NARRAR O INENARRÁVEL, LEMBRAR O INESQUECÍVEL: SOBRE AS POSSIBILIDADES DE SE NARRAR O HOLOCAUSTO EM HAYDEN WHITE E CARLO GINZBURG

June 12, 2017 | Autor: Fernando Garcia | Categoria: Holocaust Studies, Hayden White, Holocaust, Metahistory, Carlo Ginzburg, Negacionismo do Holocausto
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS Departamento de História

NARRAR O INENARRÁVEL, LEMBRAR O INESQUECÍVEL: SOBRE AS POSSIBILIDADES DE SE NARRAR O HOLOCAUSTO EM HAYDEN WHITE E CARLO GINZBURG

Fernando Gomes Garcia

Belo Horizonte

2011 FERNANDO GOMES GARCIA

NARRAR O INENARRÁVEL, LEMBRAR O INESQUECÍVEL: SOBRE AS POSSIBILIDADES DE SE NARRAR O HOLOCAUSTO EM HAYDEN WHITE E CARLO GINZBURG

Monografia apresentada ao departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel.

Orientador: Prof. Dr. José Carlo Reis

Belo Horizonte II

2011 Fernando Gomes Garcia Narrar o inenarrável, lembrar o inesquecível: sobre as possibilidades de se narrar o Holocausto em Hayden White e Carlo Ginzburg

Monografia apresentada ao departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais.

__________________________________________________________________ Prof. Dr. José Carlo Reis (orientador) – UFMG

__________________________________________________________________ Prof. Dr. Sérgio Ricardo da Mata – UFOP

__________________________________________________________________ Prof. Ms. Alessandra Soares Santos– UFMG

Belo Horizonte, 8 de Dezembro de 2011 III

Dedicatória Eu só poderia dedicar esta monografia àquele quem sempre esteve ao meu lado, desde os 9 anos de idade até os dias de hoje – o meu cachorro Tico. Com ele aprendi o que não poderia aprender, da forma como aprendi com nenhum ser humano. Como disse Clarice Lispector, sendo ele um cachorro, só me exigia ser humano – e isso ele não apenas me exigiu, como me ensinou. Valores como dignidade, piedade, fidelidade (acima de tudo), dedicação, respeito, cuidado e superação – tudo isso aprendi com ele e ninguém mais. Como poderia alguém ser indiferente às suas lições e seus exemplos: defendendo a casa e o dono quando necessário, mas amando todos nos quais não reconhecia ameaça, mesmo quando este amor não era retribuído. Com sua alegria, quando jovem, me recebendo correndo pela casa, dando voltas na mesa e indo para o quarto, pulando de cama em cama; com seu ciúme de outros animais que quase o fez matar um filhote de gato e jabuti, que o fez aniquilar os pássaros que defecavam em sua comida, e vinha me mostrar alegre a nova presa; com seu carinho de se deitar sempre ao meu lado e de me acompanhar em todas as tristezas; com a felicidade e ódio da coleira. Por tudo, por todas as suas ações, novo e já aos 13, quase 14 anos de idade (mais velho do que eu quando o ganhei!), dedico a ti, meu cachorrinho, esta monografia. Por tudo que me fez e pelas faltas que me perdoou, como a ausência que lhe impus para estudar, deixando-o muitas vezes sozinho e entediado. Por essa relação dono-bicho de estimação,

da

qual

emerge

um

amor

absoluto,

irreconhecível em qualquer outro domínio da vida humana. IV

Agradecimentos Nesse percurso solitário que é o da transformação em intelectual e o da pesquisa, solidão que muitas vezes pesa, através dela mesmo percebemos que essa solidão faz parte de uma comunhão, de laços invisíveis que nos ajudam neste percurso. Percebendo isto, faço uma lista de agradecimentos. Aos professores do Departamento de História da FAFICH, com quem convivi e aprendi desde 2007 até 2011,

principalmente

àqueles

que

me

confiaram

oportunidade de trabalhar, por ordem: Eduardo França Paiva, com quem trabalhei no CEPAMM de 2007 a 2009; Douglas Cole Libby, que também me deu oportunidades importantes; à Júnia Ferreira Furtado, pela experiência e convivência na Varia Historia; à Regina Horta Duarte, com quem tive uma bolsa entre 2009 e 2010; aos professores Luiz Carlo Villalta, José Antônio Dabdab Trabulsi, Kátia Gerab Baggio e Luís Duarte Haele Arnaut – sempre disponíveis, solícitos quando deles precisei; a Mauro Condé, com quem aprendi sobre Thomas Kuhn e Wittgenstein; à Vanicléia Silva Santos, pela conversa esclarecedora entre surdos e mudos; à Cristina Campolina, pelo bom humor e pérolas de sabedoria; e a José Carlo Reis, por aceitar minha pesquisa dentre as que ele orientou. Aos professores do Departamento de Filosofia da FAFICH, onde fiz minha formação complementar: à Ester Vaisman, com quem aprendi que não sabia nada sobre Marx, e até aprendi um pouquinho sobre ele, além de ter me introduzido com competência aos textos de Weber; à Helton Adverse, onde começou meu interesse pela Filosofia Política em um curso sobre Maquiavel; ao professor Ivan Domingues, duplamente, por ter me ensinado o que é hermenêutica e me oferecer um banquete V

para pensar a Teoria do Conhecimento (desde Aristóteles às neurociências) – além de ser também o responsável pelo que sei sobre Filosofia Analítica; à Rogério Lopes, pelas geniais aulas sobre Nietzsche, sobretudo em respeito à sua Genealogia da Moral; aos professores Carlo Drawin e Newton Bignotto, por me permitir assistir suas fantásticas aulas sem ter feito, devidamente, a matrícula nelas. Aprendi muito sobre antropologia filosófica e Rousseau, com cada um respectivamente. Aos funcionários da UFMG que sempre me trataram com distinção e apreço, resolvendo sempre as pendências que porventura surgiam: Valteir, Kely e os funcionários da Biblioteca da FAFICH, agradecendo a todos em nome da sua chefe, Vilma – sempre dispostos a resolver problemas e acatando também, entre as compras, livros por mim sugeridos. Ao ICHS/UFOP, que considero minha segunda casa, por ter frequentado os Seminários Nacionais de História da Historiografia desde meu primeiro período, onde aprendi que gostava tanto de historiografia e de teoria, cada vez mais, a cada ano, aprofundando meus conhecimentos através desses seminários. Ao mesmo ICHS, por me ter dado a oportunidade de conhecer Gumbrecht e Rüsen, em encontros fascinantes. Agradeço essa Instituição fantástica, principalmente através dos professores Valdei Lopes de Araújo, Sérgio Ricardo da Mata e Helena Miranda Mollo, os primeiros que conheci e que sempre me recebem com carinho e amizade. Novamente agradeço os Seminários organizados antes pelo NEHM e agora também pela SBTHH – onde, sempre que submeti algum trabalho, tive a felicidade dele ser acatado e poder submetê-lo ao debate enriquecedor. Um nome que eu também não poderia deixar de citar é o de Temístocles Cezar, que gentilmente me concedeu a versão VI

final escrita, de sua Conferência final do Seminário Nacional de História da Historiografia de 2010 Aos meus amigos, os quais não nomearei nenhum para manter o suspense, seja pelo apoio dado, seja por conversas estimulantes, seja pelas conversas triviais, seja pelos lanches compartilhados, seja por ter amenizado a solidão que se fez presente durante todo o tempo em que me dediquei integralmente a essa pesquisa. Novamente, retornando à UFMG, agradeço às instituições Coleção Brasiliana, a qual não pertenço, mas fiz e tenho colegas e mestres; ao NEPC (Núcleo de Estudos

do

Pensamento

Contemporâneo)

pelas

oportunidades de apresentações e debates; ao NEJ (Núcleo de Estudos Judaicos), da FALE, e também de lá o centro de estudos Crimes, Pecados e Monstruosidades, locais onde muito pude aprender sobre meu tema. Não queria agradecer a nenhuma figura ambígua, como os familiares, que desde antes de eu prestar o vestibular já criticavam, sem saber que esta era minha escolha, o fato de eu ter concorrido a uma vaga no curso de História e que acham que o que eu faço é brincadeira. Mas não poderia deixar de agradecer a meu pai, cuja proteção material me permitiu estudar sem ter que trabalhar, com a ausência de bolsas de iniciação científica e, ao mesmo tempo, ter montado uma biblioteca pessoal magnífica – oportunidade que muitos amigos meus não tiveram, e ainda assim, trabalham e fazem pesquisa de qualidade simultaneamente. Agradeço também à Daniela e Isabela. Que ninguém saibam quem são elas. Um novo retorno à UFMG. Agradeço a todos os professores, com raras exceções, que me ensinaram na pele uma das máximas de Hegel, qual seja: o mundo acadêmico é a selva dos homens cultos. VII

SUMÁRIO

Introdução ............................................................................................................. 1 Capítulo 1) Carlo Ginzburg contra Hayden White: um debate? ......................9 Conclusão............................................................................................................... 45

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................. 50

VIII

INTRODUÇÃO I Costuma-se dizer que um bom texto começa explicitando, logo de cara, quais são seus objetivos e como pretende alcançá-los. Também é comum a crença de que uma "introdução" seja a primeira parte de um trabalho, que fundamenta as seguintes e antes da qual não há nada a dizer a respeito. Espero, portanto, que não me censurem o modo como iniciarei esta monografia, posto que antes pretendo elaborar uma pequena gênese da idéia central deste trabalho. Isto trará algumas ilusões ao leitor, que poderá pensar que o trabalho tratará de outra coisa senão daquela a que se propõe, tamanha a profusão de idéias que cercaram a concepção deste trabalho; portanto, seguindo a esta pequena gênese, será dedicado um espaço para falar do que este trabalho não irá tratar. E, como não poderia deixar de ser, seguindo tudo isso, finalmente a introdução servirá como uma introdução. Aquilo que se esperava no início finalmente será anunciado – os motivos, as pretensões, as estruturas e os modos com que este trabalho usará para, enfim, chegar a sua conclusão. A idéia desta Monografia remonta ao já longínquo primeiro semestre de 2008, quando cursei a disciplina Teoria e Metodologia de História, com o professor, hoje meu orientador, José Carlo Reis. A estrutura do curso, não importa agora descrevê-la por inteiro, mas deve ser dito que a primeira parte dele dizia respeito à historiografia pós-moderna, aspectos que hoje sou mais crítico. E, em sequência, foram passados os textos de Hayden White, O texto Histórico como Artefato Literário, do qual, nos debates, fui um entusiasmado defensor; em seguida lemos a Introdução e o primeiro capítulo de Relações de força: história, retórica, prova; seguindo, o terceiro capítulo do primeiro volume de Tempo e narrativa, de Paul Ricoeur: o da tríplice mímesis. Estes textos, como inspiradores do trabalho, naturalmente serão retomados e trabalhados nesta monografia. O debate em sala de aula e as provocações colocadas pelo professor, levaram-me a algumas considerações que não as colocarei aqui,

pelo menos não agora. Isto quando meus veteranos e outros que já há muito se formaram me chamavam de calouro, ou seja, marcando, apesar do meu entusiasmo e dedicação para com a disciplina, alguma imaturidade no tratamento dos temas, trazendo algo que vinha comigo antes do ingresso na Universidade – o relativismo extremo e o ceticismo quase irresponsável. Hoje, trato esse tema de maneira diferente, mas não abandonei o relativismo, apenas o abrandei, e o ceticismo é completamente responsável. Enfim, a diferença substancial era que eu não acreditava na possibilidade de se alcançar uma verdade, quando hoje, já acredito que há alguma realidade, pelo menos algo do que se possa falar. Além deste curso, no mesmo período tomei aulas de Filosofia das Ciências Sociais, entrando em contato com Weber entre outros autores que não interessa mencionar. Bom, alguns sim: Heidegger, Gadamer, Ricoeur, Dilthey e Schleimacher, numa introdução do curso. Isso me marcou profundamente, e os conhecimentos que adquiri nessa disciplina, transferi para a outra, em leituras feitas com maior profundidade e discussões trazendo elementos novos, que não constavam no currículo do curso. Foi aí que comecei a minha primeira pesquisa, sobre Weber, apresentada no segundo Seminário de Mariana. Mas embora Weber fosse meu objeto, ele não era meu foco de interesse imediato. Pelo menos três coisas me chamavam a atenção: Weber, que até agora vinha me sendo apresentado como sociólogo, demonstrou-se um historiador. A segunda delas era que questões levantadas por ele antes do alvorecer do século XX eram muito próximas das questões que no curso de Teoria vinham sendo chamadas de pós-modernas, pós-queda do Muro de Berlim, enfim, do pós-1989. Um terceiro motivo seria tratar, através dele, qual deveria ser a posição do historiador, enquanto intelectual frente à sociedade em que atua. Identifiquei-me com o autor e quis, numa breve comunicação, tratar de todos esses temas ao mesmo tempo, resultando num trabalho um tanto confuso. Mas trago ainda agora Weber e as minhas preocupações éticas que levei naquela comunicação de forma estabanada. 2

Ainda em 2008, no Simpósio Temático da ANPUH/MG organizado por Helena Mollo e Cássio da Silva Fernandes, em 21 de julho, uma mesa onde José Carlo Reis, Ana Carolina, Aline Magalhães (que faltou) e Mateus Henrique participaram, novamente surgiram questões que surgiram no curso de Teoria. Mas desta vez, na comunicação de Reis, onde ele falava de White, ele falou com entusiasmo e admiração, na contramão do que havia feito em suas aulas. Surgiram-me várias questões, mas não é o momento de colocá-las. Enfim, passou 2008 e no ano seguinte dois eventos consecutivos pareciam ter sido dedicados a mim. A ANPUH nacional em Fortaleza, que versava sobre a Ética e a História, com mesas e conferências brilhantes, e o 3º Seminário de Mariana, que tinha como tema a "utilidade" da História – em outras palavras, se era possível, ainda, aprender com ela. A abertura foi feita pelo professor Hans-Ulrich Gumbrecht, que no dia seguinte forneceu um workshop. As mesas do evento também pareciam todas conspirar a meu favor, em similaridade com o tema da comunicação que eu iria apresentar: o momento de distinção entre ética e estética, que acabava por interferir no problema da verdade histórica. Eis os momentos que me levaram a formular o tema tal como o formulo hoje. Isso para não ceder ao vício do historiador da regressão infinita e citar eventos da infância ou mesmo pré-natalícios que "explicam" meu interesse pela temática. II A temática, temo, ainda não foi anunciada, senão por alguns aspectos dos quais se poderia obter um negativo. Aqui tampouco falarei do que pretendo fazer – mas falando do que não pretendo fazer, acabarei por elaborar a temática de uma vez. Como dito acima, o momento inaugural do interesse nessa temática, foi uma discussão triangular entre Hayden White, Carlo Ginzburg e Paul Ricoeur acerca da narrativa em história, envolvendo seus caracteres narrativos e "objetivos", relacionados com a pesquisa 3

documental e com uma retórica que remonta a provas. Colocou-se, portanto, de um lado, narrativa como elemento ficcional da pesquisa histórica em contraponto com a pesquisa histórica feita pré-narrativamente, como se uma e outra parte da operação historiográfica, para usar um termo de Michel de Certeau, fossem antagônicas e impossíveis de se reconciliar. Ginzburg atacava a suposta "auto-referenciabilidade" do texto histórico como narrativa, de tal forma irmanado com as narrativas ficcionais, enquanto White apresentava as formas como uma narrativa histórica poderia ser moldada de diferentes formas segundo tropos linguísticos, sendo eles quatro, a metáfora, a metonímia, a sinédoque e a ironia. Assim, os historiadores disporiam de quatro maneiras para organizar sua narrativa. O que Ginzburg esquece é que esses elementos não serviriam apenas para organizar a narrativa, mas sim a documentação retirada da pesquisa – esta sim organizada em tropos. Sobre o tema em questão, por enquanto basta de dizer sobre o que será. Falemos agora do que não faremos. Tanto White quanto Ginzburg apresentam leituras de Nietzsche. Considero ambas equivocadas. Por mais tentador que seja retomá-las e criticá-las, não farei isso de forma alguma. O preço a pagar seria muito alto; seria desviar a atenção de Carlo Ginzburg e de Hayden White para fazer uma pesquisa a respeito de Nietzsche – mas não apenas dele, mas também de suas interpretações. Trabalho de alto nível de complicação e para o qual não estou inteiramente preparado – para não dizer que de forma alguma estou preparado para isto. A discussão entre White e Ginzburg pode nos levar a uma epistemologia da História ou mesmo a uma Teoria Geral do Conhecimento, uma vez que a "relativização irresponsável" de White se oporia a uma "objetividade positivista" de Ginzburg. Não, de forma alguma cairemos nesta armadilha. Não pretendemos aqui formular uma nova teoria da História a partir da discussão entre ambos, ao mesmo tempo que não seremos trapaceados pelos desejos de teorizar sobre as possibilidades do conhecimento e de uma elaboração conceitual do que é real e de como alcançá-lo – se isto, ao menos, for tarefa possível. Também não pretendemos 4

contrapor a obra completa desses autores, um em relação ao outro, para chegarmos a conclusão sobre alguma coisa – que ainda não foi dita. Creio que com estas duas observações já podemos, com cuidado, falar do que pretendemos fazer, enfim, nesta Monografia Apenas uma última palavra sobre o que não farei aqui. Apesar do tema ser o Holocausto, ele está posto apenas como motivo de reflexão teórica, do ponto de vista da possibilidade de sua narratibilidade. Não trataremos aqui sobre o Holocausto enquanto fato nem do Nazismo.1 III A discussão entre Hayden White e Carlo Ginzburg, no limite, levou, pelo menos a mim, sobre a possibilidade de narrar-se o Holocausto. Não creio que seja possível e já adianto aqui, com estas breves palavras, o que se encontrará na conclusão. Para Carlo Ginzburg, que se envolveu em diversas polêmicas – Fraçois Hartog, Michel de Foucault e agora Hayden White – a garantia da possibilidade de se narrar o Holocausto estaria na possibilidade de recolher documentos e testemunhas que atestem o extermínio dos judeus, de que isto não foi apenas uma fábula. Uma citação – que agora já tenho as referências perdidas – de um judeu que emigrou para o Rio de Janeiro dizia algo como: dói mais do que o que me aconteceu, é dizer que aquilo não aconteceu. Então a documentação existente, junto com o testemunho de sobreviventes, seria suficiente para atestar a existência do Holocausto e, portanto, escrever uma história verídica sobre ele. Mas como, se levar em conta a discussão entre Vidal-Naquet e Faurisson, na França? Onde o segundo, negacionista, alega que não existia câmaras de gás para assassinatos em massa dos judeus, enquanto o segundo falava sobre o apagamento de

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Para essa discussão, dentro dos limites possíveis de uma comunicação, ver meu artigo apresentado no Seminário Nacional de Historia da Historiografia de 2011. GARCIA, Fernando Gomes. O mal entre conceitos e personagens: uma análise do nacional-socialismo através da biografia. Camila Aparecida Braga Oliveira; Helena Miranda Mollo; Virgínia Albuquerque de Castro Buarque (orgs). Caderno de resumos & Anais do 5º. Seminário Nacional de História da Historiografia: biografia & história intelectual. Ouro Preto: EdUFOP, 2011

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traços promovido pelos nazistas antes da derrota total. É, portanto, necessário juntar as fontes para reconstruir uma realidade passada. Mas a discussão entre Vidal-Naquet e Faurisson também não nos interessa – não queremos aqui discutir sobre o negacionismo, tarefa talvez por demais farisaica para nosso gosto. Cito isto apenas para situar o debate. Nesse ponto, nos perguntamos – o que é historiograficamente mais responsável: admitir o relativismo que qualquer História pode ter, ou assumir como verdade os fatos tais como eles aparecem? Posto o desafio de Ginzburg em relação às fontes, contrapondo-se a White, temos ao menos a possibilidade, segundo a teoria tropológica, de narrar o Holocausto de maneira cômica ou épica, ferindo portanto os sobreviventes do genocídio dos judeus e, ainda por cima, desafiando os limites da História. Poderiam os eventos limites ser narrados de qualquer, ou ao menos de várias maneiras diferentes? Se a Revolução Francesa, se a escravidão no Brasil, se a formação dos Estados Nacionais – se cada um destes eventos históricos podem ser narrados de diversas formas, poderia o Holocausto, um evento limite, ser narrado de maneiras múltiplas? Este é o mote do nosso de nosso debate e a questão que pretendemos responder. Como já acima foi dito, cremos que não, que, por questões éticas, o Holocausto não pode ser narrado de qualquer forma. A princípio, nenhum evento pode ser narrado de qualquer forma, evidentemente, mas existem múltiplas possibilidades de se lhes dar sentido. Quanto ao Holocausto, poderia sequer atribuir algum sentido a ele? Nossa resposta é negativa, que não se pode narrar o Holocausto (e isso significa que não se pode narrar "o que aconteceu" e muito menos falar "que não aconteceu" – se o revisionismo nos passa de longe, o negacionismo nem está em nosso horizonte). Efetivamente essa discussão poderia ser feita tendo em vista apenas os dois autores em questão, mas até onde entendo, a discussão merece ser amplificada no seio da historiografia porque, segundo vejo, essa discussão leva ao cerne da prática e da função da História. Segundo penso, a discussão merece melhor elaboração do que a discussão entre 6

Ginzburg e White, mas não há espaço nem tempo aqui para isto. Fique o desafio para uma tarefa ulterior, que, com certeza, desejarei cumprir e com a maior presteza e rapidez. Quero, mas ainda não posso de forma ampla, mostrar que um debate desse tipo possa levar a uma nova formulação de um novo gênero de historiografia – pelo menos de uma nova alternativa de narração do passado. Ao mesmo tempo que uma discussão do tipo leva-nos a pensar, indelevelmente, em uma mudança do tempo histórico – talvez uma superação do tempo historicista. "É disto que se tratará aqui: entender o significado desta ausência de sentido ou ainda, a impossibilidade e as dificuldades de se representar o Holocausto" (CALDAS, 2001/2002 p. 122). "Esta é uma questão que não pode ser resolvida através da pesquisa documental. É um problema teórico" (CALDAS, 2001/2002 p. 124). Por fim digo que escrevo este trabalho com as mãos sujas de sangue, pois, em minha tarefa de "acalmar os mortos que ainda frequentam o presente e oferecer-lhes túmulo" (CERTEAU, 2006 p. 14), escrevo sobre, nas palavras de Ernest Nolte (Historikerstreit, 1993), sobre um passado que não quer passar. E quem quer que queira dedicar-se a escrever sobre o Holocausto, creio que dedicar-se-á a escrever um livro que jamais poderá ser escrito; que em rodeios literários, jamais poderá chegar ao centro do assunto e estará condenado a tentar reescrevê-lo para sempre.2 IV Considerando-se os limites que uma monografia deve obedecer, muito material que já havia sido preparado para uso foi descartado, outros que julgava essencial sequer foram trabalhados e muita coisa ficou de fora, seja dos levantamentos – reduzidos ao máximo para cumprir tanto prazos de datas quanto limites de páginas. E mesmo nos textos utilizados, muita coisa foi ocultada para que não fosse necessário tratar certos problemas que apareceram. Essa 2

Para ver uma opinião inteiramente diversa da minha, onde o revisionismo historiográfico acerca do Holocausto, mesmo em suas diferentes maneiras de descrevê-lo, é considerado como o motivo dele permanecer como memória viva, ver (DECCA, 2003)

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prática pode ser tanto comparada como a de um falsário que pretende criar uma ilusão em seu público, ou, mais piedosamente, a tarefa de um historiador que precisa selecionar seu material com cuidado, sem excessos e sem mesquinharia. Espero que essas faltas sejam consideradas deste segundo modo, e aquilo que ocultei seja entendido como cautela, ao invés de serem todas postas às claras, esparramadas em minha frente e esfregadas em minha face com um grito de – "Eis aqui o que ocultou, eis as falhas capitais de seu trabalho!". Mas, infelizmente, dentro dos limites de uma Monografia, muitos dos assuntos que surgiram durante as leituras não puderam ter, a contento, uma discussão no trabalho – ou sequer fosse permitível seu uso, assim entendo. Esta Monografia pode ser considerada a minha primeira pesquisa e, por analogia, meu primeiro filho. E com toda dedicação com que um pai se entrega ao filho, há também a inexperiência do cuidado, provocando ao jovem diversas falhas e danos. Com problemas psiquiátricos, perturbações psicológicas e feridas aqui e ali, se for o caso, espero, mesmo assim, que meu filho cresça e amadureça. Espero que esta pesquisa inicial renda frutos para pesquisas futuras. Certa feita, Wittgentein definiu como tarefa da filosofia tirar a mosca da garrafa. Creio que sua tarefa seja maior, mas se a mosca conseguir escapar da garrafa já será um grande feito. Eu, por minha vez, dedicarei toda minha vida acadêmica, senão minha existência inteira, para tirar a filosofia (e aqui podemos substituí-la por pensamento), essa mosca, da garrafa. Se não, me contentarei apenas em ter e florescer nos outros a autoconsciência de que nós, pensadores, estamos presos em uma garrafa.

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CAPÍTULO 1 - CARLO GINZBURG CONTRA HAYDEN WHITE: UM DEBATE? I A respeito do debate, para lhe dar contornos, elencaremos os textos lidos especificamente dos dois autores, sem considerar, por ora, autores lidos que ajudem a compreender o debate estabelecido por ambos. Ginzburg não poderia ter escolhido outro alvo de ataque "contra o relativismo" um outro autor, seja historiador ou filósofo, ou algum outro teórico da linguagem? Paul Ricoeur, em algumas passagens de Tempo e Narrativa aproximase por demasiado de Hayden White. Inclusive as citações e referências a linguistas, como Northtrop Frye, de quem White empresta e reelabora sua teoria tropológica, ou Arthur Danto, Dray. Um nome continental que Ginzburg critica apenas uma vez, e ainda assim associando-o a White é Roland Barthes.. Também poderíamos indicar Heidegger, que filiou-se ao partido nazista sem jamais ter publicamente justificado sua ação a contento. Ao contrário, durante sua filiação, antes da arrancada de violência incomum, fazia discursos sobre o momento que a Alemanha vivia como um vir-a-ser, como o desdobramento de algo magnífico da alma alemã. Mas Heidegger não se dedicou a escrever sobre o nazismo em formato historiográfico. Também temos o judeu-ateu Derrida, "fundador" do desconstrucionismo, muitas vezes citado por White para sustentar argumentações ou apenas para compor o pé de página. Mas sobre Derrida, Ginzburg pronuncia-se apenas uma vez. Oras, e quanto a Lévi-Strauss, fundador de uma nova ciência que se queria forte, um dos pais do estruturalismo e que disputava terreno com a História? Por que sobre ele o historiador italiano jamais pronunciou uma palavra, questionando a destruição do estatuto epistemológico da História e de sua base factual? Vejamos o quão mais destruidor Lévi-Strauss é em relação a Hayden White. LéviStrauss faz observações sobre a historiografia da Revolução Francesa, pois nessas obras os "autores nem sempre fazem uso dos mesmos incidentes; quando o fazem, os incidentes são revelados sob luzes diferentes. E, no entanto,

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estas são variações relacionadas com o mesmo país, o mesmo período e os mesmos acontecimentos... (WHITE, 2001 pp. 106-107)

E prossegue o francês declarando que o "elemento da história", ou seja, seu fato, está fora do alcance dos historiadores, e sua credibilidade deveria ser retirada de uma "coerência de série" cronologicamente organizada. E mesmo isto, que seria simplesmente a crônica, já estaria précodificada. Para referir ao autor, que muito desmerece a História, apenas digamos que as Histórias construídas por historiadores a partir dos fatos, das crônicas, só são "asseguradas por meio de esquemas fraudulentos". (WHITE, 2001 p. 107). Não, isto não basta. O antropólogo francês disse muito mais sobre a História, seu caráter mítico, e fraudulento. Frente às suas machadadas, White parece apenas uma criancinha batendo com seu martelinho de plástico nos historiadores. As críticas que Lévi-Strauss faz à História merecem ser colocadas em maior número. Em O Pensamento Selvagem, Claude Lévi-Strauss asseverou que a coerência formal de qualquer narrativa consiste num "esquema fraudulento imposto pelo historiador a um corpo de material que só poderia ser chamado de "dado" no sentido mais amplo do termo. Os relatos históricos são inevitavelmente interpretativos, afirma Lévi-Strauss, por causa de "uma dupla antinomia [subjacente] à própria noção de fato histórico". (WHITE, 2001 p. 71)

E o que é um fato histórico para Lévi-Strauss? "Uma multidão de momentos psíquicos e individuais" (WHITE, 2001 p. 71). Estes se resolvem por "evoluções inconscientes, e estas se resolvem em fenômenos cerebrais, hormonais ou nervosos, cujas referências são também de ordem física e química". (WHITE, 2001 p. 71). Oras, se quisermos ser mais profundos nessa crítica de Lévi-Strauss, podemos dizer que a História é uma ciência que deve ser estudada por um esforço transdisciplinar entre a endocrinologia e neurologia, em modos macroscópicos, ou, se quisermos ser detalhistas "ao fato como realmente aconteceu", deveremos analisar as reações químicas do nosso sistema biológico. Tal, para o antropólogo, se resume o caráter epistêmico da História.

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Por que, então, Carlo Ginzburg não critica-o, tendo em vista a caricatura que apresentamos de sua crítica à História, mas critica Hayden White por transformá-la em análise de tropos? Isso não posso afirmar com certeza, talvez ninguém possa, mas um indício que tenho é a sua condição de judeu numa Itália fascista, e observar que parte do pensamento de Hayden White é oriundo do idealismo ou neoidealismo italiano. Talvez a mais marcante, a de Giovanni Gentile que, indiretamente, chegou ao teórico da literatura americano, e tinha suas ligações com o regime fascista. Esta relação, creio, e o desdém a ela demonstrado por White: "Devemos tomar cuidado... com os sentimentalismos que nos levariam a rejeitar uma concepção da história simplesmente porque foi associada às ideologias fascistas. Devemos [e aí entra o relativismo de White, defendendo a intransigência do cacetete de Gentile] fazer as contas com o fato de que na documentação histórica não encontramos nenhum elemento que nos induza a construir o significado em um sentido ao invés de outro". Seguindo Ginzburg, isso convergiria com o "subjetivismo transcendental de Gentile". (MALERBA, 2006 pp. 222223). Assim, White torna-se um alvo destacado da "tendência linguística ou retórica" (GINZBURG, 2002 p. 14) a que se referem os historiadores e, segundo o italiano, deixando de lado a verdadeira teoria da História. Para ter maior acuidade no debate que estamos prestes a desenvolver, entre a teoria tropológica de Hayden White e a primazia do documental em relação aos aspectos narrativísticos de Ginzburg, devemos, portanto, analisar as datas dos textos de ambos que analisaremos. Assim, talvez seja possível identificar o impacto que um teve sobre o outro, mas não sou tão otimista assim. Ao menos, creio, será possível perceber a evolução intelectual do mesmo autor de uma obra para outra. Ginzburg cita White em pelo menos duas ocasiões, e em outra, implicitamente faz referência a ele. White, por sua vez, jamais menciona o historiador italiano até onde pudemos investigar – mas talvez isso, futuramente, venha demonstrar-se um equívoco. 11

Observar as datas dos textos e artigos publicados será imperativo aqui, para saber, também, em que medida se deu o embate entre ambos. Talvez seja de crer que este embate só houve, de fato, em 1989 em um evento chamado "History, Event and Discourse". Então, na obra coletiva de Saul Fridlander (FRIEDLANDER, 1992) ambos apresentaram artigos a respeito das possibilidades de narrar o extermínio dos judeus; Ginzburg com seu famoso Just one witness (FRIEDLANDER, 1992 pp. 82-96), traduzido em português como O extermínio dos judeus: princípios de realidade (GINZBURG, 2007 pp. 210-230) e (MALERBA, 2006 pp. 211-232); e White, com o seu Enredo e verdade na escrita da história (MALERBA, 2006 pp.

191-210),

tradução

de

Historical

Emplotment

and

the

Problem

of

Truth

(FRIEDLANDER, 1992 pp. 37-53). Fora isso, creio não haver debate em forma direta, apenas posições diferentes acerca da natureza da historiografia. Mesmo assim, os pontos atacados por Ginzburg (White permanece não citando o italiano) nem sempre coincidem com os argumentos do americano. Os textos que analisaremos de White são Metahistória, de 1973, e Trópicos do Discurso, posterior, de 1978. A introdução é reveladora da repercussão que teve seu primeiro livro e, certamente, artigos publicados neste ínterim. Porém, os artigos analisados neste livro são de datas anteriores mesmo ao Metahistória, como podemos ver: O Fardo da História, de 1966; Interpretação em História, escrito no mesmo ano de Metahistória e já posterior, O texto histórico como artefato literário (1974) e As ficções da representação factual (1976). Todos publicados em periódicos renomados ou como capítulos de livro. Nesta obra são retomados sob uma mesma temática, que é a tropologia. Já isto basta para calar alguns que reclamam que depois de Metahistória, Hayden White muda de opinião por ser incapaz de conciliar o que disse antes com a interpelação sobre a possibilidade de se narrar o Holocausto. Em suas próprias palavras, diz White: No passado acusaram-me de ceticismo radical, e até de pessimismo, quando considerei a possibilidade da consecução do conhecimento real nas ciências

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humanas. Tal foi a reação de alguns críticos ao primeiro ensaio produzido nesta coletânea, "O Fardo da História", bem como a Metahistory, que nasceu do meu empenho em tratar das questões levantadas neste ensaio. Confio que a maioria destes ensaios me aliviará desses encargos, pelo menos em parte. Nunca neguei que fosse impossível um conhecimento da história, da cultura e da sociedade; neguei apenas que posse possível um conhecimento científico, do tipo alcançado no estudo da natureza física. Mas tentei mostrar que, mesmo que não possamos alcançar um conhecimento propriamente científico da natureza humana, somos capazes de chegar a um outro tipo de conhecimento sobre ela, o tipo de conhecimento que a literatura e a arte em geral nos fornecem em exemplos facilmente reconhecíveis. (WHITE, 2001 pp. 37-38)

Os textos de Ginzburg com que pretendemos trabalhar estão contidos em Relações de Força, sua introdução (2000) e os dois primeiros capítulos (1999), os artigos já mencionados da querela entre ambos, publicados em. II Em Trópicos do Discurso, logo na Introdução, Hayden White mostra como em diferentes áreas do saber, tal como a psicologia freudiana e a estruturalista de Piaget, e ainda a História, citando a obra magistral de Thompson, e também citando Marx, há no discurso de todos uma dimensão da divisão da consciência em quatro etapas, que iria avançando do conhecimento menor da realidade para um conhecimento maior. A isto ele compara com sua teoria tropológica que sai da metáfora, como se fosse uma primeira hipótese da realidade, indo até a ironia, que seria o conhecimento da realidade como tal, passando, portanto, pela metonímia e sinédoque. Ele identifica essas quadro etapas por analogia a esses quatro autores que cita. Diz, então: Em Metahistory, e em vários ensaios contidos neste livro, mostrei de que modo determinado analistas dos processos da consciência parecem projetar neles o padrão quadrupolo dos tropos, a fim de representá-los e mapear o crescimento desde o que se poderia chamar apreensões ingênuas (ou metafóricas) da realidade até as compreensões auto reflexivas (e irônicas) dela. (...) A ubiquidade desse padrão de prefiguração tropológica, especialmente na forma como é utilizada como chave para um entendimento do discurso ocidental sobre a consciência, suscita inevitavelmente a questão do seu status de fenômeno psicológico. Se ela apareceu como um modelo analítico ou representacional para o discurso, poderíamos tentar dar-lhe o crédito de "lei" genuína do discurso. (WHITE, 2001 p. 26)

Hayden White rejeita essa lei, mas reivindica

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apenas o status de um modelo que reaparece constantemente nos discursos modernos sobre a consciência humana. Reivindico para ela apenas a força de uma convenção no discurso sobre a consciência e, de modo secundário, do discurso sobre o próprio discurso, na moderna tradição cultural do ocidente. (WHITE, 2001 p. 26)

Ou seja, White concebe a estrutura tropológica e linguística como uma instância própria da consciência, o que, interpreto eu, como sendo um primado da imaginação poética e criadora sobre a realidade. Que a realidade, seja lá o que isso for, está contida, antes, em formas de discursos apreendidos pela consciência. Algo que aparenta muito com o que Ricoeur diz sobre o agir humano. Toda experiência humana, segundo Ricoeur pede e exige uma narração: "o tempo torna-se tempo na medida em que está articulado de modo narrativo, e a narrativa alcança sua significação plenária quando se torna uma condição da existência temporal." (RICOEUR, 2010 p. 93). Interpreto esta citação e a anterior considerando que a experiência humana só se torna inteligível a partir de uma narrativa, ou pré-narrativa, que seria a condição da vida humana antes da uma escritura da História. Com essas considerações pretendo demonstrar que a teoria tropológica de White não rejeita a experiência humana exterior ao texto escrito, concebendo, sim, um mundo real, um mundo com fatos, com dados. Mas este mundo não tem sentido a não ser que seja narrado, e essa narração se dá por uma pré-figuração da consciência em determinado estilo tropológico. Essa narração sempre se dá por uma pré-narração. Expondo dessa maneira os argumentos de White, creio que seja possível avançarmos um pouco em sua teoria tropológica e mostrar em que consiste ela. E, sempre que for possível, mostrar que não é alheio ao autor que existe um mundo fora da narrativa e que o trabalho do historiador exige sempre a manipulação de dados. Por mais básico que seja esta tarefa, tida por mim como óbvia, não o é para todos os historiadores, posto que críticas infantis e ressentidas contra o formalista americano já foram proferidas. São duas nossa intenção aqui: a primeira é tirar o medo de certos historiadores em relação a Hayden White; a segunda é demonstrar que há sim o reconhecimento desses dados exteriores 14

às narrativas em sua teoria3, mas que não é isto o determinante para julgar se uma História é mais real que a outra – e sim as categorias que ele mobiliza. Afinal de contas, ele é um formalista e deste ponto de vista concebe a História. Poderíamos, acaso, dizer que isto é errado? Orgulharmo-nos da pesquisa factual a ponto de desconsiderar uma disciplina inteira da qual ele faz parte? Vamos então, agora, falar dessas categorias. III Já em sua introdução à Metahistória, White dá o tom da discussão. Vejamos agora – e em diversos outros momentos – como ele não aboli da escritura da História seu elemento factual, a pesquisa documental. Objetivando analisar as obras dos mestres do século XIX, outro alvo é descobrir as teorias que tornaram possíveis estes historiadores. A fim de alcançar estes alvos, considerarei o labor histórico como o que ele manifestamente é, a saber: uma estrutura verbal na forma de um discurso narrativo em prosa que pretende ser um modelo, ou ícone, de estruturas e processos passados no interesse de explicar o que eram representando-os (WHITE, 2008 p. 18).

Ora, se quer explicar algo que representa, obviamente há algo a ser representado e ser explicado pela narrativa, e que extrapola o puro discurso. Mas a descrição do que é a História se repete em outros momentos: Existe uma inexpugnável relatividade em toda representação do fenômeno histórico. A relatividade da representação é função da linguagem usada para descrever e, deste modo, constituir eventos do passado como possíveis objetos de explicação e entendimento. Isso é óbvio quando, como nas ciências sociais, a linguagem técnica é muito usada. (...) Isso é menos óbvio nos relatos das narrativas tradicionais dos fenômenos históricos (...) (MALERBA, 2006 p. 191)

Podemos encontrar algo semelhante em Trópicos do Discurso: "Mas de modo geral houve uma relutância em considerar as narrativas históricas como aquilo que elas manifestamente são: ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos." (WHITE, 2001 p. 98) Aqui, no ensaio "O texto histórico como artefato 3

Fizemos um mapeamento um tanto despretensioso e rígido das vezes em que aparece nos textos de White a palavra dados, realidade, aquilo que aconteceu, aquilo que estava acontecendo e outras expressões similares que ele utiliza para referir-se ao mundo exterior. Entretanto, como dizemos, esse mapeamento não foi muito ostensivo, mas na medida do possível o faremos aparecer no texto, demonstrando que White não é este monstro da semiologia que às vezes nos o pintam.

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literário" temos uma excelente descrição do que pensa ser, White, a relação entre História e ficção, seus aspectos documentais e seus aspectos narrativos. Os itálicos são do próprio autor, que nos garante que a História é um artefato literário. Mas ao mesmo tempo que considera esse aspecto narrativo da empresa historiográfica, diz que os conteúdos são descobertos, ou seja, vasculhados em arquivos, mas também inventados¸ uma vez que a relação existente entre os fatos encontrados e a maneira que eles são narrados são uma invenção da consciência do historiador. O descobrimento e a invenção são simultâneas, e veremos, adiante, o porquê de White considerar isso. Adiantemos que ele o faz por considerar a História uma protociência ou uma disciplina não científica pré-paradigmática, ou seja, encontra-se no mesmo estado das artes que a física encontrava-se antes de Galileu. Parece haver uma concordância com Thomas Kuhn, contemporâneo seu e que escrevia sobre as ciências (e que igualmente recebeu a influência de Karl Mannheim, através de Fleck) que em As estruturas das Revoluções Científicas (1962) afirmava que antes de uma ciência formar-se ou depois de uma revolução científica, havia tantas idéias do que era a ciência quanto havia pessoas pesquisando-as.4 Portanto, White não considera a História uma ciência, apesar de bem informado de seus filósofos do século XVIII e XIX, como bem demonstra nos ensaios, e de ter conhecimento de historiadores pioneiros, como é o caso de Droysen – que, a meu ver, cria uma matriz disciplinar para a História. Devido a essas considerações, devemos fazer um parênteses para justificar nossa própria opinião a respeito de se a História é ciência ou não. Neste ponto concordo com Rüsen. Perguntando-se sobre quais critérios uma história-científica deveria erigir, em concorrência com as demais formas de consciência histórica, ele diz "porque a história como ciência querse obter certo resultado, um determinado objetivo de validade da narrativa histórica: a verdade

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Em alguns anos depois, Thomas Khun refletirá melhor sobre esta posição em um seminário organizado por um discípulo de Popper, Lakatos. Mas não é caso de discutir isto aqui, ainda mais posto que estes textos nem figuram na bibliografia mobilizada.

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de cada história narrada" (RÜSEN, 2001 p. 85). Ou seja, a História científica tem uma pretensão de validade (mas oras, todas as outras também). Continua Rüsen: A ciência erige-se sempre com a pretensão de que seus enunciados sobre o passado humano são universalmente válidos, e de que todos, por princípio, devem acatar o que ela revela, no conhecimento histórico, do passado humano (RÜSEN, 2001 p. 85)

Mas coloca também dúvidas quanto a possibilidade da História tornar-se verdadeira, quando se analisa o seu sentido, quando as idéias e normas de orientação entram em ação: "O conteúdo significativo de uma história coloca em ação a credibilidade ou seu aspecto duvidoso de uma história com respeito à sua capacidade de prover a orientação que sua narrativa tenciona" (RÜSEN, 2001 p. 90). Em seguida, no capítulo dedicado a explicar qual é a cientificidade da História, argumenta: "...a ciência da história, como forma peculiar do pensamento histórico, deve ser entendida, praticada e fundamentada a partir dos pressupostos e das condições de seu mundo existencial, e não interpretada como isolada e independente dele" (RÜSEN, 2001 p. 96)

Com isso temos um modelo de ciência bem sui generis, que a meu ver permite várias construções historiográficas sobre o mesmo assunto, tendo em vista a sociedade da qual se escreve a História e para a qual ela é escrita. Além do mais, a História especializou-se tanto e dispersou-se em diferentes áreas, que não nos pode ser incomum entendê-la não a partir de um paradigma único, mas sim através de várias matrizes disciplinares diferentes, e por vezes concorrentes. Então, podemos aceitar a afirmação de White: Por fim, é possível observar que, se os historiadores quisessem reconhecer o elemento ficcional de suas narrativas, isso não significaria a degradação da historiografia ao status de ideologia ou propaganda. Com efeito, tal reconhecimento serviria de antídoto eficaz para a tendência dos historiadores a apegar-se a preconceitos ideológicos que eles não reconhecem como tais mas reverenciam como a forma de percepção "correta" do "modo como as coisas são". Trazendo a historiografia para mais perto das suas origens na sensibilidade literária, deveríamos ser capazes de identificar o elemento ideológico, porque fictício, contido em nosso próprio discurso. Sempre podemos ver o elemento fictício nos historiadores de cujas interpretações de um conjunto de eventos discordamos; raramente percebemos esse elemento em nossa própria prosa. (WHITE, 2001 p. 116)

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Ou ainda como observou Mannheim: "a "ciência" de um homem é a "ideologia" de outro" (WHITE, 2001 p. 88). Outra citação que podemos nos valer, a respeito do status da História após a Primeira Guerra Mundial. Ela que deveria ensinar "filosofia por meio de exemplos", não prepararam os homens para o que veio. Quando acabada, os historiadores pareciam incapazes de elevar-se acima das estreitas alianças partidárias e de compreender a guerra de algum modo significativo. Quando não se limitavam a papaguear slogans em voga nos governos com respeito ao próprio propósito criminoso do inimigo, os historiadores tendiam a recorrer à concepção de que ninguém quisera absolutamente a guerra; de que ela "apenas acontecera". Obviamente, é bem possível que tenha sido este o caso; porém parecia menos uma explicação do que uma confissão de que nenhuma explicação era possível, pelo menos em bases históricas. (WHITE, 2001 p. 48)5

Após esse longo percurso, estamos prontos, portanto, para entender a Teoria da História de Hayden White, que se divide em crônica-estória-modo de elaboração de enredomodo de argumentação-modo de implicação ideológica. E, em cima disso, veremos como a partir da multiplicidade de Histórias que admite poder haver, para o Holocausto, ele apenas vê um tipo de História narrável, para não dizer nenhum. IV Aqui seremos sucintos. Nos reteremos apenas a relatar como White concebe as cinco fases acima relatadas e como em cada uma dela existe uma relação com o fato, com a documentação, com o como as coisas estavam acontecendo. Mas, ao mesmo tempo, o fato não pode servir de limite para a discussão, posto que os elementos da elaboração de enredo, do modo de argumentação e as implicações ideológicas são primários para definição de qual discurso é verdadeiro ou não. A narrativa considerada apenas como um "artefato verbal" que pretende ser um modelo de estruturas e processos há muito decorridos e, portanto, nãosujeitos a controles experimentais ou observacionais" (WHITE, 2001 p. 98). Ou seja, o fato não pode ser controlado, portanto, está fora de como uma narrativa deve ser escolhida em 5

A multiplicidade de narrativas históricas a partir de um único evento, muito nos lembra uma observação de Derrida quanto a possibilidade de interpretar o mundo. Pode-se interpretar o mundo de inúmeras maneiras, não porque elas são ilimitadas, mas porque há limites de interpretação. E interpretar um livro qualquer é o mesmo que construir uma biblioteca, posto que as inúmeras interpretações que dele podem advir são suficientes para a escrita de finitos, mas milhares de outros livros. Assim a explicação da guerra, que varia de várias a nenhuma.

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detrimento de outra. Seguindo Collingwood, para quem o sentido do enredo deveria ser descoberto nas fontes, mas afastando-se dele por não ver sentido nos fatos, mas sim na consciência do historiador, White assevera: Os relatos históricos se querem modelos verbais, ou ícones, de segmentos específicos do processo histórico. Mas tais modelos são necessários porque o registro documental não apresenta uma imagem não equívoca da estrutura dos eventos nele atestados. A fim de imaginar "o que realmente aconteceu" no passado, portanto, deve primeiro o historiador prefigurar como objeto possível de conhecimento o conjunto completo de eventos referidos nos documentos. Este ato prefigurativo é poético, visto que précognitivo e pré-crítico na economia da própria consciência do historiador. (WHITE, 2008 p. 45)

White chega a cinco conclusões em seu livro Metahistória: não pode haver história propriamente dita que não seja ao mesmo tempo filosofia da história; os modos possíveis de historiografia são os mesmos que os modos possíveis de filosofia especulativa da história; esses modos, por sua vez, são na realidade formalizações poéticas que analiticamente os precedem e que sancionam as teorias particulares usadas para dar aos relatos históricos a aparência de uma explicação; não há, apodidicamente premissas teóricas infalíveis em que se possa de forma legítima assentar uma justificativa para dizer que um dos modos é superior aos outros por ser mais "realista"; em consequência disso, estamos irremediavelmente presos a uma escolha entre estratégias interpretativas opostas em qualquer esforço de refletir sobre a história em geral; como corolário disso, os melhores fundamentos para escolher uma perspectiva da história em lugar de outra são em última análise antes estéticos ou morais do que epistemológicos; e, finalmente, a exigência de cientificização da história representa apenas a declaração de uma preferência por uma modalidade específica de conceptualização histórica, cujas bases são ou morais ou estéticas, mas cuja justificação epistemológica ainda está por estabelecer. (WHITE, 2008 p. 14). Nos ocuparemos aqui das possibilidades de formulação estética da História, ao mesmo tempo que de suas formulações cognitivas (ou explicativas) e ideológicas (éticas). Ao tratar desses assuntos, inevitavelmente corroboraremos a tese de White de que não há critério para dizer que uma história é mais realista que outra, a 19

não ser os ideológicos ou estéticos. Deixaremos os estéticos de lado e ficaremos, portanto, apenas com os aspectos ideológicos. Escolhendo o aspecto ideológico/ético para confirmar a validez de uma historiografia, mais adiante em nossa argumentação, ficará claro que este é indispensável para dar validade a uma História. Comecemos então distinguindo os seguintes tipos de conceptualização da História: a crônica ("Menos frequente é a mudança de gênero: equivale à criação de um novo gênero, o romance, por exemplo, com relação ao drama, ou ainda a historiografia com relação à crônica (RICOEUR, 2010 p. 122)" ), a estória, o modo de elaboração de enredo, o modo de argumentação e o modo de implicação ideológica. Entre a crônica e a "estória" remetem a "elementos primitivos" do relato histórico, mas ambas representam processos de seleção e arranjo de dados extraídos do registro histórico não processado no interesse de tornar esse registro mais compreensível para um público de determinado tipo. (WHITE, 2008 p. 21)

Novamente vemos em White o elemento factual e documental da História, coisa que muitos negam-se a ver no autor. Mas a nossa atenção deve ser dada para o arranjo da crônica para tornar-se compreensível para um determinado tipo de público. É essa noção de público, mais do que a noção de documentação, que em White, assim como em Ricoeur e Rüsen, trazem a narrativa histórica para fora de seu conteúdo textual. É seu compromisso com a sociedade, na maneira como se dará a recepção, que a História sai de seu campo meramente narrativo para um campo significativo. Por exemplo, a respeito dos limites da narração historiográfica quanto a seu público e conteúdo ético, para transformar os dados que coleta na crônica em uma História inteligível White diz Isso sugere que aquilo que o historiador traz à sua consideração do registro histórico é uma noção de tipos de configuração dos evento que podem ser reconhecidos como estórias pelo público para o qual ele está escrevendo. Na verdade, ele pode falhar. Não creio que alguém aceitasse a urdidura de enredo da vida do presidente Kennedy como comédia, porém se deve contar a história de maneira romântica, trágica ou satírica é uma questão em aberto. (WHITE, 2001 p. 101)

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Oras, se a vida de Kennedy não pode ser vazada em forma de comédia, imagina-se o que pode ou não se pode fazer a respeito do Holocausto. Enfim, para a transformação da crônica em estória, entra em ação a "urdidura de enredo", bem como outros aspectos, que veremos mais adiante. Tomando uma crônica para transformá-la em estória, podemos simplesmente evocar os elementos cronológicos para organizá-la. E já aí há problemas que podemos evocar. Vejamos uma crônica que se dá em eventos a-b-c-d-e...-n. A crônica simplesmente não começa nem termina. O desde seu "a" até seu "n" depende simplesmente de como ela foi escrita, de quando os elementos históricos foram colocados em forma de um texto primário. Mas ao transformá-la em estória, entra em ação a dotação de sentido que um historiador pretende dar a seu fato. E isso sem necessariamente organizar o texto em forma de romance, comédia, tragédia ou sátira. Basta dar a um dos elementos factuais uma importância e a outros, outra, para que a História mude de sentido. Por exemplo, uma narrativa organizada em A-b-c-d-e...-n. Temos assim uma narrativa das origens. Se, por acaso, N é supravalorizado do que os demais elementos, temos uma História de tipo apocalíptico. Outras variações de valor entre A e N sugerem que determinados atos ou fatos foram diferentemente dotados de sentido para que a estória ocorresse como ocorreu em seu nível narrativo. Mas voltemos à organização dos tropos. Uma explicação de enredo pode dar-se de quatro maneiras, pelo menos. Não de infinitas maneiras. Aqui, vamos apenas nomeá-las e indicar o que cada uma significa. Seguindo os tropos da metáfora, metonímia, sinédoque e ironia, as estórias podem ser vazadas em seus semelhantes na elaboração de enredo. Estes seriam o romance (equivalente da metáfora), a comédia (equivalente da metonímia), a tragédia (equivalente da sinédoque) e a sátira (equivalente da ironia). Estes são os equivalentes dos tropos quando vazados em narrativa, em "ficção".6

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Quando digo ficção, não pretendo fazer a distinção entre um elemento de um romance "realista" ou de qualquer outra forma para um uma estória em formato de historiografia. Refiro-me unicamente a estrutura narrativa que é invocada para a escritura desses textos, que, inevitavelmente, contém elementos da imaginação. É como se a

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O modelo do romance é essencialmente otimista, onde há a reconciliação do homem com o mundo, onde há um herói que vence todas as dificuldades impostas pelo mundo. É uma estória do triunfo, da redenção. O modelo da comédia, embora também tenha como tema a reconciliação do homem com o mundo, não tem a mesma estrutura narrativa/estética do romance. Há um agon presente nas comédias, onde o figurante principal precisa vencer certas dificuldades. Há esperança do triunfo do homem e ocasiões festivas, geralmente onde o autor termina sua estória. Estes tipos de narrativa, como veremos adiante, são os mais propícios a uma ideologia conservadora de mundo, pois a utopia está ou no presente, ou nas modificações leves e graduais que este está sujeito a sofrer, sem irrupções agressivas de transformações. Michelet, no caso estudado por White, combina com o primeiro tipo de narrativa, enquanto Ranke "e os historiadores nacionais" vêem no segundo tipo uma estética preferencial. Veja-se que esses modelos narrativos não são apenas opções estéticas e, portanto, são mutuamente exclusivas. Cada container narrativo pressupõe um tipo de natureza do mundo e do homem, na qual logram-se suas expectativas ou não. Esse ato poético de escolher um modo de elaboração de enredo ou outro limita até onde uma narrativa histórica pode chegar. Do outro lado temos as narrativas mais pessimistas, as trágicas e as satíricas. As trágicas combinam com a forma que Tocqueville vaza suas narrativas, enquanto as satíricas, uma forma de autoconsciência do mundo e da natureza "mais realísticas", para não dizer

própria realidade fosse trespassada por elementos de ficção, ao invés do contrário. Aqui, sigo novamente Ricoeur: "Com efeito, o presente estudo não leva em consideração a bifurcação fundamental entre narrativa histórica e narrativa de ficção, que dará lugar aos estudos mais técnicos da segunda e terceira parte dessa obra. (...) O que está esboçado aqui é, portanto, apenas uma espécie de modelo em escala reduzida da tese que o resto da obra deverá pôr a prova." (RICOEUR, 2010 p. 94). Ricoeur pretende separar a narrativa de ficção e a narrativa historiográfica na última parte de seu livro, onde "para delimitar um pouco mais o quadro no qual recolocarei, na última parte deste livro, a questão da referência cruzada entre historiografia e narrativa, resta-me esboçar os aspectos temporais de um mundo refigurado pelo ato de configuração (...) Porém, um longo desvio impõe-se aqui. Uma teoria do tempo refigurado – ou, poder-se-ia dizer, do tempo narrado – não pode ser levada a bom termo sem a mediação do terceiro parceiro da conversa já iniciada entre a epistemologia da historiografia e a crítica literária aplicada à narratividade, na discussão da referência cruzada". Ricoeur, nesse desvio, apela para uma fenomenologia do tempo. Esse desvio e este caminho final que Ricoeur propõe fazer, é-nos, no momento, impossível de seguir. Portanto contentaremos nossa discussão sobre a historiografia e a narração fictícia com base nessa configuração mental do historiador sobre os fatos e na contraposição que Ginzburg oferece.

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menos ingênuas (a metáfora, logo o romance, são os modos narrativos mais ingênuos). Na satírica observamos a impossibilidade do homem se reconciliar com o mundo e todas as tentativas nesse sentido são frustradas. Não há esperanças e mesmo o tipo de narrativa parece negar a narrativa. Mostra a inadequação do homem e do mundo de uma forma extrema. A própria História se vê inadequada à realidade do mundo e prepara a consciência para o fracasso das conceptualizações e tentativas de compreensão da realidade. A tragédia é quase uma sátira, posto que o homem está num jogo em que pode agir tanto bem quanto mal, e que seu destino pode ser selado com um fracasso. Mas o agon que existe na tragédia não necessariamente conduz a essa noção pessimista de mundo que existe na sátira. Há uma possível reconciliação parcial do mundo com o homem. Mesmo que o protagonista caia, seu público pode aprender algo. Caso não caia, há reconciliações sombrias, do homem resignado com as condições que lhe são inerentes e contra as quais deve lutar para sobreviver. O homem não pode mudar o mundo, mas pode aprender a viver dentro dele. Burckhardt representa o modo satírico enquanto Tocqueville representa o trágico. Analisadas as configurações de enredo, podemos agora ver como as argumentações cumprem um papel na teoria de White. Nesse momento, White se ocupa por falar em leis putativas da explicação histórica, que se assemelharia ao tipo de explicação das ciências naturais, ou ainda, mais proximamente, das common laws da História, na medida em que um fato qualquer poderia ser explicado com base em uma lei geral. Daí teríamos o tipo de explicação: sempre que X ocorrer em tempo T um efeito Y ocorrerá. Apesar de distinguir exemplos desse tipo de leis em historiadores, principalmente em Marx, deixaremos de lado esse tipo de explicação. Ele é mais de acordo com as ciências naturais que supõe haver leis que governam o mundo. Os historiadores, no entanto, são menos ingênuos. Mesmo assim, no seio de sua narrativa, ele busca explicar por que determinado evento ocorreu naquele momento, daquela forma, levando outros eventos a acontecerem. E para isso, White apresenta, novamente, quatro tipos de explicação/cognição 23

em História. Sobre a ausência de ingenuidade que existe dentre os historiadores, White coloca isso como se fosse uma falta de acordo sobre o paradigma de explicação que existe na História, ao contrário da concordância que existem nas ciências naturais. Portanto, o tipo de explicações que podemos encontrar em História são meta-históricas. "As disputas historiográficas no nível da "interpretação" são na realidade disputas sobre a "verdadeira" natureza da empresa do historiador" (WHITE, 2008 p. 28). E pouco mais adiante "...as disputas sobre o que a "história" deve ser refletem de igual modo variadas concepções daquilo em que deve consistir uma correta explicação histórica e diferentes concepções, portanto, da tarefa do historiador." (WHITE, 2008 p. 28). Vejamos quais são tais explicações e quais concepções de História surgem a partir delas. São estes os modos formistas (ou idiográficos, seguindo Windelband, como White o faz em seu ensaio "Interpretação na História", significando o contrário de nomotético, o que faz as vezes das leis gerais), organicista, mecanicista e contextualista. Ajustemos eles aos tropos da consciência e do discurso: o formista/idiográfico faria par à metáfora; o organicista ao da metonímia, o mecanicista ao da sinédoque e o contextualista ao da ironia. A teoria ideográfica faz tudo por descrever as características ímpares de uma determinada "cena" histórica, o "campo histórico". Quer rechear com o máximo de detalhes os objetos, as cores, os sons, todas as particularidades que podem ser integradas, comparadas, identificadas e diferenciadas uma entre as outras. Os objetos podem ser de diversas naturezas, e quando mais naturezas houverem para compor o modo idiográfico de explicação, melhor e mais bem sucedido ele será. Este modo pode ser encontrado em Michelet. Seu defeito maior é a dispersividade dos elementos que encontra. Quando o historiador estabelece a unicidade dos objetos particulares do campo ou a variedade dos tipos de fenômenos que o campo manifesta, fornece uma explicação formista do campo como tal (WHITE, 2008 p. 29)

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Os modos integrativos são os do mecanicismo e do organicismo. O organicista tenta descrever o mundo, encontrando nos objetos que lhe compõe, uma síntese com um todo que é maior que as partes. Segundo White, é uma relação entre o microcosmo e o macrocosmo. O todo, composto pelas partes, pode, inclusive, ser qualitativamente diferente do que elas. Este modo de explicação pode ser visto em Hegel, para quem há duas fases no conhecimento histórico; uma, onde os homens agem segundo sua eticidade, e outra, superior, onde a Idéia se constrói a partir das ações destes homens ou a despeito delas, fundindo-se num absoluto. Essa integração de mundo que vemos a partir do modo organicista de Hegel também pertence, em termos de elaboração de enredo, em uma comédia. Este modo de integração do mundo (suas agências, suas instituições, seus indivíduos num todo) é o organicista e pode ser encontrado em Ranke, Von Sybel, Mommsen Treitschke, dentre outros. À dispersão dos eventos é dada uma coerência final e a visão de um futuro ao qual o devir deve alcançar. Essa meta pode ser tanto laica, como teológica. O modo mecanicista de entender o mundo tende a ver leis gerais que organizam o rumo da História, seja a maneira de um marxismo vulgar7 e encontram uma meta na História, assim como os organicistas. Mas, geralmente, estes são mais pessimistas e as leis que tiram da História, White as compara com as nomológicas. Elas também são integrativas, chegando mesmo a tender para a redução, a síntese. As ações humanas são mais manifestações de agências extra históricas, mas sua origem se dá na cena histórica. Este tipo de explicação busca leis causais que determinam o conteúdo histórico. Assim, o estudo dos mecanicista, pretendem encontrar leis na História e expor seus efeitos. Este método é ameaçado pela abstração. Em última análise, para o mecanicista, uma explicação só é considerada completa quando ele descobre as leis que, é de presumir, governam a história, da mesma

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Tal como nos apresenta White. A forma como ele apresenta o marxismo aqui é totalmente inaceitável e discordamos completamente dela.

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maneira que é de presumir que as leis físicas governam a natureza. (WHITE, 2008 p. 32)

O modo dessa explicação, dispõe as partes, que distinguem-se como causas ou efeitos das outras partes distinguidas. Por fim, há a explicação contextualista. "De uma perspectiva formista, mecanicismo e organicismo parecem ser "redutivos da variedade e do colorido das entidades individuais presentes no campo histórico"" (WHITE, 2008 p. 32), e dada as condições dispersivas do formismo/ideografismo, a explicação contextualista aparece como uma bela alternativa, representando uma concepção funcional do sentido e da significação dos eventos históricos. O que ocorre nesse tipo de explicação é colocar os "fatos" e "agências" dentro de um contexto, mas o que é um contexto? A obra de White não nos fornece grandes condições de explicar o que é um contexto, tampouco este é nosso interesse imediato. Mas para poder falar do modo de explicação contextualista, uma impressão do que venha a ser isso deve ser fornecida. O contextualismo considera que no que vem sendo chamado de cena ou campo histórico, existem diferentes momentos, que visto de longe pode ser percebido como uma evolução, com picos diferentes, mesmo fora de uma teleologia ou evolucionismo em seu sentido mais barato. Mas o olhar distanciado do que vem a ser um contexto, nessas condições, pressuporia uma lei geral da evolução histórica, o que não vem a ser o caso. Entretanto, há sim esses momentos que são distinguíveis um dos outros, onde tudo o que ocorre é visto como ocorrido em relação com algum outro "fato" da mesma época, do mesmo momento – enfim, do mesmo contexto. O campo histórico é apercebido como uma tapeçaria, onde cada linha ligaria um fato ao outro, linhas invisíveis que remeteriam das causas anteriores até as consequências posteriores. Este antes e depois é o que circunda o dito contexto, único na História e irrepetível. Essa inter-relação entre os elementos do "presente" (o passado analisado) são os fios que entrecruzando-se e ligando-se uns aos outros forma essa tapeçaria de que falamos – mas ao contrário de um tapete dispersivo, como no ideografismo, temos um tapete com uma 26

configuração de sentido. O representante maior, no século XIX desse tipo de historiografia é o mestre Jacob Burckhardt. As causas, assim, dos eventos, não são vistas pelas leis mecanicistas nem pelas organicistas, que "vinham de fora", mas sim como da própria história, dos próprios fatos que se encadeiam. Mais uma vez, vemos White assumindo a extra textualidade de sua análise da historiografia. Por fim, White afirma que a escolha entre esses tipos de explicação não podem ser escolhidas ao acaso. Elas, juntamente com a elaboração de enredo, firmadas poeticamente, a escolha por uma explicação cognitiva se dá também por uma pré-figuração. Haveria um preconceito entre os historiadores pelos modos de explicação organicista e mecanicista – que de fato, são menos eficientes por combinar menos com a lógica histórica. Porém, ao invés de analisar a questão pela logicicidade da História como ciência, White prefere ver isto como uma disputa entre profissionais eruditos que ainda não passaram de uma protocientificidade. Se ele assumisse isso, teria que admitir uma conceptualização do "contexto" muito mais elaborada do que faz. Aliás, ainda entre nós historiadores atuais, cabe ainda muito refinamento em dizer o que é o contexto e como ele ajuda a entender o que acontece na História. Isso passa por uma teorização do tempo, das diferentes classes e entidades em jogo, das diversas instituições e da própria noção de explicação. Do contrário, o contexto sempre será um antes e um depois; mas um antes e um depois de que? Enfim, essa é uma tarefa vindoura que não nos compete aprofundar, visto o assunto em discussão e os limites para que essa discussão ocorra. Mas um porém à posição de White deveria ser feita e portanto a fiz. Mas, enfim, White vê as escolhas por outros tipos de explicação, principalmente as que não são contextualistas, ou como disputas sem sentido epistemológico, ou como disputas ideológicas. Apesar das

nossas discordâncias de White quanto ao prestígio que o

contextualismo deve ou não deve ter, creio que essa posição é acertada – quanto mais um tipo de explicação ou outro está revestido ou transvestido de opiniões políticas. Essas ideologias 27

estão comprometidas com o modo de ver o presente, uma vez visto como continuidade do passado, portanto, obedecendo os mesmos critérios que ele para mudança. O que nos leva a analisar as explicações por implicação ideológica. As dimensões ideológicas de um relado histórico refletem o elemento ético envolvido na assunção pelo historiador de um postura pessoal sobre a questão da natureza do conhecimento histórico e as implicações que podem ser inferidas dos acontecimentos passados para o entendimento dos atuais. Por "ideologia" entendo um conjunto de prescrições para a tomada de posição no mundo presente da práxis social e a atuação sobre ele (seja para mudar o mundo, seja para mantê-lo no estado em que se encontra); tais prescrições vêm acompanhadas de argumentos que se arrogam a autoridade da "ciência" ou do "realismo" (WHITE, 2008 p. 37)

Esse parágrafo retirado de Metahistória, entendo eu, serve de resposta aos que apela contra o relativismo de White como sendo irresponsável. Essa última consideração sobre o caráter ideológico de um texto historiográfico deveria bastar para calar seus críticos, ao observar que suas restrições à História como ciência está pautada, principalmente, não em elementos estéticos, mas sim em possíveis explicações do mundo, onde a Ética é o motor fundamental. Seu ceticismo, assim, é consciente e responsável, ao contrário do que diz Ginzburg. Em seu texto já mencionado, "O extermínio dos judeus e o princípio de realidade", Ginzburg comenta uma afirmação de White em que a História de Israel ao se apropriar da Memória do Holocausto, assegurava sua existência – pois a narrativa dava-se de modo eficaz. O historiador italiano prontamente se põe a criticá-lo, dizendo que se uma História fosse eficaz, porém não verdadeira documentalmente, ou que fosse eficaz para um grupo que não admitisse a existência de Israel, o relativismo de White não seria tolerante ("Uma conclusão do gênero é o resultado de uma atitude tolerante? Como se vê, White sustém que ceticismo e relativismo podem fornecer as bases epistemológicas da tolerância" (MALERBA, 2006 pp. 223-224)). Ora, Ginzburg demonstra aqui intolerância, revolta e talvez ressentimento. Ele foi incapaz de compreender que essa eficácia se dava em torno do grupo para quem se narrava a História, para a sociedade que a tomaria para compor sua identidade como sociedade e ao mesmo tempo tornar o estranho, familiar. Por isso uma História é eficaz, porque é ética para 28

um povo. Esse pragmatismo da verdade faz parte de um jogo de relações de força, de poder, como diria Foucault, e somente apareceria como "supremo" se fosse para aplacar as carências históricas dessa sociedade e dar um sentido para seu passado. Deixamos expressa nossa indignação com a incompreensão de Ginzburg e seguiremos a falar de quais são esses modos explicativos por ideologia de que nos fala White.8 O autor americano nos fala de ideologias anarquistas, conservadoras, radicais e liberais, e lembra-nos que não se referem a filiações partidárias, mas sim de posicionamento ante ao mundo – podemos dizer, pois, de uma weltanschauung. E para demonstrar isso, infelizmente, vamos nos reportar a uma citação mais longa. Cumpre salientar neste ponto que os termos "anarquista", "conservador", "radical", e "liberal" destinam-se a servir mais de designadores de preferência ideológica geral do que emblemas de partidos políticos específicos. Representam diferentes atitudes com respeito à possibilidade de reduzir o estudo da sociedade a uma ciência e à desejabilidade de fazê-lo; diferentes noções das lições que as ciências humanas podem ministrar; diferentes concepções da desejabilidade de manter ou mudar o status quo social; diferentes concepções da direção que as mudanças do status quo deve tomar e os meios de efetuar tais mudanças; e finalmente diferentes orientações temporais (uma orientação para o passado, o presente ou o futuro como repositório de um paradigma da forma "ideal" da sociedade. (WHITE, 2008 p. 38)

Os conservadores querem que a mudança ocorra devagar, mantendo a sociedade tal como ela é. Os liberais também tendem a desejar uma mudança mais devagar, porém, mais rápida que os conservadores. Querem ajustes aqui ou ali, mas nunca uma mudança radical. Os radicais, obviamente, querem as mudanças radicais, mas as estimam num futuro ainda distante, e querem destruir o status quo, tal como ele está estabelecido e fundar uma nova sociedade. Os anarquistas não; para eles, qualquer momento é tempo de uma irrupção violenta de transformação da sociedade, e quase vêem no passado um tempo "utópico", na verdade desejando a possibilidade de recriar as condições de uma "humanidade comum" a qualquer 8

A essa altura é importante dizer que nenhum dos tipos de explicação adotado por White – elaboração de enredo, argumentação formal e implicação ideológica – foram inventados por ele. Ele apropriou-se de autores como Karl Mannheim e Northtrop Frye, além de uma penca de outros autores citados em notas de rodapé, representantes da filosofia analítica tanto nos Estados Unidos e mesmo da Rússia. Portanto –eis meu argumento – quem queira criticar Hayden White e seu relativismo histórico, que ataque não apenas ele como ícone ou ente isolado da discussão, mas que faça uma meditação sobre cada autor que trabalhou com a História da maneira que White trabalhou e, a partir daí, exerçam seu trabalho de oposição por opiniões e inclinações epistemológicas.

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dos tempos. Enfim, eis as formas como o historiador pode trabalhar, prefigurando seus dados. De forma sucinta, procuraremos fechar este bloco sobre as obras de White estudadas. Quanto a maneira de elaboração de enredo, existem quatro possibilidades: romanesco, trágico, cômico, satírico; quanto ao modo de argumentação: formista/idiográfico, mecanicista, organicista e contextualista; quanto ao modo de implicação ideológica: anarquista, radical, conservador e liberal. Esses modos intercalados entre si formam o estilo de um historiador. Estes não podem ser apropriados aleatoriamente ou ao esmo, posto que não são todas as combinações possíveis. Cada forma de enredo, cada forma de argumentação, cada forma de ideologia, tem, por assim dizer, uma "afinidade eletiva". Mas dentro das obras dos historiadores magistrais podemos ver a tensão que existe entre as escolhas de um tipo e outro e a prevalência de um sobre o outro. Enfim, antes de terminar, é preciso chamar atenção para duas coisas. A primeira delas é que, antes e durante as especificações de como o historiador prefigura sua estória, ele ressalta os elementos documentais presentes nela. Outra coisa é voltar para algo que White ressaltou bastante em seu ensaio "O texto histórico como artefato literário", e que complementará essa análise do texto histórico como extratextual. É seu apelo para a familiarização do não familiar, posto que só é possível narrar algo para uma comunidade se essa comunidade está de comum acordo com os signos utilizados e a linguagem literária empregada. A elaboração e urdidura de enredo tem como este seu fim último – comunicar o historiador com seu público leitor, que pressupõe ser não apenas seus acadêmicos colegas, mas toda a sociedade que exige a História de alguma maneira. Essa comunicação é a comunicação da urdidura em termos de sátira, tragédia, comicidade ou romance; e ainda, pelos extratos da narrativa que vai se privilegiar ou desvalorizar na objetivação da construção de um sentido próprio para a narrativa. Como estrutura simbólica, a narrativa histórica não reproduz os eventos que descreve: ela nos diz a direção em que devemos pensar acerca dos acontecimentos

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e carrega o nosso pensamento sobre os eventos de valência emocional diferentes. A narrativa histórica não imagina as coisas que indica: ela traz à mente imagem das coisas que indica, tal como a metáfora (WHITE, 2001 p. 108) Escrever de uma forma ou de outra é fazer a sociedade que recebe esse discurso lembrá-lo dele como ele é narrado. È fazer que a tradição de uma determinada elaboração simbólica se afixe nessa mesma sociedade. E para distanciar o historiador dos outros tipos de cientistas, afirma: "Pois se o objetivo do historiador é familiarizar –nos com o não familiar, ele deve lançar mão da linguagem figurativa, em vez da linguagem técnica" (WHITE, 2001 p. 111). A figuratividade da linguagem histórica é o que permite seu contato com o mundo exterior, dos não especialistas, possibilitando, assim, a assimilação simbólica do público e sua familiarização com o sentido do narrado. O trabalho do historiador pode ser, desta forma, comparado ao do psicólogo ou psiquiatra: "Os conjuntos de acontecimento do passado do paciente que são a causa presumida do seu sofrimento, manifestados na síndrome neurótica, deixaram de ser familiares, tornaram-se estranhos, misteriosos e ameaçadores" (WHITE, 2001 p. 103). O paciente sabe quais sãos esses acontecimentos, mas em sua mente eles estão de formas confusas, incompreensíveis, não familiares, discordantes. O problema é levar o paciente a "retramar" toda a história da sua vida, de maneira a mudar o sentido para ele daqueles acontecimentos que compõem a sua vida. Encarado dessa forma, o processo terapêutico é um exercício no processo de refamiliarizar os acontecimentos que deixaram de ser familiares... (WHITE, 2001 p. 104) Bom, se o trabalho do historiador é familiarizar o que não é familiar, o Outro, o passado ainda desconhecido, para firmá-lo em sua identidade e tradição – qual de nós gostaríamos de nos familiarizar com o Holocausto? Quem de nós poderíamos torná-lo inteligível? Como a morte de 4,5 a 6 milhões de pessoas9 por terrorismo de Estado, em câmaras de gás ou métodos menos "higiênicos"

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É necessário citar a fonte das "cifras" que utilizamos aqui. Para muitos "quanto mais mortos melhor", e entre estes encontram-se os negacionistas, pois o número extraordinário de mortos faz com que argumentem a impossibilidade demográfica de tal número. Também os incoerentes defensores do nazismo comemoram o alto número de mortos. Portanto, há de se fiar em estudos demográficos mais recentes para reduzir as altas cifras. Vejamos uma longa citação que esclarecem as cifras aqui estimadas: "Alguns dos entrevistados e o próprio Goldensohn alegam que 5 milhões de judeus foram assassinados no Terceiro Reich. De onde tiraram esse número? Na verdade, essa foi a cifra normalmente apresentada pela acusação em Nuremberg. Por exemplo, o promotor americano Jackson mencionou, em sua declaração inicial ao tribunal, que "dos 9,6 milhões de judeus que viviam na Europa dominada pelos nazistas, estima-se, com base em fontes fidedignas, que 60% tenham perecido; 5,7 milhões de judeus estão desaparecidos dos países onde viviam, e mais de 4,5 milhões desses desaparecimentos não podem ser explicados pela taxa normal de mortalidade." Mais tarde, no próprio julgamento, a acusação tentou arredondar o número para 5 milhões.

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poderia, finalmente, chegar a uma geração de pessoas que dissessem: "E foi assim que, nós, humanos, exterminamos em pouquíssimo tempo milhões e milhões de seres humanos" Creio que não, que este tipo de evento não pode tornar-se familiar, portanto, documentalmente assentado ou não, é impossível narrar o Holocausto. E sobre os historiadores que cobram o factual de suas interpretações, ele dá-nos uma boa resposta, muito sutil, quase despercebida, no mesmo texto que acabamos de citar: se a descoberta de novas fontes documentais fosse motivo para merecer mais uma História do que outra, o que fazer dos clássicos, que não dispunham das técnicas que dispomos hoje e da documentação que cada vez mais temos acesso? Virariam lixo, má interpretação do passado, livros esdrúxulos que nada nos ilumina sobre nós mesmos e sobre a época que desejamos aprender. Mas ao contrário, viram historiografia. Falaremos adiante da reação de Ginzburg contra White e da sua preocupação com a documentação e com a construção do contexto histórico, baseado nos textos já indicados. Posteriormente a isso, concluiremos com a análise que White faz em seu "Enredo e verdade na escrita da História", onde nos faz mais uma demonstração da ética como controladora do discurso Histórico.

V "Um Nietzsche desprovido de conexões com o Reich é, para mim, inconcebível" (GINZBURG, 2002 p. 32). Estas palavras de Robert Gates parecem instruir a visão de Nietzsche tida por Ginzburg. Com todo o conhecimento que teve o historiador italiano, em Em diferentes pontos durante o julgamento, bem como nas observações finais do juiz Jackson e na avaliação do tribunal, também se usou a cifra maior de 6 milhões de vítimas. Uma testemunha notável dessa questão foi Wilhelm Hoettl, cujo testemunho parece ter sido seguido no julgamento. No entanto, ele tinha, na melhor hipótese, um conhecimento de segunda mão. Revelou ao tribunal (e acrescentou numa declaração juramentada posterior) que havia indagado Adolf Eichmann, no final de agosto de 1944, sobre o número de judeus que tinham sido mortos. Eichmann respondeu que havia informado recentemente a Himmler que cerca de 4 milhões de judeus tinham sido eliminados nos campos de concentração e que mais 2 milhões haviam morrido de diversas maneiras, especialmente por fuzilamento. De acordo com a lembrança de Hoettl de que Eichmann dissera, Himmler estimara que um número ainda maior de judeus tinham sido mortos àquela altura. Atualmente, a maioria dos historiadores diria que os números aparentemente fornecidos por Eichmann e repetidos por Hoettl no tribunal eram altos demais para o período encerrado em agosto de 1944. Diversos historiadores, dos quais o mais importante é Raul Hilberg em seu relato definitivo da destruição dos judeus europeus, situam a cifra em pouco mais de 5,3 milhões. Hilberg mostra que o número de assassinados em Auschwitz é de cerca de 1 milhão, o que é desconcertante, mas está bem abaixo da cifra estimada no julgamento pelo comandante Rudolf Hess. Esta cifra maior – entre 2,5 milhões e 3 milhões -, embora exagerada, continua sendo citada, mesmo em estudos sérios de Auschwitz até hoje. Precisamos de cifras o mais exatas possível, fechando assim as portas para os revisionistas e os negadores do Holocausto" (GOLDENSOHN 2005, 26-27)

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relação às obras de Nietzsche, seus amigos, suas leituras, suas escolas, sua biografia, é a partir dessas frases que Ginzburg pretende analisar Nietzsche e a Retórica moderna, para com base nessas argumentações defender uma Retórica de tipo mais antigo, a aristotélica. A escrita inteira de Relações de Força parece uma declaração de ódio do historiador italiano ao filósofo alemão. Suas interpretações dos escritos de Nietzsche são perversos e parecem propositalmente escritos nesse sentido, ao invés de preferir a compreensão que vem do objeto com base no arcabouço do exegeta – tarefa do hermeneuta. Mas não, Ginzburg dispara contra Nietzsche com sua metralhadora giratória, para feri-lo onde é que apareça.10

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Já disse no início do trabalho que não tenho pretensões nenhuma de entrar no mérito das interpretações que White e Ginzburg fizeram de Nietzsche. Mas pelo menos o erro de White parece menos ofensivo, ao acrescentar entre os tipos de História que Nietzsche propõe, o da supra-história. Isso feito apenas para colocar em acordo sua teoria tropológica com as interpretações dos filósofos com que tratavam. Mas aqui não, Ginzburg é totalmente desonesto e acusa Nietzsche sem nenhum respeito à pessoa e à filosofia que ele construiu. Pinta-o como um jovem sádico que adora ver escravos tomando seus castigos e povos sendo massacrados, e que, talvez, em sua privacidade, gostasse também de dissecar animaizinhos e ferir as pessoas com sua língua ferina. Assim coloca-o de acordo com Tucídides, quando da narração do diálogo dos atenienses com os mélios, em pura vibração pela demonstração de força. E, em relação ao diálogo platônico entre Sócrates e Górgias, quando a lei da natureza é evocada ao contrário das leis dos costumes, ou seja, das leis políticas ou da própria ética (nomói representa os costumes e as leis de um determinado povo – estas, aplicadas ao indivíduo nascido naquela sociedade específica, claramente se tornaria em ethos, costume, ética), Nietzsche pareceria um cultuador de Górgias, lendo suas palavras com entonação e eloquência, quase saindo lágrimas de seus olhos. Isso nada tem a ver com Nietzsche e chega a ser até odiosa a interpretação que Ginzburg faz dele. É bom lembrar que em relação ao Reich de Bismarck, que cultivava a força e por ela conseguia tudo, Nietzsche uma vez declarou em aforismo, que agora não tenho em mãos e cito conforme minha memória permite acessar, que não havia filosofia pior do que a pregada pelo sucesso (e o sucesso seria a aplicação da força). Ignora igualmente os inúmeros comentários pejorativos que Nietzsche faz com respeito a Bismarck. E a interpretação que faz de Acerca da verdade e da mentira no sentido extramoral é, senão perversa, extremamente ingênua. Quando Nietzsche coloca a verdade como "um exército móbil de metáforas, metonímias e antropomorfismos", Nietzsche pode estar se referindo muito bem à natureza da ciência, que em suas descobertas traz o desconhecido ao conhecimento através desses tropos. E continuando, quando diz que "As verdades são ilusões das quais se esqueceu a natureza evasiva, são metáforas que se esgarçaram e perderam toda forma sensível, são moedas cujas imagens se apagaram e são levadas em consideração apenas como metal e não mais como moedas". Para compreender este trecho é necessário ter conhecimento das tarefas intelectuais de Nietzsche. Em dado momento da sua vida começou a se preocupar com a Vontade de Verdade no homem, sendo que, aparentemente, em sua essência, a mentira ou era mais útil e proveitosa ou compunha sua natureza; que a Vontade de Verdade poderia colocar em risco a existência humana. Oras, nós mesmos podemos nos perguntar – até que ponto um conhecimento é válido e até quando a ciência passa a ser uma tarefa perigosa? Creio que Nietzsche escreveu este panfleto imbuído dessas perguntas. E quanto a moeda ter-se transformado em metal sem valor, Nietzsche apela para o esquecimento como faculdade ativa do homem. As palavras foram criadas com seu significado, mas passado o tempo, esse significado vai se esvaindo até o ponto de que ninguém se lembra mais qual é a origem da palavra, o que ela realmente vale. Assim, a palavra adquire eternidade, enquanto seus significados primitivos não. Isso leva a linguagem a um processo de transformação metafísica, onde uma palavra perde sua essência e mesmo assim passa a ter conteúdo de verdade. É preciso desmistificar a linguagem antes de tomá-la como verdade. É essa a tarefa, talvez, que Nietzsche nos convida a fazer com esse panfleto, do que aquilo que Ginzburg propõe, com maldade. E essa tarefa é herdada por Heidegger, de quem podemos falar, muitas vezes, que sua filosofia nada mais é do que recuperar o valor das palavras gregas que o latim transtornou. É um trabalho etimológico e filológico ao mesmo tempo. Não queria entrar em discussões sobre Nietzsche porque as polêmicas a respeito são

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grandes e desafiadoras. E nem me julgo no conhecimento para tratá-las. Mas aqui precisava fazer esse desabafo. A respeito da malevolência com que Ginzburg lê Nietzsche também é expressa no mesmo livro. Segue a citação: "O mundo da história é dominado por uma lei análoga: a "lei da natureza" evocada por Tucídides no diálogo entre os atenienses e os mélios. As morais são muitas, o poder é uno: "Este mundo é a vontade de poder"" (GINZBURG, 2002 p. 37). Esta frase de Nietzsche é retirada de um excerto que compõe suas obras incompletas (Niestzsche 1991, 177) e, provavelmente, integrarão suas obras completas quando terminadas (organizadas por dois italianos). Ela faz parte de um conjunto de aforismos dentre os quais Nietzsche discute o Eterno Retorno, em 1884-1888. Estas mesmas citações integram hoje o seu Vontade de Poder, publicado em português pela Editora Contraponto em 2008. Nietzsche, nestes parágrafos (1019-1067, com cortes na edição citada) versa sobre o Eterno Retorno. Há problemas de tradução na edição que utilizamos; Vontade de Poder [Macht] é substituído por Vontade de Potência, mas isso não nos impede de citá-la, para mostrar a descontextualização que Ginzburg promove, dando exemplo de como um péssimo historiador deveria agir. No parágrafo 1065, diz Nietzsche: "Aquele imperador tinha constantemente presente a transitoriedade de todas as coisas, para não lhes dar demasiada importância e permanecer tranquilo no meio delas. A mim parece, ao inverso, que tudo é de demasiado valor para poder ser tão fugaz: procuro a eternidade para cada coisa: seria permitido despejar os mais preciosos bálsamos e vinhos ao mar? – Meu consolo é que tudo o que foi é eterno: - o mar os traz de volta" (Niestzsche 1991, 176). No parágrafo seguinte, Nietzsche define o mundo do Eterno Retorno como "E como entre cada combinação e seu próximo retorno todas as combinações ainda possíveis teriam de estar transcorridas e cada uma dessas combinações da mesma série, com isso estaria provado um curso circular de séries absolutamente idênticas: o mundo como curso circular que infinitas vezes já se repetiu e que joga seu jogo in infinitum". E, finalmente, o parágrafo final, de onde Ginzburg tira sua citação. Peço licença para citá-lo por inteiro para demonstrar a "falsificação" do autor italiano. "E sabeis sequer o que é para mim "o mundo"? Devo mostrá-lo a vós em meu espelho? Este mundo: uma monstruosidade de força, sem início, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força, que não se torna maior, nem menor, que não se consome, mas apenas se transmuta, inalteravelmente grande em seu todo, uma economia sem despesas e perdas, mas também sem acréscimo, ou rendimentos, cercada de "nada" como de seu limite, nada de evanescente, de desperdiçado, nada de infinitamente extenso, mas como força determinada posta em um determinado espaço, e não em um espaço que em alguma parte estivesse "vazio", mas antes como força por toda parte, como jogo de forças e ondas de força ao mesmo tempo um e múltiplo, aqui, acumulando-se e ao mesmo tempo ali minguando, um mar de forças tempestuando e ondulando em si próprias, eternamente mudando, eternamente recorrentes, com descomunais anos de retorno, com uma vazante e enchente de suas configurações, partindo das mais simples às mais múltiplas, do mais quieto, mais rígido, mais frio, ao mias ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez voltando da plenitude ao simples, do jogo de contradições de volta ao prazer da consonância, afirmando ainda a si próprio nessa igualdade de trilhas e anos, abençoando a si próprio como Aquilo que eternamente tem que retornar, como um vir-a-ser que não conhece nenhuma saciedade nenhum fastio, nenhum cansaço -: esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-se-próprio, do eternamente-destruir-a-se-próprio, esse mundo secreto da dupla volúpia, esse meu "para além do bem e do mal", sem alvo, se na felicidade do círculo não está um alvo, sem vontade, se um anel não tem boa vontade consigo mesmo, - quereis um nome para este mundo? Uma solução para todos os seus enigmas? Uma luz para vós, vós, os mais escondidos, os mais fortes, os mais intrépidos, os mais da meia-noite? – Esse mundo é a vontade de potência – e nada além disso! – E também vós próprios sois essa vontade de potência – e nada além disso!". O mundo como Vontade de Poder é o mundo da dialética entre Apolo e Dionísio, encarados dentro da filosofia do Eterno Retorno. E Nietzsche, até onde sei, não critica "as morais são muitas", portanto devemos abusar do poder. Essa é uma interpretação errônea que Ginzburg faz do preâmbulo do panfleto "A verdade e a mentira em sentido extramoral". A relativização de Nietzsche, creio, deve apenas servir de ataque a prepotência humana de ter adquirido o conhecimento e a ciência do mundo. Contra esta "certeza" é que Nietzsche ataca. Porém, Ginzburg livremente interpreta isso como uma multiplicidade de pontos de vista que significariam numa multiplicidade de morais, e que a mais forte deveria eliminar a mais fraca. Esta é uma noção completamente equivocada do que significa Vontade de Poder em Nietzsche (para quem, até uma flor tem Vontade de Poder, daí também a descrição do mundo como Vontade de Poder), e Nietzsche jamais em seus escritos, mesmo quando evoca a "besta loira" prega a eliminação de seres mais fracos, daqueles que não conseguira a excelência moral da Vontade de Poder. E é inconteste, inclusive, que a Vontade de Poder também faz parte destes indivíduos, os "cordeiros" os "da moral de escravos". Ginzburg está a beira de fazer uma análise liberal/utilitarista da moral nietzscheana. Falta de estudos ou má vontade, não sei – mas agressividade intelectual, com certeza é o que Ginzburg faz aqui. Sobre a Vontade de Poder ainda – resta estudar se, como Heidegger interpreta, é mais uma "ontologia" que se esquece do ser, ou outra coisa. Porém uma discussão séria a esse respeito requisita muitos estudos e muita discussão. Talvez, para evitar essa seriedade, Ginzburg faz alusões tão depravadas a respeito de Nietzsche. Poderia uma citação como esta fazer parte do vocabulário filosófico nietzscheano?: "o homem mata o mosquito e o mosquito contamina o homem com a malária matando-o" (GINZBURG, 2002 p. 37). Aliás, adicione-se também a lamentável interpretação que

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Essa frase com que começamos é a resposta de Robert Gates a Paul de Man em um evento organizado pela revista Symposium. A resposta de de Man foi entender Nietzsche de uma perspectiva ética ou psicológica, ultrapassando o ponto de vista irônico é desprovida De fundamento filosófico. Nietzsche não justifica, de modo algum, um discurso que se refira a um nível situado "para além" da ironia. Pelo contrário, ele nos convida continuamente a nos preservar da ilusão de ceder a um desejo do gênero. E é mesmo desse ponto de vista que podemos compreender a importância de Nietzsche no que diz respeito às questões políticas formuladas por Vossa Senhoria. (GINZBURG, 2002 pp. 32-33) E ao invés de levar em conta a resposta de de Man, que nos parece perfeitamente plausível com o tom da filosofia nietzscheana, o que se segue nas próximas páginas desta Introdução é uma série de ataques ad hominem por parte de Ginzburg. Seus argumentos se baseiam em que entre 1940 e 42 Paul de Man publicara artigos de caráter anti-semita no jornal colaboracionista belga Le Soir11. E isso não basta para Ginzburg; o que o afeta até os nervos é como de Man escondeu esse passado o tempo inteiro, usando de uma máscara e fazendo um jogo duplo, como uma referência a sua participação na Frente Popular. Em seguida, quando de Man "descobre" o panfleto de Nietzsche do qual tanto falamos em nota. De acordo com Ginzburg, ele encontra a possibilidade de se livrar da história – "A modernidade de Baudelaire, assim como a de Nietzsche, "é um esquecimento ou supressão do anterior", uma fuga da história que, no entanto, como o próprio Nietzsche demonstrou, está condenado ao fracasso" (GINZBURG, 2002 p. 34). E o ataque final de Ginzburg, usando da falácia: "Que inteligência crítica pode ser alimentada pela vergonha, pelo sentimento de culpa, pelo medo de ser descoberto?". Oras, que isso seja o fator que alimenta a inteligência de Man, que seja, mas que seus argumentos não sejam rebatidos de acordo com uma consciência limpa ou pesada de um anti-semita, mas sim, pelos próprios termos de sua argumentação.

Ginzburg faz de Darwin. Outro italiano que faz críticas a Nietzsche querendo nele ver um fascista é Domenico Losurdo. Talvez essa ira italiana contra o filólogo alemão venha do fato de a irmã de Nietzshe ter presenteado Il Duce com a obra completa do irmão? 11 Mesmo isso sendo lamentável, não é motivo para deixar a caducar todas as suas faculdades intelectuais e argumentos.

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Mas apesar desses erros, o problema que Ginzburg pretende levantar em seu livro é importante: a retórica moderna (ou seja, a virada linguística e o relativismo que a acompanha) é ética? Não estaria ela liberando as consciências do hoje de se perdoarem do que fizeram no passado, do uso da força, dos genocídios, dos massacres? Ginzburg diz de um escape da História, portanto, de sua versão escrita – não de uma fuga do passado, que seria impossível, a não ser com o perdão. Não estaria na hora de por em harmonia a Retórica com a Prova, para enfim acabar com o relativismo? São questões relevantes e bem trabalhadas pelo historiador italiano. Vejamos, com ele, se isso é possível ou mesmo se a preocupação é legítima. À sua acusação e de outros que o relativismo permite o esquecimento do passado e a fuga da História, discordamos. Uma retórica (não a que foi abandonada no Renascimento, mas a que Ginzburg identifica hoje no relativismo que tomou conta da historiografia durante já um longo tempo) assim não seria suficiente para livrar-nos da questão da culpa e do perdão. Para a dificuldade de se libertar das tragédias e do passado traumático, remeto o leitor ao Epílogo de A memória, a história, o esquecimento, que é o sopro que conduz seu navio de três velas do livro de Ricoeur. (RICOEUR, 2007 pp. 467-512). Mas sua proposta é interessante: História, retórica, prova: nessa sequência, o termo menos óbvio é o último. A contiguidade largamente aceita entre história e retórica empurrou para as margens a existência entre história e prova. A idéia de que os historiadores possam provar algo parece a muitos antiquada e até ridícula. Mas mesmo quem se manifesta algum desconforto diante do cenário intelectual reinante considera, quase sempre, como certo que retórica e prova se excluem reciprocamente. (GINZBURG, 2002 p. 13)

Para colocar em harmonia esses três termos – história, retórica, prova – Ginzburg recorre à Retórica de Aristóteles, texto que ele considera ser mais relativo à História do que sua Poética, quando põem a literatura em supremacia à História, por uma poder contar o que é possível e a outra restringir-se ao que aconteceu. A Retórica de Aristóteles parece mais ser escrita para os que se ocupam da lei. Ginzburg poderia ter escolhido, assim como François

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Hartog, a palavra grega hístor que significa tanto testemunho, segundo Benveniste,12 "aquele que sabe, aquele que viu" e que, posteriormente, com Cícero, seria a palavra latina da qual derivaria o nome de nosso ofício. Cícero, o responsável pela esquecimento da Retórica de Aristóteles. Hístor, uma palavra jamais usada por Tucídides. Ao se fazerem juramentos, as testemunhas (hístor) eram os deuses. Hístor significa, além de testemunha, aquele que vê com os próprios olhos, o que, para os gregos, significava provar. Mas e quando não se via com os próprios olhos? Investigava-se, interrogava-se quem tinha visto (historéron). Em Heródoto, é o olho quem escreve, e quando ele não pode olhar nem ter notícias confiáveis de alguma coisa, fala-se de autékoos. E Tucídides, quem nunca empregou a palavra hístor, não fugiu à tradição do ver, por pensar possível somente a História do tempo presente (apesar de não ter visto todas as situações e os diálogos serem remontados como deveriam ter sido). François Hartog discute longamente o olho (hístor) como caráter de prova para os gregos (HARTOG, 1999 pp. 273-283), mas Ginzburg prefere ignorá-lo. Talvez em função de ter sido criticada a expressão "Os citas de Heródoto", como se fosse, pura e simplesmente, uma injunção a ser trancafiada somente no texto das Histórias, uma apologia do solipsismo, uma defesa em favor da ignorância e do ceticismo. Mais simplesmente, exprimia ela antes uma insatisfação diante da maneira como muitas vezes os historiadores, valendo-se do rótulo de "documento", utilizavam os textos (literários, em particular). Daí a experiência: no limite, tratar Heródoto como se fosse Homero. Avançar o mais longe possível no lógos escolhido, dando todas as chances ao texto, abordado em seus múltiplos níveis, em suas linhas melódicas, do mesmo modo que em suas rupturas, retomadas, impasses – enfim: como a expressão de uma ou de muitas estratégias narrativas." (HARTOG, 1999 pp. 16-17)

É bem plausível o uso da palavra hístor para explicar a tradição de prova na História, mas Ginzburg prefere a obra Retórica, de Aristóteles. Escolha justa, até, por ser plausível, mas estranha. Quem sabe por ter sido Ginzburg quem disse: "...uma leitura puramente interna da evidência, sem nenhuma menção a sua dimensão referencial, também é impossível. A falha definitiva de Le Miroir d'Herodote, do brilhante mas incorreto livro de François Hartog, é instrutiva." (GINZBURG, 2007 p. 9). O brilhante livro e considerado incorreto e impossível.

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Para este autor, sobrevivente também significa testemunha.

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Talvez daí venha a rejeição de Ginzburg pelo termo hístor. Mas a preferência de Ginzburg pela Retórica de Aristóteles pode ser identificada de outra forma: "Nos últimos 2500 anos, desde o princípio do gênero literário que denominamos por "história", na antiga Grécia, o relacionamento entre história e a lei é bem próximo." (GINZBURG, 2007 p. 6) E prossegue: De fato, a palavra grega historia deriva da linguagem médica, mas o seu sentido subentendido está relacionado com a linguagem jurídica. História, como Arnaldo Momigliano enfatizou anos atrás, como atividade intelectual independente, emergiu da intersecção entre medicina e retórica. Seguindo o exemplo da medicina, o historiador analisou casos e situações procurando pelas causas naturais desses; seguindo as prescrições do juiz – uma técnica ou uma arte, nascida em tribunal – ele comunicou os resultados de sua investigação (GINZBURG, 2007 p. 6)

Bom, daí podemos inferir a predileção de Ginzburg pela Retórica, e sabidos seus motivos, podemos tranquilamente segui-lo em seu percurso, sem nenhum fantasma de estranheza nos perseguindo. O que Ginzburg pretende acrescentar no debate, de fato, é a prova, posto que ela seria a forma indelével de manter presente o passado e impossibilitar qualquer fuga da História. Aos dominados pela força na colonização ou pelo imperialismo, às minorias com seus direitos restritos e vítimas de preconceito, a prova entraria como o elemento que eliminaria a ubiquidade do relativismo e permitiria que os grupos diferentes se comunicassem. Aí está posta, novamente, a questão que colocamos na introdução de nosso trabalho: é o relativismo uma forma de se auto prevenir de verdades absolutas e reconhecer a possibilidade de erro em sua escolha – e assim tomar nova orientação ética, que daria eficácia a seu discurso; ou é o relativismo um veneno que permite a todos fazerem o que quiserem e esquecerem o que fizeram? O apelo de Ginzburg pela prova lembra-me uma passagem do artigo de Dominick LaCapra em Probing the limits of Representation: Positivism in general may be seen as an abuse of scientific method trough na autonomization of the constative or empirical-analytic problem of transference. (Indeed one way to define positivism is a denial of transference.) Nowhere more than with reference to the Holocaust do positivism and standart techniques of narrowly empirical-analytic inquiry seem wanting. (...) To make this point is not deny na important role for objectivity. (FRIEDLANDER, 1992 p. 111)

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O que LaCapra está colocando aqui é a impossibilidade de dar voz a todos os autores a partir do efeito de transferência, tirado da psicanálise, segundo o qual cada um teria seu próprio ponto de vista sobre o Holocausto, de acordo com o posicionamento que ele teve, ou sua agência durante o período. Transferência é um conceito psicanalítico, segundo o qual a identidade e ipseidade do autor seria transferida para o texto justamente como esse ponto de vista. E como dar múltiplas vozes ao Holocausto? A pessoas que o afirmam, relativizam, negam, desculpam? Este é um problema da transferência que parece tornar evocar o positivismo como a melhor maneira de se narrar o Holocausto, por negar essas múltiplas vozes e por dar um rigor de objetividade na pesquisa. Mas o problema da multiplicidade das vozes é o da multiplicidade de possíveis sentidos, não a de uma fugacidade do passado. Aparentemente, é isto que Ginzburg quer aqui. Vejamos o que ele consegue seguindo a Retórica de Aristóteles. "O que foi dito sobre as descontinuidades ocultas no nosso léxico intelectual pode ser estendido também ao termo "retórica". Procurei mostrar que a arte retórica de Aristóteles era muito diferente do que entendemos hoje pelo termo retórica" (GINZBURG, 2002 p. 60). O que se entendia por retórica no tempo de Aristóteles era que "as provas, longe de serem incompatíveis [ela], constituem seu núcleo fundamental." (GINZBURG, 2002 p. 63). Mas o que se entende hoje por retórica, segundo Ginzburg?13 Embora remontando, em substância, a Nietzsche, esta tese circula hoje basicamente sob os nomes de Roland Barthes e Hayden White. Ainda que não totalmente coincidentes, os respectivos pontos de vistas são associados pelos seguintes pressupostos, formulados de maneira ora mais ora menos explícita: a historiografia, assim como a retórica, se propõe unicamente a convencer,; o sue fim é a eficácia, não a verdade; de forma não diversa de um romance, uma obra historiográfica constrói um mundo textual autônomo que não tem nenhuma relação demonstrável com a realidade extratextual à qual se refere e textos historiográficos e textos de ficção são auto referenciais tendo em vista que estão unidos por uma dimensão retórica. (GINZBURG, 2002 p. 48)

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Importante notar que o que Ginzburg está chamando de Retórica e acusando, tendo White como seu principal alvo, não é identificado por este como Retórica. Hayden White chama de tropologia as possibilidades de elaboração de enredo, de explicação e de ideologia.

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Oras! Esta afirmação de Ginzburg é o contrário de tudo que pretendemos mostrar acima, quando longamente falamos sobre os textos de White! De forma que nos perguntamos se o debate entre ele e White é fruto de uma má compreensão dos escritos do outro – da mesma forma que se demonstrou incapaz de interpretar Nietzsche – ou se consiste em uma violência mesmo, uma afronta direta, que vai além dos estudos de um e outro. Se minha argumentação acima deu-se como eu pretendia, foi mostrado que os fatos e os dados são de alta relevância para o historiador, e que o mundo extratextual entra não apenas quando, prefigurativamente, num ato antes mesmo de uma tomada de consciência do historiador, ele elabora os dados, bem como que para a História ser contável, precisa de um público externo que a julgue conforme suas configurações simbólicas – normas que o historiador deve cumprir. E, ao mesmo tempo, a função da História apresentada por White é a de tornar o não familiar (dados) em algo familiar (História). O que é isso senão a extrapolação da interioridade do texto? E quanto às semelhanças entre um texto de ficção e um texto de historiografia, elas existem, mas ambas partem do mundo da experiência e ambas pretendemse mostrar viáveis ao público. Nesse sentido, enquanto narrativas, é difícil mostrar a diferença entre ambas – mas oras, é necessário reconhecer o caráter narrativo da História, e não apenas como um container neutro! Espero que Ginzburg não discorde desses argumentos, se ocasião houvesse para tomar parte deles. Mas vamos passar da nova interpretação malévola de Ginzburg para retomar nossa argumentação de onde paramos: por que preferir a Retórica e não a Poética de Aristóteles para falar da História? As considerações feitas até aqui lançam uma luz inesperada sobre a passagem da Poética citada no início (1451b), na qual Aristóteles desvaloriza a história frente à poesia. A historia da qual falava Aristóteles não é (com exceção do nome) a mesma de que falamos hoje (...) No trecho da Poética, o vocábulo "história" (historía) é tirado de Heródoto, o qual Aristóteles critica na Retórica (1409ª), por seu estilo antiquado. Tucídides (sobretudo o Tucídides "arqueólogo"), que usou repetidamente os argumentos baseados em entinemas ("o núcleo central da prova"; 1354ª), deve ter representado, aos olhos de Aristóteles, um caso diferente e menos exposto à críticas. (GINZBURG, 2002 pp. 56-57)

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Que o conceito de História que nós temos hoje é diferente do que o dos gregos é evidente. Tomando parte de Tucídides ou de Heródoto como seu fundador. A palavra que permanece a mesma vem do hístor que usa Heródoto como sinônimo de testemunha ocular e, portanto, de garantia da verdade. E esse hístor, como mostrou Hartog, foi se desdobrando em diversas formas como meio de investigação, e parando como limite daquilo que está distante e daquilo que apenas se pode ouvir. A tradição que leva História no nome, tendo em vista o hístor é a nossa, e ela basta para apresentar as provas. Porém, Ginzburg, patrocinado por Momigliano toma rumos diferentes. A História tem seu nome continuado, mas o que representa são outras coisas, são as semelhanças do historiador com o juiz. Daí as palavras entimena, semeion14 e tekmeria ganham importância. São elas que, dentro da Retórica de Aristóteles consistem em provas: semieion como indício provável e tekmeria como signo necessário. O primeiro seria o provável para o historiador, o segundo seria a prova direta de que ele precisava. Isso significa que o passado deixa indícios que podem ser perscrutados e investigados, até que se conheça a verdade. Tekmeria é um derivado de um entinema. Um entinema, segundo uma versão da Retórica é um silogismo incompleto, posto que o público é capaz de dotá-lo de sentido sem que outras partes da sentença sejam enunciadas. O exemplo famoso de Dorieu, que ganhou a coroa de oliveiras. Ora, ele ganhou a coroa porque foi o vencedor das Olimpíadas, e isso era de conhecimento geral dos gregos, mesmo com séculos de distância, posto que uma arqueologia para datação dos vencedores das Olimpíadas foram feitas. Falar que Dorieu ganhou a coroa de oliveiras significa o mesmo que falar que ele ganhou as Olimpíadas – e, ainda mais, que há uma relação de causa e consequência entre ambos que pode ser buscada, como num saber venatório sobre as coisas. "A língua grega falada conservava, nas suas palavras (assim como acontece em muitas línguas modernas), os

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Que pode ser traduzido por semiótica.

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ecos de um antiquíssimo saber venatório" (GINZBURG, 2002 p. 57).15 Bom, para um entinema funcionar e, portanto, as provas serem efetivamente provas, é necessário que o saber do historiador e o saber do público convirjam, que ambos partilhem de uma mesma cultura e de um mesmo saber simbólico. "O prêmio dos jogos olímpicos era só uma das inúmeras regras escritas com tinta invisível no tecido da vida cotidiana da sociedade grega. Regras desse gênero existem em qualquer sociedade..." (GINZBURG, 2002 p. 53). Agora sim, com essa citação Ginzburg começa a entender o problema posto pelos "retóricos que não partem para o extratextual". Esse saber compartilhado entre uma sociedade e o historiador é justamente o que permite uma História ser narrada. Aproximando-se da retórica de Aristóteles com o intuito de mostrar que é possível provar em História por via da pesquisa e com a aproximação do saber do historiador com o do policial e do juiz, Ginzburg acabou esbarrando naquilo que seus inimigos pregam como condição sine qua non a História pode ser escrita – a de um saber compartilhado entre historiador e público, como são os entinemas, ou os princípios éticos, tropológicos e de explicação. O capítulo de Ginzburg tem em sua última página algo do que podemos aproximar da citação feita por LaCapra: É estranto que nem os autores de alguns recentes, e debatidos, livros sobre a Shoah [Holocausto] – largamente baseado em processos instaurados após o fim da Segunda Guerra – nem os seus críticos pensaram em examinar esses problemas de método (GINZBURG, 2002 p. 63)

Ora, não sei de quais livros Ginzburg está falando, mas todos que conheço tratam do problema do método com excessivo cuidado, como foi posto pelo próprio LaCapra. Talvez o que Ginzburg esteja cobrando seja essa ânsia por juntar documentos, acumular provas, como se essa fosse a única função do historiador. Pois, como Rüsen diz: Como objeto de uma pesquisa histórica regulada metodicamente, o conteúdo empírico das histórias torna-se conteúdo de um saber histórico que se esgota nas histórias que devem ser narradas para satisfazer as carências atuais de uma orientação no tempo. A pesquisa, como processo de obtenção de fatos sobre o

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Lembre-se dos bárbaros que perguntavam sobre o significado dos jogos olímpicos e a incompreensão destes do que eles valiam para os gregos.

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passado, não pode ser pensada sem essas carências de orientação, mas produz resultados que vão bem além delas (RÜSEN, 2001 p. 105)

Em outras palavras, o que Rüsen quer nos dizer é que apesar de necessária as pesquisas documentais (todas com base na experiência da sociedade sobre a qual vai se escrever uma história), ao mesmo tempo que amadurece, pelo método, a pesquisa sobre o que pode ser considerado uma certeza insegura para uma segura incerteza (RÜSEN, 2001 p. 104), esse material coletado deve servir a uma narração, e essa narração, que supre uma carência, deve ser orientada por normas ou idéias, de expectativas de como o futuro deve ser. Assim sendo, voltamos para a questão da identidade. Por que mesmo coletando grande número de dados e documentos sobre o Holocausto ele ainda permanece inenarrável? Porque a busca documental não atende as necessidades totais de uma historiografia. Ela precisa ser narrada e dar sentido ao mundo. E, novamente me pergunto – que sentido pode ser dado ao Holocausto? As implicações de contexto, os rastros, tudo isso pode ser investigado – é claro, ninguém nunca negou isso, nem mesmo White! -, os anacronismos de um documento falso, como o da Doação de Constantino pode ser revelado ao público. Voltamos a White: A questão que nasce com respeito à "elaboração de enredo" no estudo do nazismo e da solução final é esta: existe algum limite sobre o tipo de estória q eu pode ser contada de maneira responsável sobre estes fenômenos? (MALERBA, 2006 p. 192)

Ele mesmo responde que há limites éticos para isso, comparando a história em quadrinho Maus de Art Spigelman e uma obra de Alfred Hillgruber, um dos participantes do Historikerstreit. Maus, essa história em quadrinhos, baseada na narrativa de seu pai, prisioneiro de um campo de concentrações é muito mais ético em sua configuração do que a de Alfred Hillgruber, que de um lado vê um sentido trágico na defesa oriental (pois a luta contra a URSS deveria levar brio aos soldados germânicos), mas, em contrapartida – ele divide a guerra em duas – não vê sentido na exterminação dos judeus. Hillgruber não passou por cima de nenhum fato histórico, apenas elaborou as narrativas de forma diferente. E ainda diz: 43

Porque diferenças entre narrativas que competem são diferenças entre os "modos de elaboração " de enredo que predominam nelas. É por serem narrativas sempre elaboradas em enredo que discriminações entre os tipos de enredo podem ser feitas. No caso de uma elaboração de enredo de eventos do Terceiro Reich em um modo "cômico" ou "bucólico" nós estaríamos eminentemente justificados para apelar aos "fatos" a fim de dispensá-los das listas de "narrativas que competem" do Terceiro Reich" (MALERBA, 2006 p. 195)

E, posteriormente, seguindo Berel Lang em seu Act and Idea, vê a impropriedade de qualquer representação literária do genocídio, que isto é impossível. Não impossível, mas indesejável. É sempre possível praticar o indesejável, mas esta linha é a que separa o mundo ético do não-ético. Para não escrever com as "mãos sujas de sangue", como propomos aqui, a linguagem figurativa estaria proibida. Qualquer manifestação do autor também. Elaboração literária, eliminada. Tudo isso humaniza o que não pode ser humanizado. Dele só se pode falar de forma literal, a partir dos fatos, sem nunca dar um significado. Após esse longo percurso em torno de Ginzburg e sua preocupação quanto às fontes, à qual equiparamos a uma citação de Dominik LaCapra, podemos retomar ao mesmo artigo do autor e citar as palavras que antecederam as já citadas: Conventional techniques are particulary inadequate with respect to eventes that are indeed limiting. With respect to these events language may break down, and the most apropriate form of representation may be minimalist. Still, I would contend that is more possible to indicate what has not worked than it is more possible to indicate what has not worked than to legislate what approach must be taken in trying to write or speak about the Holocaust. In addition, silence here is not identical with simples mutenes, and the way language breaks down is itself significant and even telling process. (FRIEDLANDER, 1992 p. 111)

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CONCLUSÃO Assim como falei na Introdução - suposto início das coisas - que o início a precedia, pretendo, com esta conclusão, não colocar o último tijolo de um edifício, senão, colocar a primeira pedra para que outros sejam construídos em cima deste. Como disse Heidegger: Para os caminhos do pensamento, o passado continua passado, mas o vigente do passado está sempre por vir. Os caminhos do pensamento esperam assim que, um dia, pensadores o singrem. Enquanto o representar corrente e técnico no sentido mais amplo do termo, quer ir sempre para frente e progredir, arrastando todos consigo, os caminhos indicadores da sabedoria liberam, às vezes, perspectivas para a reunião montanhosa e acolhedora da unidade (HEIDEGGER, 2006)

De tal forma que esta Conclusão pretende apenas dar o acabamento do que foi dito acima, a recapitular tudo o que foi dito e encerrar num sentido – o sentido que esta Monografia pretendeu ter. Para isto será necessário algumas observações sobre o estado em que deixei esta Monografia e suas pretensões finais. Após o primeiro capítulo onde discutimos White e Ginzburg acerca das limitações de se representar o Holocausto, dois capítulos se seguiriam, mas que pelas limitações de espaço e tempo não pude concluir. O segundo capítulo estava dividido em duas partes: uma em que eu discutia qual era o sentido e a função da narrativa historiográfica tanto em Ricoeur quanto em Rüsen, visto a proximidade que existe entre os dois. Podemos, sem muito exagero e imaginação, considerar o círculo da meta-história da Razão Histórica algo similar ou equivalente aos três estágios da mímesis em Ricoeur. E em ambos vemos que a historiografia vem preencher uma lacuna na sociedade – pelo menos na sociedade moderna – de que o homem precisa de orientação no tempo, precisa de uma identidade que lhe sirva e que permita-o continuar vivendo. E não só que gere essa comunhão com a identidade, mas ao mesmo tempo reforce sua necessidade de História, na medida em que ela fornece – em Ricoeur, um aumento icônico da experiência, uma fresta de janela aberta ao invés de uma pintura, - em Rüsen, um retorno ao círculo da meta-história que contribui com a experiência

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do homem e de seu superávit normativo, que visa constranger o "tempo natural" da morte. 16 Assim teríamos uma hermenêutica que apresentava ao sujeito uma narrativa que torna presente o passado e supriria sua necessidade de orientação no tempo. Mas tampouco esta hermenêutica daria conta do Holocausto: posto que nem em imagem seria desejavel vê-lo, numa pintura horripilante, muito menos pela fresta de uma janela, avistando pilhas e pilhas de corpos mortos. Tanto Rüsen como Ricoeur eliminariam a possibilidade de se narrar o Holocausto. Quanto a isso, para a edição brasileira de seu Razão da História, Rüsen traz um quarto capítulo a esse respeito. A segunda parte deste capítulo traria uma visão diferente: de Certeau, de Gadamer e de Hartog – todas voltadas para a possibilidade de traduzir o outro, que seria o passado, que seria o Holocausto, para nosso espelho e nossa gramática. Mas tampouco estamos preparados para isso. Colocar este Outro em nossa tradição é impossível e ultrapassa os limites da hermenêutica. Finalmente, pretendia colocar um terceiro capítulo, que de certa forma confrontava o segundo, falando da possibilidade de se trocar experiência no mundo moderno. Nisto estaríamos segundo alguns ensaios de Benjamin do entre-guerras, principalmente "Miséria e experiência [Erfahrung]". Ao mesmo tempo articularíamos isso com três capítulos de Futuro Passado, o último, o antepenúltimo e o segundo, mostrando como a construção de um tempo historicista tornou a experiência um quase-nada. Ao mesmo tempo teríamos matéria para falar do terror nazista, de acordo com o capítulo que Koselleck fala-nos dos seus sonhos antes e depois de entrarem para o campo de concentração. Neste capítulo brilhante, Koselleck nos premia com análise de um aforismo de Goethe, segundo o qual contar uma história de manhã e depois a noite, muda o significado da história. Isso porque o próprio passar do tempo colocaria em distância aquele que escreve sobre ela e ela mesma. Portanto, uma imaginação

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Podemos dizer o "ser-para-morte" de Heidegger. E a necessidade de História em ambos, podemos remeter ao Cuidado (Besorgen) e ao Geschichtlichtkeit de Heidegger. Mas Rüsen não ficaria nada feliz com a comparação.

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literária haveria de acontecer, uma invenção, por assim dizer, para poder contar o que se passou, posto que já é passado.17 Coroando esta insuficiência da experiência, buscaríamos junto a Adorno quais deveriam ser as diretrizes de um ensinamento após Auschwitz, para evitar que ela acontecesse de novo. Assim como Koselleck, admitia que as experiências do passado poderiam ocorrer novamente. Em Adorno podemos separar quatro elementos para o acontecimento do Holocausto: o não-idêntico, que seria aquele que não se subsumiria ao conceito absoluto hegeliano, a personalidade autoritária, a formação de grupos diversos, de coletivos, que sendo nacionais ou não, sempre se colocariam diante de um inimigo, aquele que não pertence ao grupo (o mesmo não-idêntico), e estaria vulnerável a uma personalidade autoritária. Isto e a falta de amor, a experiência coisificada. Essas condições ainda existem hoje e não anulam a possibilidade de que se ocorra novos genocídios. Mas a tarefa principal para que não se repita Auschwitz seria o amor. "Hoje em dia qualquer pessoa, sem exceção, se sente mal-amada, porque cada um é deficiente na capacidade de amar (...) Não me entendam mal. Não quero pregar o amor" (ADORNO, 1995 p. 134). Essa falta de amor seria um sintoma do mal estar na civilização do qual nos fala Freud. Essa frieza e falta de amor faz com que não nos sintamos humanos e que não vejamos humanidade nos outros. Isso causou Auschwitz e isto ainda está presente em nossas sociedades. Foucault, falando da união entre o poder disciplinar e o biopoder é quem nos instrui sobre como foi possível historicamente o Holocausto, um estado assassino. O poder disciplinar, que é o poder do soberano, faz morrer e permite viver. O biopoder faz viver e evita o morrer. Mas sob o Estado Nacional, incorporando o racismo, o fazer viver precisa colocar em prática o fazer morrer, para que a outra raça seja eliminada. E para isto, põem-se sua própria raça a mercê da liquidação, para que a raça superior sobreviva. Voltamos à falta de experiência que a guerra nos conduz: o choque do Holocausto e da

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Um cuidado literário para o qual já nos alertava Chlaldenius.

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Guerra, gostaríamos de mostrar exemplos retirados de Hannah Arendt e Karl Jaspers, que, respectivamente, falam-nos da situação da Alemanha no pós-guerra em 1950 e 1947. Lá não conseguem encontrar alemão capaz de falar sobre as ruinas, sobre o que fizeram e o que sofreram, senão quando encontravam aqueles que procuravam desculpas para desviar o alvo e a culpa. Mas voltemos à dicotomia frieza/amor. "Wherever men become aware of their humanity and recognize man as man, they grasp human rights and themselves on a natural law to wich both victor and vanquished may appeal" (JASPERS, 2000 p. 31). O homem se reconhecendo como homem, e também reconhecendo essa mesma humanidade no outro – isto evitaria genocídios futuros? "Não quero pregar o amor...", diz-nos Adorno. Fazê-lo hoje, em nossa sociedade, seria devidamente patético. Seria recorrer a algo vazio de significado e ridículo em seu conteúdo. "Com receio a estar conquistando honras entre os seres humanos, cometendo falta contra os deuses". (PLATÃO, 2008 p. 53). Este seria o discurso mais adequado de Adorno, fazendo coro com Sócrates. Fedro e Sócrates discutindo sobre o amor, primeiramente viram-no como algo abominável, como uma loucura que toma conta dos homens e os fazem tomar escolhas absurdas. Frente a isso, o amado deveria prestar mais atenção naquele que não o ama do que em seu amante, posto que o último lhe faria mal. Mas não, não! Durante o discurso, Sócrates percebeu o erro que cometia. Não era Eros, o amor, filho de Afrodite, também amor? E a condição do amado não seria a condição de quem é levado a loucura – permanente! – por eles. Oras! Não façamos homenagens aos homens e desrespeitemos os deuses. Vamos falar de amor, louvar o amor. Romper a frieza de nossa sociedade, deixando que Eros e Afrodite tomem conta de nossas almas. Do contrário, teremos a frieza dos milhões de corpos mortos, teremos o sangue em nossas mãos por não conseguir lidar com eles. Um passado que não passa. Conta-se, nas Histórias de Heródoto que Cambises fez desfilar diante de Psaménito seu filho e mais dois 48

mil compatriotas desfilando em frente a ele amarrados com uma corda ao pescoço e um freio na boca. Antes Cambises também havia feito a filha de Psaménito filha vestir-se de escrava, enviando-a a pegar uma bacia de água. Psaménito, enquanto os outros pais egípcios choravam, apenas baixou o rosto. Diante de seus amigos, Psaménito chorara. Diante da desgraça de seus filhos, não cedeu uma lágrima e contentou-se em baixar a cabeça. Cambises então, enviou alguém para indagá-lo sobre sua reação, ao que foi respondido que as desgraças à sua família eram devidamente grandes para que pudesse chorá-las. Este choro contido, este silêncio de Psaménito é o fracasso da historiografia moderna e da hermenêutica em compreender o Holocausto, narrá-lo e sepultá-lo. É o fracasso da História frente a um evento que desafia as leis do tempo e mantém-se presente. Esse silêncio já referido, essa falta de choro sinaliza a incapacidade da História frente a eventos-limites e o triunfo da Memória, da qual se separou. Resgatando a citação acima feita de Heidegger, precisamos buscar novos caminhos a trilhar para além da hermenêutica e para além da historiografia historicista. Dar ao Holocausto uma escrita seria um presente maldoso de um deus. Narrá-lo, para guardá-lo na memória, como no mito de Fedro, seria guardar na memória daqueles que já o sabem e fazer cair no esquecimento algo que nunca pode ser esquecido. Seria o narrar para esquecer. O silêncio sobre o Holocausto é a polifonia dos milhões de mortos a quem não se pode dar voz, e ao esgarçamento das vozes daqueles que querem falar. Uma nova relação entre a Memória e a História deve ser traçada, e isto passa necessariamente por uma reflexão do tempo. Somente nestes termos poderemos associar História e Memória novamente.

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