UM CONCEITO DE SER HUMANO NO O CAPITAL DE KARL MARX

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UM CONCEITO DE SER HUMANO NO O CAPITAL DE KARL MARX Hugo Allan Matos1 RESUMO Pretendo mostrar um conceito, de outros possíveis, de ser humano no O Capita2l, sabendo que Marx não propõe uma antropologia, propriamente dita, mas que ele dá a conhecer uma, mostrando como o capital foi humanizado, reificando o ser humano, negando assim, sua alteridade e massificando-o. PALAVRAS-CHAVE Ser humano, capital, reificação, humanização, alteridade, massificação. 1. INTRODUÇÃO Ao pesquisar um conceito de ser humano em O Capital de Marx, deparei-me com uma antropologia bem à frente de seu tempo. Apesar de não formular um conceito de ser humano, Marx nos mostra um, analisando a relação entre homem e natureza. Relação esta que está intrinsecamente ligada ao trabalho, conforme tentarei mostrar. Para entendermos realmente este conceito de homem na obra mais madura de Marx, demandaria uma abordagem mais vertical no que respeita este conceito de trabalho para o filósofo, que não farei aqui, deixando-a para outra oportunidade. Pretendo apenas apontar, em poucas palavras, o modo que Marx diz ser este ser humano e como o capital é contrário à sua natureza. O capital é um sistema que além de privar o homem do que ele é, transforma-o em outra coisa, assumindo propriedades humanas, sendo fetichizado por seus mantenedores.

1

Docente da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo, membro do Núcleo de Estudos de Filosofia Latino-Americana (NEFILAM). Email para contato: [email protected] 2 Tido como o principal livro de Karl Marx.

2. A RELAÇÃO

ENTRE SER HUMANO

FORÇA DE TRABALHO E

TRABALHO Para iniciar a análise desta relação, o farei pelo conceito de força de trabalho, qual Marx tece assim: Por força de trabalho ou capacidade de trabalho compreendemos o conjunto das faculdades físicas e mentais existentes no corpo e na personalidade viva de um ser humano, as quais ele põe em ação toda vez que produz valores-de-uso de qualquer espécie. (MARX, 2003)

Uma vez que só há Capital se houver a venda da força de trabalho como mercadoria, pensei ser interessante iniciar por este conceito. Primeiro porque é aqui que está a essência do Capital, a meu ver, no modo como o ser humano vende sua força de trabalho. Pois, segundo Marx: A natureza não produz, de um lado possuidores de dinheiro ou de mercadorias e, do outro, meros possuidores das próprias forças trabalho. Esta relação não tem sua origem na natureza,

nem

de é

mesmo uma relação social que fosse comum a todos os períodos históricos. Ela é, evidentemente, o resultado de um desenvolvimento histórico anterior, o produto de muitas revoluções econômicas, do desaparecimento de toda uma série de antigas formações da produção social

Assim sendo, o modo como o homem vende sua força de trabalho é histórico. Depois, ao falar do valor da força de trabalho, Marx diz como é visto o detentor desta: Dada a existência do indivíduo, a produção da força de trabalho consiste em sua manutenção ou reprodução. Para manter-se, precisa o individuo de certa soma de meios de subsistência (MARX, 2003 p.201) Depois de ter trabalhado hoje, é mister que o proprietário da força de trabalho possa repetir amanhã a mesma atividade, sob as mesmas

condições de força e saúde. A soma dos meios de subsistência deve ser portanto, suficiente para mantê-lo no nível de vida normal do trabalhador. As próprias necessidades naturais3 de alimentação, roupa, aquecimento, habitação etc. variam de acordo com as condições climáticas e de outra natureza de cada país. Demais, a extensão das chamadas necessidades imprescindíveis e o modo de satisfazê-las são produtos históricos e dependem, por isso, de diversos fatores, em grande parte do grau de civilização de um país e, particularmente, da condição em que se formou a classe dos trabalhadores livres, com seus hábitos e exigências peculiares. (MARX, 2003 apud THORNTON, 1846)

Estas duas citações nos mostra que o detentor da força de trabalho – todo ser humano – precisa de certa subsistência para conseguir desenvolvê-la. Subsistência esta que é constituída das necessidades básicas, que são contingentes, ou seja, históricas. Penso que seja ainda interessante refletirmos com Marx o que são estas necessidades. No começo do primeiro capítulo do primeiro livro de O Capital, ao investigar a mercadoria – ou o produto do trabalho humano, despersonificado- , nos diz que esta é antes de tudo, algo que satisfaz necessidades humanas, todas as necessidades humanas e portanto, não só as de subsistência, ele enfatiza isso assim: “...satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia”. (MARX,2003 apud Nicholas Barbon, 1696). Na própria nota de citação, ele ainda acrescenta: “Desejo envolve necessidade; é o apetite do espírito e tão natural como a fome para o corpo. (…) A maioria [das coisas] tem valor porque satisfaz as necessidades do espírito.” Penso ser necessário acentuar ainda, a herança da venda da força de trabalho, que por meio da procriação, cria a reserva de mão de obra necessária para substituir os mortos e os que se tornam inúteis a este fim, perpetuando também a “essa raça peculiar” dos detentores do Capital. (MARX, 2003, p.202) Aqui Marx é direto no que nos interessa. Uma das poucas vezes em que ele usa o conceito de natureza humana no O Capital, ele se refere no importante papel que presta a educação:

3 Destaque meu.

A fim de modificar a natureza humana, de modo que alcance habilidade e destreza em determinada espécie de trabalho e se torne força de trabalho desenvolvida e específica, é mister Educação ou treino (MARX, 2003, p.202)

Ou seja, a função da educação, neste sistema, é a de domesticar, modificando a natureza do ser humano, a fim de adequá-lo à exploração do sistema capitalista, perpetuando as duas classes: do proletariado e a da burguesia. Agora perceberemos claramente a diferença entre força de trabalho e trabalho e a relação do ser humano com ambas. Marx deixa claro que a utilização da força de trabalho é o próprio trabalho. No conceito de trabalho, Marx dá também um conceito de ser humano, qual ele vai adicionando características no decorrer de sua obra. Vejamos: Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercambio material com a natureza. Defrontando-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo – braços e pernas, cabeça e mãos -, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza.4 Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais […] Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. (MARX, 2003, p.211)

Penso que aqui está a idéia central do que Marx entende como ser humano. Antes, havia mostrado que para ele as necessidades humanas são contingentes. A meu ver, aqui, Marx dá um conceito de ser humano, enquanto protagonista histórico, ao mesmo tempo que pertencente a história e é determinado por ela. Ou seja, o ser humano modifica a natureza a seu favor, através do trabalho. Como participa da natureza que modifica, modifica a si mesmo, criando novas necessidades e trabalhando para satisfazê-las. O ser humano é um ser interminado, incompleto, 4 Destaque meu.

sempre e este trabalho é essencial ao homem em qualquer forma de sociedade, como podemos perceber: “... O trabalho, como criador de valores-de-uso, como trabalho útil, é indispensável à existência do homem – quaisquer que sejam as formas de sociedade -, é necessidade natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre o homem e a natureza e, portanto, de manter a vida humana. (MARX, 2003, p.64-65) Mas, esta relação não termina aí. Uma frase em especial me chamou a atenção.

Quando

Marx

está

falando

sobre

a

fórmula

geral

do

capital,

especificamente da simples circulação da mercadoria ele diz: “A troca de produtos, dos diferentes materiais5 em que se encarna o trabalho social, é o que constitui a substância do movimento”. (MARX, 2003, p.180) Fiz questão de destacar novamente a parte que mais nos interessa aqui. Quando Marx se refere aos produtos de diferentes materiais, me parece coerente afirmar que é a diversidade dos produtos que possibilita a circulação simples, e portanto o trabalho social6. Isso nos remete à afirmação de que para criar diferentes produtos, os seres humanos, precisam ser diferentes, pois como já mostrei anteriormente, para Marx, o homem cria os produtos de acordo com suas necessidades. E assim sendo, o ser humano, é distinto um do outro, áltero, e é esta alteridade que permite o valor de uso, na troca de mercadorias do trabalho social. 3. O CAPITALISMO FETICHIZADO: O que pretendo aqui é apontar como o capital nega esta alteridade do ser humano, reificando-o e tomando seu lugar. Para isso, como anteriormente, farei algumas citações, comentando-as. Marx deixa expresso em várias partes de sua obra que foram atribuídas características humanas ao capital assim como, o homem é reificado por este. Basta saber que vivemos num mundo antropocêntrico, para concluir que se o capital tomou 5 Novamente destaque meu. 6 Trabalho este que é intrínseco à natureza humana e contraditório ao trabalho explorador do sistema capitalista. Enquanto no capitalismo a prerrogativa que torna o trabalho social é a de que cada um cuidando de seus interesses privados acaba por refletir no interesse geral e as relações ficam restritas às relações tais como as conhecemos, abstratas, fragmentadas, coisificadas, etc...- sob os preceitos de que tempo é dinheiro, e portanto quanto mais trabalhar, mais dinheiro terei, o que bem sabemos que é mentira!-. No trabalho comunitário, todos os trabalhadores têm o controle e participação nos meios de produção, tal participação garante relações concretas e edificantes, sem contar que o tempo de trabalho é tal que permite a todos tempo livre necessário para realizações pessoais e participação na política.

o lugar do ser humano, transformando-o em coisa, estamos num mundo capitalcêntrico. Vejamos: Como representante consciente desse movimento, o possuidor do dinheiro, torna-se capitalista. Sua pessoa, ou melhor, seu bolso, é donde sai e para onde volta o dinheiro […] funcionará ele como capitalista, ou como capital personificado, dotado de vontade e de consciência. (MARX,2003, p.183)

Perceba que o capitalista, portanto, se deixa objetivar, se reifica para tornarse capital personificado. Ele já não é mais uma pessoa, pois o que importa é seu bolso. O valor passa continuamente de uma forma para outra, sem perderse neste movimento, transformando-se numa entidade que opera automaticamente [...] tem formas alternadas de manifestar-se no ciclo de sua vida […] Na verdade, o valor torna-se aqui o agente de um processo... (MARX,2003,p.184)

...entra, por assim dizer, em relação consigo mesma. Distingue em si mesma seu valor primitivo de seu valor excedente, como Deus distingue, em sua pessoa, o Pai e o Filho; ambos os valores formam na realidade uma única pessoa... (MARX, 2003, p.185)

“Passa”, “sem perder-se”, “transformando-se”, “manifestar-se no ciclo de sua vida”, “o agente de um processo”. Estamos falando de dinheiro! Ele faz tudo isso! Um objeto que criou vida! E muito mais que isso: se relaciona consigo, faz distinção – que é uma operação racional, portanto, pensa – e tem a capacidade de ser dois em um, assim como Deus consegue ser três em um. Ou seja, atribuíram ao capital a vida, o tornaram uma pessoa, com características divinas. Não interessa ao possuidor do dinheiro saber por que o trabalhador livre se defronta com ele no mercado de trabalho. (MARX,2003, p.199)

Como já vimos anteriormente, só há o capitalismo, ou seja, o lucro do detentor do dinheiro, se este encontrar força de trabalho como mercadoria –

mercadoria mal-paga e explorada, pois só há lucro, se houver exploração e proveito tirado da compra de mão de obra, por um preço menor do que ela vale - . E para que isso ocorra, é necessário que seja ...oferecida ou vendida como mercadoria pelo seu próprio possuidor […] ele e o possuidor do dinheiro encontram-se no mercado e entram em relação um com outro como possuidores de mercadoria, dotados de igual condição, diferenciando-se apenas por um ser o vendedor e outro o comprador, sendo ambos, juridicamente, pessoas iguais. A continuidade dessa relação exige que o possuidor da força de trabalho venda-a sempre por tempo determinado, pois, se a vender de uma vez por todas, vender-se-á a si mesmo, transformando-se de homem livre em escravo […] Segunda condição essencial para o possuidor do dinheiro encontrar no mercado força de trabalho como mercadoria: o dono desta força não pode vender mercadorias em que encarne seu trabalho, e é forçado a vender sua força de trabalho, que só existe nele mesmo. (MARX, 2003, p.198)

4. Uma Conclusão Possível Creio que neste pequeno artigo ficou bem explícito um conceito de ser humano para Marx em O Capital. O fato de sermos produto e protagonistas de nossa história e portanto, de nós mesmos, é bem conhecido nos discursos marxistas. Entretanto, tentei acentuar a importância que Marx dá ao indivíduo em sua alteridade. Nos grundrisse, ele critica inclusive os socialismos ditos reais que massificavam o ser humano, tal como o capitalismo, limitando as relações sociais na circulação de mercadorias, transformando o vínculo social das pessoas em relação de coisas. Mas isso é tema para outra oportunidade. Em O Capital, me parece que Marx dá uma ênfase na economia, abusando inclusive do economiquês. Contudo, o faz, explicitamente, por ser uma exigência de sua época, sobretudo, pensando numa herança para as próximas gerações – a meu ver -, pois, como previu sabiamente a fetichização do dinheiro, enquanto centro da sociedade capitalista, a ciência que mais se importaria com isso, seria mesmo a econômica.

Neste tempo de crise generalizada7, penso que no campo econômico, assim como em todos os outros, devemos pensar novos modelos cujos, devem necessariamente, a meu ver, estarem submetidos à ética, de tal forma que a antropologia deve ser o centro e conforme tentei mostrar neste pequeno texto, seja qual conceito antropológico for, não pode deixar de contemplar duas características: somos contingentes. Assim como tudo o que fazemos, ou seja, todos os produtos de nosso trabalho, são contingentes, seja em qual campo for. Sendo assim, não é possível que qualquer produto nosso, ou nós mesmos, nos fetichizemos. Marx o contemplou de forma profética, em O Capital, inclusive denunciado a fetichização do capital e a reificação do ser humano. A segunda característica, que a meu ver está bem implícita na obra mais madura do filósofo, mas que tem uma importância primordial, conforme tentei mostrar aqui é a de que somos álteros. Sem a alteridade respeitada, nos tornamos massa e toda massa não só é fácil de ser manipulada, como parece exigir manipulação que a dê sentido. Somos portanto, seres humanos, contingentes e produtos de nossa história, mas também protagonistas dela, deixando, através de nossa alteridade. REFERÊNCIA

MARX, Karl.O Capital. Vol. I e II, Tomo I, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.2003.

7 Não só financeira, mas ética, política, epistemológica, etc...

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