A RELAÇÃO ENTRE O HOMEM E O ANIMAL SILVESTRE COMO UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

May 30, 2017 | Autor: M. Quaranta Gonça... | Categoria: Educação Ambiental, Biodiversidade, Conservação Da Biodiversidade, Tráfico de Animais Silvestres
Share Embed


Descrição do Produto

Categoria Trabalho Acadêmico / Artigo Completo Eixo Temático – Educação Ambiental

A RELAÇÃO ENTRE O HOMEM E O ANIMAL SILVESTRE COMO UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Márcio Luiz Quaranta Gonçalves 1 Luciano Bonatti Regalado 2

Resumo: As pessoas sentem medo ou agem com maldade ao encontrarem animais silvestres, atribuem-lhes símbolos e os ofendem com preconceitos. Este artigo analisa as relações entre o Homem e as espécies da fauna silvestre através do tempo, com destaque para a destruição de hábitats, a caça, o tráfico de espécimes da fauna silvestre brasileira e a resultante perda de biodiversidade, além de comentar suas possíveis seqüelas sobre a vida na Terra e sobre a própria existência humana. A educação ambiental desponta como um caminho para modificar a relação que existe entre o Homem e os animais silvestres, da dominação e massacre para o compartilhamento do planeta, objetivo que só será atingido através do respeito a todas as formas de vida. 1

Mestre em Educação - Analista Ambiental, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. [email protected] 2 Doutor em Engenharia Ambiental - Analista Ambiental, FLONA de Ipanema – Inst. Chico Mendes de Cons. da Biodiversidade Página de 309 a 330

Palavras-chave: animais silvestres, simbolismo animal, extinção, biodiversidade, tráfico da fauna silvestre brasileira, educação ambiental. Abstract: The persons feel fear or act with badness when finding wild animals; they attribute symbols to them and offend them by preconceptions. This article analyzes the relations between the Man and the species of the wild fauna through the time, with prominence for the destruction of habitats, the hunting, the traffic of the Brazilian wild fauna and the resultant loss of biodiversity, beyond commenting its possible sequels on the life in the Earth and on the proper existence of human being. Environmental education blunts as a way to modify the relation that exists between the Man and the wild animals, of the domination and slaughter for the sharing of the planet, objective that will only be reached through the respect to all the life forms. Key-words: wild animals, animal symbolism, extinction, biodiversity, Brazilian wildlife traffic, environmental education.

INTRODUÇÃO

Mesmo sem ser dotado de coragem mediana, não senti nem medo nem tremores [...] quando, em uma bela tarde de verão californiana, um longo tête-à-tête que tive com um puma da montanha obrigou-nos ambos a um exame cuidadoso de nossos respectivos corpos. Esse êxtase [...] nos tornou um a presa do outro e fez o mundo ao redor desaparecer, essa situação sem escapatória poderia ter engendrado o terror. [...] o primeiro dos dois a baixar a cabeça perderia sua soberba e, ao fugir, aceitaria endossar o papel do caçado que curvaria a espinha e desviaria os olhos; aquele que, no entanto, não mostrasse as costas triunfaria na experiência. [...] Quando, lentamente, levantei os braços ficando na ponta dos pés para aumentar um pouco minha estatura, a perigosa fera também afastou-se bem devagarinho sem deixar de fixar minha face. [...] Depois de nos exibirmos um para o outro e de examinarmos nossos corpos verdadeiros, sem disfarces nem camuflagens, nós nos deixamos (SERRES, 2003, p. 107-108).

Um dia na primeira semana do segundo semestre letivo de um ano na década de 80. Um docente de biologia leva seus alunos ao Jardim Botânico de São Paulo. Próximo ao local conhecido como “Castelinho”, um adolescente diz: “Professor, tem Página de 309 a 330

um rato no lixo”. Dentro de um tonel de plástico usado para coleta de lixo, cheio de resíduos até a metade de sua altura, agita-se um gambá. O cilindro é colocado na horizontal: o animal silvestre escapa do recipiente e se embarafusta na mata... “Olha a anta da sua professora”, diz um menino ao colega, junto ao recinto das antas no Zôo. Uma professora anota a fala e a leva para um debate na aula de um curso de Educação Ambiental no Zoológico de São Paulo, nos anos 90. Konrad Lorenz e sua esposa caminhavam por uma floresta, quando um rapaz em uma bicicleta passou por eles, com um rádio em alto volume. Ela comentou: “Eis alguém que tem medo de ouvir o canto dos pássaros!” (LORENZ, 1974, p. 47). Ano de 2002: dois professores levam alunos ao pico do Jaraguá; na descida pela trilha, em uma área de mata, duas adolescentes gritam e correm. Atrás delas, um macaco-prego; este pára diante de um adulto e encara-o, apoiado só nas patas traseiras, com a boca aberta e os dentes arreganhados. O biólogo o observa: após alguns minutos, o mico desiste da encenação e foge... Encontrar animais silvestres, como quatis e bugios, é comum em excursões a parques como o da Cantareira, em São Paulo. Um dos autores deste artigo e um amigo passaram, em uma ocasião, pelo meio de um bando de quatis a fuçar restos de comida humana em coletores de lixo, de uma área para piquenique, no final de uma trilha. Os pequenos carnívoros se afastaram lentamente ante sua passagem. Os outros animais se ligam ao ser humano, desde a pré-história, pela magia e feitiçaria (forma de controle), na caça e no sacrifício, como totens ou deuses. Para Honecker (1997), o Homem manifesta sentimentos ambivalentes quanto aos animais (inveja, humilhação, rejeição, exaltação), projeta neles ódio, desejo, paixão, medo e temor, atribui-lhes um simbolismo. A imaginação associa a coruja, o morcego, o sapo e a serpente, à feitiçaria; cria entes fantásticos como dragões e hidras; mistura o corpo humano ao de outros seres (deuses do antigo Egito, criaturas mitológicas). O sapo, animal lunar, deus das chuvas, símbolo sexual e da morte, responsável por eclipses, representa o Diabo. A ctônica serpente liga-se à Deusa Mãe, à água e à terra, ao terror primordial, à fecundidade, às chuvas, à morte e ao renascimento. O beija-flor, condutor de almas, salva a humanidade da fome, simboliza a virilidade. O jaguar conduz almas, devora astros, causa eclipses, representa a Deusa Lua-Terra,

Página de 309 a 330

um herói civilizador e primeiro utilizador do fogo. O macaco, símbolo sexual, mago, deus artista, herói civilizador, inventor do fogo, encarna o Diabo, representa o Sol. Animais estão presentes em inúmeros contos e lendas de todo o mundo; nos brasileiros, insetos, sapos, serpentes, cágados, jabutis, teiús, jacarés, beija-flores, pássaros, garças, urubus, papagaios, onças, raposas, macacos, veados e monstros de várias cabeças participam de aventuras, às vezes em auxílio aos seres humanos, em outras, a pregar-lhes peças (ROMERO, 2002). A diversidade cultural se origina da natural. Para Wilson (2002), o conceito de biodiversidade, a variabilidade dos organismos, admite três níveis de diferenças: entre ecossistemas; entre espécies de um ecossistema; na composição genética dos indivíduos de uma espécie. Quanto maior a sua biodiversidade, mais estável um ecossistema. Estima-se que existam de 3,6 a 10 milhões de espécies no planeta, mais de metade nas florestas tropicais. Uma das mais ameaçadas, a Mata Atlântica, reduzida a menos de 10% de sua dimensão original, está no Brasil, país campeão da biodiversidade, que abriga entre 10 e 20% de todas as espécies da Terra. Um dos sentimentos que o ser humano nutre por outros animais é a biofilia, a tendência de se ligar emocionalmente a eles. Uma feliz irracionalidade, a biofilia é, em parte, instintiva e, em parte, aprendida. O sentimento oposto, a biofobia, reação adversa à presença de outra espécie viva, varia do desconforto ao temor, como na aversão às serpentes (WILSON, 2002). Como se sentem outros animais, como os bugios e quatis da Cantareira, os macacos-prego do Jaraguá, em relação a um ser humano? E um animal preso em uma gaiola ou jaula? Desde a época em que os animais eram sagrados e totêmicos, em que espécies consideradas boas eram bem tratadas, e as ruins perseguidas, há um contrato animal de compartilhamento da Terra por todas as espécies animais, que a humana pouco respeita, pois abusa de outros seres vivos (MORRIS, 1992).

O ANIMAL SILVESTRE NA RELAÇÃO HOMEM-NATUREZA

Uma extinção dramática de grandes mamíferos e aves terrestres ocorreu bem no início do período neolítico e coincidiu com a expansão do homem agrícola. A ansiedade deste pela proteção dos campos cultivados e dos Página de 309 a 330

rebanhos pode explicar a atitude de matar tudo o que se move, a qual está profundamente enraizada nas tradições populares em grande parte do mundo. E a destruição dos grandes animais não foi motivada apenas por considerações utilitárias. No Egito, os faraós e a nobreza providenciavam para que grandes quantidades de animais fossem levadas para cercados onde eram acuados e abatidos a flechadas. Os assírios foram [...] tão perversos destruidores de animais – leões e elefantes, por exemplo – quanto […] de homens. Os hábitos antigos de caça reduziram imensamente certas grandes espécies animais e em alguns casos determinaram a extinção completa das mesmas (DUBOS, 1975, p. 129).

A palavra natureza: essência de algo, seu conjunto de qualidades intrínsecas, de características de uma pessoa ou coisa, o espírito de um lugar, a presença de fatores ocultos sob uma realidade humana ou social (idem, ibidem). Ela acolhe e sustenta o Homem, permite sua sobrevivência, se ele não abusar, não a privar nem se privar do que ambos necessitam, numa relação sujeito-sujeito (SERRES, 1994). Natureza também significa disposição, impulso ou poder inato, como na expressão natureza humana: poder criativo e regulador a operar no mundo, imediata causa de todos os seus fenômenos, ela abrange o mundo físico, natural, como um todo. A figura da Mãe Natureza, fonte e sustentáculo de toda a vida, apresenta um aspecto ambivalente: destruir para criar (SHELDRAKE, 1993). Em poucos locais ainda se encontram áreas virgens, a natureza ou ecossistemas em estado puro, pois em toda parte prevalece a ação humana (WILSON, 2002). Embora a cultura consista em uma continuidade da natureza (SERRES, 2003), a civilização ocidental as antagoniza; a primeira, tida como superior, submete a segunda. No século VI A.C., os primeiros filósofos da antiga Grécia desenvolveram o conceito de physis, como aquilo de onde tudo emana, a origem de todas as coisas. Mesmo com o primado da razão, a partir de Platão e Aristóteles, manteve-se uma concepção de natureza viva, animada e inteligente, em que se inseria o Homem. A este a Bíblia conferiu o domínio sobre a Natureza e os outros animais, aceito pelo Cristianismo (MORRIS, 1992). Porém, persistiu a noção de natureza viva na Europa medieval (pregada por cristãos como São Francisco de Assis): houve uma síntese das teorias gregas sobre a natureza, da tecnologia romana, de tradições locais précristãs e da religião cristã (SHELDRAKE, 1993). No Renascimento, o sujeito Homem ocupou o centro do universo e consagrou seu poder sobre o objeto natureza, a ser estudado pelo método científico criado a partir da filosofia de Bacon e Descartes, da Página de 309 a 330

matemática e física de Galileu, Kepler e Newton: uma natureza sem vida, mecânica. Os animais, criados por Deus, sem alma, eram apenas máquinas mais organizadas do que as mecânicas de origem humana (DESCARTES, 1999). Para Prigogine e Stengers (1997), a ciência moderna rompeu a ligação animista com a Natureza, no exterior desta colocou o Homem. Imperaram o domínio sobre o outro (ser humano de outra cultura, natureza, animais) e o valor de mercado, não o intrínseco da vida; a natureza só servia ao desenvolvimento econômico (DUBOS, 1975; SHELDRAKE, 1993). Mas a destruição da natureza e de espécies animais remonta à pré-história, quando desapareceram grandes mamíferos (mamute, preguiças) e aves terrestres. Na Austrália, os aborígenes, ao atearem fogo na vegetação, reduziram a população de muitas espécies de marsupiais. Na China e no Japão, o discurso de santidade da natureza não a poupou da rapina. Em todas as épocas, em todo o mundo, o Homem saqueou a natureza, rompeu o equilíbrio ecológico por ignorância, falta de previsão sobre suas ações e pela preocupação com vantagens imediatas, não com metas de longo prazo. O esbanjamento piorou com a Revolução Industrial, o crescimento da população e os meios cada vez mais poderosos disponíveis para destruição (DUBOS, 1975). Pessoas “civilizadas”, urbanas, no seu dia-a-dia, entram em contato quase só com artefatos de origem humana e perdem a capacidade de se relacionar com outros seres vivos; maltratam-nos, não percebem que algo vivo exterminado não volta a viver (LORENZ, 1986); muitas desejam um mundo só com humanos e máquinas (MORRIS, 1992). A ciência moderna reducionista levou o Homem a tratar a natureza e o universo como poços de infindas riquezas, privilegiou o modelo único de desenvolvimento; o próprio ser humano não passa de uma pequena engrenagem em um universo mecânico (D’AMBROSIO, 1997). A teoria mecanicista da natureza, pela qual esta é inanimada e morta, triunfante, verdadeira religião, incentivou o mito do progresso econômico, levou a humanidade e a Terra a uma crise (SHELDRAKE, 1993). Em nome da razão, dilapidam-se recursos extraídos do mundo vivo, acreditase apenas na ciência e tecnologia; a longo prazo, isso prejudica a própria espécie humana, que necessita proteger-se de si mesma (DORST, 1973); um ser humano alienado, inconsciente, orgulhoso, pratica crimes contra a natureza viva (LORENZ, 1974), mistura violência rara e sabedoria extrema (SERRES, 2003). No desenho A Era do Gelo (2004), o mamute Manfred desabafa: “Eu não gosto de animais que Página de 309 a 330

matam por prazer”. Morris (1992) entende que a espécie humana tornou-se uma praga a infestar o planeta, por se multiplicar com exagero, e a maior ameaça a si mesma: rompeu o contrato animal, causou danos ecológicos como destruir florestas e outras regiões selvagens, rasgou a teia da vida, alterou o clima terrestre. Distante dos outros seres vivos, o Homem considera-se um Deus, um ser fora da natureza, pensa de maneira não biológica, tenta resolver tudo apenas pela razão; domesticou e escravizou animais para servi-lo, usou macacos para divertir-se, massacrou leões, elefantes e hipopótamos nos circos e anfiteatros romanos, extinguiu-os nas regiões onde eram capturados. (Espetáculos com animais persistem nos circos.) A caça, em tempos primitivos uma maneira de obter alimento, tornou-se uma forma de contrato animal para o lazer de homens “civilizados”, que perseguem por prazer e cruelmente matam outros seres com poderosas armas (pela excitação de desafiar um animal “feroz” e derrotá-lo). A selvageria animal, reação ao Homem, é desculpa para eliminar o outro ser, pendurar sua cabeça empalhada em uma parede e utilizar sua pele como tapete (ou destiná-la a roupas da moda). O ser humano pouco se importa com o sofrimento do animal caçado. Penas para abrigo e adorno são retiradas de aves que guardam ninhos: sua morte acarreta a dos filhotes. A injustificada fama medicinal dos “chifres” dos rinocerontes causa sua progressiva extinção; eliminamse hábitats e espécies endêmicas que os habitam (WILSON, 2002). O Brasil, onde os indígenas capturavam e criavam animais, como macacos e papagaios, descrito por Caminha como paraíso farto de recursos, com uma pródiga natureza, incitou a cobiça de exploradores ávidos por riquezas (o persistente mito da natureza infinita, inesgotável, disponível para saque). Dizimou-se a biodiversidade, estimulou-se a captura e o tráfico de animais nativos e de produtos da fauna (como carne e peles). Animais domésticos competiam com os nativos ou os predavam. Se a natureza era obstáculo ao desenvolvimento, não havia dúvidas em exterminá-la. O desenvolvimento industrial e a necessidade de energia exacerbaram a devastação (DEAN, 1996). Continua tênue o sentimento de preservar a natureza e os animais. Muitas pessoas cometem crimes ambientais como poluir praias, desmatar encostas, vender e comprar animais silvestres em feiras livres; poucas repudiam esses atos (RAMINELLI, 1999). Espécies da Mata Atlântica desapareceram sem se tornarem

Página de 309 a 330

conhecidas pelo meio científico, exemplo de insensato extermínio de criaturas que sequer receberam um nome (DEAN, 1996; WILSON 2002). Para Lopes (2002), as piores ameaças à fauna silvestre brasileira são a perda de hábitats e o tráfico. Cerca de 90% do comércio de animais silvestres é ilegal. Nas comunidades do interior do Brasil persiste a crença em uma natureza inesgotável; pessoas capturam animais silvestres para alimentar-se, usá-los como xerimbabos e para reforçar a renda familiar; coletores jovens, subempregados, desempregados, lavradores e pescadores, vendem-nos a motoristas de caminhão ou de ônibus que viajam entre as regiões de captura (Norte, Nordeste, Centro-Oeste) e os maiores centros urbanos (principais mercados consumidores internos: o Rio de Janeiro e a região metropolitana de São Paulo). Os animais são vendidos em “feiras do rolo”, como a de Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro, ou similares nos bairros periféricos de São Paulo, e mesmo em lojas. O tráfico internacional de animais silvestres, terceiro mercado ilegal mundial, perde em cifras somente para os de armas e drogas; segundo Oliveira (2002), no Brasil ele movimenta anualmente de US$ 1,5 a US$ 2 bilhões, cerca de 15% de seu valor total no planeta. Freqüentemente associa-se ao narcotráfico. Elabras (2002) informa que um espécime vendido na fonte do tráfico por R$ 2,50 atinge no mercado internacional o valor de US$ 2000 (papagaio-verdadeiro), US$ 4500 (papagaio de cara roxa) ou US$ 10000 (arara-canindé). No mercado nacional, há forte demanda pelas espécies Ara ararauna (arara-canindé), Amazona amazonica (papagaio-domangue), Amazona aestiva (papagaio-verdadeiro), Callithrix jacchus (sagüi-de-tufobranco); Cebus apella (macaco-prego); o mercado internacional prefere beija-flores, papagaios Amazona brasiliensis (cara roxa) e Amazona pretrei (charão), araras Ara chloroptera e Ara macao (vermelhas), Anodorhynchus hyacinthinus (azul), jandaias e micos-leões. Lopes (2002) cita o transporte em gaiolas, maletas adaptadas, latas de massa corrida ou tinta, tubos de PVC, bexigas e caixas de madeira, na cintura ou no tornozelo de pessoas, sob a roupa. Traficantes quebram o osso do peito de araras, que sentem forte dor e ficam imóveis; apertam papagaios e araras em tubos de PVC dentro de malas; embriagam macacos com cachaça, para ficarem dóceis; aplicam sedativos para o animal dormir no transporte; furam olhos de pássaros, e esmagam suas cabeças para não serem apreendidos vivos (OLIVEIRA, 2002). Psitacídeos e Página de 309 a 330

sagüis tingidos ou descoloridos passam por espécies mais valiosas; sacos plásticos contêm serpentes e cocaína; ovos de tucanos, papagaios e araras, dentro de coletes ou casacos, ficam quase em contacto com o corpo da pessoa; os espaços mínimos, os sedativos, a sede, a fome, as más condições de transporte provocam fraturas e a morte dos animais; cerca de 90% dos espécimes falecem no transporte (PONTES, 2002). Funcionários das alfândegas e de companhias aéreas facilitam o tráfico, que não se restringe aos animais vivos e ovos: inclui subprodutos da fauna como penas, conchas e extratos, e até material fóssil. Criadores particulares legais sequiosos de aumentar os plantéis, apreciadores de carnes exóticas e empresas multinacionais constam entre os principais clientes do mercado ilegal de animais silvestres, cujo filão mais rico, a biopirataria, destina-se à descoberta e exploração comercial de princípios ativos, como os encontrados no veneno de animais peçonhentos. Árdua tarefa: punir grandes traficantes, em geral pessoas bem situadas na sociedade (LOPES, 2002). Os criadouros, uma tentativa legal de minimizar o tráfico de animais silvestres, podem ser conservacionistas (Portaria IBAMA nº 139/93), para proteger e reproduzir espécies ameaçadas da fauna silvestre nativa do Brasil; científicos (Portaria IBAMA nº 16/94), voltados à pesquisa; comerciais (Portaria IBAMA nº 118/97), com matrizes que se reproduzem e os seus filhotes a seguir para o mercado (não podem negociar suas matrizes). Alguns se envolvem com o mercado ilegal de animais silvestres. Uma das operações mais comuns: a venda de animais com notas frias (“esquentar” o animal). Adquirir um animal silvestre não marcado com anilha ou microchip, sem nota fiscal, é ilegal; o transporte de um criadouro a outro (ou entre estes e os zoológicos) só pode ocorrer com a emissão de licença de transporte pelo IBAMA. Outras medidas contra o tráfico incluem a repressão, a reintrodução (criteriosa) de espécimes no ambiente natural, a criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (onde espécies silvestres podem se recuperar) e a Educação Ambiental com populações que participam do tráfico, tanto coletoras quanto receptoras de animais. A CITES, convenção em vigor desde 01/07/1975, administrada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), regula o comércio internacional de espécies da fauna e flora silvestre em risco de extinção. No Apêndice I, inclui espécies ameaçadas de extinção, que exigem total proteção e cuja comercialização Página de 309 a 330

se proíbe; no Apêndice II, espécies sem risco imediato de extinção, merecedoras de peculiar atenção por sofrerem forte pressão antrópica; no Apêndice III, espécies que, segundo as autoridades de um país, exigem um controle especial em seu território. No Brasil, um grave crime ambiental ocorreu pela introdução irresponsável de espécies exóticas. Um caso recente: o caramujo gigante africano Achatina fulica, possível substituto do caracol europeu, solto no país por alguns criadores, ao não ter sido aprovada sua comercialização, tornou-se uma praga consumidora de plantios e pode transmitir ao homem doenças graves provocadas por nematóides. Wilson (2002) responsabiliza a espécie humana, em sua cruel guerra contra a natureza, caracterizada pelo excesso de sua população, pela destruição de hábitats, pela prática de caça indiscriminada, pela invasão de territórios por espécies exóticas e pela poluição generalizada, por extinções em massa em várias regiões do mundo. A destruição de hábitats, especialmente nas regiões cobertas por florestas tropicais, já derrubadas em mais de metade de sua extensão, contribui para reduzir o número de espécies que os habitam. A síndrome da floresta silenciosa, ausência de sons em seu interior devido à caça até a extinção de aves e mamíferos de grande porte, afeta vastas áreas da Amazônia. Dizimar a biodiversidade desestabiliza os ecossistemas, as economias e o clima; facilita a proliferação de doenças infecciosas. A importância da biodiversidade para o bem-estar humano escapa à percepção do homem comum: este pouco se importa com o desaparecimento da natureza, substituída por artefatos humanos. Estima-se que o índice atual de extinção seja de mil a dez mil vezes maior do que antes do surgimento do Homem; ao menos um quinto das espécies estarão extintas ou fadadas à extinção em 2030; metade sofrerá o mesmo destino até 2100. O século XXI pode deixar, como sua trágica herança, a solidão para a humanidade. Para o autor, urge uma Ética para a Terra, com base no melhor conhecimento que a ciência puder fornecer sobre o ser humano e o mundo que o cerca. Na base do desprezo para com a biodiversidade está o analfabetismo afetivo humano, incapacidade que inibe intercâmbios emocionais. “Somos violentos quando desconhecemos a diversidade que reina na natureza, suprimindo a variedade de espécies que convivem nos ecossistemas” (RESTREPO, 2001, p. 65). Excluir a sensibilidade, nas relações com os outros seres vivos e com os ecossistemas onde vivem, gera “[...] bases para sua destruição, pois os equilíbrios entre os indivíduos, Página de 309 a 330

animais ou plantas são mediados pelas mudanças que nossa disposição sensível é capaz de detectar. [...] Sem afeto sensível por parte dos seres viventes, seria impossível manter o equilíbrio ecológico” (idem, ibidem, p. 86). Esta situação se complica ainda mais perante a perspectiva do planeta Terra como um superorganismo autoregulador, Gaia, ser vivo em que a biodiversidade e o meio ambiente evoluem em conjunto (LOVELOCK, 2007). As atividades antrópicas alteram o clima e o ambiente global contra as preferências e necessidades de Gaia: o aquecimento global derrete as calotas polares e as geleiras no pico de montanhas, eleva o nível dos oceanos, muda o regime de circulação dos ventos na atmosfera e as correntes oceânicas, contribui para a perda de ecossistemas e da biodiversidade. Como reação, Gaia pode eliminar seu mais buliçoso morador para sobreviver. Para Serres (1994), a humanidade precisa associar-se perante o perigo que ela mesma criou, através de suas agressões à natureza e à Terra, e conceber um pacto a assinar como o mundo: o contrato natural. Este traria a paz à humanidade para esta salvaguardar seu mundo e a paz com o mundo para salvaguardar a si mesma.

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E OS ANIMAIS SILVESTRES

Até os seis anos de idade as crianças tendem a ser egocêntricas, egoístas e dominadoras em suas relações com os animais e a natureza. Também se mostram indiferentes ou temerosas em relação à maioria dos animais. Entre seis e nove anos, as crianças se interessam pela primeira vez pelos animais selvagens e mostram reconhecer que os animais podem sofrer e sentir dor. Dos nove aos doze anos, o conhecimento e o interesse pela natureza aumentam rapidamente, e entre treze e dezessete anos a maioria dos jovens adquire um sentimento de responsabilidade moral em relação ao bem-estar dos animais e à conservação das espécies (WILSON, 2002, p. 157).

O estudo da biodiversidade, não apenas para conhecê-la, mas também para amá-la, deve ter destaque na educação, do jardim da infância até a universidade. A cegueira da alma ao belo, grave doença mental a se alastrar pelo mundo, contagia as pessoas com a insensibilidade diante de fatos moralmente condenáveis (LORENZ, 1974). Dorst (1973) ressalta que o ser humano necessita de equilíbrio e Página de 309 a 330

beleza; Lorenz (1986) julga imprescindível educar as pessoas para a percepção da beleza e da harmonia do mundo, e para despertar a compaixão pelos outros seres vivos. O saber não pode prescindir da beleza, ou então se pagará muito caro por ele (SERRES, 2001). Lovelock (1991) lembra que a curiosidade faz parte do processo de amar: ser curioso para conhecer o mundo natural leva a um relacionamento de amor com ele. A capacidade humana de amar pode desaparecer se não for treinada durante etapas críticas do desenvolvimento do indivíduo, a infância e a adolescência (LORENZ, 1986). Segundo Serres (1994, p. 81), deve-se “[...] aprender e ensinar à nossa volta o amor do mundo ou da nossa Terra”. No entanto, as escolas adestram as crianças em um saber permeado pela neutralidade sem emoções: o estudo da vida passa por sua destruição, conhecem-se os cadáveres de animais e plantas, não os seres ainda vivos (RESTREPO, 2001). Faltam à educação escolar a ternura e a sensibilidade, incluídas no paradigma da ecoternura. Adquire-se a ternura, através do amor, para desconstruir os valores da vingança, da sujeição e da conquista. Educar de forma integrada, para a percepção, a curiosidade, a compaixão, o equilíbrio, a harmonia, a beleza, a sabedoria, a ternura e o amor, afigura-se possível através de um novo modo de ser no mundo, a educação ambiental. Esta implica na convivência harmoniosa do homem com o meio ambiente, lida com o potencial das pessoas para entender e transformar seu meio (MERGULHÃO; VASAKI, 1998). Pelo Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, a educação ambiental deve enfocar a relação entre o Homem, a natureza e o universo de forma interdisciplinar; o ser humano precisa aprimorar a consciência ética sobre todas as formas de vida com as quais compartilha o planeta, respeitar seus ciclos vitais e limitar sua exploração. A Carta da Terra, com base nos princípios da educação ambiental, defende o respeito e o cuidado com a vida, a proteção da diversidade e da beleza da Terra, e a restauração de ecossistemas. Para Ab’ Saber (2001), a educação ambiental deve se envolver na luta para preservar e recuperar a biodiversidade, e evitar extinções. Modo de interagir com a natureza, de interiorizá-la como valor perene, fonte de alegria, beleza e identidade, a educação ambiental permite conhecer e amar os outros seres vivos, através de uma relação afetiva permeada pela ternura (QUARANTA-GONÇALVES, 2005).

Página de 309 a 330

O contato íntimo com a natureza viva desvela-se como trilha propícia para se aprender e treinar a percepção da beleza (LORENZ, 1986). Essência da beleza e da vida, a natureza seduz o ser humano à sua contemplação, o que o torna ainda mais humano (QUARANTA-GONÇALVES, 2005). Retornar à natureza evoca a sensação de voltar para casa, de religar-se à fonte da vida (SHELDRAKE, 1993). As verdades da natureza orgânica apresentam uma beleza plácida e imponente, tornam-se cada vez mais belas quanto mais se penetra em suas particularidades, em seus detalhes: quanto mais conhecer a natureza, mais profundamente e por mais tempo o Homem será movido pela sua bela realidade (LORENZ, 1977). A natureza constitui excelente local para o aprendizado: os ecossistemas preservam um conhecimento imediato e sensível, perpetuado por singularidades (RESTREPO, 2001). Entrar em contato com a natureza apresenta também um lado místico, de transcendência e espiritualidade: a pessoa se conecta ao restante do mundo vivo, em uma experiência moldada pela emoção (SHELDRAKE, 1993). A experiência poética ou mística da vida da natureza constitui uma fonte de inspiração para muitos cientistas da vida: “Não existe um bom biólogo que não tenha chegado à sua vocação através da satisfação interior pela beleza da criatura viva, e que os conhecimentos adquiridos dessa profissão não lhe tenham aprofundado a alegria na natureza e no trabalho” (LORENZ, 1977, p. 15). As pessoas comuns sentem a comunhão com a natureza como experiência mística, de iluminação, de surpresa e de alegria, em qualquer idade. “Muitas crianças têm, em certos momentos, um sentimento místico de sua conexão com o mundo natural. Algumas o esquecem. Outras se recordam dele de uma maneira que lhes serve como uma fonte contínua de inspiração” (SHELDRAKE, 1993, p. 213). Crianças e adolescentes fundam relações com o mundo natural que os influenciam pelo resto de suas vidas e podem definir carreiras: “[...] as crianças são impressionáveis, quase universalmente conectadas com a natureza e ainda estão formando os valores que irão moldar seu comportamento quando adultos” (DAVENPORT et al., 2002, p. 329). Muitas pessoas se tornam adultas sem terem tido em sua vida a oportunidade de ver a beleza da criação orgânica. A sensação e a percepção da beleza e de harmonias devem ser aprendidas e treinadas, para despertar nas crianças e nos adolescentes sensações valorativas. Um contato tão íntimo quanto possível com a natureza viva, tão cedo quanto possível na vida das pessoas, é um caminho altamente promissor Página de 309 a 330

para se atingir esse objetivo. Vivências subjetivas incentivam a capacidade humana de amar e despertam o interesse pelas correlações da natureza (LORENZ, 1986). É preciso incentivar adolescentes e crianças a amar a natureza, a questionar valores que os levam a temê-la e a declarar preconceitos contra ela, e argumentar que devem zelar pelo meio ambiente. Para tanto, recomendam-se caminhadas em áreas naturais. A trilha não é só o caminho, mas também o destino da caminhada: cabe estimular a observação, não apenas pela visão, pois se deve tocar, cheirar e ouvir a natureza; cumpre observar detalhes do ecossistema, dos insetos, de seus ovos e suas larvas, das aranhas e de suas teias sobre ou entre folhas de árvores, dos padrões de herbivoria, de vestígios como fezes e pegadas, do canto de aves e de outras vozes. A importância de cada elemento no seu meio ambiente pede um esclarecimento, mas não se devem entregar informações prontas, e sim despertar a curiosidade e o raciocínio, por meio de perguntas. Em uma floresta, alguns pontos carecem de uma atenção especial, como os exemplares de espécies de animais em extinção. É necessário fazer silêncio ou falar muito baixo, para não espantar os animais; não retirar lembranças, pois os organismos devem ser respeitados, não são propriedades humanas. Pessoas mais conscientes chegam a rastejar no solo de uma trilha para não danificar uma teia de aranha à sua frente. Com freqüência os participantes de caminhadas se frustram por verem poucos animais (em especial aves e mamíferos, que chamam mais a atenção): muitas espécies se escondem das pessoas, ou têm hábitos crepusculares ou noturnos. Trabalhar em trilhas desponta como oportunidade ímpar para desmitificar falsos valores sobre a natureza e perder o medo de animais: estes não atacam por maldade, tentam fugir se ameaçados e só reagem na falta de outra opção. No caso do encontro com animais que podem trazer algum perigo (taturanas, por exemplo), as pessoas responsáveis pelo grupo precisam se portar com equilíbrio e segurança, explicar a razão dos cuidados para com estas e outras espécies. Excursões às matas são eficientes para uma vivência contra falsos medos. Convém realizar atividades de sensibilização na trilha: em um ponto qualquer, solicita-se aos caminhantes manterem silêncio, olhos fechados, e prestarem atenção aos sons, odores e outras sensações (MERGULHÃO; VASAKI, 1998). Bontempo e Gjorup [1999?] entendem como um dos objetivos da caminhada criar relações afetivas de crianças e adolescentes com a natureza, para amar, Página de 309 a 330

respeitar e preservar o meio ambiente, hoje e no futuro. Esse contato permite-lhes exercitarem os órgãos dos sentidos, despertarem sentimentos e religarem-se ao mundo como um todo. O estímulo à curiosidade e ao saber, a partir da observação, ao uso de sentidos como o tato e o olfato, sensibiliza as pessoas, gera discussões, aumenta seus conhecimentos. Elas envolvem-se com o saber de forma prazerosa, divertida e permanente, e tais experiências ficam registradas em sua memória com intensidade muito maior que as aulas formais, teóricas. A fenomenologia, no enfoque de Merleau-Ponty (1999), em que todo saber se instala através dos horizontes abertos pela percepção, incentiva o uso do corpo, em especial dos sentidos, para conhecer o mundo, e transparece como uma filosofia eminentemente prática e indicada para uma educação ambiental que procura religar o ser humano com a natureza da qual nunca deixou de fazer parte. A fenomenologia valoriza a relação com o outro, que pode muito bem ser a natureza e seus animais. Práticas educativas em ambientes ricos em estímulos sensoriais, como as trilhas, criam a oportunidade para seus participantes utilizarem seu corpo para perceberem seu meio ambiente, elaborarem-no e recriarem-no, pelo encadeamento das experiências perceptivas, interagirem e dialogarem com ele, numa relação de troca entre o ambiente e os sujeitos abertos e dados ao mundo; permite também que cada pessoa conheça melhor a si mesma e reconheça e valorize o Outro, o que a torna mais humana (QUARANTA-GONÇALVES; SOARES, 2004). Como resultado de suas próprias experiências, Quaranta-Gonçalves (2005) entende que as excursões escolares permeadas por um trabalho sério de educação ambiental contribuem para formar a personalidade dos adolescentes, ao despertarlhes emoções e sentimentos, criar e reforçar valores, permitir contatos com espécies de animais silvestres e despertar a biofilia; além disso, o contato com a natureza pode descortinar a percepção de que ela e a biosfera são vivas. Uma excursão ao ambiente natural rompe o limiar a partir do qual o estudante se capacita a um pensar crítico sobre a sociedade em que vive, que denuncie os danos ambientais causados pelo uso cultuado e irrestrito da tecnologia e sugira medidas para melhorar o meio ambiente das cidades e de todo o planeta. Uma atividade gratificante a se praticar no contato com a natureza: observar aves. Para Regalado (2007), as aves fascinam as pessoas, por sua beleza, suas Página de 309 a 330

formas e cores, pela capacidade de voar e pelas vozes. A prática de observá-las constitui uma atividade de educação ambiental que permite conhecer melhor a vida silvestre, aproxima o homem da natureza, estimula a preservação do meio ambiente e serve para combater a tensão da vida moderna. Clubes de Observadores de Aves, como o de Sorocaba, criado por iniciativa dos educadores ambientais do zoológico do município, instigaram alguns de seus membros a partir para a pesquisa científica. Os zoológicos também podem se destacar pela riqueza de suas experiências com a educação ambiental. Segundo Morris (1992), eles já foram espetáculos de aberrações, serviram para a criação de predadores e tornaram-se coleções reais de animais após a chegada dos europeus à América; no século XIX começaram a se tornar instituições científicas; porém, apenas a partir do início da segunda metade do século XX houve a preocupação de estudar o comportamento animal e de preparar recintos semelhantes ao ambiente silvestre. Um de seus papéis mais importantes, para Wilson (2002), é o de reproduzir em cativeiro espécies ameaçadas de extinção. As pessoas que habitam grandes centros urbanos visitam zoológicos como a única forma de ver de perto animais da fauna silvestre, o que os prioriza como locais para uma educação ambiental. Uma experiência muito bem-sucedida nesse sentido desenrola-se há cerca de vinte anos no Zoológico Municipal “Quinzinho de Barros”, em Sorocaba, eleito como símbolo da cidade em uma pesquisa realizada em 1993. As atividades de educação ambiental tiveram início em 1979: o zôo deixou de ser uma vitrine de animais, tornou-se uma “sala de aula viva” (MERGULHÃO, 1997); em 1988, foi criado um Centro de Educação Ambiental, com uma biblioteca, um museu de zoologia e um auditório. Entre os diversos programas já realizados, destacam-se a madrugada ecológica (passar uma noite no zôo, conhecer seus animais noturnos), as visitas orientadas e o tranzôo (curso de férias para crianças e adolescentes, ou para famílias inteiras). O êxito desse trabalho de educação ambiental se configura na mudança de atitude da população da cidade em relação ao meio ambiente (mais crítica) e na formação de pesquisadores. Atualmente, o “Quinzinho” é um ponto de referência para todas as questões de meio ambiente de Sorocaba. O Zoológico de São Paulo também trabalha com educação ambiental, embora seu programa seja menos abrangente que o do “Quinzinho”. A iniciativa começou na última década do século XX, com cursos para professores. Hoje, além dos cursos Página de 309 a 330

com duração de oito horas, há visitas orientadas e visitas noturnas. Outros zôos também se destacam pelo trabalho em educação ambiental, como os de Americana e Bauru, além do orquidário de Santos. Na impossibilidade de tirar os estudantes da escola para atividades externas de educação ambiental, o trabalho pode enfocar o estudo de suas áreas verdes. Serres (2001) recomenda o contato com animais e plantas dos jardins, em vez de sua permanência em pátios cimentados e geométricos, onde ocorrem as primeiras lutas pela dominância, e de um estudo maçante baseado na gramática. Dentro da sala de aula, ou mesmo nos pátios das escolas, é possível realizar atividades lúdicas e jogos, que, segundo Telles et al. (2001), constituem pertinente recurso pedagógico para entender o funcionamento dos ecossistemas e conhecer as espécies nativas de suas faunas. Os meios de comunicação também têm se preocupado, nas últimas décadas, com a destruição da natureza e da fauna silvestre. A partir dos anos 60, diversos documentários nos cinemas e na televisão procuraram cativar os espectadores com belas imagens sobre a vida animal (MORRIS, 1992). Entre os filmes mais recentes, destacam-se Microcosmos (2005), sobre o universo da microfauna (em especial dos insetos), e Migração Alada (2003), sobre a migração das aves (em seus créditos finais, homenageia-se Jean Dorst, autor do clássico “Antes que a Natureza Morra”).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Terra, há muito tempo, vem sendo encarada como um enorme laboratório no qual o Homem é livre para realizar qualquer tipo de experiência. Muitas foram bem-sucedidas, outras, nem tanto. Essa mentalidade coloca em risco a própria sobrevivência da espécie humana (MERGULHÃO; VASAKI, 1998, p. 15). O amor por seres vivos é uma emoção importantíssima, imprescindível. Pois é esta emoção que transfere ao homem, a este ser que tudo domina, a responsabilidade pela vida em nosso planeta (LORENZ, 1986, p. 200).

Página de 309 a 330

Não há mais tempo a perder: a contagem regressiva para uma megaextinção se acelera. Urge criar ou recriar valores positivos para reconectar a natureza interior humana com a natureza exterior, da qual ele nunca deixou de fazer parte, por mais que tentasse. É preciso sensibilizar as crianças e os adolescentes para uma postura ética ao conviverem com as outras formas de vida que compartilham a Terra com a espécie humana: só as informações não bastam, eles necessitam de uma formação que lhes possibilite situar-se no mundo onde vivem e perceber que mantém relações de dependência com outros seres vivos. Não se prescinde do contato com a natureza: freqüentar zoológicos, parques, áreas naturais, museus e percorrer trilhas, abrir os olhos e os outros sentidos para a beleza e a harmonia da vida estimulam uma pessoa a perceber e tentar entender a realidade do mundo à sua volta, da qual fazem parte não apenas os humanos e as suas invenções, mas todas as outras formas de vida do planeta Terra. Não se pode avaliar um ser vivo apenas em termos de sua utilidade prática, dentro de um ponto de vista econômico: regras de comércio não lhes deveriam ser aplicadas. Que autoridade moral outorgou ao ser humano o direito de lucrar com a venda de animais silvestres? Uma boa nova: o destaque cada vez maior que as questões ambientais, entre elas a da preservação da biodiversidade, recebem no pensamento religioso. A idéia de que toda a natureza existe apenas para o desfrute do Homem é considerada como equívoco, hoje, dentro de diversas visões religiosas; caminha-se celeremente para o entendimento do papel humano como o de cuidar das outras formas de vida. Preservar a biodiversidade significa fugir da barbárie, ter uma conduta moral e aplicar uma ética centrada na vida: as formas de vida que rodeiam o ser humano têm um valor intrínseco; responsável por sua preservação, o Homem tem o dever moral de tentar salvar qualquer espécie em risco de extinção. Mas só se preservam as espécies com a preservação de seus ecossistemas. Todos os organismos têm direito à vida: o biocentrismo substitui o antropocentrismo que apenas esvaziou o ser humano colocado no centro do universo. O homem deve contemplar e fotografar os outros animais em vez de eliminálos cruelmente para provar sua pretensa superioridade. Na forma de contrato animal, contrato natural ou ética da Terra, o respeito substitui a exploração, a solidariedade Página de 309 a 330

e o amor aos animais esvaziam o ódio, o medo, o preconceito e a destruição. Serres (2003) afirma que os animais temem o exterminador humano, perigosa fera que os ameaça de erradicação. Em lugar desta, que tal a convivência prazerosa? O amor à natureza e aos seres vivos, inclusive a outras pessoas, surge como uma alternativa para não se tratar a tudo o que é vivo como descartável. O processo educativo deve se voltar para a transformação cultural e ética do Homem. Urge sensibilizar as pessoas contra a captura, o tráfico e a manutenção em cativeiro de animais silvestres, e sobre os maus tratos que lhes são impostos. Na fonte do tráfico e da caça, cabe uma ação efetiva para melhorar a qualidade de vida das populações envolvidas e dar-lhes alternativas de vida dignas, que minimizem a continuidade da caça predatória. Mister se faz uma educação ambiental que rejeite o paternalismo e o assistencialismo, resgate a auto-estima das pessoas e valorize, de forma crítica, seus saberes tradicionais. A educação precisa cultivar um ser humano terno e capaz de se emocionar com a beleza, de respeitar o Outro, seja este uma pessoa, um animal, uma planta, a natureza, o próprio mundo, a Terra.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A ERA do gelo. Direção de Chris Wedge, 2002. Manaus: Videolar S/A, 2004. 1 DVD. AB’SABER, A. N. (Re)conceituando educação ambiental. Rio de Janeiro: Museu de Astronomia e Ciências Afins, 1991. (Folheto). BONTEMPO, G. C.; GJORUP, G. B. Método vivencial em excursões ecológicas. In: METODOLOGIA

em

educação

ambiental.

Viçosa,

MG:

FIEMG/CIEMG/SESI/SENAI/IEL/Ambiente Brasil/FUNARBE: [1999?]. Produzido por Agromídia Software. 1 CD-ROM. D'AMBROSIO. Transdisciplinaridade. São Paulo: Palas Athena, 1997. DAVENPORT, L.et al. Ferramentas de ecoturismo para parques. In: TERBORGH, J. et al. (org.). Tornando os parques eficientes: estratégias para a conservação da natureza nos trópicos. Curitiba: UFPR/Fundação O Boticário, 2002. p. 305-333.

Página de 309 a 330

DEAN, W. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. DESCARTES, R. Discurso do método. In: ______. Discurso do método; As paixões da alma; Meditações. São Paulo: Nova Cultural, 1999. p. 33-100. (Os Pensadores). DORST, J. Antes que a natureza morra: por uma ecologia política. São Paulo: Edgard Blücher; EDUSP, 1973. DUBOS, R. J. Um deus interior: uma filosofia prática para a mais completa realização das potencialidades humanas. São Paulo: Melhoramentos; EDUSP, 1975. ELABRAS, R. B. Operações de repressão aos crimes ambientais: procedimentos e resultados. In: ANIMAIS Silvestres: vida à venda. Brasília: Dupligráfica, 2002. p. 7588. LOPES, J. C. A. Operações de fiscalização da Fauna: Análise, Procedimentos e resultados. In: ANIMAIS Silvestres: vida à venda. Brasília: Dupligráfica, 2002. p. 1549. LORENZ, K. A demolição do homem: crítica à falsa religião do progresso. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. ______. Civilização e pecado: os oito erros capitais do homem. Rio de Janeiro: Artenova, 1974. _____. Falava com as bestas, as aves e os peixes. Rio de Janeiro: Labor do Brasil, 1977. LOVELOCK, J. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2006. ______. As eras de gaia: a biografia da nossa Terra viva. Rio de Janeiro: Campus, 1991. MERGULHÃO, M. C. Zoológico: uma sala de aula viva. In: Pádua, S. M.; Tabanez, M. F. Educação ambiental: caminhos trilhados no Brasil. Brasília: Instituto de Pesquisas Ecológicas, 1997. MERGULHÃO, M. C.; VASAKI, B. N. G. Educando para a conservação da natureza: sugestões de atividades em educação ambiental. São Paulo: EDUC, 1998. MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Página de 309 a 330

MICROCOSMOS. Direção de Claude Nuridsany e Marie Pérennou, 1996. Manaus : Microservice Tecnologia Digital da Amazônia, 2005. 1 DVD. MIGRAÇÃO Alada. Direção de Jacques Perrin, 2001. Manaus: Videolar S/A, 2003. 1 DVD. MORRIS, D. O contrato animal. Rio de Janeiro: Record, 1992. OLIVEIRA, M. A. A importância da perícia na elucidação dos crimes cometidos contra a fauna. In: ANIMAIS Silvestres: vida à venda. Brasília: Dupligráfica, 2002. p. 51-73. PONTES, J. B. O tráfico internacional de animais silvestres. In: ANIMAIS Silvestres: vida à venda. Brasília: Dupligráfica, 2002. p. 173-191. PRIGOGINE, Y.; STENGERS, I. A nova aliança: metamorfose da ciência. 3. ed. Brasília, DF: Universidade de Brasília, 1997. QUARANTA-GONÇALVES, M. L. Educação ambiental e fenomenologia: a importância da excursão para as percepções de meio ambiente em estudantes de ensino médio. 2005. 232p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade de Sorocaba, Sorocaba, 2005. QUARANTA GONÇALVES, M. L.; SOARES, M. L. de. Uma interface entre a educação ambiental e a fenomenologia da percepção. In: ENCONTRO DE PESQUISADORES E DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UNIVERSIDADE DE SOROCABA, 7., 2004, Sorocaba, SP. Resumos... Sorocaba, SP: Uniso, 2004. p. 107-108. RAMINELLI, R. A natureza na colonização do Brasil. In: Reigota, M. (org.). Verde cotidiano: o meio ambiente em discussão. Rio de Janeiro; DP&A, 1999. p. 45-66. REGALADO, L. B. Observando as aves nas áreas verdes de Sorocaba e região. Sorocaba, SP: do Autor, 2007. RESTREPO, L. C. O direito à ternura. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. ROMERO, S. (sel.). Contos populares do Brasil. 2. ed. São Paulo: Landy, 2002. RONECKER, J.-P. O simbolismo animal: mitos, crenças, lendas, arquétipos, folclore, imaginário. São Paulo: Paulus, 1997. SERRES, M. Hominescências: o começo de uma outra humanidade? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. ______. O contrato natural. Lisboa: Instituto Piaget, 1994. Página de 309 a 330

______. Os cinco sentidos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. SHELDRAKE, R. O renascimento da natureza: o reflorescimento da ciência e de deus. São Paulo: Cultrix, 1993. TELLES, M. de Q.; ROCHA, M. B. da; PEDROSO, M. da S.; MACHADO, S. M. de C. Vivências integradas com o meio ambiente. São Paulo: Sá Editora, 2002. WILSON, E. O. O futuro da vida: um estudo da biosfera para a proteção de todas as espécies, inclusive a humana. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

Página de 309 a 330

Lihat lebih banyak...

Comentários

Copyright © 2017 DADOSPDF Inc.