvolvimento técnico e organizativo dos instrumentos destinados à comunicação, isto é, à produção e troca de mensagens, é uma característica que atravessa todo o século XX, sendo, de alguma maneira, um dos aspectos que mais peculiar tornam este século no quadro global da história da humanidade. Ortoleva, procura assim lembrar que não podemos olhar as novas tecnologias de informação enquanto elementos separados do seu contexto de criação. Ou seja, a Internet e as novas gerações de telemóveis são fruto de um sistema dos media formado no século XX ao mesmo tempo que a sua difusão e apropriar pelos utilizadores está a criar um novo sistema dos media. Da compreensão

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entre essas relações passado/presente depende, na opionião de Ortoleva, muito do que serão as futuras sociedades da informação. Frank Webster no seu contributo “Desafios globais e respostas nacionais na Era da Informação”, questiona-se sobre

o que está a acontecer no mundo hoje,

particularmente no que diz respeito às sociedades mais avançadas e abundantes da Europa, da América do Norte e do Extremo Oriente? Quais são as principais linhas de desenvolvimento e que opções e constrangimentos representam estas tendências? Discutindo o quanto a informação é efectivamente central no que está a acontecer e como apesar de ser necessário olhar as perspectivas globais, a dimensão nacional ser aquela, que no seu entender, é a fundamental para perspectivar os modelos sociais que hoje começam a germinar. O primeiro capítulo termina com um texto dos organizadores deste livro intitulado “A Internet na construção de uma cidadania participada” procurando deste modo realçar que as novas tecnologias não podem apenas ser encaradas apenas enquanto propiciadoras de ganhos ou mudanças no quadro económico. No seu entender é fundamental olhar a sua apropriação social e cívica, enquanto factor necessário para a consolidação dos próprios modelos democráticos e da responsabilidade social e geracional. O segundo capítulo tenta apresentar algumas das diferentes faces da Internet e do modo como o surgimento desta tecnologia, sua difusão e apropriação social pode mudar as nossas vidas. Este capítulo inicia-se com a análise de David Lyon sobre “ a world wide web da vigilância e a Internet e os fluxos de poder”.Segundo Lyon a vigilância,

enquanto

compilação

electrónica

automática

de

dados

pessoais,

desenvolveu-se rapidamente na Internet e é provável que este processo se intensifique com a comercialização das comunicações mediadas por computador. Depois de enquadrar este fenómeno no contexto dos sistemas de vigilância já existentes,

Lyon

analisa

alguns

aspectos

da

vigilância

no

ciberespaço,

nomeadamente, a monitorização da utilização, o policiamento e segurança e o marketing, este último o mais generalizado e o menos perceptível para os sujeitos. «Cookies» e «spiders» estão entre as mais recentes inovações tecnológicas mencionadas, a considerar na relação aos seus objectivos sociais. Brian Loader por seu turno, introduz na análise dos usos da Internet a dimensão de “apoio Comunitário virtual” e política social e a emergência da ajuda social mediada por computador, discutindo as principais implicações da emergência e do aumento da

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utilização da Internet na análise da política social em Inglaterra. Loader procura assim esboçar um programa de pesquisa no domínio da política social, relacionado com esse aspecto particular do uso da Internet - a entreajuda e o apoio social online – que designa por apoio comunitário virtual. Mark Deuze finaliza este capítulo com a análise da apropriação da Internet no campo jornalístico. A Internet e particularmente o seu interface gráfico, a World Wide Web, é adoptada em todo o Mundo, com níveis de utilização cada vez mais elevados. Especificamente sobre o jornalismo praticado on-line – tanto na produção de notícias assistida por computador como num tipo específico de jornalismo, o jornalismo on-line - podemos agora identificar e teorizar os impactos que o sistema global de computadores em rede está a ter na prática jornalística. Este texto destaca quatro tipos específicos de jornalismo on-line, discutindo as características chave – hipertextualidade, interactividade, multimedialidade – que determinam o “valor acrescentado” destes tipos de jornalismo, e fornecem três estratégias específicas a que os jornalistas podem recorrer para desenvolver o potencial do jornalismo on-line: registo anotado de informação, jornalismo open source e hiper-adaptividade. O terceiro capítulo versa sobre complementaridade tecnológica e apropriação social. Embora a Internet surja como elemento central na apropriação social das novas tecnologias há igualmente velhas tecnologias que através da digitalização têm vindo desempenhar novos papéis. Neste capítulo discute-se a apropriação social das tecnologias e o seu possível papel transformador. O capítulo inicia-se com um texto de Giuseppe Richeri sobre a indústria discográfica e o desafio da rede procede a uma análise da indústria discográfica evidencia os factores que podem estar na origem do encontro entre um sector maduro da indústria de conteúdos e os vários serviços em rede, em particular, os associados à Internet. Fausto Colombo, por seu turno, procura através do exemplo italiano discutir modelos interpretativos para a utilização do telemóvel em Itália nos anos 90.Colombo aborda o tema da difusão do telemóvel em Itália como fenómeno não apenas tecnológico ou económico mas, de forma mais abrangente, social e cultural.A discussão articula-se em três secções: na primeira, através de uma incursão histórica, é descrito o desenvolvimento do telemóvel em Itália; na segunda, de forma muito sintética, é apresentada a sua difusão actual e as tendências do seu crescimento; na terceira, são descritos alguns modelos interpretativos do fenómeno, relaciona-os com alguns posicionamentos teóricos de relevo relativos ao desenvolvimento e à difusão das tecnologias.

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O capítulo III encerra com um texto de Manuel Castells sobre o papel da Internet na criação do que ele designa como “Sociedade em Rede”. Castells Analisa a sociedade em rede como uma sociedade cuja estrutura social está construída em torno de redes de informação a partir da tecnologia da informação microelectrónica. Mas olhando a Internet é para Castells não apenas um meio de comunicação ela é também o equivalente ao que foi a fábrica ou a grande empresa na Era industrial. A Internet é o centro de um novo paradigma sociotécnico que, na realidade, constitui a base material das nossas vidas e das nossas formas de relação, de trabalho e de comunicação. O último capítulo procura discutir a ética da informação tomando como exemplo um acontecimento – o 11 de Setembro – e a sua cobertura pelos media e análise dos pressupostos fundadores do conceito de sociedade de informação. Em “Porquê estudar os media?: 11 de Setembro e a ética da distancia.” Roger Silverstone interroga-se e discute qual o real papel dos media – especialmente os media electrónicos – nas nossas sociedades e a nossa dependência deles, quer seja por prazer e por informação, para conforto e segurança, ou num sentido de continuidades da experiência, e de vez em quando também para intensificar a experiência. O livro encerra com a contribuição de Cees J. Hamelink onde o autor questiona se podemos descrever adequadamente as sociedades com apenas uma variável abrangente e caso isso seja possível, poderá ser posto em causa se a informação é uma categoria mais precisa que o dinheiro, o crime ou a agressão. Hamelink considera que há indubitavelmente “desenvolvimentos informativos” nas sociedades modernas e através da interacção com outros desenvolvimentos sociais estes terão um impacto na forma como o futuro dessas sociedades se moldará de formas diferentes dependendo das diferentes circunstancias históricas. Mas Hamelink recorda que areferência a “sociedade” inspira boas e velhas questões sociológicas de poder, lucro e participação: quem beneficia, quem decide, quem participa e quem é responsável? Hamelink convida-nos assim a discutir quais os desafios morais das sociedades que hoje vivemos e estamos a construir.

José Manuel Paquete de Oliveira, Gustavo Cardoso e José Jorge Barreiros

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O século dos media A evolução da comunicação de massa no século XX ___________________________________________ Peppino Ortoleva

1. Um século de media O desenvolvimento técnico e organizativo dos instrumentos destinados à comunicação, isto é, à produção e troca de mensagens, é uma característica que atravessa todo o século XX, sendo, de alguma maneira, um dos aspectos que mais peculiar tornam este século no quadro global da história da humanidade. 1.1. Uma nova ideia De facto, ainda no final do século XIX, com excepção de poucos autores relativamente isolados como o sociólogo norte-americano Charles H. Cooley (Czitrom, 1982, Mattelart, 1994), a própria idéia de comunicação enquanto entidade autónoma e independente do conceito mais amplo de transporte, bem como a ideia de media enquanto algo distinto de outros instrumentos úteis à troca ou à deslocação, não fazia sequer parte do debate de idéias. De facto, o processo impressionante que levou, no espaço de poucos anos (os últimos dez anos do século passado), ao nascimento dos novos meios de comunicação que viriam a ter impacte sobre a cultura e sobre a vida de gerações inteiras - como o cinema e a rádio, a banda desenhada e o gramofone, a ligação telefónica e a linotype - não é visto por ninguém, na época, como um fenómeno de algum modo unitário ou passível de ser reunido num único conceito. Desde então, o desenvolvimento destes e de outros instrumentos de comunicação foi, se não linear (como veremos mais à frente), pelo menos de certo modo ininterrupto, sendo que a própria idéia de comunicação não só se impôs na sua especificidade e autonomia, como se afirmou como uma idéia central da vida social, até se tornar, no final do século XX, no próprio horizonte do desenvolvimento. Um recenseamento das novidades que se manifestaram no campo da comunicação no decorrer do século seria desnecessário e talvez vão. Bastará recordar que, no decurso de todo o século XX, os modos de gravar, transmitir e receber o som e a voz (que tinha sido impossível captar e enviar à distância até ao final de 1876-78, anos da invenção do telefone e do fonógrafo, respectivamente) multiplicaram-se por via química, magnética ou electrónica, dando vida ao gramofone e à rádio, à cassete e

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ao CD, ao telemóvel e ao sampling digital; as maneiras de gravar, transmitir e receber imagens em movimento (também estas impossíveis de captar até 1893-95, anos da invenção do cinescópio por Edison e do cinematógrafo de Lumiére), multiplicaram-se também por via química, electromecânica, electrónica, magnética ou óptica, começando por dar vida ao cinema mudo e a preto e branco, o qual se tornou depois sonoro e a cores, à televisão mecânica e à televisão electrónica por via hertziana, à gravação magnética em vídeo, primeiro profissional e depois de massa, à TV por cabo e, por fim, à fixação das imagens e à sua transferência através de suportes ópticos (Laservision, depois o CD - Rom e, hoje em dia, o DVD); os canais de transporte da informação também se diversificaram e multiplicaram, desde o cabo telefónico da primeira rede de Bell às ondas hertzianas, do satélite à fibra óptica. E muitas outras evoluções semelhantes poderiam ainda ser recordadas: das tecnologias de escrita e de circulação de textos às de produção e distribuição de imagens fixas. É certo que hoje a humanidade não somente dispõe de uma variedade de comunicações sem precedentes históricos, como também de uma possibilidade de escolha inédita entre meios aparentemente equivalentes (Pool, 1995) fruto de um desenvolvimento ao qual as sociedades mais industrializadas, sobretudo desde a explosão comunicacional no final do século XX, parecem ter-se habituado. 1.2. Uma dinâmica excepcional Acaba-se, deste modo, por esquecer como uma tal dinâmica de evolução é, na sua duração e intensidade, excepcional. Constitui uma excepção relativamente a outros períodos da história da humanidade, durante os quais a tecnologia de conservação e de transmissão de conhecimentos não conheceu um desenvolvimento similar, sendo, pelo contrário, um dos recursos mais estáveis, objecto de uma prudente e conservadora gestão (bastará pensar na história milenar da escrita no império chinês, Cardona, 1986). Excepção, por outro lado, no que respeita à dinâmica evolutiva que se pode encontrar, paralelamente, noutros sectores da vida social e do desenvolvimento tecnológico. Tentemos

confrontar,

por

exemplo,

a

evolução

das

tecnologias

da

comunicação no decurso do século XX, com a evolução das técnicas destinadas a uma actividade humana que lhe é próxima, o transporte, técnicas essas que, como recordámos, sempre tenderam a ser consideradas indistintamente das primeiras (Finardi, Tombola, 1994). Entre o segundo quartel do século XIX e a Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento dos meios de transporte foi tão rápido quanto o dos meios de comunicação: ao boom dos caminhos de ferro, nos oitocentistas anos 40,

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correspondeu o do telégrafo e a reorganização dos sistemas postais; no final do século XIX, a multiplicação dos novos instrumentos de comunicação que já recordamos, teve a sua correspondência em duas novas e revolucionárias invenções, o automóvel e o aeroplano; nos já anos 30 deste século, enquanto no campo das comunicações surgia uma série de novos media – como o cinema sonoro e a televisão -, no dos transportes notava-se também uma efervescência de inovações com o aparecimento da aviação civil e a electrificação dos comboios, ou a emergência do motor aéreo de reacção e do helicóptero. Uma dinâmica que em tudo corresponde à imaginação dos nossos avós quando, no final do século XIX, imaginavam um novo século marcado pelas comunicações à distância e por transportes supervelozes. No entanto, depois da Segunda Guerra Mundial, o paralelismo entre as duas dinâmicas evolutivas deu lugar a uma clara diferença. Enquanto, como sabemos, a evolução dos media continuou intensa e conheceu, depois de 1975, um novo salto qualitativo, a dos transportes parece ter sofrido um verdadeiro entrave. Fora do âmbito estritamente militar, o quadro dos meios de transporte efectivamente utilizados não se modificou substancialmente depois de 1950, a não ser com a introdução progressiva dos motores de reacção na aeronáutica e, nos últimos anos, da alta velocidade nos comboios. A aplicação civil das invenções per si revolucionárias nascidas no âmbito militar (tais como a aviação supersónica, o hovercraft, o helicóptero ou o submarino nuclear) permaneceu estagnada, apesar das tentativas frequentemente dispendiosas e falhadas, o que uma vez mais demonstra que o motor da inovação tecnológica não é a tecnologia em si. Nem a procura, ainda que fortíssima, de meios de transporte rápidos e eficazes, nem as expectativas sociais difusas que, durante largas décadas, imaginaram uma modernidade aeronáutica mais televisiva e espacial do que informática, foram suficientes para imprimir ao desenvolvimento no campo dos transportes um ritmo comparável ao que sucedeu no âmbito dos media. Ao historiador e estudioso da sociedade, a observação de uma semelhante dinâmica evolutiva deveria colocar mais do que uma interrogação. 1.3.Duas interrogações Neste breve ensaio, abordaremos mais substancialmente duas interrogações: a)

Que tipos de procura social e de processos levaram a que os

processos e as técnicas de comunicação fossem privilegiados, ao convocarse para estes, largos recursos em detrimento de outros sectores económicos

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e tecnológicos, por forma a sustentar a intensidade de desenvolvimento de que demos conta no início? b)

Como se configurou este desenvolvimento no tempo? Podemos

descrevê-lo como um único processo linear de crescimento ou devemos identificar uma dinâmica mais complexa? 2. Motivos de crescimento Antes de mais, tentemos destacar os motivos pelos quais o desenvolvimento dos media atravessou de modo tão acelerado todo o século XX. 2.1. A comunicação e o sistema Uma das teses mais sugestivas sobre as origens e o desenvolvimento da chamada sociedade de informação foi enunciada por um investigador norteamericano, James R. Beniger (Beniger, 1996). Sintetizando o seu trabalho, profundo e complexo, podemos dizer que, segundo Beniger, a partir da segunda metade do século XIX a necessidade de instrumentos de comunicação potentes e fiáveis aumentou em função directa da complexidade crescente das actividades produtivas e das interdependências sociais. À medida que a sociedade moderna se configura em sistema e confia em organizações de tipo sistémico, impõe-se a necessidade de instrumentos que liguem entre si, em tempo real ou o mais rápido possível, os diferentes pontos do próprio sistema. Por outro lado, à medida que crescem as possibilidades de inter-relação, os sistemas alargam-se e instalam-se em todos os aspectos da vida social. Assim, o desenvolvimento dos sistemas de redes de transporte, em primeiro lugar os comboios, teve como pressuposto, e não só nos Estados Unidos, o desenvolvimento do telégrafo e dos sistemas horários unificados nacionais e depois globais, o que também os estimulou para a preservação da eficiência e da segurança da própria rede. Em seguida, o desenvolvimento da publicidade foi tornado necessário e possível através do desenvolvimento de um outro sistema, o da grande distribuição. Paralelamente, o desenvolvimento dos grandes aparelhos produtivos e burocráticos (e militares) determinou a confiança em aparelhos técnicos de crescente difusão e fiabilidade, desde a afirmação da dactilografia até aos cartões perfurados e, por fim, à informatização. Em resumo, as técnicas de comunicação, segundo Beniger (que retoma as antigas teses cibernéticas, a começar por Norbert Wiener), são

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instrumentos defensivos e de adaptação da sociedade que, em conexão com esta, se vão tornando cada vez mais semelhantes a organismos vivos. Não é necessário seguir em todos os aspectos as teses de Beniger para nos darmos conta que estas contêm, pelo menos, dois importantes elementos de verdade. Por um lado, sublinham a natureza prolongada do processo de desenvolvimento de que falámos, identificando as suas raízes oitocentistas. Por outro, evidenciam a relação existente entre o desenvolvimento da comunicação e o crescimento das redes. Se a primeira revolução industrial havia colocado as máquinas no centro da actividade produtiva, em substituição dos utensílios próprios à tradição artesanal, a partir da segunda revolução industrial, isto é, desde os últimos anos do século XX, tanto o aparelho produtivo como a vida social dos países industrializados e, posteriormente, o planeta no seu conjunto, caracterizaram-se precisamente pela presença de redes ou, como alguns estudiosos preferem dizer, de “grandes sistemas técnicos” (Hughes – Mayntz, 1988, Grãs, 1998), desde a electricidade ao telefone, até à rede de transporte aéreo, também imaterial. O desenvolvimento destes sistemas contém entre os seus pressupostos essenciais, a aplicação de tecnologias da comunicação eficientes e fiáveis: se, como já tinha notado Beniger, o comboio teria podido existir sem o telégrafo, já uma rede ferroviária segura não podia; o crescimento dos transportes aéreos, por sua vez (como muito bem demonstrou Alain Gras), dependeu bastante mais da evolução dos sistemas de comunicação através da rádio, do que da própria evolução dos motores aéreos. Por outras palavras, o desenvolvimento dos meios de comunicação, que no século XIX poderia ser considerado relativamente marginal no que diz respeito à dinâmica das tecnologias hard de produção, durante o século XX instalou-se no centro do desenvolvimento técnico, para se tornar, em finais do século, no seu protagonista absoluto. De tal modo que hoje, os grandes sistemas técnicos em rápida ascensão não são redes simplesmente suportadas e servidas por aparelhos de comunicação (como a rede eléctrica ou de transporte aéreo) são, pelo contrário, redes que encontram na comunicação a sua finalidade primária, desde o telefone à Internet. 2.2. A comunicação de mercado O crescimento e a diversificação dos media no decurso do século XX respondem igualmente a outras dinâmicas profundas que atravessaram este século. Em primeiro lugar, a imposição do mercado sobre outras instituições como forma organizativa dominante de toda a vida moderna. Entre todas as instituições

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económicas (Williamson, 1987), o mercado é o que mais depende da disponibilidade e da circulação contínua das informações. Assim facilmente se encontra um laço directo e bidireccional entre os desenvolvimentos da economia capitalista, no decurso do século XX, e as fases da história dos media (um tema ao qual regressaremos posteriormente). Se à segunda revolução industrial e ao nascimento da Big Industry correspondeu, em simultâneo, no fim do século XIX, o salto em frente das tecnologias da comunicação que se vislumbrou no início de oitocentos, nos anos imediatamente a seguir à crise de 1929, deu-se um novo desenvolvimento nos modelos dominantes de comunicação, o qual se fez acompanhar de uma nova geração de media, paralelo ao impulso para um mercado de consumo alargado e massificado. São os anos do broadcasting radiofónico e da experimentação da televisão, do relato de futebol, do cinema sonoro e a cores, que depois (nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial) seriam testemunhas impulsionadoras do neocapitalismo até à crise dos primeiros anos 70. Posteriormente, como uma coincidência não casual, os anos da crise petrolífera viram a emergência inicialmente tímida e depois mais decisiva, de um sistema de comunicação diferente, fundado sobre a informática e sobre a nova centralidade das redes de telecomunicações, as quais, mais do que simples portadoras de voz, se tornaram num veículo versátil e universal; esta nova fase das tecnologias de comunicação, na qual o mundo capitalista estava ainda imerso no final do século, acompanhou e sustentou uma ulterior transformação dos mercados capitalistas, centrada na globalização e na desregulamentação. No caso desta brevíssima síntese ser verdadeira, poder-se-á dizer que a dinâmica cíclica do capitalismo e do desenvolvimento das comunicações, encadeadas desde a primeira revolução industrial, tornaram-se mais tarde interdependentes, no decurso do século XX. Neste sentido, toda a história económica do século pode ser lida sob o signo da economia da informação, sendo os acontecimentos desta sua actual fase representativos tanto da sua coroação quanto da sua evidência. 2.3. A comunicação e a guerra Seria bastante redutor atribuir o desenvolvimento da comunicação durante o século XX apenas à dinâmica da evolução técnica e aos ciclos económicos. Existe ainda um elo, e de relevo notável, entre a história dos conflitos que assinalaram uma boa parte dos acontecimentos do século e a história dos media (De Landa, 1991). Teve início com a Grande Guerra, na alvorada do que foi definido como “século breve” (Hobsbawm, 1995). O conflito, a primeira guerra europeia com características

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globais, devido à nova relevância reconhecida intrinsecamente pelas duas facções, fez dos grandes aparelhos de propaganda um instrumento essencial de mobilização. Tal comportou não apenas um investimento maciço que terá produzido efeitos prolongados tanto no cinema como na imprensa e nos géneros “menores”, como os cartazes, mas também uma experimentação tecnológica intensa: bastará recordar que, se antes da primeira grande guerra a telefonia ou radiofonia se encontrava pouco além da fase laboratorial, os últimos anos do conflito e nos anos imediatamente posteriores (depois do intenso desenvolvimento da radiofonia como instrumento de comunicação entre as tropas e os peritos de navegação) terão dado vida a um novo meio de comunicação de massa, a rádio tal como a conhecemos. Da mesma forma, o final dos anos trinta e a Segunda Guerra Mundial assinalaram um novo desenvolvimento das tecnologias aplicadas à propaganda em todos os principais países beligerantes e, em conjunto, prepararam o boom de um sector, o sector da electrónica, que antes da guerra quase não existia e que seguidamente estaria na base da maior sucess story do desenvolvimento dos media, a afirmação da TV. Em resumo, na primeira metade do século, pode defender-se que a comunicação tenha sido a continuação (ou preparação) da guerra em conjunto com outros meios, o que explica os grandes investimentos dos aparelhos militares no sector. Na segunda metade do século, o quadro mudou. No inicio, nos anos 50 e 60, os modernos media apresentaram-se, pelo menos nos países dominados pela estabilidade do terror, como armas alternativas, surgindo como verdadeiros substitutos de um conflito militar tornado impossível, o que comportou a necessidade do desenvolvimento de técnicas de propaganda e desinformação por parte de ambos os “blocos”; não esquecer que foi exactamente nestes anos que o temor perante uma possível desarticulação dos aparelhos de comunicação por parte do inimigo, empurrou o governo norte-americano para o financiamento do que parecia ser uma rede puramente defensiva, a Internet. Depois dos anos setenta, e em consequência das lições aprendidas pelos Estados Unidos na Guerra do Vietname, os instrumentos de comunicação deixaram de ser armas alternativas para se tornarem um verdadeiro teatro de guerra, o próprio terreno do conflito. A Guerra do Golfo, no início dos anos 90, veio demonstrá-lo. Tal comportou investimentos posteriores, em particular nas tecnologias de espionagem e nas comunicações por satélite: investimentos que, presentemente, no final do século, estão a dar frutos também fora do campo estritamente militar. O que se destaca nestes acontecimentos é que, no campo dos media (ao contrário de outros sectores, como o dos transportes, do qual já falámos), a circulação

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entre

utilizações

civis

e

utilizações

militares

permaneceu,

no

Ocidente,

substancialmente fluida e contínua durante todo o século. Pode dizer-se que se tratou do sector no qual mais coerente e sistematicamente as forças armadas alimentaram a vida económica e social no seu conjunto; esta foi uma das mais relevantes diferenças entre os países do ocidente e os a leste da “cortina de ferro”, onde a apropriação civil das conquistas tecnológicas conseguidas pelos militares no campo das comunicações foi muito mais circunscrita e tardia. 2.4. Da energia à informação Até aqui foram descritos, por um lado, alguns processos explicativos do desenvolvimento em grande medida ininterrupto das tecnologias da comunicação no decorrer do século e, por outro, o seu carácter apesar de tudo não linear. Neste momento, é justo recordar pelo menos uma forte descontinuidade que assinala o século a partir dos anos 70: o facto de a informação parecer ter substituído a energia enquanto fluido que transporta a vida económica do Ocidente (e depois do planeta, quase integralmente sujeito às regras de mercado), bem como a disponibilidade de técnicas eficientes e económicas de circulação da comunicação parecer ter substituído a energia do mercado enquanto motor do capitalismo. É esta substituição ou, poderemos talvez dizer (recorrendo a um termo retirado da história da ciência), esta “mudança de paradigma”, que deu ao conceito de economia da informação um novo alcance. De facto, quando se fala de economia de informação no final do século XX, entende-se não apenas uma economia na qual a livre circulação de notícias é precondição do mercado (uma definição do género poderia aplicar-se, como se viu, a todo o capitalismo do século XX e talvez do período anterior), mas uma economia na qual o sector que produz e faz circular as comunicações assume também uma função de motor em relação à indústria hard que tradicionalmente dominava o mercado. Pode dizer-se que existe uma verdadeira circularidade entre a afirmação da economia da informação e a aceleração do desenvolvimento dos media. De facto, a economia da informação, assente na credibilidade e relativa economia do bem informação, não teria sido possível sem um claro avanço das técnicas de comunicação; por outro lado, uma vez que o seu desenvolvimento coincide, como se viu, com a crescente autonomização e prosperidade da comunicação enquanto sector económico, esta comporta um crescimento dos investimentos neste tipo de instrumentos e, portanto, a proliferação de novidades. Podemos assim compreender como foi produzido o que aconteceu no final dos anos 90: um desenvolvimento das tecnologias de comunicação

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e dos sectores económicos que lhes são afins, durante muitos anos bastante mais impelido pela oferta do que pela procura. Depois de um século de media, assistimos posteriormente à aceleração do desenvolvimento e da multiplicação dos próprios média; aceleração que, no entanto, evidencia algo que no decurso do século havia permanecido relativamente pouco visível, ou seja, o carácter, em muitos aspectos paradoxal, da economia da informação. Esta é dominada por um bem, a comunicação, a qual, devido à sua natureza, tenderá a ser encarado como um recurso público, mais do que como um verdadeiro bem, escasso por natureza; assim, para poder existir, necessita de instrumentos de controlo político e jurídico (em primeiro lugar os direitos de propriedade intelectual) o que, noutros aspectos, parece colidir com a exigência de plena liberdade de circulação da informação. Deste modo, podemos facilmente dar-nos conta que, em ambos os aspectos, o crescimento impetuoso da economia da informação e a sua contradição interna estão entre os mais importantes e difíceis legados do século XX para o novo século. 3. A comunicação de massa Até ao momento, falou-se dos media e das tecnologias da comunicação em termos gerais. No entanto, na realidade, a dinâmica sobre a qual nos interrogamos não tocou da mesma maneira todos os tipos de comunicação existentes, tornando-se necessário introduzir algumas distinções conceptuais e históricas básicas. 3.1. Três modelos de comunicação No âmbito global das actividades de comunicação da humanidade são geralmente identificados três modelos principais. Trata-se de uma conceptualização relativamente intuitiva que, no entanto, se presta a interpretações fortemente conotadas com um sentido ideológico. O primeiro modelo de comunicação, provavelmente o mais antigo, é a comunicação dita “interpessoal”, que comporta uma troca bidireccional de mensagens entre duas pessoas ou entre várias pessoas dentro de um grupo. Um segundo modelo, também este antiquíssimo, é o da comunicação “de um para muitos”, na qual um único individuo dirige uma única mensagem a um grupo delimitado de pessoas: é a típica situação do discurso público (que pode decorrer num espaço fechado, no qual as dimensões do público são limitadas pelo espaço, ou num espaço ao ar livre, onde são limitadas pela potência da voz) ou, também, do ensino. A comunicação “de um

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para muitos” não é bidireccional, como acontece com a comunicação interpessoal, ou melhor, não é simétrica, uma vez que impõe diferenças precisas de papéis (como acontece no ensino) ou exige, pelo menos, a instituição de turnos de palavra rigorosos (um tema central da história da democracia). Um terceiro modelo, mais recente, é o da chamada comunicação de massa, no qual, graças à utilização de tecnologias específicas, uma única mensagem atinge uma “massa” de pessoas, ou seja, um público não delimitado a priori e que se supõe ser de grandes dimensões. Até aqui detivemo-nos num registo estritamente descritivo e, até onde é possível, neutro. Acrescente-se, por outro lado, que a cada um dos termos mencionados também podem estar associadas conotações de valor, por quanto a bidireccionalidade dos meios interpessoais pode ser interpretada como um sinal de “abertura” presumidamente maior, de “interactividade” ou mesmo de “liberalismo” (Horkheimer, Adorno, 1966), enquanto a unidirecionalidade dos meios de massa pode ser definida como “passiva”, “nivelante” no plano cultural, ou até, quando se trata do plano político, “totalitária”. É um tema ao qual regressaremos, mas somente depois de ter clarificado melhor as implicações técnico-organizativas dos vários modelos de comunicação. 3.2. Modelos de comunicação e dinâmicas tecnológicas A comunicação de massa, como se disse, não é literalmente possível sem a utilização de instrumentos técnicos próprios. A voz humana tem limitações tais que (não obstante a tradição retórica ter estimulado os oradores a potenciarem os seus aparelhos vocais) o público alcançado por apenas uma pessoa através de meios naturais permaneceu sempre limitado a, no máximo, poucas centenas de indivíduos; a escrita manual, mesmo quando bem organizada como acontecia nos sistemas “editoriais” da idade clássica (Cavallo, Chartier, 1995) e depois nos stationarii do período baixo da idade medieval (Illich, 1994), também dificilmente pode produzir cópias suficientes para alimentar um público “de massa”, no sentido acima definido. O primeiro mass media, em todos os sentidos, acaba por ser a primeira máquina de produção em série (McLuhan, 1967), a imprensa de Gutenberg (Eisenstein, 1989). No decurso do século XX, ou melhor, a partir da última década do século anterior, a lógica que Gutenberg havia aplicado aos textos e que tinha dado vida ao livro impresso e ao jornal, foi, por um lado, aperfeiçoada e, por outro, aplicada também a diferentes formas de comunicação, desde a ilustração (incluindo a banda desenhada) à fotografia, do cinema (se não fosse possível imprimir as películas, o

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cinema poderia ser um espectáculo colectivo, mas não um meio de comunicação de massa em sentido pleno) ao disco: foi exactamente a “capacidade de registo” dos discos (Flichy, 1982) que assegurou a afirmação do gramofone de Emil Berliner contra o mais antigo fonógrafo de Thomas A Edison. E, ainda hoje, é a extraordinária capacidade das economias de escala inerente à imprensa que continua a sustentar a difusão de massa de media relativamente novos: das videocassetes domésticas ao Cd-Rom (onde o r.o.m., read only memory, está de facto “pré-gravado”). Por outro lado, sempre no decurso do século XX, como veremos melhor daqui a pouco, afirmouse também um modelo alternativo de comunicação de massa, ainda mais dependente do desenvolvimento técnico: a difusão circular, em inglês broadcasting, a qual faz chegar em simultâneo a um número indefinido de utilizadores uma mesma mensagem, quer em presença (a ampliação eléctrica da voz permite a um orador atingir públicos de muitos milhares de pessoas, mesmo em espaços abertos) , quer em ausência, como acontece com a rádio e com a televisão. Ainda no campo da comunicação interpessoal, o desenvolvimento técnico introduziu no decorrer do século XX importantes novidades: antes de mais, a transformação, entre 1878 e o final do século passado, do telefone enquanto intermediário entre dois pontos, numa verdadeira “rede conectada”, isto é, capaz de, a partir de um único aparelho chegar a uma pluralidade de possíveis destinatários; isto sucedeu depois do desenvolvimento de linhas mais céleres e versáteis do que as telegráficas, tais como o telex (que permaneceu, por outro lado, sempre confinado à chamada “utilização de negócios”), seguido do desenvolvimento em massa do fax e, por fim, da transformação do computador pessoal em terminal de comunicação, com a rede Internet. Qualquer uma destas inovações assinalou um passo em direcção a uma comunicação interpessoal capaz de integrar voz e texto, imagens e dados, ainda que um sonho que parecia muito próximo da sua concretização já no final de do século XIX, o vídeo-telefone de grande difusão, esteja ainda longe de ser uma realidade (Ortoleva, 1999). Aos mass media juntaram-se, assim, os denominados media pessoais; muito menos penetrante foi o desenvolvimento tecnológico na terceira área da comunicação, a mais nevrálgica, todavia, em muitos aspectos da comunicação “de um para muitos”. Neste campo, de facto, deram-se inovações relativamente marginais e, sobretudo, sem capacidade de introduzir modificações profundas em termos de linguagem e de organização; nem a utilização do microfone, nem do quadro luminoso ou do slide show, modificaram de maneira relevante a comunicação educativa; a utilização da amplificação eléctrica no campo musical, pelo contrário, teve seguramente um efeito relevante, o de transformar os espectáculos originalmente concebidos como

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destinados a públicos limitados, em formas de entretenimento “de massa” no seu sentido

pleno,

análogos

em

planos

diversos

(não

excluindo

o

local

de

desenvolvimento) aos espectáculos realizados nos estádios. A diferente dinâmica tecnológica da comunicação “de um para muitos” relativamente à da comunicação de massa e interpessoal, está na base de vários fenómenos relevantes e, muitas vezes, pouco compreendidos: do persistente trabalho intensivo de alguns sectores de ocupação, a começar pela escola, à dificuldade para a comunicação educativa e, em parte, para a própria comunicação política em adaptarse à mudança nos estilos e nas linguagens. Na segunda metade do século, tanto a comunicação didáctica quanto a comunicação política terminaram, assim, com o oscilar entre a defesa dos modelos tradicionais pré-tecnológicos, muitas vezes de difícil acolhimento para os seus públicos de eleição, e a adopção pura e simples dos modos e dos módulos da comunicação dita de massa; salvo depois, quando com o desenvolvimento do computador e das telecomunicações se deixou tentar por formas de interpessoalidade simuladas (“interactividade”). 3.3. Tipos de comunicação de massa: imprensa e difusão circular Para melhor compreender a dinâmica da comunicação de massa durante o século XX, será necessário aprofundar uma distinção em que, até ao momento, apenas tocámos: a distinção entre os media baseados na imprensa e os media baseados no broadcasting. Até ao início do século XX, este segundo tipo de media não existia; a única possibilidade de comunicação de massa, isto é, de chegar a muitas pessoas diferentes com a mesma mensagem, baseava-se na reprodução através da cópia, o que implicava dois corolários inevitáveis: um hiato temporal entre o momento da emissão e o da recepção e um aparelho produtivo do tipo industrial. O broadcasting, por sua vez, já permite a difusão alargada sem passar pela reprodução, na medida em que a mensagem não é adquirida através de uma cópia, mas captada a partir dos muitos terminais que, no momento, estão ligados e em condições de a receber. Os corolários deste modelo são igualmente relevantes: no plano temporal, é possível pela primeira vez o directo para as massas, isto é, a possibilidade de criar, para um vasto território, a experiência simultânea de captar uma mesma mensagem; no plano espacial, temos, pela primeira vez, media capazes de chegar ao espaço doméstico, sem filtros e mediações posteriores (Meyrowitz, 1992). A terceira novidade é cultural: o broadcasting não oferece um texto nem uma simples sucessão de textos, como acontece não só com o livro mas também com o cinema e os jornais; oferece uma

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programação, que faz acompanhar sistematicamente com mensagens calibradas o ritmo da existência. A mensagem radiofónica e televisiva, ao contrário do livro e do filme, não tem princípio nem fim, está ali e ali continua independentemente do facto de querermos “sintonizar”. Trata-se de um fluxo (Williams, 1982), uma forma de organização do discurso que parece uma via intermédia entre a tradição ocidental do texto e a tradição mais antiga e transcultural da conversação. Desde o aparecimento da imprensa que não tinha surgido um modelo de organização da informação tão inovador como a difusão simultânea por via do broadcast; nem desde então surgiram outros, salvo (hipótese ainda a ser verificada) se a gestão informatizada das mensagens, o hipertexto, der vida a um tertium entre o conceito clássico de texto e o conceito de fluxo e de broadcasting característicos do século XX. Geralmente, tendemos a pensar que as origens do broadcasting são indissociáveis da invenção particular de Marconi. Na realidade, a difusão circular nasceu antes do telégrafo sem fios, com o telefone. A principal experiência de telegrafia circular tentada no mundo deu-se em Budapeste, em 1893, com o “Telefon Hirmondo”, o qual chegou a ter mais de 6.000 assinantes do seu serviço diário de notícias (sobretudo) e de variedades. Em 1910, um serviço semelhante, o Araldo Telefónico (tradução literal do nome húngaro) foi lançado em Roma e em 1914 já tinha ultrapassado os 1.300 assinantes. Simultaneidade, programação de fluxo com horários pré-definidos, capacidade de chegar aos ouvintes nas suas casas: as características que identificamos como sendo inerentes à difusão circular já estavam todas presentes. Em concreto, o broadcasting moderno nasce quando a invenção de Marconi, é caso para o dizer, se cruzou com a ideia, que já pairava no ar, de difusão circular. Durante um longo período, o princípio da difusão circular permaneceu relacionado, de forma estreita e biunívoca, com as tecnologias da comunicação via hertziana ou sem fios; no entanto, a partir dos anos 70, esta correspondência biunívoca foi decaindo, desenvolvendo-se, por um lado, a difusão circular via cabo (filodifusão, mais tarde Tv por cabo) e, por outro, o éter assumiu uma nova função, decisiva na comunicação interpessoal, com o telefone móvel ou “celular”. No século XX torna-se importante ter presente a coexistência de dois modelos diferentes de comunicação de massa, pois as suas implicações sociais e organizativas permanecem, pelo menos em parte, diferentes: a imprensa (sob todas as suas formas) distribui textos, isto é, mensagens organizadas e estáveis, o broadcasting organiza um fluxo que decorre paralelamente ao tempo de vida do seu público; a imprensa vive do mercado de produtos físicos (livros, discos, cassetes) entre os quais a mensagem é inserida; o broadcasting vive, sobretudo, de publicidade ou de assinantes. Este

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segundo modelo, ausente no início do século, chegou a dominar o universo dos media com o triunfo da Tv (dos anos 50 aos anos 80), enquanto no final do século, a afirmação das novas tecnologias em rede parece prever uma convergência entre os dois modelos e entre estes e formas de comunicação interpessoal. 3.4. As implicações sociais da comunicação de massa Já recordámos que nos debates culturais e políticos sobre os diversos tipos de comunicações que atravessaram o século XX, o conceito de “media de massa” assumiu, muitas vezes, não só um significado descritivo-analítico, que procurámos precisar nestas páginas, mas também uma conotação valorativa. Existe uma ampla corrente de pensamento (que coincide, pelo menos em parte, com os autores definidos por Eco, 1964, com a feliz expressão de “apocalípticos”) que faz corresponder a “massa” e, em alguma medida, o produto destes media aos processos de “massificação” ou de homogeneização cultural e de agregação social descritos por autores como Ortega e Gasset (Ortega, 1962). Nesta óptica, a comunicação de massa seria o órgão e o agente de um processo social que tornaria permanente a pertença do indivíduo a um estado de euforia, segundo a descrição dos “psicólogos das multidões” do final do século XIX, como Le Bon e Sighele, mesmo que fosse uma multidão atomizada ou “solitária” (Riesman, 1956); o carácter unidireccional desta forma de comunicação seria a expressão de um autoritarismo intrínseco também às sociedades que conservaram uma forma política democrática, e o aparecimento da televisão constituiria a concretização de uma tendência que já se tinha imposto, a partir dos anos 20, com o triunfo da rádio, do cinema e da banda desenhada. Ainda que, desde o final do século XIX, tenha sido objecto de críticas convincentes (e bastará pensar na análise de Gabriel Tarde, 1901, sobre os diferentes comportamentos das multidões e dos públicos), esta leitura das comunicações de massa influenciou profundamente a reflexão sobre este tema durante todo o século, ensombrando as interpretações também críticas e, se possível, ainda mais radicais, embora com diferentes abordagens, como a discussão conduzida por Walter Lippmann desde 1921 (Lippmann, 1963) sobre o conceito de opinião pública na época dos mass media. Por outro lado, parece ter encontrado um novo vigor no final do século, nas muitas obras dos apologistas da chamada “revolução digital”: um dos lugares comuns mais difundidos no início do novo milénio é, de facto, o que contrapõe a “passividade” do público dos media tradicionais, em particular a televisão, à

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presumida actividade dos utilizadores dos novos media, Cd Rom, Internet ou até jogo de vídeo. A estas interpretações opuseram-se, em particular nos anos quarenta e cinquenta, e depois novamente nos anos setenta e oitenta, leituras, que visam um redimensionamento do alcance efectivo das comunicações de massa e dos seus chamados “efeitos” (Wolf, 1992), sublinhando, em particular, como a massa dos utilizadores dos media é atravessada por uma fina rede de relações interpessoais que medeiam, condicionam e filtram a recepção das mensagens. Ainda diferente é a posição do canadiano Marshall McLuhan, que já nos anos sessenta individualizava uma clara descontinuidade entre os meios de comunicação de massa definidos por ele como “quentes” - imprensa e rádio, caracterizados por uma forte univocidade das mensagens e por uma recepção concentrada num mesmo sentido ou, no máximo, sobre o binómio vista/ouvido - e os meios “frios” - a começar pela televisão, que embora aparente características passificantes, na realidade exige uma considerável atenção do espectador no sentido de se apropriar da informação fragmentada e incompleta que lhes é fornecida. Segundo McLuhan, não se pode falar de um único modelo de sociedade correspondente a todos os mass media, mas de dois modelos bem distintos: o primeiro, o da imprensa, mais tarde o cinema e, em parte, a rádio, baseado numa clara divisão de papéis e numa ordem fortemente hierárquica; o segundo, o que se apresenta com a televisão e que se reforça com ulteriores formas de comunicação electrónica (informatização e automação), baseado num sistema de relações horizontais e fortemente interactivas. Em todas as três interpretações estabelecem-se correspondências precisas entre os modelos de comunicação e os modelos de sociedade: uma convicção que parece ter-se tornado numa espécie de senso comum da intelectualidade do século XX, para além das diferenças ideológicas, e que também se reencontra, mutatis mutandis, em muitas teorias do chamado pós-modernismo, que vários autores têm tentado fazer corresponder às inovações introduzidas no sistema dos media depois dos anos setenta (Vattimo, 1989, Landow, 1999). O que não é claro em nenhuma dessas interpretações é a natureza do laço que se estabelece entre media e sociedade, o qual se apresenta quer como uma relação de causa-efeito (os meios de comunicação de massa “criam” a sociedade de massa), quer como uma relação de significação (os meios de comunicação de massa “exprimem”, na sua estrutura como nos seus conteúdos, a natureza profunda da sociedade, sendo, num certo sentido, o emblema do Zeitgeist), ou ainda, como uma relação de complementaridade (a rede de relações sociais reelabora os conteúdos dos

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media e estes, por sua vez, reproduzem o sistema social) sem que, em geral, se sinta a necessidade de argumentar a fundo ou de explicar como se teria formado tal laço. Assim, a complexa e multidireccional dinâmica que liga, no desenvolvimento da comunicação, as tecnologias e as instituições, os hábitos sociais difusos e os esforços de criatividade individuais, é uniformizada no âmbito de uma relação pouco justificada de “correspondência”. Na linha de pensamento novecentista sobre os media, desvenda-se, talvez como uma matriz de debilidade, um déficit de história. Somente a reconstrução do modo como as diferentes formas de comunicação se têm afirmado no decurso do tempo (em primeiro lugar tecnicamente, depois em termos empresariais e, por fim, como hábitos sociais), no qual se têm vindo a entrecruzar entre si e a alimentar os acontecimentos, permitirá realmente avaliar a penetração social dos media e o seu potencial de transformação. Isto leva-nos à segunda interrogação inicial: como é que se configurou no tempo o desenvolvimento da comunicação de massa? Podemos descrevê-lo como um processo linear de crescimento ou deveremos distinguir uma dinâmica mais complexa? 4. A dinâmica dos media A historiografia da comunicação, que durante muito tempo permaneceu em falta ou restrita a media individuais (em particular ao cinema, interpretado essencilamente, ou mesmo de forma exclusiva, como uma forma de arte, sendo o jornalismo e a radiotelevisão desde há muito objecto de reconstruções na sua maioria político-institucionais), conheceu, nestes últimos anos, um desenvolvimento em vários países (Flichy, 1996, Ortoleva, 1995), o que veio colocar no centro os problemas, por um lado, da dialéctica inovação tecnológica/adopção social e desenvolvimentos culturais e, por outro, a periodização das comunicações no decorrer do século. Nas páginas que se seguem oferecemos um quadro esquemático dos primeiros resultados da investigação nesse campo. 4.1. Um desenvolvimento descontínuo Contrariamente a uma visão muito difundida que apresenta o crescimento da comunicação de massa em termos lineares - segundo a qual o século XX teria visto a afirmação progressiva dos media, cada vez mais potentes e capazes de superar as distâncias, dirigidos a públicos sempre mais vastos e geridos por empresas cada vez mais concentradas -, o desenvolvimento efectivo da comunicação caracteriza-se por

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fases diferentes: diversas “gerações” de media surgiram em cena com intervalos relativamente regulares, primeiro nos últimos dez anos do século XIX, depois em torno da crise de 1929 e, por fim, ainda, no período posterior a 1975. A dinâmica dos media durante o século XX deve ser interpretada em termos cíclicos, como uma sucessão de várias fases de inovação que atravessaram o quadro global dos media, entendidos como um sistema interdependente. O carácter cíclico do desenvolvimento dos media apresenta-se como um ponto de encontro entre processos de natureza económica (as etapas de inovação mais intensa parecem coincidir com os pontos de viragem dos chamados ciclos económicos de Kondratiev) e processos de ordem sócio-cultural. A história dos media novecentistas parece ser assinalada por momentos “explosivos” de inovação generalizada, intercalados com períodos mais longos de instalação, os quais correspondem ao tempo em que os novos modelos de comunicação se enraizam efectivamente no corpo social e a inovação tecnológica dá vida, para retomar a terminologia de Raymond Williams (Williams, 1982) a “formas culturais” plenamente estruturadas. Assim, o modelo de comunicação de massa baseado no broadcasting, que tomou forma nos anos 20 e 30 com o nascimento dos sistemas radiofónicos, só se afirmou plenamente (até prevalecer sobre as formas mais antigas da comunicação de massa) nos anos cinquenta e sessenta, os anos da afirmação definitiva da televisão. Em seguida, o computador pessoal, nascido no início dos anos 70 e protagonista de um primeiro boom na década seguinte, impôs-se como meio de comunicação para todos os efeitos e como protagonista central do novo sistema dos media apenas nos últimos anos deste século, com a afirmação da Internet, resultado de um processo não só e não tanto tecnológico quanto económico e institucional. Por outro lado, o processo de desenvolvimento dos media caracteriza-se por uma dinâmica evolutiva no sentido mais amplo do termo, isto é, altamente selectiva. Todas as fases de maior inovação foram caracterizadas pelo aparecimento de uma quantidade notável de tecnologias concorrentes, das quais apenas uma parte sobreviveu: como cinetoscópio de Edison, o videodisco laservision, as dispendiosas técnicas de fotografia a cores de Lumière, as muitas tentativas de cinematografia tridimensional e, mais recentemente, os vários modelos de gravador digital doméstico (o DAT, ainda utilizado mas apenas no campo profissional, a Cassete Digital Compacta, o DCC, o Minidisc). Uma das características da comunicação de massa relativamente a outras tecnologias mais ligadas à produção está no facto de o mercado e, portanto, dos comportamentos colectivos, pesarem efectivamente na selecção das tecnologias

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destinadas a afirmar-se: foi o mercado que decretou o sucesso do transistor e o insucesso da máquina fotográfica de disco, o triunfo da TV e o flop do cinerama, o sucesso do CD e o insucesso do mini-disc. A forte dependência da resposta do mercado fez da indústria (que produz) das tecnologias mediáticas um dos sectores de maior risco do capitalismo moderno, como demonstrou a evolução das suas empresas, mesmo as de grande dimensão. A tendência recente das empresas do sector para se fundirem em aglomerados de maiores dimensões nasce não apenas da convergência progressiva entre media antes separados, como se teoriza muitas vezes, mas também de uma vontade de diversificação dos campos de actividades e de redução dos riscos. 4.2. As etapas do desenvolvimento Com base nas considerações anteriores, torna-se possível subdividir o “século dos media” em três fases distintas, conhecendo cada uma delas momentos diferentes no seu seio. a) A primeira fase da comunicação de massa no século XX, ainda integralmente concentrada nas tecnologias da imprensa, tem início na última década do século XIX, com o aparecimento quase simultâneo de novos instrumentos de transmissão da voz (o telefone de Bell, em 1876, torna-se uma rede em sentido pleno com a comutação automática de Strowger, 1893), de conservação do som (o gramofone de Berliner, em 1893, impôs-se graças à capacidade de registo dos discos sobre o fonógrafo de Edison), de gravação de imagens (a Kodak, lançada por George Eastman em 1888, faz da fotografia, pela primeira vez, um divertimento de massas, enquanto o cinematógrafo de Lumière, em 1895, faz das imagens fotográficas em movimento a base de um novo tipo de espectáculo), de narração popular: também em 1895, uma outra forma de contar histórias através de imagens, a banda

desenhada,

surge

na

imprensa

diária

norte-americana,

para

rapidamente vir a afirmar-se como um género de entretenimento. Estes meios, que têm como característica comum o desenvolvimento de formas de comunicação diferentes da escrita serão, posteriormente, no período da Primeira Guerra Mundial, os protagonistas de um intenso processo de reorganização, conduzido em vários países pelos aparelhos do poder público. b) No decurso dos anos 20, com o desenvolvimento da radiodifusão (as primeiras transmissões regulares têm lugar nos EUA ainda durante a

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Guerra, no Reino Unido, e depois em outros países europeus já no período do pós-guerra), com a transformação do cinema (por um lado, com o cinema sonoro e, por outro, com a cor), com o nascimento da imprensa em rotogravura, afirma-se uma fase mais amadurecida da comunicação de massa, centrada na rápida circulação de sons e imagens para além de textos; uma fase que conhecerá, nos anos 30 e no segundo conflito mundial, um aproveitamento político-propagandístico, e que encontrará a sua afirmação mais autêntica e “apolítica” no segundo pós-guerra, com a afirmação da televisão. É a fase em que toda a indústria dos media encontra na publicidade e, portanto, na relação com um novo universo de consumos, o seu principal “motor”. É uma fase de “globalização” efectiva dos consumos culturais internacionais, que precede e prepara o processo de globalização económicosistémico do período seguinte. c) A terceira fase da comunicação de massa no século XX, ainda em curso, teve início nos anos da crise petrolífera, com a afirmação generalizada da informática, por um lado, e com a difusão de formas de fruição “personalizada” das imagens, por outro. Temos assim o conflito entre vários modelos de gravação e consumo doméstico do filme, sanado nos primeiros anos da década de 80, com a vitória dos vídeo-gravadores VHS; ao mesmo tempo, difunde-se a utilização de aparelhos de reprodução doméstica (para além dos vídeo-gravadores, os sistemas de gravação e reprodução de cassetes, e depois os “masterizadores” domésticos). Posteriormente, o encontro entre a informática e as telecomunicações conduz um processo de convergência entre formas de comunicação anteriormente distintas, processo que encontrará no desenvolvimento imprevisível e impetuoso da Internet a sua expressão máxima. Um dos traços mais característicos desta fase é a tendência para a desregulamentação, ou seja, a clara redução da intervenção reguladora dos aparelhos públicos no campo das comunicações, enquanto em muitos países se assiste a uma proliferação, seguindo o modelo anglosaxónico, de “autoridades” independentes com poderes de controlo.

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Desafios globais e respostas nacionais na era da informação _______________________________________________ Frank Webster Introdução Com frequência hoje em dia os comentadores afirmam – como um dado adquirido – que vivemos numa «Sociedade da Informação». Com maior ênfase, Manuel Castells (1996-1998) deu o título «Era da Informação» à sua maciça e influente trilogia. Se bem que seja fácil avaliar como, pelo menos em termos muito gerais, estes conceitos dão conta de uma certa realidade contemporânea, também devemos admitir a extrema dificuldade em definir com alguma precisão o que significa «Sociedade da Informação». Será um fenómeno económico, onde o que mais conta é o efectivo valor monetário da informação? Ou trata-se de uma questão de mudança ocupacional, em que um crescente número de pessoas trabalha em actividades informacionais como o ensino ou a pesquisa? Distinguir-se-à, com mais clareza, pela supremacia das tecnologias de informação e comunicação, tratando-se assim de uma questão tecnológica? Tem mais que ver com as relações espaciais, de tal modo que os «fluxos» de informação entre «redes» de pessoas e lugares constituem a variável crítica? Será uma questão cultural, em que o que importa é a explosão de símbolos e signos na televisão, na moda, no design, etc.? Ou será que a «sociedade de informação» se caracteriza por uma deslocação da «prática» para a «teoria» sendo, por conseguinte, uma sociedade onde modelos abstractos moldam o destino social? Cada uma destas concepções tem sido defendida por intelectuais sérios e ponderados – e, em resposta, cada uma delas tem sido contestada por pensadores igualmente sérios. Naturalmente, os pragmáticos insistirão que a «sociedade da informação» é um compósito de todos estes elementos. Talvez por isso se espere que apresentem análises, em vez de ficarem presos a debates sobre definições. Infelizmente o pragmatismo não tem ajudado muito, pelo que a questão deve continuar a ser explorada: tratando-se de «sociedade

da

um compósito, exactamente de que é composta a

informação»?

É

fundamentalmente

económica,

cultural

ou

ocupacional? Ou é a tecnologia que se afigura como o factor mais significativo na sua constituição? Perante estas questões, deparamo-nos com um paradoxo: embora possamos afirmar que vivemos numa «sociedade da informação», ficamos consideravelmente confusos quando se trata de definir com exactidão o conceito.

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Anteriormente escrevi bastante sobre a imprecisão do referido conceito (Webster, 1995). Não fiz isto para marcar pontos num jogo académico, mas para desafiar a presunção fácil de que esta «sociedade da informação» é algo distinto e por si mesmo novo na história da humanidade. Se não se consegue distinguir de modo preciso alguma coisa, torna-se difícil afirmar que se trata de algo novo. Colocar questões cépticas acerca do modo como certos analistas caracterizam a «sociedade da informação» é também uma forma de conter o excessivo entusiasmo de alguns no anúncio da chegada de um tipo de sociedade novo e radicalmente diferente. Na verdade, a minha opinião é que as continuidades na sociedade actual são pelo menos tão significativas como as novidades. Há bastante mais informação a circular actualmente e isto desempenha um papel sem precedentes nos assuntos quotidianos, mas forças bem conhecidas continuam a ditar a lei mesmo no domínio imensamente expandido da informação. A presença destas forças estabelecidas deve suscitar dúvidas acerca da credibilidade do argumento segundo o qual a «era da informação» é algo marcadamente novo. Existe mais informação a circular, contudo permanece sob o controlo de forças há muito estabelecidas. Assim, há bons motivos para duvidar das pretensões de que estamos a entrar numa nova era. Mais informação por si só não produz uma «sociedade da informação». Nesta perspectiva, o raciocínio céptico pode levar-nos a resistir à adopção do argumento de que vivemos actualmente numa «era da informação», e, sobretudo, pode levar-nos a duvidar do seu corolário, de que a adaptação a esta nova situação seja uma necessidade. Neste capítulo, irei pôr de lado as questões conceptuais, de forma a poder concentrar-me em aspectos mais importantes. Digo, «pôr de lado», porque os argutos leitores poderão perceber que, mesmo na discussão mais substancial que se segue, as questões conceptuais estão, de facto, constantemente presentes. A minha maior preocupação é perguntar: o que está a acontecer no mundo hoje, particularmente no que diz respeito às sociedades mais avançadas e ricas da Europa, da América do Norte e do Extremo Oriente? Quais são as principais linhas de desenvolvimento e que opções e constrangimentos representam as tendências actuais? A abordagem destas questões, permitir-nos-á perceber que a informação é efectivamente central no que está a acontecer, embora na minha perspectiva falar de uma «sociedade da informação» pouco ou nada esclarece o que de facto está a acontecer.

Globalização

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O fenómeno da globalização e os desenvolvimentos que se lhe anunciam encabeçam qualquer lista de mudanças relevantes. A globalização refere-se aos processos crescentes e acelerantes de interpenetração e interdependência de relações à escala mundial, relações em que o tempo e o espaço são «comprimidos». As relações – industriais, financeiras, intelectuais – são conduzidas e encenadas globalmente e cada um de nós é influenciado por elas, quer se trate do que comemos em nossa casa, do modo como trabalhamos ou dos media que vemos e ouvimos. Claro que se trata de um processo tendencial e complexo e grande parte da vida permanece intensamente local, mas não há muito a argumentar contra a realidade da globalização. As suas raízes encontram-se num passado tão distante que remonta, pelo menos, ao século XVI e ao início da exploração colonial, quando as divisões espaciais do mundo começaram a ser ultrapassadas. As barreiras temporais foram as últimas a ser abolidas, mas hoje é efectivamente possível desempenhar actividades em «tempo real», por todo o mundo, e de forma mais ou menos imediata. A globalização não deve ser vista como uma força exclusivamente homogeneizadora. Um dos argumentos é o de que as grandes empresas, sobretudo americanas, impuseram ao mundo os seus modos de acção e entendimento, conduzindo a uma «americanização» da vida por todo o globo. Trata-se do conhecido tema da «Colonização Coca-cola». Na perspectiva oposta, outros analistas observam que a globalização é muito mais complicada do que um fluxo unívoco. Esses autores sugerem que a globalização acarreta hibridização cultural, uma miscelânea de culturas e movimentos massiços de povos, o que se torna evidente na variedade culinária disponível em qualquer grande cidade em todo o mundo, na combinação de moda étnica com estilos indígenas de diversas origens, na notável popularidade, por exemplo, da música reggae através do globo. Ignorar este pluralismo que acompanhou a globalização seria próprio de uma visão redutora. Mas não deixaria de ser naif sugerir que a globalização não reflecte os diferenciais de poder que, em grande parte, conduzem a uma considerável homogeneização. Se pensarmos, por exemplo, nas redes financeiras que agora atravessam o globo, devemos admitir que se ajustam, e expressam, o domínio das organizações ocidentais. Mais uma vez, a globalização do fabrico não conduziu a um hibridismo significativo – a parte de leão pertence a empresas de grande escala sedeadas na Europa, América do Norte e Japão. E embora seja verdade que a música expressa influências de muitos sítios, ninguém pode negar que são as práticas britânicas e americanas que representam a maior parte da música popular.

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O que quero salientar é que a globalização, sendo um fenómeno extraordinariamente complexo (Scott, 1997), em grande medida molda o mundo de forma a pô-lo em conformidade com as vias ocidentais. Ao dizer isto não pretendo sugerir que o alinhamento do mundo pelo Ocidente tenha trazido estabilidade. Pelo contrário, outra característica importante da globalização é o intensificar da competição, uma vez que áreas outrora separadas são impelidas a relacionarem-se entre si, e isto impulsiona o aprofundamento da incerteza (Soros, 1998; Greider, 1997) e uma aceleração da própria mudança, assim como permite muitas expressões de formas culturais híbridas (Lash e Urry, 1987). O que pretendo enfatizar é que a globalização expressa, acima de tudo, o triunfo do que podemos chamar «civilização comercial». Com isto quero sublinhar que o mundo, apesar da sua grande variedade, foi edificado sob um conjunto de princípios comuns que historicamente têm estado intimamente associados ao Ocidente (Robinson, 1996). Esses princípios incluem:



a capacidade de pagamento como sendo o principal critério

determinante do aprovisionamento de bens e serviços; •

o aprovisionamento realizado a partir de uma oferta mais privada do que

pública; •

os critérios do mercado, ou seja, o facto de haver lucro ou prejuízo,

como o principal factor de decisão do que deverá estar disponível; •

a concorrência – em oposição à regulação – entendida como o

mecanismo mais apropriado para organizar as relações económicas; •

a

mercantilização

das

actividades

como

norma,

isto

é,

os

relacionamentos entendidos como estando submetidos às avaliações de preço; •

a propriedade privada preferida face à propriedade estatal;



o trabalho assalariado como o principal mecanismo de organização das

actividades laborais. Estes princípios constituem idealizações do que acontece na prática, mas o que parece ser indiscutível é que nas últimas décadas se espalharam pelo mundo a um ritmo acelerado (de Benoist, 1996). Há razões complexas para isto, e ainda hoje restam bolsas de resistência à sua expansão, mas parece-me que nos últimos anos temos testemunhado uma intrusão massiva da «civilização comercial». Podemos realçar que se trata de um processo intensivo e extensivo. Intensivo na medida em que as práticas do mercado penetraram enormemente em áreas da vida íntima até agora relativamente imunes, até mesmo no

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Ocidente. Podemos pensar, por exemplo, na educação dos filhos (a abundância de brinquedos para diversão e a televisão para crianças), no aprovisionamento de alimentação diária (hoje em dia quase toda a gente depende do supermercado, enquanto não há muito tempo as famílias se auto-forneciam, pelo menos em grande parte, através de terrenos que permitiam o cultivo de vegetais e a criação de animais) e no declínio de trabalhos domésticos como a costura e os lavores em malha (cf. Seabrook, 1982). Inclusivamente podemos dar como exemplo a expansão da globalização, um processo que colonizou muitas áreas que anteriormente eram auto-suficientes. O âmbito que melhor evidencia isto, ainda que subestimado, é a eliminação do campesinato de quase todos os cantos do mundo. Este, de longe a maioria da população mundial ao longo do tempo, está agora à beira da destruição (Worsley, 1984). E a razão é clara: o campesinato é incompatível com a civilização de mercado. Os camponeses são largamente auto-suficientes, são cépticos relativamente à inovação tecnológica, resistem ao trabalho assalariado e afastam-se da organização de mercado. Assim sendo, os seus modos de vida têm vindo a ser debilitados pelo que Kevin Robins e eu próprio (1999) designamos «enclosure»5 da Terra pelas práticas comerciais, entendendo como tal a incorporação nas rotinas de âmbito comercial de actividades que anteriormente lhe eram exteriores. Para os leitores que ao ler isto sintam nostalgia pelos tempos que antecederam o triunfo do capitalismo, deixem-me sublinhar alguns aspectos. Em primeiro lugar, a penetração dos mecanismos de mercado não significa de modo algum que os consumidores estejam a passar dificuldades. Pelo contrário, para os que têm recursos, confiar nas lojas para a obtenção do próprio alimento é preferível à desoladora rotina de cozer o pão em casa e de ter de fazer durar roupa desajustada e fora de moda. Além disso, em comparação com as vidas da maior parte dos camponeses, no capitalismo até uma existência empobrecida permite um invejável nível de vida (ver, por exemplo, Figes, 1996). Em segundo lugar, o campesinato foi destruído por vários métodos. Certamente repressão e expropriação, mas provavelmente o que teve maior impacto foi o despoletar da sociedade de mercado, oferecendo mudança e oportunidades que o modo de vida camponês jamais conseguiria alcançar. Por último, ninguém deveria mencionar o sucesso do capitalismo sem reconhecer o desaire do seu principal rival, o comunismo. Desacreditado politicamente, o comunismo também falhou em aspectos económicos, tornando-se incapaz de acompanhar o dinamismo do Ocidente. Estas ressalvas devem ser feitas em relação a qualquer mágoa face ao

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Alusão ao processo histórico de vedação dos campos privados em Inglaterra (N. do T.).

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triunfo da civilização de mercado. No entanto, o que devemos aceitar é que o capitalismo venceu e o seu sucesso tem significado o encerramento («enclosure») do mundo nas suas cercas, nos seus modos de organização. Gostaria também de enfatizar que este sucesso – do que foi apropriadamente designado «consenso neo-liberal», para sublinhar a forma como constitui o princípio fundamental de todos os actuais governos pelo mundo fora – não representa qualquer regresso a uma anterior era capitalista. Pelo menos, a globalização assegurou que não voltaremos aos tempos do laissez-faire. Grande parte da civilização de mercado é familiar, e seria reconhecida pelos partidários das livres trocas do século XIX, mas inegavelmente há agora novas circunstâncias. Entre estas destaca-se a presença de grupos empresariais de alcance global envolvidos em intensas competições com os seus rivais, de que apenas se excluem as franjas de actividade dos empresários de pequena dimensão. O capitalismo de hoje está dominado por enormes grupos económicos – tais como a General Motors, Shell, Matsushita e Siemens – com investigação de fôlego e orçamentos para o desenvolvimento (frequentemente ultrapassando um bilião de dólares por ano), com impacte internacional e campanhas de marketing mundiais (Dicken, 1992). Para além disso, o capitalismo global está ligado em tempo real através dos mercados financeiros mundiais – mercados que comercializam mais de um trilião de dólares por dia – cujo dimensão e velocidade não tem precedentes e cujas consequências se tornaram evidentes nas convulsões massivas de economias nacionais como a da Rússia, da Malásia, do México e de Espanha nos anos 90. O capitalismo actual caracteriza-se por exercer em muitos aspectos da sua actividade um alcance global, tal como testemunham as tendências e as práticas do marketing mundial de produtos, as divisões internacionais do trabalho e a criação de marcas globais (Harvey, 1989). Contudo, enquanto tento realçar as novas características da era presente, parece-me essencial termos em conta que estas constituem a consolidação e a extensão de princípios há muito estabelecidos. A economia global dos nossos dias representa a expansão e o crescimento das formas de comportamento capitalista – atente-se na crescente utilização dos mecanismos do mercado, o fornecimento mais privado do que público, o lucro como a raison-d’être das organizações, o trabalho assalariado e o princípio da capacidade de pagamento como determinante para o fornecimento de bens e serviços. Em poucas palavras, a «sociedade global em rede» em que nos encontramos actualmente exprime a continuação – a transmutação, se preferirmos – dos princípios capitalistas há muito instituídos.

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Declínio das soberanias nacionais Entre as diversas consequências das tendências enunciadas, penso que uma se sobrepõe às restantes. Trata-se do relativo declínio da soberania económica das nações. De uma forma geral, os governos têm relativamente menos capacidade de controlo sobre as economias nacionais do que tinham anteriormente. Não quero com isto dizer que os governos sejam impotentes para exercer influência sobre o comportamento económico dentro das suas próprias fronteiras (cf. Held et al, 1999). Os governos mantêm ainda um poder considerável sobre as actividades económicas que decorrem nos seus territórios. No entanto, nesta era de fluxos financeiros electrónicos nas vinte e quatro horas do dia, quando os mercados mundiais de acções estão constantemente a comercializar em moeda estrangeira ao som de biliões de dólares, um estado nação deve sentir uma pressão crescente para manter a «confiança» destes mercados. Quando um país perde a confiança dos mercados financeiros mundiais, a sua força económica entra em colapso, como demonstraram os desinvestimentos do Extremo Oriente em 1998 e anteriormente muitas outras nações. Para além disso, na economia capitalista global, em que as empresas globais são os principais actores, é difícil delimitar claramente qualquer economia nacional. O que é que, por exemplo, constitui a economia britânica? Será que empresas como a Nissan ou a Rover – importantes empregadores no país – representam a economia britânica porque têm aí fábricas, embora os seus proprietários fundadores não sejam britânicos e os seus accionistas estejam por todo o mundo (e nestas bolsas comercializar é uma actividade incessante)? Podemos questionar algo semelhante relativamente à Nokia: parece ser na sua essência finlandesa, e é certamente importante para o emprego de muitos finlandeses, mas hoje os proprietários estão predominantemente no exterior do seu país de origem. Para além disso, muitas empresas por todo o mundo não só têm estruturas de propriedade diversas, como também são dificilmente identificáveis a uma nação em particular, porque muita da sua actividade é realizada no exterior da sua nação de origem. Efectivamente, empresas como a Sony, a Hitachi e a Mitsubishi anunciam que não pertencem a nenhum país, e – enquanto negócio global – oferecem lealdade a qualquer lugar ou lugares onde estejam a conduzir os seus negócios. Dito de forma simples, há actualmente importantes questões a colocar acerca da capacidade dos governos nacionais para controlarem as suas próprias economias devido às pressões para entrarem em conformidade com as práticas do mercado global, o que cria problemas na identificação dos proprietários das empresas e na pertença daquelas a um país em particular. Um dos resultados desta situação tem sido

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a aceitação geral por parte dos governos de que pouco podem fazer para planear a sua economia. Naturalmente que os governos conservadores acreditaram que o seu país prosperaria desde que deixassem a economia em paz, pelo que isto não se lhes afigurou como um desafio específico. Foram os governos socialistas que mais tiveram de mudar a sua actuação. A anterior tendência para as políticas colectivistas – nacionalização de sectores chave da indústria, por exemplo – foi sufocada nos anos 90 e eles tiveram que aceitar o «consenso neo-liberal» para evitar rápidas crises fiscais. Educação, educação, educação Mas se os governos não podem tocar na economia, o que é suposto fazerem os políticos? Uma política chave é dar prioridade à educação e isso compreende-se já que a maior parte das pessoas frequentam os sistemas de ensino das nações em que nascem. Os governos têm mais potencialidades nesse domínio, do que na economia. Ora, na economia de mercado global em roda livre em que nos encontramos, estimase (Reich, 1992) que cerca de 20% de todos os empregos disponíveis sejam para os que ocupam os níveis superiores do sistema educativo. O mais acérrimo defensor desta perspectiva, Robert Reich, designa-os «analistas simbólicos» – i.e., aqueles cujo trabalho envolve a negociação, comunicação, gestão e actividades afins – na economia mundial. Manuel Castells (1998), ao adoptar o mesmo raciocínio, identifíca isto como sendo «trabalho informacional», que estima corresponder a 30% dos empregos nos países da OCDE, aqueles que lubrificam as rodas desta «economia em rede» através da organização, concepção, comércio e inovação. Permitam-me enfatizar que o «trabalho informacional» engloba um grupo largamente diferenciado, incluindo desde realizadores de filmes, extremamente criativos, a profissionais de contabilidade, mas com duas características em comum. A primeira é a capacidade de adaptação contínua à mudança. O trabalho informacional está sempre alerta às

novidades

e a

novas

aprendizagens, actualizando

constantemente as suas capacidades – traços essenciais para prosperar na altamente competitiva economia global actual. Um refrão constante é a necessidade de «flexibilidade» e essa qualidade os analistas simbólicos têm-na em abundância. A segunda característica partilhada pelo trabalho informacional é uma contribuição crucial para a adaptabilidade – a educação a nível

superior, não tanto numa

competência específica, mas na capacidade de se «auto-programar» (ou, em linguagem popular nos círculos políticos britânicos, a capacidade de ter «aprendido a

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aprender», quer dizer, estar preparado para «aprender durante toda a vida»). A frequência de instituições de ensino superior cultiva as «competências transferíveis», capacidades requeridas por uma economia de mercado global profundamente dinâmica

tão

necessárias

aos

analistas

simbólicos.

Na

verdade,

qualquer

aprendizagem de nível superior dura, hoje em dia, mais de uma década – salvo no que diz respeito à capacidade de se reeducar a si próprio para enfrentar os desafios da mudança constante. O que é que isto significa para os governos nacionais? A resposta é que um governo que consiga dominar uma grande parte destes 20 a 30% de empregos de topo mundial pode considerar-se bem sucedido porque numerosos cidadãos seus desempenharão ocupações bem pagas e compensadoras. E o que os governos podem fazer para enfrentar o desafio da «era da informação» é incentivar uma educação ao mais alto nível, de modo que grande parte da sua população jovem possa emergir com as qualidades exigidas pela economia global. Foi precisamente esta a concepção desenvolvida por Robert Reich antes e durante a sua actuação como Secretário de Estado do trabalho na Administração Clinton (1992-1996). E porque o mesmo refrão encontra eco no Primeiro Ministro Tony Blair e na sua ambição de tornar Londres «a capital europeia do conhecimento» dando prioridade a «educação, educação, educação», o governo britânico trabalhista (New Labour) foi descrito como sendo «Reichiano» na sua concepção. Esta política significa que cada um deve resignar-se ao jogo das forças do mercado ao nível global e nacional colocando o enfoque político na produção do «capital humano» mais necessário neste sistema mundial. A propósito, as nações que não possuam a infraestrutura educacional necessária estarão condenadas a fornecer os trabalhadores sobre os quais agem os analistas simbólicos. Além disso, é provável que haja uma importante estratificação interna inclusive nos países ricos, uma vez que quem não tirar partido da melhor educação disponível, em nações tais como os EUA e a Inglaterra, corre o risco de sofrer bastante nesta era de capitalismo informacional. As velhas opções – trabalho semi-especializado, ou não, em fábricas e minas de carvão – estão cada vez menos disponíveis, e não só porque o trabalho informacional resultou na automatização e/ou produção no estrangeiro de muitas actividades. Enquanto os indivíduos menos habilitados dos países mais desenvolvidos podem ser pobres quando comparados com os seus concidadãos, relativamente à força de trabalho da China ou das Filipinas constituem mão-de-obra cara e, nestes tempos de trabalho informacional adepto de coisas organizadas, as tarefas não qualificadas são relegadas para um plano inferior.

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Deste modo, uma outra possibilidade é a maior polarização de classes nos países relativamente avançados: se os governos procurarem simultaneamente encorajar o trabalho informacional, que atrai o sistema económico global, e implementar medidas de compensação das desigualdades através da redistribuição de recursos aos mais desfavorecidos, arriscam-se a perder a confiança dos mercados mundiais, que desaprovam as políticas introdutoras de «distorções», e, também a perder a estima dos bem sucedidos analistas simbólicos, ressentidos com os impostos elevados (e que podem facilmente migrar, levando as suas elevadas competências técnicas). Na verdade, os políticos vão precisar de negociar um delicado equilíbrio entre saciar o capital global e enfrentar a relutância dos mais abastados em pagar impostos, assegurando também que o tecido social da nação continue suficientemente forte para atrair os investidores e os analistas simbólicos que precisam de ser persuadidos a ficar. Afinal, se se desenvolver uma «classe inferior» a tal ponto que a qualidade de vida dos mais abastados seja ameaçada (áreas urbanas inseguras, elevados níveis de criminalidade de rua, etc.), por mais sofisticados que sejam os sistemas de defesa electrónica (os analistas dão grande importância à expansão dos sistemas CCTV no interior das cidades, aos «condomínios fechados» em que se isolam os mais ricos [Blakely e Snyder, 1997]), uma parte significativa das pessoas mais favorecidas partirá (os leitores europeus mais cépticos podem reflectir sobre a sua reacção ao facto de que nos EUA, cerca de dez mil pessoas morrerem anualmente devido a armas de fogo; enquanto nas nações europeias as estatísticas equivalentes raramente chegam às duas dúzias). Para os mais capacitados analistas simbólicos, especialmente se o crime violento continua a crescer, Genebra ou Copenhaga poderão parecer mais atraentes que Los Angeles ou Baltimore. Foi precisamente este receio que levou Robert Reich a defender o que podemos chamar políticas post-Reagan para os EUA nos anos 90. Se se quiser preservar o tecido social, os pobres não podem ficar à mercê dos caprichos do mercado, pelo que se recomendam políticas sociais, desde que suficientemente moderadas para não desagradar aos mais ricos ou ao capital global.

Cultura É muito fácil dedicarmos toda a nossa atenção às forças económicas em jogo e às políticas adoptadas pelos governos que tentam ganhar vantagens relativas nesta nova situação. No entanto, as dimensões culturais desta época não devem ser ignoradas já que também elas são de enorme importância. Quando me refiro à cultura pretendo

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focar especialmente o domínio simbólico da vida, essa arena que alimenta a nossa identidade e consciência. Gostaria de identificar quatro questões que hoje em dia representam enormes desafios às nações e ao mundo inteiro. Os media globalizados A globalização desafia profundamente as práticas estabelecidas dos media de radiodifusão nacional. Podemos referir as inovações tecnológicas que, trazendo-nos quer os serviços de televisão por satélite quer a Internet, ultrapassaram as fronteiras nacionais. Será necessário acrescentar, no entanto, que os sistemas de televisão nacional, tendo surgido largamente associados a organizações financiadas pelos Estados, pelo menos no exterior dos EUA, sentiram o impacto destrutivo de uma mudança de clima na opinião. Os sistemas patrocinados pelo Estado estão a ser ultrapassados

pelo

privilégio

concedido

ao

privado

sobre

o

público,

e

consequentemente onde ainda existem têm de enfrentar uma contínua diminuição do seu rendimento, tal como a pressão da concorrência da oferta comercial. A digitalização da televisão, assim como os adicionais canais terrestres e os serviços por cabo, por exemplo, irão acarretar uma crescente dificuldade às televisões estatais para justificarem a continuação do seu financiamento. Acresce que o ethos que justificava tais serviços, pelo menos nos países social-democratas, era a doutrina do serviço público de radiodifusão, concebida como um serviço nacional a realizar por funcionários públicos vocacionados para a promoção de «informação, educação e entretenimento» (segundo a famosa formulação do director geral e fundador da BBC, Lord Reith). Actualmente, em muitos sectores, esta doutrina é considerada elitista e contrária aos serviços comerciais em que prevalece o entretenimento. Os ultrapassados serviços públicos produziam programas sobre os quais as audiências tinham pouca ou nenhuma escolha, consumindo o que lhes era dado em troca de uma taxa obrigatória sobre a posse do televisor. Presentemente, esta solução é considerada incompreensível por muitos daqueles que pagam pelos serviços. Acresce a tendência para os programadores pertencerem a sectores com elevada educação, provenientes de meios sociais privilegiados, o que os predispunha para uma programação «respeitável» e «educativa». Hoje em dia isto é visto como uma forma de negar o direito do consumidor a ter a programação que deseja. Para além disso, o serviço público de televisão entendeu que poderia envolver toda a nação numa «conversa consigo mesma»: a BBC (British Broadcasting Corporation) pode ser vista como tendo contribuído para uma «esfera pública», transmitindo para todo o país, onde, através da

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diversidade da programação, a nação poderia ver-se a si própria na sua variedade assim como na sua individualidade (Scannell e Cardiff, 1991). Esta «esfera pública» dedicou uma grande parcela do tempo de antena à cobertura noticiosa dos assuntos correntes (pelo menos o dobro do fornecido pelos canais comerciais no Reino Unido), uma vez que naquela perspectiva um verdadeiro serviço público deve privilegiar a informação sobre os assuntos políticos (públicos). Além disso, a BBC também se esforçou para promover uma oferta de ficção, de documentários e, inclusive, de música de elevada qualidade. Hoje, podemos facilmente compreender que o serviço público de televisão, assim como uma esfera pública única, têm os seus dias contados (Tracey, 1998). Para começar, há muitas críticas legítimas que realçam as falhas do sistema anterior: esta esfera pública tanto excluía como incluía, tanto projectava uma visão redutora da nação como uma visão plural. Por outro lado, a fragmentação da difusão significa que a noção de audiência nacional está a entrar em colapso – em lugar dela há muitas audiências

segmentadas,

ocupadas

com

interesses

específicos,

recebendo

frequentemente a sua programação do estrangeiro. A questão é então se devemos abandonar a televisão ao mercado mundial. Esta poderá vir a ser a realidade futura, independentemente do que os governos possam desejar, e enquanto a curto prazo veremos certamente a ascensão de organizações transnacionais, tais como os canais por satélite de Rupert Murdoch, a Star TV e a MTV, a expansão dos serviços do tipo internet poderá vir a oferecer uma boa dose de diversidade na programação, mesmo quando esta se organizar em termos comerciais. Um segundo aspecto diz respeito à esfera pública e consequentemente ao tema da identidade. Nos velhos tempos do serviço público de televisão, entendia-se que a nação poderia ser vista de um modo mais ou menos colectivo, e, pelo menos em certa medida, os cidadãos de um dado país poderiam ver o reflexo de si próprios nesse tipo de programação. Agora, podemos falar mais precisamente do desenvolvimento de múltiplas esferas públicas, dos muitos meios pelos quais as pessoas podem informar-se ou divertir-se, quer através da televisão quer através de redes informáticas. Alguns autores argumentam que isto pode ser uma força positiva para alargar o pluralismo, com mais oportunidades de os cidadãos participarem e receberem um tipo de programação mais diversificado. Outro tipo de inquietações prende-se com a possibilidade de fragmentação das identidades e as questões daí decorrentes. Prevendo a existência de múltiplos sites de informação e que as pessoas venham a receber uma programação altamente

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diversificada na privacidade das suas próprias casas como poderemos, assim, falar de uma consciência nacional? Como poderão os cidadãos dirigir-se aos seus concidadãos? Certamente que poderemos responder que no passado tal prática foi profundamente criadora de divergências, homogeneizando pessoas muito diferentes e provando ser incapaz de contribuir para a diversidade da população de uma nação. No entanto, a ambição de falar à nação como um todo desapareceu com a fragmentação da difusão e, mesmo que possa haver ganhos em termos individuais ou de pequena escala (o fã de futebol residente em Londres pode facilmente ver a sua equipa em Barcelona, os turcos que vivem em Berlim mantêm-se em contacto com a sua comunidade étnica em Istambul), pode estar em causa a capacidade para conceber uma nação como fenómeno de uma consciência colectiva. Mas talvez as coisas não venham a ser tão negativas. John Keane (1998) sugere que

podem vir a desenvolver-se múltiplos níveis de «esferas públicas»:

extensão ao nível supra-nacional (por exemplo, serviços transeuropeus de televisão e até mesmo programação global); permanência de sistemas nacionais de televisão (ainda que comerciais, mas também em termos de serviços que continuarão dependentes de subsídios públicos); proliferação de serviços localizados (se considerados em termos globais) e especializados que podem ligar comunidades de especialistas. Nesta visão optimista, as complexidades da identidade no mundo actual podem vir a ser resolvidas, com cidadãos capazes de irem além do seu próprio país nalguns aspectos (talvez pensando-se a si próprios como europeus), e voltando-se para a sua própria nação noutros aspectos, mas sempre capazes de responder às exigências informacionais específicas dos “proliferantes” serviços especializados – por exemplo, «eu sou um europeu mas também sou húngaro e, simultaneamente, sou de etnia judaica e tenho um interesse especial pela sorte do clube de futebol Inter de Milão». Talvez seja este «multivocalismo» o que mais está em consonância com a cultura pós-moderna que caracteriza o capitalismo globalizado em que vivemos. Certamente que os governos nacionais serão chamados a negociar o difícil terreno deste novo mapa mediático.

Imagem local Historicamente os locais sempre foram importantes, mas a razão da sua importância parece estar a mudar. No passado, eram importantes em parte devido à sua localização física – por exemplo, Gibraltar controlando a entrada do Mediterrâneo, o

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Cairo a boca do Nilo e Istambul os estreitos do Bósforo. Recentemente, a razão física da importância do local está em declínio, sendo substituída pela primazia da «imagem». Isto provém, é claro, do facto de que o espaço tem estado, em larga medida, a perder significado. Quando, por exemplo, se organizam negócios através de ligações telecomunicacionais, as razões anteriores para a localização têm menor prioridade. Isto não significa que os locais já não são importantes. De modo algum. Esta economia global em rede precisa de pontos centrais comutadores, que quando abertos podem ser considerados os «nós» dos circuitos mundiais de informação. Muitos académicos têm, a este respeito, chamado a atenção para o aparecimento de «cidades globais» – principalmente Londres, Nova Iorque, Los Angeles e Tóquio – como locais onde estão reunidos jogadores-chave a nível mundial, tais como sedes de empresas, departamentos governamentais decisivos, serviços financeiros, media e centros de negócio (Sassen, 2000). Com estes vêm os essenciais grupos ocupacionais, compostos maioritariamente por analistas simbólicos, cujo trabalho obriga a que estejam localizados perto do local «onde está a acção». O mais interessante é que estes locais conseguem, e aspiram, a certas imagens – como a de serem repletos de acção, electrizantes, centros de inovação cultural e de oportunidades.

Um

ponto

crucial

é

que

estes

lugares

não

conseguem

automaticamente uma certa imagem, que exige um envolvimento activo para se desenvolver – e a imagem errada pode ter efeitos negativos na prosperidade de um local. Por estas razões, o que estamos a testemunhar é um grande investimento nas imagens dos locais – porque isso pode ter consequências muito reais nos empregos e no posicionamento na economia global. Este aspecto pode ser profundamente negativo. Consideremos, por exemplo, Joanesburgo, na África do Sul, uma cidade localizada numa nação potencialmente estratégica para o desenvolvimento africano, abençoada com fartos recursos naturais e numa região com instituições educativas de boa qualidade. Acontece, porém, que projecta a imagem de estar infestada pelo crime e de ser perigosa, o que dificilmente atrai os analistas simbólicos e os investidores do capital global. Também podemos considerar o exemplo de Birmingham, a segunda maior cidade britânica, desenvolvida pela industrialização (mais precisamente pela engenharia) e localizada no centro de canais, caminhos de ferro e estradas nos séculos XVIII e XIX. A desindustrialização conduziu a um colapso massivo no tradicional emprego em ocupações manuais e, simultaneamente, a uma imagem local bastante monótona e aborrecida, uma cidade mal preparada para mudar e afundada por uma indústria ultrapassada. Contudo, aproximadamente nas últimas duas décadas foram feitos grandes investimentos na

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reinvenção de Birmingham – o centro da cidade foi radicalmente revisto (realçando-se a sua grandeza urbana, assim como agradáveis equipamentos culturais – teatros, orquestras, salas de conferências e espectáculos); o seu multiculturalismo foi fortemente divulgado para enfatizar a capacidade de Birmingham em adaptar-se, acelerar a mudança e oferecer grande diversidade de experiências; os seus canais foram salvos da decadência e do abandono industrial para se tornarem vias para o coração de uma cidade com cerca de 1,5 milhões de cidadãos; os seus aeroportos foram desenvolvidos para se tornarem internacionais; as organizações mediáticas foram encorajadas; as universidades expandidas e assim por diante. O resultado final foi uma forte expansão do emprego no sector dos serviços, a acrescida atracção de Birmingham junto do trabalho empreendedor e informacional e um acentuado papel como ponto central das redes britânicas, europeias e mundiais através do qual os negócios são conduzidos. Podemos também considerar a situação de Budapeste, uma grande e central cidade europeia de inultrapassável beleza arquitectónica e com uma valiosa história musical e artística. Trata-se porém, de uma cidade relativamente pouco conhecida a nível mundial, dado que se tem distanciado dos media mundiais e, na era comunista, foi incapaz de se projectar de forma atractiva. É provável que isto mude, no entanto serão precisas enormes quantidades de energia para «reinventar» Budapeste – para estabelecer as infraestruturas comunicacionais necessárias ao sucesso, de estradas e transportes aéreos a sistemas mediáticos, para obter um sector comercial aberto, inovador e estável. O argumento genérico de que a imagem local é de extrema importância pode ser melhor avaliado se não considerarmos apenas os centros metropolitanos. O turismo, uma das maiores indústrias mundiais, atribui grande valor às imagens. As inclinações pela Grécia ou por Espanha estão em grande medida dependentes de imagens cuidadosamente escolhidas e continuamente mantidas por cerca de 30% do total de empregos. Poucos acreditam nos mitos de «autenticidade» que são projectados (locais «não deteriorados», pessoas «genuínas», etc.), mas estes lugares ainda atraem turistas em parte por projectarem certo tipo de imagens – das suas culturas populares, da sua culinária, da sua hospitalidade, da sua segurança, etc. (Urry, 1990). Estas imagens não surgem por acaso; têm de ser trabalhadas se se quiser que permaneçam e que consigam adaptar-se a exigências sempre em transformação. Os governos – nacionais, regionais, supranacionais e locais – serão certamente chamados a representar um papel central nesta recriação. Acentuado cosmopolitismo

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A rápida globalização que tem tido lugar nos últimos anos tem sido acompanhada por um aumento generalizado de cosmopolitismo. Isto é evidente, por exemplo, na crescente tomada de consciência das diferentes culturas e histórias que chegam através dos media mundiais (o que não quer dizer que esta cobertura seja de algum modo representativa). Mas o cosmopolitismo também resulta de muitos outros factores: da percepção das origens cada vez mais internacionais dos produtos; do conhecimento de que as actividades profissionais de alguns se repercutem em muitos outros países; do aumento significativo das viagens pelo estrangeiro (quer em trabalho quer em turismo); da interacção com migrantes de muitas culturas diferentes; do rápido desenvolvimento do Inglês como efectiva lingua franca em todo o mundo (facilitando a comunicação entre membros de grupos linguísticos minoritários); do consumo diário de alimentos comprados no supermercado local que vêm de todos os cantos do planeta... Este acentuado cosmopolitismo deve ser uma das mais importantes características da vida no dealbar do segundo milénio. No entanto, a experiência do cosmopolitismo não está

distribuída de forma igualitária. Os relativamente

privilegiados analistas simbólicos estão entre os mais cosmopolitas de todos os grupos. Afinal, estão habitualmente em contacto com pessoas de todo o mundo (através da internet, de viagens de negócios ou porque trabalham em centros metropolitanos – logo, variados – pela sua capacidade de apreciar os frutos da vida multicultural [os restaurantes, o cinema e teatro, etc.]) e, desse modo, sentem-se confortáveis com a variedade e as diferenças entre os povos. A isto podemos contrapor as experiências dos que, desproporcionadamente concentrados nos sectores menos avançados da sociedade, se sentem mais ameaçados pela globalização. Trata-se dos grupos cujas perspectivas de emprego são incertas e cujas opções são limitadas, cujas formas de vida estão em risco pelo alargamento do mercado global, e que julgam que a globalização não é uma oportunidade mas um anátema que promete desenraizar tudo o que anteriormente era tido como seguro. Não será surpreendente que os grupos que se sentem ameaçados sejam facilmente arrastados para alguma forma de fundamentalismo (fanatismo islâmico,

fanatismo

fundamentalismo

cristão,

oferece

neo-fascismo,

certezas

num

radicalismo

mundo

ecológico),

incerto.

O

porque

o

fundamentalismo

proporciona fé em credos estabelecidos, oferecendo um «regresso» a uma ordem segura e certa que tem atraído sobretudo os que estão confusos com a dinâmica do mercado global (Barber, 1996). Há pelo menos dois aspectos interessantes nesta situação. O primeiro é o facto de os que se sentem atraídos pelo fundamentalismo se encontrarem em todos os

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países do mundo, mas sobretudo nos mais periféricos. O segundo é que os fundamentalismos articulam credos que são exactamente o oposto do cosmopolitismo da sociedade mais vasta (embora os fundamentalistas não sejam adversos a usar as últimas tecnologias para disseminar as suas ideias). Evocando, por exemplo, um passado mítico (história nacional, raça ou religião), o fundamentalismo opõe-se ao internacionalismo dos membros da sociedade com mais sucesso. Para além disso, grande parte do fundamentalismo é extremamente perigoso, expressando-se em ataques racistas ou através do terrorismo e conflitos civis, que em regra visam grupos étnicos minoritários ou um inimigo imaginário (o «grande Satã» do Ocidente). Nos últimos anos, a sua expressão mais perturbadora na Europa têm sido as ondas de «limpeza étnica» na antiga Jugoslávia, dirigidas a populações minoritárias em nome de uma nação e de uma identidade nacional miticamente puras. Durante os anos 90, isto traduziu-se em pelo menos vinte e cinco mil mortes nos Balcãs (Rieff, 1995). O que podemos inferir desta potencial polarização entre os mais cosmopolitas e aqueles que estão insatisfeitos com a globalização é que os conflitos entre nações entrarão em declínio. Anthony Giddens (1994) chega a escrever sobre «Estados sem inimigos» na situação do pós-guerra fria. Trata-se de um fenómeno notável, dado que, nos últimos séculos, as guerras têm ocorrido entre nações por causa de território. Esta forma de guerra parece estar a decair, sendo substituída por conflitos entre grupos dentro das nações (quando, por exemplo, um grupo proclama defender o «verdadeiro» credo

nacional,

exigindo

a

expulsão

dos

estrangeiros,

contaminados

e

contaminadores, «intrusos» – que podem ter vivido no país durante séculos) e através das fronteiras nacionais (quando se forja um laço entre fundamentalismos contra um inimigo comum). Tal como se testemunhou no Kosovo, e antes disso na Bósnia e na Croácia, trata-se de enormes desafios para as nações assim como para toda a comunidade internacional. Migração A globalização pressupõe o movimento tanto de indivíduos como de informação. E como é agradável viajar para aqueles de nós que foram abençoados com cartões de crédito, voos pré-pagos e a promessa de um emprego bem remunerado. Ainda mais agradável é sermos turistas, visitar outras partes do mundo nas férias, onde somos servidos, estragados com mimos... Este tipo de migração é-nos familiar: o visitante académico, o homem de negócios internacional, as férias anuais nas Caraíbas ou em Marbella...

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Mas, naturalmente, isto é só uma parte da migração. A outra, a parte que cresceu para níveis sem precedentes desde 1945, e especialmente desde os anos 90, envolve os pobres que viajam para encontrar um melhor nível de vida. Tal migração não é, de modo algum, nova – pensemos nos irlandeses que navegaram para os Estados Unidos, obrigados pela fome a sair do seu país em meados do século XIX, ou consideremos o êxodo do sul de Itália, onde os campos não conseguiam oferecer o suficiente... No entanto, nas últimas décadas, a migração cresceu desmesuradamente e, em grande parte, por razões económicas. Os pobres do mundo, onde quer que estejam e sempre que podem, migram para onde houver melhores oportunidades. Isto significa migrações de Sul para Norte, naturalmente a maioria não migra, uma vez que a migração é uma opção de último recurso e a maioria que de facto se movimenta só o faz para os centros urbanos dos seus próprios países, mas ainda assim o impulso é evidente por todo o lado, e tem como principal objectivo tentar melhorar as condições de vida. Esta migração tem muitas consequências importantes, mas Zygmunt Bauman (1998) chama a atenção para uma das mais marcantes. Num mundo de elevados níveis de migração, os privilegiados são «turistas» que, como tal, são encorajados a viajar livremente e com prazer, enquanto os que estão na mais baixa camada social são os «vagabundos», vistos como vadios e descontentes que deviam era «ficar onde pertencem». Como diz Bauman, os migrantes do Sul são aqueles que mais perturbam os (relativamente) privilegiados do Norte – a sua cor da pele é diferente, vestem-se de modo diferente, as suas culturas não se adequam à nossa, as suas línguas são incompreensíveis... Assim sendo, continua Bauman, eles constituem o pesadelo do alter ego dos viajantes livres que beneficiam do capitalismo globalizado. E constituem igualmente uma fonte de conflito e tensão que deve ser analisada. Não acredito que consigamos acabar com este conflito ao dizer que as pessoas deveriam simplesmente ser tolerantes umas com as outras. Obviamente eu defendo isso, mas há que reconhecer que não é suficiente. A migração é somente uma dimensão, importante, de uma sociedade global de mercado que está sujeita a mudanças constantes. Efectivamente, a migração nos níveis a que assistimos hoje é concomitante da fluidez do capitalismo avançado. Contudo, esta convulsão social necessariamente enfraquece os laços que se desenvolvem entre populações estabilizadas, e não só por trazer a público outros modos de vida, outros cenários, outros – estranhos – modos de comportamento. O encontro com outros é certamente um importante estímulo para a inovação e podemos dar as boas vindas a muitos aspectos de outras experiências culturais, mas permanece uma questão central: como é que as pessoas podem manter um sentido de comunidade, de união convivendo

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sistematicamente com a diferença? Quais são os limites de tolerância? Como podemos definir uma fronteira que permita suficiente diferença para estimular a mudança e, simultaneamente, manter a coesão? Este é, sem dúvida, um aspecto extraordinariamente problemático e deve ser analisado por muitos agentes, a vários níveis, desde o local ao global, agora e cada vez mais no futuro. Se alguma vez houve um desafio global a exigir respostas nacionais (e outras) este, seguramente, é um deles: como poderemos viver juntos com as nossas diferenças? Referências bibliográficas Barber, Benjamin R. (1996), Jihad vs. McWorld, New York: Ballantine. Bauman, Zygmunt (1998), Globalization: The Human Consequences, Cambridge: Polity. Blakely, Edward and Snyder, Mary Gail (1997), Fortress America: Gated Communities in the United States, Washington DC: Brookings Institution. Castells, Manuel (1996-98), The Information Age, 3 volumes, Oxford: Blackwell. Castells, Manuel (1998), End of Millennium, vol.3 of The Information Age, Oxford: Blackwell. De Benoist, Alain (1996), «Confronting Globalization», in Telos (108), Verão: 117-137. Dicken, Peter (1992), Global Shift: The Internationalization of Economic Activity, 2ª edição, Londres: Paul Chapman. Figes, Orlando (1996), A People's Tragedy: The Russian Revolution, 1891-1924, Londres: Pimlico. Giddens, Anthony (1990), The Consequences of Modernity, Cambridge: Polity. Giddens, Anthony (1994), Beyond Left and Right: The Future of Radical Politics, Cambridge: Polity. Greider, William (1997), One World, Ready or Not: The manic logic of global capitalism, Harmondsworth: Penguin. Harvey, David (1989), The Condition of Postmodernity, Oxford: Blackwell. Held,

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A Internet na construção de uma cidadania participada6 ____________________________ José Manuel Paquete de Oliveira José Jorge Barreiros Gustavo Leitão Cardoso

A história da Humanidade e o desenvolvimento dos povos estão muito ligados à história e ao desenvolvimento dos instrumentos e modos de comunicar. Sem reclamar factores determinísticos, é contudo incontroverso o papel decisivo que os media tiveram na explosão e consolidação das sociedades democráticas na modernidade. As novas tecnologias de informação e comunicação vieram aumentar de modo quase ilimitado a capacidade humana para comunicar, para informar e ser informado, para conhecer e saber. As novas tecnologias da informação e comunicação impulsionaram a existência de uma sociedade sem espaço e sem lugar definidos, pois na expressão de Malcom Waters hoje, «o mundo é um lugar único» (Waters, 1999: 35). Com distribuição diversa de benefícios e desvantagens pelas condições diferenciadas em bens materiais e imateriais, por factores de ordem económica, cultural, social, todos os cidadãos do mundo estão sentenciados a gozar ou a sofrer com as consequências da mundialização. Na excelente expressão de Bernard Miège, «a sociedade está conquistada pela comunicação» (Miège, 1997). Resta saber, e a propósito dos novos media, a dialéctica que eles introduzem na sociedade entre comunicação e informação, em que medida, e particularmente em relação a uma cidadania participada, a comunicação está contra a informação ou a informação vai devorar a comunicação. (Bougnoux, 1995; Oliveira, 1994). Os efeitos da globalização implementada pela sociedade da informação e comunicação são implicativos à escala mundial. Como cidadãos, ou lucramos com os seus benefícios ou sofremos pelas suas consequências negativas. Segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano (PNUD, 1999: 57), publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, «um mapa global para as novas tecnologias está a ser desenhado mais depressa do que a maioria das pessoas é 6

O presente artigo é uma versão revista de um documento apresentado à UNESCO, no âmbito da conferência realizada em

SANTIAGO de COMPOSTELA, em Novembro de 2000.

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capaz de compreender as suas implicações, e muito menos reagir, de forma a precaver os impactes» daí resultantes. «O hiato mundial entre os que têm riqueza e os que não têm, entre os que têm conhecimento e os que não têm, está a aumentar». A advertência de Zygmunt Bauman de que as consequências humanas da globalização são as menos estudadas tem um enorme pertinência (Bauman, 1999: 7). O advento das novas tecnologias da informação e comunicação revolveu a organização da sociedade industrial e alterou a própria configuração dos espaços público e privado, transformando as práticas individualizadas ou colectivas. Os seus efeitos sobre a economia, as estruturas sociais, a política, a cidadania são manifestos. A real dimensão da sua acção sobre as pessoas permanece ainda muito oculta.

1. A Internet, símbolo e emblema da sociedade da informação e da comunicação O mundo de hoje está inundado de informação, mas só o reconhecimento dessa informação, enquanto manipulação, assimilação, produz comunicação. As novas tecnologias têm aumentado a «tonelagem» de informação disponível para os cidadãos. Mas, por efeitos dos processos de desenvolvimento social, à escala universal, não parece que o grau de conhecimento, domínio e aproveitamento dessa «nova riqueza» favoreça equitativamente uma cidadania participada. Antes pelo contrário, e como adverte Edgar Morin, o problema da distribuição do conhecimento é hoje um dos principais problemas dos Estados democráticos: as democracias contemporâneas e fortemente mediáticas não irão longe se não se protegerem com uma condição indispensável à democracia política e participada, «a democracia cognoscitiva». (Morin e Tofler, 1994: 6-8). Com o rápido desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação e a crescente globalização dos mercados, a consolidação da «Sociedade da Informação» aparece como factor estratégico para a construção de novos modelos de organização social. A informação assume assim uma importância central, enquanto vector estruturante de um conjunto plural de domínios socioculturais, económicos e políticos. Neste contexto a Internet, como infra-estrutura mundial de informação e comunicação e símbolo e emblema da dita Sociedade da Informação, interpreta cada vez mais um papel preponderante na implementação dessa organização societal e da denominada «democracia electrónica» ou da «ciberdemocracia». (Poster, 1995). A grande maioria dos estudos e investigações realizados sobre a «Sociedade da Informação» inscrevem-se em especial nas vertentes tecnológica e económica. Por

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outro lado, os discursos produzidos sobre a Internet, como grande axioma da dita «Sociedade da Informação e Comunicação» ou da «Democracia Electrónica» referem normalmente parâmetros internacionais da dimensão global do fenómeno. A denominação «Sociedade da Informação» está muito generalizada, mas está longe de ter um entendimento comum. A «Sociedade da Informação», cuja expressão é atribuida a sociólogos norteamericanos, entre os quais se destaca Daniel Bell na sua análise ao pós-industrialismo (Bell, 1976), vem na concepção de que, com as novas tecnologias da informação e comunicação, a informação passa a ser a fonte principal da produção de valor e consagra a primazia das actividades informacionais em relação às actividades do sector secundário e terciário. A «indústria pesada» é assim substituída pela informação e o valor-trabalho pelo valor-saber. Informação e conhecimento sobrepõem-se à força-do-trabalho e ao próprio capital. Informação e comunicação tornam-se componentes fixas de todas as formas de produção. (Porrat, 1977). A «Sociedade da Informação» baseia o seu funcionamento e o seu desenvolvimento em três vectores principais: as tecnologias de informação, o complexo conglomerado do audiovisual e as telecomunicações. Todavia, em toda a configuração, realista ou imaginária, da «Sociedade da Informação» e do mundo globalizado e em globalização que ela preconcebe e preconiza, efectivamente, é a Internet a sua estrutura emblemática. (Miège, 2000: 112). A Internet é o paradigma duma sociedade em rede e o instrumento potenciador da sua concretização. A configuração em rede por suporte electrónico é apresentada como a reinvenção da sociedade. Numa sociedade em rede electrónica não é a relação a um território, a um país, que define a condição e qualidade de cidadania. Mas para aceder e usufruir dessa sociedade em rede são indispensáveis infra-estruturas físicas, técnicas, tecnológicas, disponibilidade financeira por parte dos diferentes países. Por outro lado, aos indivíduos, para além dessas pré-condições, porventura garantidas por programas nacionais, são exigíveis (requeridas) algumas competências, predisposição psicológica, cultural, social para o acesso a essa «cidade virtual» e para a utilização, manuseamento, rendibilidade dessas ferramentas, e para o aproveitamento da «matéria-prima» que é a informação como via para o desenvolvimento. As diferentes abordagens teóricas, a reflectir por vezes outros tantos posicionamentos politico-ideológicos face à «Sociedade da Informação» são tendentes a acentuar, cumulativa ou separadamente, estes cinco vectores de análise: o tecnológico, o económico, o ocupacional, o espacial e o cultural (Webster, 1995). Por nossa parte, acrescentaríamos a esta análise um outro vector, o vector mitológico.

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2. A Internet, tecnologia de informação vs tecnologia social Ao acentuarem a importância do vector tecnológico, a maior parte dos autores que o fazem, privilegiam de alguma maneira a tecnologia, a invenção tecnológica, como responsável de todas as tranformações nas mais diversas actividades humanas, ao nível local, nacional e internacional. Imprimem assim à mudança social, no âmbito das nações ou do mundo, um valor determinístico ao vector tecnológico. (Rosenau, 1990: 12-13 e outros). A esta visão da tecnologia como factor determinístico, outros estudos neste domínio contrapõem o carácter de condicionamento, e não de determinação, que a tecnologia coloca ao desenvolvimento económico, cultural e social. A análise dos vectores económico e ocupacional salienta sobretudo as alterações que a «informação», como «nova mercadoria» veio introduzir em todo o sistema produtivo, alterando as formas das organizações, a dinâmica do emprego, os ritmos da produtividade, a criação de novos bens e serviços, estabelecendo profundas modificações na criação, acumulação e distribuição de riqueza. Efectivamente, um vector fundamental de análise à lógica de implementação e realização de uma «sociedade de informação», de um «mundo globalizado», é esta nova organização conceptual da dimensão espacio-temporal do mundo. A libertação do espaço e do tempo, operada pelas novas infra-estruturas da informação e comunicação, ao tornarem «o mundo um lugar único», constituem um pré-requisito para a globalização (Robertson, 1992: 8). Esta vertente é igualmente importante enquanto eixo fundamental nas alterações das relações sociais, merecendo na obra de autores como Giddens análise específica.

Enquanto para Giddens a globalização é consequência directa da

modernização, para Robertson é a globalização que viabiliza a modernidade da sociedade (Giddens, 1990: 64). O vector cultural abrange os factores causais e as consequências deste eixo numa «sociedade em rede» ou «aldeia global», através da abordagem específica da confluência dos velhos e novos media na criação de uma sociedade global. A globalização é um processo multifactorial e multicausal que tem de ser analisado nos seus mais variados aspectos, e em particular nas suas dimensões económica, política e cultural. E se, por um lado, como defende Wallerstein, a economia mundial é cada vez mais a extensão do sistema mundial capitalista, dominada pelas grandes

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empresas transnacionais que se impõem ao próprio poder político (Wallerstein, 1990: 31 e ss), a industrialização da cultura, intrinsecamente associada aos velhos e novos media, é factor axial no processo da globalização e, por isso, merece atenção especial. O alongamento espacio-temporal é um pré-requisito para a globalização. Ou, por outras palavras, a compressão do espaço e do tempo é seguramente um dos efeitos mais conseguidos pelas tecnologias da informação. E se para este efeito contribuíram já de modo bastante incisivo os media tradicionais, a imprensa, a rádio, a televisão, é inevitável que esse novo media que é a Internet contribua decisivamente para fazer «do mundo um só local». A globalização da cultura e da informação é uma componente fundamental que está por detrás de todas as outras dimensões institucionais da globalização (Giddens,1990: 77). E se para a formação do processo de globalização, convertido hoje em modelo da modernidade, é interessante verificar, na análise dos mais diferentes autores (McLuhan, Giddens, Harvey, Roseneau, Robertson, e outros), o contributo que para isso tiveram o aparecimento do relógio mecânico, a invenção do dinheiro e da electricidade, esse prolongamento do sistema nervoso central, e os rápidos meios de transporte (McLuhan, 1964: 358), é imprescindível estudar e investigar o influxo que a Internet veio trazer para a explosão de uma sociedade global, embora em tempos diferidos de várias globalizações. A Internet é, provavelmente, «o mais eficaz meio para realizar a compressão espaço-tempo» (Waters, 1999: 143). Tal como outros autores, também defendemos que a globalização sempre foi uma meta preconizada através dos tempos e das civilizações, com momentos mais fortes e mais fracos, só que na contemporaneidade recebeu uma enorme aceleração. Evidentemente que não é agora o lugar de considerarmos toda a complexidade deste processo, nem tão pouco questionarmos a dimensão ideológica que o próprio conceito de globalização comporta. Seja qual for a perspectiva de análise, parece-nos que fica patente a oportunidade de investigar a Internet, como media e ferramenta decisiva para a compressão do espaço e do tempo, como infra-estrutura base que delimita a distância e condiciona a forma como as relações sociais decorrem. Estudar as civilizações é sempre estudar o seu sistema de trocas. É pertinente, por isso, adoptar o teorema de Waters: «as trocas materiais localizam, as trocas políticas internacionalizam e as trocas simbólicas globalizam». Sem esquecer, porém, que economia, política e cultura têm ordens de implantação e desenvolvimentos diferentes consoante os países ou indivíduos em causa. Com efeito, perante a Internet não estamos apenas diante de uma ilimitada tecnologia de acesso e fornecimento de informação. Estamos diante de uma

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tecnologia social, onde milhares ou milhões de diversos actores e sujeitos sociais interagem, criando, portanto, dimensões novas de relação social e projectando até porventura novas formas de organização social. A análise desta dupla dimensão da Internet como tecnologia de informação e como tecnologia social, enquanto de algum modo ordenadora de novos modos e formas de vivencialidade e convivialidade, é complexa. Ainda nem completámos a análise dos efeitos sociais ocasionados pelos media da primeira geração, por nós aqui identificados como media tradicionais, e já estamos confrontados com as mudanças operadas pelos media da segunda geração (Poster, 1995: 31). Como tecnologia social, talvez mais expressamente dito, como tecnologia de transformação social, a Internet é ainda uma realidade pouco conhecida. Limitamo-nos a ficar à porta ou talvez até no patamar da porta do mundo ciberespacial de que a Internet faz parte, embora não represente o todo desse «admirável mundo novo». Precisamos, por isso, de indagar quem são geralmente os habitantes desse novo espaço, quem são os utilizadores desse novo media e que tipo de utilização dele fazem. (Oliveira e outros, 2000: 10-15). Como acentua Robertson, sendo a globalização um fenómeno à escala mundial, não dispensa, antes «envolve a relativização de pontos de referência nacionais e individuais perante os de natureza geral ou supranacional» (Robertson, 1992: 22- 41). A tecnologia não é por si só condição de estabelecer uma democracia mais participada. É por isso que aludimos ao vector mitológico. Partindo da Internet como estrutura elixir para o estabelecimento de uma democracia deliberativa participada, enfatiza-se por demais a capacidade da tecnologia disponibilizada, esquecendo, ou fazendo esquecer, a condição diferenciada dos diferentes sujeitos na utilização dessa tecnologia. A Internet ao permitir a realização de uma sociedade em rede não a realiza por si. A «rede» é um paradigma e um meio capaz de «reinventar» a «democracia electrónica. A própria imagem da rede, metáfora de grande carga simbólica, não deixa de ser ambígua. A rede liga, mas também pode prender e estrangular. As novas tecnologias, e em especial a Internet, abrem novas perspectivas à cidadania, mas não são o garante único e exclusivo de uma democracia participada. «Rede», essa palavra mágica que parece ser a chave da «democracia electrónica», exige infra-estruturas físicas, técnicas e tecnológicas, financiamentos próprios. Mas acima de tudo, por parte dos indivíduos, uma enorme predisposição psicológica, social e cultural para a utilização, manuseamento, rendibilidade das novas ferramentas que fazem da «informação» «conhecimento» e do conhecimento participação consciente. Para que não se repita a história da acumulação dos bens materiais, é preciso reorganizar a capacidade de produção e distribuição dos bens imateriais (informação-

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conhecimento-saber), característica fundamental da Sociedade da Informação, da Comutação, do Conhecimento. (Schiller, 1996: 62).

3. Internet, democracia electrónica e cidadania participada Este fácil enunciado de quanto a «Sociedade da Informação» vem beneficiar a democracia merece aprofundada reflexão. Com a disponibilização que a «Sociedade da Informação» faz ao emprego das novas tecnologias tem-se construído um discurso francamente optimista dos efeitos positivos da aplicação da informática nos sistemas políticos democráticos. (London, 1995: 2). Sabemos que nos diversos autores a utilização dos diferentes conceitos – teledemocracia, ciberdemocracia, democracia electrónica – não é indiferente e alude mesmo a sentidos diversos. Para uma operacionalidade da reflexão que queremos fazer a propósito da cidadania participada numa «Sociedade da Informação e Comunicação» utilizaremos mais correntemente a expressão «democracia electrónica» na acepção que lhe dá Stefano Rodotá, implicando não só novas conceptualizações mas também diferentes campos de experimentação que a introdução do uso das novas tecnologias vem trazer às práticas democráticas da participação dos cidadãos. (Rodotá, 1999). Democracia e cidadania não dizem respeito apenas a um dado quadro de direitos e aos mecanismos formais de participação no sistema político. Implicam todo um conjunto de aspectos relacionados com a intervenção na vida pública, nos planos de actuação individual e da acção colectiva, e os modos como as dinâmicas institucionais e informais da sociedade civil são incorporadas nos processos de representação política e governo democrático. O debate sobre a «democracia electrónica» tem como pano de fundo um contexto social marcado por sintomas de crise dos regimes democráticos, debatida desde os anos 70 por iniciativa de autores como, entre outros, Jürgen Habermas ou Claus Offe. Inicialmente centrado sobre a televisão, e depois reorientado face à emergência da Internet, este debate tem decorrido num contexto social marcado pela reflexão sobre vias alternativas para promover a legitimidade dos regimes democráticos e o reforço da participação dos cidadãos na vida pública. Toda a argumentação tem vindo a organizar-se em torno da dicotomia «democracia representativa»/«democracia directa», sendo esta considerada

como

«uma oportunidade finalmente proporcionada pelas novas tecnologias» (Rodotá, 1999: 12).

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É grande o entusiasmo por parte de alguns autores pelas virtualidades que as novas tecnologias podem acrescentar à participação dos cidadãos na democracia, tornando-a mais representativa e deliberativa. Vários destes autores sublinham «…a necessidade de redesenhar a democracia, tornando-a mais representativa e mais deliberativa, de forma a servir as ideias democráticas. (…) Estes autores diferem nos detalhes dos seus diagnósticos da crise das democracias modernas, mas partilham a premissa geral de que a existente infra-estrutura social de suporte e encorajamento do debate público e da acção política tem vindo a ser severamente erodida e minada (Tsagarousianou, Tambini e Brian, 1998: 5). Aliás, Ted Becker perfilha igualmente deste entusiasmo quando afirma que “a utilização das modernas comunicações electrónicas e tecnologias da informação dá aos povos das democracias o poder de contribuirem para estabelecer agendas, determinar prioridades e participar nas decisões políticas e na respectiva implementação” (Becker, 1999). Efectivamente, a difusão desta infra-estrutura base - preconizada como excelente - para o desenvolvimento da democracia - a Internet - tem sido vertiginosa. Na história dos media, é mesmo aquele medium que até hoje teve um crescimento mais rápido. Em cinco anos atingiu uma população média de 50 milhões de utentes, quando para atingir estes valores, a rádio levara 38 anos, a televisão 13 anos e o computador pessoal 16. Entre 1988 e 1998, o número de computadores ligados à rede passou de 100 mil utilizadores para 36 milhões e em 1999 esse número cifrou-se em 195 milhões. Uma previsão do Economist (1998b) afirmava que em 2001 mais de 700 milhões de pessoas estariam em rede – algo que se concretizou. Só que a distribuição desta população de utentes da Internet no Mundo é muito desigual e, segundo dados do Relatório do Desenvolvimento Humano (PNUD, 1999), enquanto os Estados Unidos, apenas com 5% da população mundial, tinha mais de 50% dos utilizadores da Internet no mundo, o Sul da Ásia, com mais de 20% da população mundial, possuía menos de 1% dos utilizadores dessa ferramenta. O conjunto dos países da OCDE, com 19% da população mundial, contava com 91% de utilizadores. Como salienta o referido relatório, até agora aqueles que têm acesso àquela rede constituem «a alta sociedade da rede» e o «acesso habitual à Internet segue as fracturas das sociedades nacionais, separando instruídos de analfabetos, homens de mulheres, ricos de pobres, jovens de idosos, urbano de rural» (PNUD, 1999: 62).

4. Mas, afinal, o que é a Internet?

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A Internet é produto de uma complexa interacção entre um (projecto) militarindustrial norte-americano e o clima do Maio de 68, dos protestos universitários contra a guerra do Vietname e da contracultura hippie. O resultado foi uma tecnologia capaz de resistir a quebras na hierarquia de comando, assegurando a comunicação entre as estruturas militares remanescentes a eventuais ataques militares, promovendo assim trabalho cooperativo sobre uma estrutura em rede. Mas se a encomenda foi realizada por uma estrutura que, na sua cultura base, assenta no controle hierárquico, a sua criação e posterior utilização couberam a uma comunidade científica que vivia uma dada época, caracterizada por Pepino Ortoleva como sendo de «utopia comunicativa». A apropriação social e a estruturação da cultura associada à Internet foi assim definida nos seus primeiros anos de vida com base em três processos complementares: a democratização do acesso, com a criação de uma arquitectura que permitisse facilmente ter «voz», ou seja, entrar no sistema e tornar-se membro da comunidade; a comunicação a partir de baixo, através da introdução do email e mais tarde dos newsgroups e mailing-lists, que tinha subjacente um ideal de recusa da estruturação hierárquica dos media tradicionais ao mesmo tempo que se destruíam as barreiras de separação entre alta e baixa cultura e se implementavam lógicas de autoria múltipla ou partilhada, como no caso dos threads de discussão; a diversificação do público, em contraposição à ideia de um público de massa, homogéneo e atomizado, uma vez que a estrutura oferecida pelos grupos de conversação e páginas web oferecia uma multiplicidade de escolhas diversificadas, permitindo simultaneamente a constituição de células colectivas de partilha de interesses. Deste modo, a Internet reúne duas culturas diferentes, ainda hoje manifestas naquilo que podemos descrever como a luta para a definição das lógicas de apropriação e, consequentemente, de participação associadas a este novo medium. Fausto Colombo denomina essas forças «centrípetas» ou «centrífugas», quer propiciem maior controlo ou maior liberdade (Colombo, 1999). Tal como outras tecnologias de informação e comunicação, a Internet é efectivamente um espaço permeável ao surgimento de forças centrípetas e centrífugas, pelo que não deve ser entendido estritamente, nem na perspectiva dos ditos ciberlibertários, que a consideram a última fronteira para uma transformação da sociedade baseada no primado da liberdade individual, nem na perspectiva oposta, enquanto novo panopticon ou eschelon que terminará com qualquer fronteira de privacidade. Umberto Eco, na conferência «One World One Privacy» recomendava que, antes de olharmos para as possibilidade e práticas que a tecnologia nos oferece, devemos porventura perguntar a que privacidade poderemos aspirar numa sociedade

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que, culturalmente, valoriza mais o exibicionismo que o recolhimento. Este pensamento, para além de traduzir uma das preocupações mais frequentemente referidas pelos utilizadores da Internet, impele-nos a compreender que o que ocorre na Internet não pode ser dissociado de uma realidade mais vasta. Evidentemente, a realidade cultural das nossas sociedades não se limita à Internet, nem se sujeita às suas características numa relação unívoca. A Internet influencia mas também é influenciada pelo que ocorre fora dela. Manuel Castells captura de forma incisiva esta noção de interdependência ao designar a Internet como uma «forma de organização social» (Castells, 1996). A Internet representa para a organização da sociedade, nas suas diversas dimensões, algo de similar à introdução da fábrica no processo produtivo, com as implicações que conhecemos nos mais diversos planos: da família à produção cultural e comunicação. A Internet oferece novas formas de organização do trabalho, de estruturação do emprego, de afirmação da cidadania, de geo-política. Mas da possibilidade à realidade transformada vai uma distância idêntica à que medeia entre a utopia e a sua concretização. Existe uma mudança em curso, mas essa mudança dependerá muito da forma como for apropriada pela população. Questões como a criação de competências educacionais para a utilização das tecnologias de informação, o custo de equipamentos e comunicações a par do nível de vida de cada região e país, determinarão o sucesso ou insucesso da difusão daquela tecnologia. Mas a sua força transformadora reside igualmente na capacidade de criar utilizadores com uma perspectiva crítica, capazes de lidar com a quantidade de informação e a capacidade de dizimá-la, bem como em destrinçar a qualidade dessa informação. Assim, ao falar de cidadania na Internet não deveremos deixar de questionar como poderemos potenciar as práticas institucionais da democracia representativa através do uso das tecnologias de informação e comunicação, ou que papel poderá desempenhar a Internet na consulta aos cidadãos.

5. A geografia imperfeita da Internet A Internet deve também ser entendida enquanto campo de comunicação onde urge ultrapassar a dimensão das desigualdades face à informação. Desigualdades que se manifestam na distribuição da população com acesso às tecnologias de informação, ou seja, na condição necessária para a participação numa sociedade assente na informação

enquanto

bem

universalmente

valorizado

cultural,

social

e

economicamente, mas também noutros níveis menos perceptíveis numa primeira

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análise, nomeadamente no que diz respeito às assimetrias nas condições de acessibilidade produção e recepção. São assim de considerar, em particular, cinco itens de desigualdades:

- desigualdade no acesso às tecnologias de informação e comunicação; - desigualdade na produção de conteúdos e valor; - desigualdade na capacidade de validar a informação; - desigualdade no acesso online à informação produzida; - desigualdade na criação de memória individual e social.

A importância do acesso às tecnologias de informação e comunicação será fundamental para a constituição de sociedades mais democráticas na medida em que só esse acesso poderá permitir a diversidade de vozes ouvidas e a consequente construção do processo de integração democrática e de formação de opinião pública. Só assim se poderá aspirar a consolidar um direito à informação e comunicação, que não se esgota no acesso à informação e na possibilidade de comunicar com terceiros, mas que igualmente se centra no alcance que a voz de cada um poderá ter. Numa sociedade em que a comunicação e a informação jogam um papel central, quem desempenhar o duplo papel de consumidor e de produtor de informação, estará mais bem colocado para usufruir das potencialidades da «Era da Informação». Se a Internet é uma forma de organização social, será tanto mais útil quanto os cidadãos tiverem consciência da sua diversidade e das ferramentas para lidar com ela. Conforme é notado no Relatório Falling Trought the Net II (1998), existe na sociedade americana uma «divisão digital entre os que têm e os que não têm. Os dados mostram claramente que o crescimento do uso e posse de computadores temse distribuído de forma desigual. (…) A disparidade na posse de computadores entre os grupos com rendimentos mais altos e mais baixos tem crescido desde 1994. (…) De forma semelhante, houve um crescimento da diferença entre os lares de famílias brancas e hispânicas de 14,8% em 1994 para 21,4% em 1997. Entre os que menos se ligam à Internet estão os que na sociedade americana não têm posses: os pobres rurais, as minorias rurais e urbanas e os lares encabeçados por mulheres.» Por sua vez, Moss e Mitra, no estudo «Net Equity», afirmam que o actual modelo de acesso à Internet, baseando-se em subscrições, nunca será capaz de proporcionar acesso a todos. Assim, para os mais desfavorecidos, as bibliotecas

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escolares ou os centros comunitários constituirão os principais canais de acesso à rede (cit. in. Margolis e Resnick, 2000: 213). A capacidade de produzir e divulgar as diversas produções culturais em «formato digital» na Internet é uma vertente que deve ser tomada em consideração, quer no campo do desenvolvimento educativo, quer no da afirmação das identidades individuais, colectivas e nacionais. Trata-se de um poder acrescido dado aos utilizadores. Não um poder individual, mas sim colectivo, pois só é válido porque partilhado por um número alargado de pessoas. Poder neste caso não representa capacidade de propor alternativas. Os cidadãos consumidores, ao partilharem uma visão de valor associada a determinados produtos e serviços, estão a promover um contrapoder face aos interesses de produtores e distribuidores, que por sua vez terão de fazer uso dessa leitura para o sucesso da introdução de produtos comerciais em formato digital na Internet. Os bens culturais digitais, como a música, o cinema, a informação jornalística, a literatura, não serão certamente gratuitos no futuro. Mas o facto de uma partilha de valores promover lógicas opostas às praticadas pelos produtores e distribuidores implicará novos consensos e arquitecturas comerciais. Nesta perspectiva, poderemos afirmar que a Internet promove um novo papel para o consumidor ao criar uma cultura de partilha de valores que lhe confere maior voz. Todavia, é importante não esquecer que o consumidor que actua na esfera do comércio electrónico não o faz apenas nesse espaço. O comércio electrónico para o utilizador é um complemento e não um substituto de outras formas de comércio e como tal a sua participação nesse espaço não encerra novos papéis. A sua autonomia de escolha pode ser aumentada, a sua opinião valorizada, mas continuará a defrontar as mesmas lógicas tradicionalmente presentes na esfera comercial. Questões como a objectividade da informação, a posse dos meios de difusão (sejam eles portais ou páginas) e a influência dessa posse na recepção da informação ganham uma nova dimensão quando olhadas já não na dimensão dos 500 canais globais, da rádio que vai ao fundo do Mundo/Rua ou dos semanários e diários de referência, mas sim à dimensão dos 800 milhões de páginas e das centenas de Portais nacionais e globais que contribuem para a construção das nossas representações da Internet enquanto espaço de Filtros, Montras e Notícias. A questão da qualidade e quantidade de informação e da forma como lidar com ela são o ponto de partida para perceber que nem tudo se joga no acesso às novas tecnologias de informação e comunicação e que, para além da destreza na utilização

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da informática, o pensamento crítico e a dedução são ferramentas fundamentais para as diversas dimensões da interacção social na sociedade em rede. No princípio de um novo século, uma das interrogações que o aparecimento da Internet pode estar a promover diz respeito à quantidade de informação disponível. Lawrence e Giles estimaram que em 1999 a Internet albergaria cerca de 800 milhões de páginas distribuídas por 3 milhões de servidores, acessíveis a partir dos cerca de 4,3 biliões de endereços existentes. Estimaram igualmente que cerca de 88% da informação disponível fosse de carácter «comercial», seguindo-se 6% de informação educativa/científica e cerca de 2% de informação pornográfica (Lawrence e Giles, 1999). A passagem de um universo de meios finito, o dos mass media tradicionais, para um de possibilidades alargadas na criação de novos meios, coloca questões não só quanto ao posicionamento dos mass media face à Internet, mas também sobre o modo como podemos orientar-nos num espaço que se assemelha mais à «Biblioteca de Babel» de Jorge Luís Borges (1998), do que a qualquer uma das bibliotecas municipais ou universitárias a que tenhamos acesso. Se uma perspectiva utilitária e de entreajuda presidiu ao aparecimento dos primeiros serviços de busca na Internet pré-massificada, a perspectiva comercial tomou em breve (rapidamente) conta da maioria destes serviços, como exemplificam vários casos de directórios criados no meio universitário e mais tarde tornados elementos centrais na chamada nova economia com aquisições ou valorizações bolsistas de grande dimensão financeira. A visão que presidiu ao interesse comercial pelos serviços de busca terá sido a mesma que esteve na origem desses mecanismos: o valor atribuído à orientação na Internet. A percepção dessa necessidade levou ao surgimento dos Portais, por via de uma estratégia comercial de consolidação de presença no mercado da «Nova Economia» e da necessidade de fidelizar os consumidores a um produto genérico, o acesso à Internet (passível de apenas ser diferenciado em custo e qualidade de acesso). Os Portais não surgem apenas como motores ou directórios de informação, têm um valor comercial pelo facto de levarem até si um extenso número de utilizadores, pelo que o comércio, a par de novos serviços e notícias, se vem juntar às suas funcionalidades iniciais. Mas não bastará percepcionar o papel central dos Portais na gestão da informação. Importa igualmente ter presente que os mesmos actuam como gatekeepers, não tanto na perspectiva tradicional de utilização do termo, referenciada à imprensa tradicional, mas como filtros, quer positivos quer negativos. A sua pesquisa é

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feita com base em opções de valorização ou desvalorização de ocorrências. Por um lado, como salientam Lawrence e Giles, os seis maiores motores de pesquisa conjugados apenas referenciam cerca de 60% do total da informação disponível na parte pública da web, ou seja, todas aquelas páginas que não estão protegidas por códigos de acesso ou por qualquer outro tipo de mecanismos de selecção. À percepção de que 40% da informação pública produzida não é passível de ser indexada por escolha ou limitação tecnológica dos motores vem juntar-se o facto de existir uma forte correlação entre as páginas que possuem referências entre si e a probabilidade de as mesmas serem indexadas. Isto é, quanto maior número de links existir a apontar para uma determinada página, maiores as probabilidades de a mesma surgir referenciada num motor de busca. Por último, importa referir que muitos dos motores de pesquisa reajustam os seus resultados hierarquicamente em função das opções mais frequentes nas utilizações anteriores. Os Portais são o retrato do modelo de interface, ou Internet gatekeeping, que o utilizador em geral possui face à Internet. Da sua análise e da compreensão da sua estrutura comunicativa e informativa dependerá grande parte da nossa percepção do processo do sistema dos media ou sistema multimédia, e da própria sociedade na sua dimensão comunicativa. As questões em torno daquilo que designámos como Internet gatekeeping afiguram-se assim centrais para problematizar a comunicação na Internet, pois quanto maior for a quantidade de informação mais aumentará a necessidade de auxiliares de pesquisa. Outro aspecto é o de saber que instrumentos utilizar na filtragem da informação e como avaliar a qualidade da mesma. A Internet é um espaço que coloca novas dúvidas quanto à aplicabilidade das estratégias de «dizimação da informação» perante um Mundo de informação diferenciada, onde o conhecimento directo de cada indivíduo e a análise lógica face à multiplicidade de assuntos não é humanamente possível. Consequentemente, a capacidade dos utilizadores para gerir as estratégias de validação da informação é substancialmente reduzida quando comparada com o uso de outros meios de acesso à informação como a televisão. A proposta que aqui gostaríamos de deixar é a de que as teorias da recepção desenvolvidas no quadro dos estudos sobre a televisão poderão constituir valiosos pontos de partida para o estudo de uma comunicação que, apesar de interactiva e com uma dupla dimensão de produção/consumo de informação, retoma no essencial muitos dos traços desenvolvidos nos trabalhos publicados sobre estas teorias.

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A dimensão da pesquisa é fundamental para a percepção dos processos de Internet gatekeeping. Mas, como já vimos, as potencialidades do software não traduzem a totalidade da dimensão da filtragem, sendo igualmente fundamental perspectivar o posicionamento dos actores sociais face à recepção da informação, por forma a seleccioná-la ou a rejeitá-la. Ora a Internet, pelas suas próprias características, apresenta a informação de uma forma mais segmentada e menos generalista. Todavia, a qualidade da informação não é assegurada por nenhuma entidade em particular, transferindo assim para o utilizador algumas das responsabilidades de validação da informação que estavam presentes no sistema dos mass media na dependência do Estado ou na de empresas com responsabilidade pública. Uma futura sociedade de informação não será obrigatoriamente um modelo de produção de conhecimento e de igualdade de capacidade para lidar com a informação. Poderá bem ser a sociedade daqueles que se encontram excluídos do acesso à informação, a par da sociedade daqueles que são submergidos pela incapacidade de lidar com a quantidade, a selecção, a memória, provocando complicados fenómenos de info-alfabetização e info-exclusão, em especial entre grupos e países mais desfavorecidos económica e socialmente. Por último, será uma sociedade fruída plenamente por aqueles que tiverem a capacidade de deter os mecanismos de selecção, tratamento da informação e produção de conhecimento. «Num momento de progressos tão marcantes nas novas tecnologias é indefensável que a pobreza humana ainda persista. O mais espantoso porém é que o caminho actual pode levar a uma maior marginalização e vulnerabilidade dos pobres» (PNUD, 1999: 73). O mapa da configuração mundial das desigualdades entre os povos e os diferentes

indivíduos,

neste

aspecto,

afigura-se

comprometedor

para

um

desenvolvimento mais universalizado e global. É preciso «tornar as comunicações mundiais verdadeiramente mundiais» (PNUD, 1999: 63). Para isso há que desenvolver esforços na realização de objectivos reais no caminho para uma «Sociedade da Informação».

6. Os estados e a regulação da participação na Internet

Uma análise comparativa das políticas e programas de governo em muitos dos países considerados centrais ou semi-periféricos permite-nos constatar que entre os

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objectivos mais partilhados se destaca a ideia da criação de uma sociedade assente no papel fundamental das tecnologias de informação e comunicação. Portugal, enquanto membro da União Europeia, apresenta-se como um interessante estudo de caso, não sendo um dos países mais desenvolvidos do continente europeu possui uma infraestrutura tecnológica e recursos humanos que lhe permitem criar as bases para um desenvolvimento de políticas informacionais com o objectivo programático de criar uma Sociedade baseada na Informação. Wolfang Truetzchler identifica seis grandes áreas de intervenção do Estado em torno das redes, nas suas utilizações e possibilidades: obscenidade, outros conteúdos ofensivos, aspectos económicos, privacidade, encriptação e acesso (Truetzchler, 1998). Deixando de lado, uma análise mais pormenorizada às restantes áreas, interessa-nos, no contexto da problemática do incremento a uma maior participação dos cidadãos na democracia, relevar a questão do acesso. Quer estejamos a falar numa perspectiva de criar consumidores ou do acesso dos cidadãos ao espaço dos fluxos, importa saber quantas pessoas acedem e quem são elas, por forma a delinear as políticas tendentes ao alargamento desse acesso. As duas grandes linhas de influência parecem oscilar entre a necessidade de criação de um serviço público para o acesso à Internet, na mesma linha do serviço público de telefone, e a criação das condições para um acesso universal (Schiller, 1999). No entanto, Kurland e Egan sugerem que o acesso não se limita à questão tecnológica, mas igualmente à cultura existente nas redes que constituem o espaço dos fluxos, simbolizado pela Internet. Aqueles apontam assim três tipos de barreiras ao acesso: educacionais, económicas e culturais. As barreiras educacionais resultam do facto de a interacção social na Internet requerer o domínio e a familiaridade com um certo tipo de hardware e de software, o qual não pode ainda ser obtido em todas as instituições educativas. As barreiras económicas são essencialmente fruto dos custos relativos à aquisição de software e hardware, bem como dos custos associados à utilização do telefone e ao acesso ao Internet Service Provider. Por último, importa explicitar que por barreiras culturais entende-se as que derivam do facto de dominar um discurso masculino em muitos dos fora online, uma cultura predominantemente americana e o uso do inglês enquanto língua base para a comunicação na Internet. No caso português a informação recolhida quer por empresas de estudos de mercado, quer por entidades académicas, permite-nos tentar delinear já um perfil quantitativo do acesso. Assim, recorrendo ao estudo do ISCTE-MSSTUDY II, e citando-o apenas como exemplo paradigmático, podemos dizer que cerca de 45% dos portugueses tem acesso a um computador, o que, no entanto, não quer dizer que

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façam ou saibam fazer uso do mesmo7. Os valores são mais reduzidos quando se inquire sobre o acesso à rede, (só 23,5% dos inquiridos afirma possuir acesso), ou sobre a real utilização da Internet (apenas 19,1% referem ser utilizadores activos). Em democracia, a cidadania depende da liberdade de informação e do acesso aos meios de comunicação. Acontece, no entanto, que com a Internet o acesso e a participação assumem novos contornos e significados, resultantes da própria natureza e características do meio, do contexto social, do conjunto de condições necessárias à sua utilização e do alargado leque de potencialidades, englobando-se numa mesma plataforma vários domínios de actividade profissional, institucional e empresarial, da vida quotidiana e da participação cívica. (Raboy, 1999: 298). Em relação ao acesso e uso de meios de comunicação no quadro de um debate sobre democracia e cidadania, uma das questões básicas é a de saber quem acede, e em que condições, e quem está afastado ou incluído. “O potencial das tecnologias de informação e comunicação para

facilitar

«democracias

fortes»

deve

ser

questionado

se

se

recusa

sistematicamente o acesso às pessoas com base no seu estatuto económico, sexo, localização geográfica, nível de escolaridade, etc.” (Hague e Loader, 1999: 9). Dado o número de utilizadores a nível mundial e tendo em conta o conjunto de questões levantadas sobre as novas competências necessárias para uma utilização plena da Internet enquanto espaço de participação, como se desenvolvem alguns processos de afirmação da cidadania no quadro nacional e internacional?

7. Novos media e novos espaços de mediação

Partindo do pressuposto de que nos encontramos perante um novo media que assume ora funções de convergência multimedial ora se converte num novo suporte para os velhos media, como a rádio, jornais ou televisão, importa desde já questionar se a participação neste espaço configura novas formas de mediação. A resposta é complexa e poderá sempre levar-nos em diferentes direcções, no entanto, julgamos encontrar na proposta de Majid Theranian, sobre os processos de mediação política conferidos aos media nas sociedades contemporâneas, um bom ponto de partida. Theranian apresenta-nos um esquema de leitura das forças em acção no campo político internacional e o papel que os media aí desempenham como

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Estudos nacionais e internacionais tendem a privilegiar o acesso em detrimento da utilização o que se ficará a dever essencialmente à fase incipiente da presença e utilização da Internet a nível mundial - a WWW existe desde 1995 e o número total de utilizadores rondará 304 milhões (http://www.nua.ie).

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espaço de interacção entre os poderes políticos instituídos e as diversas alternativas de pensamento, protagonizadas por organizações ou por indivíduos. Aquilo que pretendemos colocar em discussão, a partir de alguns exemplos concretos da realidade portuguesa e internacional, é saber se é possível olhar para a Internet enquanto espaço de participação de características homogéneas ou se, pelo contrário, existem modelos de participação que encerram em si diferentes perspectivas e, consequentemente, diferentes apropriações do meio. No nosso entender, a Internet pode desempenhar uma dupla função na participação dos cidadãos: a de estrutura organizadora de movimentos de efectiva participação e a de espaço de autêntica mediação política.

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Processo de Formulação de Políticas e participação através dos media

Processo de Topo-Base: desencadeado pelos interesses e políticas governativas e empresariais Recursos Naturais, tecnológicos e humanos

Definição Problema Comissões, grupos de reflexão, associações empresariais

Formulação da Política Governos e grandes corporações económicas

Legislação

Legitimação da Política Políticos, publicitários, imprensa.

Legisladores nacionais e organizações internacionais

Implementação e regulação Corporações económicas, governos, organizações internacionais, entidades reguladoras

Processo de Mediação: desencadeado pelas construções da realidade e discursos dos media em resposta a governos e oposição Recursos Redes de comunicação nacionais e globais

Definição Problema Imprensa de referência

Formulação da Política Donos dos media e editores

Legislação Leis nacionais sobre os media, acordos internacionais sobre direitos de autor, alocação de espectro e standards técnicos

Legitimação da Política Redes de comunicação nacionais e Globais

Implementação e regulação Associações dos media

Processo Base - Topo: desencadeado pelos poderes pequenos e médios, partidos oposição e associações Recursos Naturais, tecnológicos e humanos

Definição Problema Associações, movimentos de direitos sociais, sindicatos, movimentos religiosos, partidos da oposição, grupos

Formulação da Política Associações, movimentos de direitos sociais, sindicatos, movimentos religiosos, partidos da oposição, grupos

Legislação Parlamento, iniciativas legislativas dos cidadãos

Legitimação da Política Acesso aos media tradicionais (imprensa escrita, rádio e televisão), Novos Media (Internet),

Implementação e regulação Associações de voluntários, sindicatos, instituições religiosas e civis, associações de consumidores

Alguns exemplos: Timor, Seatle e as Redes Cívicas Exemplos deste tipo de organização informal podem ser encontrados no caso do protesto contra a repressão indonésia aos resultados do referendo de autodeterminação de Timor-Leste, uma situação em que os indivíduos com acesso a email e a fax’s criaram redes de solidariedade que causaram a interrupção nos servidores de email e fax das delegações do Conselho de Segurança da ONU e das diversas chancelarias dos membros permanentes do Conselho. Neste caso a partilha de um valor comum a nível nacional, o apoio à autodeterminação de Timor e a ideia de que a acção ao nível local não permitiria uma participação eficaz na resolução da situação, conduziu alguns milhares de portugueses, durante Setembro de 1999, a utilizar a Internet como faxgateway ou o email com o objectivo de obter a atenção da comunidade internacional. Utilizou-se, assim, a Internet de forma não organizada a

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partir de uma mobilização pré-existente a nível nacional com o objectivo de se fazer ouvir a nível internacional. Apesar de a mobilização não ter sido propiciada através do meio Internet, encontrou aí forma de potenciar a participação. Já o caso dos protestos de Seattle se afigura de algum modo diferente. Como salienta Stefano Rodotà, os protestos ocorridos aí durante o "Milleniun Round" da OMC foram organizados através da Internet mas só ganharam visibilidade e poder de mediação através das imagens difundidas pelas televisões para todo o mundo. A Internet assumiu assim o papel tradicionalmente assumido pelas estruturas em rede, ou seja, possibilitou que pessoas com interesses similares, ainda que dispersas, pudessem coordenar as suas acções. Para além desse papel organizativo conferido à Internet, o interesse em analisar aquela forma de protesto reside no facto de se poder entrever complementariedade para a eficácia da mediação dos meios. Os participantes nas acções de protesto compreenderam bem que apenas o recurso à Internet, um media ainda minoritário em termos de aderentes, não conferiria a legitimidade nem a força necessárias a colocar num impasse as negociações da OMC. Daí a necessidade de tomar as ruas em acções de protesto, organizadas através da Internet, mas difundidas pela televisão, o medium de massas por excelência na viragem do milénio. É de tomar igualmente em conta as acções desencadeadas pelo Movimento das Redes Cívicas, as «Civic netorks», na estratégia do uso das tecnologias para aumentar as práticas democráticas. Embora desenvolvendo na maior parte das vezes um investimento utópico na tecnologia isolada do seu contexto social, com objectivos pouco realistas, é de registar o seu empenho na exigência de mudança nos modos de regular as tecnologias da informação e comunicação, nas políticas no domínio da comunicação e telecomunicações orientadas pelo princípio de interesse público, na luta por novas oportunidades para a acção política colectiva e de procedimentos que proporcionem uma mais directa representação dos interesses e preferências dos cidadãos (Garnham, 1990: 16 e ss). Uma coisa ficou clara: a democracia electrónica não pode, por si só, democratizar as comunidades que serve. Parece-nos, assim, fundamental ter presente que na utilização da Internet a partilha de um igual valor simbólico entre emissores e receptores e o reconhecimento das culturas associadas aos diferentes media se afigura como fundamental para uma participação efectiva. Neste sentido, devemos olhar para a Internet enquanto instrumento propiciador da participação nas suas múltiplas facetas. Não só ao nível dos diversos tipos de

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software, mas também a possibilidade de permitir concertar posições e como tal agir enquanto media propiciador da organização e preparação de iniciativas, e também enquanto meio de comunicação que permite interagir entre as dimensões nacional e internacional em processos bidereccionais base-topo e topo-base. A Internet é, assim como os velhos media, promotora de processos de mediação política resultantes da participação. Através da sua estrutura em rede, a Internet promove a organização informal, característica de muitos dos novos movimentos sociais contemporâneos, ao mesmo tempo que reforça e renova estruturas do Estado que, não abandonando a sua perspectiva organizativa hierárquica, inicia igualmente processos de interacção em rede.

8. Democracia electrónica e participação cívica Como salientámos anteriormente, os conceitos de «teledemocracia» ou de «ciberdemocracia» têm por vezes, na linguagem comum, referência indistinta no que diz respeito à expressão «democracia electrónica». Evidentemente que autores como Christopher Arterton, Ted Becker, Bart-Jan Flos, Roza Tsagarousianou, Damian Tambini, Mark Poster, precisam muito bem conceptualizações diferentes e caracterizam de forma distinta esses termos. No entanto, a discussão no âmbito da ciência política centra-se mais nos conceitos de democracia representativa e democracia directa, democracia representativa e democracia deliberativa. Mas a discussão que temos vindo a introduzir neste paper não se circunscreve apenas a questões pragmáticas sobre a forma como se processam as votações ou referendos electrónicos ou, na expressão de Richard Hollander, não se resume a uma simples operação de «button push democracy». A nossa preocupação recai sobre o uso das novas tecnologias e o papel que estas podem desempenhar no desenvolvimento de várias formas e processos que podem fazer aumentar a participação dos cidadãos na democracia. Por isso, e como dissemos anteriormente, o termo «democracia electrónica» engloba o conjunto de meios que podem concorrer para aumentar as práticas democráticas e ampliar a esfera pública. Neste sentido, e a título exemplificativo, refira-se o caso português do Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal, elaborado pela Missão para a Sociedade da Informação, na tutela do Ministério da Ciência e Tecnologia, que prescreve uma exaustiva lista de 72 medidas de formas de participação pública por parte dos cidadãos.

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Saliente-se a este propósito a posição assumida por Tsagarousianou, Tambini e Brian, ao reconhecerem que os novos media podem ajudar a superar os problemas que os velhos media trouxeram à política: «os novos media, e particularmente a comunicação mediada por computador, espera-se, poderão contribuir para reverter prejuízos inflingidos à política pelos velhos media (…). Considera-se que novas esferas públicas irão surgir e que as tecnologias permitirão aos actores sociais encontrar ou forjar interesses políticos comuns. As populações poderão aceder activamente a informação numa biblioteca virtual infinita e livre em vez de receber “programações meio-digeridas”, e os media interactivos institucionalizarão o direito à resposta» (Tsagarousianou, 1998: 5). Igualmente, Barry Hague e Brian Loader, reconhecem que os novos media possuem características que em muito podem contribuir para o desenvolvimento das práticas democráticas, tais como: -

interactividade – pode haver comunicação com reciprocidade entre muitos

utilizadores; -

rede global – a comunicação deixa de estar agrilhoada pelas fronteiras

dos Estados-nação; -

liberdade de expressão – é possível expressar opiniões sem as limitações

da censura estatal; -

liberdade de associação – é possível aderir a comunidades virtuais com

interesses comuns; - construção e disseminação de informação – é possível produzir e partilhar informação que não esteja sujeita a revisão ou sanção oficial; -

desafio às perspectivas profissionais e oficiais – a informação estatal e

profissional pode ser desafiada; -

colapso da identidade dos Estados-nação – utilizadores podem adoptar

identidades locais e globais (Hague e Loader, 1999: 6).

Uma das vertentes em que a Internet tem sido considerada como um contributo inovador na actividade política tem que ver com a aproximação entre os actores e as instituições do sistema político e os cidadãos. São vários os planos a colocar em análise: a informação e comunicação de cidadania a partir dos orgãos de soberania e dos departamentos governamentais; o auscultar de públicos e a organização do feedback, como condição de eficácia e legitimação política, e como via de maior protagonismo dos serviços da administração; a informação e a comunicação das personalidades e dos partidos políticos com os

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eleitores; a criação de espaços de debate que potenciem a participação e a intervenção deliberativa dos cidadãos nos assuntos públicos, configurando novas dimensões da esfera pública. Todavia, muitos se interrogam: em que medida os usos das tecnologias de informação, da Internet em particular, na actividade política, estão a contribuir para redefinir e reestruturar o funcionamento dos sistemas democráticos, permitindo respostas adequadas às várias dimensões da «crise da democracia» nos países com sistemas de democracia representativa de modelo ocidental? Em resposta pensamos que é de tomar em conta o balanço e a reflexão realizados por Hoff, Horrocks e Tops, a partir de estudos realizados em três dos «mais avançados» países europeus – Dinamarca, Holanda e Reino Unido – sobre as utilizações e as implicações, em termos da política e da cidadania, dos modos de uso das tecnologias de informação em algumas dimensões da actividade política. De particular interesse é o facto de assentar em estudos empíricos da realidade europeia, dado que até aqui este debate tem sido dominado por trabalhos de autores referenciados às características do sistema político americano, algo diferente como se sabe do quadro político deste outro lado do Atlântico. Baseando-se em três planos de análise, cidadãos – administração, cidadãos – partidos, e cidadãos entre si, esta pesquisa, embora sem deixar de relevar alguns dos riscos colocados à cidadania, como por exemplo, o de violação de privacidade e o predomínio da lógica de difusão de uma informação «top/down» ou de um reforço das burocracias, segundo Van de Donk as «infocracias», sublinha as inovações e os benefícios trazidos à participação dos cidadãos na democracia. (Hoff, Horrocks e Tops (eds.), 2000: 173 e ss.). A análise dos aspectos positivos e negativos das tecnologias da informação e comunicação na vida social e política permitem admitir que essas tecnologias, e particularmente o media de referência nesta análise, estão a influenciar a democracia mas não no sentido que os utópicos tinham previsto. Estará, porventura ainda adiada a inauguração de uma nova era mais participativa da política de massas (Margolis e Resnick, 2000: 207). Efectivamente, a Internet tornou-se um medium de massa, pois, o aumento do número dos seus utilizadores é exponencial. Todavia, importa reconhecer que, por enquanto, o crescimento explosivo da Internet não gerou um comparável crescimento na participação política.

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9. Internet, uma via mas não um ágora da democracia com uma cidadania participada A Internet é um novo meio de participação política na medida em que proporciona novas formas de expressão da opinião pública e pode proporcionar um feedback instantâneo sobre acontecimentos do quotidiano. Contudo não é previsível que conduza ao triunfo da soberania popular ou da democracia directa. Como dizem Margolis e Resnick, a democracia directa, o velho sonho de Rousseau em que todos os cidadãos, ao mesmo tempo, participariam directamente no grande processo de tomada de decisões democráticas, parece agora uma possibilidade, na medida em que a tecnologia moderna pode ultrapassar os limites do espaço físico (Margolis e Resnick, 2000). Mas é uma utopia pensar que o moderno estado-nação pode ser transformado no equivalente funcional da antiga e pequena cidade-estado. Acontece, no entanto, que com a Internet o acesso e a participação assumem novos contornos e significados resultantes da própria natureza e características do meio; do contexto social em que é configurado; do conjunto de condições necessárias à sua utilização; do alargado leque de usos potenciais englobando numa mesma plataforma vários domínios de actividade profissional, institucional e empresarial; da vida quotidiana e da participação cívica. Noutro plano, começam a detectar-se tendências nas gradações dos níveis de acesso e exclusão que não remetem apenas para a disponibilidade de condições económicas e de meios tecnológicos que possibilitam o acesso «físico», mas para o conjunto de «condições prévias», disposições identitárias e representações sociais e culturais que condicionam e influenciam tanto a percepção da importância do acesso como a sua conversão em uso e usufruto proveitoso do ponto de vista dos interesses e expectativas dos sujeitos envolvidos. Isto mesmo poderemos dizer, e a título exemplificativo, que em relação a um estudo da situação em Portugal, a pesquisa que realizámos, sob a tutela do Ministério da Ciência e Tecnologia e do Programa PRAXIS XXI confirma esta perspectiva. (Oliveira e outros, 2000). Assim se ilustra o carácter multifacetado desta questão. Acesso e uso implicam pré-condições e atenção à diferenciação de posicionamentos e interesses dos vários sectores sociais. Sendo um aspecto fundamental para a participação democrática, a disponibilização de equipamentos é apenas uma parcela, uma parte do conjunto de instrumentos com que as pessoas deveriam estar equipadas para participar

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completamente na vida política mediada digitalmente. Esta é também uma das conclusões do Hispanic Computer and Internet Study (1998). Um acesso sem literacia do uso dos novos media compromete decisivamente o potencial participativo que possam encerrar. (Wilhelm, 2000: 89) Da problemática do acesso sobressai a consideração da necessidade de compaginar acesso, inclusão e adequação. E igualmente a necessidade de compatibilizar

acessibilidade

a

equipamentos

informáticos

e

redes

de

telecomunicações em termos de preço e qualidade de serviço aceitáveis, o desenvolvimento de competências de uso nos diferentes grupos sociais, a adequação das infraestruturas e da oferta de conteúdos aos interesses e expectativas dos cidadãos utilizadores. Será o mundo de possibilidades oferecido pela Internet, a realização da “democracia contínua” a que alude Stefano Rodotà? Solicitar a alguém a concretização das potencialidades de participação oferecidas pela Internet, a nível local ou a nível global, é por natureza um exercício de incerteza. Isto porque, aproveitando uma consideração de Umberto Eco no prefácio à Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt, também a construção de conhecimento sobre as dimensões económica, social e cultural da Internet é «a história de gente que descobre sempre a terra de que não andava à procura». É de incerteza que temos obrigatoriamente de falar quando procuramos caracterizar a Internet e a world wide web. Também aqui os discursos das empresas presentes no mercado e dos analistas e comentadores tem por vezes esse mesmo sabor de incerteza, de relato com base real mas imbuído de uma certa fantasia romântica com uma agravante, a de ao contrário da Balada, não possuirmos nem mapas actualizados nem um conhecimento histórico profundo que nos permita colocar a descoberto a totalidade das incertezas. Muitas vezes confundimos, nos discursos, os desejos e expectativas com uma qualquer realidade, que quando navegamos na Internet ou fora dela teimamos em ainda não encontrar. Esta é a matriz sempre presente na adopção de uma nova tecnologia de comunicação. Todas elas nos impelem a entrever o seu potencial transformador mas esse mesmo potencial não pode ser olhado sem recurso a todo o resto da sociedade, que trava, reduz, molda ou acelera em direcções não previstas essa força transformadora. Num momento de descoberta todas as ilusões são possíveis, bem como os naufrágios e a descoberta ou acumulação de riquezas, materiais ou outras. Mas as descobertas, embora sejam iniciadas por um punhado de Homens e Mulheres, só se tornam plenas quando apropriadas por um largo número de indivíduos. Até esse momento, resta-nos viver e antecipar as promessas e realidades

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do e-comércio ou da e-cidadania, do governo online, da democracia contínua, do teletrabalho, dos infoexcluídos, dos buracos-negros informacionais, dos continentes online e offline, dos mercados financeiros globais, da revolução zapatista, da organização dos protestos de Seattle, do Mp3, da pornografia, dos lucros da Nova Economia e da livre expressão individual nas páginas pessoais. O contributo das novas tecnologias de informação para o aumento de uma efectiva participação política dos cidadãos na democracia não pode resumir-se ao simples acto de passar a votar por processos electrónicos. Como salientava Norberto Bobbio tem de significar um conjunto de outros actos de participação pública. (Bobbio, 1986: 888) É interessante referir aqui, a título exemplificativo, as conclusões propostas pelo estudo de S. Verba e N. H. Nie realizado nos EUA. Os autores enumeram como formas de participação: 1) participação eleitoral em eleições presidenciais; 2) participação eleitoral em eleições locais; 3) actividade em pelo menos uma organização que lide com problemas comunitários; 4) envolvimento na resolução de problemas da comunidade; 5) envolvimento em campanhas eleitorais; 6) participação em reuniões cívicas ou políticas; 7) colaboração na resolução de problemas com autoridades do poder local; 8) envolvimento na formação de grupos ou movimentos que tenham por causa resolver problemas locais; 9) contribuição financeira para actividades políticas e cívicas; 10) militância em qualquer instituição política. (Verba e Nie, 1972: 31) Para que a «democracia electrónica» faça crescer e fortalecer uma cidadania participada é decisivo o estabelecimento de condições como a distribuição mais equitativa de informação, conhecimento, saber. As tecnologias, e particularmente a Internet, são via de acesso mas não o Ágora de uma democracia mais fecunda e aprofundada para os cidadãos. As tecnologias são ferramentas, infra-estruturas, media, não dispensam cidadãos que saibam fazer uma utilização capaz e eficiente para a construção da «cidade digital» em «democracia electrónica». Referências bibliográficas

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Capítulo II

A world wide web da vigilância: a Internet e os fluxos de poder «Off-World» _____________________________________________________ David Lyon

Introdução Dá-se muita importância ao carácter potenciador da Internet. Diz-se que esta fantástica ferramenta nos liberta para fazer coisas até agora nunca sonhadas. A ideia de uma «World Wide Web» sugere uma rede global de nós electrónicos interligados que tornam possível um novo nível de comunicação que, passando do velho modo de radiodifusão para uma esfera de trocas, promete melhorar até a estrutura democrática do sistema telefónico. As características descentralizadas dos telefones e as posições alternáveis de emissor e receptor são ampliadas e enriquecidas na Internet, potenciando novas relações comunicativas no seio de um emergente ciberespaço (ver a título de exemplo, Poster, 1995). As Webs (teias) podem ter outros objectivos, é claro. A aranha tece a sua teia de modo a enredar e a apanhar a mosca confiante. Quanto mais a mosca luta, mais presa fica. Sem contestar qualquer das possibilidades democratizantes inerentes à Internet, vale a pena explorar a capacidade da «Web» para capturar e controlar, atingir e apanhar, gerir e manipular. Embora tenham ocorrido muitas mudanças desde o nascimento do precursor da Internet, um sistema de comunicações militares da Guerra Fria, o poder não foi simplesmente descartado como se se tratasse de um traço infantil. Em vez disso, está agora ligado a uma ampla vigilância tecnológica cada vez mais integrada. Os dados «pessoais» recolhidos na Web são de diversos tipos. A Internet torna possíveis novos planos de integração da vigilância, relacionados com situações de trabalho, administração governamental, policiamento e, acima de tudo, marketing. Podemos ver uma câmara de vigilância no centro comercial ou mesmo suspeitar que mais alguém está a ouvir a nossa chamada de telemóvel. Mas a vigilância baseada na Internet é bastante mais subtil. O leitor faz parte de um grupo de utilizadores? Os

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motores de pesquisa para «encontrar-pessoas», tais como o Alta Vista ou o Dejanews, recolhem dados pessoais sobre elas. Visita páginas Web? Muitas dessas páginas criam automaticamente registos de visitantes, recolhendo dados directamente do computador do utilizador, como o tipo de computador, o endereço de correio electrónico e a página que o leitor visitou anteriormente. A teia é quase imperceptível e, embora cada movimento da «mosca» a deixe mais enredada, a «mosca» continua ditosamente desconhecedora do que lhe está a suceder. De modo a compreender a World Wide Web da vigilância, é necessário, em primeiro lugar, conhecer as suas origens. Os precursores da vigilância contemporânea são muitos, mas a Internet ajuda a mudar tal actividade para um registo diferente, para um outro plano. Onde outrora o foco estava na monitorização do lugar temos agora dados de vigilância fluindo numa espécie de esfera «off-world». Os bens imobiliários do «off-world» são anunciados aos habitantes da terra no filme Bladerunner. Esta minha acepção do termo repercute a referência de Manuel Castells (1989) a «correntes» económicas, desligadas de lugares físicos, viabilizadas pelas tecnologias de informação e comunicação (TCI). Tais correntes são essenciais para o «controlo remoto» exercido pelas empresas sobre aspectos de produção geograficamente dispersos e crescentemente de consumo. As várias formas desta actividade de vigilância do «ciberespaço» geradas na Internet são exploradas na segunda parte, sendo referidos os seus traços comuns. Em terceiro lugar, como devem ser entendidas estas práticas de vigilância? Como uma extensão do controlo capitalista ou mais uma prova do encerramento da nossa identidade numa «gaiola de ferro» electronicamente construída pela organização burocrática? Ou serão melhor compreendidas como uma forma de poder panóptico, onde um observador invisível vigia um regime de verdade e conhecimento? Deveria a teoria social tentar ultrapassar estas tensões moderno/pós moderno? A terminar comentar-se-ão perspectivas para uma investigação social crítica, tendo em conta a necessidade e a dificuldade de tal abordagem.

Vigilância: uma indústria moderna em crescimento

Observar as actividades dos outros, como um meio de monitorizá-los e supervisionálos, não é uma prática recente. Os registos mais antigos – por exemplo do Egipto ou da Babilónia – indicam que a vigilância foi levada a cabo para controlar populações, com objectivos de tributação ou militares, ou para assegurar que o trabalho era feito

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satisfatoriamente. Nos tempos modernos, contudo, a vigilância tornou-se muito mais um procedimento habitual e geral, envolvendo a totalidade de populações nacionais e contemplando um vasto leque de actividades e situações da vida. Os nascimentos, casamentos e mortes têm sido registados automaticamente, os indivíduos têm vindo a ser classificados segundo a idade e o status para votar em eleições democráticas e os trabalhadores foram reunidos debaixo do mesmo tecto para facilitar a supervisão. No

século

XX

estes

processos

intensificaram-se.

A

administração

governamental tem levado a cabo estudos sobre a população e departamentos como os da saúde, da segurança social, da imigração, da tributação, das alfândegas, da habitação, dos veículos e atribuição de cartas de condução, têm mantido registos cada vez mais detalhados. Mecanismos racionais para a organização burocrática, excelentemente analisados por Max Weber, têm empregado uma panóplia de métodos para criar e manter ficheiros e, assegurando uma hierarquia de funcionários vigilantes das normas, têm assim mantido o controlo. A lógica do desenvolvimento capitalista também motivou a supervisão e a monitorização para maximizar a produtividade e o lucro. A gestão científica tem representado esta tendência para uma maior intensidade da vigilância, ao centrar-se em análises detalhadas de tempo-e-movimento. Em meados do século XX tornou-se claro que a vigilância era constitutiva da organização moderna. Contudo, o termo «vigilância» estava ainda reservado principalmente para os serviços de informação e segurança e não para os aspectos rotineiros da vida quotidiana. A «vigilância» só se tornou realmente conhecida, enquanto área de pesquisa de pleno direito, em meados dos anos 80, por diversas e interessantes razões. Uma delas foi o facto de que organizações de todos os tipos começaram a utilizar o computador, a partir de 1960. A massiva compilação de informações pessoais começou durante a era da Guerra Fria, quando os Estados socialistas ainda exerciam um apertado controlo político sobre os cidadãos, provocando receios em relação ao surgimento de Estados policiais Orwellianos e máquinas burocráticas Kafkianas sem face. As investigações sobre as implicações sociais das tecnologias electrónicas sugeriram para alguns o advento de «sociedades de vigilância» (Marx, 1985; Flaherty, 1989). Ao mesmo tempo que ocorria a expansão e o aumento da computorização, o entusiasmo crescia relativamente aos estudos de Michel Foucault acerca das formas modernas de disciplina. Estes estudos surgiram numa série de livros, mas de um modo mais relevante para os nossos objectivos no seu livro Discipline and Punish (1979). Com este livro, o plano arquitectónico para a prisão «panóptica» tornou-se uma referência para as modernas técnicas disciplinares que sujeitam os seres

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humanos a regimes regulares e previsíveis. O que Foucault não tentou, no entanto, foi extender a sua análise às formas electrónicas de vigilância. Os autores que o fizeram tendem a focar os seus estudos no panóptico como chave para o poder das bases de dados em rede, talvez à custa de outras abordagens, como a do «biopoder». Voltarei a este aspecto mais à frente. Surgiram pelo menos dois grandes debates no que se refere à vigilância. O primeiro centra-se na questão de se determinar até que ponto as tecnologias electrónicas contribuem para um tipo de vigilância qualitativamente diferente da caracterizada pelos ficheiros em papel e por uma organização burocrática clássica. Analistas como James Rule (1973) e Gary T. Marx (1988) argumentam afirmativamente e apresentam explicações sociológicas sobre como isto acontece. A segunda questão consiste em saber até que ponto o trabalho de Foucault pode ser aplicado à vigilância electrónica (ver Lyon, 1993). Analistas como Frank Webster e Kevin Robins (1986), Shoshama Zuboff (1988) e Diana Gordon (1987) foram dos primeiros defensores da relevância do panopticismo, enquanto outros se mostraram menos seguros disso. Os dois debates convergem agora na área de mais rápida expansão, a vigilância do consumidor. O uso das recentes tecnologias levanta a questão de se saber até que ponto as bases de dados para marketing suplantam os antigos estilos da publicidade de massa, da distribuição de cupões e da «lealdade» dos associados de clubes. A chamada «clientela de massa» cria incentivos à recolha de dados pessoais para uso no processo de produção e marketing. Os fabricantes ou retalhistas pretendem estabelecer tipos de serviço no relacionamento com os clientes, recolhendo, armazenando ou manipulando informação acerca deles de modo a controlar os seus comportamentos (Samarijiva, 1994:91). O marketing através de bases de dados funciona por agrupamento dos consumidores segundo tipo social e localização e por, cada vez mais, tentar personalizar a publicidade e a informação prestada ao consumidor. Isto está directamente ligado com a análise de Foucault. O panóptico trabalha tanto por classificação como por observação. Mais concretamente, Webster e Robins explicam esta tentativa como uma forma de influenciar os consumidores através de uma «gestão social» – uma extensão das práticas Tayloristas de gestão científica. Isto é elaborado e refinado no trabalho de Oscar Gandy no que denomina como «grupo panóptico», em que as bases de dados para marketing são vistas como uma «tecnologia discriminadora» para classificar e orientar os consumidores (Gandy, 1993, 1996). Em qualquer dos casos, os dados pessoais são compilados de fontes públicas ou de informação facultada, intencionalmente ou não, pelo consumidor.

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A vigilância do consumidor usa muitas das mesmas técnicas de outras formas de fazer vigilância de dados, tais como construção de perfis, associação de registos, e assim por diante, mas na América do Norte funciona em grande medida fora do alcance dos limites regulamentares colocados a estas práticas pelos governos (Quebeque é a excepção). Em conjugação com a aparente eficácia da mais estrita sociologia behaviorista, que envolve a canalização da escolha e a orientação do desejo, isto significa que as bases de dados para marketing cresceram em poucos anos. Até há pouco, o único entrave a este processo foi a relativa falta de meios de comunicação para transmitir dados, não só internamente, mas também entre países e continentes. Mas agora existe a Internet.

A vigilância do ciberespaço

A expressão «World Wide Web da vigilância» deve ser tomada mais como metáfora do que como designação literal. «Vigilância com base na Internet» designa melhor este campo, apesar de, tecnicamente falando, não envolver os sistemas de e-mail, mesmo que muitos se refiram casualmente ao e-mail como sendo «estar na net» ou aos seus endereços de e-mail como sendo «endereços na Internet». Talvez «vigilância no ciberespaço» fosse mais adequada, referindo-se a quaisquer formas de vigilância que ocorram nas comunicações mediadas por computador. Do ponto de vista dos sujeitos, tudo isto faz parte de uma rede urdida a partir do teclado e que pode ser vista – se se souber onde procurar – no monitor. Podem distinguir-se três grandes categorias de vigilância no ciberespaço, relacionadas com o emprego, a segurança e policiamento e o marketing. Estas categorias tornam-se confusas na prática, pelo menos por duas razões. Uma é a de que a própria existência das redes electrónicas torna mais fácil, em princípio, que os dados sejam partilhados entre diferentes agências, embora na maior parte dos países os regimes reguladores limitem isso. A outra é a de que a mesma rede usada por grandes e poderosos organismos, tais como governos e empresas, pode também ser usada por indivíduos ou grupos com muito menos poder. Pelo menos isto significa que a vigilância no ciberespaço não é necessariamente centralizada. Como William Bogard (1996:134) observa, é não só um sistema global, «mas também uma rede orbital e celular que liga os níveis macro e micro da recolha de informação». Em situações relacionadas com o emprego, a monitorização e as formas de supervisão da vigilância são comuns, pelo que não surpreende que o crescente uso da Internet pelos empregados e, acima de tudo, o uso do correio electrónico, tenha criado

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novos desafios. Em Dezembro de 1996, um cientista federal canadiano do Ministério da Defesa foi preso por alegadamente ter feito um download de mais de 20.000 imagens e videos de pornografia infantil, usando o computador do seu escritório (Macleod, 1997). Também em 1996, a Compaq Computer em Houston, no Texas, despediu doze empregados por durante o horário de trabalho terem visitado sites de sexo. No que diz respeito ao e-mail, surgiram preocupações entre os empregadores acerca da utilização do horário de trabalho e de recursos da empresa para correspondência privada, dentro e fora da organização. As respostas a tais práticas geralmente tomam a forma de medidas técnicas para minimizar o risco de reincidência. É instalado um software para gravar e relatar todas a actividades relacionadas com o uso da Internet e do correio electrónico. Todas as divisões de serviço de informação tecnológica das empresas têm a capacidade de localizar o uso da rede electrónica e vigiar o conteúdo das mensagens de correio electrónico. Em grande parte da América do Norte a utilização ou não deste sistema, é considerado um assunto de política interna da empresa ou da organizacão. Há alguns anos, uma sondagem a gestores dos EUA revelou que 22% tinham feito buscas nos ficheiros de computador dos empregados, no voicemail, no endereço electrónico e noutras comunicações electrónicas (Pillar, 1993:7). Os resultados são por vezes dramáticos. Um polícia de Los Angeles, Laurence Powell, teve problemas depois de enviar uma mensagem por correio electrónico a um amigo, descrevendo o seu envolvimento com Rodney King: «Eu não batia tanto em ninguém há muito tempo» (Weisband e Reinig, 1995:41). Estes exemplos, retirados de situações de trabalho, também se aplicam à área do policiamento e segurança. Parte do policiamento é privado, tal como quando o fornecedor de serviços canadiano i-STAR retira a certos grupos de risco o acesso público à hierarquia alt.sex. Mas outra parte é pública, quando a vigilância baseada na Internet é conduzida por serviços policiais constituídos legalmente. Em 1995, por exemplo, o FBI americano conduziu a «Operação Inocente», uma acção sob disfarce na America On-Line (AOL) envolvendo a intercepção de correio electrónico de pessoas que responderam a mensagens que deixavam supor serem de pedófilos. Foram feitas buscas-surpresa a 125 casas e escritórios em 57 cidades e daí resultaram muitas prisões (New York Times, 16 de Setembro de 1995, citado em Zuidwijk e Steeves, 1995). O mais conhecido esforço para possibilitar a expansão da vigilância de segurança na Internet é o chamado Clipper Chip. Em 1994 o governo dos EUA propôs introduzir um modelo uniforme de encriptação que iria efectivamente impedir a proliferação de códigos concebidos para proteger a privacidade das comunicações

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electrónicas. Enquanto os utilizadores individuais poderiam ficar certos de que as suas mensagens continuariam privadas, a única excepção era a de que, no interesse da «segurança nacional», os agentes do governo poderiam interceptá-las, quando fosse apropriado e necessário. É desnecessário dizer que a controvérsia sobre esta proposta foi muito intensa – online e offline – e está, ainda, longe de ser totalmente resolvida (ver Levy, 1994). Enquanto os exemplos precedentes da vigilância no ciberespaço, no emprego e no policiamento são interessantes e, para muitos, alarmantes, revelam-se escassos quando comparados com o massivo arsenal de vigilância comercial usada pelos comerciantes. Muitos suspeitam que a própria Netscape localiza os movimentos virtuais dos seus utilizadores, admitindo que estes têm conhecimento cada vez que um dos seus browsers está a ser utilizado. Curiosamente, quando em Maio de 1996 um novo ‘Communicator Suite’ estava a ser lançado pela Netscape, uma empresa de software dinamarquesa descobriu que os operadores de um Website poderiam ler tudo o que estivesse no disco rígido do computador aí ligado, e isto apenas foi referido como tratando-se de um «bug» (CNN, 1996). Muitas outras empresas estão certamente encarregues de obter os perfis detalhados dos utilizadores da Internet. Algumas delas usam o já gasto método do registo – como quando se preenche um formulário de garantia para uma aplicação, dando assim dados pessoais detalhados à empresa – para obter os perfis dos visitantes de Websites. Nestes casos, é necessário algum consentimento informado dos surfistas da rede. Em muitos outros casos, contudo, tal consentimento não é procurado ou pretendido. Os Websites frequentemente enviam mensagens automáticas de volta aos seus emissores, facultando dados acerca das necessidades, hábitos e compras dos utilizadores, baseados nas suas visitas ao site em questão. Parte da informação relativa a transacções é gravada passivamente, de modo a que o webmaster possa determinar que ficheiros, fotografias ou imagens são de interesse para o utilizador, quanto tempo foi gasto com cada um e onde é que o utilizador estava antes e depois de visitar o site. Perfis da Internet mais conhecidos como o I/PRO, indicam quanto e por quem um site é usado. Os clientes do I/PRO incluem Yahoo!, Compuserve, Netscape e outros como as CMP Publications e Playboy (Stagliano, 1996). Os chamados «Cookies» (Client-Side Persistent Information) concedem amplas capacidades de detecção a empresas, desejosas de explorar comercialmente os valiosos dados pessoais segmentados de indivíduos comuns. Os Cookies permitem que os Websites armazenem informação acerca dos sites visitados no disco rígido do utilizador, em seguida lêem a drive cada vez que um site é visitado para descobrir se o utilizador esteve lá antes. As últimas técnicas de marketing aplaudem estas práticas

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por oferecerem ao consumidor benefícios, tais como anúncios personalizados, feitos à sua medida. Mas o título de um desses manuais – Strategic Marketing for a Digital Age (Bishop, 1996) – também deixa poucas dúvidas acerca de quem mais beneficiará desta manobra «militar». Recentemente, deu-se grande importância ao potencial de utilização de «agentes inteligentes» para quebrar a habitual monotonia no processo de procura de informação através dos motores de pesquisa da Internet. Com alguma ironia, os «agentes» que agora usam os mais sofisticados processos de localização, incluindo «técnicas cartográficas», foram denominados «aranhas» (spiders). A empresa NetCarta, que produz tecnologias cartográficas, realça o aumento da produtividade destas aranhas. Embora ainda não seja muito notório o seu uso na localização e construção de perfis de consumidores, o potencial é óbvio (ver Elmer, 1997: 185). Outra técnica, conhecida como data mining, é usada com crescente frequência na Internet. A empresa Chicago Tribune, por exemplo, utilizou data mining para analisar o comportamento dos consumidores à medida que estes mudam de site para site. Embora seja verdade que muitos dados recolhidos via Internet estão disponíveis a qualquer utilizador detentor de cartão de crédito, o facto é que só grandes empresas podem sustentar técnicas de elevada escala como a data mining. O chamado «pânico da privacidade» surgiu, nos finais de 1996, em torno das actividades da Lexis-Nexis e do seu sistema P-TRACK, destinadas a ajudar a polícia e os advogados a localizar litigantes, testemunhas, accionistas, devedores, herdeiros e beneficiários. Em resposta a um protesto relativo à disponibilidade dos números da segurança social, assim como dos nomes, moradas e números de telefone, a Comissão Federal de Comércio (FTC) dos Estados Unidos exigiu uma protecção da privacidade mais abrangente, e a Lexis-Nexis eliminou o acesso aos números da segurança social. Sucede que outras empresas oferecem serviços mais completos do que a P-TRACK, igualmente a custos fixos per datum. A Information Resources em Fullerten CA, por exemplo, oferece itens tais como registos criminais e de tribunal, números de segurança social, registos de condução e referências sobre empregos anteriores. Embora não se possa obter tais informações directamente da Web, todas estas empresas – Information Resources, CDB Infotech, Information America, etc. – têm Websites com fins comerciais (). No entanto, algumas empresas oferecem manuais para venda que dão detalhes sobre a utilização dos mecanismos de pesquisa na Internet para encontrar dados pessoais, recolhidos de várias fontes, incluindo as de origem privada (por exemplo, a ‘Snoop Collection’ da ‘Background Investigation Division’ em Chico, Califórnia). Não nos levarão a mal se

100

perguntarmos por que é que essas empresas costumam acompanhar as suas declarações com exigências de cumprimento da «liberdade de informação». Ainda há muita incerteza em volta do uso, através da Internet, de bases de dados pessoais e de fontes de informação pessoal. Ninguém parece objectar contra a existência de directorias nacionais de páginas brancas que podem ser utilizadas como forma de localizar pessoas e negócios (tal como Canada411:). Todavia, quando a cidade de Victoria colocou os seus registos de impostos na Internet, o Comissário da Privacidade da Columbia Britânica, David Flaherty, anunciou um inquérito. O receio era de que as pessoas pudessem ser localizadas, quando poderiam ter razões legítimas para esconder os detalhes do seu paradeiro. O site provou ser extremamente popular mas o Presidente da Câmara fechou-o depois de o inquérito ter sido anunciado (McInnes, 1996). Teorizando a vigilância na web O que John Beniger (1986) chama «revolução do controlo» estende-se por todas as organizações modernas. Especialmente na polícia, nos militares e nas empresas, é evidente um movimento burocrático, incitando a uma mais estreita previsibilidade como meio para obter um maior controlo. De acordo com Beniger, tal controlo é visto como aumento da probabilidade de um resultado desejado. Esta é a lógica subjacente a muitos tipos de vigilância. Todas as instituições contemporâneas nas chamadas sociedades desenvolvidas são caracterizadas por um imperativo interno para obter, armazenar, produzir e distribuir dados para uso na gestão de risco de e para as respectivas populações. Os exemplos supra-mencionados mostram como isto funciona na prática. Os empregadores tentam reduzir o risco – de trabalhadores que usam o horário ou o equipamento de trabalho para os seus próprios objectivos, por exemplo – em situações de emprego. A polícia, em conjunto com outras instituições, trabalha no sentido de prevenir o risco da prática de crimes ou, mais genericamente, de comportamentos ameaçadores. E os homens de negócios fazem tudo o que estiver ao seu alcance para evitar os riscos de perder oportunidades, nichos de mercado e, em última instância, lucro. Todos estabelecem procedimentos de recolha de dados para tentar assinalar riscos (ou oportunidades) e prever resultados. Por conseguinte a vigilância espalha-se, tornando-se constantemente mais rotineira, mais intensiva (perfis) e extensiva (populações), guiada por forças económicas, burocráticas e agora tecnológicas. Relativamente a estas últimas referimo-nos particularmente às

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tecnologias de informação e comunicação e às lógicas internas de tais sistemas que servem para apresentar como «reais» os riscos em questão. A literatura acerca da vigilância torna-se imprecisa a este nível. Duas das principais preocupações têm a ver com os resultados das situações de vigilância. Uma refere-se à participação social, a outra à individualidade. A primeira vê os resultados da vigilância em termos de divisão social e de desigualdade, e deste modo, acesso social e exclusão. A segunda centra-se em questões de «invasão de privacidade», de identidade e às vezes de dignidade humana. Infelizmente, alguns teóricos parecem tão preocupados com esta última que ignoram ou minimizam o significado da primeira. No entanto, as duas dimensões sobrepostas, na realidade, são duas faces da mesma moeda. A identificação e a identidade, por exemplo, podem ser um meio de inclusão e exclusão. Assim, a individualidade realiza-se na participação. A vigilância está claramente relacionada com a manutenção da desigualdade e divisão social. Os tipos panópticos (Gandy) distinguem diferentes classes de consumidores, o que tem o efeito de reforçar os padrões de estilos de vida e as expectativas de cada grupo e de manter uma barreira invisível, mas efectiva, entre consumidores e não consumidores. Esta última origina populações marginais – devido à sua idade, etnicidade, rendimento, vizinhança, etc – que são em parte constituídas pelo funcionamento dos sistemas de vigilância que se concentram nos mais ricos e respeitáveis escalões da sociedade. Tais grupos marginais têm a sua própria vigilância, que tende a ser muito mais punitiva, fundada na saúde, no bem-estar e nos sistemas penais (Lyon, 1994; cf., Ericsson, 1993). A vigilância também intensifica questões de identidade, quando – na perspectiva dos sujeitos – a capacidade para controlar a comunicação acerca de si próprio é violentamente retirada ao indivíduo. Este é um elemento crucial no debate acerca da privacidade, um direito que implicaria tomar esse controlo (ou a sua restituição) através de vários meios. O recurso legal através da legislação sobre a privacidade e a protecção de dados é um meio, a crescente panóplia técnica de mecanismos de encriptação e «tecnologias de salvaguarda de privacidade» (PET) é outro. As análises da vigilância que partem de uma premissa de privacidade estão a centrar-se em questões completamente filosóficas de individualidade, e, em particular, no tipo de expectativas que cada um pode ter sobre a autodeterminação comunicativa. Tais análises tendem a assumir que os sujeitos autónomos e individualizados estão ameaçados pela intensificação da vigilância. Estes problemas são claramente de importância política e ética, e é por essa razão que eles devem ser discutidos em relação ao aparecimento das práticas de vigilância no ciberespaço. Mesmo que aparentemente apartadas da vida quotidiana e

102

do controlo público estas práticas assentam em relações muito poderosas, de consequências materiais demasiado reais. Como diz Stephen Graham, muitos destes sistemas estão directamente «ligados à protecção e fortalecimento de condomínios de consumidores abastados e zonas empresariais... e à exclusão, ao reforço do controlo dos grupos e áreas marginalizados pelo mercado de trabalho e pela reestruturação da assistência social» (1996: 28). A distribuição de oportunidades e de bem-estar comunitário e pessoal está cada vez mais dependente de sistemas de vigilância avançada mais e mais eficientes. Para além destas questões de participação e individualidade, existem, contudo, outras preocupações acerca da natureza da vigilância contemporânea no ciberespaço. Os assuntos já discutidos supõem que os modernos discursos sobre os direitos humanos ou a justiça social ainda são válidos no mundo da Internet. No entanto, a Internet

está

relacionada

com

certas

mudanças

culturais

que

questionam

precisamente estas categorias. Mark Poster, por exemplo, defende que o modo como as bases de dados pessoais funcionam actualmente as configura como um «superpanótico» (1995). As práticas de vigilância não são tanto uma ameaça à «privacidade» de um sujeito individual, estando antes, na realidade, envolvidas na própria constituição dos sujeitos. Esta dimensão constitui uma nova perspectiva sobre a vigilância, que é sublinhada noutras análises do «superpanóptico» (por exemplo, Mehta e Darier, 1997). Esta «nova dimensão» pode ser vista em práticas mais convencionais. No caso da prática da medicina, refere Robert Castel, houve uma passagem da ênfase dada ao exame directo do paciente para um exame de registos «compilados em várias situações por diversos profissionais e especialistas ligados unicamente pela circulação de dossiers de indivíduos» (Castel, 1991:282). Este processo atravessou, segundo o autor, um limite e ganhou o carácter de uma mutação, uma nova forma de vigilância que incorpora a prevenção de risco. Os sujeitos individuais são agora menos importantes do que as correlações estatísticas; a gestão autonomizada torna-se a ordem do dia. Se se puder aconselhar e orientar os indivíduos em vez de assumir responsabilidade por eles, então a estratégia de gestão funcionou. Isto até poderia ser visto, defende Castel, como uma situação «pós-disciplinar», em que a procura de eficiência se tivesse tornado primordial. «Planificar trajectórias sociais a partir de uma avaliação “científica” das capacidades individuais» é o novo – talvez mítico – objectivo (1991: 296). O interesse pela gestão do risco pode conduzir a teoria para além do panóptico, para a noção de «biopoder» de Foucault, que é discutida não em Discipline and Punish mas na sua History of Sexuality (1978). O que Richard Ericson e Kevin

103

Heggarty afirmam sobre o biopoder como instância normativa pode igualmente ser aplicado, numa escala mais vasta, à vigilância no ciberespaço: «O biopoder é o poder da biografia humana, da construção de perfis biográficos de populações humanas para a gestão do risco e o fornecimento de segurança... com vista a fabricar pessoas para o corpo social... de acordo com a lógica da norma» (1997: 91-2). O espaço impede o desenvolvimento deste aspecto, mas a lógica social (para além do panóptico disciplinador dos corpos) e a tecnologia de vigilância permanecem satisfatoriamente ligadas. A ideia de que pudesse haver um «objectivo mítico» de vigilância é explorada por William Bogard (1996). Argumenta este auotr que uma «simulação» da vigilância está a contribuir para um «hipercontrolo» nas sociedades imbuídas de redes tecnológicas de comunicação e informação. A «mutação» descrita por Castel parece ter uma relevância mais ampla. Bogard acrescenta o trabalho de Jean Baudrillard ao de Foucault para tentar obter eficácia teórica nos aspectos simulados ou virtuais da vigilância. Onde o panóptico original liderava com o tempo real e o espaço físico – essencialmente, uma arquitectura – o «hiperpanóptico» dos nossos dias existe através de uma esfera de ambientes electrónicos, onde o tempo é assíncrono, a velocidade dos fluxos é crucial e onde a distância e a proximidade estão ofuscadas pelo «ciberespaço». A bibliografia existente fala frequentemente de imagens-dados ou sombras-dados, e de limites ofuscados entre imagens e realidade, mas o trabalho de Bogard sugere que este aspecto é central, não um epifenómeno, na situação actual. Bogard salienta que a simulação da vigilância não significa que esta seja ilusória, irreal. Na realidade, «quanto melhor for uma simulação, menos conhecimento há da parte do artífice que a identifica como uma simulação» (1996:31). Isto relacionase com a ideia de um «objectivo mítico» de vigilância, ou seja, a ideia de que o problema de controlo perceptual sobre uma distância é solucionado por novos meios electrónicos. O conhecimento antecipado de quem é susceptível de tomar parte em fraudes à segurança social, comprar Benetton ou votar Liberal é entendido como um meio de manter a ordem, normalizar populações, maximizar a eficiência. A vigilância ilimitada é o objectivo não declarado «e é atractivo para políticos, polícia, homens de negócios e empresas de alta tecnologia de modo idêntico» mas é, como diz Bogard, «real só na simulação» (1996: 49). A par de formas mais antigas de monitorização e supervisão (como o uso de software para controlar empregados ou o uso da Internet por crianças) estão estes novos métodos, que cada vez mais envolvem os sujeitos da vigilância, agora parte de um cenário de vigilância total. E a Internet serve somente para tornar o objectivo mítico (aparentemente) mais realizável.

104

Estas reflexões contribuem para a análise na medida em que ajudam a teoria a mover-se para além dos confins do espaço físico e do tempo real – uma tarefa já realizada na esfera virtual do ciberespaço. Mas seria um erro abandonar a escada de Wittgenstein à medida que subimos através das nuvens até este novo nível de simulação vigiada. O perigo de discursos que habitam um mundo de simulações é esquecer a realidade do «mundo real» (ver por exemplo, Robins, 1995). Isto obriga a que quaisquer reflexões construtivas que sejam recolhidas de Foucault e Baudrillard, sejam articuladas com o acesso, a inclusão/exclusão e a participação, por um lado, e a identidade, a dignidade e a individualidade por outro. Como Graham relembra a respeito da cidade, «teias (webs) de sistemas de vigilância simulados são tecidas para suportar e construir a fábrica da vida urbana “real”, à medida que as paisagens “reais” das próprias cidades se transformam numa esfera de simulação vigiada» (1996, 28; ver também Robins, 1995). Ainda há muito trabalho a fazer para compreender como estes sistemas funcionam.

Trazer a vigilância do ciberespaço à terra

A World Wide Web da vigilância existe como um meio de controlo, aprofundando através de redes electrónicas formas de vigilância já existentes. A forma exacta como esse controlo é procurado e obtido – panopticismo? biopoder? – continua discutível, embora nesta exposição seja claro que as desigualdades existentes de poder e acesso são reforçadas, e, para os que estão preocupados com a sua transparência digital, os receios de ser vigiado por um olhar oculto são inevitáveis. A discussão anterior sugere que a vigilância moderna, baseada na chamada revolução do controlo, se desenvolveu rapidamente em novas direcções desde o início do poder do computador. Enquanto tal, a informatização surgiu como um modo para realçar e aumentar sistemas de vigilância já existentes, as suas possibilidades técnicas proporcionaram oportunidades para novas práticas susceptíveis de enfrentar o risco através da prevenção, gestão e manipulação. A convergência da computação com as telecomunicações, vista por exemplo na Internet, possibilitou o crescimento da vigilância virtual, de fluxos de dados «off-world», separados das suas antigas amarras no tempo e espaço, mas com efeitos suficientemente reais naqueles cenários. As teorias da vigilância lutaram com estas mudanças, e o trabalho clássico de Marx e Weber foi aumentado pelo de Foucault e agora Baudrillard. No entanto, a teoria ainda está numa condição algo rudimentar. Mas se o argumento precedente for correcto, a vigilância, incluindo a simulação vigiada, tem efeitos sociais, materiais e

105

espirituais demasiado reais. Compreendê-los, e desenvolver alguns discursos críticos para lidar com eles, revela-se de extrema importância. À medida que o uso da Internet se estende rapidamente entre as comunidades endinheiradas das chamadas sociedades avançadas, a esfera de acção dos métodos de vigilância mais recentes também vai crescer. Presentemente, o debate mais «crítico» expressa-se em torno da «privacidade», em que o direito de ser deixado em paz (protegido pela lei) ou a «liberdade de expressão» (garantido pela encriptação de segurança) são proclamados muito estridentemente. A resistência é frequentemente compreendida sob a forma da cobrança do uso de dados pessoais, o que simplesmente cai nas soluções do mercado. Alguns encorajam, pelo menos, uma concordância voluntária com convenções de protecção de dados, mas parece que as empresas podem fazer isto e continuar com as suas práticas de vigilância. Algumas teorias da privacidade, vendo as concepções liberais clássicas como um beco sem saída, tentaram introduzir uma dimensão social. O trabalho de Priscilla Regan (1995) é exemplar a este respeito. David Flaherty, indo também além de soluções individualizadas, apela à comunidade da Internet para promover uma cultura na qual a perseguição digital seja considerada ilegal, anti-ética e imoral quando não houver consentimento informado (Flaherty, 1997:6) Isto coloca o ónus da responsabilidade mais no vigilante do que no sujeito. Até que os aspectos da vigilância contemporânea do reforço da desigualdade e da ameaça à individualidade sejam analisados conjuntamente, e até que estas dimensões sejam compreendidas em relação à virtualização da vigilância, os aspectos reais da vigilância contemporânea continuarão a iludir-nos. Quaisquer que sejam os benefícios da Internet – e, vendo bem, há muitos – a sua realização não pode ser teorizada de forma responsável se isolada da existência da World Wide Web da vigilância. Isto não é algo acrescentado ou diferente do «resto» da Internet, mas um aspecto intrínseco à sua constituição. Este artigo é uma versão revista de um documento apresentado à Associação Canadiana para as Ciências da Informação, que se reuniu em St. John’s, na Terra Nova, em Junho de 1997.

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108

Apoio Comunitário virtual? A política social e a emergência do apoio social mediado por computador ___________________________________ Brian D. Loader

Introdução Este texto aborda as implicações do aparecimento, crescimento e distribuição social da utilização da Internet a partir de casa, em Inglaterra, na análise da política social. Apesar de os analistas de política social reconhecerem que, por vezes, as tecnologias de informação e comunicação (TICs) estão envolvidas na mudança da administração dos Estados-Providência democráticos e liberais (Burrows e Loader, 1994), pouco tem sido dito acerca das possíveis implicações da Internet na política social (Loader, 1998a), mesmo quando começaram a conceber claramente qual seria o futuro do sistema de providência e de saúde (Hughes, 1998). Embora as implicações da Internet na política social possam ter um grande alcance (Loader, 1998a), este texto procura, apenas, situar uma agenda de pesquisa para a política social num aspecto particular do uso da Internet - a entreajuda e o apoio social online – que designamos de comunidades virtuais de apoio, ou seja, um híbrido terminológico resultante da noção de comunidade virtual, oriunda do ciberespaço, e do conceito de comunidade de apoio, oriundo da política social. O ensaio visa identificar um conjunto de questões resultantes do aparecimento da entreajuda e do apoio social na rede, por e para “o cidadão comum”, em Inglaterra. Em primeiro lugar, e para alcançar este objectivo, o texto fornecerá dados de contextualização relativos ao uso da Internet a partir de casa em Inglaterra. Em segundo lugar, evidenciará o corpo de literatura recente que procurou demonstrar por que razão, nas sociedades de modernidade tardia, o apoio social e a manutenção de uma vida “comunitária” coesa se encontram fortemente associados à saúde e à providência. Em terceiro lugar, sublinhará a natureza e a extensão da utilização da Internet em Inglaterra no âmbito da informação e do apoio social. Em quarto lugar, examinará um conjunto de exemplos ilustrativos de “grupos de apoio” – sobre a deficiência, a educação e a execução de hipotecas. Finalmente, e com base nestes dados e exemplos, o ensaio identificará um conjunto de questões emergentes merecedoras de uma análise mais aprofundada.

109

A utilização da Internet a partir de casa em Inglaterra Tal como foi recentemente realçado por Cornford (1999), é difícil obter dados estatísticos consistentes sobre a utilização da Internet em Inglaterra. No período de realização deste estudo, a estimativa disponível mais aproximada baseava-se na pesquisa efectuada pelo NOP Research Group (ver http://www.nopres.co.uk). Esta pesquisa mostra que, em meados de 1999, 12.69 milhões de adultos acederam à Internet pelo menos uma vez. Este número representou um aumento de 46%, comparado com os 6.18 milhões registados em meados de 1997. Para além disso, estima-se que, em média, a Internet atraia por dia quase 11 100 novos utilizadores adultos em Inglaterra. O estudo também evidencia o facto de esse aumento significativo não se ter observado apenas na utilização da Internet, mas também nos locais de acesso. As taxas de utilização a partir de casa cresceram acima dos 109% em 1999, comparativamente a 1998, enquanto as taxas de utilização a partir do local de trabalho aumentaram apenas 21%. Podemos compreender melhor a distribuição relativa do acesso à Internet a partir de casa através de uma análise adicional, sobre a tabela 7 do Painel do Inquérito aos Agregados Domésticos Britânicos (British Household Panel Survey), levada a cabo em finais de 1997. Estes dados mostram que, nesse período, somente 4% dos adultos utilizavam a Internet a partir de casa em Inglaterra. Este número total terá aumentado de modo significativo a partir deste período (de acordo com os últimos números da NOP, cerca de três vezes mais no final de 1999). Contudo, vale a pena considerar ainda os dados apresentados no Quadro 1, uma vez que não só revelam padrões de variação no uso da Internet num conjunto de categorias sociodemográficas fundamentais, mas também porque, como iremos mostrar mais adiante, permitem efectuar uma estimativa aproximada das taxas de utilização da Internet a partir de casa por indivíduos com um determinado tipo de necessidades de saúde.

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Quadro 1 - Percentagem de Adultos Britânicos que usaram a Internet a partir de casa em 1997 Variáveis

Sexo

Feminino

2.4

4817

Masculino

5.7

4263

< de 20

6.3

567

20 a 29

4.6

1424

30 a 39

6.6

1677

40 a 49

5.4

1485

50 a 59

3.5

1376

60 e +

0.8

2553

Londres

8.1

1001

ROSE

5.3

1828

South West

4.2

807

East Anglia

2.2

361

East Midlands

3.3

735

West Midlands

2.7

783

North West

3.0

1022

Yorks & Humber

2.9

852

North East

1.7

533

País de Gales

1.0

482

Escócia

3.9

674

Branca

3.8

8661

Minoria étnica

8.3

351

Emprego temporário

8.5

2647

A exercer profissão

2.5

3305

Nunca exerceu profissão

1.0

2730

6.3

348

Idade

Região

Raça

% utilização da Valores absolutos Internet a partir de casa no último ano

Fonte de remuneração

111

(Equivalised)

Rendimento

do

agregado familiar

1.1

1491

1.2

1701

3.0

1972

4.4

2030

9.2

1886

Empregado

5.3

5048

Desempregado

3.4

298

Reformado

0.7

2126

A cargo da Família

1.8

737

Estudante

9.3

495

Outros

1.6

370

4.6

6592

0.9

1730

5.7

701

Solteiro

2.1

1506

Casal sem filhos

3.9

2750

Casal com filhos

4.9

3756

Monoparental

3.3

786

Composto por vários adultos

4.2

284

4.0

9088

mínimo 20% superior 20% médio 20% superior 20% máximo 20% Situação na profissão

Título de posse da casa (Housing Tenure) Habitação própria Habitação social Habitação arrendada Composição do agregado familiar

Total

Fonte: BHPS Wave 7, Cross-Sectionally Weighted Individual Respondents, Own Analysis.

112

A maior parte dos resultados não são surpreendentes: há uma maior probabilidade entre os homens de se tornarem utilizadores do que entre as mulheres; as pessoas mais velhas têm uma probabilidade muito menor de se tornarem utilizadores; as pessoas que vivem em Londres e no Sul de Inglaterra têm maior probabilidade de estarem ligadas do que as que vivem noutros locais; as pessoas de classes mais elevadas têm maior probabilidade de serem utilizadoras do que aquelas que estão menos bem posicionadas na estrutura de classes; os indivíduos que vivem em famílias com rendimentos mais elevados têm maior probabilidade do que aqueles que vivem em famílias com menores rendimentos; as pessoas empregadas e os estudantes têm uma maior probabilidade de serem utilizadores do que as pessoas com outro status económico; as pessoas que vivem em habitação arrendada têm menor probabilidade de se ligarem do que aquelas que vivem em habitação própria e os casais que vivem em agregados com filhos têm uma maior probabilidade de se ligarem do que as pessoas inseridas noutro tipo de agregado familiar. Contudo, alguns resultados são mais intrigantes. Em particular, em 1997, os dados evidenciavam, pelo menos, que os membros de grupos étnicos minoritários tinham uma maior probabilidade de aceder à Internet a partir de casa do que aqueles que se identificavam como “brancos” (um resultado que se mantém, mesmo depois das outras variáveis, consideradas no Quadro 1, serem controladas pelo recurso à análise de regressão).

A entreajuda e o apoio social na modernidade tardia É inegável a importância da entreajuda e do apoio social nos debates actuais sobre a política social. Moursund (1997:54) enuncia, de uma forma clara, se bem que um pouco romantizada, o modo como alguns factores se conjugam para tal importância:

“Uma razão para [o] enorme interesse relativamente ao apoio social pode estar relacionada com as rápidas mudanças ocorridas no cenário social. As instituições sociais que, no passado, ajudaram a estabilizar a nossa sociedade... parecem estar a perder influência. As pessoas já não crescem, casam, residem e envelhecem no mesmo local geográfico e com a crescente mobilidade surge uma perda do sentido de comunidade... As coisas parecem mover-se cada vez mais depressa

113

e nós procuramos desesperadamente algo a que nos possamos agarrar, algo a que nos possamos ligar.” O apoio social é assim encarado como um reforço decisivo contra o que Giddens caracterizou, de modo significativo, como um ‘mundo em fuga’ onde ‘não só o ritmo das mudanças sociais é muito mais rápido do que em qualquer sistema anterior’, como também o seu ‘alcance e... profundidade’ (Giddens,1991:16). Estudos sistemáticos sobre a literatura científica, na área da medicina, psicologia e sociologia, confirmam sempre a existência de uma forte e inequívoca relação entre apoio social, saúde e bem-estar físico e mental (Sarason et al., 1990). Trabalhos recentes em epidemiologia e sociologia da saúde e da doença, confrontaram estes resultados, já comprovados, num contexto socio-estrutural mais abrangente, procurando ter em linha de conta o impacto da rápida mudança no sentimento de insegurança (Bartley et al., 1998). Esta bibliografia demonstra que a principal ligação entre a pobreza e a saúde precária tem a ver não só com as condições materiais da vida das pessoas, mas também com o funcionamento de vários mecanismos psico-sociais (Wilkinson, 1996). A identificação desta ligação levou à formação de um programa de pesquisa que se concentra no “stress psicológico, privação relativa e danos psico-sociais em contextos de desigualdade” (Elstad, 1998:40). Este programa produziu inumeras provas de que as mudanças em certos aspectos da vida psico-social – tais como o sentido de controlo, o status social apreendido, a força de relações sociais, o apoio social, a autoestima, os sentimentos de insegurança ontológica, etc. – conduzem a mudanças nos estados de saúde (Elstad, 1998; Wilkinson, 1996, Wilkinson et al., 1998). Em suma, as pessoas que revelam um elevado nível de participação social e/ou têm uma boa relação social e comunitária tendem a ter melhor saúde física e mental, sendo idênticas noutros aspectos. Não deixa de ser irónico que, apesar de muitas vezes conceptualizada como uma das principais forças na origem de sentimentos de stress e isolamento, a rápida mudança tecnológica constitua simultânea e paradoxalmente o meio onde irão emergir novas formas de ligação social e de apoio. Contudo, até agora não existe uma resposta clara à questão: Será que “as comunidades virtuais” e as “relações virtuais” têm os mesmos efeitos no desenvolvimento da saúde do que as “comunidades reais” e as “relações reais”? (Kraut et al., 1998; Rheingold, 1993; Welman e Gulia, 1999). Todavia, é incontestável que as formas de organização das relações sociais no ciberespaço e o seu impacto na vida das pessoas constituirá uma tendência decisiva

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que os analistas de política social devem explorar e procurar compreender. Como defende Dale Spender (1995:251)

“O que as políticas sociais necessitam agora é de uma ciberdimensão. Estas não podem abordar unicamente as desigualdades. A relação entre a ciber-sociedade e o mundo real também deve ser analisada. Personalidades reais e personalidades virtuais constituem uma das principais características da nova sociedade, juntamente com as comunidades e as formas de organização reais e virtuais”.

Contextualização: a entreajuda e o apoio social online

A partilha de interesses comuns, experiências, pensamentos e solidariedade mediada por computador em conjugação com a capacidade para aceder a informação sobre saúde e previdência, bem como para desafiar monopólios profissionais do conhecimento pericial nas áreas de saúde e da previdência, estão bem estabelecidos nos E.U.A. (Ferguson, 1996). Tal como constatou Norman Denzin (1998:113):

“Não conseguimos imaginar a América sem os seus grupos de entreajuda. E, não conseguimos imaginar uma América que não esteja apaixonada pela tecnologia. O ciberespaço e o movimento de restabelecimento foram feitos um para o outro”.

Contudo, o crescimento da entreajuda e do apoio social online constituem um fenómeno global. À medida que cresce o acesso à Internet, o modo como os sistemas de comunidades virtuais de apoio se articulam com as estruturas e sistemas localmente alicerçados proporcionará exemplos interessantes

do

que

alguns

analistas

simbólicos

designaram

de

“glocalização” (Featherstone et al, 1995), ou seja, a ideia de que é cada vez mais difícil libertar o “global” do “local”. Significa isto que à medida que aumentou o acesso à Internet em Inglaterra, testemunhámos não só a crescente participação do povo britânico em sistemas de entreajuda e de apoio online existentes nos E.U.A., mas também a formação de novos

115

espaços virtuais expressamente criados para lidar com a especificidade do contexto britânico. Se a maioria dos actores sociais, que habitualmente se empenham na entreajuda e no apoio social online, constituem ou não por si só uma comunidade virtual, é uma das questões fundamentais em debate (Jones, 1998; Baym, 1998; Kollock e Smith, 1999; Wellman e Gulia, 1999). Independentemente do enquadramento teórico sustentado, não há dúvida que um número crescente de pessoas por todo o mundo está a utilizar o correio electrónico, a Web, as mailing lists, os newsgroups, os MUD’s, o IRC e outras formas de comunicação mediada por computador (CMC) para disponibilizar e receber informação, aconselhamento e apoio sobre um vasto conjunto de questões sociais e de saúde. É de realçar também a existência de um grande número de indivíduos que apenas observam estas diversas interacções sem eles próprios, estarem necessariamente a contribuir de forma activa (Smith,1999). Actualmente, o grande volume de tráfego da Internet relacionado com a entreajuda e com o apoio social online ocorre ao nível dos newsgroups da Usenet. Saliente-se também a importância das listas de discussão acessíveis publicamente. Contudo, tendo em conta a recente tendência para as diferentes formas de CMC aderirem às páginas da Web de modo a formar sistemas de informação mais integrados e de apoio online (oferecendo talvez serviços de informação baseados na Web, em simultâneo com aplicações integradas para a adesão a mailing lists, newsgroups e/ou entrada num chat em tempo real), a geografia da entreajuda virtual e do apoio social em rede apresenta constantemente um fluxo considerável. O quadro 2 apresenta-nos algumas noções da enorme diversidade de tópicos abrangidos pela listagem de uma pequena selecção de newsgroups da Usenet disponibilizando entreajuda e apoio social online.

116

Quadro 2 - Lista ilustrativa de Newsgroups da Usenet que oferecem vários tipos de entreajuda e apoio social alt.support.cancer.prostrate (ajuda homens com cancro da próstata)

alt.parenting.twins-triplets (os problemas de educar

alt.support.cancer.testicular alt.support.cerebral-palsy

alt.parenting.solutions

gémeos & outros) (apoio

em

caso

de

alt.support.abuse-partners (apoio a pessoas que

paralisia cerebral)

sofreram abusos)

alt.support.childfree (grupo de apoio para quem não

alt.support.agoraphobia (viver com a agorafobia e os

quer ter filhos)

seus desafios)

alt.support.chronic.pain (grupo de apoio para quem

alt.support.alzheimers (doenças relacionadas com

sofre de dor crónica)

Alzheimer e outras demências)

alt.support.chrons-colitis (apoio para doentes com

alt.support.anxiety-panic (apoio para pessoas com

colites ulcerosas)

ataques de pânico)

alt.support.depression (doenças de depressão e

alt.support.arthritis

disposição)

articulações rígidas)

alt.support.diabetes (apoio para lidar com diabetes

alt.support.asthma ( lidar com respiração trabalhada)

e temas relacionados) alt.support.disabled.cargivers (grupo de apoio para quem ajuda os incapacitados) alt.support.domestic-violence alt.support.dying-well (conversa moderada e aberta sobre a morte)

(ajudar

espectro do autismo) alt.supportbreastfeeding (discussão e apoio para a amamentação) alt.support.cancer (ajuda emocional para pessoas com

alt.support.dystonia (grupo de apoio do ciberespaço

alt.support.cancer.breast

endometriose)

misc.kids

(crianças,

o

seu

comportamento

misc.kids.breastfeeding (informação, apoio e decisões na amamentação)

alt.support.food-allergies (grupo de discussão para

misc.kids.health ( a saúde das crianças)

alt.support.glaucoma (apoio para e por pessoas com glaucoma)

e

actividades)

alt.support.epilepsy (apoio à epilepsia)

pessoas com alergias a comida)

com

alt.support.autism (apoio e discussão acerca do

cancro)

alt.support.endometriosis (grupo de apoio para a

pessoas

alt.supportasthma.buteyko

alt.support.dyslexia

para a distonia)

as

misc.kids.moderated (questões de educação, ideias e experiências) misc.kids.pregnancy (planeamento pré-natal, gravidez, crianças)

117

O quadro 3 regista alguns dos mais recentes newsgroups que integram a uk.people.*hierarchy da Usenet (Smith, 1999) e que disponibilizam entreajuda e apoio social online mais direccionados para os sistemas de saúde e de previdência britânicos, e possivelmente também em maior conformidade com as preferências sociais e culturais da Grã-Bretanha. Nos primeiros seis meses de 1999, o motor de busca da Usenet, o Deja News, estimou que, entre estes newsgroups, existiam treze grupos britânicos direccionados para a entreajuda e o apoio social que atraíram mais de 80.000 mensagens diferentes: uma média de cerca de 450 novas mensagens por dia durante aquele período. Durante este período, a quantidade diária de mensagens foi aumentando. No final do período, a quantidade de novas mensagens diárias permaneceu praticamente nas 600.

118

Quadro 3 - Alguns exemplos de Newsgroups britânicos de entreajuda e apoio social online específicos na Usenet

uk.people.deaf (discussão acerca de assuntos relacionados com as pessoas surdas) uk.people.disability (discussão de tópicos relacionados com a incapacidade no Reino Unido) uk.people.ex-forces (ex-membros das Forças de Sua Majestade) uk.people.fathers (assuntos sociais que afectam pais e crianças) uk.people.health (assuntos relacionados com a saúde relevantes para o Reino Unido) uk.people.parents (discussão acerca da educação parental da criança) uk.people.rural (pessoas que vivem no campo e o seu modo de vida) uk.people.support.cfs-me (fadiga crónica/encefalomielite miálgica) uk.people.support.depression (conselhos, apoio e conversa para pessoas deprimidas) uk.people.support.epilepsy (epilepsia & tratamento no Reino Unido) uk.people.support.mental-health (discussão de assuntos da saúde mental no Reino Unido) uk.people.support.mult-sclerosis (esclerose múltipla & tratamento no Reino Unido) uk.pelople.support.sma (newsgroup geral da atrofia muscular espinal)

119

Alguns destes grupos terão interesse imediato para vastos sectores da população que se encontram ligados à rede – por exemplo, os referentes a questões gerais de saúde, de educação e de paternidade – embora alguns desses grupos procurem preencher as carências de pessoas com necessidades específicas de saúde e de apoio social. É possível estimar, com base nos dados da BHPS acima discutidos, a proporção da população britânica adulta que, segundo o seu próprio diagnóstico, sofre de determinado tipo de problemas de saúde e, entre estes, qual a proporção que acede à Internet a partir de casa. Como referimos no início deste ensaio, o número de pessoas que acede à Internet a partir de casa aumentou em cerca de 290% entre 1997 e 1999. De modo a obter uma estimativa da situação em 1998, aumentámos a nossa estimativa das proporções dos utilizadores nas várias categorias que examinámos tendo em consideração este factor (no entanto, estamos cientes do facto de que isto talvez retire a ‘heróica’ conclusão de que o crescimento da população com necessidades sociais e de saúde tem sido uniforme). Os resultados desta análise estão sintetizados no Quadro 4.

120

Quadro 4 - Proporção de adultos na Grã-Bretanha com vários problemas de saúde que usam a Internet a partir de casa (autodiagnóstico) Problemas

Alergias

Braços; Pernas

Peito; Respiração

Coração

Ansiedade; Depressão

Audição

12%

29%

13%

16%

7%

10%

5%

2%

3%

2%

3%

2%

20%

8%

12%

8%

12%

8%

Número de adultos no Reino

1,05

1,021

686

563

370

352

Unido (000s)

6

Problemas

Dore

Visão

Diabetes

Estômag

Álcool/Drog

Epilepsia

o/Indiges

as

pele

Com %

de

de

adultos

c/problemas

de

britânicos saúde

particulares % que usa a Internet a partir de casa em 1997 % estimada em 1998 (taxa de 1997 x 290%)

s

Com (cont.)

tão

De Cabe ça % de adultos britânicos c/ problemas

de

9%

6%

5%

7%

1%

1%

saúde

particulares

121

% que usa a Internet a partir

2%

3%

2%

2%

2%

1%

8%

12%

8%

8%

8%

4%

317

317

246

246

35

18

de casa em 1997

% estimada em 1998 (taxa de 1997 x 290%)

Número de adultos no Reino Unido (000s)

Fonte: Inquérito aos Agregados Familiares (British Household Panel Survey Wave 7), 1997/98, Own Analysis Base de dados: 9088 casos

122

É claro que estes números constituem estimativas muito básicas, mas pelo menos dão alguma ideia do número actual de utilizadores em Inglaterra com necessidades sociais e de saúde específicas. E é óbvio que nem todos estes utilizadores da Internet farão uso da entreajuda e do apoio social online, mas será razoável assumir que uma proporção significativa examinará pelo menos alguns destes recursos virtuais disponíveis, que dizem respeito às suas condições ou interesses particulares. Além disso, um exame das mensagens enviadas à maior parte dos newsgroups que disponibilizam entreajuda e apoio social, também indica que os amigos, a família, outros fornecedores de cuidados e alguns profissionais têm um peso significativo na totalidade das mensagens. A análise sugere que cerca de 18.000 utilizadores habituais da Internet em Inglaterra sofrem de epilepsia; pelo menos 35.000 têm problemas de álcool e dependência de droga (provavelmente uma subestimação grosseira devido ao problema crónico das “não-respostas” nos inquéritos); 246.000 têm problemas de estômago e do sistema digestivo; 246.000 têm diabetes; 317.000 sofrem de problemas da vista; outros 317.000 registam sofrer de enxaquecas; 352.000 têm problemas auditivos; 370.000 sofrem de ansiedade e/ou depressão (de novo, provavelmente, uma subestimação grosseira); 563.000 queixam-se de problemas de coração; 686.000 utilizadores domésticos de Internet queixam-se de dores no peito e/ou dificuldades respiratórias; mais de um milhão queixa-se de importantes problemas de braços, pernas ou mãos; e mais de um milhão têm problemas de pele e/ou sofrem de uma alergia.

A Conceptualização do apoio comunitário virtual

Como devemos então conceptualizar este fenómeno? O apoio comunitário virtual representa uma afinidade electiva entre imperativos tecnológicos, sociais e culturais, constituindo uma complexa amálgama entre o anónimo, o público, o apoio e o individual. É um fenómeno já amplamente utilizado e que irá crescer muito nos próximos anos. Dado o seu potencial, sugerimos que, no mínimo, possa representar um desafio, embora pequeno,

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aceite para modelos dominantes de política social do pós-guerra. Enquanto forma social embrionária no ciberespaço, o apoio comunitário virtual pode ser representado como um dos elementos da passagem de uma concepção de previdência, assente na manutenção de um Estado administrado de um forma racional e em conjunto com necessidades profissionalmente determinadas de um modo paternalista, por um lado e sistemas burocráticos organizacionais de distribuição, por outro, a uma concepção caracterizada pela fragmentação, diversidade e um nível elevado de individualização. Independentemente do que o futuro nos possa reservar, no âmbito da política social contemporânea, a entreajuda e o apoio social online representam hoje um novo espaço virtual onde se associam os vários actores envolvidos na manutenção da previdência social: indivíduos (envolvidos no tratamento da pessoa); família e amigos; outros fornecedores de

cuidados;

membros

de

organizações

voluntárias;

trabalhadores

profissionais de saúde e de providência social; representantes do capital privado; representantes de organismos estatais reguladores; investigadores sociais e médicos; outras categorias de actores. No verdadeiro sentido, envolver-se no mundo da entreajuda e do apoio social online significa entrar num espaço virtual que tem a qualidade de uma rede social entrecruzada: um espaço não só “pró e contra o Estado”, mas simultaneamente um local rico em vários outros tipos de ambivalência social.

Ambivalência Online

É importante reconhecer a ambivalência inerente ao fenómeno na medida em que, na literatura corrente e em parte da literatura académica sobre a emergência da comunicação mediada por computador, se tornou habitual enveredar por avaliações altamente polarizadas nas suas qualidades e efeitos. Por um lado, afirma-se que as relações virtuais tomarão o lugar das relações reais, conduzindo a um declínio na qualidade de vida (Lockard, 1997; Robins, 1995; Stoll, 1995; Turkle 1996) e contribuindo para o declínio geral das relações sociais, o que já foi observado previamente (Putnam, 1995). Por outro lado, sugere-se que a Internet possibilita uma maior escolha em potenciais relações, libertando o indivíduo e permitindo aos membros da rede recorrer a um maior leque de recursos sociais, emocionais e empíricos

124

(Rheingold, 1994; Katz e Aspden 1997; Weise, 1996). Para muitos, o debate tem-se baseado em provas anedóticas, o que tem sido correctamente criticado (Baym, 1998; Wellman e Guila, 1999), e até a exposição limitada à Internet torna claro o exemplo de que, se procurarmos bastante, quase tudo existe algures, sendo por certo suficientemente fácil encontrar exemplos de entreajuda e de apoio social. É também obviamente fácil encontrar exemplos de agressão e de extrema falta de civismo. Em vez de reconhecer a ambivalência inerente ao fenómeno, as reacções analíticas tendem a espelhar os seus extremos. Wellman e Gulia (1999: 167) exprimem-no bem quando afirmam que “…Os Maniqueistas, de ambos os lados deste debate, declaram que a Internet tanto poderá criar novas e extraordinárias formas de comunidade, como destruir totalmente qualquer uma dessas formas. Estas posições dualistas e opostas sustentam-se mutuamente, recorrendo a afirmações inequívocas da perspectiva contrária na fundamentação dos seus próprios argumentos. As afirmações de entusiasmo ou crítica deixam pouco espaço a situações moderadas ou mistas que podem ser a realidade.”

Pesquisa Empírica sobre Comunidades Virtuais “Reais”

Qualquer solução para este impasse dualista surgirá, seguramente, em

primeiro

lugar,

através

do

reconhecimento

de

algumas

das

especificidades da Internet como fenómeno social, e, em segundo lugar, através da participação em algumas pesquisas empíricas rigorosas. Para já, o número de estudos empíricos é limitado, embora existam alguns bons exemplos. Estes incluem: a etnografia virtual aprofundada, elaborada por Denzin’s (1998), sobre um conjunto de debates ocorridos num newsgroup da Usenet centrado em torno da co-dependência; a explicação de Moursund (1997) do uso de um MUD criado por adultos que sobreviveram a abusos; a análise de Boberg (1995) - em conjunto com outros autores - do desenvolvimento e do uso do apoio mediado por computador social a portadores de Sida; o estudo de Weinberg (1996) – em conjunto com outros autores - sobre apoio online para doentes com cancro; e a análise aprofundada de Radin (1998) do apoio mediado por computador às mulheres com cancro da mama. No seu livro original “Communities in Cyberspace” (Comunidades no Ciberespaço), Smith e Kollock (1999) reúnem algumas das

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melhores pesquisas empíricas nesta área. O seu empenho em “descrever e analisar modelos de interacção e organização online tal como existem” (Smith e Kollock, 1999: 4) é algo com o qual concordamos plenamente. Também concordamos com a sua preocupação em estabelecer um programa de pesquisa, cujo objectivo é “investigar o modo como os grupos sociais no ciberespaço se projectam no mundo real, e vice-versa” (1999: 19). Para transmitir uma noção real da forma como os sistemas de assistência das comunidades virtuais funcionam, é melhor experimentá-los online. Contudo, no sentido de esboçar uma vaga ideia destes sistemas de apoio, a próxima secção do ensaio fornece três exemplos ilustrativos.

Exemplos de entreajuda e de apoio social online

O objectivo deste ensaio é delinear algumas das temáticas e das questões fulcrais, que estão na base de um programa de pesquisa no âmbito da política social. Os extractos que iremos apresentar, designadamente de dois Newsgroups e de uma página web, proporcionam uma visão da natureza das interacções na Internet e do tipo de assuntos discutidos. Por outro lado, quando os inserimos no âmbito de debates mais alargados, no domínio da política social, surge um conjunto de questões importantes, que abordaremos na próxima secção.

Um Newsgroup Britânico Utilizado por indivíduos com deficiência

Em 1997 um Newsgroup foi criado sob a uk.*hierarchy na Usenet com ênfase sobre assuntos respeitantes à deficiência na Grã-Bretanha. O grupo surgiu, em parte, por causa da predominância de grupos americanos (e temas americanos) na Usenet. Até meados de Agosto de 1999, recebeu cerca de 13.000 mensagens. O grupo, tal como muito outros newsgroups, é constituído por uma combinação de participantes regulares e de utilizadores novos e irregulares. O leque de tópicos discutidos é muito vasto. Algumas vezes o grupo discute as atitudes da sociedade e dos políticos face aos deficientes, outras vezes centra-se em assuntos que dizem respeito a benefícios (pagamentos da segurança social), havendo ainda espaço para debate de um

126

problema ou tema específico. Em alguns casos, as pessoas estão apenas interessadas em pedir ou obter informações, enquanto noutros se preocupam em debater e argumentar. Muitas vezes, as duas vertentes conjugam-se. Finalmente, há casos em que o Newsgroup é utilizado num sentido mais lúdico

pelos

participantes



consequência

importante,

na

qual

a

interactividade é essencial para manter e sustentar uma comunidade virtual dinâmica. Seguem-se dois breves excertos do grupo. O primeiro é uma troca muito simples, na qual alguém pede e recebe aconselhamento e informação de outros membros do grupo. O material citado é apresentado aqui tal como foi enviado, mas sem os nomes dos autores. O material que foi editado, assim como algumas breves notas e explicações estão entre [parêntesis rectos].

Mensagem 1 Olá a todos. Estava a pensar se alguém poderia dizer-me onde posso comprar um aparelho que penso ser conhecido como “Garra”. É utilizado para alcançar as coisas quando não nos podemos baixar. Parece uma pequena vara feita de alumínio, que tem numa ponta uma pega e na outra ponta uma espécie de tenaz, que é trabalhada por alguns fios.[…]

Mensagem 2 Penso que se chama Mão Ajudante. Espero que isto ajude na tua pesquisa.

Mensagem 3 Olá. […] Penso que as empresas que lidam com material de apoio para pessoas com deficiências podem fornecer esse aparelho. Não sei em que zona te encontras, mas no nordeste (Nordeste da Inglaterra) temos uma empresa, a [nome da empresa], que fornece estes aparelhos.

Mensagem 4

127

Eu arranjei o meu na Unidade de Ortopedia do [nome do hospital] enquanto lá estive, porque aqueles que eles tinham eram muito melhores do que os que funcionam com fios. Telefona e pergunta onde é que eles os arranjaram!

Mensagem 5 (da pessoa que fez a mensagem 1)

Um breve agradecimento mais uma vez a todos aqueles que responderam à minha mensagem, agora tenho informação suficiente e vou comprar um para substituir aquele que parti.

Esta troca é simples mas ilustrativa dos potenciais benefícios dos newsgroups no fornecimento de apoio e informação, proveniente de uma das fontes mais apropriadas e eficazes, ou seja, aqueles que partilham a mesma experiência, interesses e necessidades. As trocas são informais e o seu tom é amigável e prestável. O próximo extracto reflecte a diversidade que se encontra nestes tipos de fóruns e alguns dos assuntos que podem surgir quando são utilizados. Neste caso, um utilizador de um newsgroup foi insultado e sofreu abusos por parte de um indivíduo anónimo. Os comentários dos outros utilizadores são, regra geral, quer de apoio, quer informativos. Contudo, surgiu uma espécie de discussão entre dois dos participantes, que mais tarde se prolongou durante algum tempo.

Mensagem 1 Ontem recebi um e-mail anónimo de alguém deste ng [newsgroup] afirmando ter visto as minhas mensagens e dizendo o quão abomináveis eram. Chegou mesmo a ofender-me verbalmente. A questão essencial no que diz respeito aos correspondentes anónimos é tão covarde, pois as pessoas podem enviar correio mal-intencionado sem serem apanhadas ou terem de enfrentar uma resposta. Assim, uma vez que não posso responder às

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mensagens em privado, estou a fazê-lo através do ng ao qual ele afirma pertencer. Aqui está a minha resposta. A tua opinião é a tua prerrogativa. Tens todo o meu desprezo, não por aquilo que escreveste, mas por seres suficientemente covarde ao ponto de te esconderes no anonimato.

Mensagem 2 Se estás a receber e-mails abusivos apresenta-os no ng para que possamos ver a que é que estás a responder. [nome da pessoa] teve o mesmo problema há algumas semanas.

Mensagem 3 Tu queres dizer que [nome da pessoa] *disse* que teve o mesmo problema. Isso não significa que não tenha tido o mesmo problema, mas será que ele eventualmente guardou uma cópia daquilo que afirma ter recebido?

Mensagem 4 [nome da pessoa] Eu não troco correspondência sem o consentimento dos outros utilizadores. E uma vez que o remetente era anónimo e mandou a mensagem de uma página web com pseudónimo, não fui capaz de fazer tal pedido. Em geral, o que acontece no e-mail, deve permanecer no e-mail. Contudo, neste caso é óbvio que, pelos comentários efectuados, o remetente faz parte de um newsgroup específico. Quanto a mim, procuro dar a conhecer a minha opinião sem quebrar as regras da boa netiqueta. Uma vez que aquilo que escreveste anteriormente demonstra uma ingenuidade acerca das regras de uso da Internet, não direi mais nada acerca disto. Podia pedir ao meu ISP para fazer uma pesquisa em “Anónimos” pois, seguindo a sintaxe utilizada e certas idiossincrasias no soletrar, existe um certo grau de possibilidade de encontrar a pessoa – claro, que isso significaria uma queixa, ou entrando ainda mais no ISP de origem dessa pessoa, a provável perda de acesso […]. O que seria uma pena, uma vez que as pessoas que se sentem tão impotentes necessitam obviamente de algum tipo de aconselhamento ou de exercitar as suas capacidades de asserção. O pseudónimo foi colocado no meu filtro e nada mais foi recebido.

129

Mensagem 5 Concordo contigo […] mas penso que a melhor forma de lidar com tais e-mails é ignorá-los. Se uma pessoa pretende aborrecer ou irritar alguém, não queres que essa pessoa sinta que conseguiu aquilo que desejava. Por isso, se a ignorares, ela irá aborrecer-se e desistir.

Mensagem 6 Olá, tive um problema semelhante há cerca de um ano. Alguém estava a enviar-me mensagens abusivas e ameaçadoras, dizendo que “ia caçar-me” por ser uma “cabra cega”. Comecei a filtrar o e-mail dele, e ele arranjou outro, e outro, e outro. Agora tenho cerca de 30 endereços filtrados no meu mail, e uma vez que se apercebeu que não me alcançaria facilmente começou a desistir, tendo infelizmente avançado para outra pessoa. Também investiguei os seus “e-mails anónimos”, e consegui o seu nome, morada e telefone verdadeiros. Quando ameacei contactar as autoridades por causa de assédio online, os mails pararam quase por completo, e até aqueles que recebo agora são inofensivos, comparativamente aos anteriores. A maior parte destas pessoas são apenas bichos da net e fogem quando o seu pequeno mundo é abalado.

Esta troca realça alguns dos aspectos mais negativos deste tipo de interacções. Não há dúvidas de que existe um lado mais escuro dos tais “grupos de apoio” que é enfatizado por aqueles que chamam a atenção para as consequências sociais negativas da Internet. Vemos aqui o risco bem real de ser assediado. Assim, mesmo quando interagem no ciberespaço, as pessoas não estão imunes ao assédio e à discriminação. Neste caso, outros membros do grupo prestaram apoio e mostraram-se solidários, embora um dos participantes tenha optado por

compor a situação ao evidenciar a

incompetência tecnológica de outra pessoa. Isto chama a atenção para um segundo aspecto negativo das trocas online: o facto de estas poderem autorizar ou desautorizar – especialmente aqueles que têm algumas competências tecnológicas. Estas duas dimensões negativas foram também encontradas no nosso segundo exemplo.

130

Um Newsgroup Britânico Utilizado por Pais

O segundo newsgroup apresenta índices de troca de mensagens mais baixos, mas é mesmo assim bastante utilizado. Este grupo aborda diversos temas relacionados com a educação no Reino Unido. Tal como no grupo dos deficientes, é discutido um variado leque de temas. A disciplina, o desenvolvimento moral e educacional, a saúde e o bem-estar físico fazem parte dos assuntos mais debatidos. Existe, igualmente, uma troca de informações, assim como discussões de tópicos e debates. O exemplo de troca de correspondência que analisamos aqui tem como tema a vacina múltipla do sarampo, papeira e rubéola (SPR). Este é um assunto que afecta a maior parte dos pais no Reino Unido e que tem sido alvo de muita controvérsia. Apresentamos apenas alguns extractos deste debate ainda em discussão.

Mensagem 1 A nossa filha de 4 anos… está pronta para os reforços pré-escolares do sarampo, da papeira e da rubéola, mas ouvimos dizer que estes não são estritamente necessários e podem causar problemas. Perguntamo-nos o que fazer, se devemos ou não administrá-la à nossa filha. O nosso médico parece estar disposto a fazer uma análise ao sangue para ver se ela ainda é imune, mas em todo o caso o teste não dirá se a imunidade está, ou não, a diminuir. De momento pensamos não lhe dar esses reforços (e falando francamente, se na escola todos estiverem imunes, dificilmente ela será contagiada). Mais alguém tem outros pontos de vista ou informações?

Mensagem 2 Se quase todos os outros ficaram imunes, ela poderá não entrar em contacto com um caso infeccioso até à sua vida adulta. Se ela apanhar rubéola enquanto estiver grávida pode ser perigoso. “Eles” dizem que se a maior parte das pessoas for vacinada contra o sarampo, papeira e rubéola, vocês também devem fazê-lo; as consequências de não se vacinarem podem ser menos perigosas se for comum a doença nas crianças locais.

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A próxima mensagem, tal como muitas das mensagens nos newsgroups, baseia-se na experiência pessoal destas famílias.

Mensagem 3 Aqui vai a minha contribuição!!! O meu filho tomou a vacina SPR quando esta se tornou acessível pela primeira vez – ele tem agora onze anos e há cinco que é diabético. Existem poucas ou nenhumas provas científicas publicadas de que esta vacina e os diabetes juvenis estejam ligados, mas eu acredito que essa pode ser a causa. É igualmente verdade que a incidência de diabetes juvenis aumentou desde que estas vacinas são admnistradas rotineiramente. A minha filha tem agora três anos e não levou a vacina por esta razão. Vários profissionais de saúde perguntaram por que é que a Nell não tomou a vacina, e ao enumerar as minhas razões NINGUÉM as questionou ou refutou. Não tenho nada contra as vacinas – [nome da filha] & [nome do filho] levaram todas as outras – nem contra as vacinas só de sarampo, papeira ou rubéola. [nome da filha] vai levar a vacina da rubéola quando for mais velha, porque sou uma firme defensora desta vacina, especialmente para as raparigas. Mas oponho-me fortemente aos “cocktails” de vacinas. Não penso que se saiba o suficiente acerca dos efeitos que as doses-múltiplas podem ter nos indivíduos. Esta é apenas a minha opinião e experiência. A sua decisão deve ser exactamente… sua!

O debate continua com os pais articulando as suas opiniões e pontos de vista sobre o assunto. Também relacionam as suas próprias experiências pessoais, que incluem factos como: complicações médicas relacionadas com a vacina e interacções com profissionais de saúde e educadoras. Como retrata a mensagem que se segue:

Mensagem 6 Peço desculpa por levantar de novo este assunto, mas ausentei-me e perdi o início da discussão. O meu conhecimento é parco, mas eu pensava que o risco associado com o sarampo, a papeira e a rubéola era menor se os componentes fossem dados separadamente em vez de serem dados ao

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mesmo tempo, numa só vacina. Alguém tem informação acerca deste assunto? A minha [nome da filha] tem dois anos e meio e ainda não tomou a vacina, mas não pode entrar no jardim escola sem as vacinas estarem em dia. Foi-lhe removido um rim e de qualquer modo reage sempre mal às vacinas. Por isso, quero minimizar o risco. Falei ontem com o médico dela para tentar convencê-lo a dar-lhe as vacinas separadamente, mas ele disseme que eu estava a dizer disparates mesmo quando mencionei a nossa intenção de irmos a um médico particular para tratar desta questão. Mesmo que a pesquisa seja inconclusiva sentir-nos-íamos muito melhor connosco se ela tomasse as injecções separadamente. Alguém pode dar conselhos acerca disto, já que o médico dela se recusa a receitá-las?

Mensagem 7 Eu já ouvi falar disto a título humorístico, mas ainda não vi nenhuma pesquisa feita. Mas duas coisas vêm à minha mente instantaneamente. 1º) o seu médico é um ser desprezível e arrogante e 2º) se fosse a si, eu não aceitaria as regras do jardim escola. Parece-me que pode favorecer o jardim escola por este aceitar a sua filha sem ser vacinada, uma vez que ela tem um historial médico problemático. A minha segunda filha não está imune, por causa de uma reacção adversa à primeira dose, e nunca ninguém fez caso disso: ama, jardim escola ou médico. Ou eu tive sorte, ou você teve azar.

Essencialmente, os pais estão a tentar juntar tanta informação quanto possível para que possam pesar os riscos e chegar a uma decisão informada, quanto a ter os seus filhos vacinados ou não. O número de respostas que surgiram foram esmagadoramente apoiantes, informativas e prestáveis. Contudo, tal como no caso do grupo de incapacitados, houve um caso em que um participante foi ofendido por um correspondente anónimo.

Mensagem 13 [correspondente anónimo] Sim, está a ser muito egoísta. Todos os outros miúdos estão imunes, por isso não tem de se preocupar. Claro! A Internet é o local errado para procurar informação imparcial sobre a vacinação. Todos os malucos com um plano querem associar as doenças conhecidas a uma vacina. Existe até

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alguém que quer convencê-la de que o seu filho terá diabetes se o vacinar! Excelente! Aqui está um segredo: o governo quer que os vossos filhos sejam vacinados para que o ADN extraterrestre possa ser injectado! Tem tudo a ver com protecções contra doenças virais que podem causar danos neurológicos. Resista, ou os seus filhos odiá-la-ão para sempre…mas não faz mal, porque estamos nos anos 90 e é cada um por si – lixem-se os outros todos – vá em frente!

O alvo ofendido respondeu assim:

Mensagem 14 O meu nome é [nome] e não sou uma maluca. Nós procurámos todos as possíveis causas dos diabetes do nosso filho e a vacina do sarampo, papeira e rubéola é uma das muitas causas que identificámos. Suspeito que tenha a sorte de ter crianças perfeitas, e certamente nenhuma que tenha ficado lesada com uma vacina. Sugiro que, se quer criticar o meu ou qualquer outro ponto de vista válido, deixe de se esconder por trás do anonimato e tenha a coragem de dizer aquilo que pensa mostrando-se aos outros.

Mensagem 15 [correspondente anónimo] Parece que a raiva tem vindo a crescer. Será que isso significa que a vacina SPR é responsável? Claro que não. “Identificou” uma “causa provável”, mas decidiu espalhar a sua histeria pela net, assustando outros pais com a sua história. Muito irresponsável, IMHO …[no que diz respeito ao meu rótulo de anónimo] que diferença lhe faria? Talvez eu venda vacinas e prefira não ter um maluco, que se ofendeu com as minhas palavras num fórum público, a seguir-me e aos meus filhos, com bombas e armas de 9mm semi-automáticas. Existem muito mais possibilidades de isso acontecer do que alguma das minhas crianças ficar com diabetes juvenis por causa da vacina.

Mensagem 16 Sabe, eu até podia responder, mas seria uma perda de tempo.

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Estas trocas do grupo de pais, tal como o exemplo anterior, evidenciam o lado mais “negro” das interacções no ciberespaço. Contudo, apontam para o facto de estes pais quererem reunir o maior volume de informação possível antes de tomar as suas decisões. Estes pais não são, claramente, beneficiários passivos da previdência social e não aceitarão, neste caso, a vacinação dos seus filhos, sem apreciação crítica. Retornaremos a este ponto mais tarde. Mas vamos primeiro apresentar o nosso exemplo final, ilustrativo da entreajuda e do apoio social online.

A Homepage relacionada com Execuções de Hipotecas do Reino Unido

A homepage dedicada às situações de execução de hipoteca, no Reino Unido, integra uma página web criada em 1997 com o propósito de fornecer apoio e informação a pessoas que se confrontam com uma situação de dívida e execução de hipotecas – um grande problema social no Reino Unido (Ford e Burrows, 1999). Por conseguinte, este é um site mais centrado e, em parte, mediado, essencialmente gerido por peritos, contém também, no entanto, perguntas e respostas de pessoas que enviam as mensagens com comentários de peritos. No que diz respeito a este assunto, representa um bom exemplo da fusão da tecnologia web e da mailing list. Por isso, os utilizadores fundamentam e partilham as suas próprias experiências. A homepage enuncia os seus objectivos do seguinte modo:

“A página dedicada às situações de execuções de hipotecas foca a situação dos residentes do meio milhar de casas cujas hipotecas foram executadas nos últimos 10 anos; a forma como, por vezes, os credores maltratam os clientes; o que sucede após a execução da hipoteca, as consequências para os clientes. Revelámos uma grande quantidade de material não publicado sobre a forma como os credores lidam com estes complexos assuntos.”

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Existe também uma afirmação por baixo do cabeçalho de “ A Nossa Posição” que diz o seguinte:

“Você é responsável pelas suas dívidas. Mas quando achar que um financiador vendeu a sua casa hipotecada abaixo do seu valor, perseguindo-a por causa desse prejuízo, deve arrogar-se o direito de questionar as suas afirmações sem se confrontar com intimações,

exigências monetárias ou

ameaças legais.”

O leque de assuntos abrangidos na página web encontra-se exposto na lista que consta na homepage: Mantenha-se Informado; Mapa do Site; Votação; Entrevistas; Compra de Imobiliário; Atrasos de Débito; Execuções de hipotecas; Lista Negra?; Ajuda; Factos; Q&A; Ligações. A página de execuções de hipotecas de casas no Reino Unido disponibiliza informação factual e legal acerca da compra de imobiliário e execução de hipotécas. Por exemplo, disponibiliza não só informação muito detalhada na secção “o que fazer e o que não fazer” após a execução de uma hipoteca, mas também informação personalizada dirigida a pessoas que enviam as suas questões e problemas. Apesar das contribuições dos utilizadores, grande parte da informação é fornecida pela pessoa que construiu a página web. Esta permite reunir informação a partir das experiências e contactos das próprias pessoas. Por exemplo, na secção de Compra de Imobiliário, existe um índice de historiais de relações entre financiador da hipoteca e cliente, bem como o perfil dos vários financiadores. Existe uma informação extensiva e detalhada sobre os direitos dos utilizadores e procedimentos administrativos e legais associados com atrasos na hipoteca, execuções, dívidas astronómicas após a execução e muito mais. Uma pesquisa sobre a experiência de execução de hipotecas demonstrou que os complexos e intermináveis procedimentos legais e administrativos associados à perda de casa contribuem significativamente para a natureza stressante da experiência (Nettleton e Burrows, 2000). Para tal, contribuem igualmente factores como a falta de esclarecimento e de informação sobre o que realmente se passa no acto de execução da hipoteca de uma casa. A mesma pesquisa concluiu que a execução de hipotecas é uma experiência altamente individualizada e estigmatizante – factores que

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incapacitam as pessoas para procurar ajuda. Um problema frequente é a perseguição dos credores às pessoas com dívidas associadas a uma casa hipotecada. No Verão de 1999 a Sra. B. enviou a seguinte questão para a página web:

“Comprámos um apartamento em 1991, quando ele tinha 18 e eu 21 anos. A pressão financeira causou a nossa separação e devolvi as chaves. A nossa hipoteca foi, por fim, executada em Junho de 1994. Desde então reconciliámo-nos e tivemos filhos, o terceiro chega em Setembro. Em Dezembro de 1999, comprei o meu escritório para exercer advocacia, porque era mais barato do que arrendá-lo. Tudo bem. Pensava que não ia ter outra hipoteca. Há três semanas recebi uma carta a exigir £35000. Fiquei espantada. Até agora, ignorei qualquer correspondência, mas estou prestes a escrever e dizer que procuro aconselhamento. Liguei para uma linha de dívidas que me informou que eu podia, provavelmente, oferecer-lhes £3000 e que eles aceitariam, mas eu nem sequer tenho essa quantia. Com um bebé a caminho estou perdida…qualquer conselho será bem-vindo”.

O moderador da página web respondeu assim:

“Lamento a sua situação. Comecemos por algumas questões: Quem é o credor anterior? Quem escreveu a carta: o financiador ou o advogado? Se foi um advogado, qual? A anterior hipoteca foi comum? Quem é o actual credor? A sua actual hipotéca é comum ou individual? Se é individual, em que nome está? Há algum sinal de que eles tenham vendido a casa original demasiado barata? Algum sinal de que eles tenham levado muito tempo a vendê-la? Quando soubermos as respostas a estas questões podemos avançar.”

Outros visitantes da página web também oferecem ajuda e conselhos baseados na sua própria experiência ou conhecimento do assunto. O feedback dos utilizadores da página web é um indicador de que a informação constitui uma fonte de apoio e lhes dá confiança para lidar com os credores.

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Por exemplo, outra mulher que teve um prejuízo semelhante explicou a um dos autores deste ensaio quão valiosa foi esta página web, escrevendo, com base na informação que nela recolheu, o seguinte ao seu credor:

“Diga à Sociedade de Construção que eu desafio o carácter legal das suas reclamações, e que leve o assunto a tribunal (denunciando o seu bluff, após várias ameaças). Que eu estaria a utilizar o [nome do caso legal] que deveria constituir uma prova válida em tribunal”.

Ela mencionou então que o credor parecia estar a desistir e que, no momento, estava optimista quanto ao resultado. Esta página web fornece ao mesmo tempo apoio social e prático às pessoas, servindo também de mecanismo inibidor da natureza altamente individualizada da experiência. Neste sentido, esta página contribui para a formação

de

uma

resistência

mais

colectiva

contra

as

entidades

financiadoras. É claro que, presentemente, apenas um reduzido número dos milhares de famílias que se confrontam com a experiência da execução da hipoteca, contactam ou conseguem contactar a página web. Contudo, a análise levada a cabo revela as potencialidades deste tipo de página para o apoio social mediado por computador e os desafios colectivos ao que, de outra forma, seria um sistema altamente individualizado. Esta página constitui um modo informal de previdência social assente no voluntariado,

requerendo

participação activa por parte dos utilizadores que recebem ajuda e que ajudam os outros. Em muitos aspectos, constitui uma extensão da entreajuda, responsabilidade pessoal face à previdência social e cidadania activa, noções chave para os debates e desenvolvimentos actuais da previdência social. Contudo, a forma que assume - apoio mediado por computador – pode ter repercussões nestes temas. E é sobre estes temas mais abrangentes que agora nos debruçamos.

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Algumas questões emergentes no âmbito dos debates sobre política social

Claro que, apesar da natureza ambivalente do fenómeno, a comunicação mediada por computador (CMC) tem o potencial para exercer um impacto suficientemente profundo na vida social, com implicações na política social. Tal como nos explicou uma utilizadora do newsgroup de educação anteriormente analisado, através do pequeno questionário colocado em http://www.york.ac.uk/res/answers.htm:

“Os newsgroups foram um verdadeiro salva-vidas para mim nos primeiros dias de maternidade. Um dos primeiros grupos que encontrei foi o misc.kids.breastfeeding, que me manteve sã e me forneceu muitos conselhos sensatos e apoio num momento em que, realmente, necessitava. Eu queria mesmo amamentar o meu filho, mas não tive nenhum apoio familiar para além do meu marido. Fui ,de facto, muito criticada pela minha própria família por fazê-lo, e recebi muita informação que sei estar errada. O misc.kids.breastfeeding deu-me as respostas que eu precisava - tenho leite suficiente?; como posso produzir mais?; tenho infecções?; é normal amamentar tanto um bebé? - e apoio quando as coisas foram difíceis. Uma vez fui expulsa de uma biblioteca pública por amamentar ali. Foi também crucial porque me deu a oportunidade de prestar apoio a outros quando me tornei experiente. Isto foi uma grande motivação para mim – é esse o objectivo dos grupos de apoio…devo acrescentar que tive uma inspectora de saúde maravilhosa e apoiante que, porém, só podia disponibilizar o seu apoio, no máximo, uma vez por semana e eu tinha de ir à clínica se o quisesse obter. Um newsgroup encontra-se a pouca distância e podemos ter-lhe acesso sempre que o nosso bebé, finalmente, adormece. Estou agora a planear ter um segundo filho e sinto-me confiante por saber que terei acesso a um apoio e a uma informação muito melhor. E isso vai ajudarme a ter uma gravidez muito mais feliz e um parto melhor da próxima vez. O que deve ser assustador para as parteiras das comunidades. Penso poder afirmar que os newsgroups mudaram a minha vida e a da minha filha, e provavelmente a do meu parceiro também. Mudei toda a

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minha atitude a respeito da educação por causa das informações que obtive através do newsgroup e das organizações que fornecem maior apoio pessoal, onde fiz amigos e estou a treinar para ser apoiante voluntária de amamentação.”

Como afirmámos no início deste trabalho, as nossas atenções centram-se nas formas de CMC predominantemente construídas e utilizadas por cidadãos comuns. Ou seja, formas de previdência e de entreajuda de qualidade superior, em detrimento de formas de providência profissionais de qualidade inferior. Esta dimensão da previdência assume um significado particular na sociedade contemporânea do Reino Unido, não só por causa da forma como a CMC foi utilizada por alguns grupos, mas também porque as formas de entreajuda e “voluntariado” estão a tornar-se, de um modo geral, indispensáveis para as políticas sociais. Concluímos o trabalho tomando em consideração o que deve ser feito com o uso crescente da entreajuda e do apoio social online no âmbito dos actuais debates sobre política social. Do nosso esboço quantitativo e qualitativo dos grupos de entreajuda e de apoio no Reino Unido, sugerimos uma análise mais aprofundada dos seis pontos que passamos a enunciar:

1.

Em primeiro lugar, apesar do aumento da entreajuda e

dos grupos de apoio não ser uma consequência da CMC, esta acelerou certamente a expansão deste tipo de grupos. Tem sido bem documentado o aumento exponencial do número de grupos de entreajuda ao longo das últimas décadas (Giddens, 1992; Nettleton, 1995). Isto tem feito parte de uma mudança cultural que leva as pessoas a quererem dar e receber ajuda, informação e apoio. Estes utilizadores também formam um novo movimento social uma vez que, tal como Kelleher (1994: 116) explica:

“…eles têm a possibilidade de ver as coisas de uma maneira diferente […]. Os grupos de entreajuda abordam um leque de assuntos que devem ser mantidos vivos, em vez de serem distorcidos por sistemas de peritos e discursos do

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mercado, tornando possível uma forma de conversa nãocoerciva.”

Sem dúvida que os três casos ilustrativos apresentados eram exemplos

de

fóruns

onde

os

assuntos

podem

ser

debatidos

independentemente das instituições formais, como a medicina (no caso da vacina múltipla de sarampo, papeira e rubéola) ou os financiadores (no caso das execuções de hipotecas). Estes grupos de apoio também constituem um meio de partilha e troca de informações e de ideias, oferecendo apoio social a um certo nível. Contudo, embora estes fóruns englobem, de algum modo, “grupos” ou “comunidades virtuais”, eles constituem apesar de tudo, simplesmente o resultado de um conjunto de contribuições de indivíduos, sendo o campo de acção e a oportunidade de resistência colectiva limitados. Esta é uma característica de todos os grupos de entreajuda. Num debate sobre estes grupos, Williams (1989) afirmou que os grupos modernos são os descendentes de uma difícil relação entre duas ideologias, o individualismo e o colectivismo, em que predomina o individualismo. Os grupos de entreajuda defendem a liberdade individual, encorajando a independência dos outros e promovendo um sentimento de autonomia. Ao mesmo tempo, tentam abarcar uma noção de solidariedade. Parecerá, então, que o formato e a natureza dos grupos virtuais é essencialmente de entreajuda em detrimento da ajuda colectiva, na qual os indivíduos procuram informação e apoio ou oferecem respostas individualizadas a outros participantes. Contudo, esta temática requer uma pesquisa mais profunda – precisamos de saber, particularmente, a forma como os participantes experenciam a Internet: o que ganham com isso? Que impacto tem nas suas vidas e em si próprios? Só então podemos começar a perceber o potencial do impacto da Internet no bem-estar psicosocial.

2.

Um segundo aspecto refere-se à importância e ao

privilégio da experiência pessoal, que se sobrepõe ao conhecimento dos peritos. Mais uma vez, este assunto tem sido alvo de muitas pesquisas nas ciências sociais (Brown, 1992; G. Williams e Popay, 1994; S. Williams e Calnan, 1996), sendo mais evidente na discussão acerca da vacina múltipla no grupo de discussão de educação

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parental,

anteriormente em

referência.

O

aconselhamento

de

especialistas ortodoxos (convencionais) não foi aceite sem apreciação crítica e os pais juntaram informação e conselhos de uma série de fontes. De acordo com Giddens, existe uma característica chave na vida moderna actual:

“A vida moderna é um tema complexo e existem muitos “filtros” onde o conhecimento tecnológico, de uma forma ou de outra, é re-apropriado por pessoas leigas e rotineiramente aplicado no decurso das suas actividades quotidianas. […] Os processos de reapropriação relacionam-se com todos os aspectos da vida social – por exemplo, tratamentos médicos, educação infantil ou prazer sexual ( Giddens 1991: 146).

Diz-se que esta é uma das características da sociedade contemporânea – descrita como uma “sociedade de risco” - precisamente porque as pessoas enfrentam um maior número de escolhas acerca das quais têm de tomar decisões. Para que possam tomar essas decisões, os indivíduos baseiam-se e interpretam informação fornecida por “peritos”, media, amigos, livros, etc… – Eis a muito discutida noção de reflexividade (Nettleton e Burrows, 1998). Numa sociedade pós-tradicional, a autoridade tradicional (tal como o especialista em medicina) está a ser substituída por múltiplas fontes de autoridade. É óbvio que a Internet expande amplamente a quantidade de fontes de informação em quase todos os aspectos da vida das pessoas (Burrows e Nettleton, 2000). Mas não sabemos bem de que modo e em que ocasião as pessoas recorrem à Internet para obter informação e apoio, nem a importância que atribuem às fontes de ajuda a que acedem através desse meio. Mais uma vez, esta questão

requer

pesquisa

qualitativa

adicional

sobre

os

próprios

utilizadores (Hardey, 1999).

3.

Um terceiro aspecto relaciona-se com o impacto que as

interacções na Net podem ter nas interacções entre “especialistas” tradicionais e “leigos”, o que, mais uma vez, constitui um assunto que, durante as últimas décadas, tem sido o foco de muitas pesquisas no

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âmbito da sociologia da saúde e da doença (Nettleton, 1995). Apesar de tudo, o crescimento da utilização da Internet para informação e aconselhamento é capaz de ter implicações bem mais complexas para os médicos, que vêem os seus conhecimentos desafiados e desrespeitados.

A

entreajuda

e

o

apoio

social

online

irão

provavelmente alterar a natureza de muitas relações profissionalcliente no contexto social e dos cuidados de saúde. É também provável que afecte as relações fornecedor-comprador noutras esferas. Por exemplo, nas trocas efectuadas na página da execução de hipotécas no Reino Unido, vimos como uma pessoa vítima de hipoteca conseguiu enfrentar os seus financiadores quando munida da informação acerca do estatuto legal das suas exigências. Utilizadores, pacientes, utentes ou quem quer que seja, podem em breve tornar-se peritos acerca das suas próprias situações e circunstâncias. Assim, a exploração empírica das consequências da utilização da Internet para interacções profissional-cliente é outra área que podemos considerar importante.

4.

A quarta preocupação prende-se com a qualidade de

informação e a legitimidade dos aconselhamentos, o tipo de material informativo e o apoio que está a ser fornecido e acedido na Net. Dada a natureza desregulada não regulada/(anárquica)/desregulada de muitas interacções, é difícil classificar a qualidade de tais informações. É provável que muitas pessoas procurem, tal como foi sugerido anteriormente, informações de um vasto leque de fontes, avaliando assim os méritos e deméritos daquilo que encontraram. Existe apenas um número limitado de estudos sobre este assunto, apesar de as pesquisas efectuadas sugerirem que, embora variável, a qualidade é na globalidade positiva (Sandvik, 1999), mas provavelmente segundo o próprio tema e o tipo de sistema em que é comunicado.

5.

Um quinto tema emerge da análise das trocas nos

newsgroups, anteriormente apresentadas, sendo a este nível que a participação na Internet pode ser autorizada ou desautorizada. Recebendo e fornecendo informação, a peritagem e a partilha das

143

próprias experiências com os outros pode ser uma experiência produtiva. Contudo, como já vimos, a ofensa pode ser uma experiência perturbadora para algumas pessoas. Nos casos citados, os “alvos” das ofensas responderam e receberam algum apoio dos outros membros do grupo. Mas tal nem sempre acontece. A própria tecnologia pode tornar a situação mais conturbada, para aqueles que não estão seguros quanto às possibilidades tecnológicas daquilo que pode ou não ser feito, especialmente quando outros utilizadores expressam desagrado contra os erros e a ignorância das outras pessoas (como aconteceu no grupo dedicado à deficiência).

Como se observou, embora possa fornecer apoio, a Internet constitui porventura o principal catalisador das inseguranças associadas ao crescimento da economia informacional. As ansiedades colectivas acerca da tecnologia e da velocidade da mudança podem, por si só, constituir uma barreira ao uso alargado das CMC como meio para disponibilizar entreajuda, apoio e informação. Se algumas pessoas se mostram preocupadas com o facto de a Net poder desumanizá-las, de serem ofendidas ou perseguidas via e-mail, de serem efectuados registos sobre as páginas web que visitam e as pessoas com quem se correspondem, tendo como objectivo pô-las em perigo, então podem sentir-se incapazes de participar no apoio e na ajuda online. Certamente, as pessoas têm consciência de que o ciberespaço é um ambiente onde qualquer um, independentemente dos seus motivos, pode enviar mensagens. Enquanto nos casos que apresentámos anteriormente, os utilizadores responderam às ofensas, outros podem sentir-se compelidos a não entrar mais no ciberespaço. É crucial investigar melhor até que ponto estas experiências são incapacitantes ou constituem formas de exclusão.

6.

Em suma, o tema do acesso e da exclusão social tem

sido debatido em relação à Internet (Loader, 1998b). O governo do Reino Unido procura pôr tantas pessoas quanto possível online para que as divisões existentes, baseadas na distribuição de bens, não se repitam no que diz respeito ao acesso à Internet. Contudo, assim que

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os custos de acesso decrescerem, as pessoas podem começar a utilizar a Net de forma diferente. Encarada correntemente como uma tecnologia dinâmica – onde as pessoas têm de ser pro-activas nas suas participações, pode tornar-se numa tecnologia de inércia, onde o uso da Net será largamente passivo. Neste sentido, as pessoas podem começar a tratar a Net tal como a televisão, especialmente se o principal modo de acesso for via redes de televisão digitais e por cabo. É sabido que, para cada participação activa nos newsgroups, existem muito mais “observadores” (lurkers) – pessoas que lêem as mensagens, mas nunca contribuem. Algumas pesquisas sugerem um rácio de 1:20 (Smith, 1999). Para alguns destes observadores, a informação, o aconselhamento e o apoio prestados podem muito bem ter benefícios. Contudo, existe também a possibilidade de os sistemas de acesso público de previdência online – com a sua variedade de narrativas diárias, esperanças e desesperos – estarem a ser tratados como

entretenimento

voyeurístico

e,

como

tal,

constituirem

simplesmente um resultado do voyeurismo da cultura popular.

O assunto da exclusão social já não é apenas um aspecto da falta de acesso (apesar da informação quantitativa neste trabalho ter mostrado ser importante não subestimar os factores sociais), remetendo para uma classe média mais bem equipada (virtual?), capaz de perceber e trabalhar com a tecnologia de modo a ficar em vantagem. Tal como nas suas formas tradicionais, a previdência online pode tender a favorecer uma classe média que tem o tempo, a reflexividade, a inclinação e os recursos para a explorar melhor, e ao fazê-lo estar sistematicamente a ganhar vantagem. Assim, os sistemas de assistência electrónica podem reproduzir outras formas de previdência e beneficiar aqueles que têm ‘uma boa situação’ em relação aos outros recursos de que dispõem – um tema recorrente na política social que necessita de ser urgentemente abordado.

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147

Internet e os seus Jornalismos: Teoria, Pesquisa e Estratégia da Produção de Notícias Online8 ______________________________________________ Mark Deuze

Introdução A 17 de Maio de 1991, o Instituto Suíço CERN divulgou o protótipo da World Wide Web. Em Maio de 1992, o Chicago Online, o primeiro serviço noticioso na América Online, foi lançado pelo Chicago Tribune nos Estados Unidos (Carlson, 2001). Desde Abril de 2001 que a base de dados US-based Editor & Publisher Interactive (http://emedia1.mediainfo.com/emedia/)

conta

com

12.878

registos

de

media

noticiosos online. Estas apostas por parte dos media noticiosos são definidas da seguinte forma: Todos os media com uma presença na Web. Poderão encontrar-se associações, guias de cidades, revistas, jornais, serviços noticiosos e sindicâncias, sites de rádios e estações televisivas na nova base de dados.” (E&P Medialinks, 2001). Na altura da realização deste ensaio, no início de 2001, é legítimo afirmar que estamos a presenciar o fim da primeira década do jornalismo online. Nestes dez anos não só milhares de jornais de referência criaram sites (e muitos deles encerraram estas operações outra vez), como milhões de utilizadores individuais ou grupos específicos de interesse utilizaram também a Internet como meio de divulgação das suas notícias – apesar de esses sites não estarem arquivados em bases de dados como a da E&P. Em simultâneo, publicações comerciais e académicas focaram amplamente os principais aspectos do jornalismo online – em particular na segunda metade da década (Deuze, 1999). Isto resultou no alargamento do campo de pesquisa, em manuais e teorias sobre um ou mais aspectos da produção de notícias online (cf. electrónica, digital, em linha) contemplando especialmente as competências técnicas e as novas tecnologias (consultar artigos genéricos, por exemplo: Deuze, 1998; Cooper, 1998; Kawamoto, 1998; Pavlik, 1999; para uma boa visão global sobre

8

As temáticas relacionadas com os jornalistas e a Internet tratadas no presente texto, constituem parte de um projecto, que teve lugar entre 1997 e 2001, sobre o jornalismo contemporâneo na Holanda. Este projecto incide sobre quatro temas principais: o jornalismo na Holanda no âmbito de [1] uma perspectiva internacional comparativa, [2] a sociedade multicultural, [3] o info-entretenimento e [4] a Internet. Este ensaio baseia-se parcialmente numa série de palestras efectuadas na Holanda, Bélgica e Portugal (entre Junho 2000 - Junho de 2001). Todos os sites mencionados neste ensaio serão listados no fim com as respectivas moradas (cf. Universal Resource Locators; URLs) na World Wide Web, pela ordem em que são mencionados ao longo do texto.

148

este assunto, consultar a obra de Reddick & King, 2001; outros livros incluem Rich, 1998; Callahan, 1998; Mcguire et al, 2000; De Wolk, 2001). O que parece estar a faltar é uma análise sintetizadora dos tipos de jornalismo existentes online, do valor acrescentado que esses tipos de jornalismo possam trazer, e finalmente, quais as lições e sugestões a retirar destes exemplos no delinear de novas estratégias (bem sucedidas) para os desafios que se colocam aos serviços noticiosos online. Este texto pretende contemplar os três pontos. Para tal basear-me-ei numa revisão extensiva da literatura existente, na minha experiência de seis anos no ensino, na discussão e apresentação de ensaios sobre temas relacionados com a Internet e o jornalismo online, em particular, em conclusões de inquéritos efectuados a jornalistas online na Holanda (ver Deuze, 2000) e Bélgica (Vanacker, 2001) e numa análise de entrevistas aprofundadas a peritos dos novos media na Holanda em 2000 (ver Deuze & Yeshua, 2001; Deuze, 2001). Como o presente ensaio tem o objectivo de apresentar uma visão global, e não um trabalho de investigação, as referências a dados específicos basearse-ão noutros textos académicos em que tive o privilégio de participar (em particular: Deuze, 1998, 1999, 2000 e 2001; Bardoel & Deuze, 1999; Deuze & Yeshua, 2001). Este ensaio divide-se em três partes: na primeira, são discutidos, de modo abrangente, quatro tipos de jornalismo online num leque que engloba dos conteúdos puramente editoriais até aos websites destinados à conectividade pública (Oddlyzko, 2001). Na segunda, é abordado o valor acrescentado destes tipos de jornalismo tendo em conta as características que definem a produção dos media num ambiente online: hipertextualidade, interactividade e multimédialidade (Newhagen & Rafaeli, 1996; Deuze, 1999). Na terceira, aborda-se o desfasamento existente entre literatura e investigação e os recentes desenvolvimentos online, que sugerem pelo menos as três estratégias, já mencionadas, para criar mais valias e desenvolver novos tipos de jornalismo online: o registo anotado de informação (Paul, 1995; Bardoel, 1996), jornalismo open source (Moon, 1999; Preecs, 2000) e hiper-adaptividade (Guay, 1995; Nelson, 1999). Jornalismo online Antes de identificar os diferentes tipos de jornalismo online, é necessário demonstrar explicitamente a forma como a Internet afecta o jornalismo, podendo esta questão ser discutida de dois modos diferentes: as incursões que a Internet fez nas salas de redacção e nos computadores dos jornalistas que trabalham para todos os tipos de media em termos de produção de notícias assistida por computador (PNAC), e a forma como criou o seu próprio tipo de trabalho noticioso: o jornalismo online

149

(Deuze, 1999). A utilização da Internet como ferramenta nas redacções dos media “tradicionais” – todos os media excepto a Internet- pode ser tipificada com base na utilização e disponibilização aos jornalistas de arquivos pesquisáveis, bases de dados e fontes noticiosas na Internet. Esta prática de redacção começou agora a dar os seus primeiros passos, em diversos países, quando comparada por exemplo com os Estados Unidos (Verwey, 2000). Vários académicos estudaram o efeito (PNAC) nos jornalistas e no trabalho noticioso, concluindo que para além de benefícios óbvios (mais informação, fontes, check e balance disponíveis gratuitamente), muitos repórteres e editores manifestaram desconforto e preocupação com a “omnipresença” da Internet no seu trabalho (Singer, 1997a e 1997b). Pesquisas efectuadas no Reino Unido, pela estação televisiva BBC, revelaram também o desconforto criado pelas novas tecnologias nas salas de redacção. Os jornalistas queixaram-se de falta de tempo para usar e dominar adequadamente a tecnologia, sentindo-se pressionados pela natureza “imediata” da Internet (Cottle, 1999). Outro aspecto relacionado com a produção de notícias assistida por computador, que afecta todos os jornalistas, é a forma de lidar com o e-mail, grupos de discussão (newsgroup) e IRC (Internet Relay Chat) num ambiente onde o controlo da informação é extremamente difícil, uma vez que a comunicação envolvida se apresenta anónima e com ritmo acelerado (Garrisson, 2000). Neste ensaio, contudo, as atenções concentram-se no jornalismo online: o “quarto” tipo de jornalismo que difere, nas suas características, dos tipos tradicionais de jornalismo (Deuze, 1999). O jornalismo online pode diferenciar-se funcionalmente dos outros tipos de jornalismo por utilizar a componente tecnológica como factor determinante da sua definição (operacional). O jornalista online tem de tomar decisões sobre qual o formato de media mais indicado para relatar uma determinada história (multimedialidade), tem de dar espaço de resposta ao público, interagir ou até moldar determinadas histórias (interactividade) e tem de pensar em formas de ligar a história com

outras

histórias,

arquivos,

recursos,

etc.…através

de

hiperligações

(hipertextualidade). Esta é a forma “ideal-tipo” de jornalismo online, professado por um número crescente de profissionais e académicos a nível mundial (nos EUA consultar Reddick e King, 2001; na Alemanha consultar Friedrichsen et al., 1999: 139-143; na Holanda consultar Stielstra, 1999). O consenso internacional entre os profissionais de media online, tal como é expressado em convenções como a Conferência NetMedia no Reino Unido ou a Conferência Editor & Publisher Interactive nos EUA, é de que o jornalismo online é definitivamente “uma espécie à parte” (Meek, 2000). Esta “espécie” de produtores de informação que produzem conteúdos essencialmente para a Internet (e especificamente para a World Wide Web), pode ser vista a trabalhar para um ou

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mais dos quatro tipos distintos de jornalismo online. Estes tipos de jornalismo podem ser localizados num conjunto de sites puramente editoriais até websites baseados na conectividade pública. (Ver modelo I, baseado parcialmente em Sparks, 1999:14).

Modelo I: Tipos de Jornalismo Online

Concentração na conectividade pública

Concentração no conteúdo editorial

Comunicação participativa fechada

Sites Noticiosos de referência

Sites de índice e categorias

Sites de comentários e

meta-sites

Sites de partilha e de discussão

Comunicação participativa aberta O domínio do conteúdo-interactividade intersecta-se com o domínio da comunicação participativa (eixo vertical), onde o site noticioso consiste de facto num conjunto de opções, permitindo a interacção, discussão, realização de upgrades ou downloads, comunicação participativa entre utilizadores e produtores (ver a discussão sobre as várias formas de interactividade, mais adiante). Deve ser feita uma chamada de atenção no que diz respeito à noção de “conteúdo”, uma vez que – na perspectiva do criador de sites Web – tudo é conteúdo online, incluindo faixas publicitárias, salas de chat, trabalhos de investigação. O “conteúdo editorial” integra, em nosso entender, textos (incluindo palavra escrita ou falada, imagens estáticas ou em movimento) produzidos e/ou editados por jornalistas. A interactividade com o público pode ser entendida, como a denomina Odlyzko (2001: 6), como comunicação “padrão ponto-aponto”, à qual podemos adicionar a noção de “público”: comunicação sem uma barreira formal de entrada (tal como um processo de edição ou mediação). O eixo vertical representa o nível de comunicação participativa oferecida por um site noticioso: um site pode ser considerado “aberto” quando permite aos utilizadores a

151

partilha de comentários, mensagens, ficheiros (i.e. conteúdo) sem intervenção de filtros ou mediadores. Por outro lado, na comunicação participativa “fechada” os utilizadores podem participar mas os seus actos comunicativos estão sujeitos a um controlo editorial rígido. O jornalismo online e os seus diferentes tipos podem ser encontrados entre estes dois domínios. Sites noticiosos dos media institucionais A forma de produção online dos media noticiosos mais difundida é o site noticioso dos media institucionais, oferecendo geralmente conteúdo editorial (seja resultado de ligações ou produzido originalmente para a Web) e uma forma moderada e mínima de comunicação participativa (Schultz, 1999; Jankowski e Van Selm, 2000; Kenney, Goulik e Mwangi, 2000). Os muito aclamados sites da CNN, BBC e MSNBC constituem alguns exemplos. A maior parte dos jornais online enquadra-se igualmente nesta categoria Podemos considerar que os materiais pedagógicos, manuais e planeamento de currículos de escolas de jornalismo e departamentos universitários se baseiam em grande medida neste tipo de jornalismo online, conjugando capacidades tecnológicas (trabalhar com um certo tipo de software, aprender XML ou HTML, por exemplo) com capacidades específicas de redacção de notícias para a Web (Nielsen, 1997; Mcguire et al, 2000). Sites temáticos Um segundo tipo de jornalismo online enquadra-se muito menos entre os media de referência, sendo geralmente atribuído a certos motores de pesquisa (como a Altavista ou Yahoo), empresas de estudos de marketing (tal como a Moreover) ou agências (Newsindex) e, algumas vezes, até a iniciativas individuais (Paperboy). Aqui os jornalistas online oferecem links aprofundados para outros sites noticiosos na World Wide Web, os quais são algumas vezes categorizados e até anotados por equipas editoriais. Esses sites geralmente não oferecem muito conteúdo editorial próprio, mas oferecem por vezes áreas para chat ou troca de notícias, dicas e ligações para o público em geral – por exemplo mantendo uma espécie de Bulletin Board System (BBS). Um exemplo bem conhecido é a opção, oferecida pela maior parte dos motores de pesquisa, de “adicionar o site”, o qual será sujeito a um escrutínio editorial. Como apontamento, podemos afirmar que os sites que oferecem algum conteúdo editorial e também fornecem ligações (comentadas) a conteúdos noutro local na Web, tal como o

152

Diário das Artes & Letras Australianas, o site noticioso do bósnio Mario Profaca ou o infame Drudge Report de Matt Drudge, se enquadram nesta categoria. O que algumas vezes é rotulado de “novo jornalismo online” é o fenómeno do “Weblog” ou “Blog”, um diário de um indivíduo muitas vezes de carácter pessoal, não de um jornalista, relatando histórias acerca de experiências online e oferecendo aos leitores ligações com comentários a conteúdos encontrados enquanto navegava na Net (Bunn, 2001; Lassica, 2001). Estes tipos de jornalismo individual (também conhecidos como “sites de conteúdo gerados pelo utilizador”) podem ser enquadrados algures entre os sites temáticos e de comentário, uma vez que tendem a oferecer a comunicação participativa limitada (geralmente é apenas uma pessoa a dar a sua opinião acerca de outros temas), mas fornecem de igual modo bastante conteúdo – e comentam o mesmo. Sites de comentário e meta-sites Esta terceira categoria de sites noticiosos diz respeito a sites sobre notícias e temáticas relacionadas com os media em geral. Estes sites são encarados algumas vezes como “cães de guarda” dos media (Mediachannel, Freedonforum, Poynter’s Medianews, E&P’s E-Media Tidbits; ver Pavlik, 2001), outras vezes como sites temáticos alargados (European Journalism Center Medianews, Europemedia, para dar dois exemplos europeus). O conteúdo editorial é muitas vezes produzido por uma variedade de jornalistas e, basicamente, discute outros conteúdos encontrados noutro local na Internet. Tal conteúdo é discutido em termos dos processos subjacentes à produção das notícias. Este “jornalismo sobre o jornalismo” ou meta-jornalismo, floresce particularmente online. Neste caso a Internet contribuiu para uma maior profissionalização do jornalismo em geral, sendo a capacidade e o desejo de reflectir publicamente sobre si mesmo e a autocrítica igualmente encarados como uma das características definidoras de uma profissão (Beam, 1990; Boylan, 2000). Sites de partilha e discussão Como foi referido anteriormente, a principal distinção efectuada no nosso modelo faz-se entre o conteúdo e a interactividade. Odlyzko (2001) argumenta que a primeira e mais óbvia razão para o sucesso das novas tecnologias de informação e comunicação como a Internet e a World Wide Web reside no facto de as pessoas quererem interagir umas com as outras – a um nível global sem fronteiras (ver também

153

Rushkoff, 1997). Por outras palavras, representa “apenas” uma infraestrutura de comunicação (Rushkoff, 2000). O jornalismo online, tal como o quarto tipo de jornalismo online, utiliza este potencial da Internet, uma vez que facilita essencialmente plataformas para a troca de ideias, histórias, etc, algumas vezes centradas num tema específico, tal como o activismo mundial anti-globalização (Centros de Media Independentes, geralmente conhecidos como Indymedia) ou notícias sobre computadores (Slashdot, englobando uma página de leitura: Notícias para Intelectuais, Coisas que interessam, Tweakers). Muitos sites optaram por explorar comercialmente esta exigência pública de interactividade, organizando de algum modo plataformas editoriais para a discussão de conteúdo noutro local da Internet (Plastic, Nerve, Feed).9

Características Os quatro tipos de jornalismo identificados utilizam todos em certa medida as características

chave

(cf.

paradigmas

editoriais

na Web)

do

ambiente

de

computadores em rede em que operam: hipertextualidade, multimedialidade e interactividade. Cada um destes três paradigmas tem os seus modelos próprios, no seu estado actual, os quais procurarei exemplificar analisando a situação das notícias online. Hipertextualidade O problema com o hipertexto relaciona-se com o facto de, tal como descreve um dos fundadores do hipertexto, Ted Nelson, criar “um sistema de distribuição para unidades próximas separadas – um sistema que permite que apenas as ligações firmadas apontem para o exterior ” (Nelson, 1999). Aquilo que temos de compreender é que os textos, interligados através de ligações – hiperligações –, podem reportar-se internamente (a outros textos dentro do domínio do texto) ou externamente (a textos localizados noutro local da Internet). Estamos perante dois tipos completamente diferentes de hipertextualidade, uma vez que um abre um novo conteúdo e o outro 9

Não existe uma história de sucesso comercial: Automatic Media, a empresa que tem sites tal como Plastic and Feed, fechou as portas a 11 de Junho de 2001 devido a falta de receitas (Lindsay, 2001). Dois editores da Plastic permaneceram voluntariamente com o intuito de manter o site online.

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desencadeia uma espiral descendente de conteúdo. Se um site se reporta apenas a documentos encontrados no mesmo, isso quer dizer que, na verdade, a World Wide Web não existe, que apenas os documentos locais do site podem e devem ser interligados. Se examinarmos a forma como os sites noticiosos actuais aplicam estes conceitos, a conclusão afigura-se pessimista. Na realidade, poucos sites incluem hiperligações e se o fazem, não integram a sua informação na Web, ligando-se mais vulgarmente a páginas noutros locais dentro do mesmo motor de pesquisa (Jankowski e Van Selm, 2000). Mas ligar e integrar camadas de conteúdo externo – através da gestão e revelação de conteúdo – é problemático, por violar a propriedade intelectual e os direitos de autor.

Multimédialidade Em 1995, o criador da Web, Tim Guay, chamou à atenção para as armadilhas inerentes à aplicação de conteúdos multimédia em Websites: “se o multimédia é usado sem qualquer preocupação em relação à razão pela qual está a ser utilizado ou tem uma organização ou conteúdo pobres, pode resultar num inútil fiasco estético que ocupa espaço desnecessariamente” (1995:5). A constatação de que o tamanho da banda e os direitos reservados constituem ainda dois factores estruturais impeditivos da progressão no desenvolvimento de conteúdo multimédia inovador, permite-nos perceber os problemas que as empresas dos media enfrentam ao integrar na sua sala de redacção tradicional, a equipa editorial da Web, para além de desenvolver e integrar o conteúdo (ou até salas de redacção “virtuais”) com outros fornecedores de conteúdo. Isto pode ser compreendido, se distinguirmos a multimédialidade nos sites noticiosos como resultado da convergência de modalidades de media (onde o multimédia pode ser encarado como a soma de diferentes formatos de media) ou como um paradigma divergente (onde todas as partes do site são desenvolvidas num ponto de partida (numa plataforma) multimedial, oferecendo ao utilizador final vários caminhos para e através do conteúdo do site). Apesar de poucos websites estarem de facto a utilizar multimédia, a maior parte dos sites noticiosos que o fazem, fazem-no segundo uma perspectiva

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convergente (CNN e a BBC são bons exemplos). Aqueles que são claramente divergentes são muitas vezes produtos fora dos media dominantes (tal como a Rockstargames). Vários críticos do multimédia expressaram dúvidas quanto ao desejo de convergência dos media, dizendo que seria apenas outro modo de produzir mais conteúdo com menos repórteres (Jenkins, 2001) ou que os produtores executivos das notícias aceitariam a nova tecnologia mas não as suas potenciais características “democratizantes” – tal como usar aparelhos para gravar não só aquilo que as tradicionais câmaras e microfones gravariam, mas também exemplos de vozes de diferentes instituições fora dos círculos dominantes (Devyatkin, 2001). Isto reflecte a natureza quase “dual” do desenvolvimento dos multimédia: por um lado os simples avanços tecnológicos (cf. hardware), por outro o impacto destas tecnologias na cultura do jornalismo (online). Talvez estas duas correntes de pensamento devessem convergir, antes que a divergência se torne numa opção viável para os sites noticiosos. Interactividade As opções interactivas nos Websites podem ser subdivididas em três tipos ou formas: interactividade navegacional (através das opções “página seguinte” e “voltar ao topo” ou percorrendo as barras de tarefas), interactividade funcional (através de mail directo para ligações, Bulletin Board Systems (BBS) e listas de discussão moderadas), ou interactividade adaptativa (oferecendo Chatrooms e padronização pessoal através do “smart Webdesign”; ver Guay, 1995). Ao observar opções interactivas nos sites noticiosos, vários académicos notaram a sua simples ausência, ou melhor, o facto de a maioria dos sites não desenvolverem a interactividade para além dos níveis funcional e navegacional (Schultz, 1999; Jankowski & Van Selm, 2000; Kwenney, Gorelik e Mwangi, 2000). Guay (1995) afirma que o nível mais sofisticado de interactividade é o adaptativo, o que implica a possibilidade de o próprio site se adaptar (idealmente em tempo real) ao comportamento do navegador visitante. A recente pesquisa sobre o consumo dos media de Sundar (2001) revela que quanto mais oportunidades interactivas são oferecidas, mais envolvidos se sentirão os utilizadores do site. Outing (2001) comenta que isto funcionará mesmo quando os navegadores não utilizam verdadeiramente todas estas potencialidades interactivas. Isto sugere um quarto nível global de interactividade: a interactividade apercebida num site. O próximo passo na nossa análise é procurar demonstrar até que ponto estas características podem ser encontradas nos quatro tipos de jornalismo online. Sendo,

156

tal como o modelo 1, um modelo em grande parte teórico, deve ser interpretado no sentido do modo como os jornalistas, de uma forma geral, desenvolveram cada uma destas características permitindo, é claro, excepções. Modelo II: Características do jornalismo online Sites noticiosos

Sites de índice e

Sites de comentário e

Sites de partilha e

dos media

categorias

metasites

discussão

institucionais Hipertextualidade

Interna

Externa

Externa

Externa e Interna

Interactividade

Navegacional

Navegacional

Funcional

Adaptativa

Multimedialidade

Convergente

[Nenhuma]

[Nenhuma]

Convergente/divergente

Regra geral, os sites noticiosos dos media institucionais parecem operar em hipertextualidade interna – oferecendo poucas ligações externas – essencialmente com interactividade navegacional – a maior parte dos sites noticiosos não oferecem sequer o e-mail dos repórteres, muito menos ligações via e-mail – e em raras ocasiões oferecem multimédia convergente. Os sites de Índice e Categorias, por outro lado, baseiam-se quase exclusivamente na hipertextualidade externa, uma vez que juntam, indexam e categorizam conteúdo editorial encontrado noutro local na Internet. A sua interactividade é também navegacional, o que pode ser explicado (tal como no caso dos sites noticiosos dos media institucionais) pelo facto de se concentrarem no conteúdo em detrimento das ligações. Estes sites aplicam poucas vezes o multimédia, a não ser que tenham a intenção de indexar imagens (por exemplo, os motores de pesquisa especializados oferecem Jpeg ou Mpeg-searchbots com comentários editoriais). Os sites de comentário e metasites não oferecem de igual modo conteúdo multimédia, e tendem a basear-se em ligações externas. Como estes sites são geralmente feitos por um ou mais críticos dos media ou indivíduos “inspirados”- caso dos Weblogs - que usam claramente a interactividade funcional (Lasica, 2001). Isto pode ser encarado como a aceitação de um tipo de responsabilidade discutível: a de permitir ao navegador que submeta feedback, dicas ou conteúdo directamente às pessoas responsáveis pelo metasite. Tendo em conta que estes sites também funcionam como uma espécie de registo (índice anotado) do jornalismo existente pelo mundo fora, a sua hipertextualidade é predominantemente externa. Os sites de discussão e partilha são em geral baseados exclusivamente em textos escritos. A televisão Freespeach é uma excepção específica uma vez que se baseia em conteúdo não disponibilizado através da infraestrutura dos media

157

institucionais (cf. multimédia divergente). Os sites desta categoria concentram-se na ligação com o público e as mensagens, ligações e submissão de navegadores formam a base do conteúdo do site. Isto geralmente resulta na aplicação de diferentes níveis de interactividade, incluindo opções de interactividade adaptativas (ver, por exemplo, as opções para as secções de ficheiros, agendas partilhadas e sessões de chat oferecidas por sites grátis de mailing-lists como Yahoogroups, Topica, Listbot). Este tipo de sites pode ser tipificado pelo facto de as pessoas utilizarem a “marca” do site para comunicarem através dela (com os outros), em vez de utilizarem a marca para comunicarem – como no caso dos outros três tipos de sites (ver Slashdot, Plastic, Backwash, mas também Indymedia, Protest.Net, por exemplo). Valor acrescentado Entrevistas realizadas no âmbito de projectos de investigação a jornalistas em formação online (ver Deuze & Yeshua, 2001, p.e.) e a leitura de revistas temáticas, mostram que estes profissionais dos media partilham uma única questão, para a qual têm duas abordagens distintas. Qual é a mais valia do jornalismo online? Nesta primeira abordagem que Van Zoonen (2001) denomina “utópica”, aquilo que a Internet traz é geralmente considerado como um mundo melhor para todos. Neste contexto, a questão pode ser enquadrada da seguinte forma: onde poderemos encontrar o valor acrescentado do jornalismo online? A segunda abordagem é pragmática ou pessimista: baseia-se na suposição de que não existe qualquer valor acrescentado para o jornalismo online mas, uma vez que toda a gente está online, vale a pena fazêlo também. Num contexto diferente, Singer (1997) rotulou de “realista racional neutral” o jornalista que opta por esta abordagem. Juntando o modelo I e II, podemos agora prosseguir na abordagem desta questão do valor acrescentado, no sentido de percebermos a forma como os tipos de jornalismos online identificados e as suas características podem de facto ser consideradas como um valor acrescentado aos outros media noticiosos (rádio, televisão, imprensa, cabo). Em cursos de formação suplementares realçando ou exemplificando como “Escrever para a Web”, muitos jornalistas ressaltam o facto de regularmente se discutir na sala de redacção, se o site noticioso “canibaliza” de facto a base empresarial da organização dos media

– discussão inerente apenas aos media noticiosos. Uma

pesquisa anterior sobre leitores de notícias online sugere que esta atitude canibalística – oferecer “palha” e publicar notícias antes de elas chegarem a ser difundidas ou impressas – serve de facto dois públicos diferentes: aqueles que correm para o trabalho de manhã e não têm tempo de pegar no jornal para ler os cabeçalhos e as

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pessoas em férias no estrangeiro que querem manter-se informadas sobre o que se está a passar no seu país (Co-eficiente, 1997; Porteman, 1999). Tendo em conta este ponto de vista, faz sentido que tais sites noticiosos limitem a amplitude da comunicação participativa e se concentrem naquilo que Nielse (1997) descreve como conteúdo editorial “breve, conciso e objectivo”. Os editores de sites noticiosos na Holanda lamentam, por exemplo, a falta ou a qualidade do feedback que recebem – o que é compreensível se considerarmos que os navegadores que querem interagir (e ter algo com que interagir) não parecem querer fazê-lo em sites noticiosos dos media institucionais. A canibalização pode ser resolvida se os editores optarem por fornecer valor acrescentado a um público específico de um site que oferece hipertextualidade interna e interactividade navegacional livre. Este não é o mesmo público de um produto impresso ou difundido. Por outro lado, um estudo recente nos Estados Unidos mostra que os visitantes frequentes de sites de jornais estarão mais inclinados a assinar a versão impressa, ou a comparar cópias isoladas, do que a cancelar a assinatura, uma vez que todo o conteúdo é oferecido online gratuitamente (Nicholson, 2001). Os sites noticiosos dos media institucionais que procuram conjugar as suas características com o multimédia (convergente), enfrentam uma discussão mais difícil. Sites como a CNN e BBC estão a competir com os seus parceiros televisivos. Cottle (1999) mostra que a introdução da Internet na sala de redacção da BBC causou sentimentos de stress e desconforto entre os jornalistas envolvidos. De repente temos de ter em mente o parceiro online, dominar a nova tecnologia, aprender as técnicas e reflectir sobre o seu significado no que diz respeito aos valores e padrões do jornalismo – o que não é uma tarefa fácil para qualquer profissional (Deuze, 1999). O valor acrescentado destes sites noticiosos dos media institucionais mais elaborados – em termos da sua multimedialidade – deve ser definido de acordo com as suas características (cf. conteúdo editorial, comunicação fechada). Em meu entender, isto significa que o valor destes sites e deste tipo de jornalismo pode ser encontrado, simplesmente, na sua capacidade de arquivo – um canal noticioso de emissão contínua tem o problema específico de ter em mãos mais conteúdo do que aquele que pode transmitir no âmbito de um programa diário organizado de emissões noticiosas contínuas e recorrentes. A natureza volúvel destas notícias pode ser suplementada pela aparente capacidade infindável do servidor da Web. Isto divide efectivamente os utilizadores entre aqueles que se contentam em receber apenas os cabeçalhos – e talvez os talkshows ocasionais – e aqueles que querem captar todos os detalhes da história ou das histórias, incluindo audio, vídeo e texto escrito.

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Os sites de Índice e Categoria vivem da canibalização, forte ligação (aprofundada) ao conteúdo oferecido por outros, noutro local da Internet. Ao fazê-lo, apresentam o melhor valor que a hipertextualidade tem para oferecer. A hipertextualidade liga pessoas e conteúdos por toda a Web e tem o potencial de promover os ideais de acessibilidade e internacionalização da informação online (Consórcio World Wide Web, 2001). Um valor acrescentado específico desta questão pode ser o facto de um site de índice utilizar a interactividade funcional (através de ligações de mailto) para que as pessoas submetam hiperligações a conteúdos que geralmente não se encontram ou estão indexados algures, permitindo assim o acesso a informação encontrada nas margens da Internet – fora dos media institucionais. Isto pode ser apreendido como um valor acrescentado segundo um estudo recente nos Estados Unidos: apenas catorze companhias registam 60% do tempo passado online (Jupiter Media Matrix, 2001). Isto também se aplica a sites de comentário e metasites, que têm o potencial de realizar um exame crítico a questões sobre a produção online dos media. O valor acrescentado deste grupo liga-se a sites centrados unicamente na partilha (de informação) e discussão: níveis de interactividade elevados. Este tipo de sites permite que as pessoas discutam e partilhem informação sobre um leque extenso de temas ou sobre um determinado assunto. Este valor acrescentado pode ser uma resposta àquilo que, na opinião de Schudson (1999), corresponde a uma mudança na definição de cidadania: do cidadão do início do século XX amplamente informado para o “cidadão monitorial” de hoje. Este “novo” cidadão pode ser tipificado como uma pessoa que exige, a qualquer momento, informação atempada, detalhada, completa e de alta qualidade sobre assuntos que ele ou ela (individualmente) identifica como sendo ameaças ao bem pessoal e/ou público (Schudson, 1999: 11). O quarto tipo de jornalismo online parece ter o potencial de fornecer um serviço público para este novo tipo de cidadania, que é suportada pelo facto de florescer particularmente em comunidades exteriores aos sectores institucionais (tal como os grupos activistas). Schudson tem razão ao concluir que a cidadania monitorial neste contexto é mais exigente para os media noticiosos do que a cidadania informada (ibidem). Em suma, podemos afirmar que cada tipo de jornalismo online tem um valor acrescentado distinto, quando comparado com aquilo que os media oferecem através de outras modalidades – imprensa, radiodifusão e redes, assim como inúmeras potencialidades adicionais “secundárias”. Em termos de conteúdo isto significa que a capacidade arquivística (comentada), visando a conectividade, fornece plataformas (moderadas) para a partilha e discussão de conteúdo. A questão original do “valor acrescentado” pode por isso ser reformulada, indagando-se se os diferentes tipos de jornalismo online, com as suas características de valor acrescentado, devem ser ideal

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e tipicamente combinados num modelo mais ou menos “universal” de jornalismo online. Face à influência da Internet, vários autores - independentemente de concordarem ou discordarem - parecem partilhar esta ideia apontando mudanças consideráveis, desafios e até ameaças para o jornalismo (ver, a este propósito, Pavlik, 1998 e 1999; Fallows, 1999; Porteman, 1999; Heinoen, 1999). No contexto deste ensaio assume-se que o ideal-tipo do jornalismo online não pode ser simplesmente a soma dos valores acrescentados dos seus tipos distintos. Para que um site noticioso se torne interactivo, permitindo a participação, ou um site de discussão comece a oferecer conteúdo editorial de qualidade, a própria sala de redacção tem de sofrer algumas alterações e enfrentar algumas escolhas difíceis no que diz respeito a valores, objectivos e modelos – para além de lidar com aspectos comerciais problemáticos de rotinas de publicação electrónica e com o impacto que tais escolhas podem ter na organização e gestão da sala de redacção. Gostaria por isso de concluir esta visão geral de caracteristicas e mais valias dos tipos de jornalismo online, olhando para um certo número de estratégias, mais ou menos “novas”, na produção online dos media noticiosos - o que até certo ponto fornece modos de lidar com o potencial, já referido, do hipertexto, da interactividade e do multimédia – e analisando criticamente os riscos inerentes ao uso de determinadas modalidades e opções na exploração da comunicação participativa entre produtores e consumidores do conteúdo. Estratégias novas Neste âmbito, seleccionámos três estratégias: registo anotado de informação, jornalismo open source e sites noticiosos hiper-adaptáveis (ver também Deuze, 2001). A razão desta escolha prende-se com o facto de as características e valores acrescentados dos diferentes tipos de jornalismo online poderem ser abordados simultaneamente com estas três estratégias, as quais até certo ponto partem da hipótese de que o jornalismo pode de facto utilizar as potencialidades do online, acrescentando valor aos media noticiosos existentes. Outro motivo para esta selecção, é o facto de as três opções abordarem respectivamente três elementos distintos da publicação online, e proporcionarem formas de conjugar as estratégias num site de jornalismo online global– uma questão que será abordada no debate deste ensaio.

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Registo anotado de informação Em 1995, críticos dos novos media, compreenderam que os jornalistas já não eram os únicos a fornecer informação – em especial na World Wide Web (Lapham, 1995). E esta é uma afirmação que peca por defeito. Mesmo se considerarmos os últimos números do total de sites noticiosos (ver introdução), apenas correcto num décimo, são ainda modestos quando comparados com os milhões de sites que existem. O Poynter de Nora Paul avançou o termo “jornalismo de anotação”, em Fevereiro de 1995, para definir esta realidade. Paul visionou um modelo de jornalismo baseado em hiperligações, numa perspectiva da audiência constituída por utilizadores activos em detrimento de consumidores passivos de informação, exigindo “uma nova categoria de profissionais na sala de redacção de produtos interactivos” (Paul, 1995: 3). Vários críticos dos media adoptaram o termo ou modificaram-no ligeiramente para que pudesse abarcar a ideia de um equilíbrio de poder em mudança entre o jornalismo e os seus públicos na economia pós-industrial das sociedades ocidentais “glocalizadas”. Estas mudanças não reduzem apenas a necessidade de mediação por profissionais dos media, como é sugerido muitas vezes pelos optimistas tecnológicos (expresso na expressão “fim da mediação”). Paradoxalmente, a par da alteração de fronteiras entre jornalismo e não-jornalismo é a própria profissão que pode ser encarada como potencialmente capaz de proporcionar um caminho através do “mar de vozes” que narram histórias de forma participativa. Os cidadãos tornar-se-ão pesquisadores de informação mais directos e activos em assuntos com os quais já estão familiarizados – exigindo o jornalismo instrumental – enquanto continuarão a carecer de apoio em domínios com que estão menos familiarizados – optando por um jornalismo orientador (Bardoel, 1996). O registo anotado de informação pode assim ser visto como um híbrido entre estas duas opções: crítica – esperando interesse especializado do lado do público - e também orientação - guiando as pessoas para/e através da informação num determinado tema ou tópico. Comentar significa acrescentar uma explicação à informação – informação de comentário extra, segundo o Dicionário de Computação Online. Uma das tendências visíveis nas pesquisas de jornalismo internacional, principalmente nas democracias Ocidentais, é o aumento da importância atribuída pelos jornalistas à dimensão explicativa (Weaver, 1998), adicionando comentário e análise à informação, consubstanciada no que Barnhurst designou de “Nova Extensão da Teoria do Jornalismo” (Barnhurst, 1999). Por outras palavras, habitualmente falava-se de “fazer chegar a informação ao público”, a que agora se acrescenta “análise e explicação de assuntos complexos” (na Holanda a última forma é a mais popular entre todos os

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jornalistas,

ver

Deuze,

2000)

Alguns

críticos

dos

media

lamentam

este

desenvolvimento: quem precisa de mais um comentário e opinião? Pode afirmar-se que as lições retiradas da Internet e da World Wide Web podem apontar para uma disciplina de puro jornalismo de anotação, ou seja, um modelo de jornalismo direccionado para pesquisar informação, que se apresenta nas suas linhas gerais a um público interessado (uma pessoa, através de conteúdo personalizado, ou uma determinada comunidade de pessoas com um interesse comum) indicando-lhe onde aceder em pleno à informação pretendeida. Sites como o Slashdot constituem bons exemplos de formas anteriores destes géneros, permitindo aos utilizadores criar um ambiente no qual as pessoas possam aceder e enviar informação – comentar ou discutir a informação. Nos media tradicionais estão a desenvolver-se géneros semelhantes. Podemos pensar na secção “Hoje nos Jornais”, nos programas matinais informativos da televisão ou na crítica periódica da maior parte das revistas de opinião. Assim, o jornalismo de anotação devia ser definido como uma forma de metajornalismo orientado para servir. Um jornalismo sobre o jornalismo. Jornalismo open source Em Outubro de 1999 a revista americana Jane’s Intelligence Review decidiu não publicar um artigo antes de permitir que a comunidade Slashdot, anteriormente mencionada, o avaliasse. O artigo foi criticado pelos visitantes do Slashdot, tendo o editor retirado o artigo original e substituído por outro baseado nos comentários dos críticos (ver Leonard, 1999). Esta foi uma forma pura de jornalismo open source: o uso das fontes “abertas” na Internet para comprovar factos. O termo “open source” tem origem no procedimento que faz com que os códigos de fonte do software estejam disponíveis para que os peritos e utilizadores regulares possam encontrar e corrigir falhas e modificar o código original para seu próprio benefício (O’Reilly, 1998). O jornalismo open source aplica este princípio a histórias noticiosas – tornando-as disponíveis para escrutínio e correcções antes da publicação definitiva (Moon, 1999). Tal como sintetiza Moon: “Defensores do jornalismo de fonte aberta proclamam-no como um novo jornalismo, aperfeiçoando tudo aquilo que de errado existe no jornalismo tradicional. Outros opõem-se fortemente ao uso de fontes abertas, afirmando que irá travar a prática do jornalismo tradicional e permitir que os peritos interfiram no controlo editorial dos jornalistas e das pessoas para as quais escrevem.” (1999)

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A ideia fundamental subjacente ao jornalismo open source pode ser vista como uma forma avançada de jornalismo cívico, público ou comunitário envolvendo o público nas notícias (produção), criando uma espécie de site de conteúdo gerado pelos utilizadores, tal como Preecs descreve, de uma forma idealista: “O jornalismo open source seria jornalismo amador, jornalismo produzido por cidadãos, académicos, activistas comunitários e outros agitadores só porque adoramos a ideia de criar, organizar ou divulgar a informação que poderia salvar o nosso planeta e as nossas almas” (2000). A Internet apresenta-se como uma plataforma ideal para melhorar o jornalismo, uma vez que coloca milhões de pessoas na qualidade de potenciais peritos de informação numa infraestrutura global de comunicação, incorporando a especialização de pessoas que até aqui não participavam deste contexto. Temos também de admitir que esbate as fronteiras daquilo que consideramos ser o jornalismo – mas podemos afirmar que isto seria uma definição restrita de jornalismo. Considerando o aumento dos níveis educacionais em todo o mundo (especialmente nas democracias Ocidentais), bem como a crescente diferenciação funcional e desenvolvimentos em direcção a nichos de mercado mais especializados, a inclusão de peritos públicos parece já não ser uma realidade distante, conferindo um futuro ao jornalismo em geral. As potencialidades (e os riscos) do jornalismo open source devem por isso ser exploradas, não abandonadas. Um primeiro exemplo de apoio a este potencial vem de um inquérito realizado aos jornalistas Dinamarqueses online em 1999: 69% desses profissionais dos novos media concordaram com a ideia de que uma forte relação interactiva com o público funciona como alicerce essencial para qualquer site noticioso (Deuze, 2000: 362). Sites noticiosos hiper-adaptáveis A chave para compreender as inúmeras mudanças, em particular nas tecnologias dos novos media, é a convergência e a fusão de instrumentos tecnológicos

existentes

com

redes

computadorizadas,

possibilitada

predominantemente pela digitalização de todos os formatos de informação. Isto facilita a comunicação aberta entre todos os aparelhos usados de algum modo para juntar, seccionar, editar e distribuir informação. Mas o paradigma da convergência pode ser atribuído a várias mudanças na sociedade contemporânea, constituindo a reflexão

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acerca do design da Web e o futuro da Internet apenas um aspecto, uma vez que integra todos os nossos electrodomésticos tal como o vídeo, a televisão e o telefone móvel. A convergência ocorre a vários níveis e pode ser vista como um processo contínuo na sociedade – podemos pensar na convergência de público e esferas privadas, cultura “alta” e “baixa”, cultura e indústrias de entretenimento, pensamento modernista e pós-modernista, etc.. Jenkins (2001) afirma que é possível distinguir cinco processos de convergência tecnológica (cf. digitalização), económica (cf. integração horizontal de indústrias), social ou orgânica (cf. multi-funções), cultural (cf. contar histórias geradas por utilizadores) e global (cf. “aldeia global” de McLuhan). Em 1995, Tim Guay escreveu sobre a convergência de paradigmas de publicação existentes na Web – multimédia, hipertextualidade, interactividade – para aquilo que previmos vir a tornar-se o futuro padrão do paradigma divergente: hiperadaptividade (Guay, 1995). Um dos aclamados “pais” do hipertexto, Ted Nelson, mais tarde definiu este conceito como “media analógico” – afirmando mesmo explicitamente que este novo paradigma se desenvolveu para evitar que algo como a World Wide Web persistisse (Nelson, 1999). De acordo com estes autores, aquelas que consideramos ser as três características autónomas da Web irão eventualmente divergir num único paradigma de edição. Noutra abordagem, discutimos que o aprofundamento do conteúdo pode ser encarado como um traço distintivo do jornalismo online (Bardoel e Deuze, 1999). O próximo passo do jornalismo num ambiente digital convergente e em rede deve ser criar conteúdo num ambiente que interaja com o meio sem a limitação dos formatos dos media (ou: janelas). Guay (1995) refere-se a este tipo de design como hiperadaptividade: a convergência de hipertexto, multimédia e interactividade particular. Para o jornalismo isto significa afastar-se de dois princípios definidores da profissão: distribuir informação sob uma única marca, de modo a obter e manter um público mais ou menos sem rosto, e permanecer dentro das limitações de um único formato (audio, vídeo, texto). Isto pode não acontecer no jornalismo online, mas gostaria de defender que constitui a essência da profissão jornalística onde é necessário intervir em cima do acontecimento.

Debate Tentei sumariar as novas estratégias potenciais para os diferentes tipos de jornalismo online no Modelo III que, esquematicamente, conduz ao debate final sobre o possível caminho a seguir para a produção de media noticiosos online.

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MODELO III: Estratégias potenciais para o jornalismo online Sites

noticiosos

media institucionais

dos

Sites

de

índice

categorias

e

Sites de comentário e

Sites

metasites

partilha

de e

discussão Registo anotado de

Não/talvez

Sim

Sim

Sim

Não

Não

Talvez

Sim

Não

Não

Não

Sim

informação Jornalismo de fonte aberta Site

noticioso

hiperadaptativo

Quando os sites noticiosos optam por acrescentar ou aumentar hiperligações (externas),

interactividade

(funcional/adaptativa)

e

multimédia

(convergente/divergente), também optam por hipóteses que vão para além da adição de um texto fundamental, uma página adicional com um formulário para feedback ou uma ligação a um fragmento de vídeo. Tais mudanças estão também ligadas aos padrões de organização editorial e a desafios colocados a práticas jornalísticas estabelecidas, normas e valores, ao narrar histórias. Uma vez que o todo do site é mais do que a soma das suas partes, adicionar uma acarreta implicações para além do todo. Os valores acrescentados sugeridos e as novas estratégias dos jornalismo online não podem ser simplesmente incorporados um a um, sem fundamentalmente mudar a “natureza do animal” – sendo o “animal” aquela particular sala de redacção e os seus profissionais envolvidos. Por outras palavras, mudar os tipos de jornalismo online pode muito bem mudar aquilo que pensamos ser o jornalismo. Por isso, o Modelo III procura sugerir qual a estratégia que melhor serve a cada tipo de jornalismo online, baseando-se numa reflexão das características destes sites como foi mostrado no Modelo II. O registo anotado de informação pode ser encarado como um valor acrescentado para todos os tipos de recolha, partilha ou oferta de informação online. Qualquer pessoa pode transmitir informação, mas quem a pode descrever, avaliar ou comentar para que as pessoas tenham acesso a segmentos de informação relevantes? É de notar, por isso, que os sites noticiosos dos media institucionais em particular, não tenham (ainda) desenvolvido este tipo de valor acrescentado. Talvez esses sites possam começar a incorporar formatos de transmissão de histórias comentadas. Muitos já estão a fazê-lo, em especial nas secções sobre os media, tal como o top comentado diariamente das “Dez Melhores” histórias noticiosas no

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MediaGuardian ou o sistema de avaliação comentado para hiperligações externas do site dinamarquês Algameen Dagblad. O site norueguês Nettavisen é também um exemplo de um serviço noticioso que se baseia unicamente na recolha e no comentário de materiais online. Isto provoca um impacto no ideal jornalístico, que se baseia no pressuposto de que a história é contada pelo jornalista, contudo ele ou ela serão, presentemente, ‘apenas’ aqueles que contam a história sobre outros contadores. A próxima fase, o jornalismo de fonte aberta, precisa de uma predisposição específica e de um consenso da sala de redacção para que seja alcançado (quer com os jornalistas, quer com o público). O único tipo de jornalismo online para o qual isto não é novo é o site de discussão e partilha, onde as pessoas se juntam para apresentar, discutir e por vezes até trabalhar histórias encontradas algures na Web. Utilizar este potencial para produzir conteúdo gerado por utilizadores, direccionado para o conhecimento próprio da multidão em detrimento das perspectivas do académico ou do político, também provoca uma demarcação na prática jornalística entre aqueles que se sentem mais confortáveis com a narração autónoma de histórias “top-down”,

e

aqueles

que

não

se

sentem

ameaçados

pela

retórica

“produtor=consumidor=produtor” da Internet, mas que, de facto, a aceitam. Não é por isso surpreendente que este tipo de jornalismo possa ser encontrado aí, onde as atenções se centram menos no conteúdo e mais na ligação – um tipo de jornalismo online mais afastado das organizações noticiosas de referência. Podemos perguntarnos sobre o que traz de novo o jornalismo open source a um site noticioso que apresenta conteúdo em grande medida direccionado para um jornalismo actual. A minha ideia é de que este tipo de narração aberta funciona no caso de publicações específicas dirigidas para um determinado nicho (tal como mostra o exemplo da Jane’s Intelligence Review. Ver Moon, 1999), de comunidades formadas em torno de temas ou tópicos (tal como os novos movimentos sociais online) e, porventura, também no caso dos jornais regionais com uma presença na Web, cujo objectivo é desempenhar um papel de maior integração na comunidade geográfica que pretendem servir (Lapham, 1995; Deuze, 1999). A terceira opção, tornar um site noticioso hiperadaptativo, alicerça-se em verdadeiras noções de interactividade, hipertextualidade e – possivelmente – multimedialidade. Fazer com que um site se adapte, mais ou menos automaticamente, às necessidades e desejos dos navegadores pode parecer manifestamente semelhante ao modelo de negócios de entrega de conteúdo adaptável, que remonta aos meados da década de 90 (recorda-se do PointCast?) ou o conceito do “Daily Me” (Negroponte, 1995) ou mesmo os comentários de Bill Gates no seu “The Road Ahead”

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(1999), sobre os computadores e o software revelarem maior eficácia numa grande parte das tarefas hoje em dia delegadas nos jornalistas. A diferença, neste caso, é o desejo de querer utilizar o conceito de hiperadaptividade para descrever o processo que um site noticioso sofre para se adaptar aos padrões, em mudança, do consumo e produção dos novos media. Isto significa que, por exemplo, um site poderia oferecer o seu próprio conteúdo em blocos (para que os utilizadores pudessem navegar sozinhos aí), a página de abertura do site poderia adaptar-se (com informação armazenada em Cookies) aos padrões de anteriores visitas do utilizador do site, etc.… Por outras palavras, ao tornar-se hiperadaptativo, o site noticioso tem de adoptar uma filosofia que conceda plenos poderes aos utilizadores online. Torna-se evidente que o sucesso de todas as estratégias apresentadas depende do modo como se soluciona a discussão na sala de redacção, entre as formas “tradicional” e “nova” de narração de histórias. Este é um aspecto que penso ser subestimado pelos jornalistas online, e pelos investigadores que, por exemplo, estudam a “interactividade” dos sites noticiosos. Eles referem a importância da interactividade, sem admitirem o facto de os níveis de interactividade contínuos minarem o dogma do jornalismo moderno “nós escrevemos, você lê”, e de terem um impacto em certos valores e ideais nucleares. O mesmo se pode dizer relativamente ao facto da hipertextualidade externa aumentar a capacidade adaptativa de um site noticioso. Um site noticioso de referência sem qualquer tipo de opção interactiva não é exemplo de “mau” jornalismo online, pode ser um excelente serviço para o seu público, exigindo, vinte e quatro horas por dia, informação breve, concisa e actual. O presente ensaio procurou sumariar os tipos de jornalismo online, as suas características e valor acrescentado para outros tipos de jornalismo, bem como avaliar o impacto e os desafios face a novos desenvolvimentos na produção online de media noticiosos. Esta síntese não pretende ser a única abordagem possível, na medida em que se encontram por toda a Web excepções aos modelos seguidos neste ensaio. Gostaria de sugerir que a avaliação do que é bom ou mau no jornalismo online comece com uma descrição clara e talvez muito simplificada dos conceitos mencionados. Considero que este ensaio é uma tentativa para proporcionar essa descrição e clarificação –com o intuito de problematizar novas questões de pesquisa e redefinir as estratégias dos media noticiosos, constituindo um ponto de partida para avaliar a mudança antes da sua implementação. A mudança acontece – e o único modo de optimizar a nossa resposta é definir, através de um exame crítico, os desafios que representa na nossa forma de actuar.

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Capítulo III

A indústria discográfica e o desafio da rede ________________________________________________ Giuseppe Richeri

INTRODUÇÃO A análise da indústria discográfica evidencia os factores que podem estar na origem do encontro entre um sector já consolidado da indústria de conteúdos e os vários serviços em rede, em particular, os associados à Internet. A situação actual da indústria discográfica caracteriza-se por alguns elementos específicos que seria oportuno recordar promovendo, assim, um confronto com as novas oportunidades desencadeadas pelos serviços em rede e as suas perspectivas de desenvolvimento. No presente artigo é minha intenção apresentar um quadro de referência global, sem analisar situações particulares. Cada mercado discográfico nacional apresenta características distintas em termos da quantidade de vendas e da sua composição por género (pop, folk, jazz, clássica, etc.), pela origem dos conteúdos (nacionais ou estrangeiros), pelo peso das diferentes redes de distribuição e pela tendência das suas variáveis principais.10 1. Dimensões do mercado mundial Em 1999, de acordo com as estimativas da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), as vendas mundiais da indústria discográfica atingiram os 38,5 mil milhões de dólares num total de 4 mil milhões de unidades vendidas (o equivalente a 3,8 mil milhões de álbuns)11. Em relação ao ano anterior, estes valores representam uma estagnação substancial do volume de negócios e um ligeiríssimo 10

O mercado real é sensivelmente mais vasto do que o resultante dos dados oficiais desde que, em muitos países, existe uma elevada taxa de vendas de cópias de discos ilegais cujo volume de negócios não é mensurável. 11 Valor recolhido em F. Silva e G. Ramello, “Dal vinile a Internet”, Edizioni Fondazione Agnelli, 2000.

178

crescimento das unidades vendidas e confirma que o mercado discográfico é um mercado consolidado. Os dois principais mercados são o norte americano (34%) e o europeu (33%), no entanto, a quota dos mercados emergentes da América Latina, África e Extremo Oriente tem registado um crescimento significativo. Do ponto de vista dos suportes, assinale-se que em 1988 os CDs confirmaram o seu crescimento, com 2,4 mil milhões de álbuns vendidos (66% das vendas totais), enquanto as cassetes, mesmo continuando a dominar os mercados musicais dos países menos desenvolvidos, confirmaram a sua contracção progressiva, com 1,2 mil milhões de unidades vendidas (-11%). Nos últimos dez anos, o sector cresceu globalmente, tanto em valor como em quantidade: no período de 1991/99, o volume de negócios passou de 2,7 para 3,8 mil milhões de dólares (+ 42%) e de 2,8 para 3,8 mil milhões de unidades vendidas (+ 34%), se bem que, como foi dito,a tendência de crescimento mostre sinais de maturidade. O mercado discográfico caracteriza-se por uma forte concentração, não só no plano geográfico (a Europa, Japão e América do Norte concentram mais de 80% das vendas), como também no plano da oferta, no qual a concentração é superior a 70%, encontrando-se nas mãos de um pequeno grupo de empresas, as majors, enquanto o restante se reparte entre um grande número de pequenas e médias sociedades “independentes”. 2. Concentração e diversificação multimédia O processo de concentração invadiu rapidamente o mercado da música em todo o mundo, deixando pouco espaço às realidades nacionais dos principais mercados, facto agravado pelas pequenas dimensões de muitos operadores, eventualmente super-especializados e líderes do “género”, mas geralmente subcapitalizados e, portanto, objecto ideal para a aquisição das majors. Presentemente as majors da indústria discográfica reduzem-se a quatro: Sony Music (Japão), Warner Music (Estados Unidos), BMG (Alemanha) e Universal Music Group (Estados Unidos). Em 1998, eram ainda seis, mas desde então a Universal (Estados Unidos) comprou a Polygram (Holanda), e a Warner Music comprou a EMI (Reino Unido). Por sua vez, cada uma destas empresas, faz parte de grupos que reflectem substancialmente quatro tipologias distintas:

179

1.

uma sobretudo editorial, mas com uma presença

consolidada nos canais televisivos via satélite e via cabo, representada pela BMG (Bertelsmann Music Group) do grupo alemão Bertelsmann, em forte expansão tanto na televisão (recorde-se a recente fusão dos seus interesses televisivos com a RTL

Luxemburgo), como nos

serviços online; 2.

uma multimédia (editoria, cinema, televisão, TV Cabo),

representada pela Warner Music do grupo Time-Warner, “public company” americana que passou recentemente para o controlo da American On Line, o maior fornecedor mundial de acessos e serviços Internet; 3.

uma ligada à electrónica do consumo, com a Sony Music

(ex-CBS) controlada pelo grupo homónimo japonês; 4.

uma relacionada com um grupo alimentar: a Universal

pertence ao grupo canadiano Seagram (líder mundial no campo das bebidas) que actualmente está em fase de fusão com o grupo francês Vivendi que também actua no campo da televisão (Canal Plus) e dos serviços de interesse público (água, recolha de lixo). É interessante notar que em todos os casos se trata de grupos com fortes interesses em sectores que têm, potencialmente, grandes sinergias com a indústria musical. 3. Perspectivas e problemas colocados pela rede Para a indústria discográfica os novos media têm-se revelado um meio promissor (ainda que até ao momento com resultados de mercado marginais) na promoção, distribuição, venda ou enriquecimento dos conteúdos musicais. No decorrer dos últimos tempos, os diferentes operadores começaram a utilizar a Internet, e os serviços que a ela se associam, nomeadamente através de quatro modalidades que poderão ser sintetizadas da seguinte forma: a.

desenvolver um site web destinado à promoção dos

próprios artistas e b.

receber, através da Internet, encomendas e pagamentos

de discos, a remeter ao cliente por correio; c.

enriquecer os conteúdos de um CD Áudio adaptando-o

às interligações online com um site web que contém informações suplementares (textos, fotografias, audiovisuais, etc.);

180

d.

vender faixas musicais online.

As duas primeiras modalidades acima indicadas não apresentam diferenças significativas no que diz respeito ao fenómeno mais amplo do comércio electrónico e, por isso, apenas serão apresentadas as suas características principais. A terceira representa uma potencialidade interessante de aplicação dos novos media à indústria discográfica mas, como veremos, trata-se ainda de um fenómeno em fase de desenvolvimento. As iniciativas desenvolvidas para usar a rede para transferir e vender faixas musicais ao público já oferecem elementos suficientes para demonstrar de que modo os novos media poderão modificar as formas tradicionais do mercado dos produtos musicais. A Internet como meio de promoção e venda Do ponto de vista da promoção, todas as majors discográficas utilizam hoje, com mais ou menos ímpeto e expectativas, a web que muitas vezes é usada por cada uma das labels (marcas utilizadas pelas diversas linhas do produto). Para além destas e de muitas casas discográficas independentes, também alguns artistas (entre os mais conhecidos encontram-se David Bowie, Prince, Jean-Michel Jarre) construíram a sua própria página web para promover o seu trabalho e manter relações directas com o seu público. Nas funções promocionais atribuídas aos sites web actualmente activos, incluem-se informações sobre o catálogo da casa discográfica, com detalhes sobre novos títulos, digressões e concertos e ainda a possibilidade de se ligar através do correio electrónico a outros fãs e artistas. A venda de discos através da Internet teve início nos Estados Unidos, em 1994, e actualmente compreende várias empresas em todos os mercados discográficos desenvolvidos, incluindo os europeus. Não se trata somente de empresas comerciais independentes mas também de iniciativas directas das empresas discográficas, em particular das majors. Estas oferecem, para além da escolha crescente de títulos, um serviço multilingue e acessível à escala internacional. A dimensão global deste mercado era, de acordo com as estimativas da Jupiter Communications, 49,4 milhões de dólares em 1997, podendo aproximar-se dos mil milhões no final de 2000. A CDnow é considerada a maior empresa mundial de venda de discos através da Internet quanto ao número de clientes, e uma das principais quanto ao número de títulos disponíveis. A sua base comercial é constituída por 200 mil títulos de álbuns musicais organizados em seis géneros (rock e pop, country e folk, urbana e

181

electrónica, clássica, jazz e blues, world music e new age). A promoção surge sob diversas formas, sendo a principal a publicidade exclusiva nas páginas de música web ligadas ao motor de pesquisa Yahoo!, num investimento próximo dos 4 milhões de dólares. O volume de negócios da empresa cresceu a ritmo muito elevado, passando de cem mil dólares em 1994 para 6,3 milhões de dólares em 1996 e para 100 milhões de dólares em 1999. Ao mesmo tempo a CDnow registou, não obstante, perdas notáveis, sobretudo devido aos grandes investimentos destinados a reforçar a visibilidade e a notoriedade da marca, com o fim de potenciarem as campanhas de marketing e a sua estratégia de desenvolvimento. A venda de discos através da Internet salientou dois problemas principais relativamente aos preços e à distribuição internacional. A possibilidade de receber encomendas e respectivos pagamentos através da Internet, entregando o produto pelo correio, permite ao vendedor reduzir de forma significativa o preço das vendas. Dos custos de distribuição elimina-se, de facto, tudo o que diz respeito à loja de discos ou ponto de venda físico. No caso da CDnow, por exemplo, um CD custa, em média, menos 4 dólares do que na discoteca, mas em alguns casos a diferença pode superar os 8 dólares. Perante esta concorrência, as lojas de discos não têm muita margem para reduzir os custos a menos que exerçam pressão sobre as casas discográficas para terem condições especiais, já que, até ao momento, praticamente todo o mercado discográfico depende delas. O primeiro problema diz respeito, portanto, ao questionamento da estrutura actual de custos e de preços dos produtos discográficos. O segundo problema relaciona-se com o facto de as vendas internacionais através da Internet não estarem sujeitas a critérios nacionais de fixação de preços dos discos, que dependem, para além da estrutura de distribuição, de regras comerciais, fiscais e outras que funcionam a nível local. Por exemplo, um consumidor inglês pode comprar um CD através da Internet nos Estados Unidos por 12 dólares, mais 6 dólares para despesas de envio postal. O mesmo álbum, quando adquirido na loja, custa 13,5 libras esterlinas (22,3 dólares).

O produto discográfico enriquecido As companhias discográficas, antes ainda de terem considerado a Internet como instrumento central na sua estratégia de integração dos novos media, tinham já desenvolvido produtos multimédia, acrescentando ao conteúdo musical, no mesmo CD, outros conteúdos audiovisuais (videoclip, fotografias, texto), criando assim um novo formato discográfico multimedia: o ECD (Enhanced Compact Disc). Estes

182

elementos deviam tornar mais atraente o produto musical e assim aumentar as suas vendas. No caso do produto lançado pela Sony Music, denominado CDExtra, ¾ da capacidade do CD eram ocupados pelas faixas de música e ¼ pelos conteúdos audiovisuais. Com um leitor de CD Áudio normal podia ouvir-se somente a parte musical, enquanto que com um leitor de CD-Rom também se tinha acesso à componente audiovisual. O novo formato de CD extra, colocado no mercado em 1994, não teve sucesso por várias razões (fraca promoção, preço elevado, pouca variedade de títulos, baixa penetração do suporte tecnológico, etc.). Em vez de abandonar a ideia do ECD (Enhanced CD), algumas majors discográficas, como a Sony e a norteamericana BMG, redefiniram o produto, integrando-o no software da Internet. A partir do ECD o utilizador pode agora ligar-se à Internet e aceder à página web onde encontra dados audiovisuais, gráficos e textuais complementares relativos ao conteúdo musical, ao autor, etc. A combinação entre a aquisição do ECD e o acesso aos conteúdos adicionais gratuitos via Internet constituem hoje uma nova estratégia de venda capaz de reforçar a organização comercial das casas discográficas e fidelizar os seus clientes. Venda de faixas musicais on-line As iniciativas de venda directa das faixas musicais através da rede são numerosas e estão já presentes em todos os mercados mais importantes. Actualmente, estas actividades ocupam ainda quotas marginais do mercado discográfico global e, segundo as previsões, a sua dimensão continuará limitada por mais alguns anos. As iniciativas de venda directa representam, todavia, o desenvolvimento mais radical na distribuição e venda da música ao público, na medida em que abrem um novo ciclo de expansão a longo prazo num sector já consolidado. A reduzida percentagem de pessoas, ainda que estatisticamente significativa, que utiliza habitualmente o PC como instrumento para audição de música representa somente a fase de arranque de um fenómeno que poderá vir a crescer de forma exponencial. Trata-se, no entanto, de um desenvolvimento que comporta não só a redefinição das rubricas do custo e da formação dos preços, mas que reacende a discussão em torno do sistema de relações que uniram, até ao momento, as etapas de criação, edição, comercialização e consumo de música. É talvez prematuro tentar definir com precisão o novo modelo, mas já é possível indicar alguns elementos que nos próximos anos assumirão provavelmente um peso cada vez mais relevante no sector discográfico. Note-se ainda que se trata de um processo que, no futuro, será

183

comum a todos os sectores da indústria editorial que hoje distribuem os seus produtos utilizando, sobretudo, suportes físicos. A venda de faixas musicais online poderá desenvolver-se segundo algumas modalidades distintas, nomeadamente: a) encomendar, pagar e ouvir na rede uma faixa de música sem a possibilidade de gravar (por exemplo, na memória do PC) ou copiá-la para um suporte virgem; b)

encomendar, pagar e ouvir uma faixa de música através da rede,

com a possibilidade de a gravar ou de a copiar para um PC ou para outro suporte digital; c)

encomendar download de música da rede para um suporte de

gravação (CD gravável) e pagar de acordo com uma tarifa baseada na duração do download. Sem pretender entrar nos aspectos técnicos, lembramos que as operações acima descritas requerem (exigem que o utilizador disponha de) um PC com uma certa capacidade, um modem para ligação à rede e software apropriado, assim como o eventual gravador de CDs. Além disso, por agora, estas operações comportam um período de desenvolvimento relativamente longo, mas que a curto prazo se poderia reduzir substancialmente como resultado do desenvolvimento das técnicas de compressão do sinal e das redes de banda larga a curto prazo. Presentemente o recurso ao formato MP3 já permite reduzir a dimensão de um ficheiro musical em relação ao formato Wav. Actualmente muitas iniciativas de venda de música na rede concentram-se em produtos de pequenas casas discográficas independentes e títulos de catálogo (e não em sucessos da actualidade). Trata-se de uma forma de venda utilizada, sobretudo, para atenuar as barreiras comerciais que penalizam as pequenas editoras discográficas e para recolocar no circuito produtos de nicho ou títulos que se dirijam a um mercado geograficamente muito disperso. As majors discográficas só começaram a experimentar a venda directa aos clientes dotados de um PC ligado à rede, num segundo momento. Eis dois exemplos: -

a Sony Music Entertainment desenvolveu o serviço de jukebox

digital que permite aos clientes ouvir uma faixa em qualquer momento, excluindo, no entanto a possibilidade de a descarregar para a memória do próprio PC; promovida

EMI, Polygram e Bertelsmann participam na experiência pela

Deutsche

Telecom

(DT),

o

maior

operador

de

184

telecomunicações europeu, sob o nome de Music on Demand que, por agora, oferece a um milhão de alemães a possibilidade de encomendar uma faixa musical pelo telefone e de a receber através do serviço T-Online na rede, a alta velocidade. Em França, a partir da Primavera de 1997, a Audiosoft desenvolveu um serviço de música distribuída através da televisão por cabo. Também neste caso, o serviço diz respeito a uma série de casas discográficas independentes cujos produtos são arquivados na City Music, uma plataforma digital da Audio Soft destinada à distribuição doméstica das faixas musicais via cabo. Em 1998, a AudioSoft desenvolveu o Virtuosa, um novo serviço capaz de alargar a funcionalidade do City Music dos utentes de televisão via cabo aos utentes da Internet. O serviço oferece a possibilidade de arquivar até 15 horas de música (num disco fixo com um espaço não inferior a 1 Gb). Os clientes podem “experimentar” o produto antes de decidirem adquiri-lo e memorizá-lo no seu PC. Para além disso, é possível realizar compilações personalizadas ou, simplesmente, utilizar o PC como reprodutor de alta fidelidade. No entanto, as majors discográficas estão ainda muito preocupadas com o risco que a venda em rede dos seus conteúdos musicais representa, pela possibilidade de facilitar formas de contrafacção e de pirataria comercial, enquanto as casas discográficas independentes parecem mais atraídas pelas vantagens da venda em rede. Como acontece na Europa onde estão no centro das iniciativas mais interessantes que, por enquanto, operam com base nacional no Reino Unido, França e Alemanha. A exigência de proteger a distribuição da música online de contrafacções e reproduções ilegais abriu espaço a empresas, como as americanas Liquid Audio e Real Networks, que fornecem sistemas específicos para os vendedores em rede, tecnologias de codificação capazes de localizar os desvios de faixas musicais protegidas pelo copyright e descarregadas a partir da Internet. A Liquid Audio é uma produtora de software que se tornou lider na tecnologia para descarregar música da Internet. O seu sistema de distribuição electrónica para codificar música, com a possibilidade de proteger e gerir o copyright, foi adoptado por vários fornecedores de conteúdos e de entretenimento na Internet. Trata-se de um produto concebido especificamente para a gestão dos conteúdos musicais na rede, justificado pela dimensão potencial de um mercado online já não negligenciável, se se considerar que 14% dos compradores habituais de discos nos Estados Unidos estão ligados à Internet. Os principais produtos de software oferecidos pela Liquid Audio são:

185

-

o Liquifer Pro: custa cerca de 1.000 dólares e permite aos

fornecedores de conteúdos, como as casas discográficas, converter a sua música para o formato digital adequado à distribuição na Internet; -

o Liquid MusicServer: custa cerca de 20.000 dólares e

compreende um servidor digital projectado para distribuir música através das redes permitindo, entre outras coisas, gerir o arquivo dos produtos a distribuir, proteger e gerir o copyright, registar as transacções para poder pagar direitos (a casas discográficas, autores, etc.) e proteger as transacções financeiras em rede; -

o Liquid MusicPlayer: software necessário para ouvir as faixas

musicais encriptadas que se podem adquirir através da rede; pode ser obtido gratuitamente e descarregado pelo utilizador para o seu PC a partir da rede.

A estrutura e custos na venda musical tradicional e online Na passagem da venda do produto musical offline para a venda em rede, a estrutura dos custos modifica-se consideravelmente. Bastará analisar a estrutura dos custos actuais dos produtos musicais distribuídos em suporte físico para identificar alguns elementos relevantes. Tomando como referência um produto standard de música ligeira nacional, novidade com elevado custo em Compact Disc, com uma edição de 70.000 exemplares e vendido ao público por 17 euros isentos de IVA (16%) os custos são aproximadamente repartidos entre as diferentes rubricas do seguinte modo: a)

desenvolvimento do protótipo: 22%. Trata-se da rubrica de custo

que contempla o pagamento do artista (15% em média), bem como os chamados “initial costs” (4%), ou seja, gravações e projecto gráfico, ao que se junta cerca de 3% do custo médio para o copyright, isto é, direitos de autor (músicos, letristas) e do editor na reprodução mecânica da master (direitos fonomecânicos); b)

produção (custos industriais): 8%. Trata-se de custos industriais

puros e simples, que incluem em substância, a duplicação da master discográfica e dos respectivos detalhes gráficos da capa; c)

colocação no mercado (custos de venda e marketing): 45%.

186

A tipologia dos custos de venda standard12 é composta por: -

desconto “trade” (margem do negociante): 32%

-

custo de distribuição (comissões sobre as vendas): 2%

-

descontos comerciais e financeiros: 4%

-

custos de loja, envio e transporte (a cargo da distribuição): 1%

A estes custos, tipicamente “comerciais”, juntam-se os custos de marketing, isto é, a publicidade e promoção, que incluem os investimentos nos media, os catálogos, o gabinete de imprensa, os eventuais noticiários e as participações em feiras e mostras, que pesam em média 6%: d)

custos de unidade: 3,3%. São os directamente imputáveis ao

produto (desenvolvimento, promoção, direcção artística). e)

custos

gerais:

3,2%.

Incluem

administração,

telefones,

aquecimentos, alugueres, quota parte da direcção geral, CED, honorários, etc. f)

margem declarada: 18,6%. Trata-se de uma margem média

elevada, que nasce da caracterização “distributiva” da indústria discográfica italiana. Com base nesta reconstrução esquemática prevê-se que, no caso da venda dos conteúdos musicais através da rede, desapareçam um conjunto de custos que representam 47% do preço final: são suprimidos tanto os “custos de produção”, próximos dos 8%, a partir do momento em que a faixa de música é gravada no server e não deve ser reproduzida fisicamente, como também os custos de “colocação no mercado” (loja, transporte, descontos, pontos de venda, etc.) que representam 39% dos custos totais. Restam, ao invés, os custos de marketing que continuam relevantes mesmo no caso das vendas online. No lugar destes custos que desaparecem, apresentam-se novos custos que incluem, entre outros, o hardware e o software para gerir a venda online, o transporte em rede do conteúdo musical para o utilizador, enquanto alguns custos (suporte para gravar a faixa musical, etc.) são suportados directamente pelo cliente. É difícil calcular a dimensão dos novos custos presentemente, mas os valores acima indicados são 12

Ao contrário da indústria do livro, a indústria discográfica gere directamente a distribuição aos revendedores. O livreiro deixa os livros em depósito nos pontos de venda, obtendo as suas receitas apenas sobre os livros vendidos nos quais o vendedor tem uma percentagem. Os custos da indústria discográfica compreendem a distribuição física dos produtos e as comissões dadas aos representantes, sendo estes responsáveis pela promoção dos discos nos locais de venda, nas diversas áreas comerciais.

187

suficientes para evidenciar como, neste caso, a cadeia do valor se reorganiza radicalmente, colocando em jogo novos actores e eliminando outros.

Alguns problemas deixados em aberto A perspectiva de um desenvolvimento crescente das vendas de música em rede (assim como de outros conteúdos imateriais) coloca alguns problemas que, por agora, ainda não encontraram uma solução para os diferentes actores envolvidos. A protecção das normas fiscais nacionais e a segurança das transacções em rede são alguns dos problemas comuns ao desenvolvimento do comércio electrónico em geral, mas a protecção dos direitos de autor assume seguramente uma relevância particular. Torna-se necessário definir e adoptar leis capazes de proteger, localmente e à escala mundial, os proprietários dos direitos (criadores, intérpretes, editores, etc.) no momento em que os conteúdos musicais passam da distribuição em suporte físico para a rede. Trata-se de um problema complexo, que apresenta diferentes aspectos, desde a harmonização e legitimação das normas anti-pirataria à escala mundial até à identificação e perseguição das transgressões “em rede”, accionando os meios técnicos para ambas as funções. Com o advento do comércio electrónico, e tal como acontece na indústria editorial, o sector da música enfrenta o problema do reequilíbrio das quotas de mercado entre grandes e pequenas casas discográficas. Todavia, uma série de factores parece favorecer, neste caso, um maior impulso à reflexão acerca das oportunidades e dos riscos oferecidos pela rede. O sector musical viveu uma difusão mais precoce e profunda das tecnologias inovadoras no que diz respeito à indústria editorial (o Compact Disc, a afirmação do videoclip como instrumento necessário ao marketing). Para além disso, a indústria discográfica caracteriza-se por maior cuidado dos operadores na recolha e antecipação dos humores de um público cujos gostos são muito mais dinâmicos em comparação com os conteúdos editoriais.

188

A utilização do telemóvel em Itália nos anos 90: Modelos interpretativos __________________________________________ Fausto Colombo

Introdução A presente intervenção pretende abordar o tema da difusão do telemóvel em Itália como fenómeno não apenas tecnológico ou económico mas, de forma mais abrangente, social e cultural. Esta abordagem implica uma perspectiva multidisciplinar em consonância com alguns conhecimentos adquiridos no debate sobre os media, sobretudo a partir da difusão de algumas tecnologias portáteis13. O conteúdo deste trabalho representa apenas parte de uma série de pesquisas e, como tal, mostra somente alguns aspectos do cenário geral, remetendo para posteriores publicações os balanços de pesquisas empíricas sobre os utilizadores do telemóvel14. A discussão articula-se em três fases: na primeira, através de uma incursão histórica, é descrito o desenvolvimento do telemóvel em Itália; na segunda, de forma muito sintética, é apresentada a difusão actual e as tendências do seu crescimento; na terceira, são descritos alguns modelos interpretativos do fenómeno, relacionados com alguns posicionamentos teóricos de relevo quanto ao desenvolvimento e à difusão das tecnologias.

13

Veja-se, por exemplo, P. du Gay et al., Doing Cultural Studies. The Story of the Sony Walkman, Sage, London, Thousand Oaks, New Dehli, 1997. Sobre o mesmo tema, mas sob uma perspectiva de análise empírica, veja-se M. Bull, Sounding out the city, Berg, London, 2000. 14 Remeto também para o meu livro Il piccolo libro del telefono. Una vita al cellulare, Bompiani, Milano, 2001.

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1. O desenvolvimento do telemóvel em Itália: uma incursão histórica

1.1.O interesse do caso italiano Ao abordar o caso do telemóvel em Itália, importa destacar as razões que o tornam num caso paradigmático. Situam-se a dois níveis: 1. contexto internacional: a Itália é, de facto, lider europeia na utilização do telemóvel (em 1990 detinha o terceiro lugar no mercado mundial15; em Julho de 2000, possuía 32 milhões de utilizadores16). Os seus operadores encontram-se, também, entre os gigantes do mercado mundial: em 1999, a TIM (Telecom Italia Mobile), ocupava o primeiro lugar entre os operadores europeus (terceiro entre os operadores de todo o mundo) com 13% do mercado continental; a Omnitel, com 6,82%, posicionava-se em terceiro lugar17; 2. contexto nacional: a difusão do telemóvel coincide, de facto, com a mudança em toda uma cultura das telecomunicações e inaugura uma nova fase das relações entre Estado e mercado. Por outro lado, representa o primeiro caso em Itália de desenvolvimento tão notável de uma tecnologia (muito mais rápido do que no caso da televisão), num país em que a difusão das tecnologias de informação, primeiro, e da Internet, depois, foi muito lenta.

1.2. Contextualização Para abordar este tema utilizaremos duas perspectivas históricas distintas e complementares: uma mais atenta à mudança tecnológica e industrial, a outra centrada nos acontecimentos políticos e económicos18. No que toca à mudança tecnológica e industrial, poderemos distinguir entre uma fase a que podemos chamar pré-histórica, caracterizada pelo nascimento da 15

Fonte: Autoridade das Telecomunicações, 14 de Julho de 2000. Fonte: www.gsmbox.it, 8 de Março de 2000. 17 Fonte: Classifica Mobile Communication, dados tratados pela ANSA, 16 de Novembro de 1999. 18 Importa ressaltar que não são muitos os estudos sobre a história do telemóvel em Itália. Destaco aqui o volume de R. Abeille, Storia delle telecomunicazioni italiane e della SIP (1964-1994), Angeli, Milão, 1999 e D. Borrelli, Il telefono, Ellissi, Nápoles, 2000; do mesmo autor consulte-se também o livro Il filo dei discorsi. Teoria e storia sociale del telefono, Sossella, Roma, 2000, que contém uma incursão histórica local sobre o telefone na região napolitana no início de 1900. 16

190

primeira rede de telemóveis - a RTMI em 1973 - depois, em 1985, pela substituição do sistema RTMI (Radio Telefono Móbile Integrato) pelo RTMS (Radio Telefono Mobile Seconda Generazione) e uma fase histórica, cujos factos essenciais são: -

1990: adopção do sistema ETACS (Extended Total Access

Communication System), que assinala a introdução do telemóvel no quotidiano, ainda que as assinaturas, naquele ano, fossem pouco mais de 67.000; -

1994-95: primeira difusão do GSM (Global System for Mobile

Communications) e início do telemóvel digital; -

1996: lançamento dos cartões pré-pagos recarregáveis;

-

1999: início da difusão do sistema WAP (Wireless Application

Protocol). Num ano venderam-se cerca de 500.000 aparelhos dotados desta tecnologia19; -

2000: concurso para a atribuição das licenças UMTS (Universal

Mobile Telecommunications System). Como mostra a sucessão de datas, uma característica que sobressai do processo de desenvolvimento industrial é a rapidez das inovações, numa velocidade progressiva, que deveria continuar no próximo período com a comercialização dos standards GPRS e UMTS. Esta característica é própria do fenómeno à escala global, pelo menos na versão europeia20, mas é, no caso italiano, um importante elemento de contextualização; do mesmo modo, deve ser tomada em conta a passagem crucial, na segunda metade dos anos 90, de tecnologia analógica ETACS para o standard digital GSM, porque assinala a plena entrada numa fase de convergência tecnológica, muito importante em si mesma e em especial no caso italiano, em que a ausência de uma cultura digital prévia fez do telemóvel o veículo para a telemática e não o contrário que seria mais lógico. E eis-nos nas mudanças políticas e económicas. Neste caso, a “fase préhistórica” é assinalada, em 1964, com o nascimento da SIP (Società Italiana per l’Esercizio Telefonico), a empresa pública que, operando em regime de monopólio,

19

Fonte: Estudo Siemens, 14 de Junho de 2000. Sobre o crescimento e desenvolvimento dos novos standards, como o CDMA, sobretudo nos EUA, na Coréia e no Japão, veja-se, por exemplo, R. Chiaberge, L’algoritmo di Viterbi, Lonaganesi & Co, Milão, 2000. 20

191

reuniu as várias redes de telefone fixo italianos numa única grande rede. Em 1984 novas convenções entre o Estado e a SIP viriam a relançar o sector. Depois (e estamos em plena história) ocorre o processo rápido conducente à privatização e à concorrência do sector. Os principais momentos são: -

1992: o IRI (Istituto per la Ricostruzione Industriale) adquire a

Azienda di Stato; -

1994: nascem as duas primeiras grandes empresas-operadoras

nacionais de telemóveis: da SIP nasce a Telecom Itália e a Omnitel activa o primeiro call center ; -

1995: a Omnitel começa a operar no mercado; de um ramo da

Telecom Itália nasce a Telecom Italia Mobile (TIM). O sistema de telemóvel torna-se concorrencial. Termina, de facto, o monopólio público; -

1997: privatização da Telecom Itália;

-

1998: o mercado das telecomunicações é liberalizado: activa-se a

Alta Autoridade para as telecomunicações – AGCOM (Autorità per le Garanzie nelle Comunicazioni); -

1999: ascensão da Omnitel relativamente à posição da Telecom

Itália; concessões a Wind e Blutel: continua a política de promoção da concorrência no sector. No plano económico e político, tal como sugere esta cronologia, o dado mais relevante parece ser o abandono da lógica monopolista, tradicionalmente na base da regulação nacional dos média e dos serviços universais. De particular interesse é, também, o facto de, pela primeira vez, a intensificação da concorrência a uma empresa, central para o desenvolvimento do país, ter sido desenvolvida não pelas grandes famílias do capitalismo italiano, mas pelos representantes de um novo capitalismo aberto ao net-business, declaradamente mais modernista. Todavia, esta ascensão demonstra também a dificuldade de, em Itália, se levar por diante uma política verdadeiramente concorrencial e anti-trust, perante a tendência endémica para o monopólio (sector automóvel) ou para o oligopólio (sector televisivo).

192

1.3. Uma hipótese de periodização Com base na incursão histórica apenas realizada, poderão distinguir-se duas fases no desenvolvimento do telemóvel em Itália: a primeira (1990-1995) caracteriza-se pela chegada das novas tecnologias ao mercado e pela sua procura de um papel no anterior sistema dos media. Esta nova tecnologia, na sua versão analógica, afirma-se como um sucesso. A segunda fase (1995-2000...) representa, ao invés, um ciclo de inovação própria do novo meio tanto no que diz respeito à sua transformação tecnológica como ao progressivo ajustamento do seu papel social. É justamente, a esta segunda fase que dedicaremos a nossa atenção.

2. A actual difusão do telemóvel e a tendência do seu crescimento Tomemos de perto as transformações típicas da segunda fase, sobretudo nos seus últimos anos. Os aspectos essenciais são os seguintes: -

em termos quantitativos, assiste-se a uma brusca alteração na

difusão social do telemóvel: passa-se de uma taxa de penetração de 21%, em 1997, para 35%, em 1998, e, em 1999, de 55%. No período compreendido entre Julho de 1999 e Julho de 2000 os utilizadores aumentaram 120%21; -

em termos qualitativos, estamos perante uma “feminilização” dos

utilizadores: a percentagem de mulheres entre os utilizadores do telemóvel passa de 14%, em 1995, para 40% em 200022; trata-se de um dado relevante que confirma o progressivo redimensionamento do papel do género na facilidade de acesso (material e cognitivo) às tecnologias; -

ainda em termos qualitativos, entre 1997 e 1999, assiste-se ao

crescimento exponencial do uso juvenil. Os motivos deste crescimento foram interpretados de várias formas; a explicação mais plausível é a da configuração especifíca da família italiana, empenhada em reconfigurar a relação pais-filhos. Na prática, os pais teriam visto na oferta do telemóvel aos filhos um símbolo de equilíbrio entre autonomia e controlo, enquanto os segundos teriam desfrutado e recodificado este presente no sentido de uma forte autonomização e de um reforço das relações entre os pares; 21 22

Fonte: Goldmann-Sachs, 31 de Agosto de 2000. Cfr. Relatório Federcomin sobre “E-family e utilizzo domestico delle tecnologie”, Agosto 2000.

193

-

em termos cognitivos, observa-se a facilidade de difusão de novas

práticas comunicativas, como o SMS (Short Message Service), e a fácil actualização sobre as novidades tecnológicas (uma numerosa percentagem de utilizadores de telefones móveis demonstra ter percebido as características do telefone WAP apenas um ano após a sua introdução). O fenómeno é significativo, sobretudo se confrontado com o conhecimento de base de outras tecnologias digitais. Pense-se, por exemplo, que a Itália se encontra no terceiro lugar, a contar do fim, no que toca à utilização da Internet na Europa, estando à frente, apenas, de Portugal e da Grécia23. Em Itália, os conhecimentos sobre o WAP parecem demonstrar a posição dominante do telemóvel na difusão dos novos media.

3. Modelos interpretativos Tentaremos agora interpretar o desenvolvimento do telemóvel em Itália com base em dois modelos relativos à passagem do desenvolvimento tecnológico à inovação social24: o objectivo dos dois modelos, que estou a elaborar há alguns anos, é duplo. Por um lado, verificar o que na difusão do telemóvel é típico enquanto inovação tecnológica; por outro, reconhecer, entre as inovações tecnológicas, alguns comportamentos estáveis, a fim de formular previsões credíveis sobre os seus desenvolvimentos.

3.1. O paradigma da borboleta É objectivo deste primeiro paradigma descrever a transição entre o aparecimento de uma nova tecnologia e a sua incorporação nos padrões de uso social. Para isso, basear-nos-emos num mapa do sistema cultural elaborado por W. Griswold25. Este 23

Fonte: www.gsembox.it, 18 de Maio 2000. Para um debate sobre os modelos interpretativos do fenómeno das inovações tecnológicas remeto para P. Flichy, L’innovation technique, récents développements en sciences sociales. Vers une nouvelle théorie de l’innovation, La Découverte, Paris, 1995. 25 W. Griswold, Cultures and Society in a Changing World, Sage, Thousand Oaks, 1994. As alterações terminológicas e conceptuais introduzidas por mim foram as seguintes: 1) Onde Griswold utiliza “mundo social” como “os modelos e necessidades económicas, políticas, sociais e culturais que caracterizam um determinado momento no tempo”, utilizo “ambiente sócio-cultural”, para designar apenas o estreito sistema da cultura, no qual funciona a ainda mais estreita cultura industrializada. Aqui, refiro-me às culturas institucionais (por exemplo as académicas), às culturas identitárias “locais” (por exemplo étnicas) mas também aos estilos de 24

194

mapa, denominado o “diamante” em honra do jogo de baseball, é composto por quatro pontos e seis ligações ou conexões. No esquema 1 apresento uma leitura desse mapa que me parece mais adequada aos temas da indústria cultural. A partir deste modelo é possível tentar descrever o processo de introdução de uma inovação tecnológica num sistema social. Parece seguir sempre o mesmo percurso, articulado em cinco movimentos: -

primeiro: o impacto da nova tecnologia é acolhido pela procura

associada ao consumo já existente e, por isso mesmo, uma procura conservadora. -

segundo: a procura incide sobre o trabalho no universo produtivo,

estimulando-o. -

terceiro: a produção desenvolve novas formas expressivas que

modificam o produto. -

quarto: o produto, pela sua novidade, torna-se parte do ambiente

sóciocultural. -

quinto: modificam-se progressivamente os hábitos de consumo26.

vida que implicam comportamentos culturais (pense-se na moda ou na “quota cultural” dos consumos compreendidos como acções racionais). A indústria cultural desenha incessantemente este ambiente e contribui para ele. 2) Substituí a noção de “criador” por “universo produtivo” que salienta, por um lado, o modo como o trabalho colectivo e tecnologizado substitui o trabalho individual e artesanal; por outro, a forma como na produção de bens culturais associados à indústria, existe uma forte tendência para misturar trabalhos de natureza criativa com o trabalho organizacional ou de outra natureza que não é particularmente, ou de todo, criativa. 3) O termo “objecto cultural” foi substituído por “produto cultural” para sublinhar a sua natureza de mercadoria, sujeita às leis de mercado, mas também às características das necessidades produtivas. Sabe-se, por exemplo, que a duração de uma ópera é de longe determinada e, sobretudo, determinada de um modo diferente da de um poema épico (para a comparar com um outro objecto cultural “de género”). 4) Por fim, fundi a figura do “receptor” com o universo mais amplo do “consumo” para sublinhar que o comportamento do receptor mistura fortemente uma simples recepção com um acto económico (a aquisição ou a compra no mercado) e, para além disso, mistura, de forma irreversível, o uso com a assimilação (o que utilizo permanece na minha posse, tornando-se parte do meu património cultural) o uso com a destruição(o que consumo desaparece e não pode voltar a ser utilizado). 26

1. 2.

Eis um exemplo, retirado da história da introdução da fotografia em Itália em 1800: É utilizada pelos pintores como instrumento para o seu próprio trabalho tradicional e procurada pelo público para substituir, por um preço mais baixo, o retrato da alta burguesia. Seguidamente, os pintores descobrem as novas possibilidades dos planos característicos da fotografia e, de forma progressiva, em sintonia com a veracidade pictórica, absorvem para a pintura o olhar fotográfico;

195

Da incorporação dos cinco movimentos no modelo do diamante nasce o esquema 2, cuja forma de borboleta dá o nome ao modelo. Procuraremos agora aplicar este modelo à difusão do telemóvel em Itália. Se retomarmos as considerações desenvolvidas até aqui, não seria surpreendente reconhecer dois ciclos. Mostramos, de facto, que a incorporação social progressiva se desenrola em duas grandes etapas, relativas, respectivamente, à primeira e à segunda metade dos anos 90. O primeiro movimento no ciclo inicial, corresponde ao aparecimento no mercado dos primeiros telefones ETACS. A primeira difusão dá-se, essencialmente, entre as elites políticas e empresariais, como utilidade e símbolo de status. A este propósito pode ser interessante desenvolver duas considerações. Em primeiro lugar, ambos os grupos sociais envolvidos têm uma percepção análoga do tempo e da sua optimização: o telefone móvel permite reduzir os momentos vazios do dia e estar sempre disponível para o próprio trabalho. Em segundo lugar, é realmente significativo que as elites como, por exemplo, a dos médicos, não tenham imediatamente aderido à inovação. Na realidade, os médicos já se tinham habituado a uma tecnologia mais pobre, o Pager, tendo optimizado a sua utilização. Em resumo, repetiu-se uma situação que já tinha acontecido noutros contextos, como em França, quando o Minitel constituiu uma resistência à difusão da Internet. A realidade é que, visto que o primeiro consumo é mais conservador, a existência de tecnologias mais pobres, mas fortemente incorporadas e funcionais à prossecução de determinados objectivos, é um obstáculo a qualquer novidade tecnológica. O segundo movimento consiste no estímulo da produção, por esta procura inicial, e o terceiro movimento é uma crescente especialização dos fornecedores de equipamentos e serviços cada vez menos inspirados na imitação da rede dos telefones fixos. Neste contexto, inclui-se a rápida passagem da ETACS ao GSM, ou seja, do analógico ao digital, com o conjunto de novas possibilidades que este último comporta.

3. 4. 5. 6.

O olhar fotográfico difunde-se pelas revistas ilustradas, ainda que, muitas vezes, as fotografias continuem a servir apenas como modelos para os desenhos. A possibilidade de utilização de tecnologias aplicadas à imprensa torna proporcional e incentiva a substituição das ilustrações por fotografias. A difusão da fotografia, enquanto tal, transforma-a em objecto usual, progressivamente aceite no imaginário colectivo e no uso comum. Nasce o moderno consumo da fotografia.

196

O quarto movimento consiste na primeira aceitação cultural do telemóvel. Quando apareceu pela primeira vez, este objecto foi tratado com snobismo: os jornais estavam repletos de comentários que estigmatizavam quem possuía estes aparelhos e, em geral, descreviam a rede móvel como um acessório de luxo destinado a permanecer limitado às elites, chegando a apresentá-la como uma forma de exibicionismo social27. Em algumas revistas satíricas, foram também publicadas conversas privadas, interceptadas, mas devidamente corrigidas para não violar a privacidade. Entre as conversas registadas eram seleccionadas as mais estranhas ou mais banais, com o fim de demonstrar o lugar comum segundo o qual o telemóvel era utilizado apenas por aspiração de reproduzir um certo status. Pela metade dos anos 90, todavia, a hostilidade generalizada começa a dar lugar a uma atitude mais humilde. Por outro lado, a divulgação dos aparelhos modifica-lhes a imagem de instrumento de elite. É neste momento que se pode dizer que ocorreu a incorporação cultural. Assim, nascem novos hábitos telefónicos (quinto movimento) e um novo código: surgem os primeiros artigos sobre o bom tom das conversas através da rede móvel. Nalguns locais públicos (igrejas, hospitais, serviços) são definidas regras de “comportamento telefónico”. Nesta fase, o telemóvel é já um objecto culturalizado e os utilizadores encontram-se, sobretudo, entre os adultos do sexo masculino: já não estamos perante uma novidade tecnológica, mas perante a reformulação do sistema dos media graças à presença de um novo actor. O primeiro ciclo constitui, no seu conjunto, também o primeiro movimento do segundo ciclo: o novo meio, de facto, desencadeia lentamente, pelo novo lugar que ocupa no sistema, um novo fluxo de movimentos que, desta vez, surgem encaminhados mais directamente pela amplitude dos processos de consumo. O segundo movimento consiste na nova procura que se estende às camadas juvenis (graças à descida de preços dos aparelhos e das tarifas, favorecida pela nova concorrência no mercado) e estimula a produção. A produção (terceiro movimento) sente-se assim estimulada para apresentar novas ofertas, direccionadas, sobretudo, para o mundo juvenil: novos aparelhos, naturalmente, mas também novos serviços ligados ao SMS e à ligação à rede (informação, serviços especiais por ocasião de alguns eventos como o dia de São Valentim, etc.).

27

Alguns deste comentários são efectuados no meu Piccolo libro del telefono, cit.

197

O quarto movimento é constituído pela incorporação crescente do telemóvel nos processos comunicativos generalizados. Como testemunho, surge o recente filme sobre a geração dos trintões italianos: L’ultimo bacio, de Gabriele Muccino28, no qual os protagonistas utilizam a rede móvel como uma oportunidade já assimilada nos estilos e formas de comunicação. Outros exemplos significativos são a crescente utilização do SMS para participar em jogos radiofónicos e televisivos e o sucesso de alguns concursos “literários” através do SMS. O quinto movimento é, enfim, constituído pelas novas formas de consumo (por exemplo, a dos pré-adolescentes) que demonstram a universalidade da rede móvel italiana como ambiente comunicativo. Poderá dizer-se, portanto, que o segundo ciclo vê a gradual naturalização do novo medium, com a sua mudança, de tecnologia masculina e adulta, para tecnologia universalista. O desenho global dos dois ciclos, segundo o paradigma da borboleta, está patente no esquema 3.

3.2 O paradigma da sinergia dos circuitos Chegamos agora ao segundo paradigma que, na minha opinião, é útil para a abordagem do tema em discussão sobre determinismo/indeterminismo tecnológico, e assenta a sua relevância na complexidade da comunicação mediada pela tecnologia (CMT). Este conceito é utilizado para designar instrumentos muito diversos, desde os clássicos media broadcasting e new media mais interactivos, próprios das tecnologias de informação e comunicação (TIC), até às formas de relações pessoais mediadas pela tecnologia (telefone e Internet em função, por exemplo, de um chat ou do correio electrónico). Uma observação atenta pode reconhecer em todas as formas da CMT três circuitos sinergéticos: -

o circuito tecnológico que se refere ao processo nos “lugares de

invenção e da experimentação” (do laboratório do inventor de 1800 até aos grandes departamentos de Investigação & Desenvolvimento das multinacionais dos nossos dias), onde o objecto tecnológico é criado e construído como uma oportunidade para a produção em grande escala, colocação no mercado e adesão

28

Itália, 2001.

198

da indústria que recebe o objecto como sendo produzível e investe nele inserindo-o, desta forma, no fluxo do circuito comercial (v. esquema 4). -

o circuito económico, que relaciona esfera produtiva com o

consumo através da modulação da oferta no mercado e que, por sua vez, encontra na resposta do consumo indicadores sobre a necessidade de adequação da oferta (v. esquema 5); -

o circuito cultural, no qual os conteúdos que os intermediários

elaboram, por exemplo, dando-lhes uma forma particular ou design como um artefacto cultural, são difundidos e assimilados na utilização, reelaborados e restituídos aos próprios intermediários culturais (ver esquema 6).

A interdependência entre estes circuitos é indiscutível, mas as interacções entre eles são muito complexas e dificilmente previsíveis. No caso do telemóvel em Itália, podemos observar que a função de estímulo, é desenvolvida, nos dois ciclos que descrevemos, por dois circuitos diferentes. Durante o primeiro ciclo prevalece o circuito tecnológico; é, sem dúvida, a disponibilização dos novos tipos de aparelhos a impulsionar o fenómeno, oferecendo ao consumo a possibilidade de diversificar as próprias respostas. Assim, a inovação social deriva, de alguma maneira, de uma oportunidade oferecida pelo circuito propriamente tecnológico e do aparecimento de uma novidade tecnológica em sentido estrito. Trata-se de um fenómeno largamente ilustrado pelos teóricos do chamado Technological Push29 e, que segundo eles, se repete em cada caso de inovação. Em contrapartida, o segundo ciclo parece seguir uma direcção muito diferente: neste caso, são os elementos económicos e culturais a conduzir a inovação. A necessidade de alargamento do mercado ou o estímulo familiar à entrada do mundo juvenil neste mercado são factores que estimulam a inovação no campo tecnológico. Estamos muito mais próximos, portanto, das teses apoiadas pelos teóricos do chamado Market Pull30. O esquema 7 ilustra as duas direcções: as setas individuais indicam os fluxos do primeiro ciclo; as setas duplas indicam os do segundo.

29

Sobre o tema consultar o debate revisto de P. Flichy em op.cit., cap.1 Cfr., por exemplo, J.M. Utterback, “Innovation in Industry and the Diffusion of Technology”, in Science, 15.02.1974. 30

199

Em suma, parece ser possível afirmar que o caso da difusão do telemóvel em Itália permite-nos verificar alguns importantes modelos capazes de descrever e interpretar a passagem do desenvolvimento tecnológico à inovação social. É claro que os modelos aqui ilustrados devem ser submetidos à prova noutros terrenos da inovação tecnológica. Todavia, podemos colocar a hipótese de que – quando em sinergia – possam dar algum contributo, até mesmo prospectivo, ao desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação.

200

Esquema 1

Ambiente Sóciocultural

Mundo Produtivo

Consumo

Produtos culturais

Esquema 2

Ambiente Sóciocultural

Inovação Tecnológica

Consumo

Mundo Produtivo

Produtos Culturais

201

Esquema 3

Inovação Tecnológica

Inovação Social

202

Esquema 4

Objecto Tecnológico

Oportunidade

Inovação

Adesão

Esquema 5

Produto

Produção

Oferta

Consumo

Esquema 6

Objecto Cultural

Difusão

Mediação

Assimilação

203

Esquema 7

Objecto Tecnológico

Inovação

Oportunidade

Adesão

Produto

Produção

Oferta

Consumo

Objecto Cultural

Difusão

Mediação

Assimilação

204

A Internet e a Sociedade em Rede Manuel Castells

Introdução A Internet é hoje o tecido das nossas vidas. Não é o futuro. É o presente. A Internet é um meio totalmente abrangente, que interage com o conjunto da sociedade e, por isso, apesar de tão recente na sua forma societal (como se sabe, a Internet foi-se esboçando, nos últimos trinta e um anos, a partir de 1969. Mas, tal como a entendemos agora, constituiu-se em 1994, a partir da existência de um Browser, na World Wide Web), não é necessário explicá-la, porque já sabemos o que é a Internet. Recordo simplesmente, para coerência da exposição, que se trata apenas de uma rede de redes de computadores capazes de comunicar entre si. Tal tecnologia é muito mais do que uma tecnologia. É um meio de comunicação, de interacção e de organização social. Há pouco tempo, quando a Internet era ainda uma novidade, considerava-se que, apesar de interessante, era, no fundo minoritária, para uma elite de internautas ou de digerati, na designação internacional. Hoje, tudo mudou radicalmente. Para recordar rapidamente a sua evolução, a primeira questão a colocar diz respeito aos utilizadores da Internet. Em finais de 1995, eram nove milhões. Neste momento, rondam os trezentos e cinquenta milhões em todo o mundo. As posições conservadoras prevêem que, em meados de 2001, chegaremos a setecentos milhões. E a dois mil milhões, no mínimo, entre 2005-2007. É verdade que tal número representa apenas um terço da população do planeta, no entanto, isto significa que a taxa de penetração da Internet nas sociedades mais desenvolvidas ronda os 75% a 80%. De facto, em todo o planeta os núcleos consolidados de direcção económica, política e cultural estão também integrados na Internet. Isto não resolve, de modo algum, os problemas da desigualdade que mais adiante irei referir. No essencial, isto significa que a Internet constitui já e sê-lo-á cada vez mais o meio de comunicação e de relação fundamental no qual assenta uma nova forma de sociedade já existente e que denomino de Sociedade em Rede. Apesar da sua importância, a Internet é tão recente

205

que pouco se sabe a seu respeito. E, nesta situação, quando há um fenómeno de grande relevância social, cultural, política e económica pouco conhecido, gera-se todo o tipo de mitologias e de atitudes exageradas. Creio que muitos intelectuais europeus e espanhóis já entenderam, analisaram, criticaram e refutaram a Internet, assinalando a priori todas as alienações que poderá criar. Recordo-me que, em 1995-97, participei na comissão de peritos sobre a Sociedade da Informação, nomeada pela Comissão Europeia. Essa comissão de quinze peritos, onde me encontrava obviamente em absoluta minoria, tinha por objectivo procurar uma forma de minorar os efeitos devastadores que a Internet poderia provocar na sociedade, na política e na cultura. Uma reacção defensiva predominava. Face a um fenómeno de extraordinária importância sobre o qual se tem um escasso conhecimento, surgiu uma extraordinária mitologia. Por isso, procuro centrar a presente apresentação na evidência empírica. Não obstante recorrer a alguns aspectos teóricos, procurarei sistematizar, com base em dados empíricos, o que sabemos sobre a Internet em termos comparativos, o que sabemos sobre o que é, hoje, a Internet. Sistematizarei os vários aspectos em dez pontos. 1. Lições sobre a história da Internet No primeiro ponto, incluo alguns elementos sobre a história da Internet. Não vou contar-lhes a história da Internet, que presumo ser conhecida, ou que poderá conhecer-se facilmente através da Internet, mas tão-só colher, através da análise da história da rede dos últimos anos, os ensinamentos com valor analítico. A primeira lição sobre a Internet decorre da interacção entre – curiosa combinação - a ciência, a investigação universitária fundamental, os programas de investigação militar nos Estados Unidos e a contracultura radical libertária. Analisarei os três aspectos isoladamente. Assinalo simplesmente que o programa da Internet nasce como programa de investigação militar, sem na realidade, ter tido qualquer aplicação militar. Eis um dos grandes mitos. Não houve aplicação militar da Internet. Houve financiamento militar, empregue pelos cientistas nos seus estudos informáticos e na criação de redes tecnológicas. A estes se associou a cultura dos movimentos libertários, contestatários que procuravam nela um instrumento de liberdade e de autonomia face ao Estado e às grandes empresas. O quarto aspecto a considerar foi a cultura empresarial que, vinte e cinco anos mais tarde, se encarregou de dar o salto entre a Internet e a sociedade. Segunda lição sobre a Internet: o mundo empresarial não foi, de modo nenhum, a origem da Internet. A Internet não foi criada como um projecto de investimento

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empresarial. Incluo aqui, um episódio revelador: em 1972, a primeira vez que o Pentágono tentou privatizar aquilo que foi o antepassado da Internet, a ARPANET, ofereceu o projecto gratuitamente à ATT para que o assumisse e desenvolvesse. A ATT estudou-o e concluiu que esse projecto nunca poderia ser rentável e que não via nenhum interesse na sua comercialização. Recorde-se que foi mais ou menos na altura em que o presidente da Digital, uma grande empresa de informática, declarou que não via nenhuma razão para que alguém quisesse um computador em sua casa, ou poucos anos depois de Watson, o presidente da IBM, declarar que, no ano 2000, existiriam apenas cinco computadores no mundo, e que seriam todos, obviamente, IBM Mainframe. A origem da Internet não foi a empresa. Terceira lição: A Internet evolui, desde o início, através de uma arquitectura informática aberta e de livre acesso. Os protocolos centrais da Internet TCP/IP, estabelecidos em 1973-78, são gratuitos e de livre acesso. Quarta lição: os produtores da tecnologia da Internet foram fundamentalmente os seus utilizadores. Ou seja, houve uma relação directa entre a produção da tecnologia por parte dos inovadores mas, posteriormente, houve uma modificação constante de aplicações e novos desenvolvimentos tecnológicos por parte dos utilizadores, num processo de feedback e de retroacção constante que está na base do dinamismo e desenvolvimento da Internet. O exemplo mais evidente da principal aplicação da Internet é dado pelos inventores da ARPANET, o antepassado da Internet, que, na realidade, não sabiam muito bem o que fazer com ela. A ARPANET foi criada, inicialmente, para os seus utilizadores estabelecerem a comunicação entre os seus centros de informação, entre os supercomputadores de que dispunham, mas fizeramno com a ideia de que, ao compartilhar tempo, poderiam obter uma capacidade maior de utilização dos computadores. Porém, perceberam que tinham uma capacidade de processamento informático maior do que necessitavam. Com isso, procuraram encontrar outras potencialidades. Uma das aplicações que, quase por acaso, desenvolveram e que se converteu no principal uso da Internet a partir de 1970, ano da sua criação, é hoje a mais utilizada na Internet: o correio electrónico. Com o intuito de procurar outras aplicações, trocaram várias mensagens entre si, apercebendo-se então que tinham encontrado o que procuravam, isto é, o correio electrónico. Há inúmeros exemplos deste tipo de relação. Ainda hoje, os utilizadores modificam constantemente a tecnologia e as aplicações da Internet. Eis uma velha história da tecnologia. Foi também o caso do telefone. A história social do telefone nos Estados Unidos (investigada, em particular, por Claude Fischer) mostra que o telefone foi inventado com outros propósitos, mas a sua apropriação por parte dos utilizadores

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acabou por originar outras aplicações. No entanto, com a Internet fez-se muito mais, porque a flexibilidade e a ductilidade desta tecnologia permite o efeito de retroacção em tempo real. Quinta lição sobre a história da Internet: Ao contrário da muito difundida opinião de que a Internet é uma criação norte-americana, a Internet desenvolveu-se, desde o princípio, a partir de uma rede internacional de cientistas e técnicos que cooperam na partilha e desenvolvimento de tecnologias, mesmo no período em que a Internet estava no Departamento de Estado Americano. A tecnologia chave da Internet, o packet switching, foi criada, simultaneamente e, durante muito tempo, sem qualquer comunicação entre si, por Paul Baran da Rand Corporation na Califórnia e por Donald Davis da National Physics Laboratory na Grã-Bretanha. Portanto, a tecnologia chave desenvolveu-se paralelamente na Europa e nos Estados Unidos. O desenvolvimento dos protocolos TCP/IP efectuou-se com Vinton Cerf, nos Estados Unidos, em estreita colaboração com Gérard Lelan do grupo Francês Cyclades. O caso mais interessante é o da World Wide Web, programa de browser que permite a navegação que hoje todos praticamos, criada por Tim Berners-Lee, um Britânico, que o inventou trabalhando voluntariamente, nos seus tempos livres, no CERN de Genebra. Por outro lado, o desenvolvimento da Internet com base em redes livres comunitárias, que geraram todo um conjunto de novas aplicações como as conferências, os boletins ou as listas de correio electrónico, não provêm do Departamento de Defesa, mas de grupos libertários organizados através e em torno das redes da Internet. Desde o princípio– desde 1978 e 1980, altura do aparecimento da USENET- estes grupos foram de âmbito internacional, na medida em que a ARPANET pertencia ao governo norte-americano. O desenvolvimento do que acabaria por ser a Internet na sua vertente libertária e de base exigia um carácter muito mais internacional, na medida em que só pelas fronteiras governamentais se poderia designar a ARPANET, núcleo central da Internet, como especificamente norte-americana. Sexta lição: A Internet é, desde a sua constituição, autoregulada por uma rede informal de indivíduos que se ocupam do seu desenvolvimento sem grande interferência por parte do Governo. Pouca importância foi dada à Internet, criando-se uma espécie de clube aristocrático, meritocrático, que, todavia hoje, gerou instituições absolutamente únicas. O governo da Internet está, hoje, nas mãos de uma sociedade de carácter privado apoiada pelo Governo norte-americano e por Governos internacionais, chamada ICANN –por certo, no seu comité executivo há gente de Barcelona e da Politécnica- e que tem, entre outras coisas, a particularidade de eleger o seu conselho de administração executivo por votação global, contando para isso com a participação

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de qualquer pessoa que queira juntar-se à ICANN, através do correio electrónico. Neste momento está a terminar uma votação em que 165 000 pessoas, oriundas de todas as partes do mundo, votaram uma lista aberta de candidatos. Esta autoridade é a que, em princípio, distribui os domínios, estabelece protocolos, etc. E por fim, a última observação a fazer sobre a história da Internet diz respeito ao acesso aos seus códigos, ou melhor, o acesso aos códigos de software que faz funcionar a Internet. O acesso tem sido e continua a ser aberto, o que está na base da capacidade de inovação tecnológica constante que se desenvolveu na Internet. Mencionei anteriormente o TCP/IP, porém, recorde-se que também o UNIX é um código aberto que permitiu o desenvolvimento da USENET News, a rede alternativa da Internet. A world wide web é aberta. O Apache, que é o programa de software que hoje gere mais de dois terços dos servidores da world wide web a nível mundial, é igualmente um programa de código aberto. É também o caso do Linux, apesar deste ser fundamentalmente para as máquinas UNIX através das quais funciona a Internet. Estas reflexões sobre a história da Internet permitem perceber em que medida constitui um novo tipo de tecnologia na sua forma de organização. A célebre ideia de que a Internet é incontrolável, livre etc., reside na tecnologia. Esta foi concebida, ao longo da sua história, com essa intenção. É um instrumento de comunicação livre, criado de forma múltipla por pessoas, sectores e inovadores que queriam que assim o fosse. Nesse sentido, importa perceber que as tecnologias são o produto do seu processo histórico de constituição, e não simplesmente da sua concepção tecnológica original. 2. A geografia da Internet Passemos agora ao segundo ponto da minha exposição. Aplicando um modelo clássico utilizado no ensino, iniciei a exposição com a história da Internet. Irei agora prosseguir com a geografia. Qual a geografia da Internet? A Internet tem dois tipos de geografia: a dos utilizadores e a dos fornecedores de conteúdo. A geografia dos utilizadores caracteriza-se hoje por ter um alto nível de concentração no mundo desenvolvido. Por conseguinte, as taxas de penetração da Internet rondam os 50% da população nos Estados Unidos, na Finlândia e na Suécia, os 30%-35% na Grã-Bretanha e os 20-25% na França e na Alemanha. De seguida, vem a Espanha com 14% e a Catalunha entre 16-17%. Em todo o caso, o grupo de países da OCDE, os países mais ricos, estaria, neste momento, entre os 25-30%, enquanto que todo o planeta está abaixo dos 3%. Se analisarmos o caso africano e do sul da Ásia, falamos de menos de 1% da população. Por um lado, existe uma grande disparidade de

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penetração da Internet no mundo, por outro lado, as taxas de crescimento por toda a parte, exceptuando a África subsahariana, são muito elevadas, o que significa que também no mundo subdesenvolvido os núcleos centrais estarão conectados à Internet dentro de cinco a sete anos. Ora bem, essa assimetria geográfica tem consequências a nível da intervenção no conteúdo, estrutura e dinâmica da Internet, gerando uma disparidade de usos, uma vez que os utilizadores são quem define o tipo de aplicações e desenvolvimento da tecnologia. No que respeita à geografia dos fornecedores de conteúdos, há um facto que importa ressaltar. Supunha-se que, inicialmente, as tecnologias de informação e de telecomunicações permitiriam a qualquer um localizar-se em qualquer lugar e aceder, a partir daí, ao mundo inteiro. A evidência empírica demonstra-nos o contrário. Há uma concentração muito maior da indústria fornecedora de conteúdos da Internet, bem como de tecnologia da Internet, do que de qualquer outro tipo de indústria. Aquela concentra-se fundamentalmente nas principais áreas metropolitanas dos principais países do mundo. Um dos meus alunos, Mathew Zook, que está a terminar a sua tese de doutoramento, apresenta o primeiro mapa mundial sistemático das empresas de conteúdos da Internet. De acordo com a sua análise, estas empresas estão totalmente concentradas nas principais áreas metropolitanas. A razão é muito simples. Na medida em que a tecnologia permite a localização e distribuição a partir de qualquer parte, o essencial para produzir conteúdos na Internet é a posse de informação e conhecimento. Ora os detentores dessa informação e desse conhecimento estão concentrados sobretudo nos grandes centros culturais e grandes áreas metropolitanas do mundo. No caso Espanhol, obviamente Barcelona e Madrid, por esta ordem, representam mais de três quartos das empresas fornecedoras de conteúdo da Internet existentes no país, e a tendência acentua-se. Também no aspecto especificamente geográfico, recordo a relação entre o desenvolvimento da Internet e as formas de telecomunicações interactivas, por um lado, e o desenvolvimento das formas urbanas, por outro. Também aqui há um aparente paradoxo: pensava-se que a Internet e as tecnologias de informação podiam contribuir para o desaparecimento das cidades, ao ponto de todos podermos trabalhar a partir das nossas montanhas, dos nossos campos, das nossas aldeias. Na realidade, possuímos actualmente a maior taxa de urbanização da história da humanidade. Estamos em vias de chegar aos 50% de população urbana no planeta. No ano 2005 estaremos nos dois terços e, até ao final do século, nos três quartos. Ou seja, cerca de 80% da população do planeta estará concentrada em áreas urbanas. Essa concentração ficará a dever-se, sobretudo, à concentração metropolitana em grandes

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regiões. Verifica-se que a população se concentra em grandes centros de actividade e de difusão da informação, e dentro desses grandes centros, regista-se uma difusão interna num tipo de processo de extensão espacial, porque a Internet permite, por um lado, conectar metrópole a metrópole e, por outro, dentro da metrópole, conectar escritórios, empresas, residências e serviços, numa área muito extensa numa perspectiva espacial. Concretamente, a ideia de que todos passaríamos a trabalhar a partir da nossa residência é refutada do ponto de vista empírico. A Internet permite algo distinto: trabalhar a partir de qualquer lugar. Não é o teletrabalho que se está a desenvolver. Tomando como referência os dados relativos à Califórnia, o lugar mais avançado nesse sentido, se aplicarmos o conceito operativo de teletrabalho, observamos que as pessoas que trabalham pelo menos três dias por semana em sua casa não chegam aos 2%, e dessas, metade não tem, surpreendentemente, computador em casa. Não trabalham via Internet, trabalham via telefone, são quem faz as chamadas que nos maçam à hora do jantar. O que a Internet permite é trabalhar a partir de casa, e o desenvolvimento da Internet móvel e do telefone móvel permite, neste momento, trabalhar nos transportes, em viagem, no local de trabalho, etc. O desenvolvimento geográfico que a Internet possibilita é o escritório móvel, o escritório portátil, a circulação do indivíduo sempre conectado à Internet em distintos pontos físicos do espaço. Não podemos ainda falar de teletrabalho, uma vez que a evidência empírica desfaz os mitos toflerianos. Por isso, nunca faço previsões, porque acabamos sempre por nos enganar. Eu trabalho sobre os dados existentes que habitualmente provêm por outra via, precisamente porque a sociedade se apropria das tecnologias, adaptando-as às suas necessidades.

3. O fosso digital O terceiro ponto da análise que passo a enunciar diz respeito ao fosso digital, ou seja, à ideia de que a Internet está a criar um mundo dividido entre os que têm e os que não têm Internet. O que sabemos sobre esta questão? Por um lado, é inegável a existência de uma grande desigualdade no acesso. Observamos que aquelas pessoas que não têm acesso à Internet estão numa situação cada vez mais precária face ao mercado de trabalho. Observamos também que as regiões não conectadas à Internet perdem competitividade económica internacional e, por conseguinte, constituem focos crescentes de pobreza incapazes de se juntar ao novo modelo de desenvolvimento. Mas, por outro lado, assistimos também a um desenvolvimento considerável da conectividade. Volto a chamar a atenção para as elevadas taxas de crescimento da

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Internet, por todo o lado, e para o que hoje se designa de fosso digital (digital divide) nos Estados Unidos. Este fosso digital, que é, fundamentalmente, a falta de conectividade no nosso tipo de sociedades, distinto do Terceiro Mundo, está a deixar de ser um problema. Por exemplo, os dados que, nos Estados Unidos, assinalavam uma menor utilização da Internet por parte dos negros, dos latinos e das mulheres estão a mudar radicalmente. Um estudo que parece sério e sistemático sobre o desenvolvimento da Internet em setes países altamente desenvolvidos, entre os quais a Espanha não figura – Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Austrália, Canadá etc.levado a cabo pela Jupiter Communications há três meses, observou, pela primeira vez, em finais de Maio deste ano que o número de mulheres utilizadoras da rede era superior ao de homens. Nos Estados Unidos, verifica-se a mesma tendência entre os negros e os latinos. A taxa de penetração da Internet entre os universitários negros e latinos e os estudantes não negros e não latinos é a mesma. É claro que há menos negros e latinos na universidade, mas esta é mais uma questão do foro educacional do que de discriminação sistemática com base étnica. Portanto, a conectividade como elemento de divisão social está a diminuir rapidamente. Mas, o que se observa nestas pessoas que estão conectadas, sobretudo estudantes e crianças, é o aparecimento de um segundo elemento de divisão social muito mais importante do que a conectividade técnica: a capacidade educativa e cultural para utilizar a Internet, uma vez que toda a informação e o conhecimento, ou seja, o conhecimento codificado se encontra na rede. Contudo, esse conhecimento não é suficiente, tornando-se necessário saber onde está a informação, como procurá-la, processá-la e transformá-la em conhecimento específico. Essa capacidade de aprender a aprender, essa capacidade de saber o que fazer com o que se aprende é socialmente desigual e está ligada à origem social, familiar, bem como ao nível cultural e educacional. É aí que reside hoje, tomando por referência a evidência empírica, o fosso digital.

4. A Internet e a Nova Economia O quarto ponto da minha exposição examina a relação entre a Internet e a nova economia. O essencial aqui é o facto de a nova economia não ser a das empresas que produzem ou concebem a Internet, mas das empresas que funcionam com e através da Internet. Essa é a nova economia, e é o que está a acontecer em todo o mundo. É certo que o desenvolvimento das utilizações da Internet começa primeiro nas empresas de alta tecnologia e empresas de concepção de aplicações da Internet e de programas de software, que o aplicam à sua própria organização, difundindo-se rapidamente, a partir daí, a todo o tipo de empresas, criando um novo modelo de

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organização empresarial. Fala-se muito do comércio electrónico. É uma questão importante, mas foca-se demasiado a ideia da venda no comércio electrónico, o chamado business to consumers B2C, a venda aos consumidores. O comércio electrónico representa apenas 20% do total das transacções comerciais electrónicas na Internet, sendo 80% efectuadas de empresa a empresa, numa sequência de acordos comerciais entre as empresas, acentuando-se esta tendência neste momento (B2B). Com efeito, o volume cresce e, ao crescer o volume global, também cresce o número de transacções relativas aos consumidores. O que cresce muito mais, em termos absolutos e relativos, é o volume da relação entre empresas. O que é que está a acontecer? Praticamente todo o trabalho interno da empresa, de relação com os fornecedores e com os clientes está a ser efectuado através da rede. Trata-se do modelo que desenvolvi, designado por Modelo Cisco Systems, nome da empresa produtora de 85% dos equipamentos de telecomunicações do backbone da Internet no mundo, de routers e switchers (comutadores). Esta empresa efectua 90% das vendas e das transacções através da sua página web, dos fornecedores da empresa e dos seus clientes, limitando-se assim a dispor da engenharia, a web, actualizando-a em tempo real, garantindo a qualidade e organizando a rede de fornecedores. É a maior empresa industrial do mundo, e a segunda empresa de maior valor de mercado no mundo, 400.000 milhões de dólares, mais de cinco vezes o valor da General Motors, quando na realidade só conta com trinta e cinco mil pessoas, e é uma empresa que produz máquinas, computadores, possuindo apenas uma fábrica. É quase inteiramente virtual, no entanto, tem escritórios com pessoas que fazem funcionar a máquina virtual. Não produz nada, mas da sua actividade sai 85% do equipamento mundial que faz funcionar a Internet. Há muitos outros exemplos. Caso lhes interesse, posso referir exemplos sobre a maior empresa de construção de edifícios de S. Francisco, a WebCor, cujo centro é também um web site onde os utilizadores se relacionam com os desenhadores, os arquitectos, os construtores e os empregados municipais. Tudo isto está na Web e todos os passos que uma empresa de construção tem que dar para levar a cabo uma construção são dados na Web. Com esta tecnologia, a empresa conseguiu reduzir para metade o tempo de produção de um edifício, com um terço de gestores, reduzindo os custos em 50%. Como pode imaginar-se, as outras empresas de construção começaram rapidamente a entrar na rede. O exemplo mais característico seria a Zara. A Zara é uma empresa Internet que, neste momento –estou a falar-lhe da Zara onde compra as suas roupasconta com 2001 armazéns no mundo, em trinta e cinco países diferentes. Nesses

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armazéns, cada vendedor possui uma pequena máquina onde regista cada compra efectuada com base numa série de dados, com os quais o director da cada armazém elabora um relatório semanal que envia através da rede para a sede central na Corunha, onde 200 desenhadores processam por computador e determinam as tendências do mercado, enviando directamente às fábricas que cortam os modelos e produzem a roupa. Com este sistema, inteiramente baseado na comunicação electrónica e processado pela Internet, a Zara reduziu a duas semanas, o tempo necessário para redesenhar um produto, a partir do momento em que decide colocá-lo no mercado, em qualquer parte do mundo. O modelo Benetton, que projectou fazer o ciclo em seis meses, foi ultrapassado pela GAP, que o aplicou em dois meses, a partir de outra rede, e a Zara aplicou-o em duas semanas, pelo que está a ganhar rapidamente quotas de mercado em todo o mundo e, neste momento, o valor de capitalização de mercado da empresa matriz da Zara, uma empresa familiar, é de 2.000 milhões de dólares. Poderíamos continuar a dar muitos exemplos, mas creio que já se percebeu a ideia. Em primeiro lugar, a Internet está a transformar o modelo de empresa na nossa economia. O que foi o fordismo, a grande empresa industrial baseada na produção estandardizada e em linha de montagem, é hoje a capacidade de funcionar em rede, de articular directamente o mercado, consumidores e fornecedores, e organização interna da empresa online em todas as tarefas. A segunda mudança produzida pela Internet, ou melhor, a transformação do funcionamento do capital constitui a base material sobre a qual se produz essa mudança. Muito esquematicamente, também aqui a primeira transformação é que o centro da economia global são os mercados financeiros globais, que funcionam mediante conexões entre computadores. Tecnicamente falando, isto não é a Internet, porque não se baseia nos seus protocolos, mas é uma rede de redes de computadores que rapidamente está a convergir com a rede Internet. Esta rede subjaz à articulação, à interdependência e, também, à volatilidade do mercado global financeiro. Em segundo lugar, a Internet permitiu o desenvolvimento vertiginoso da transacção financeira electrónica; o desenvolvimento dos mercados financeiros, mercados bolsistas como o Nasdaq, que são mercados electrónicos sem um lugar físico no espaço; o desenvolvimento dos principais e futuros mercados do mundo como o mercado suíço-alemão Eurex, que é inteiramente electrónico, o Liffe em Londres e o Matif na França; o desenvolvimento de redes de brokers, redes de correctores de bolsa como Instinet, que, hoje, canaliza algumas das transacções mais importantes do mundo; o desenvolvimento de empresas correctoras como a Charles Schwabb, que é maioritariamente electrónica. Presentemente, a Bolsa de Nova Iorque

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(NewYork Stock Exchang) planeia a criação de uma bolsa mista, que seja simultaneamente electrónica, virtual e física. Na Europa, em torno do projecto de fusão, actualmente previsto, entre as bolsas de Frankfurt e de Londres, que prefigura a fusão das bolsas Europeias num ou dois centros bolsistas, está a planear-se a ligação do Nasdaq americano com um equivalente de Frankfurt e um equivalente japonês, procurando criar um Nasdaq global inteiramente electrónico. Assim, as acções das nossas empresas, de todas as empresas, tendem e tenderão a negociar-se cada vez mais em termos de interacções electrónicas, puramente electrónicas, e não físicas, o que gera um novo tipo de transacção económica, uma velocidade, uma complexidade, uma dimensão do mercado cada vez maior, uma capacidade de reacção dos investidores quase instantânea e a dependência de mecanismos de cálculo, de modelos matemáticos de previsão, activados a uma velocidade electrónica mediante conexões na Internet. Isto modifica os mercados financeiros, as finanças mundiais e, por conseguinte, a nossa economia. Um terceiro elemento que pretendia assinalar é o facto de a economia da Internet estar a alterar os métodos de valorização económica. O desenvolvimento das empresas da Internet e das mais inovadoras que se vão lançando por essa via baseiase, sobretudo, na existência de capital- risco que permite financiar ideias antes da concepção do produto. É assim que o sistema funciona: um inovador tem uma ideia concebida, geralmente não sobre a Internet mas através do que pode fazer-se com a Internet; vende a ideia a uma empresa de capital de risco que proporciona os fundos iniciais para o arranque; com esse capital de risco compra-se talento e instala-se na Internet; com isso começa a produzir-se pouco, sem ganhos, vende-se em oferta pública e o mercado valoriza-o ou não. Quando não valoriza, a empresa desaparece e volta a tentar; quando valoriza, com essa valorização do mercado, que não se produz em torno de benefícios, mas de uma promessa, é quando há recursos para passar dessa promessa de inovação a uma inovação material, a uma produção material que volta a sair para o mercado e a gerar valor. Por outras palavras, cria-se valor a partir da inovação com base na valorização do mercado de iniciativas que se desenvolvem em termos de empresa. Passámos a uma economia em que a expectativa de criação de benefícios através da empresa é substituída pela expectativa de criação de novo valor no mercado financeiro. E isso depende fundamentalmente da capacidade de relação com esse cálculo das empresas Internet. O exemplo da indústria da Internet está, neste momento, a ser seguido pelo conjunto dos outros sectores industriais. Isso gera uma grande volatilidade financeira, mas ao mesmo tempo gera um extraordinário aumento de riqueza e de produtividade. Há empresas sobreavaliadas e outras menos,

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mas, na realidade, a tendência é ascendente e os ciclos económicos sucedem-se. Recorde-se que, por muito que tenham diminuído as acções de empresas tecnológicas, o Nasdaq está todavia 35% acima do seu valor de há um ano, quando o Dow Jones, o índice equivalente da economia tradicional, está em -1,2% para o mesmo período. A capacidade de criação de valor com base num novo modelo de antecipação de expectativas adveio também da economia da Internet.

5. A sociabilidade na Internet Permitam-me mudar rapidamente para o quinto ponto da minha apresentação, que é a problemática com mais carga ideológica da análise da Internet, a problemática da sociabilidade, da interacção social ou individual ou das comunidades virtuais da Internet. Como é sabido, esta problemática está dominada pelas fantasias dos futurólogos e de jornalistas mal informados, embora haja jornalistas muito bem informados. Falou-se aqui sobre a questão de a Internet conduzir ao isolamento, à depressão, ao suicídio, a todo o tipo de coisas horríveis ou, pelo contrário, ao facto de a Internet ser um mundo extraordinário, de liberdade, desenvolvimento, no qual todos querem estar, no qual todos formam uma comunidade. Que conhecimento empírico temos sobre isto? Sabemos bastante a este respeito. Sabemos, por exemplo, através de um estudo que a British Telecom acaba de realizar, um grande estudo de observação realizado no decurso de um ano numa série de lugares onde se utilizava a Internet, que a Internet nada muda. As pessoas continuam a fazer na Internet o que faziam antes, e aqueles que estavam satisfeitos estão muito melhor, aqueles que estavam mal, assim continuam. Aqueles que tinham amigos, continuam a tê-los na Internet e, quem os não tinha, tão pouco os terá. É um estudo intelectualmente muito conservador, mas cito-o por ser muito espectacular, designa-se “Nada acontece aqui”. Mas, acontece. A Internet é uma ferramenta que desenvolve, mas não muda os comportamentos, a não ser os comportamentos que se apropriam da Internet e, portanto, amplificam-se e potenciam-se a partir daquilo que são. Isto não significa que a Internet não seja importante. Não é a Internet que altera o comportamento, mas o comportamento que altera a Internet. Estudos de painel, como os que realiza o principal investigador de sociologia empírica das comunidades da Internet, Barry Wellman da Universidade de Toronto, mostram a realidade da vida social na Internet. Os resultados demonstram que as comunidades virtuais são também comunidades, isto é, geram sociabilidades, relações e redes de relações humanas, não sendo, porém, idênticas às comunidades físicas. Isto parece ser uma verdade adquirida, mas é necessário investigá-lo e mostrá-lo. As comunidades físicas

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têm determinadas relações e as comunidades virtuais têm outro tipo de lógica e outro tipo de relações. Que tipo de relações? Qual a lógica específica da sociabilidade online? O mais interessante é a ideia de que são comunidades pessoais, comunidades baseadas em interesses individuais e nas afinidades e valores das pessoas. Nas nossas sociedades, onde se desenvolvem projectos individuais que procuram dar sentido à vida a partir do que eu sou ou quero ser, a Internet permite essa conexão ultrapassando os limites físicos do quotidiano, tanto no local de residência como no local de trabalho, gerando, portanto, redes de afinidades. Por exemplo, as investigações no Canadá e nos Estados Unidos mostraram que, para além da Internet, os indivíduos tinham, em média, não mais de seis relações íntimas fora da família e, ao mesmo tempo, centenas de relações pouco próximas, o que, nos últimos dez anos, se tomou como um dado adquirido. Assim, a Internet propicia o desenvolvimento de laços superficiais, e não de laços fortes. Como media, é excelente para preservar e reforçar os laços fortes existentes a partir da relação física. Enfim, o que importa é que isto está validado empiricamente através da síntese dos estudos realizados. Neste sentido, está a desenvolver-se uma tendência para a diminuição da sociabilidade de base comunitária física tradicional. Há uma tendência para a diminuição da sociabilidade baseada no bairro. Há um decréscimo da vida social no trabalho, no mundo em geral. O que acontece é que a sociabilidade se está a transformar mediante o que alguns designam de a privatização da sociabilidade, que é a sociabilidade entre pessoas que constróem laços electivos não com os que trabalham ou vivem num mesmo lugar, fisicamente coincidentes, mas pessoas que se procuram: eu quero encontrar alguém que goste de sair de bicicleta comigo, mas tenho que procurar primeiro. Por exemplo, como criar um clube de ciclismo? Como criar um clube de pessoas que se interessem por espeleologia? É esta formação de redes pessoais que a Internet permite desenvolver mais fortemente. Quando Wellman procurou medir a influência da Internet sobre as outras sociabilidades, encontrou algo que contradiz os mitos sobre a Internet. É o que designou de “quanto mais, mais”, ou seja, quanto mais rede social física se tem, mais se utiliza a Internet; quanto mais se utiliza a Internet mais se reforça a rede física que se tem. Isto é, há pessoas e grupos de forte sociabilidade, existindo uma correspondência entre a sociabilidade real e virtual. E há pessoas de fraca sociabilidade, em que também é correlativa a fraca sociabilidade real e virtual. O que acontece é que, nos casos de fraca sociabilidade real, há alguns efeitos compensatórios através da Internet, utilizando-se a Internet para sair de um isolamento relativo. Alguns estudos circunscrevem-se a esta correlação, constatando

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que se trata de pessoas que utilizam muito a Internet, que estão isoladas socialmente, concluindo que a Internet provoca o isolamento. O processo de causalidade é distinto, a Internet utiliza-se como meio para aquelas pessoas isoladas, mas tem fundamentalmente um efeito cumulativo entre sociabilidade real e sociabilidade física porque o virtual também é real - e sociabilidade virtual. Um outro tipo de estudos, como os realizados por Marcia Lipman, em Berkeley, que estudou centenas de comunidades virtuais, evidenciam outro dado fundamental, que é o facto de as comunidades virtuais serem tanto mais instáveis, quanto mais ligadas a tarefas, a fazer coisas ou a perseguir interesses comuns. A ideia de que a Internet é um lugar onde as pessoas falam de qualquer banalidade, contam anedotas, etc, é absolutamente superficial. Isto é residual, uma vez que são poucas as pessoas que têm tempo para o fazer. O que acontece é que as histórias de falsas identidades, em que as pessoas se disfarçam de qualquer coisa, em que revelam o que não são, fazem as delícias dos sociólogos pós-modernos. É verdade que isto existe, mas acontece, sobretudo, com os adolescentes. E o que fazem os adolescentes em geral? Criam identidades, experimentam identidades, criam uma contracultura própria de experimentação identitária. Também o fazem na Internet. Mas, analisando o conjunto da sociedade, para além das estratégias identitárias dos adolescentes, observa-se de facto uma utilização instrumental da Internet para realizar tarefas políticas, pessoais ou de interesses concretos, sendo o que realmente gera os níveis de interacção mais fortes. Portanto, mais do que a emergência de uma nova sociedade totalmente online, o que observamos é a apropriação da Internet por parte de redes sociais, formas de organização laboral, tarefas, bem como o estabelecimento online de muitos laços superficiais, demasiado complicados para se conservarem offline. Por exemplo, o desenvolvimento de organizações de entreajuda entre pessoas mais idosas é, neste âmbito, um dos elementos mais interessantes: a Seniornet, nos Estados Unidos, é uma das redes mais populares de informação, de ajuda, de solidariedade, de reforço de uma vivência partilhada, etc. O mesmo acontece com as redes de informação religiosa e de partilha de valores religiosos ou com as redes de mobilização social.

6. Os movimentos sociais na Internet No sexto ponto, foco a relação da Internet com os movimentos sociais. O que sabemos a este respeito tem sido bastante analisado nos meios de comunicação: a maior parte dos movimentos sociais e políticos do mundo de todas as tendências

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utilizam a Internet como forma privilegiada de acção e de organização. Isto apenas nos diz que a Internet é um instrumento. Mas, qual a sua especificidade? O que confere especificidade à mobilização social, a partir do momento em que esta é realizada pela Internet? Bom, há três aspectos que são fundamentais na interacção entre a Internet e os movimentos sociais. O primeiro aspecto tem a ver com o facto de se assistir na sociedade, fora da Internet, a uma crise das organizações tradicionais estruturadas e consolidadas como os partidos, as associações de orientação directamente política, e para além disso à emergência de actores sociais, fundamentalmente, a partir de coligações específicas sobre objectivos concretos: vamos salvar as baleias, vamos defender tal bairro, vamos propor novos direitos humanos no mundo, vamos defender os direitos da mulher, não através de uma associação, mas com campanhas concretas. Em geral, verifica-se na sociedade uma mudança dos movimentos sociais organizados para os movimentos sociais em rede, com base em coligações que se constituem em torno de valores e projectos. A Internet é a estrutura organizativa e o instrumento de comunicação que permite a flexibilidade e a temporalidade da mobilização, mantendo ao mesmo tempo um carácter de coordenação e uma capacidade de concentrar essa mobilização. Segundo aspecto: os movimentos sociais na nossa sociedade desenvolvem-se, cada vez mais, em torno de códigos culturais e valores. Há movimentos reivindicativos tradicionais, mas os movimentos mais importantes – meio ambiente, ecologismo, mulheres, direitos humanos- são movimentos de valores. Neste sentido, dependem, sobretudo, da capacidade de comunicação e da capacidade de levar a cabo o recrutamento de apoios e de estímulos, mediante o apelo aos valores, aos princípios e às ideias. São movimentos de ideias e de valores. Pois bem, a Internet é fundamental, porque podem colocar-se mensagens como esta: “aqui estou, este é o meu manifesto, quem está de acordo comigo?” e “o que podemos fazer?” A transmissão em tempo real de ideias num espaço muito amplo permite a união e a agregação em torno de valores. Neste sentido, uma das ideias mais falaciosas sobre a Internet é a de um famoso cómico publicada no New Yorker, há anos, de dois cães no computador, em que um diz ao outro: “vês, na Internet ninguém sabe que és um cão”. Pois então vejam. Na Internet, sabe-se que és um cão, porque se quiseres organizar os cães na Internet e se te apresentas como gato, os gatos organizam-se. Deste modo, a bandeira de organização, de comunicação e de afirmação de um certo valor tem que ser consolidada em termos do que se quer ser, porque os movimentos sociais constituem-se à volta daquilo que dizem ser, não se constituem de forma manipulada,

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atraindo alguém para o que não é. Isso pode ser uma manipulação, mas em geral, as manipulações não prosperam. O terceiro aspecto específico aos movimentos sociais tem a ver com o facto de o poder se estruturar, cada vez mais, em torno de redes globalizadas e de as pessoas viverem e edificarem os seus valores, os seus movimentos de resistência e de alternativa em sociedades locais. O grande problema que se coloca é como, a partir do local, se pode controlar o global, como é que a partir da minha vivência e da relação com o meu mundo local, que é onde me situo, onde vivo, posso opor-me à globalização, à destruição do meio ambiente, ao massacre do Terceiro Mundo a nível económico. Como se pode realizar tal tarefa? Pois bem, a Internet permite a articulação de projectos alternativos locais mediante protestos globais, que acabam por se radicar em algum lugar, por exemplo, em Seattle Washinggton, Praga, etc., mas que se constituem, organizam e desenvolvem a partir da conexão à Internet, ou seja, conexão global de movimentos locais e de vivências locais. A Internet é a conexão global-local, constituindo a nova forma de controlo e de mobilização social na nossa sociedade.

7. A relação da Internet com a actividade política organizada O sétimo ponto da minha apresentação: a Internet também tem uma relação directa com a actividade política organizada, tanto a nível partidário, como a nível de governos de tipos distintos. Há aqui todo o tipo de projectos e de ideias. Em princípio, a Internet poderia ser um extraordinário instrumento de participação de cidadania, um instrumento de informação da classe política, dos governos e dos partidos aos cidadãos e de relação interactiva. Poderia ser um ágora político sobre o qual escrevem todos os futuristas. Ora bem, na prática, há algumas experiências interessantes de democracia local, curiosamente local, como a Digital City, a cidade digital de Amsterdão (hoje em séria crise), as redes de cidadania de Seattle, o programa Iperbole em Bolonha (também em declínio, neste momento); mas, em geral, o que se observa é que os governos, as administrações, os partidos políticos confundiram a Internet com um painel de anúncios. De um modo geral, limitam-se a expor a informação: aqui tem a nossa informação para que saiba o que fazemos e assim poupa-me trabalho ou, se o desejar, diga-me a sua opinião. O que acontece é que não se sabe o que se passa com essa opinião. Geralmente, há muito poucos exemplos acerca da prática interactiva quotidiana entre o sistema político e os cidadãos. Portanto, uma das dimensões de investigação que pretendo desenvolver relaciona-se

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com a forma como a Internet pode permitir a desburocratização da política e superar a crise de legitimidade dos governos que se desenvolve em todo o mundo, a partir de uma maior participação dos cidadãos permanente, interactiva, e com uma informação bidireccional constante. Na realidade, o que se observa é que isto não acontece. Há um livro interessante que acaba de ser publicado sobre as relações entre a Internet e alguns sistemas parlamentares que mostra, com base em estudos empíricos, que na realidade todos os parlamentos têm um Web site, todos os partidos têm Internet em todos os países desenvolvidos, mas são vias, insisto, unidireccionais de informação para captar a opinião, converter simplesmente os cidadãos em votantes potenciais e para que os partidos obtenham informação para saberem como ajustar a sua publicidade. Neste sentido, eu diria que o problema não é a Internet. O problema é o sistema político e, uma vez mais, temos um leitmotiv da apresentação que estou a tentar transmitir, que é o de que a sociedade modela a Internet, e não o contrário. Onde há mobilização social, a Internet converte-se num instrumento dinâmico de troca social; onde há burocratização política e política estritamente mediática de representação dos cidadãos, a Internet é simplesmente um painel de anúncios. Há que mudar a política para mudar a Internet e, então, o uso político da Internet pode reverter numa mudança da política em si mesma.

8. A privacidade na Internet Muitos debates sobre a Internet, actualmente, enfocam a ideia dos efeitos da Internet sobre a privacidade e sobre a capacidade de controlo da nossa vida íntima através da Internet. Aqui há dois elementos: a relação governo-cidadãos e a relação privacidadeInternet. Na relação governo-cidadãos, há um aspecto que preocupa muito os governos: o facto de não poderem controlar a Internet. Há muitas razões, mas existe uma muito mais decisiva que as demais. Pode argumentar-se se é tecnicamente possível. Parece que não é tão fácil como alguns pensavam e, para o demonstrar, cita-se sempre o caso de Singapura. Acabo de receber um estudo dos sociólogos de Singapura que estudam a Internet que mostra, empiricamente, a actual incapacidade do Governo de Singapura para controlar a Internet, devido à necessidade de abertura ao exterior por razões económicas e financeiras. Naturalmente, a China, Singapura e muitos outros países quiseram utilizar a Internet para os negócios, ao mesmo tempo que não permitem o seu uso para a livre expressão dos cidadãos. Parece que, em Singapura, esse controlo já não funciona. Na China funciona, porque, apesar de não

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controlarem a difusão da informação na Internet, podem, contudo, procurar a pessoa que recebeu ou difundiu a informação e prendê-la, o que é outra forma de controlo. Como tal, a Internet parece difícil de controlar. Por outro lado, a razão fundamental não é somente técnica, mas também institucional: nos Estados Unidos não pode fazerse, porque há várias decisões dos tribunais federais e, em particular, a que eliminou o Communication Decent Act que Clinton apresentou em 1995 para censurar a Internet, utilizando como argumento a pornografia infantil. O Supremo Tribunal dos Estados Unidos, declarou que existe, de facto, na Internet todo o tipo de problemas, que na Internet a livre expressão conduz a excessos, e que a Internet é o caos da expressão. Mas, passo a citar: “os cidadãos têm um direito constitucional para o caos”. Eu creio que a ideia de um direito constitucional ao caos é profundamente inovadora e faz com que, a partir desse momento, na medida em que a Internet é uma rede global, e ao não haver controlo nos Estados Unidos, se procure qualquer via para ultrapassar o obstáculo e poder expressar-se. Recorde-se que a Internet está tecnicamente desenhada para interpretar qualquer censura como um obstáculo técnico e reconfigurar a via de transmissão. Além de que os governos não controlam a Internet – a única forma de fazê-lo seria desactivá-la, como fez o Irão, o Afeganistão. Veremos o que irá passar-se com a Internet móvel. Apercebemo-nos, assim, que há um problema muito mais profundo que o controlo dos governos sobre a liberdade de expressão, que é o desaparecimento da privacidade num mundo onde vivemos conectados à rede. Scott McNealy, que é um grande empresário de Silicon Valley e foi o Presidente da Sun Microsystems no ano transacto, para que não o incomodassem mais com este tema, fez uma declaração espectacular com a qual eu e a maior parte das pessoas concorda: “privacidade na Internet? Esqueça isso. Já a perdeu para sempre”. O que é que isso significa? Significa que qualquer coisa que façamos na rede pode detectar-se electronicamente. O problema é saber quem está interessado, como, quando, de que forma e como se faz, etc. Mas, existe a possibilidade de fazê-lo. O FBI pode fazê-lo neste momento, já que desenvolveu um novo programa, Carnivore, evidentemente com autorização judicial, mas, já se sabe, isto pode ser efectuado por qualquer tipo de empresa que disponha do famoso cookie no seu programa. Neste momento, se uma pessoa não quer fornecer o seu endereço e as suas características a empresas que comercializam nesta área, tem que efectuar uma verdadeira investigação, efectuar todo o tipo de cliques, sair de todo o tipo de serviços, e praticamente isolar-se. Nos Estados Unidos, já existem empresas que começam a comercializar a política. Há uma empresa, a Aristotle, que desenvolveu este sistema para a campanha

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presidencial actual a partir de informações obtidas em numerosos bancos de dados comerciais. Elaborando perfis de personalidades e cruzando-os com padrões de votos geográficos a níveis muito pequenos, de bairro, estabeleceu a tendência de voto potencial para cento e cinquenta e seis milhões de cidadãos dos Estados Unidos. A empresa está presentemente a vender a tendência de voto potencial aos vários candidatos. Igualdade de oportunidades. Quem o compra, leva-o. Não é a espionagem de um partido contra outro: é comercializar a intimidade política de cada um deles. A União Europeia tem uma política muito mais restrita de protecção da privacidade, mas, sem entrar demasiado em detalhes, a capacidade tecnológica da legislação Europeia é muito débil. Há muitas formas de escapar a essa legislação. Por exemplo, a Yahoo ou America on Line, fora das suas redes europeias, deixam de ser controladas pela legislação europeia e, embora seja europeu, está conectado a uma rede global. E, se qualquer empresa, qualquer portal deste tipo, dispuser de informação, pode vendê-la a qualquer empresa europeia. O facto de estar numa rede global quer dizer que não há privacidade. Este é um dos aspectos mais importantes. Recomendo-lhes a leitura de um livro de Lessig sobre este tema que se chama Code. Neste livro, Lessig colocou uma questão fundamental em que a privacidade aparece como essencial, isto é, o debate sobre a capacidade de encriptação. A encriptação permitiria a cada pessoa a possibilidade de determinar o seu código. A encriptação é simplesmente um código que se autoconstrói e para o qual não existe uma capacidade tecnológica de desencriptá-lo com métodos normais, só poderiam fazê-lo os serviços secretos, trabalhando com computadores durante muito tempo. O que acontece é que a encriptação foi proibida pelos governos, também nos Estados Unidos, com o argumento de que os traficantes de drogas e outras pessoas sem ética o poderiam utilizar para fazer os seus negócios através da Internet. Mas, de qualquer forma, já fazem os seus negócios através da Internet e comunicam de inúmeras outras formas. A encriptação seria realmente um sistema que permitiria às pessoas guardar a sua informação, sem que outros pudessem aceder-lhe. A batalha da encriptação é, neste momento, a batalha da privacidade.

9. A Internet e os Meios de Comunicação Um último tema antes de concluir: a relação entre a Internet e a transformação da comunicação através dos meios de comunicação. A Internet está a transformar radicalmente os meios de comunicação, mas não pela convergência da Internet e Televisão num mesmo meio tecnológico, a famosa caixa que terá em cima do seu

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televisor e que chega a todos, o que se designa de Web TV. O que na realidade existe é um aparelho que dispõe ao mesmo tempo de Internet e de televisão, mas são dois sistemas. Embora se possa transmitir televisão via Internet tecnologicamente, não é muito interessante, não é muito eficaz e, sobretudo, se se pretende transmitir de facto a televisão que temos, não haveria, em nenhum país, capacidade de banda previsível nos próximos vinte anos para fazê-lo, nem sequer nos Estados Unidos. A capacidade de banda de transmissão para o enorme volume que representaria toda a televisão que hoje se transmite é simplesmente impensável, muito caro e ineficaz. Quem pretenderia receber exactamente através do mesmo canal televisão e Internet? Não faz nenhum sentido. Por outro lado, a Internet está a converter-se no centro de articulação dos diversos meios, dos multimédia. Por outras palavras, está a converter-se no sistema operativo que permite interagir e canalizar a informação sobre o que acontece, onde acontece, o que podemos ver, o que não podemos ver e é, portanto, o sistema de conectividade interactiva do conjunto do sector multimédia. É isto que a Internet está a mudar. Está também a mudar os meios de comunicação e, em particular, contrariamente ao que acreditamos, os meios de comunicação escrita. Em que sentido? Bom, o modelo futuro já existe, como quase todos os modelos futuros. É o modelo de utilização da Internet nos meios de comunicação que se utiliza no grupo Chicago Tribune, que acaba de comprar o Los Angeles Times. A sala de redacção do Chicago Tribune, que está a ser estudada por um dos meus alunos, consiste numa sala totalmente integrada na Internet, onde os jornalistas processam a informação em tempo real e daí segue para o Chicago Tribune, Los Angeles Times, outros jornais nos Estados Unidos, uma série de estações de rádio e várias estações de televisão. Que tem isto de original? Esta informação chega em tempo real e continua a processar-se em tempo real, ou seja, é um meio de comunicação de massas, contínuo e interactivo, ao qual podem aceder vários utilizadores, colocando perguntas, criticando e debatendo. Toda esta informação chega aos jornalistas, que vão sendo substituídos por outros na mesma sala de redacção, que continua a processar de forma ininterrupta essa informação. Isto já existe e é o modelo que rapidamente está a ser adoptado pelos grandes grupos multimédia e pela imprensa. A Internet está a revolucionar a comunicação pela sua capacidade em curtocircuitar os grandes meios de comunicação. O facto de ser uma comunicação horizontal, de cidadão para cidadão, permite-me criar o meu próprio sistema de comunicação na Internet, fazer as minhas escolhas e comunicá-las. Pela primeira vez há uma capacidade de comunicação de massas não mediatizada pelos meios de comunicação de massas. Coloca-se então o

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problema da credibilidade? Como pode acreditar-se no que aparece na Internet? No ano passado, no congresso dos editores de jornais norte-americanos, havia um certo temor por parte de vários empresários de Silicon Valley que profetizavam o fim dos jornais: o New York Times desaparecerá, tudo será online. A minha posição nesse momento era: haverá jornais online, o mesmo jornal ou algo distinto online, via televisão, rádio ou em papel, em distintos formatos para momentos e contextos distintos de utilização. Mas o problema essencial, quando tudo se encontra na Internet, é a credibilidade, e é aí que os meios de comunicação têm um papel essencial, já que tende a dar-se mais credibilidade à La Vanguardia, ao New York Times, ao El Pais ou ao El Periódico da Catalunã, do que àquilo que Manuel Castells possa colocar na rede num determinado momento. Neste sentido, o rótulo de veracidade - o brand name - é importante, na condição de que esse rótulo seja respeitado, convertendo a credibilidade de um meio de comunicação na sua única forma de sobrevivência num mundo de interacção e de informação generalizada.

10. Conclusão: a sociedade em rede Em suma, a Internet é a sociedade, expressa os processos, os interesses, os valores e as instituições sociais. Se a Internet é a sociedade, qual então a sua especificidade? A sua especificidade reside no facto de constituir a base material e tecnológica da sociedade em rede, constituindo a infraestrutura tecnológica e o meio organizativo que permite o desenvolvimento de um conjunto de novas formas de relação social que não têm a sua origem na Internet, e que são fruto de uma série de mudanças históricas mas que não poderiam desenvolver-se sem a Internet. Analiso esta sociedade em rede como uma sociedade cuja estrutura social está construída em torno de redes de informação a partir da tecnologia da informação microelectrónica estruturada na Internet. Mas, a Internet nesse sentido não é apenas uma tecnologia, é também o meio de comunicação que constitui a forma de organização das nossas sociedades, o equivalente ao que foi a fábrica ou a grande empresa na Era industrial. A Internet é o centro de um novo paradigma sociotécnico que, na realidade, constitui a base material das nossas vidas e das nossas formas de relação, de trabalho e de comunicação. O que a Internet faz é processar a virtualidade e transformá-la na nossa realidade, constituindo a sociedade em rede, que é a sociedade em que vivemos.

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Porquê estudar os Media ? O 11 de Setembro e a Ética da Distância Roger Silverstone

Eu quero, neste texto, declarar que os media, são a base necessaria para perceber aquilo a que Iasaiah Berlim chama " o contexto da prática". Quero entender o que isso pode significar para nós que estamos envolvidos no estudo dos media e para aqueles que poderão pensar que tal estudo não é possível nem necessário. Quero perguntar o que isso pode significar para nós, gente comum, no nosso dia a dia de trabalho, agora, no novo milénio. Também quero perguntar quais são as implicações que podem ter sobre o nosso bom senso como seres morais e políticos. Por isso é perfeitamente claro que os media – especialmente os media electrónicos – estão a tornar-se cada vez mais centrais, mais indispensáveis, mais críticos, e cada vez mais profundamente enraizados na nossa maneira de viver no nosso dia a dia, no movimento do tempo e da vida. Os nossos media são ubíquos, diários, são a dimensão essencial da experiência contemporânea. Não podemos escapar à presença dos médias, à sua representação deles. Temos vindo a depender dos media, quer seja em suporte electrónico ou escrito, por prazer e por informação, para conforto e segurança, ou num sentido de continuidades da experiência, e de vez em quando também para intensificar a experiência. Como exemplo disso, o ataque ao World Trade Center foi o mais recente e o mais dramático caso da actualidade. Posso contar as horas que um cidadão comum passou em frente à televisão, ao lado do rádio, folheando os jornais, e, crescentemente, a navegar na Internet. Também posso constatar como essas pessoas variam, globalmente, de Norte para Sul assim como dentro das nações, de acordo com os recursos simbólicos e materiais. Posso apontar quantidades de vendas globais de software, variações das idas ao cinema e aluguer de vídeos, e a posse de computadores pessoais. Posso reflectir sobre os padrões de mudança e, se for suficientemente ousadao, arriscar projecções quanto a tendências futuras de consumo. No que diz respeito aos media encontro-me, neste elencar de dados, a patinar à superfície, patinagem muitas vezes suficiente para os que se interessam por vender e comprar mas manifestamente insuficiente para quem

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quer conhecer os media, saber o que fazer com eles e abarcar a sua intensidade e insistência nas nossas vidas. Para isso temos que transformar a quantidade em qualidade. Os media estão a mudar, mudaram, radicalmente. O último século viu o telefone, o filme, a rádio, a televisão que se transformarem-se em objectos de consumo de massa e em ferramentas essenciais para a vida quotidiana. Agora confrontamo-nos com o espectro da intensificação da cultura mediática em todo o mundo, devido à Internet, e com a expectativa (se não com a ameaça) de um mundo interactivo ao qual nada nem ninguém pode aceder de forma imediata. O debate contemporâneo sobre estas variações refere a sua velocidade mas mistura a rapidez da mudança tecnológica com a da mudança social e cultural. Existe uma relação constante entre o tecnológico, o comercial e o social que deve ser tida em conta ao perspectivarmos os media como um verdadeiro processo de mediação em cujo estudo encontramos linhs directas de causa e efeito que nos conduzem áquela relação. As instituições não constroem significados, apenas nos permitem encontrálos. A investigação nos media dá, ordinariamente, preferência ao que é mais significativo, ao acontecimento, à crise. Temos visto imagens perturbadoras de violência ou de abusos sexuais e tentámos medir os seus efeitos utilizando, como chave, acontecimentos mediáticos de cariz humano e natural, para explicar o papel dos media no manejo da realidade ou do exercício do poder. Centrámo-nos também nas grandes cerimónias públicas do nosso tempo para perceber o seu papel na criação das comunidades nacionais. È necessário ter tudo isto em conta desde que sabemos , por Freud, que o conhecimento das patologias, e dos exageros também, nos revela muito sobre o que é normal. Temos que reconhecer que é através da tensão constante entre o excepcional e o comum que podemos começar a entender o trabalho dos media e a sua importância. Antes de mais, os media são diários. Têm uma presença constante nas nossas vidas quer os liguemos ou apaguemos, andamos sempre de um espaço mediático a outro, de uma conexão a outra; do rádio ao jornal ou ao telefone, da televisão ao hi-fi até à Internet. Em público e em privado, sós ou acompanhados. É na vida mundana que os media operam mais significativamente. Filtram e modelam as realidades quotidianas através das suas representações, únicas ou múltiplas, apresentando critérios e referências para os comportamentos a fim de produzir e manter o senso comum. É este o ponto de partida para o estudo dos media, podermos pensar que a nossa vida não é deixarmo-nos ir ao sabor da corrente, requer a nossa participação ainda que às vezes com pouca ou nenhuma escolha. Os media

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deram-nos voz, forneceram-nos conceitos não como forças invisíveis, agindo contra nós, mas como uma parte da realidade que partilhamos diariamente em conversas e interacções. Os media constituem, aqui e agora, o centro dum projecto de reflexão em duas vertentes: a dos discursos conscientes nos programas televisivos ou radiofónicos, em directo, e a das notícias, assuntos correntes, anúncios, sob diferentes formas de escrita, áudio e audiovisuais, o mundo, afinal, em que nos manifestamos e actuamos repetida e infindavelmente. Histórias da nossa vida, conversas, pensamentos, estão presentes em narrativas formais dos media, em reportagens, na ficção e em eventos diários: palestras, boatos e interacções casuais orientam-nos no espaço e no tempo e, sobretudo, na aproximação ou separação, na partilha ou na recusa, individual e colectiva, na amizade ou na inimizade, na paz e na guerra com as outras pessoas. Tem-se sugerido que a estrutura e os conteúdos são interdependentes, nos media e nas nossas conversas quotidianas, dando-nos, conjuntamente, a forma e a medida da experiência humana. O público e o privado também se interpenetram nas histórias, mediáticas ou não, que contamos uns aos outros, isso nota-se tanto na telenovela como no talk show. A vida privada das figuras públicas todos os dias é alvo de discussão. Os actores de telenovela, à medida que se tornam figuras públicas têm que construir uma vida privada para consumo público. No coração dos discursos sociais que consolidam e modelam a experiência, para o que os media se tornaram indispensáveis, encontramos o processo e a prática da classificação: distinções e juízos de valor. A classificação, contudo, não é uma questão puramente intelectual nem prática. É estética e ética.

As nossas vidas desde

sempre, são influenciadas por alguma ordem que tem de dar-nos a segurança suficiente para o dia a dia mas que não é neutra, nem nas condições que oferece nem nas consequências que acarreta, no sentido em que a nossa ordem possa ter impacto na dos outros porque isso dependerá da ordem (ou da desordem) por que eles se regerem. Mesmo aí, confrontamo-nos com a estética , a ética e mesmo a política da vida quotidiana para a qual os media nos armam, num grau significativo, com ferramentas e

problemas: conceitos, categorias e tecnologias com as quais

construímos limites e nos defendemos deles; conceitos, categorias e tecnologias para construir e manter conexões. E, também, é claro, para as romper. Na medida em que os media têm um papel central no processo de estabelecer distinções e fazer juízos, enquanto medeiam a relação dialéctica entre a classificação que dá forma à experiência - e a experiência - que dá cor à classificação - temos que

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inquirir das consequências dessa mediação, o que gostaria agora de fazer utilizando uma estrutura específica: as reportagens sobre os acontecimentos do 11 de Setembro e do seu rescaldo.

O 11 de Setembro

Toda a gente guarda na memória, mais ou menos, sons, imagens, vozes que marcam a experiência própria que recolheram dos media, nesses dias terríveis. Eu próprio, que estava em Londres, guardo alguns desses momentos como a imagem de George Bush na sua primeira conferência de imprensa, depois do ataque e quando se preparava para regressar à Colina do Capitólio, sentado entre generais e colegas mais velhos, intencionalmente vestido com roupas que pareciam um compromisso entre uma farda de combatente e um fato anti-vento: preparava-se para caçar terroristas ou ursos? E a imagem dos três trabalhadores de meia idade, a sair do local da destruição, apresentados ao mundo como se tivessem acabado de ser fotografados, pelo National Geographic, ao emergirem de uma iniciação tribal. E, ainda, a voz de John Simpson, o correspondente da BBC – Radio 4, não a fazer a sua reportagem mas a exigir a libertação de Kabul dando um

sentido mediático

inteiramente novo à palavra imperialismo. Os momentos referidos mostram, no geral e em particular, maneiras distintas de construir a nossa versão desses acontecimentos. Mas a capacidade de fazer isso, mesmo a capacidade dos media de o fazer em primeiro lugar , depende da presença, na nossa cultura e na nossa memória, de imagens preexistentes.

Tornou-se um

lugar comum falar da luta, entre repórteres e audiências, acerca do verdadeiro sentido dos acontecimentos, como sucedia em Hollywood. Apesar de tudo é necessário dar um sentido mesmo ao que é horrível e ameaçador. Para além dos momentos originais, catastróficos, do 11 de Setembro, os media possuem um arquivo, valioso ao nível do consciente e do inconsciente, de imagens, figuras e narrações, que não só guardam como explicam. Contém o que nos é familiar, o que reivindicamos como familiar, mais cedo ou mais tarde, para suavizar o golpe. É o negativo da segurança, o conforto da fábula. Gostaria de sugerir, a partir de agora, que há uma dimensão estrutural na mediação dos eventos do 11 de Setembro31. Talvez não se repita nada de semelhante mas mesmo como catástrofe única, a sua relação com os media não pode ser entendida 31

Não se trata de uma inovação, veja-se, por exemplo, Dayan, Daniel e Katz, Elihu (1992) Media Events: The Live Broadcasting of History, Cambridge, Harvard University Press

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apenas naquele momento e no que se lhe seguiu. Para dar sentido ao que aconteceu temos que o inserir num contexto mais vasto, o da representação, consistente e persistente, do mundo feita pelos media, como eles representam, para nós, outros povos, outras culturas, como definem a relação com o mundo que, de outra forma, não teríamos. A imagem imediata e a reportagem ao vivo são diferentes e aprendemos isso muito bem com a guerra do Golfo. A imagem e a reportagem são condicionadas por controlos impostos – legítima e cinicamente – pelos militares e pelo Estado mas aparecem como se, de certo modo, os transcendessem. Torna-se difícil achar a verdade, nestes casos, porque a acção vivida no imediato perturba o nosso grau de entendimento que é também afectado pelo trabalho árduo dos media que envolve selecção, montagem, tradução, tudo isto com consequências materiais para aqueles de nós (a maioria) que não têm acesso a comunicação e informação alternativas, dando-nos o que precisamos de saber não para compreendermos o que está a acontecer mas para sabermos como devemos colocar-nos perante a situação. Quero agora falar do 11 de Setembro, nos media, do ponto de vista da continuidade e do conforto. Quero falar de interrupção (em termos de tempo); de transcendência (ao nível do espaço) e do outro (no domínio da ética)32.

Interrupção Patricia Mellencamp33, especialista e crítica cinematográfica americana, escrevendo sobre a reportagem mediática do desastre do Challenger em 26 de Janeiro de 1986, reflectiu acerca do que faz de uma catástrofe, uma catástrofe. Conhecer a realidade do evento é apenas uma parte da história, ele só se transforma em catástrofe quando interrompe as programações normais da rádio e da televisão. E é uma interrupção que se torna também catastrófica porque ( imediatamente antes de um filme de John Wine ou do episódio de uma telenovela) abala a segurança ontológica necessária a quem está envolvido nas narrações contínuas, próprias da mediação diária. E este é um

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Estas questões não podem ser desenvolvidas aqui. Para análises mais elaboradas embora ainda incompletas, ver: Silverstone, Roger (1999) Why Study the Media?, London, Sage; Silverstone, Roger (in press) Proper Distance: towards an ethics for cyberspace in Gunnar Liestol, Andrew Morrison, Terje Rasmussen (eds) Innovations,Cambridge MA; MIT Press; Silverstone, Roger (in press) Complicity and Collusion in the Mediation of Everiday Life, New Literary History 33 Mellencamp, Patricia (1990) TV Time and Catastrophe: or beyond the pleasure principle of television, in Patriciaa Mellencamp (ed.) Logics of Television, Bloomington, Indiana University Press, 240-266

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ponto muito sério. Atesta a enorme importância da continuidade nos media, das suas sequências infindáveis, nos procedimentos de todos os dias34. Apenas as catástrofes podem interromper o fluxo e a ordem da representação nos media. A psicodinâmica dessa interrupção é, agora, suficientemente clara. O envolvimento contínuo, o estar sempre ligado, a infinita presença de sons e imagens cria um modelo de conforto e de criatividade35. As seguranças do quotidiano, enquanto tais, baseiam-se substancialmente na preservação de um espaço mediador no qual audiências e media respectivos, a pessoa e a tecnologia, a experiência do “real” e a experiência do “virtual” se interinfluenciam criativamente, na semi-permanência da familiaridade mediática. Essa tensão criativa raramente se quebra, na sua ritualização e estrutura genérica de história sobre história, nem mesmo para o jornal da noite ou as notícias da rádio que trazem os horrores do mundo posto a nu. A realidade não mediada, a priori, raramente é violada pelos processos de mediação. De vez em quando, no entanto, isso acontece como no 11 de Setembro de 2001, global e dramaticamente. A própria reportagem no seu imediatismo vivenciado ilustrou a escala e o desafio posto por aquela interrupção. Orson Welles, em 1938, pelo menos tinha um guião para a Guerra dos Mundos e os que arrastaram pelas ruas o seu medo mortal da aterragem dos marcianos puderam ter ,no fim, o conforto de terem sido sujeitos ao tipo de interrupção mais comum: a do quotidiano, feita pelo seu equivalente mediático36. Mas no 11 de Setembro aconteceu o inverso. Foi o quotidiano – de um certo tipo – que interrompeu os media. Não houve guião, ainda que estivesse pré- escrito e, também, de certo modo, prescreveu37. A sua realidade fazia parte do conteúdo dos media. Estava contida na violência, nos pontapés e nos gritos do “faz de conta” da mediação diária, contida na metáfora, no cliché, no estereotipo porque se não estivesse não faria sentido para nós. E se o não fizesse, a nossa vida seria insuportável como aconteceu por algum tempo, em Nova Iorque, onde o alastrar do fumo mal cheiroso da destruição deu origem à recordação permanente de um determinado tipo de realidade, fortemente perturbadora. Uma interrupção, portanto, mas talvez não por muito tempo, por razões óbvias. A vida tem que continuar – eis a mensagem política, a retórica orientadora da resistência e da sobrevivência social e psicológica, e também a mensagem dos media: não

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Para um maior desenvolvimento da importância ontológica da segurança no processo de mediação de massas, ver Silverstone, Roger (1994) Television and Everiday Life, London, Routledge, capítulo 1 35 Winnicot, D.W.(1975)Playing and Reality, Harmondsworth, Penguin 36 Cantril, H, Gaudet, H and Herzog, H (1940) The Invasion from Mars: a study in the psychology of panic, Princeton, Princeton University Press 37 Nas notícias desta manhã, segundo li, o Presidente Bush avançou o aviso de um ataque.

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apenas a vida, a televisão também tem que continuar. Dois meses depois do 11 de Setembro e de quatro semanas de anthrax nos Correios dos Estados Unidos, três dos mais categorizados canais de televisão americanos recusaram-se a repetir o discurso que o Presidente Bush fizera ao vivo, o primeiro desde que haviam começado os ataques com anthrax. A NBC por exemplo, optou por não retirar da programação o episódio de Friends. É claro que o tempo cura todos os males mas na sociedade moderna a cura temporária é definida e dirigida vinte e quatro horas por dia, pelos nossos media cujas estruturas afastam as audiências do imediato integrando-o nos padrões da vida de todos os dias38. Foi o caso do funeral mediático da princesa Diana que mobilizou as emoções nacionais e transformou as ruas em relíquias (em Paris e em Londres) e as ruínas do World Trade Center não só em relíquias mas em local de atracção turística. Ambas as situações denotam a capacidade que os media têm para reencantar o quotidiano e para sacralizar a catástrofe.

Transcendência

Na mediação do terror, como na da guerra, os limites da distância estão entre o amigo e o inimigo e a pretensão dos media é aniquilar a distância, conseguir transcender os limites da comunicação não mediada a fim de criar formas inteiramente novas de conexão global e livre, o que não deixa de ser contraditório. A pretensão, obviamente, é que a imagem e a reportagem ao vivo coloquem a audiência – nós – em contacto directo, palpável, com o que não é possível tocar. A transcendência dos media, no balanço, tem custos e também apresenta lucros. O imediato ao vivo, o avião a voar ao lado do World Trade Center, é claramente mimético. A distância foi erradicada assim como o tempo, naquele momento. Nós, a audiência global, estávamos lá e o ecrã tornava-se o espelho do que estava a acontecer para lá do oceano. Contudo, como Kurt e Gladys Lang39 fizeram notar, com rigor, há algum tempo, na sua análise da reportagem televisiva, ao vivo, sobre a parada, em Nova Iorque, quando o general McArthur regressou da guerra da Coreia,

38

Anthony Giddens chama “sequestro da experiência” a esse colocar nas margens da vida social a morte, a deficiência, a doença, a exploração como característica das sociedades mais recentes. Os media, pelo contrário, confrontam-nos diariamente com esses aspectos mas sob uma forma mediatizada (principalmente através de narrativas) e, consequentemente, torna-os visíveis embora não apareçam como fazendo parte significativa das nossas vidas ou das dos nossos semelhantes: ver Giddens, Anthony (1990) The Consequences of Modernity, Cambridge, Polity Press 39 Lang, K and Lang,G.E.(1953) The Unique Perspective of Television and its Effect, American Sociological Review, 18(1), 103-112

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embora algumas dessas imagens tivessem sido montadas, podemos pensar que eram melhores do que as da realidade. Há duas espécies de distância que aqui nos interessa considerar. A primeira é a distância entre o acontecimento e a sua representação, a realidade e a sua imagem. A segunda é a distância entre a imagem e as realidades do dia a dia em que as imagens são reflectidas acima das frias continuidades do quotidiano e absorvidas (ou não) num outro fluxo. Compreender a mediação desses breves eventos requer a compreensão dos aspectos gerais da relação entre os media e a vida de todos os dias, que podemos sintetizar em dois pontos. Os media podem permitir, e na realidade permitem, miríades de oportunidades para a libertação, utópica ou não, das pressões de todos os dias ou, pelo menos, dão- nos uma alternativa à, por vezes, terrível realidade. Mas continuam a ser, eles próprios, uma parte da realidade irrevogavelmente agarrada aos tempos e aos espaços ordinários e a fronteira que existe, a separação que envolve a possibilidade de mudar do profano para o sagrado, do ordinário para o extraordinário, implica um retorno. O segundo ponto, no entanto, é que a realidade já não é o que era. Como argumenta John Thompson40, o dia a dia é agora um complexo de mediações, do face a face para o quase face a face. É já uma mistura entre o físico e o virtual. A nossa experiência do mundo é vertida pela mediação electrónica. O vivido e o representado tornam-se, consequentemente, a urdidura do quotidiano e o que está em causa, na investigação dessa interinfluência é a especificidade histórica e sociológica do que se segue, as suas fraquezas e as suas forças, o que coincide e as contradições, o toque da cultura – a ética e a estética da experiência. Neste contexto, a transcendência da distância é uma ilusão. As pretensões estruturais dos media vão no sentido da conexão capaz de criar o imediato e o vivido na comunicação global. Aceitar este grau de conexão, implica que aceitemos a electrónica como a pedra de toque da nossa ligação ao mundo e, como já disse, a nossa capacidade de lidar com o quotidiano passa por aí mas tem um preço. Se estamos realmente, a perceber a natureza estrutural dos media e as suas implicações, então temos que encontrar uma maneira de ficar fora disso o que é muito difícil embora seja essencial. Os media são, neste contexto, como que a nossa linguagem natural e, como refere George Steiner41, não podemos sair daí tal como ninguém pode sair para fora da sua sombra. O problema é que nós não temos nem instrumentos nem 40 41

Thompson, John (1995) Media and Modernity, Cambridge,Polity Press Steiner, George (1975) After Babel, Oxford, Oxford University Press

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sentido crítico adequados para ficar fora daquelas estruturas, no quotidiano. Podemos abandonar o campo, virar as costas às imagens mediáticas mas não podemos, sem grande esforço e dificuldade, colocarmo-nos contra elas. É precisamente pela má colocação da experiência, nos media, que a transcendência reivindica

que

é

ainda

possível

que

percam

autenticidade

na

sociedade

contemporânea. Como resultado disso, a nossa capacidade de imaginar e de nos envolvermos com indivíduos e mundos fora do nosso, com raras excepções, está inteiramente contida e limitada pela estrutura dos media. Eles não sobrevivem muito para além do ecrã o que demonstra que só podem sobreviver através das suas próprias estruturas. O 11 de Setembro foi um momento transcendente trazido à terra pela contínua rearticulação e naturalização de imagens e histórias mediáticas. Essa naturalização não poderá ser nem é suficientemente compreendida. A capacidade dos media para nos conectarem com o outro, mesmo com o outro na morte e na destruição, está provado que é ilusória, uma perniciosa ilusão.

O Outro

Tenho uma outra memória , esta radiofónica. A de um ferreiro afegão que, não querendo deixar por mãos alheias a propaganda ao seu país, deu à BBC a sua versão sobre a queda de tantas bombas à volta da aldeia onde habitava. Foi porque pensava ele – a Al Kaeda tinha morto um grande número de americanos - e os seus burros - destruindo algumas das suas fortalezas. E não estava muito enganado. O aparecimento da Al Jazira nos ecrãs ocidentais foi uma afronta não apenas por Osama bin Laden aparecer nos quartos da frente das casas mas porque isso indicava que eles tinham feito uma reportagem sobre nós – nós tínhamo-nos tornado o seu outro. Foi realmente um choque terrível devido à transgressão do lugar comum dos media ocidentais. Isto porque nós produzimos as imagens deles, não eles as nossas. E a nossa relação com o outro, em imagens e narrativas da nossa cultura mediática, define-se pela incapacidade em reconhecer a diferença. A resposta pessoal e política, aos erros e aos direitos humanos, depende da capacidade de conhecer e reconhecer que, todos os que sofrem assim como os que lhes causam sofrimento, são seres humanos. Só isso nos permite reconhecê-los e julgá-los. A diferença é o que nos leva a pensar que há coisas neles que nós talvez nunca consigamos perceber.

234

As narrativas dominantes nos media ocidentais tendem à recusa de conhecer a diferença. Os outros aparecem como sendo tão semelhantes a nós que nem se distinguem ou tão diferentes que quase nem parecem humanos. Por um lado incorporação, por outro aniquilação literal e simbólica. Esta polarização exacerba-se, naturalmente, em épocas de crise mas não fica por aí. Nas notícias, nas narrativas fragmentárias, nos anúncios da imprensa tablóide, a aceitação de uma humanidade que nos é comum, que precisa de uma relação ética de apoio e compreensão, é sistematicamente recusada. Quanto mais o discurso dos media for no sentido do particular temporal e espacial, visual e narrativo, de formas e filtros, menos, no geral e no específico, seremos capazes de nos confrontarmos com a nossa humanidade ou desumanidade; menos conseguiremos movimentar-nos no meio dos pretos e dos brancos da representação comtemporânea. São estes os elementos de que dispomos para compreender os acontecimentos do 11 de Setembro, o seu rescaldo e as reportagens subsequentes do conflito no Afeganistão. Os instrumentos de representação das catástrofes estão prontos e à espera de ser mobilizados. A sua renaturalização reside no repetir sem fim das imagens e no reforço da narrativa, o que reitera a versão de um mundo que se move, imperceptível mas inteiramente, dentro do familiar e do que não é excepcional. A nossa vida continua com a distância espacial, temporal e de representação que permite reprimir , em passes de mágica, o caos ameaçador. As Políticas da Distância Vivemos num mundo plural. Cheio de outras pessoas que se chamam Simpson e Ewwings, Oprah Winfrey e Luís Figo, George W. Bush e Yasser Arafat. Chamam-lhes Talibã e Tutsi, Al-Kaeda e Zapatista. Eles são os vizinhos que encontramos na rua e os anónimos que vivem do outro lado do mundo. Vivemos com eles enquanto semelhantes e diferentes de nós, dentro e fora dos media. Nenhuma política pode pôr de lado o peso dos media nem ignorar aquele pluralismo. Segue-se que nenhuma política nacional ou global pode dar-se ao luxo de ignorar os media. Crucial para essas políticas é a questão da distância. Um livro recente na nova revolução das comunicações tem por título A Morte da Distância42. Trata da nova escala da vida humana permitida pela digitalização e, dum modo geral, pelo trabalho electrónico em rede. Apresenta uma lista de trinta e duas 42

Cairncross, Frances (1997)The Dead of Distance: How the Communicatios Revolution Will Change our Lives, London, Orion Busine ss Books

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mudanças na vida actual mais a nível económico, menos político mas também social. Vê no aumento da intensidade da comunicação global uma maior compreensão e tolerância relativamente aos seres humanos de qualquer parte do mundo. Contudo, a distância não pode ser completamente apagada pela tecnologia. Um telefonema mantém longe a pessoa com quem estamos a falar. O problema não é a conexão porque não é ela que garante a proximidade. Continuamos confrontados com a distância. A tecnologia aplicada aos novos media não faz parar o genocídio nem a guerra: pode torná-los mais eficientes (a informação posta ao serviço da destruição) ou mais invisíveis ( a informação ao serviço da diferença) e pode manter-nos longe providenciando imagens que nos isentam de preocupações e de responsabilidades como as de conflitos sem derramamento de sangue, bombardeamentos sem danos colaterais, batalhas sem exércitos, guerra sem vítimas. Acções que não trazem consequências. E, como acabei de sugerir, a tecnologia, por oposição, pode aniquilar a distância. Pode trazer o outro até nós, demasiado perto até ao ponto de ser difícil reconhecermos diferenças e fazer distinções. A política externa tem-se baseado na ideia de que o mundo é uma mera projecção dos nossos modelos. Ao tecer as imagens globais , apropriamo-nos de culturas diferentes para as incluir nas nossas agendas (quantas vezes aparece nos anúncios publicitários a ideia de “primitivo” sob a forma duma dança de África e o significado de pobreza contido na figura de um dos seus habitantes) enquanto as expectativas de meio mundo são as de se assemelharem cada vez mais a nós. E mesmo as imagens documentais de outros mundos tem que estar em conformidade com os nossos pressupostos: os pobres têm que parecer pobres, os esfomeados têm que ter barrigas inchadas e moscas nos olhos. A familiaridade acarretada pela tecnologia pode não significar contemporização mas pode contribuir para criar indiferença. Dificilmente conseguimos ver aquilo que está, habitualmente, muito perto de nós. As representações nos media, a comunicação que transcende os limites do face a face, têm consequências na maneira como vivemos e como vemos o mundo. Modelam-nos tanto como a experiência informal e requerem uma resposta ética na medida em que também nos fornecem recursos para ela. As tecnologias que sustentam as sociedades mais modernas em toda a sua complexidade e, acima de todas a tecnologia dos media, mudaram o universo da ética que, tradicionalmente estava contido no tempo e no espaço, e que nos dava capacidade para prosseguir nas nossas acções, confrontando-nos com o mundo tal como ele se confronta connosco. Há nisto um sentido, um pensamento difícil de aprofundar e de articular porque contraria o que normalmente é aceite – no alcance global dos media actuais

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confrontamo-nos com o mundo duma forma nova e preocupante – a expansão do movimento de defesa do ambiente constitui exemplo – porque os media, estruturalmente, são amorais. Criam e mascaram o encerramento da distância; mantêm-nos conectados e, simultaneamente, afastados, mostram-se vulneráveis à dissemelhança (desde a manipulação de imagens ao disfarce de identidades na Internet), reduzem a visibilidade e retiram autenticidade às outras culturas, às outras pessoas, às outras faces do mundo em que vivemos. O “faz de conta” do mundo dos media é, neste sentido, desprovido de moralidade e isto sem deixar de levar para a frente os mais poderosos programas, eventos mediáticos ou reportagens que irrompem todos os dias pelas sensibilidades proibidas do quotidiano de todos nós. É talvez uma dura conclusão tanto mais que fui aqui argumentando acerca da centralidade dos media no que diz respeito à experiência mas a verdade é que posso ir ainda mais longe se considerar que essa amoralidade da distância pode ser reforçada por uma amoralidade que reside no efémero e na capacidade de substituição do real que existe nas representações dos media : se não gostamos de uma coisa podemos passar para outra e sabemos que, seja como for, aquela vai desaparecer rapidamente, vai sair dos ecrãs, como por efeito de uma lâmina que viesse barbear o mundo, como uma omelete que salta da frigideira. Acabei de descrever uma dialéctica da distância e da proximidade, da diferença e da indiferença, da familiaridade e do seu inverso. É assim que eu entendo a articulação do mundo moderno, numa dialéctica em que os media se situam no ponto crucial. Conclusão Estudamos os media porque temos necessidade de perceber o seu contributo no exercício do poder nas sociedades desenvolvidas actuais, não só dentro do processo político estabelecido como fora dele. Estudamo-los porque queremos entender o seu contributo para a textura geral da experiência e da qualidade da vida de todos os dias. Os media são nem mais nem menos do que os responsáveis pela inteligibilidade do mundo e é apenas dentro dessa inteligibilidade que o mundo e os que nele vivem, ganham a dimensão de humanos. Aqueles de nós que estudam os media também podem torná-los inteligíveis. É essa a nossa missão, participar de um projecto que não é fácil nem confortável. Eu, por mim, não escolheria outro qualquer caminho.

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Desafios Morais na Sociedade de Informação Cees J. Hamelink

A Sociedade de Informação Tornou-se prática corrente descrever as sociedades modernas com o conceito “sociedade de informação”. Este conceito refere-se de um modo geral a acréscimos nos volumes de informação disponíveis, o significado do processamento de informação em cada vez mais domínios sociais e o facto de que a tecnologia de informação fornece uma infra-estrutura básica da qual as sociedades se tornam cada vez mais dependentes. O conceito é imperfeito e contestado.

É questionável se podemos descrever

adequadamente as sociedades com apenas uma variável abrangente e caso isso seja possível, poderá ser posto em causa se a informação é uma categoria mais precisa que o dinheiro, o crime ou a agressão. Em qualquer caso deverá ser tido em conta que as sociedades trilham caminhos muito diferentes de desenvolvimento e se insistirmos no que se refere à informação, a noção plural de “sociedades de informação” deverá ser utilizada. Há indubitavelmente “desenvolvimentos informativos” nas sociedades modernas e através da interacção com outros desenvolvimentos sociais estes terão um impacto na forma como o futuro dessas sociedades se moldará de formas diferentes dependendo das diferentes circunstancias históricas. Em muita literatura corrente é sugerido em “cenários utópicos” que estes desenvolvimentos têm efeitos positivos ao passo que os efeitos negativos são realçados em “cenários não utópicos”.

Em ambos os casos os analistas são

conduzidos por uma perspectiva determinística do desenvolvimento social: inovações tecnológicas têm um impacto directo sobre os processos sociais. Não há espaço para reflexão sobre a multiplicidade de caminhos em que a tecnologia e a sociedade estão dialeticamente interligadas. Contudo uma vantagem específica do discurso da sociedade de informação corrente não deverá ser ignorada. A referência a “sociedade” inspira boas e velhas questões sociológicas de poder, lucro e participação: quem beneficia, quem decide, quem participa e quem é responsável?

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*Com isto está lançado o primeiro desafio moral: estão as sociedades abertas para colocarem estas perguntas chave da sociologia clássica face ao aparecimento das sociedades de informação? Informação Essencial para a noção de sociedade de informação é obviamente a própria “informação”. Muito do pensamento sobre o futuro das sociedades de informação é baseado numa série de mitos populares. Tais como: mais informação é melhor que menos informação; mais informação cria mais conhecimento e compreensão; fluxos de informação aberta contribuem para a evitar conflitos; mais informação significa menos incerteza e escolhas mais adequadas; se as pessoas estiverem devidamente informadas actuarão de acordo com essa informação; mais informação equivale a mais poder e uma vez que as pessoas estejam mais bem informadas acerca umas das outras,

entender-se-ão

melhor e estarão menos inclinadas para discordarem. Todas elas suposições muito atraentes mas nenhuma necessariamente verdadeira. Uma presunção popular diz que informação equivale a poder. A informação transforma-se numa fonte de poder apenas se a infra-estrutura necessária à sua produção, processamento, armazenagem, colheita e transporte estiver acessível e as pessoas terem conhecimentos para aplicar a informação à pratica social e participarem na rede social através da qual a informação pode ser usada para aumentar os interesses de cada um. A presunção propõe que as pessoas nunca foram capazes de exercer o poder por estarem mal informadas ou ignorarem. Contudo com demasiada frequência estas sabiam precisamente o que estava mal e era injusto e estavam bem informadas sobre o comportamento impróprio dos seus governantes. No entanto não actuaram e o seu conhecimento não se transformou numa fonte de poder, pois faltaram-lhes os meios materiais e estratégicos para se revoltarem. Uma linha de pensamento muito atractiva propõe que uma vez que as pessoas estejam melhor informadas acerca umas das outras, entender-se-ão melhor e estarão menos inclinadas para o conflito. Contudo, conflitos mortais não são normalmente provocados por uma falta de informação.

De facto podem ser baseados na

informação adequada que os adversários têm sobre cada um.

De facto, bem

poderíamos igualmente propor a perspectiva em que a harmonia social é grandemente devida ao grau de ignorância que os actores têm relativamente a cada um. Muitas sociedades mantêm níveis de níveis de estabilidade porque empregam rituais,

240

costumes e convenções que permitem aos seus membros envolverem-se em interacções sociais sem possuírem informação detalhada sobe quem eles realmente são.

Poderão de facto existirem situações de conflito por os adversários terem

excessiva informação sobre os objectivos e motivos de cada um. Existem situações nas quais mais informação não é melhor que menos informação. Se todos tivessem informação exaustiva sobre cada um com quem vive e trabalha a probabilidade de eclodir uma violenta guerra civil seria muito grande. A maioria das pressuposições acerca do papel e efeitos da informação e conhecimento baseia-se em modelos de causa-efeito seriamente defeituosos. A informação e o conhecimento são concebidos como variáveis chave nos processos sociais e consoante a forma como forem manipuladas determinados efeitos sociais ocorrerão. A investigação da ciência social ensinou-nos contudo que a partilha do conhecimento

e

da

informação

não

ocorre

em

modelos

lineares

ou

de

estímulo/resposta simples, que proponham relações lineares e casuais entre inputs de informação/conhecimento e outputs sociais. *O segundo desafio moral é então para que as sociedades adoptem uma aproximação realista àquilo que a informação pode fazer contanto que reconheçam completamente a importância do fornecimento e produção de informação. Tecnologia Na base dos desenvolvimentos informativos estão as inovações no desenvolvimento e aplicação da tecnologia de informação. Estas inovações são uma parte básica da cultura tecnológica contemporânea que é caracterizada por uma interacção humano/tecnologia muito agitada. Esta interacção é grandemente determinada pela irracionalidade e irresponsabilidade e que pode ser resumida com a ajuda de três metáforas: O Titanic, Cassandra e o Dr. Frankenstein. *O Titanic representa uma forte crença na perfeição da tecnologia: o navio não pode ser afundado e portanto é escusado ter a bordo os barcos salva-vidas necessários. Daqui resulta que os verdadeiros riscos das inovações tecnológicas não são levados a sério. A cultura tecnológica moderna demonstra um trajecto vigoroso em direcção à sociedade livre de risco. Esta aspiração de alcançar um controlo sem riscos do processo social é seriamente embaraçada no seu progresso pelo imprevisível e inconstante actor humano. Na verdade, o ser humano está cada vez mais a ser visto como o verdadeiro factor de risco.

Daqui resulta que as sociedades modernas

desenvolvem todos os tipos de actividades para reduzir este risco, como seja a

241

monitorização expansiva da conduta humana através de câmaras de vigilância omnipresentes e o registo electrónico dos movimentos das pessoas. O próximo passo lógico é a substituição dos seres humanos por robots humanoides. *Cassandra era a filha do rei Príamo de Tróia que avisou os troianos de que haviam gregos dentro do cavalo de madeira. Ela era dotada com a capacidade de prever o futuro, porém ela também tinha sido amaldiçoada por Apolo com o castigo de que ninguém escutaria os seus avisos. Esta é uma característica da cultura tecnológica: As vozes de aviso são ignoradas. Em situações onde aqueles que tomam decisões experimentam uma nova era, uma postura de vencedor e as pressões do tempo e da competição: todos os semáforos serão ignorados, os dissidentes serão silenciados e a escolha tecnológica transforma-se numa questão de voar às cegas. *Dr. Frankenstein personagem da novela escrita por Mary Shelly na qual o médico que cria um monstro foge, do seu laboratório e é assombrado por este que o desafia a assumir a responsabilidade por aquilo que criou. A metáfora levanta a questão critica da responsabilidade pela inovação tecnológica.

Quem é responsável quando as

coisas correm mal? Quem assumirá a responsabilidade se resolvermos a divisão digital e subsequentemente fará face aos incríveis problemas ambientais: os exagerados altos níveis de consumo energético global, a taxa de emissão de CO2 das impressoras e computadores e o volume de lixo electrónico causado pelo rápido índice de obsolescência dos telemóveis e computadores. Adicionalmente a estas características, a cultura tecnológica moderna é inspirada por uma forte crença no progresso moral histórico. Em escritos de pensadores sociais, tais como Joachim di Fiori, Lessing, Hegel, Comte e autores da revolução da informação contemporânea (Toffler, Negroponte e Gates), a história segue a passos progressivos: através de esclarecimento e racionalidade e particularmente através da ciência e tecnologia, a humanidade está no caminho da harmonia e da paz. Porém este mito de progresso moral na modernidade estourou em Auschwitz e Hiroshima. Estes acontecimentos confirmaram que não há nenhum progresso linear progressivo e consequentemente a sugestão de progresso moral é enganadora. A História é circular e a espécie humana está presa nas ondas recorrentes de conduta imoral grosseira e da reflexão moral refinada. Apenas a criação de uma nova espécie num Novo Mundo Corajoso poderia perceber a utopia de uma sociedade sem risco.

Porém os

personagens desse Novo Mundo Corajoso jamais serão humanos.

242

*O terceiro desafio moral é o ser-se realista acerca do progresso moral humano resultante dos avanços da ciência e da tecnologia, levar a sério os riscos da tecnologia e aprovisionar uma quantidade suficiente de barcos salva-vidas a bordo. Da informação à comunicação Há no debate público actual, política e prática de uma forte ênfase na importância da informação e da tecnologia de informação. A próxima Cimeira Mundial da Nações Unidas sobre a Sociedade de Informação (Genebra, 2003) sublinha a perspectiva de sociedades futuras como “sociedades de informação”. É desconcertante que a maioria dos documentos para a “comunicação” da Cimeira Mundial da Nações Unidas sobre a Sociedade de Informação (Genebra, 2003) tenham praticamente desaparecido. Há um perigo real de que a Cimeira cometa os mesmos erros que a Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Direitos Humanos (Viena, 1993), que na sua Declaração Final não fez referência à comunicação, mas apenas mencionou informação como notícias. Porém, a verdadeira questão fulcral é como moldar as “sociedades de comunicação”. De facto, para a solução dos problemas mais prementes do mundo não necessitamos de mais processamento de informação mas sim da capacidade para comunicar.

Ironicamente à medida que a nossa

capacidade de processamento e distribuição de informação e conhecimento aumenta, a nossa capacidade para comunicar e conversar diminui. Nas complexas sociedades modernas precisamos contudo de comunicar urgentemente uns com os outros. Para a solução dos nossos problemas sociais mais urgentes a capacidade de comunicar é mais crítica que a capacidade de informar.

É realmente uma perspectiva muito

perturbadora se conseguirmos desenvolver sociedades de informação ou mesmo de conhecimento nas quais as pessoas são incapazes de conversar uns com os outros. *O quarto desafio moral é consequentemente que o mundo não produz “sociedades de informação/conhecimento” mas sim “sociedades de informação” Diálogo Para solucionar os problemas mais prementes do mundo, as pessoas não precisam de mais volumes de informação e conhecimento, mas sim de adquirirem a capacidade de falarem uns com os outros atravessando os limites da cultura, religião e língua. O diálogo é absolutamente essencial e fundamental para o encontro entre civilizações. Globalização sem diálogo transforma-se em homogeneização e hegemonia. Localização sem diálogo transforma-se em fragmentação e isolamento. Em ambos os casos a sustentabilidade do nosso futuro comum está seriamente em jogo.

243

O apelo ao diálogo soa a obvio e superficial. Contudo, na realidade o diálogo é uma forma de discurso extremamente difícil. Em muitas sociedades as pessoas não têm tempo ou paciência para uma comunicação dialogada.

O diálogo não tem um

resultado concreto no imediato. O que entra em conflito com o espírito orientado para a realização nas sociedades modernas. Além do mais os meios de informação em massa não são particularmente prestativos em ensinar as sociedades nas artes da conversação. Muito do seu conteúdo consiste em tagarelices (falas infindáveis sem dizerem nada), discurso de ódio, palavreado de propaganda publicitária, agressões sonoras ou debate polémico. Os requisitos para um começo com significado com a necessidade para o diálogo interno.

Isto implica que todos os participantes

questionem os seus julgamentos e suposições. A investigação crítica das nossas suposições é no entanto um desafio maior uma vez que ignoramos frequentemente as nossas suposições básicas. Suposições são mapas mentais que temos tendência para seguir cegamente.

Todos nós temos suposições muitas vezes diferentes e

conflituosas, e certamente quando somos originários de culturas diferentes. Igualmente difícil é a suspensão de julgamento uma vez que estamos fortemente agarrados às nossas opiniões e avaliações e preferimo-las às incertezas. O diálogo requer a capacidade de escutar e estar em silêncio. Aprender a escutar é muito difícil em sociedades que são cada vez mais influenciadas por culturas visuais ao passo escutar exige uma cultura centrada na audição!

Os mass media (meios de

comunicação em massa) oferecem “talk shows” (espectáculos falados) e não “listen shows” (espectáculos escutados).

Além do mais, tal como Krishnamurti diz “nós

escutamos realmente o nosso próprio ruído, o nosso próprio som, não o que está a ser dito” – a maior parte do tempo escutamos defensivamente e não receptivamente! “Escutamos para descobrir aquilo que nos ajudará – escutamos para antecipar um possível perigo”(Ellinor & Gerard, 1998:103).

O diálogo só pode ocorrer onde o

silêncio for respeitado. Isto faz fronteira com o impossível nas sociedades modernas onde a tagarelice parece nunca parar e onde cada vazio necessita ser preenchido com ruído uma vez que o silêncio deve ser evitado a todo o custo. *o quinto desafio moral é assim a arte do diálogo. O Direito de Comunicar Um diálogo efectivo não poder ter lugar entre pessoas cujas vidas estão ameaçadas, que não têm liberdade para falar ou para se reunirem, que não possuem meios para expressar as suas vozes, que não podem falar em confidencialidade e em privado, ou a quem são negadas formas básicas de educação e participação cultural. Há hoje em

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dia uma necessidade urgente de adopção de uma declaração universal do direito de comunicar.

Este direito, de momento, não existe como uma clausula da lei

internacional. Tão cedo quanto 1969 Jean d’Arcy apresentou o direito de comunicar por escrito, “o tempo virá quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos terá que abranger um direito mais extensivo que o direito do homem à informação... Isto é o direito dos homens em comunicarem” (D’Arcy, 1969). A força motivadora desta nova abordagem foi a observação de que o articulado da lei dos direitos humanos existente (como na Declaração Universal dos Direitos Humanos ou o Compromisso sobre Direitos Políticos e Civis) era inadequado para lidar com a comunicação como um processo interactivo. O direito de comunicar deveria englobar direitos de informação tais como: - O direito de liberdade de pensamento, consciência e religião. - O direito de ter opiniões. - O direito de exprimir opiniões sem a interferência de grupos públicos ou privados. - O direito do público ser devidamente informado sobre matérias de interesse público. - O direito de acesso à informação em matérias de interesse público (detidas por fontes públicas ou privadas). - O direito em aceder a meios públicos de distribuição de informação, ideias e opiniões. Parte do direito de comunicar também seriam direitos culturais tais como: - O direito de promover e preservar a diversidade cultural. - O direito de participar livremente na vida cultural da sua comunidade. - O direito de praticar tradições culturais. - O direito de fruir das artes e dos benefícios do progresso científico e suas aplicações. - O direito de protecção à propriedade e património cultural nacional e internacional. - O direito de criatividade e independência artística, literária e académica. - O direito de cada um utilizar a sua língua em privado e em público. - O direito das minorias e povos indígenas à educação e a estabelecerem os seu próprios media. Há direitos de protecção tais como: - O direito do público em ser protegido contra a interferência na sua privacidade pelos media ou pela comunicação em massa, ou por agências públicas ou privadas envolvidas na colheita de dados. - A protecção das comunicações privadas das pessoas contra a interferência de grupos públicos ou privados. - O direito ao respeito pelos valores morais vigentes em formas de comunicação pública.

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- O direito à protecção contra formas de comunicação que sejam discriminatórias em termos de raça, cor, sexo, língua, religião ou origem social. - O direito a ser protegido contra informação enganadora e distorcida. - O direito à protecção contra a propagação sistemática e intencional da crença que indivíduos ou grupos sociais merecem ser eliminados. - O direito à protecção da independência profissional de empregados de agências de comunicação pública ou privada contra a interferência de gestores ou proprietários dessas instituições. Deveriam haver direitos para as comunidades tais como: - O direito ao acesso às comunicações públicas por parte das comunidades. - O direito ao desenvolvimento de infra-estruturas de comunicação, à obtenção de recursos adequados, a partilha de conhecimentos e técnicas, a igualdade de oportunidades económicas e a correcção de desigualdades. - O direito ao reconhecimento de que os recursos de conhecimento são amiudadamente um bem comum possuído pelo colectivo. - O direito à protecção desses recursos contra a sua apropriação privada por indústrias do conhecimento. E uma variedade de direitos de participação deveriam ser reconhecidos tais como: - O direito à aquisição das técnicas necessárias para participar totalmente na comunicação pública. - O direito à participação das pessoas na tomada de decisões públicas sobre o fornecimento de informação, a produção de cultura ou a produção e aplicação de conhecimentos. - O direito à participação das pessoas na tomada de decisões públicas sobre a escolha, desenvolvimento e aplicação da tecnologia de comunicação. *O sexto desafio moral propõe que a comunidade internacional adopte e ponha em forma de lei o direito humano de comunicar. Conclusão Estes seis desafios morais – se levados a sério – deveriam ser tópicos essenciais na agenda desses praticantes de comunicação, estudantes e decisores

que se

preocupam com o futuro das sociedades de comunicação cuja governação é inspirada no respeito pelos padrões dos direitos humanos internacionais. Bibliografia

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D’Arcy, J. (1969), Direct Broadcasting Satallites & the right to communicate, in EBU Review, 118:14-18. Ellinor, l. & Gerard, G. (1998), Dialogue: Discover the Transforming Power of Conversation, New York, John Wiley & Sons. Hammelink, C. J. (2000), The Ethics of Cyberspace. London, Sage. Webster. F. (1995) Theories of the Information Society. London, Routledge.

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