A Economia do Mar: Naufrágios Romanos e a Exportação de Preparados de Peixe Lusitanos

June 1, 2017 | Autor: Sónia Bombico | Categoria: Maritime Archaeology, Ancient Shipwrecks
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A Economia do Mar: Naufrágios Romanos e a Exportação de Preparados de Peixe Lusitanos Sónia Bombico (CIDEHUS-Universidade de Évora) Tanques de salga de Tróia

Áreas de produção de preparados de peixe em Portugal e “complexo produtivo” do Estuário do Sado

A produção de preparados de peixe na Lusitânia A antiga província romana da Lusitânia produziu e exportou preparados de peixe, envasados em ânforas, para todo o Mediterrâneo. Produziram-se salgas de peixe (salsamenta) e molhos (garum, hallex, liquamen, muria, etc.), com especial destaque para os produtos à base de sardinha. As grandes áreas produtoras localizam-se, principalmente, nas desembocaduras dos principais cursos fluviais do sul do território português, com destaque para os estuários do Tejo e do Sado. Também o litoral alentejano (Sines e Ilha do Pessegueiro) e toda a costa algarvia foram produtoras de preparados de peixe e respectivos contentores anfóricos. O sistema produtivo inclui: a pesca, a exploração do sal, e a existência de oficinas de transformação com cetariae (tanques para salga) e de centros oleiros produtores de ânforas.

Trata-se de uma produção com características “industriais” que se desenvolveu a partir dos finais do século I a.C., e que se vai prolongar no tempo até ao século VI d.C. O volume produtivo estimado levou os vários autores e investigadores a considerar que a produção teria no mercado da exportação um destino lógico e espectável. No âmbito do projecto de doutoramento em curso tem-se procurado aferir os principais destinos dessa exportação e os seus ritmos.

Ânforas e Naufrágios – Fontes arqueológicas para o estudo da História Económica A pesquisa levada a cabo permitiu inventariar um conjunto total de 130 registos de sítios subaquáticos: 51 sítios de naufrágio, 15 sítios de provável naufrágio e 64 sítios de achado isolado ou de fundeadouro. De entre esse vasto conjunto de sítios, com ânforas de “tipo lusitano”, foi possível individualizar um grupo de 25 sítios de naufrágio em que a presença de ânforas lusitanas está indubitavelmente confirmada. Com base nessa amostra desenvolvemos um modelo interpretativo da evolução cronológica da exportação, dos tipos de carga dos navios e das rotas de navegação utilizadas. Desde logo salta à vista a diversidade de tipologias de carga que são transversais à diferentes épocas.

Tipo de Carga Nº A1

5

Carga maioritária e exclusiva

Naufrágios Segunda metade do séc. I a meados do II d.C.

Grum de Sal Dressel 14 Cap Bénat 1 Dressel 14 Finais do séc. III – Primeira metade do IV d.C.

Escolletes 1 Almagro 51c, Alamgro 50, Keay 78/Sado 1 e Dressel 28 (?) Randello Almagro 50 Finais do séc. IV a meados do V d.C.

Cala Reale A Sado 3, Almagro 51c, Beltrán 72 e Almagro 51c A2

7

Carga maioritária numa carga heterogénea com ânforas de outras proveniências (hispânica e/ou norte-africana)

Segunda metade do séc. I a meados do II d.C.

Bajo de la Campana3 Dressel 14 Punta Sardegna A Dressel 14 Finais do séc. III – Primeira metade do IV d.C.

Punta Vecchia 1 Almagro 51c Fontanamare A/Gonnesa Sito A Almagro 51c e Keay 78/Sado 1 Pleno séc. IV d.C.

Chrétienne D Almagro 51c Mandriola A Almagro 51c Finais do séc. IV a meados do V d.C.

Sud-Lavezzi 1 Almagro 51a-b, Almagro 50/Keay 78, Beltrán 72 e Almagro 51c B1 Carga conjunta com ânforas de outras proveniências (hispânica e/ou norte -africana), onde as ânforas lusitanas estão equilibradamente representadas, constituindo em alguns casos parte da carga secundária

B2

8

Punta Ala A Almagro 51c Finais do séc. III – Primeira metade do IV d.C.

Cabrera I Almagro 51c e Almagro 50 (?) Marzameni F Almagro 51c e Almagro 50 (?) Pleno séc. IV d.C.

Golfo de Asinara – Daedalus 3 Almagro 51c Planier 7 Almagro 51c e Almagro 50 (?) Segunda metade do séc. IV a meados do V d.C.

Puerto de Cartagena – Yacimiento 2 Almagro 51c e Almagro 50 (?) 3

Meados do séc. II d.C.

Tiboulen-de-Maire Dressel 14 Meados do séc. III d.C.

Cabrera III Almagro 51c Pleno séc. IV d.C.

Femina Morta Almagro 51c 1

Casos em que a sua reduzida quantidade parece indicar que fariam parte das dotações de bordo

Escombreras 4 Dressel 14 Porto de Mahón Dressel 14 Meados do séc. III d.C.

Carga secundária, estando presentes em quantidades minoritárias

C

Segunda metade do séc. I a meados do II d.C.

Meados do séc. III d.C.

Porticcio A Almagro 51c

Nota: O naufrágio de Golfo de Asinara – Daedalus 2 não se encontra contabilizado nas tipologias de carga por dificuldade de classificação. Este naufrágio revela a existência de uma carga onde várias dezenas de ânforas lusitanas Almagro 51c surgem, provavelmente, associadas ao comércio de mineral ou minério.

1-Puerto de Cartagena Yacimiento 2; 2- Bajo de la Campana 3; 3- Escolletes 1; 4- Escombreras 4; 5- Grum de Sal; 6- Cabrera I; 7- Cabrera II; 8- Porto de Mahón; 9- Planier 7; 10- Tiboulen-de-Maire; 11- Cap Benát 1; 12- Chrétienne D; 13- Punta Vecchia 1; 14- Punta Ala A; 15- Porticcio A; 16- SudLavezzi 1; 17- Punta Sardegna A; 18-Golfo de Asinara-Daedalus 3; 19-Golfo de Asinara-Daedalus 2; 20- Cala Reale A; 21- Mandriola A; 22- Fotanamare A; 23- Femina Morta; 24- Randello; 25- Marzameni F

Evolução Cronológica 7 6 5 4 3 2 1 0

Naufrágios

Naufrágio de Cala Reale A (Sardenha) Dressel 14

Bibliografia

Almagro 51c

Keay 78/Sado 1 Almagro 51 a-b

“Beltrán 72” similis

BOMBICO, S. (2015) - “Salted-Fish industry in Roman Lusitania: Trade Memories between Oceanus and Mare Nostrum” in Filipe Themudo Barata and João Magalhães Rocha (Eds.) Heritages and Memories from the Sea - Conference Proceedings,1st International Conference of the UNESCO Chair in Intangible Heritage and Traditional Know-How: Linking Heritage, Évora, p.19-39. ÉTIENNE, R. e MAYET, F. (1993-1994) - “La place de la Lusitanie dans le commerce méditerranéen” in Conimbriga, 32-33, p. 01-218. FABIÃO, C. (2009) - “Cetárias, ânforas e sal: a exploração de recursos marinhos na Lusitânia” in Estudos Arqueológicos de Oeiras, 17, p. 555594. PARKER, A. J. (1992) - Ancient shipwrecks of the Mediterranean and Roman Provinces, BAR International Series 580.

Sado 3

CIDEHUS - UID/HIS/00057/2013 (POCI-01-0145-FEDER-007702)

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