Primo Levi, \"Assim foi Auschwitz. Testemunhos 1945-1986\", Companhia das Letras. Entrevista com Domenico Scarpa, \"O Globo\", Rio de Janeiro, 26.9.2015

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Livro reúne testemunhos de Primo Levi sobre Holocausto ‘Assim foi Auschwitz’ traz textos escritos pelo italiano ao longo de 40 anos

POR GUILHERME FREITAS 26/09/2015 5:55







O italiano Primo Levi ­ Divulgação

RIO ­ Sobrevivente do campo de concentração de

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Auschwitz, onde ficou preso entre fevereiro de 1944 e janeiro de 1945, o italiano Primo Levi passou os 40 anos seguintes à sua libertação dando testemunho sobre os horrores do Holocausto. Em seu último livro, “Os afogados e os sobreviventes”, publicado em 1986, um ano antes de cometer suicídio, Levi descreveu a memória como sendo ao mesmo tempo “maravilhosa” e “falaciosa”. O significado complexo da memória para Levi está exposto no livro http://oglobo.globo.com/cultura/livros/livro­reune­testemunhos­de­primo­levi­sobre­holocausto­17605114

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“Assim foi Auschwitz: testemunhos 1945­1986” (Companhia das Letras, tradução de Federico Carotti), organizado pelos pesquisadores italianos Fabio Levi e Domenico Scarpa, do Centro Internacional de Estudos Primo Levi. A antologia reúne desde o primeiro texto do autor sobre os campos — um relatório de 1945 sobre as condições sanitárias de Auschwitz redigido com o médico Leonardo de Benedetti — até cartas, discursos e depoimentos em julgamentos de oficiais nazistas. Para Domenico Scarpa, o que distingue a obra de Levi é sua capacidade de reconhecer “os limites de seu ponto de vista” e “as riquezas e os riscos” da memória. Características presentes em livros que se tornaram documentos essenciais sobre a experiência dos campos de concentração, como “É isto um homem?”, de 1947 (lançado no Brasil pela Rocco). Scarpa — que fará uma conferência sobre o escritor italiano no Rio, em 4 de novembro, na Biblioteca Nacional — conversou com O GLOBO por e­mail. Na introdução de “Assim foi Auschwitz”, você e Fabio Levi citam a definição de Primo Levi para a memória: ao mesmo tempo “maravilhosa” e “falaciosa”. O que esses termos significam na obra de Levi? A definição está em seu último livro, “Os afogados e os sobreviventes” (1986), no qual Levi examina criticamente 40 anos de fatos, de experiências de Auschwitz. O primeiro objeto examinado é precisamente a memória, em geral, e sua memória pessoal, em particular: ela é maravilhosa por sua capacidade de abrigar e manter informações, mas é insidiosa pela tendência a transformá­las ao longo do tempo, a perder muitos detalhes e distorcer outros. Justamente por ter consciência dessa riqueza e desses riscos, Levi fala com base em sua experiência como testemunha ocular do Lager. Mas ele o faz com atitude de pesquisador, como um historiador chamado a interpretar documentos. Esse olhar duplo, material e intelectual, é que o torna único entre aqueles que narraram o Holocausto. O livro reúne 40 anos de testemunhos de Levi. Quais são os traços mais consistentes de sua visão do Holocausto ao longo do tempo? Em Auschwitz, Levi foi um prisioneiro sem privilégios. Observava tudo de um ponto de vista limitado e humilde. Em “É isto um http://oglobo.globo.com/cultura/livros/livro­reune­testemunhos­de­primo­levi­sobre­holocausto­17605114

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homem?”, ele adota um princípio rígido: reportar apenas o que viu pessoalmente. Seus testemunhos de 40 anos, reunidos em “Assim foi Auschwitz”, respeitam o mesmo princípio, e inclusive enfatizam os limites do seu ponto de vista. No entanto, Levi tinha uma qualidade excepcional: a capacidade de focar, registrar detalhes, rumores, histórias de seus colegas. Ele foi capaz de narrar (ou melhor, restituir) por 40 anos, da forma mais vívida, todo o pouco que pôde ver de seu canto. Retomando a primeira pergunta, esse é o aspecto maravilhoso da memória dele, que é também a memória de um narrador talentoso. Vocês ressaltam que os pequenos lapsos

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encontrados entre os testemunhos de Levi não diminuem a força de sua obra. Por quê? Levi começou a dar testemunho escrito de sua experiência nos campos desde o momento em que foi libertado. Já na primavera de 1945,em Katowice, escreveu com seu colega prisioneiro Leonardo De Benedetti (um médico mais velho que ele) um relatório sobre as condições de saúde nos campos, requisitado pelo governo soviético. É um documento notável por sua exatidão e pelos detalhes atrozes que informa, tornados ainda mais impressionantes pela linguagem científica, nada emocional, com que são narrados. Dali em diante, Levi continuou a reunir informação sobre seus pares. Quais estavam mortos? Quem tinha sido salvo? Quando e como as vítimas morreram? Como entrar em contato com os poucos sobreviventes? Seu objetivo principal era reconstituir um retrato confiável da situação e comunicá­la àqueles que nada sabiam sobre Auschwitz. Levi testemunhou muitas vezes e de muitas formas: discursando, publicando artigos, escrevendo “É isto um homem?” (lançado na Itália em 1947), depondo no tribunal contra comandantes dos campos ou líderes nazistas que iam a julgamento. Em alguns desses testemunhos, podemos às vezes encontrar uma data, um número ou ou nome errados: pequenos deslizes da memória “maravilhosa mas também falaciosa”. Mas para além desses equívocos menores (que às vezes o próprio Levi corrigia mais tarde), os fatos narrados por ele têm a força, a consistência e o impacto da verdade, que permanece inalterada ao longo dos anos. Toda vez que fala sobre Auschwitz, Levi aborda o tema por uma nova perspectiva, acrescentando detalhes relevantes e desconhecidos que se encaixam numa narrativa coerente que remonta ao primeiro testemunho de 1945. Por isso, no livro, eu e Fabio Levi (coeditor e diretor do Centro Internacional de Estudos http://oglobo.globo.com/cultura/livros/livro­reune­testemunhos­de­primo­levi­sobre­holocausto­17605114

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Livro reúne testemunhos de Primo Levi sobre Holocausto ­ Jornal O Globo

Primo Levi, em Turim) dizemos que esses pequenos erros não diminuem, e sim acrescentam um valor de verdade à história de Primo Levi. Por que Levi temia usos instrumentais desses lapsos? Eles chegaram a acontecer depois de sua morte? Esses usos instrumentais dizem respeito não apenas a Levi, mas ao próprio fato do extermínio. Refiro­me aos “negacionistas” do Holocausto, que não merecem ser chamados de historiadores. Até mesmo “É isto um homem?” tem sido usado para argumentar que, se em Auschwitz havia uma enfermaria, então as condições do campo não poderiam ser tão ruins. (Usando citações incompletas, pinçadas com astúcia, não é difícil reverter a realidade). Mas quem lê o livro, e o relatório sanitário de Levi e De Benedetti logo no início de “Assim foi Auschwitz”, fica sabendo o que foi Auschwitz. O título deste livro póstumo que apresentamos ao leitor brasileiro é de Levi, e é fiel ao seu conteúdo. Qual é o legado mais duradouro dos testemunhos e da obra de Levi, na sua opinião? Acredito que Levi é um escritor essencialmente democrático: um escritor que oferece ao leitor, ao mesmo tempo, liberdade e responsabilidade. É um escritor claro sem ser fácil, irônico sem ser cínico, imaginativo (em seus textos de ficção) sem ser arbitrário, preciso sem ser pedante. Presta atenção quando observa as coisas, e é vigoroso quando as conta. Em resumo, é um homem que estabelece um relacionamento ideal com seu público. E já que por toda a vida ele buscou um público novo, como escritor e como testemunha, espero que o encontre também com “Assim foi Auschwitz”.

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Domenico Scarpa Interview on Così fu Auschwitz

1 - In the introduction, you quote Levi's definition of memory as both "marvellous" and "fallacious". What do these terms mean in Levi's work? La definizione è nel suo ultimo libro, I sommersi e i salvati, del 1986, dove Levi fa un esame critico, a oltre quarant’anni dai fatti, dell’esperienza di Auschwitz. Il primo oggetto sottoposto a esame è appunto la memoria, la memoria in generale e la propria personale memoria in particolare: che è meravigliosa per la capacità di immagazzinare e conservare informazioni, ma è insidiosa per la sua tendenza a trasformarle nel corso del tempo: a perdere molti dettagli e a falsarne altri. Appunto perché è consapevole di queste ricchezze e di questi pericoli, Levi prende la parola in base alla propria esperienza di testimone oculare del Lager. Ma lo fa con l’atteggiamento che potrebbe avere un ricercatore, cioè uno storico chiamato a interpretare dei documenti. Questo duplice sguardo, materiale e intellettuale, è una ragione della sua unicità tra coloro che hanno raccontato la Shoah. 2 - The book gathers 40 years of Levi's testimonies. What are the more consistent traces of his vision of the Holocaust through this time? In Auschwitz, Levi fu un prigioniero senza privilegi. Guardò ogni cosa da un angolo visuale ristretto e collocato al livello del suolo. In Se questo è un uomo adottò un principio rigoroso: riferì solo cose che aveva viste personalmente. Le sue testimonianze di quarant’anni, raccolte in Così fu Auschwitz, rispettano lo stesso principio, e anzi sottolineano spesso i limiti del punto di vista dal quale poté osservare ciò che gli capitava. Però, Levi possedeva una qualità eccezionale: la capacità di attenzione, di registrazione dei dettagli, delle voci, delle storie dei propri compagni. Ha saputo raccontare (anzi, restituire) per 40 anni, nel modo più vivo, tutto il poco che aveva potuto vedere dal suo angolo. E, per tornare alla prima domanda, questo è l’aspetto meraviglioso della sua memoria, che è anche la memoria di un narratore di talento.

3 - You stress that the small lapses found in his testimonies do not undermine the strength of his body of work. Why? Levi ha cominciato a dare testimonianza scritta della propria esperienza in Lager fin dal momento in cui è stato liberato. Già nella primavera 1945 scrisse a Katowice, insieme col suo compagno di prigionia Leonardo De Benedetti (un medico, più anziano di lui), un rapporto sulle condizioni igienico-sanitarie del Lager, richiesto dal governo sovietico. È un documento sbalorditivo per la sua precisione e per i dettagli atroci che riporta, dettagli ancora più impressionanti per il linguaggio scientifico, non emotivo, in cui sono riferiti. Da allora in poi, Levi non ha mai smesso di raccogliere notizie sui propri compagni: chi di loro era morto? chi si era salvato? quando e come erano morte le vittime? come rientrare in contatto con i pochi sopravvissuti? I suoi obiettivi principali erano due: ricostruire un quadro attendibile della situazione e comunicarlo a chi di Auschwitz non sapeva nulla. Levi testimoniò in molti momenti e in molti modi: raccontando a voce, pubblicando articoli, scrivendo Se questo è un uomo (uscito in Italia nel 1947), testimoniando in tribunale contro i comandanti di Lager o i gerarchi nazisti finiti sotto processo. In alcune di queste testimonianze si può trovare a volte una data, una cifra, un nome errato: minuscoli inciampi della memoria,

«strumento meraviglioso ma fallace». Ma al di là di questi errori marginali (che a volte lo stesso Levi si è incaricato di correggere più tardi), il quadro dei fatti raccontati ha una solidità, una coerenza, un impatto di verità fortissimo, che rimane inalterato nel corso degli anni. Ogni volta che prende la parola su Auschwitz, Levi ce lo racconta da una prospettiva nuova, aggiungendo qualche dettaglio pertinente e sconosciuto che va a inserirsi in una descrizione coerente fin dalle prime testimonianze datate 1945. Ecco perché, in Così fu Auschwitz, io e Fabio Levi (co-curatore del libro e direttore del Centro internazionale di studi Primo Levi di Torino) diciamo che quei piccoli errori non tolgono, ma addirittura aggiungono valore di verità al racconto di Primo Levi.

4 - Why did Levi worry about the possible instrumental uses of these lapses? Have these uses happened since his death? Gli usi strumentali riguardano non solo Primo Levi, ma la stessa realtà dello sterminio. Alludo ai cosiddetti «negazionisti», che non meritano la qualifica di «storici». Persino Se questo è un uomo è stato usato per argomentare che in Auschwitz esisteva una infermeria, dunque le condizioni del campo non potevano essere così orribili. (Servendosi di citazioni incomplete, abilmente ritagliate, non è difficile capovolgere la realtà). Ma chi ha letto quel libro, e chi – proprio all’inizio di Così fu Auschwitz – leggerà il rapporto igienico-sanitario di Levi e De Benedetti, vedrà che cosa è stato Auschwitz: il titolo di questo libro postumo che presentiamo al lettore brasiliano è di Levi, ed è fedele al suo contenuto. 5 - What is the more lasting legacy of Levi's testimony and of his work, in your opinion? A me pare che Levi sia uno scrittore essenzialmente democratico: uno scrittore che al suo lettore offre, simultaneamente, libertà e senso di responsabilità. Uno scrittore chiaro senza essere facile, ironico senza essere cinico, fantasioso (nei suoi racconti d’invenzione) senza essere arbitrario, preciso senza essere pedante. È attento quando osserva le cose, ed è vivace quando le racconta. È un uomo, insomma, che con il suo pubblico instaura un rapporto ideale. E dato che per tutta la sua vita è andato in cerca, come scrittore e come testimone, di un pubblico sempre nuovo, spero che lo trovi anche con quest’opera postuma, Così fu Auschwitz.

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