Cartografia do Medo: as estratégias de poder da imagem na cidade de São Paulo

May 30, 2017 | Autor: A. Vasconcellos d... | Categoria: IMAGINARIOS URBANOS, Poder, Espaço, Cidades
Share Embed


Descrição do Produto

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE

PESQUISA EM COMUNICAÇÃO Natal, 21 a 24 de novembro de 2013

Caderno de Resumos

MARGINÁLIA Grupo de Estudos Transdisciplinares em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Seção de Informação e Referência Catalogação da publicação na Fonte. UFRN/Biblioteca Central Zila Mamede

Encontro Nacional de Redes de Grupos de Pesquisa em Comunicação (2. : 2013 : Natal, RN). Pesquisa em comunicação / Organizadores Alex Galeno... [et al.].– Natal : EDUFRN, 2013. Evento realizado de 21 a 24 de novembro de 2013. ISBN 978-85-425-0118-6 1. Comunicação – Epistemologia – Congressos. 2. Comunicação – Ciência – Congressos. I. Galeno, Alex. II. Título.

RN/UF/BCZM



2013/77



CDD 302.201 CDU 007

APRESENTAÇÃO Colegas, Vocês têm em mãos um roteiro da navegação do nosso evento. Uma bússola que apresenta direções e passagens que indicam as coordenadas: resumos expandidos, títulos e horários das sessões temáticas, conferências e os breaks. Pedimos a atenção e empenho dos navegantes na leitura e cumprimento do roteiro. Do contrário, o nosso barco terá dificuldades para acessar “cidades esplêndidas” (Rimbaud). Mesmo sendo um barco ébrio e ávido por acontecimentos intensivos, devemos evitar possíveis ice bergs organizativos ou riscos de naufrágios. Cada tripulante, portanto, sinta-se partícipe e mobilize seus remos para que façamos a travessia com beleza, leveza, imersão e experimentação. Os Organizadores

GRUPOS PARTICIPANTES GRUPO/LIDERES PESQUISADOR PARTICIPANTE MARGINÁLIA – UFRN Josimey Costa - Alex Galeno Alex Galeno - Josimey Costa Maria Rita Xavier Ana Eliza Trajano Soares Fagner França Thiago Tavares Carmem Rivera Parra Jucieude Lucena Betânia Franklin Angela Almeida Gerlúzia Azevedo Michelle Medeiros Soraia Hopfner Renato Maia Juliana Bulhões Ana Cecília Aragão Patrícia de Carvalho Silva Ana Tázia Patrício de Melo Cardoso

FILO COM – ECA / USP / UNISO - Ciro Marcondes

AMORCOM – UCS - Maria Luiza Cardinale

Ciro Marcondes Lauren Colvara Elenildes Dantas Danielle Naves Ana Paula Gouveia Bruna Queiroga Tales Thomaz Malú Damazio Aldrin Jonathan Maurício Liesen Vanessa Matos dos Santos Tarcyanie Cajueiro Felipe Maia Ferreira Maria Luiza Cardinale Baptista Ricardo Augusto de Souza Lais Allende Prates Jennifer Bauer Ronaldo Velho Bueno Renata Chies Paschoali Natalia Biazus Jessica Souza Jonatas dos Reis Silva Rafael Muller

ESPACC – Espaço/ Visualidade/ Comunicação/Cultura - Lucrecia D’ Alessio Ferrara - Regiane de Oliveira Nakagawa

Adriano Miranda Fábio Sadao Nakagawa Lucrécia D´Alessio Ferrara Regiane de O. Nakagawa Adriana Maciel Gurgel Santos Marília Santana Borges Michiko Okano Adriana Vaz Ramos Thiago Machado Balbi Comunicação, Cultura e Erly Guedes Barbosa Política – UFRJ Thiago Araújo Ansel Liv Sovik Camila Calado Lima Grupo de Pesquisa Suzana Rozendo Bortoli Jornalismo e a Construção Alice Mitika Koshiyama da Cidadania/USP Lieli Karine Vieira Loures - Alice Mitika Koshiyama Cristiane Oliveira Reimberg Ben-Hur Demeneck Tatiana Aoki Cavalcanti Silva Davi Lopes Gentilli Grupo de Estudos Gustavo Fortes Said e Pesquisa em Leila Sousa Comunicação, Cultura e Afonso Rodrigues Identidade-UFPI/PI Núbia Andrade - Gustavo Fortes Said Raquel de Holanda Nina Cunha

Narrativas Contemporâneas – UFPE - Eduardo Duarte

COM VERSAÇÕES - Gustavo de Castro

Grupo de Pesquisa em Comunicação e Práticas de Consumo – ESPM/SP - Rose Melo Rocha Grupo de Estudos em Cultura Visual/UFC Silas de Paula

Eduardo Duarte Gomes da Silva Daniel Monteiro do Nascimento Raquel do Monte Silva Mariana Maciel Nepomuceno Georgia da Cruz Pereira Lylian Caroline Maciel Rodrigues Márcia Larangeira Jácome Gustavo de Castro Ciro Inácio Marcondes Gabriela Pereira de Freitas Luíza Spinola Tiago Quiroga Victor Stoimenoff Verônica Guimarães Brandão Simone Luci Pereira

Silas de Paula Érico OLiveira

Aisthesis – Laboratório de Eliany Salvatierra Machado experimen-tação estética India Mara Martíns e direção de arte – UFF Eliany Salvatierra Machado

Grupo de Pesquisa Midiatização e Processos Sociais - Unisinos/RS - Jairo Ferreira

Grupo de Pesquisa Midiatização e Processos Sociais - Unisinos/RS - Pedro Gilberto Gomes Grupo de Pesquisa Midiatização e Processos Sociais - Unisinos/RS - José Luiz Braga Grupo de Pesquisa Midiatização e Processos Sociais - Unisinos/RS - Antônio Fausto Neto Midia, Instituição e Poder Simbólico - Luis Mauro

Grupo de Pesquisa em Mídia e Estudos do Imaginário – UNIP - Malena Segura Contrera CISC- PUC/SP - Norval Baitello Junior

Ana Paula Rosa Ricardo Zimmermann Fiegenbaum Moisés Sbardelotto Marcelo Salcedo Gomes Jairo Ferreira Monalisa Pontes Xavier Pedro Gilberto Gomes Paulo Roque Gasparetto Carlos Sanchotene José Luiz Braga Caroline Cassali Eloísa Klein Carlos Jahn Edu Jaques Filho Antônio Fausto Neto Viviane Borelli Demétrio Soster Luis Mauro Maurício Ribeiro

Heirinch Fonteles

Relação das Sessões Temáticas e Resumos Apresentados

Clique nos títulos para acessar os textos ou em Sumário para voltar à relação.

22/11 – tarde SESSÃO TEMÁTICA 1 Epistemologia e Comunicação Bloco A 01 Radicais e Livres: Provocações para uma reforma taxográfica a partir da comunicação Danielle Naves de Oliveira 02 Tecnomídia: o pensamento do hoje via obsolescência e disfunção do aparato midiático Soraya Guimarães Hoepfner 03 EXCOMMUNICATIO – Por uma teoria negativa da comunicação Maurício Liesen 04 Os desdobramentos da Nova Teoria da Comunicação Ciro Marcondes Filho 0 5 Comunicabilidade e dialogismo: possíveis aproximações epistemo-lógicas entre William Stephenson e Mikail Bakhtin Gustavo Said

06 Entremeios do Diálogo – Um Atravessar Comunicacional Malu Damázio 07 Imagens-totens em circulação: fixação de valor entre regulação e chancela Ana Paula da Rosa 08 Espaços de indefinição ética nos processos midiáticos Carlos Alberto Jahn 08a Interlocuções epistemológicas em comunicação Tiago Quiroga

BLOCO B 9 O comunicar como objeto epistemológico Lauren Ferreira Colvara 10 Um novo olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la Pedro Gilberto Gomes 11 A Experiência Sensível das Imagens: subjetividade, imaginário e dinâmicas sociais Eduardo Duarte 12 Festividade e o Outro: a alteridade em jogo Aldrin Jonathan Souza Santos

BLOCO C 13 Caosmose e Afetiv(Ações) Inscriacionais do Acontecimento Comunicacional Amoroso Maria Luiza Cardinale Baptista 14 Comunicação-encontro: amorosidade e autopoiese no encontro com o outro Ricardo Augusto de Souza 15 Comunicação-viagem: a curiosidade como guia e o amor como combustível Rafael Muller 16 Comunicação-conflito: potência de narrativa e autopoiese na zona de conflito Jennifer Bauer Eme 17 Comunicação-caos: redescobrir-se, em meio ao caos e à amorosidade Jéssica Souza 18 Comunicação-trama de saberes e seres: cultivo do jeito amoroso de ‘ser’ Jônatas dos Reis 19 Comunicação-campos de forças: autopoiese também nas relações públicas Natalia Biazus

20 Comunicação-movimentação desejante: o acionamento de investig(ações) Laís Alende Prates 21 Comunicação-complexa: afetivações inscriacionais Renata Chies 22 Comunicação-teoria fluxo: contínuo movimento do devir e hibridização Ronaldo Velho Bueno

SESSÃO TEMÁTICA 2 Filosofia, Técnica e Subjetividade BLOCO A 23 A inscrição das tecnologias nos processos de midiatização: contexto, método e questões Jairo Ferreira 24 A questão da técnica Elenildes Dantas 25 Imagem, Corpo e Revolução Digital: Enfrentamentos SócioTecno-Culturais no Mundo Contemporâneo Ana Cecília Aragão Gomes

26 Pensamento técnico e comunicação na cibercultura: crítica do rótulo de “era da comunicação” para o mundo tecnológico contemporâneo Tales Thomaz

BLOCO B 27 Repensar os Audiovisuais Educativos em uma Proposta Metapórica: A Dimensão do Sensível Vanessa Matos dos Santos 28 O Ornamento do Caminho do Meio: Uma Lógica Filosófica das Possibilidades Comunicacionais Ainda Pouco Explorada. Ana Paula Martins Gouveia 29 Comunicação e Cidadania da Mulher: poder, valores e práticas da sociedade brasileira  Alice Mitika Koshiyama 30 Subjetividade e Cultura Mediática: Entre o desejo e a responsabilidade social Tarcyanie Cajueiro Santos 31 A complexidade do conceito de midiatização e a construção de novas comunidades de pertencimento Paulo Roque Gasparetto

23/11 – MANHÃ SESSÃO TEMÁTICA 3 Literatura e Música BLOCO A 32 Alimentação e Iconofagia: Rascunho para um Diagnóstico Cultural Michelle Medeiros 33 Uma literatura emancipatória Carmen Rivera Parra 34 Balzac e a comunicação: elementos para pensar a Nova Teoria da Comunicação? Alexsandro Galeno Araújo Dantas 35 LÉVI-STRAUSS: mitos em composição musical Betania Maria Franklin de Melo 36 Do grave ao agudo: fenômenos comunicacionais em culturas sonoras Felipe Maia Ferreira

37 Afetos químicos – comunicação e vínculos sociais nas festas de música eletrônica Thiago Tavares das Neves 38 Migração, comunicação e escuta musical – elementos para um debate Simone Luci Pereira 38a O som como elemento fundante da cultura Luiza Spínola Amaral

SESSÃO TEMÁTICA 4 Cinema, Comunicação e Subjetividade BLOCO A 39 Dispositivo e processo: a relação entre documentário brasileiro contemporâneo e processo de criação Georgia Cruz 40 Fraturas e errâncias no cinema contemporâneo Raquel do Monte 41 Metáporos: uma proposta de pesquisa para estudar Cinema Eliany Salvatierra Machado

42 Gesto, Rosto e Morte na Joana D’arc de Dreyer Ciro Inácio Marcondes 43 A Desorganização da Linguagem: A Contribuição de Antonin Artaud e seu Cinema para o Estudo da Comunicação Fagner Torres de França 44 A noção de acontecimento no documentário Ana Tázia Patricio de Melo Cardoso 45 A estética singular de Luiz Fernando Carvalho Mariana Nepomuceno 46 Ensaio Sobre Uma Visão De Mundo: Pensando A Civilização através do Cinema Renato Maia 47 A criação de atmosferas no audiovisual contemporâneo India Mara Martins 48 A estética da paisagem urbana à luz do cinema Raquel Holanda 49 Universos fílmicos dinâmicos: a promessa do filme interativo na era da convergência midiática Daniel Monteiro

BLOCO B 50 Dispositivos Interacionais & Circuitos de Comunicação José Luiz Braga 51 Dispositivos interacionais “psi” na sociedade em midiatização Monalisa Pontes Xavier 52 Fé na mídia: a busca de legitimidade e autenticidade da IURD via TV Record Heinrich Fonteles 53 Intermitências do epistemológico na constituição das Teorias da Comunicação Luís Mauro 54 O Contato e as TIC em uma sociedade que se midiatiza Marcelo Salcedo Gomes 55 Contribuições do Estudo da Midiatização para Renovar o Olhar sobre a Comunicação Ricardo Z. Fiegenbaum 56 Comunicação e religião: uma interface de pesquisa entre a circulação e a reconstrução sociossimbólica Moisés Sbardelotto

SESSÃO TEMÁTICA 5 Virtualidades BLOCO A 57 Biopolítica e Estética nas experiências dos projetos sociais de comunicação Lylian Rodrigues 58 Jornalismo e redes sociais online: estratégias de contato e captura do leitor no perfil de Zero Hora no Facebook Carlos Sanchotene 59 Reciprocidade e dom no ciberespaço: uma análise dos tutoriais no youtube Ana Eliza Trajano Soares 60 Os relacionamentos amorosos na contemporaneidade através das redes sociais da internet: o exemplo do Badoo Maria Rita Pereira Xavier 61 Comunicação através dos amadores Edu Jacques Filho­­­­­­­­­­­­­

23/11 – TARDE SESSÃO TEMÁTICA 6 Visibilidades e cidades BLOCO A 62 A cidade pelo gosto Victor Stoimenoff 63 Assim é o que se parece (fotografia) Angela Almeida 64 Desenho e Pintura em Antonin Artaud – A Estética da Crueldade Gerlúzia de Oliveira Azevedo 65 Considerações sobre fotografia contemporânea Bruna Queiroga 66 Cultura Visual: a poética e a política das imagens Silas de Paula e Érico Oliveira 66a Espaço, Imagem e Imaginário: considerações sobre o problema do lugar no ambiente midiático Maurício Ribeiro da Silva

BLOCO B 67 Mediação e interação: por uma arqueologia dos processos comunicativos Lucrécia D’Alessio Ferrara 68 O Minhocão: entre curvas e retas Regiane Miranda de Oliveira Nakagawa 69 Nas dobras do tempo e da comunicação: os processos de renovação urbana em São Paulo e Berlim Adriana Maciel Gurgel Santos 70 Avenidas Paulistas possíveis: por uma epistemologia da comunicação por meio do olhar Marília Santana Borges 71 Entre Japão e Brasil – imagem de bairros multiétnicos Michiko Okano 72 O circuito Barra-Ondina e a espetaculização da cidade do carnaval Fábio Sadao Nakagawa 73 Grafites, pichos e bombs: espetacularização e carnavalização nas ilustrações da cidade Adriana Vaz Ramos

74 Cartografia do Medo: as estratégias de poder da imagem na cidade de São Paulo Adriano Miranda Vasconcellos de Jesus 75 Espaços residuais: entre o aproveitamento e o descarte comunicacional dos lugares da cidade Thiago Machado Balbi

BLOCO C 76 Beleza brasileira Gustavo de Castro 77 A Estética do Fluxo através da Artemídia Contemporânea Gabriela Pereira de Freitas 78 Por uma beleza ampliada: imaginário do feio no Brasil Verônica Guimarães Brandão 78a Comunicação e corpo: o caso da beleza brasileira Liv Sovik 79 Consumo cultural e expressões de subjetividade nas paisagens da cidade midiatizada Josimey Costa da Silva

80 A Tessitura da Cidade que se Entretece: Comunicação Urbana e Expressões Subjetivas na Produção e no Consumo Simbólicos em Natal-RN Patrícia de Carvalho Silva Josimey Costa da Silva 81 Experiência estética e cidadania: a constituição da experiência pública entre comunidades virtuais e espaço urbano” Márcia Larangeira Jacome 82 Olimpíadas 2016, o discurso da cidade integrada e as remoções de favelas cariocas Camila Calado Lima 83 Midiatização de mulheres em situação de rua: um novo olhar sobre a comunicação Suzana Rozendo Bortoli 84 Conflito Estético e as Formas Sujas da Cultura Popular Thiago Araujo Ansel

SESSÃO TEMÁTICA 7 Imprensa, Jornalismo e Meios BLOCO A 85 O cotidiano jornalístico: organização do trabalho, prazer e sofrimento Cristiane Oliveira Reimberg 86 Alimentação: diretrizes para uma nova abordagem midiática Tatiana Aoki 87 Jornalismo global e a construção da cidadania: jornalistas e as respon-sabilidades diante de uma dissolução do binômio assunto de interesse nacional/assunto externo Ben-Hur Demeneck 88 Circulação de saberes em Jornalismo Caroline Casali 89 Crise e Debilidade da Mediação Jornalística Antonio Fausto Neto 90 Aproximações e tensionamentos entre a circulação crítico midiática e o jornalismo Eloísa Klein

91 Acoplamentos e Reconfigurações do Jornalismo Demétrio de Azeredo Soster

BLOCO B 92 A Construção da Identidade Cultural Piauiense na Revista Revestrés Afonso Rodrigues Bruno Neto 93 Um Olhar Sobre Si: a oferta de identidades piauienses nas Caravanas Meu Novo Piauí e TV Cidade Verde 25 anos Leila Lima de Sousa 94 Identidade e Telenovela: As Representações do Piauí na Novela Cheias de Charme da Rede Globo de Televisão Núbia de Andrade Viana 95 Identidade Cultural do Piauí na Telenovela Cheias de Charme: uma análise da personagem Chayene Nina Cunha 96 Televisão e educação: reflexões sobre o uso da televisão na escola Jucieude de Lucena Evangelista Márcia de Oliveira Pinto Maria Soberana de Paiva

97 Direito à informação em emissora pública de comunicação: análise do telejornal Repórter Brasil Davi Lopes Gentilli 98 Crime sem castigo: questões de gênero na imprensa brasileira: o caso Roger Abdelmassih Lieli Loures 99 Interação entre jornal e leitor: regramentos, estratégias discursivas e silêncios Viviane Borelli 100 Construção discursiva do feminino marcado por racialidades em revistas femininas e processos de subjetivação de mulheres negras Erly Guedes Barbosa

22/11 – tarde SESSÃO TEMÁTICA 1 Epistemologia e Comunicação

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Bloco A 01 Radicais e Livres: Provocações para uma reforma taxográfica a partir da comunicação Danielle Naves de Oliveira

1. Anotações preliminares No presente texto predomina o caráter especulativo, embora a ambição seja de manifesto. Vemos nas Ciências da Comunicação uma necessidade, simultânea, tanto de plasticidade teórica quanto de assentamento político. E é importante cuidar para que essas duas instâncias não se confundam, já que uma garante liberdade à outra. Da plasticidade teórica, há boas noticias: nos últimos 20 anos, pelo menos, o debate epistemológico da Comunicação tem mostrado avanços, como se constata no trabalho de vários dos grupos aqui representados e também no GT da Compós. As direções de pesquisa são diversas e não-unânimes, o que pode ser lido como enriquecimento para a área. Quanto ao assentamento político, as dificuldades são maiores e sinalizam que ainda estamos longe de alcançar um terreno minimamente propício, onde possamos trabalhar individualmente com autonomia e, coletivamente, pelo desenvol-

28

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

vimento científico do nosso campo. Num primeiro plano, há o sufoco das exigências de produtividade, avaliações individuais e institucionais, prazos e financiamentos. É no plano de fundo, contudo, que vemos uma estrutura que não deixa margem para conquistas políticas na Comunicação. Essa estrutura são os “outros”, portanto, como diria Sartre, o inferno. São os outros porque não fomos nós, os comunicólogos, que a inventamos. Mesmo assim somos compelidos a alimentá-la. Limito-me, aqui, a apresentar o sintoma maior da estrutura, a Tabela de Áreas do Conhecimento (TAC) da Capes, na qual a Comunicação integra a grande área das Ciências Sociais Aplicadas. O título “radicais e livres” diz respeito justamente à posição inadequada da Comunicação na TAC que, por sua vez, já na distribuição das grandes áreas apresenta incoerências crassas. Trata-se, assim, de um problema que começa na raiz da tabela e cujos desdobramentos comprometem a liberdade das disciplinas específicas, dispostas nos galhos mais superficiais. Diante disso, nossa atuação não pode seguir outro caminho que o da radicalidade. No termo “taxográfico” subentende-se, ao menos inicialmente, uma revisão não só de nomenclatura (taxonomia) e sim da organização de uma nomenclatura já existente. A reforma, portanto, implica mudanças em toda a tabela e não somente na Comunicação. Afinal, esta última arroga-se como ponto de partida da mudança.

29

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

2. Um passeio pelas grandes áreas Tabelas são exigências de um mundo categórico. Cada coisa em seu lugar. De acordo com o site da Capes, que apresenta a última versão da TAC, “a classificação das Áreas do Conhecimento tem finalidade eminentemente prática, objetivando proporcionar aos órgãos que atuam em ciência e tecnologia uma maneira ágil e funcional de agregar suas informações”1. Se a finalidade é “prática” e “funcional”, a causa é – no mínimo – negligente. É possível que, em curto prazo, um número considerável de pesquisadores, grupos, programas e instituições de fomento se beneficiem de tal divisão alinhada à mentalidade produtivista. Porém, o modelo não discute suas próprias bases e não prevê espaço para o aparecimento de novas disciplinas.2 1 Capes: http://www.capes.gov.br/avaliacao/ tabela-de-areas-de-conhecimento 2 Em 2005, formou-se uma nova comissão para reorganizar a tabela (a terceira, em 20 anos, segundo Renato Janine Ribeiro). A comissão foi formada por: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Secretaria Especial de Desenvolvimento Industrial do Ministério do Desenvolvimento Industrial (SDI/MD), da Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação (Sesu/MEC) e da Secretaria de Industria e Comércio, Ciência e Tecnologia do Estado

30

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A atual TAC é formada por quatro níveis: grande área, área, sub-área e especialidade. Nesse contexto, a Teoria da Comunicação faz parte do terceiro nível, portanto uma sub-área. Antes de entrarmos nesse detalhe disciplinar, consideremos as oito grandes áreas: 1. Ciências exatas e da terra 2. Ciências biológicas 3. Engenharias 4. Ciências da saúde 5. Ciências agrárias 6. Ciências sociais aplicadas 7. Ciências humanas 8. Multidisciplinar À primeira vista, nenhuma das grandes áreas é exclusivamente teórica, podendo mesclar em suas bifurcações tanto teoria como aplicação. Apenas à área 6 cabe a exclusiva denominação “aplicada”, o que soa injusto, impreciso e incômodo. É importante lembrar que a aplicação não é nenhum mal, pois oriunda da divisão aristotélica dos saberes, é fundamental para a realização científica. Em toda ciência há lugar para teoria, aplicação, experimentação e produção. Tomemos como exemplo a grande área 1, “Ciências exatas e da terra”. Nela, a organização parece mais harmônica e simples do que nas outras. O segundo nível é formado por: matemática; probabilidade e estatística; ciência da compude São Paulo. O resultado final, no entanto, mostrou poucos avanços em relação à tabela anterior.

31

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tação; astronomia; física; química; geociências. Em todas há especialidades aplicadas e teóricas. Se quisermos observar o terceiro nível, basta tomar a matemática, que tem desdobramentos conceituais, aplicados e experimentais. O mesmo poderia acontecer com a Comunicação. Mas a tabela é anômala por princípio. Se e a categorização é um mal necessário, ela teria, pelo menos, que ser categórica e não misturar alhos com bugalhos. A grande área 6 é uma aberração epistemológica – e restrita às ciências sociais. Em seu esquadro, além da Comunicação, estão: direito; administração; turismo; economia; arquitetura e urbanismo; planejamento urbano e regional; demografia; ciência da informação; museologia; serviço social. O problema é que há inúmeros outros saberes aplicados espalhados por outros ramos das sete grandes áreas restantes. Nas Humanas, de acordo com o princípio da TAC, não deveria haver ciência aplicada, mas constam: filosofia, sociologia e psicologia, com especialidades aplicadíssimas como “treinamento de pessoal” ou “estimulação elétrica e com drogas”. Poderíamos passar horas pescando incoerências na TAC. Mas passemos avante. 3. A Comunicação À essa altura, já está claro que a grande área 6, “Ciências sociais aplicadas” precisa ser eliminada para que uma nova categorização seja gerada. A mudança não diz respeito uni-

32

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

camente à Ciência da Comunicação, mas a todas as outras incluídas na classificação. Seria muito precoce e impertinente, aqui, sugerir um novo modelo, pois este deve resultar de um processo de discussão e trabalho conjunto. Sabemos das dificuldades de implementação e andamento de comissões de TAC. Nos últimos 20 anos aconteceram, pelo menos, três tentativas de reformulação, com trabalhos exaustivos que, infelizmente, foram parcial ou insuficientemente finalizados. Igualmente importante é a realização de um levantamento histórico e documental das TACs no Brasil, com suas influências, origens, expoentes, transformações e adaptações, além de seus vínculos com instituições e sociedades de incentivo à pesquisa como CAPES, CNPq e SBPC. A TAC deve representar não somente os grupos de pesquisa aqui reunidos, mas toda a Área Brasileira das Ciências da Comunicação. Trata-se, portanto, de esforço conciliatório e estabelecimento de diálogos com próximos e distantes. Sem aspiração à unanimidade, a tentativa é a de uma realização política que amplie e trate com justiça as conquistas de nossa área, que reconheça sua trajetória e historicidade, que abranja suas diversas especialidades teóricas, aplicadas e experimentais, e que, ainda, reserve fôlego para novas subdisciplinas e temas de pesquisa emergentes.

33

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

02 Tecnomídia: o pensamento do hoje via obsolescência e disfunção do aparato midiático Soraya Guimarães Hoepfner Este é um projeto de pesquisa performativo que tem como objetivo investigar a natureza das tecnologias midiáticas (tecnomídia) a partir da observação do caráter particular de determinados aparatos midiáticos quando na condição de obsoletismo ou disfuncionalidade. Assim, os estados de inatualidade e inatividade dos objetos midiáticos selecionados para a pesquisa são considerados o acesso fenomenológico essencial à compreensão fundamental da relação entre existência humana-máquina (microdimensão técnica) e da relação entre o existência humana-mundo (macrodimensão temporal). Em seu estado de disfunção ou obsolescência, tais artefatos midiáticos transcendem seu tempo e seu modo de ser/atuar, servindo desta forma como evidência material dos conceitos de imediaticidade e tecnicidade que buscamos compreender. A pesquisa tem caráter performativo, ou seja, a investigação baseia-se em uma intervenção analítica dos artefatos midiáticos selecionados. Tal caráter implica em que, neste modo de investigação, a prática não constitui apenas a metodologia adotada, mas ela é integra, em especial, o objetivo da pesquisa, enquanto modelo ideal de abordagem para estudos transdiciplinares em filosofia da mídia, gerando ainda, além de resultados qualitativos, o projeto também prevê gerar dados

34

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

quantitativos e visuais. Do ponto de vista de embasamento teórico, a pesquisa segue de perto uma abordagem fenomenológica inspirada nas contribuições de Martin Heidegger para o pensamento da contemporaneidade, a saber, as premissas heideggerianas sobre tecnicidade e ser. O projeto almeja ainda posicionar-se teoricamente para além das perspectivas já estabelecidas pela filosofia da técnica e filosofia da mídia, ou seja, o estudo busca eminentemente superar tecnicalidades e midiaticidades, com vistas a repensar paradigmas dialéticos, tais como tecnologia x natureza; teoria x prática; ação x pensamento; humano x máquina, etc. Devido à necessidade de análise prática de aparatos midiáticos obsoletos e disfuncionais tidos como evidências fenomenológicas materiais, o projeto prentede estabelecer seu estudo de caso a partir da vasta coleção de aparatos midiáticos do Séc. XX, mantidos pelo Medienarchäologischer Fundus (arcevo de arqueologia da mídia) do Instituto de Ciências da Música e da Mídia da Universidade Humboldt em Berlin (IMM – HU). O projeto almeja os seguintes resultados: a) Ilustração dinâmica dos resultados da pesquisa na forma de um mapa GIS na web; b) Elaboração de uma caracterização do fenômeno tecnomídia; c) Documentação de uma metodologia de pesquisa performática, proposta como modelo padrão para estudos filosóficos da mídia. Keywords: Tecnomídia, Tecnicidade, Filosofia da mídia, Arqueologia da mídia, Filosofia da técnica

35

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Contribuição do projeto para os estudos da comunicação O presente projeto situa-se em uma área de conhecimento híbrida, na qual o questionamento filosófico fundamenta e guia a investigação científica. O objetivo do projeto é fornecer uma abordagem filosófica modelo para a análise de tecnologias midiáticas, sendo parte essencial dessa proposta a adoção de um método investigativo adequado para este ‘novo campo’, qual seja, o de uma pesquisa informativa, na qual o processo é o resultado a ser alcançado, em vez da tradicional comprovação prática ou teórica de uma hipótese pré-formulada. Não obstante o viés filosófico de questionamento, o estudo tem como questão central um elemento caro aos estudos da comunicação: a reflexão acerca do que é mídia, formulada no presente projeto em termos de como é a mídia. Na escolha pelo questionar filosófico que pergunta pelo modo de ser (como é) em detrimento de um questionar científico que domina o âmbito da quididade (o que é) do objeto de pesquisa, o projeto tenta abrir caminho para uma espécie de ‘filosofia aplicada’, acreditando ser este um modo de questionar que em muito contribuiria para os estudos da mídia, sobretudo porque, justamente, seu objeto de pesquisa tem um modo de ser particular, diferente de outros objetos das ciências humans e sociais. Deste modo, o fio condutor da investigação, a tentativa de uma caracterização da essência presente em todo e qualquer objeto midiático, para além de qualquer que seja expressão (discurso), forma (estrutura) e função (meio), finda

36

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

por corroborar a afirmação da particularidade deste objeto e, consequentemente, a particularidade de um modo de investigar que ‘atende’ à especificidade do objeto, em vez do contrário. Em síntese, a investigação pressupõe que objetos midiáticos ‘quebrados’ ou ‘defasados’, em sua condição de estar, respectivamente inativo e inatual nos fornecem um cenário privilegiado de observação do fenômeno midiático. Assim, a investigação prática orienta-se por três perguntas filosóficas? 1) Como pensamos tempo através da transcedência funcional peculiar do objeto midiático obsoleto? 2) Como pensamos o caráter essencial e geral do fenômeno midiático, exposto pela dinâmica de aparência do objeto midiático ativo/inativo? 3) Como estes objetos diferem de outros objetos técnicos, ou seja, em que sentido se dá o sentido de mídia? Deste modo, ao centrar-se na manipulação e observação de determinados objetos midiáticos e, neste processo, analisar seus respectivos modos de ser quanto aos aspecto de obsoletismo e disfuncionalidade, o projeto busca, acima de tudo, superar os paradigmas da tecnicalidade e da medialidade, ou seja, equilibrar-se em uma interseção entre o que seria a abordagem já bem-estabelecida da filosofia da tecnologia ou da filosofia da mídia. Nesta interseção, acreditamos que abriria-se o espaço no qual se daria o diálogo com os estudos da comunicação social, sobretudo no tocante à necessidade fundamental de uma interveção prático-analítica na qual é justamente esta manipulação/observação dos objetos midiáticos o resultado determinante.

37

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

No tocante à questão central dessa pesquisa, a identificação de um sentido geral e essencial para o fenômeno denominado mídia, através da observação de objetos midiáticos em estado de inatividade ou inatualidade, é importante contextualizarmos que, independentemente das diferentes escolas de pensamento, parece ser um consenso a necessidade de legitimação do fenômeno mídia como uma entidade conceitual. Isto não é outra coisa do que a sinalização da independência e afirmação da teoria das mídias como campo de estudo, dentro do tradicional viés dos da comunicação. Já no âmbito de uma investigação filosófica, denotamos que o questionar por um sentido geral e essencial, no qual mídia seria compreendida como uma região ontológica, é contribui para o exercício de uma filosofia aplicada, voltada para pensar o hoje (princípio filosófico per si). Deste modo, muito além do que poderia ser visto como uma questão para os historiadores da filosofia ou preocupação exclusiva dos bibliotecários, cada vez mais desafiados pelo movimento fusional das áreas do saber, a questão sobre a determinação da mídia como autêntico problema filosófico revela-se uma necessidade para a compreensão da própria tarefa da filosofia em nossa configuração de mundo atual, ou seja, a discussão do lugar da filosofia em tempos de informação. Na hipótese da indicação de um sentido geral, um signo comum, que permearia a multiplicidade de aspectos e manifestações, esta se demonstraria possível, precisamente porque à base de tais manifestações tecnológicas revela-se algo que não está passível de ser investigado objetivamente, pois diz

38

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

respeito a uma situação de mundo, uma indicação do que somos e como somos no presente. Neste sentido, pensamos sobretudo em um diálogo com Heidegger e o que o filósofo entende como facticidade, ou seja, a dimensão temporal do presente na qual o acontecimento de mundo dá-se abertura para pensar o sentido de ser. É justamente neste sentido que pensar mídia passa a ser questão inevitável e necessária para a filosofia, sem que contudo jamais possa ser equivocadamente apreendida como seu objetivo final. Além disto, também com Heidegger, nos voltamos para a dimensão ontológica da tecnicidade, e assim acreditamos ser possível adquirir também um outro olhar sobre as tecnologias midiáticas. Somos capazes de uma reflexão para além da agencialidade humana, intencionalidade histórica, utilitarismo. Na perspectiva heideggeriana, passamos a perceber no fazer humano, na vontade política e no determinismo tecnológico, o caráter elementar do advento de ser. Tecnologias não são portanto modos de fabricação da realidade, mas sim modos de aparição da realidade. Se optarmos por um diálogo com Heidegger, devemos aceitar que se é, somente à medida que opera-se uma espécie de apropriação eventual a partir da qual algo pode vir à luz; uma coisa, qualquer coisa surge enquanto tal. Centrarmo-nos em tal dimensão temporal, na qual questionar ‘o que hoje é’ perfaz a tarefa da filosofia, faz justamente com que uma reflexão sobre o modo de ser das tecnologias midiáticas, enquanto fenômenos do nosso hoje, tornem-se urgentes para uma tarefa do pensar. Assim, a compreensão da presença e predominância das tecnologias midíaticas em todos os campos da vida, são como que

39

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

uma necessidade filosófica, onde no extremo da radicalização uma filosofia da mídia soaria redundante. Um olhar para o hoje não pode se furtar a um olhar sobre as tecnologias midiáticas e nesta premissa da facticidade que baseia-se e justifica-se a presente proposta de investigação. Por fim, no tocante aos estudos da comunicação, embora muito tenha se avançado nos últimos anos em direção a uma abertura de fronteiras do conhecimento e de iniciativas transdiciplinares, podemos de maneira geral observar que é justamente o caminho segmentado e compartimentalizado do saber, este mesmo sob qual se ergueu o próprio conceito moderno de universidade, uma grande barreira para o lougro de resultados científicos nas áreas das humanidades. Por um lado, no tocante à teoria da mídia, vemos a problemática da caracterização do objeto de estudo (inerente à afirmação de um campo científico); em outra instância, vemos o dilema do gap entre teorização e práticas de comunicação, o que muitas vezes relega o trabalho de investigação neste campo ao tratamento cético igualmente dado à pesquisa filosófica. Neste segundo ponto, advogamos por um ‘engajamento’ do pesquisador de teoria da comunicação com seu objeto; no primeiro ponto, advogamos por uma aproximação com um modo de pensar que, embora mantenha-se eminentemente científico, privilegie o questionar aberto, onde a fantasia dos macro-conceitos (sociedade, homem, tecnologia, mídia) possam ser repensados e questionados. É justamente neste ponto que o exercício de pensar filosófico, este que a todo momento volta ao princípio, coloca-se como um desafio necessário aos comunicólogos e é precisamente esta contribuição que gostaríamos de fazer.

40

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

03 EXCOMMUNICATIO – Por uma teoria negativa da comunicação Maurício Liesen Agora só espero a despalavra: a palavra nascida para o canto – desde os pássaros. A palavra sem pronúncia, ágrafa. Quero o som que ainda não deu liga. Quero o som gotejante das violas de cocho. A palavra que tenha um aroma ainda cego. Até antes do murmúrio. Que fosse nem um risco de voz. Que só mostrasse a cintilância dos escuros. A palavra incapaz de ocupar o lugar de uma imagem. O antesmente verbal: a despalavra mesmo. Manoel de Barros

A tese aqui apresentada é o resultado de um trabalho de doutorado desenvolvido durante quatro anos de pesquisas, cuja proposta é a de arruar uma despalavra: a excomunicação. Paradoxalmente, a ex-comunicação é a própria ex-posição do reino da despalavra. E por ser ela mesma uma despalavra, a excomunicação carrega em si uma dupla negatividade: é indefinível e, ao mesmo tempo, incontornável. O prefixo ex assume aqui a mesma função do prefixo des do título

41

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

do poema de Manoel de Barros: ele atribui não apenas uma simples negação, mas um deslocamento fundamental: ele é o inegável que se pré-supõe, que constitui a comunicação, mas que resiste à qualquer conceituação: ao mesmo tempo em que possibilita, o prefixo ex assegura a impossibilidade da sua re-presentação. Este trabalho é, portanto, uma tentativa de expor um conceito outro de comunicação, de ex-pôr uma figuração capaz de manifestar uma comunicação que não se realiza no nível linguístico, mas no pré-representacional. Um comunicar que não se estrutura em signos, mas se mostra: uma comunicação existencial, intransitiva, inexprimível ou mística2. A excomunicação no seu manifestar-se é percebida em uma experiência radical de passibilidade. Revelação de uma presença sem a Verdade, sem a plena comunhão com essências e dogmas incontestes, ela se dá na percepção – entendida como medialidade – a partir da presença do outro – o além do mim que atrai e se retrai. A excomunicação é a manifestação de uma comunicação sem Deus: não apenas uma negação de qualquer estrutura apriorística, mas também do essencialismo metafísico. Excommunicatio: excomunhão e excomunicação. Excomunhão que resiste à comunidade que não permite excomungados. Excomunicação que resiste ao apriorismo sígnico que não admite o inexprimível. Este é o campo de tensões no qual se move a presente pesquisa. Nela estão as linhas gerais para a proposta de uma teoria negativa da comunicação, cuja defesa será efetivada a partir de uma reelaboração negativa dos seus três conceitos fundamentais: a comunicação, o medium e a comunidade. Estes três termos

42

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

são o ponto de partida para qualquer teoria que se proponha a descrever o fenômeno comunicacional. Grosso modo, assume-se neste trabalho a comunicação como a figuração de uma experiência radical de alteridade; o medium como a descrição dos modos de percepção desta experiência e a comunidade como a incorporação das possibilidades de sua ocorrência. O pensamento da negatividade ajuda na aceitação do inexprimível ao desenvolvimento desses conceitos – ou quase conceitos, já que atuam mais como modos de descrever fenômenos que escapam à qualquer sedimentação ontológica (a resposta ao “o que”) ou hermenêutica (“tal como”), assumindo antes a característica do pronome relativo “que”3. “Que” é a marca da presença de uma ausência fundamental: ele marca o negativo da significação, ou seja, aquilo que não possui nenhum conhecimento de si. A negatividade rabisca o enigma da condição. Ela ressalta algo que se dá com ou na comunicação, mas que não se comunica por ela. Ela se retrai no momento da experiência. A excomunicação é inoperante. Estes termos aparentemente nebulosos são insistentemente elaborados e reelaborados no decorrer deste trabalho, na esperança de que eles se manifestem de forma mais enfática. Por sua vez, com o intuito de arruar a proposta de uma teoria negativa da comunicação, são necessários três anteparos que constituem a divisão dos capítulos desta tese de doutorado, a saber: a descrição da dimensão existencial e mística do conceito de comunicação; a abordagem da categoria filosófica do outro na constituição da experiência

43

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

comunicacional; e, por fim, a projeção dos conceitos negativos de medium, comunidade e comunicação. Como já se deixa perceber, este trabalho não está alinhado aos estudos e teorias da comunicação que partilham dos pressupostos linguístico, mediacional ou sígnico (como sistema de orientação, ponto de partida ou de chegada para as suas reflexões). Ao contrário, ele busca atuar no limiar dessas abordagens: uma tentativa de evidenciar os limites de tais apriorismos e mostrar o que – para além ou aquém deles – resta para a comunicação. Mas o local desta tese é bem delimitado: as inquietações, conflitos e diálogos partem daquilo que recentemente foi exposto como o campo pós-hermenêutico4. A excomunicação é uma proposta para situar a comunicação – sob a perspectiva de uma filosofia negativa dos media, elaborada principalmente pelo filósofo alemão Dieter Mersch5 – dentro de um contexto pós-hermenêutico. A caracterização deste lugar, onde a presente tese vai buscar seus principais referenciais teóricos, é abordado num tópico específico ainda nesta introdução. Antes deve-se ressaltar que esta proposta não significa, sob qualquer hipótese, uma superação ou necessidade de esquecimento de qualquer outra teoria do chamado campo da comunicação. Muito mais do que uma revisão crítica dessas outras teorias, esta tese se propõe a apresentar um outro caminho ou uma abordagem suplementar: um outro aparato conceitual para se observar um mesmo fenômeno, ressaltando, contudo, diferentes aspectos. Como demonstrado no decorrer desta pesquisa, as implicações metodológicas da sua proposta

44

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

não são concorrentes com qualquer teoria. E as suas implicações éticas e políticas caracterizam-se de outra forma do que aquelas apresentadas pelas teorias do a priori linguístico, mas cuja reflexão é incontornável e necessária para manifestação de um contraponto à atual imposição de uma sociedade da comunicação. Para exemplificar o posicionamento deste outro olhar, pode-se recorrer à diferenciação entre as perspectivas medial e sígnica das recentes teorias dos media, como proposta pela filósofa alemã Sybille Krämer, em seu livro Medium, Bote, Übertragung [Medium, Mensageiro, Transmissão], publicado em 2008. Krämer aponta para duas abordagens: uma voltada para o que é transmitido signicamente e outra para o que é traduzido medialmente: “Na perspectiva semiológica, o ‘oculto’ do sentido está atrás do sensual; na perspectiva mediológica, ao contrário, o ‘oculto’ da sensação está atrás do sentido”6. Em outras palavras, o signo deve ser perceptível, mas o que nele é perceptível, é secundário: o significado é que é importante, ou seja, aquilo que é tomado costumeiramente por ausente, invisível, ou até mesmo imaterial. O signo é em geral concebido como algo que está para uma outra coisa, que indica algo além de sua materialidade. O medium, por sua vez, funciona justamente ao contrário: o que nós percebemos é a própria mensagem, que surge no acontecimento medial. O medium é o secundário: ele se neutraliza, se recolhe no seu uso. Ao contrário da relação sígnica, que atrás do sensório encontra-se o sentido, a perspectiva medial propõe que atrás da mensagem visível se esconde o medium invisível7. Tal concepção do

45

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

médium como algo que se esconde no momento da sua manifestação é desenvolvida extensivamente pela obra do filósofo Dieter Mersch, cuja proposta culmina em uma teoria negativa dos media. Para Mersch, os media possuem a capacidade de esconder sua medialidade na medida em que ela ocorre: “Sua presença tem o formato de uma ausência”8. A estrutura do medial, portanto, não pode ser mediada. Ela se mostra. O que é passível de observação não é o medium, mas a sua aparição fenomênica como medialidade, pois o medium é algo que torna alguma coisa presente, mas que não se deixa apreender neste processo. Ele não pode ser tematizado. Daí a sua negatividade. A partir dessa perspectiva, este trabalho busca esboçar uma teoria negativa da comunicação. A insuficiência é inerente à comunicação. Não é uma falta, como algo que pode ser suprido ou preenchido por outra coisa que estava presente, mas sim, o insatisfatório, o inadequado. Por outro lado, comunicar é algo que “ex-cede”, que se desdobra não como a busca de um eu para um outro, mas como aquilo que cede, um mim que se abre para a insuficiência como passibilidade. O desenrolar desta tese busca exibir esta insuficiência fundamental. E dada a sua complexidade fenomenal, qualquer teoria da comunicação reflete impreterivelmente essa insuficiência. Mesmo com o risco de contrair o desgaste desta palavra, o gesto de excomungar a comunicação do seu lugar-comum teórico (semiose, troca, compreensão, tradução ou transmissão), torna-se necessário para ressaltar alguns aspectos em torno deste termo que, se por um lado, foram deixados de lado pela curta tradição das teorias da comunicação no Brasil, por

46

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

outro lado, está fortemente presente na história do pensamento do século XX em sua tentativa de pensar os limites do próprio pensamento. Para abarcar tal proposta, cinco gestos teóricos são executados durante este trabalho: 1. A reflexão sobre os movimentos do pensamento ocidental nos quais a comunicação foi tratada como categoria ou conceito; 2. a acentuação da dimensão existencial da comunicação, pois ela surge como um problema teórico na medida em que a existência humana é tematizada; 3. a apresentação de uma abordagem negativa e pós-hermenêutica da comunicação; 4. a caracterização da dimensão ética instaurada na acepção de uma comunicação como diferença, como insuficiência fundamental; 5. a reelaboração negativa dos três conceitos fundamentais para composição de uma teoria negativa da comunicação: comunicação, medium e comunidade. O não é uma recusa de qualquer reivindicação construtivista de soberania, seja linguística ou estrutural, contra qualquer reivindicação totalizadora. A negatividade, portanto, é uma abordagem do precário, do provisório. É a impossibilidade de dispensa da presença, como algo que possa ser negado. A negatividade é uma dupla figuração: “trata-se de uma ‘constelação quiasmática’ que produz um cruzamento entre negação e afirmação e que se deixa apenas ser marcada indiretamente”9. É essa forma desviada, deslocada e crepuscular que embala a despalavra excomunicação. É uma tentativa de ex-pôr a não conceitualidade e incontornabilidade da excomunicação. A aposta da pós-hermenêutica se constitui na afir-

47

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mação de que esse jogo de transparência e opacidade não se distingue em esquemas de uma experiência “imediata” nem nos fantasmas de uma mudez mística, mas sim que ele é inerente desde o princípio às práticas de significação ou mediação como uma co-lateralidade, uma co-ocorrência que não se pode ignorar. Esse olhar fronteiriço não é novo. O filósofo alemão Friederich Nietzsche já havia denunciado desde o século XIX o caráter frágil e provisório das interpretações. As investigações fenomenológicas de Heidegger já se movimentaram nas margens do pensamento. A filosofia ética de Emmanuel Levinas trouxe para o centro do pensamento aquilo que não pode ser apreendido conceitualmente: o outro. O conceito de diférance de Jacques Derrida evidenciou o aspecto inapreensível do infinito jogo de diferenças dentro da linguagem. O pensamento heterológico de Georges Bataille, o discurso noturno de Maurice Blanchot, e a filosofia do fora e do aberto de Jan-Luc Nancy fornecem os elementos para se pensar a comunicação e a obra para além das categorias hermenêuticas, semióticas ou estruturais. Estes e outros autores aparecem no decorrer deste trabalho para subsidiar o argumento de que a comunicação, sob um ponto de vista pós-hermenêutico, é uma experiência existencial de perturbação de sentidos, cujo ruído – tão perseguido pelas chamadas teorias matemáticas da comunicação – constitui-se como um elemento chave para a figuração dos elementos que escapam às tradicionais abordagens da experiência comunicativa. A excomunicação é justamente uma tentativa de tra-

48

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

zer para o palco aquilo que é resiliente aos lugares-comuns da comunicação na própria experiência comunicativa. 1 Maurício Liesen é doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e pesquisador do FiloCom. Mestre em Comunicação pela UFRJ (2010) e graduado em Comunicação Social pela UFPB (2007), atualmente desenvolve suas pesquisas na Universität Potsdam como bolsista do Deutschen Akademischen Austauschdienst (DAAD). Homepage: mauricioliesen.wordpress.com. 2 Místico no sentido em que o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein definiu em seu Tratactus Logicus-Philosophicus: “Certamente há o inexprimível. Ele se mostra, ele é o místico” [Es gibt allerdings Unaussprechliches. Dies zeigt sich, es ist das Mystische] (WITTGENSTEIN, Ludwig. Werkausgabe in 8 Bänden – Band 1: Tractatus logico-philosophicus. Tagebücher 1914–1916. Philosophische Untersuchungen. 10 ed. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1997, p. 85 [6.522]). Todas as citações de obras em língua estrangeira, cujas versões em português não sejam referenciadas, são traduções livres dos originais feitas pelo autor deste trabalho. 3 MERSCH, Dieter. Posthermeneutik. Hamburg: AkademieVerlag, 2010, p. 82 ss. e passim. 4 Cf. MERSCH, Dieter, op. cit.; GUMBRECHT, Hans-Ulrich. Productions of Presence: what meaning cannot convey. California: Stanford University Press, 2004; GUMBRECHT, HansUlrich. Corpo e forma: ensaios para uma crítica não-hermenêutica. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.

49

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

5 MERSCH, Dieter. Was sich zeigt. Materialität, Präsenz, Ereignis, München: Fink, 2002; MERSCH, Dieter. Medientheorien zur Einführung, Hamburg: Junius Verlag, 2006; MERSCH, Dieter. Posthermeneutik, Hamburg: AkademieVerlag, 2010; MERSCH, Dieter. Tertium datur: Einleitung in eine negative Medientheorie, in: In: MÜNKER, Sefan & ROESLER, Alexander (orgs.). Was ist ein Medium?, Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2008; MERSCH, Dieter. Ereignis und Aura: Untersuchungen zu einer Ästhetik des Performativen, Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2002. 6 KRÄMER, Sybille. Medium, Bote, Übertragung: kleine Metaphysik der Medialität. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2008, p. 34. 7 Ibid., p. 35. 8 MERSCH, Dieter. Tertium datur: Einleitung in eine negative Medientheorie, p. 304. 9 MERSCH, Dieter. Posthermeneutik. Hamburg: AkademieVerlag, 2010, p. 26.

50

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

04 Os desdobramentos da Nova Teoria da Comunicação Ciro Marcondes Filho Propôs-se no Projeto da Nova Teoria as bases de uma investigação comunicação enquanto fenômeno autônomo, que dispensa a salvaguarda e a tutela das ciências sociais. Comunicação como ciência que estuda a forma como os dados imediatos chegam à consciência, cujo patrono é Bergson, mas cujas raízes vêm já de Espinosa; comunicação como ciência da percepção, das afecções e das sensações, vista não da perspectiva das ciências cognitivas, mas como “encarnação”, no sentido de Francisco Varela, a saber, incorporando cultura e sociedade, em uma palavra, a filosofia. Propôs-se que se comece aqui efetivamente o estudo do processo que associa sinais externos e mente humana, que investiga seu agir conjunto, a percepção, ponto nuclear da comunicação. Husserl é representante de uma nova era da sociedade humana – o último quartel do século XIX e o primeiro do século XX – em que todas as idéias, as práticas sociais, a subjetividade sofrem um violento abalo em suas convicções em vista da introdução de inovações técnicas que prenunciam a sociedade da comunicação. Trata-se das máquinas que registram a imagem, o som, o movimento e a escrita dos homens (aparelho fotográfico, fonógrafo, cinematógrafo, máquina de escrever), que vão progressivamente ocupando o lugar dos

51

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

humanos, relegando-os à periferia do sistema; máquinas que irão constituir um mundo paralelo ao materialmente vivido, um mundo de glamour e de fantasias e que traz consigo o sonho da humanidade, a relativização da morte com a instauração da imortalidade através dos aparelhos técnicos de gravação e reprodução. As novas técnicas abalaram os rumos do pensamento filosófico e fizeram os pensadores se reposicionar diante da nova realidade. Husserl, aprofundando-se na percepção, seguiu um caminho paralelo às investigações de Bergson, influenciou Merleau-Ponty, Levinas, Lyotard. Sua investigação centrou-se no fenômeno humano da captação dos sinais externos e de seu tratamento na interioridade de cada indivíduo. Todos esses cérebros são precursores dos estudos de comunicação mas não levam a obra às últimas consequências. O mesmo contexto impressionou também Horkheimer e Heidegger. O primeiro, iniciando os estudos críticos da era dos grandes sistemas comunicacionais, aponta, ao chefiar a Escola de Frankfurt, para a descoberta mais revolucionária no campo das comunicações sociais, a indústria cultural, conceito este que, apensar da magia, permaneceu subexplorado pelo seu grupo e pela inteligência da época. Heidegger, ex-orientando de Husserl, localizou o problema de seu tempo (os anos 20 do século passado) na incapacidade de a cultura ocidental dissociar ser e ente, mantendo o ser preso a uma concepção metafísica, imóvel e platônica, forma essa mantida intacta até sua época, deixando atrofiadas as potencialidades do ser. Mais ainda, despertou a consciência do Ocidente para os equívo-

52

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cos da técnica, que se apoderava do pensamento humano sem que este pudesse perceber sua astúcia em fazê-lo cair em suas tramas. Mas nenhum deles construiu, de fato, uma ciência da comunicação no verdadeiro sentido da palavra. No pós-guerra, herdeiros do Círculo de Viena voltaram a se reunir nos Estados Unidos e constituíram o Círculo Cibernético, recolocando a questão da comunicação. Especialmente Heinz von Foerster irá dizer que a comunicação não existe, é algo impossível, ou então, improvável (Niklas Luhmann). Eles põem efetivamente o dedo na ferida. E de uma nova forma, considerando a cibernética, a importância do observador, as novas idéias da auto-organização e da autopoiese, tudo isso atualizando as proposições originais de Górgias. É desse mesmo círculo que sai também Gregory Bateson, um dos pesquisadores do tema que mais se aproxima daquilo que a Nova Teoria procurava, ou seja, o mapeamento dos componentes da comunicação, de sua qualidade, de seus equívocos e seus malentendidos. Além dessa ontologia, que define a comunicação de forma original, a Nova Teoria propôs um outro tipo de metodologia, um “quase-método”, modelo de estrutura de investigação que procura se adaptar às características dinâmicas, moventes, permanentemente em transformação do fenômeno comunicacional. Trata-se de um inédito modo de observação que acompanha a vitalidade do fenômeno e que se constrói em contiguidade com ele. Metáporo é o procedimento de pesquisa em que a atividade do pesquisador vai abrindo sempre novos caminhos, criando continuamente outras formas, sempre

53

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

buscando um ajuste ao fenômeno que está sendo estudado, que é, por sua vez, eternamente mutante. Refinamento dos resultados do projeto anterior, voltamo-nos, no caso presente, a um aprofundamento operacional dos fenômenos comunicacionais, neste caso, ao processo de recepção/fruição da comunicação, especialmente aplicado às formas “plásticas” da comunicação: fotografia, cinema, manifestações estéticas, musicais, literárias, assim como às formas de comunicação presencial entre dois agentes, grupos e círculos maiores. Este momento trata dos produtos culturais que se utilizam da ficção para realizar a comunicação. Especial destaque se dá à fotografia e, mais particularmente, ao cinema. Com base no referencial teórico e epistemológico da Nova Teoria, esta proposta busca trabalhar intensivamente a comunicação engendrada por esses processos, especialmente no que se refere à sua capacidade de quebrar modelos e hábitos instalados no receptor. O cinema tem a potencialidade de produzir trepidações através de sua atuação específica no núcleo empírico da realização da comunicação, ou seja, no processo de afecção, percepção e dos perceptos, que Deleuze chama de blocos de sensações . O cinema, de forma mais bem-sucedida que as demais artes, e incomparavelmente superior às formas discursivas de comunicabilidade tem mais condições de realizar a promessa de comunicação , carente em outros meios, ou seja, produzir choques e violência perceptiva que mexem com o pensamento. Deixando o cinema, o projeto caminha na direção de uma construção teórica das formas do sentir e do receber a comu-

54

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

nicação, trabalhando exaustivamente com os fundadores do debate sobre a percepção, chegando até autores contemporâneos que elegeram, como nós, o fenômeno da comunicação como o ponto central de toda uma trama de relações humanas, sociais e políticas que definem a contemporaneidade.

55

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

05 Comunicabilidade e dialogismo: possíveis aproximações epistemológicas entre William Stephenson e Mikail Bakhtin Gustavo Said A formação da subjetividade individual sempre foi um tema controverso nas Ciências Humanas e Sociais. Grosso modo, as discussões se dividiam entre duas correntes epistemológicas: o subjetivismo idealista, que pregava a total e completa formação do sujeito conforme sua livre atuação e o papel de sua consciência no meio social, e o objetivismo abstrato, que via o sujeito amarrado à cultura e à linguagem, preso às estruturas de diversas ordens. Em ambas, não era possível pensar o sujeito fora dos quadros de um psiquismo individualista regido pela consciência nem de uma lógica metafísica que retirava dele toda e qualquer liberdade de ação. Das primeiras décadas do Século XX até agora, muita coisa mudou no estudo da subjetividade. No entanto, do conceito de self dos primeiros interacionistas simbólicos, passando pelo inconsciente da psicanálise, da fenomenologia humanista de Heidegger ao existencialismo sartreano, passando pela psicologia da gestalt e pela psicologia cognitivo-comportamental, os diferentes aportes, nas diversas subáreas do conhecimento, traduzem quase sempre as mesmas questões de fundo ontológico-epistemológico: quem é o sujeito? Como ele se forma? Qual o papel dos outros na formação da subjetividade? Por conseguinte, permanece como uma constante a velha dúvida

56

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

metodológica: é possível descrever e analisar a subjetividade? Como é possível percebê-la? Em 1935, o físico e psicólogo britânico William Stephenson criou um método de estudo da subjetividade, conhecido por Q. Essa metodologia possibilita uma tradução objetiva – números, fatores – de fenômenos subjetivos, através da comparação dos pontos de vista de membros de um grupo, estabelecendo relações entre a opinião ou impressão dos respondentes, no que tange a uma determinada amostra de variáveis. O objetivo principal é identificar em processos interativos interpessoais o conjunto de elementos que conformam a subjetividade individual. A Metodologia Q foi desenvolvida especialmente para estudar a subjetividade humana, entendida, nesse caso, como o campo afetivo composto por sentimentos, motivações, atitudes, crenças e opiniões de cada indivíduo. Articulados, estes elementos conformam um sistema através do qual as pessoas analisam o mundo e, a partir daí, tomam suas decisões, baseadas nas relações que estabelecem com outras pessoas. Desta forma, consciência, subjetividade e comunicação são conceitos que se articulam na perspectiva de Stephenson. Eles se coadunam num outro conceito, criado por Stephenson para designar as formas de auto-expressão que resultam – e só podem ser parte – da interação social: a comunicabilidade. Para Roman & Apple (apud Alves-Mazzotti,1998), a subjetividade não pode ser identificada apenas com o que ocorre “na cabeça das pessoas”. Segundo os autores, na medida em que ela abarca a consciência humana, há que reconhecê-

57

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

-la como assimétrica, isto é, como sendo determinada por múltiplas relações de poder e interesses de classe, raça, gênero, idade e orientação sexual, portanto, como um processo que é instituído nas relações intersubjetivas, por sua vez mediadas por fenômenos comunicacionais. Em consequência, o conceito de subjetividade tem de ser discutido e problematizado em relação à consciência. Nesse sentido, não é forçoso admitir que existem na Metodologia Q rastros epistemológicos de uma filosofia da consciência e de uma filosofia da linguagem. Ao considerar a construção da subjetividade individual dentro de uma rede de relações, dando margem à intersubjetividade, a Metodologia Q se aproxima do pensamento do filósofo russo Mikail Bakhtin, que, segundo Clark e Holquist (1998), difere de outros filósofos que se dedicaram ao tema porque construiu uma filosofia da linguagem que se aplica às preocupações relativas à vida cotidiana, colocando “a dinâmica social da prática observável da linguagem como a força especificadora que estrutura as relações interpessoais no Zwischenwelt, ou ‘mundo na consciência intermédia” (Ibid., p. 36). Cumpre ressaltar que Bakhtin e Voloshinov, em Marxismo e Filosofia da Linguagem (2004), já propunham a ultrapassagem da aporia representada pela dicotomia entre subjetivismo idealista e objetivismo abstrato, seja porque, no primeiro caso, a língua é vista como um ato meramente individual, descurando de seu caráter social, seja, como na segunda proposta, pela supressão da consciência linguística dos interlocutores nas situações concretas, históricas e reais de uso da língua. Na obra citada, o foco da análise é desviado da língua para a linguagem, enten-

58

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

dida como forma específica – histórico-social – de interação entre sujeitos intercomunicantes. Na perspectiva bakhtiniana, a linguagem deve considerar o contexto (o lugar, o tempo), as características e intenções dos interlocutores, as semiologias verbais e não-verbais, as formas de interação, tudo aquilo que participa da construção do sentido de um discurso. Como se percebe pela reflexão anterior, a formação da subjetividade individual, em Bakhtin, está relacionada à interação sígnica. Com efeito, a língua é pensada na sua inestabilidade, como um fluxo ininterrupto de atos de fala capazes de atribuir valor aos objetos. Daí compreender-se três possíveis desdobramentos dessa primeira assertiva: 1) não há consciência do eu sem linguagem, quer dizer, a própria consciência só pode surgir e se afirmar como realidade mediante a encarnação material em signos; 2) não há consciência do eu sem o outro, ou seja, o pensamento humano só se torna pensamento autêntico sob as condições de um contato vivo com o pensamento dos outros, materializado na voz dos outros, na consciência dos outros, que só pode ser expressa na palavra; 3) portanto, não há eu nem outro que não se expresse em termos de linguagem. Numa leitura crítica do idealismo dialético hegeliano, Bahktin percebe no signo linguístico seu aspecto social e ideológico, que relaciona a consciência individual com a interação social. Bakhtin, no entanto, não articula a configuração teórica de seu pensamento a operações metodológicas que possibilitem o estudo da subjetividade dentro da rede de interações sígnicas que conformam o contexto social em que se molda interdiscursivamente o sujeito.

59

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Na tentativa de relacionar o pensamento do filósofo russo com a metodologia desenvolvida por William Stephenson, esse texto parte de uma questão – a subjetividade se conforma e se expressa no diálogo e no confronto das diferentes vozes, como pensa Bakthin? – e segue por uma possível resposta à mesma, por sua vez encadeadora de uma nova pergunta: se a resposta for afirmativa, os fatores de um estudo Q podem representar em termos metodológicos esse diálogo entre vozes, o ponto comum em que o pensamento subjetivo pode ser intuído do contato com o pensamento dos outros, materializado na relação expressa com outros pensamentos? Por outro lado, a relação entre o pensamento de Bakthin e a Metodologia Q só pode se encetar dentro de um mesmo quadro epistemológico, assumindo-se como plausível o argumento de que as ideias desenvolvidas por Stephenson pertencem também ao domínio da filosofia da linguagem e da filosofia da consciência, nas quais se inscreve a obra bakhtiniana. Por suposto, assumindo-se que a metodologia criada por Stephenson é apenas parte de um constructo teórico mais amplo, a noção de subjetividade deverá ter elementos comuns em ambas as proposições: haverá sujeito consciente de seus pensamentos em Bakhtin e na Metodologia Q? Para essas duas propostas, o sujeito é o autor exclusivo e único dos seus pensamentos? E mais: o sujeito é refém do outro ou a subjetividade é produto da intercomunicação? O ponto central apresentado nesse artigo é que os pensamentos, e, por conseguinte, a consciência, são resultantes de relações intersubjetivas. Mas essas relações não tornam o

60

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sujeito refém do ‘outro’. Ao contrário, para Bakhtin, segundo Oliveira (2012, p.06): nossa subjetividade é formada a partir do outro, não nos fundimos nele. Produzimos sempre algo novo. O sujeito cria em resposta às imagens que lhe são dadas pelo outro. A imagem que faço de mim nunca coincide com a imagem do outro, mas sempre aprendo com a imagem que tenho do outro, sempre transcendo aquela imagem e crio um campo de potencial aberto. Fundir levaria apenas a um empobrecimento porque destruiria a exterioridade e a alteridade, substituindo processos interativos por produtos consumados.

Por suposto, depreende-se que a relação com a alteridade, para Bakhtin, tem sempre um aspecto transformador e, possivelmente, enriquecedor, no que tange à formação das subjetividades. Na análise de obras literárias, Bakhtin percebe um conjunto de vozes que se expressa no texto. Essas vozes se manifestam de forma interativa, o que sugere existir em cada texto uma heteroglossia dialogisada. Pode-se pensar analogamente em termos da construção da subjetividade: a presença de vozes variantes em diálogo dentro de um mesmo texto ou na consciência de um indivíduo pode ser demonstrada? O objetivo desse texto é, exatamente, discutir a possibilidade de, usando-se a Metodologia Q e comparando-se os conceitos de dialogismo (Bakhtin) e comunicabilidade

61

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

(Stephenson), demonstrar a polifonia que performa a subjetividade individual. Referências ALVES-MAZZOTTI, A. J. O método nas ciências naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. Sao Paulo: Pioneira, 1998. BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética. Sao Paulo: Hucitec, 1988. ______. Marxismo e filosofia da linguagem. Sao Paulo: Hucitec, 1992. ______. O autor e o heroi. In: ______. Estetica da criacao verbal.2. ed. Sao Paulo: 1997a. p. 23-215. ______. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitaria, 1997b BIGRAS, Marc e DESSEN, Maria Auxiliadora. O Método Q na avaliação psicológica: utilizando a família como ilustração. Aval. psicol. [online]. 2002, vol.1, n.2. CLARK, Katerina; HOLQUIST, Michael. Micail Bakhtin. Sao Paulo: Perspectiva,1998.

62

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

LAGO, Adriano; et al. Principais causas do não associativismo entre agricultores familiares do Município de Nova Palma (RS, Brasil) e Estratégias. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil. Disponivel em: . Acesso em: 21 de marco 2013. MACHADO, Irene A. O Romance e a voz – A prosaica dialógica de Bakhtin. Imago/FAPESP, 2001. STEPHENSON, William. How to make a good cup of tea. In: BROWN, Steven. Operant Subjectivity – the Q Methodology newslleter. Ohio: Kent State University, 1987. ______. Intentionality: or how do buy a loaf of bread. Operant Subjectivity -journal of the international society for the scientific study of subjectivity.Ohio: Kent State University, 1993. OLIVEIRA, Miria Gomes de. Linguagem e os Processos de formação do Sujeito: implicações para uma sala de aula de leitura de textos shakespeareanos. Disponivel em Acesso em 10/11/2012 TEZZA, C. A construcao das vozes no romance. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Ed. da Unicamp, 1996. p. 219-226

63

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

WOLF, Amanda. Q Methodology and its applications: reflections on Theory. In: Operant Subjectivity – the international journal of Q methodology. Ohio: Kent State University, 2011.

64

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

06 Entremeios do Diálogo – Um atravessar Comunicacional Malu Damázio

INTRODUÇÃO Essa pesquisa parte da conceituação de comunicação como um fenômeno, e se propõe a investigar a possibilidade do Acontecimento comunicacional nos diálogos. Entendendo que o diálogo é algo que atravessa as pessoas envolvidas, é possível supor que nem toda conversa pode ser caracterizada como diálogo. A conversa trata de assuntos triviais, da comunicação fática e não gera transformação nas pessoas que dela participam. Já o diálogo é uma relação de comunicação, um processo de mudança que produz efeitos nas partes envolvidas, seja criando sentimentos, ou desconstruindo ideias. É algo que transforma e marca; é comunicacional. Além disso, há também a ocorrência de comunicação por recursos não-verbais na situação de diálogo. A expressão corporal e o rosto podem comunicar tanto quanto a fala. Eu não possuo o outro, não o submeto, mas considerando a alteridade tout court (o feminino), eu o acolho, o recebo, o hospedo, o trago

65

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

para dentro de mim. Ao contrário, quando submeto o outro, cria se o tédio, o desinteresse. (Marcondes Filho, 2010, p. 46)

As conversas podem se transformar em diálogos à medida em que evoluem de um simples modo de se informar algo, para uma espécie de comunicação que atravesse o Outro, que o marque. Trocar informações é uma forma de interação social, mas não é, necessariamente, algo que te faça perceber o Outro, que te faça sentir que ele está ali e que te penetre de tal forma que impacte sobre você. MARCO-TEÓRICO REFERENCIAL E METODOLOGIA A linha de pesquisa do professor Ciro Marcondes Filho não segue os métodos tradicionais de pesquisa científica. O FiloCom (Núcleo de Estudos Filosóficos da Comunicação) adota o processo do metáporo, que integra a Nova Teoria da Comunicação. A pesquisa metapórica baseia-se em um objeto de estudo que se abre, que se revela ao pesquisador. É como um poro que se permite mostrar e deixa transparecer a verdadeira essência do ser por um tempo, resultando em um acontecimento comunicacional. Esses poros se abrem e se fecham rapidamente; são constituídos de uma substância efêmera. Poros levam a uma saída. Essa saída aparece, torna-se visível, efetiva, mas não fica, não se estabelece, não perdura, escapa outra vez.

66

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

É como uma fulguração. É a chance que os fatos dão ao observador de aparecerem. (MARCONDES FILHO, 2010, p. 261)

A utilização do metáporo como forma de investigação da comunicação, considera a dinâmica da experiência de mundo, das relações que nele se inserem, tendo em vista a presença intrínseca do pesquisador-observador e as correlações que se estabelecem a partir dessa condição primeira. O metáporo é a forma utilizada para a apreensão do Acontecimento comunicacional, fenômeno que se insere em uma conceituação de comunicação como relação ativa a partir da alteridade. O procedimento metapórico opera em três momentos da pesquisa: no estabelecimento das condições de possibilidade da mesma, no ato da sua própria observação (o “caminhar” nômade) e na apresentação final de seus resultados. (MARCONDES FILHO, 2010, p.265)

Portanto, o desenvolvimento desta pesquisa coloca o pesquisador como ponto de observação. Sendo assim, os diálogos serão percebidos e relatados a partir de uma relação de alteridade entre o pesquisador e o Outro e os elementos ao seu redor. Para uma ampla compreensão do assunto, o estudo estará ancorado em uma bibliografia que aborde a Nova Teoria da Comunicação, buscando, assim, uma base teórica para melhor entendimento das questões relacionadas ao aconteci-

67

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mento comunicacional, mais especificamente a assertivas que envolvam o diálogo. RESULTADOS E DISCUSSÃO A pesquisa está em seu início, e, desde já, podemos perceber alguns fatores que parecem influenciar na constituição do diálogo, e formular algumas hipóteses acerca da ocorrência deles: Os períodos do dia apresentam diferentes características, se comparados, com relação à ocorrência de comunicação. A noite parece acentuar o sentimento de alteridade e tornar o ser mais aberto às informações que recebe. Isso faz com que haja uma maior possibilidade de acontecer diálogos durante esse período. Como e por que isso ocorre são perguntas estão no roteiro de estudos da pesquisa. Uma hipótese é a comparação entre tarefas rotineiras do dia e da noite. A maioria das pessoas trabalha em período diurno e tem tempo livre na parte da noite, estando mais aberta e, principalmente, mais disponível a ouvir e perceber o Outro. REFERÊNCIAS MARCONDES FILHO, Ciro. Princípio da razão durante: o conceito de comunicação e a epistemologia metapórica, Tomo V. São Paulo: Paulus, 2010.

68

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

MARCONDES FILHO, Ciro. O escavador de silêncios: Formas de construir e de desconstruir sentidos na Comunicação – Nova Teoria da Comunicação II. São Paulo: Paulus, 2004. MARCONDES FILHO, Ciro. Até que ponto, de fato, nos comunicamos? São Paulo: Paulus, 2007 MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

69

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

07 Imagens-totens em circulação: fixação de valor entre regulação e chancela Ana Paula da Rosa A palavra comunicação nunca esteve tão em voga. Está em todos os lugares como sinônimo de dispositivo, se disseminando assim como se disseminam os próprios dispositivos midiáticos, entendo-os para além de seu viés meramente tecnológico, mas também em suas dimensões semio-técnico e discursivas (Ferreira, 2008). Contudo, isso não significa necessariamente que a facilidade de acesso ao uso de mecanismos e ferramentas represente uma maior facilidade de comunicação, talvez o oposto. Da dificuldade de encontrar caminhos para comunicar com o outro, consigo mesmo, dos processos mais banais de trocas de mensagens, rumamos para a comunicação pela comunicação, onde o termo se esvazia, dirige-se para o que Vilém Flusser (2008) chama de nulo-dimensão. Ou seja, a comunicação que tanto se preconiza parece se afastar da exequibilidade na mesma medida em que se defende a sua existência, seria porque já ultrapassamos o momento de discussão da comunicação como conceito ou porque sequer chegamos a entendê-la e ao mesmo tempo estamos enredados em suas lógicas? Diante de tais perguntas, recupero aqui as provocações iniciais de David Gunkel no I Encontro da Rede Nacional de Grupos de Pesquisa, ocorrido em 2012, em que o autor problematizava se a mudança do paradigma comunicacional estava

70

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

em responder o que era comunicação ou para quem comunicamos? Para tentar responder o questionamento deste ano, quanto ao “em que a pesquisa em curso renova o olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la?” é preciso primeiro fazer um movimento de olhar para a pesquisa a partir da endogenia, na concepção de Belting (1994), ou seja, de dentro para fora, e depois fazer o movimento inverso, de exogenia, de fora para dentro. Os estudos comunicacionais que venho me dedicando com maior atenção nos últimos anos no âmbito do mestrado, do doutorado e na esfera do ensino superior, junto aos Grupos de Pesquisa de Midiatização e Epistemologia na Unisinos, mais recentemente no Grupo Estudos de Comunicação Organizacional: Imagem, Discursos e processos Identitários da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, que está sob minha coordenação, e o GP Imagem e regimes de interação do PPGCOM da Universidade Tuiuti do Paraná, dizem respeito ao estudo das imagens inscritas na midiatização a partir do jornalismo. Constata-se que cada vez mais as imagens são inscritas em dispositivos midiáticos sejam eles jornalísticos ou de atores individuais que se reapropriam e reinscrevem estas imagens fotojornalísticas em seus espaços, criando novas circulações. Há aí um caráter replicante e reverberador da comunicação, que parece se dar em eco. Não se trata mais de uma comunicação linear, de mão única como durante anos tratou-se na teoria da comunicação e que já há muito se considera um modelo ultrapassado. Porém, não se trata, também, de uma comunicação circular simplesmente, focada em um feedback

71

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ou um em retorno. O que identifico em minhas pesquisas, e no conjunto dos estudos que vem sendo feitos sobre midiatização das imagens, refere-se a uma perspectiva de comunicação em eco, onde as vozes se amontoam, se sobrepõem a partir de um produzido, independentemente de quem seja o produtor inicial, ou o ponto de partidas das inscrições de sentido, ainda que a circunstância desta produção seja fundamental para ser investigada e compreendida. Isto implica dizer que as inscrições múltiplas das imagens em dispositivos diversos revela uma faceta dos estudos de hoje, a impossibilidade de pensar a comunicação fora da circulação. Entretanto de que ponto se fala em circulação? A temática já foi abordada por diversos autores, Verón (2004) a compreende, em seus estudos iniciais, como um espaço de defasagem entre as gramáticas de produção e reconhecimento. Fausto Neto (2010) como um lugar de produção, funcionamento e regulação de sentidos, sendo que para Ferreira a circulação se constitui como o aspecto central da midiatização. Como tenho me dedicado à problemática da midiatização das imagens, em especial, penso a circulação como um jogo de regulações chancelado pelas instituições midiáticas jornalísticas, que resulta em uma fixação de valor que é possível de ser retomada na distribuição, ainda que isso não signifique que a circulação seja apenas e somente distribuição. No entanto, a partir desse pressuposto, é possível olhar para comunicação e para a forma de estudá-la avançando, em certa medida, na mobilização do conceito de circulação ao considerar que se trata de um consumo-produtivo e de uma produção-consumidora

72

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

que se equivalem em termos de força na inscrição de materiais significantes, porém o lugar de chancela, de valorização ainda cabe à esfera jornalística, como se esta legitimasse as demais inscrições já feitas, restringindo a possibilidade de novas inscrições, ainda que estas existam e estejam disponíveis, mas não tem poder de circular. Para tratar do universo das imagens técnicas, nesta ambiência da midiatização, recorro à ideia de totem, um termo que de algum modo permite buscar explicações não apenas para o quê se comunica, mas para o que se convoca quando se realiza a comunicação. Neste sentido, a sede do ver e do ser visto, traduzida pela crise da visibilidade instaurada, revela de um lado uma espécie de crença na imagem que circula, que mesmo posta em distribuição repetidas vezes, é exposta à exaustão não ampliando a possibilidade de perspectivas sobre um determinado tema. De outro, há um descrédito da fotografia, que já se sabe não ser a cópia do real. Mesmo diante disso, observa-se que algumas imagens ultrapassam os acontecimentos durando para além deles, é o caso do 11 de setembro que mesmo não sendo o foco, foi retomado e reacionado diante da explosão da bomba na maratona de Boston seja por jornais, seja por blogs ou mesmo por posts no facebook. As imagens-totens são imagens autorreferenciais que são produzidas na circulação, que só existem nesta tramitação e que permitem mobilizar a tríade freudiana de lembrança, repetição e perlaboração. Isto é, a bomba de Boston trouxe à mente a lembrança efetiva do acontecimento do 11 de setembro, com suas imagens, seus horror, suas chamas. No entanto, recordar

73

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

o 11 de setembro, que teve recém comemorado seus 12 anos de modo ritualístico, como diria Van Gennep, ou sincrônico na visão de Harry Pross, nada mais é do que uma forma de impedir a lembrança de outras imagens e cenas do acontecimento, uma forma de restringir a interpretação do ocorrido, convocando imagens que já povoam o imaginário coletivo, que integram o universo do social. Assim, é possível perlaborar o novo, ou seja, elaborar o atentado de Boston configurando-o a partir da imagem do atentado do 11 de setembro. Dito de outro modo, a imagem totêmica das torres gêmeas é reacionada em 2013 como uma lembrança de um acontecimento, inserida em dispositivos midiáticos jornalísticos, ligando um caso ao outro. A restrição de acesso às imagens de Boston diferentes das veiculadas jornalisticamente geram a sua replicação em eco, de tal modo, que se torna impossível não ver as fotografias que foram publicadas e reiteradas, ainda que outras imagens tentem criar mecanismos de ruptura da hegemonia posta. Porém, a partir da imagem-totem elabora-se os sentidos produzidos do acontecimento. Desta maneira, tem-se a circulação com um jogo de regulações, onde vários atores ofertam materiais significantes, porém somente as imagens que são chanceladas pelas instituições jornalísticas, recebem poder de fixação e, portanto, são valorizadas para serem novamente reinscritas, reinseridas e perambular nos dispositivos via distribuição. Todo este processo parece-me ser uma forma de pensar como contribuir para renovar o olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la. Um aspecto relevante é considerar que

74

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

a tecnologia, embora seja central na apropriação da comunicação, seja pela facilidade do uso dos equipamentos, seja pelas profundas mudanças de usos e práticas sociais que se instauraram em nosso cotidiano, não é a única responsável pelo momento de transformação em que vivemos. As explicações para o que convocamos quando comunicamos parecem cada vez mais necessárias porque dizem respeito às estruturas profundas do social, na expressão de Cassirer (1994), ou à necessidade da construção de laços sociais que conforme Durkheim (2009) é uma necessidade tão antiga quanto o próprio homem. Então, tendo em vista a carência humana por laços, a paixão por imagens, a sua voluntarização por se fazer imagem em dispositivos, como o Instagram por exemplo, e o consumo cada vez maior de imagens pelas imagens, o que se propõe é pensar a fotografia jornalística como registro de um sentido social, não como uma abstração, mas para verificar o efeito que a inscrição destas imagens em dispositivos difusos (blogs, youtube, jornais,revistas) é capaz de gerar e como a circularidade das mesmas imagens altera o próprio acontecimento jornalístico. Parte-se da proposição organizadora, sobre o objeto em análise, de que a totemização das imagens, identificável na distribuição, é circulação na medida em que resulta da produção de valor (fixação simbólica), incidindo em processos de comunicação midiatizados, e, infere-se nos processos sociais correlatos ao tema do acontecimento. Do ponto de vista semiótico, é acionado um processo de perda ou apagamento do referente, o qual é reforçado por operações de linguagem constituídas a partir da inscrição em dispositivos midiáticos difusos.

75

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Do ponto de vista sócio-interacional, trata-se de uma relação social mediada por imagens, que convoca estruturas profundas do social, portanto, relações totêmicas (Cassirer, Durkheim), sendo que as trocas de materiais significantes se dão em fluxos, isto é, circulação. Porém, se de um lado as trocas são fluídas, de outro, acredita-se que o midiático adere às imagens, hierarquizando o conjunto de imagens com “direito” de reconhecimento e inscrição na produção, que podem ou não ser postas em circulação. Se isto renova o olhar sobre a comunicação, é precipitado dizer, mas é possível dizer que provoca o olhar. E todo tipo de provocação é motivador num espaço onde muitos questionamentos já foram feitos, nem sempre com respostas acopladas, mas como afirma Braga (2007) as perguntas importam mais, talvez porque nos permitam continuar se movendo. PALAVRAS- CHAVE: midiatização; circulação; imagens; jornalismo

76

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

08 Espaços de indefinição ética nos processos midiáticos Carlos Alberto Jahn

1. Introdução O contexto empírico da comunicação dos últimos 20 anos desafia a Epistemologia da Comunicação no sentido de descrever, explicar e gerar programas de pesquisa que deem conta do fenômeno da comunicação contemporânea. É uma pauta implicada na agenda de constituição da área. No PPG de Comunicação da Unisinos – área de concentração em Processos Midiáticos – a Linha de pesquisa Midiatização e Processos Sociais vem trabalhando a comunicação social desde a perspectiva dos processos de midiatização. As relações estreitas entre os dois termos de denominação da Linha constituem os objetos de pesquisa e o ângulo especial de relacionamento. Nesta compreensão, a perspectiva “midiatização” encompassa os processos semio-tecno-culturais da comunicação, algo além das “ações da mídia” – seja esta assumida como “indústria cultural”, seja enfatizada pelo ângulo das tecnologias ou por ângulos deterministas apriorísticos das situações estudadas. O “objeto” investigado é a comunicação social que, nas práticas sociais, é fator gerador de “situações indetermina-

77

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

das” e lugar privilegiado para pesquisa e produção de conhecimento. Por isso, leva a uma preocupação com as questões metodológicas, epistemológicas e ontológicas do Campo da Comunicação1. 2. Síntese de problema e sua angulação O ponto de partida da nossa tese2 é que em processos sociais em contexto de midiatização, a interação – de instituições, processos sociais, participantes implicados ou a sociedade – é o lugar onde ocorre o “fenômeno comunicacional”. (Braga, 2012a). A comunicação é processo e resultado de transformações, e, do ponto de vista “dos participantes”, um processo tentativo. Nesta perspectiva, a tese investiga a invenção social de dispositivos interacionais e seus circuitos. Esses dois ângulos intrigantes possibilitam caracterizar um conjunto de “lugares de observação”: a invenção do dispositivo, as interações, os circuitos e suas ações comunicacionais, tentativas do processo, os episódios comunicacionais, os episódios interacionais, além de eixos específicos. 1 Aqui nos apoiamos no texto O que nos faz pesquisadores da Linha Midiatização&Processos Midiáticos, texto motivacional debatido na atividade acadêmica, Seminário de Tese 2012, PPG Comunicação, Unisinos. 2 O titulo provisório é Espaços de indefinição ética em processos midiáticos. Um estudo de casos múltiplos a partir da caracterização dos dispositivos de mediação, dos circuitos comunicacionais e das lógicas tentativas dos processos.

78

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Assumimos que: 1) demandas institucionais – nas mais diferentes práticas sociais – lançam mão da multiplicação das tecnomediações setoriais, com usos da informação e das ações comunicacionais; 2)ações institucionais convertem ferramentas em dispositivos, inventam socialmente arquiteturas de mídia; 3)atores individuais inventam socialmente seus circuitos e fluxos comunicacionais à margem da mídia; 4) na mídia, seja no entretenimento ou na imprensa, está em desenvolvimento um redesenho das zonas de contato, lógicas de interface, articulação das plataformas ofertas de sentido e reestruturação das organizações e das suas estruturas; 5) a comunicação social traz um novo desafio ético – por articular múltiplos funcionamentos institucionais, econômicos, políticos, jurídicos e socioculturais – que afeta as éticas deontológicas. À luz destas premissas, os processos interacionais são um lugar de pesquisa do comunicacional. Neles se inscrevem os redesenhos da gestão das sociedades, da reestruturação das práticas sociopolíticas, dos processos coletivos de produção de sentido e na condução de muitas pautas individuais. Por isso, na invenção social dos dispositivos e dos circuitos (e seus ajustes!) emergem as múltiplas afetações e interdeterminações, com diferentes ritmos (sociais, culturais, institucionais e pessoais), racionalidades, sensibilidades e insensibilidades. Contudo, as lógicas e as operações padrão da comunicação seguem sendo as da mídia, mas os fenômenos comunicacionais em circulação estão para além da comunicação produzida nos e pelos meios. Novos atores passaram a desenvolver dispositivos interacionais, arquiteturas de mídia, proces-

79

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sos interacionais, circuitos e fenômenos comunicacionais. Os processos comunicacionais ali gestados, decorrem dos direcionamentos social e interacional. A partir de demandas das instituições e dos atores há invenções sociais sobre ferramentas tecnológicas e sobre o direcionamento interacional. Os fenômenos comunicacionais (dos processos sociais e dos atores individuais) passam a afetar a estruturação dos processos sociais, a comunicação entre os participantes sociais implicados nos processos, a comunicação com participantes de outros processos sociais e com a mídia. São processos tentativos e, não raro, se pode caracterizar seus circuitos como “circuitos canhestros”. (Braga, 2012b). Ao mesmo tempo, nos próprios processos midiáticos – historicamente tornados vigentes – surgem reavaliações, via críticas com especificidades. Em geral, essas criticas são ações institucionais de ajuste do campo ao ambiente midiatizado e nem sempre respondem satisfatoriamente às ações “novas” ou criam espaços de indeterminação “novos” para os quais não há respostas prontas. Desde o eixo da ética, pode-se caracterizá-los como situações onde os sentidos dos valores éticos e ordenamentos de conduta vigentes nas práticas sociais vacilam e necessitam reconsideração e reelaboração. No contexto das sociedades em midiatização, com sociedades pluralistas, essas indeterminações (invenção social, processos tentativos e “canhestros”) se tornam um problema ético que afeta a ética aplicada. Em cada atividade social – nos diferentes âmbitos da vida – existem bens internos (“metas”) que trazem exigências morais

80

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

específicas3. (Cortina, 2005). Para trazê-los à tona na sociedade, os especialistas de cada campo elaboram e assumem contratos coletivos de conduta que se traduzem em valores e hábitos. Ambos são subjetivos, mas funcionam como contratos, como gramáticas, que ordenam as condutas e estão voltados para dentro das comunidades a quem são dirigidos. Permitem deliberação sobre meios para alcançar os fins e por isso lançam mão de mecanismos específicos e estratégias para alcançar os bens internos de cada atividade. A concretização (e percepção!) dos bens internos confere a moralidade e legalidade (observância do quadro constitucional e da legislação complementar) da atividade social. No contexto da midiatização ocorre uma reconfiguração dos campos sociais, das suas lógicas e práticas, com atravessamento de campos. O estudo de processos sociais em contexto de midiatização sinaliza que essa tendência envolve “tradução” (compartilhamento?) e incorporação de “novos” valores e hábitos pelos membros das atividades sociais implicadas. Tais atravessamentos e indeterminações geram indefinições éticas, legais e de saberes. Exigem negociações e novos desenhos, em geral criando “novos subcampos”. Do ponto de vista do eixo da ética, um aspecto que nos parece intrigante é a chamada ao “protagonismo moral das 3 Exemplos que caracterizam atividades sociais e seus respectivos bens internos: da Saúde, bem estar físico-corporal do paciente; da docência, a transmissão da cultura e a formação de pessoas críticas; das biotecnologias, a pesquisa em prol de uma humanidade mais livre e feliz.

81

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

instituições”. Para além das lógicas das ações individuais – a prática dos padrões de ação individual em cada área – ganham destaque as lógicas da ação coletiva. Para que as consequências sejam benéficas e que os bens internos de uma atividade social apareçam, as instituições precisam desenvolver e incorporar os “novos” valores e hábitos. Elas passam a ser vistas como cristalizações da ação humana. Tal quadro de indeterminação suscita reflexões e demanda investigação sob o eixo da ética e sobre a midiatização. A título de conclusão do item, é importante frisar que não nos colocamos sob o prisma de uma autocomunicação dos campos ou dos indivíduos e nem de uma “creditação” da midiatização ao aumento do número de tecnologias de comunicação disponíveis e em uso. Por outro lado, queremos reforçar que nos colocamos numa perspectiva heurística sobre questões da midiatização, anguladas desde o eixo da ética aplicada. 3. Corpus, Objetivos e observáveis Para estudar essas problemáticas, nossa investigação articula um corpus com seis processos midiáticos em constituição – observados em recortes temporais superiores a dois anos. São eles: videomonitoramento de um trecho da BR-116; videomonitoramento de ruas e parques e audiomonitoramento de um bairro (Canoas-RS); uma Atividade Acadêmica 100% EaD de um curso de Especialização em Educação; duas colunas jornalísticas – Página 10 (Zero Hora) e José Simão (FSP) – e o blog

82

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Pergunte ao Urso. Os casos permitem um olhar transversal sobre processos de diferentes atividades. Estão a serviço da mobilidade urbana, da produção da segurança pública municipal, de processos de ensino-aprendizagem na educação superior, da comunicação política e do entretenimento. É um corpus que contempla casos em fase planejamento e implantação dos processos interacionais e das práticas comunicacionais e casos com usos consolidados, mas em remodelação. A estratégia metodológica combina Estudo de Caso (Yin, 2005) com Paradigma Indiciário (Ginzburg, 2004). No momento descritivo de cada caso trabalhamos com três operadores indutivo-dedutivos: a invenção social do dispositivo interacional; o circuito comunicacional; e as lógicas tentativas dos processos – subscritos ao eixo ética, especificamente, aos espaços de indefinição ética. Algumas indagações orientam a coleta de dados: Como o processo social (a atividade social ou as ações institucionais) inventa, socialmente, o dispositivo interacional? Em qual contexto ele está inserido? Quais lógicas articulam o dispositivo e o processo interacional – internamente, em seus distintos estágios de desenvolvimento e em suas distintas relações com os contextos e atores? Quais são os atravessamentos entre atividades sociais? Como o dispositivo e o processo interacional dão respostas? Quais as especificidades comunicacionais do caso? Quais as práticas comunicacionais? Quais fenômenos comunicacionais estão em circulação? Como o dispositivo interacional afeta as ações do processo social? Como se dão/ deram as negociações, especialmente para a invenção do circuito e dos fluxos comunicacionais? Quais os ajustes na ati-

83

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

vidade social e entre as atividades que compartilham o dispositivo? Quais indeterminações apareceram no recorte temporal observado e como foram encaminhadas? As descrições destes ângulos, a partir de cada caso, fornecerão uma rede ampliada de implicações (Campbell, 2005) da qual inferiremos variáveis de interesse e fontes de evidência. Para fins prático-didáticos de operacionalização da investigação empírica escolhemos alguns casos “próximos”, com “temáticas semelhantes”. Acreditamos que essa seleção preferencial ajudará a gerar contrastes e a evitar o perigo de absolutizações ou generalizações apressadas. Contudo, o Estudo de Caso, não é isento de riscos. Há o perigo do perder-se na profusão de ângulos e busca de variáveis que poderiam levar à excessiva dispersão e geração infinita de problemas da “ordem do diagnóstico”. Para “diluir essa ameaça” nos aproximamos do Paradigma Indiciário. Ele ajudará a selecionar e organizar as variáveis, com foco no gerar proposições de ordem geral sobre os espaços de indeterminação. Outro desafio, na etapa de relacionar variáveis que caracterizam os fenômenos, está na operacionalização das seleções a partir do problema de pesquisa, em função dos objetos – suas lógicas de articulação interna, desenvolvimento e relações com o contexto – e do conhecimento teórico disponível (sobre os objetos e âmbitos em que esses se processam). Por isso, nos colocamos num horizonte que entende a “Comunicação quando disciplina indiciária” (Braga, 2008); então, se “parte para fazer proposições de ordem geral a partir dos dados singulares obtidos” (p. 7).

84

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

As perguntas que a tese visa responder são: Como emergem os espaços de indeterminação nos processos sociais em contexto de midiatização? Como os espaços de indeterminação geram espaços de indefinição ética? Como os espaços de indefinição ética nas atividades sociais afetam a ética da comunicação contemporânea? Quais proposições o estudo – desde o eixo da ética – permite inferir sobre processos sociais em contexto de midiatização? O objetivo geral visa caracterizar processos sociais em contexto de midiatização – sob o eixo da ética – a partir de um desentranhamento. Para a consecução do objetivo geral definimos três objetivos específicos: 1.Descrever os dispositivos interacionais, os circuitos comunicacionais e as lógicas tentativas dos processos midiáticos investigados; 2.Identificar os espaços de indefinição ética emergentes nos casos investigados; 3.Inferir proposições sobre os processos midiáticos e a sociedade em contexto de midiatização. 4. Proposta de conhecimento comunicacional Nos itens 2 e 3, indiretamente, estão referidos os aspectos metodológicos e teóricos a pesquisa está tentando gerar. Nosso estudo está inscrito no horizonte da midiatização sob uma perspectiva heurística onde as noções midiatização, circuitos, interações e dispositivos interacionais podem ser rediscutidos, não como conceitos prontos e nem mesmo subordinados

85

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

à Comunicação, mas “em desentranhamento” ao serem problematizados desde um eixo específico. Referências BRAGA, J.L. Interação como contexto da Comunicação. Matrizes (2012a), v. 1. P.25-41, 2012a ----------------. Circuitos versus campos sociais. In: Mattos, Maria Ângela; Janotti Junior, Jeder; Jacks, Nilda (org.) Mediação & Midiatização. 1ª ed. Salvador/Brasilia: EDUFBA/COMPÓS, 2012b. CORTINA, A. Ética. São Paulo: Loyola, 2005. FAUSTO NETO, A; FERREIRA, J.; BRAGA, J.L.; GOMES, P.G. (orgs). Midiatização e Processos Sociais. Aspectos Metodológicos. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2010 GINSBURG, C. Chaves do Mistério: Morelli, Freud e Sherlock Holmes. In: Eco, H. O Signo três (1991). São Paulo: Perspectiva, 2004. MARTIN-BARBERO, J. Deconstrucción de la critica. Nuevos itinerarios de la investigación. In: LOPES, M.I.V e FUENTES, R.N. Comunicación: campo y objeto de estudio. Guadalajara, 2001. RODRIGUES, A.D. Prefácio. In: Livro Compós 2012. UFBA, 2012. Yin, R. Estudo de Caso. Planejamento e Métodos. 3ª edição. Bookman, 2005.

86

Sumário

08a Interlocuções epistemológicas em comunicação

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Tiago Quiroga O projeto Interlocuções Epistemológicas constitui-se uma linha de pesquisa do Grupo de Estudos e pesquisas em Comunicação Organizacional (GEPCOR) cujo objetivo é contribuir ao debate epistemológico em comunicação a partir da constituição de um amplo diálogo temático entre pesquisadores de Teoria da Comunicação. Partindo do pressuposto epistemológico que concebe cada área do conhecimento como sendo constituída por realidades específicas, a disciplina pretende avançar em torno daquelas que seriam particularidades próprias ao campo da comunicação. Adota-se a suposição de que, no presente círculo de estudos, uma das principais demandas hoje refere-se à identificação (apresentação/nomeação) das questões que, de fato, constituem seu debate epistemológico. Sugere-se que um destes temas seja exatamente o problema de uma quase inexistente e interessada interlocução teórica nos domínios da comunicação. Trabalha-se com a hipótese de que a proliferação dos discursos dedicados ao acompanhamento tecnológico não apenas radicaliza a fragmentação do campo, posto que transforma meios em fins, sacramentando o viés aplicativo da área, mas, sobretudo, acaba também por chancelar uma atividade científica demasiadamente desreferencializada. Como resultado, tem-se o aprofundamento da ausência de regularidades discursivas que poderiam produzir algum acúmulo epistemológico

87

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

comum. Não nos referimos ao alcance de concordâncias, mas de marcos reflexivos compartilhados, fundamentais ao debate em questão. Partindo, então, da atividade hermenêutica como princípio de autonomia, a pesquisa pretende não apenas delinear uma crítica às abordagens instrumentais em que o fenômeno da comunicação aparece, cada vez mais, esvaziado de qualquer ontologia, mas pensar efetivamente em que medida não seria a própria interlocução, entre os pesquisadores da área, um recurso epistemológico essencial ao enfrentamento do imperativo da dispersão técnica, bem como do mimetismo teórico que têm marcado o campo da comunicação. Como procedimento metodológico a ideia é realizar um amplo mapeamento dos conceitos básicos em teoria da comunicação e, em seguida, a partir de seus domínios, iniciar os diversos diálogos que os envolvem atentando para a possibilidade de eleger questões comuns que possibilitem maior verticalização em torno dos marcos reflexivos em comunicação. Em termos epistemológicos o presente procedimento procura identificar linhas de força que acenem ao que seria a produção de uma originalidade interpretativa nas teorias a qual possa nos ajudar a qualificar a proposição acerca de uma especificidade discursiva no campo da comunicação.

88

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO B 09 O comunicar como objeto epistemológico Lauren Ferreira Colvara A comunicação como campo científico está marcada tanto pela forte contaminação da Sociologia e da Antropologia, como também pela dinâmica da Sociedade da Informação que fixa o pesquisador no meio material. As relações comunicativas teriam assim sido deixadas de lado, não observadas. Por isso a proposta é da substituição da comunicação por um comunicar, ou seja, deixar a posição do passivo (a ação pronta e dada como certa) para a incerteza, para o fenômeno, o comunicar em seu acontecimento. Sendo assim, esta substituição exige revisões. Foram elaborados quatro pontos matrizes a serem desenvolvidos em redes de tensões (pontos nodais), construir uma rede analógica de onde podem sair infinitas retas para inúmeros cruzamentos. Um raio-objeto (o comunicar) será o eixo inicial do qual sairá trajetórias que atingirão outro ponto, constituindo assim uma posição completamente outra dentro do espaço analógicos das ideias. O caminho da pesquisa se faz e se desfaz, o que restará são as narrativas, os relatos das experiências teóricas e empíricas do pesquisador. Estudar o comunicar é estar atento metaporicamente aos vários movimentos, aos pontos nodais que aparecem e desaparecem. Os quatro pontos serão traçados em um

89

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

plano, ou seja, em um objeto empírico, produções audiovisuais. A intenção da exploração está na possibilidade de transformação durante a revisão. Afinal, estamos em novas relações, de camadas de sensibilidade que foram alteradas pela virada tecnológica (tecnototemismo). O imprevisto não está somente no fenômeno (objeto espistemológico), mas no uso das técnicas (objeto empírico) o que traz a obrigatoriedade da flexibilização do pesquisador para acompanhar o fenômeno vivo – científica, epistemológica e metaporicamente. As bases estratégicas do estudo far-se-ão por meio de pontos nodais traçados a partir destes pontos cardeais (o comunicar; o fenômeno e o instante; as camadas do sentido; o audiovisual). Tensões estabelecidas e traçadas pelo próprio fenômeno em seu Acontecimento. Há em cada ponto cardeal um aglomerado teórico e que se por demais próximos poderiam resultar em erros teóricos grotescos, mas que traçados e ligações auxiliam a uma reflexão. A primeira revisão seria baseada na necessidade da desconstrução da bipolaridade entre o material e o não material. Admitindo-se que a primeira polaridade seria a comunicação como o meio e suas dimensões e a segunda a comunicação como a interação e a mediação, o que resulta na eterna confusão entre meios e objetos; entre objeto empírico e objeto epistemológico. A proposta é da substituição da comunicação por um comunicar, ou seja, deixar a posição do passivo (a ação pronta e dada como certa) para a incerteza, para o fenômeno, o comunicar em seu acontecimento. A proposta seria o aprofundamento no debate triangulado por Ciro Marcondes Filho,

90

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

José Luiz Braga e Lucrécia D’Alessio Ferrara sobre o comunicar como um fenômeno e a constituição do campo da comunicação. E posteriormente contribuindo, no intuito de contribuir nesta discussão, inserir a problemática das camadas de sentido e os paradoxos como condição do comunicar como estética e percepção. (3º Círculo Cibernético com ênfase em Gergory Bateson) A segunda revisão estaria em assumir a fenomenologia como uma episteme comunicante e social. Esse posicionamento do objeto epistemológico ser o comunicar é consequência direta das discussões alavancadas pela Nova Teoria da Comunicação desenvolvida por Ciro Marcondes Filho, líder do FiloCom. Há o estudo programado de autores da fenomenologia como Henri Bergson, Merlau-Ponty, Emmanuel Levinas. O terceiro ponto estaria relacionado a medialidade (Günter Anders), ou seja, em como o espaço do entre e do indeterminado tem sido ocupado com sentidos prontos que que impediriam/atrapalhariam o comunicar. O tecnototemismo que traz esta fixação no canal fariam os meios sentirem e pensarem pelo sujeito? Tornando assim o comunicar algo raro (MARCONDES FILHO) ou indeciso (FERRARA). A fixação do canal e da imagem seria o ponto de partida para as experiências metapóricas. Essas inspiradas em trabalhos da Profa. Marília Franco a cerca da memória afetiva audiovisual. Explorar as camadas de sentido das imagens audiovisuais e da memória traz uma nova angulação para o comunicar, podendo ele acontecer para além do instante, mas na duração da rememoração da lembrança. Para tanto usaremos as produções

91

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

audiovisuais e as camadas de sentido, explorar os quatro pontos, buscando a possibilidade da transformação e da revisão. Afinal, para haver incomunicabilidade deve-se partir do pressuposto que há o comunicar, seja como intenção, seja como sensibilidade.

92

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

10 Um novo olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la Pedro Gilberto Gomes Para responder à questão sobre a contribuição que a pesquisa sobre a Plurivocidade do Conceito de Midatização pode dar para o estudo da comunicação, vou centrar-me em duas perguntas e um deslocamento: a pergunta pelos processos midiaticos, a pergunta pela ambiência e o deslocamento análise de uma sociedade dos meios para uma sociedade em midiatização. Obviamente, são reflexões iniciais e sujeitas a críticas e complementações. A pergunta pela pergunta nos processos midiáticos Para qualquer desenvolvimento do conhecimento, a pergunta é o ponto de partida. Quem não possui nenhum problema, nenhum questionamento, não pode avançar na produção do conhecimento. Duas situações impedem a pergunta: o pleno conhecimento (não há sobre o que indagar) e a absoluta ignorância (não sabe sobre o que perguntar). O processo de perguntar, contudo, não envolve apenas uma resposta concreta a um desconhecimento externo. O questionamento sobre algo envolve, necessariamente, inquirir-se sobre si mesmo. Isto é, quem somos nós que perguntamos? Como nos posicionamos frente à vida e frente ao objeto de nossa pergunta? No caso concreto dessa reflexão, nossa pergunta volta-se para alguns conceitos em particular: midiatização e ambiên-

93

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cia. Como, na discussão, podemos compreender os processos midiáticos? Qual o papel e que posição se encontram os dispositivos tecnológicos de comunicação? Como se pode compreender e explicitar o que entendemos por midiatização? Que relação o conceito de ambiência entabula com aquele dos processos midiáticos? Entretanto, para o que interessa nesse momento, o centro da atenção está constituído pela pergunta pelo conceito de midiatização. 2. A pergunta pela ambiência Façamos uma pequena digressão pelo desenrolar da pesquisa em comunicação. O seu percurso começou com uma abordagem quantitativa. Vale recordar que, inicialmente, ela estava ainda tateando em busca de uma metodologia adequada. Devedora das outras ciências, a pesquisa em comunicação assumia os postulados das ciências sociais que, para a compreensão da realidade, baseavam-se em dados quantitativos. Registre-se que havia uma influência muito grande das ciências exatas. Exigia-se um universo grande de amostra que permitisse a generalização para o todo. Era a busca pela representatividade na pesquisa, Nesse momento, as ciências sociais descobriam e valorizavam os estudos qualitativos, tendo em vista a peculiaridade do objeto pesquisado. Fiel à sua dívida com as ciências sociais, a pesquisa em comunicação assumiu a dimensão dos estudos qualitativos.

94

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Contudo, faltava-lhes a consideração dos macrofenômenos. Nessa perspectiva, os dispositivos tecnológicos são apenas uma mínima parcela, a ponta do iceberg, de um novo mundo, configurado pelo processo de midiatização da sociedade1. Estamos vivendo hoje uma mudança epocal, com a criação de um bios midiático2 que incide profundamente no tecido social. Surge uma nova ecologia comunicacional3. É um bios virtual. Mais do que uma tecno-interação, está surgindo um novo modo de ser no mundo, representado pela midiatização da sociedade. Esse modo de ser no mundo assume o deslocamento das pessoas do palco (onde são sujeitos e atores) à plateia (onde sua atitude é passiva). Assumindo-se a midiatização como um novo modo de ser no mundo, tende-se a superar a mediação como categoria para se pensar os meios hoje, mesmo sendo essa mais do que um terceiro elemento que faz a ligação entre a realidade e o indivíduo, via mídia, pois contempla a forma como o recep1 De acordo com Luhmann, (...) convence muito pouco a idéia de que só se trata, de qualquer forma, de um anexo de outros sistemas de função, que se servem dos meios de comunicação como um meio técnico para divulgar suas comunicações. (...) Eles não podem ser reduzidos, enquanto comunicação social de grande repercussão, à mera técnica (LUHMANN, Niklas. A realidade dos meios de comunicação. São Paulo: Paulus, 2005. 119). 2 Na feliz expressão do pesquisador Muniz Sodré. 3 As idéias que seguem e embasam a reflexão foram desenvolvidas em: GOMES, Pedro Gilberto. A filosofia e a ética da comunicação no processo de midiatização da sociedade. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2006. Ver, principalmente, o capítulo 6.

95

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tor se relaciona com a mídia e o modo como ele justifica e tematiza essa mesma relação. Por isso, estrutura-se como um processo social mais complexo que traz no seu bojo os mecanismos de produção de sentido social. Entretanto, isso não basta. Estamos numa nova ambiência que, se bem tenha fundamento no processo desenvolvido até aqui, significa um salto qualitativo, uma viragem fundamental no modo de ser e atuar. Como foi afirmado acima, há um aspecto descurado na reflexão das ciências sociais: a consideração da midiatização como um processo sistêmico, mais abrangente e que está possibilitando uma visão de totalidade da sociedade. É imperioso produzir ferramentas adequadas para trabalhar, sistemicamente, esse objeto complexo que desafia a argúcia dos pesquisadores das ciências da comunicação. Para alcançar a totalidade do objeto, o pesquisador deve tomar distância das manifestações particulares para contemplar o mosaico do ambiente formado. Os macrofenômenos, na dimensão holística, aditam novas visões que transcendem o singular e permitem que se forme a imagem do que se estrutura na sociedade em midiatização. 3. Da “sociedade dos mídias” à sociedade em midiatização A reflexão meta-midiática leva-nos à contemplação da questão da midiatização, como um ponto de chegada na

96

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

evolução e desenvolvimento a partir do que foi chamado de “sociedade dos mídias”. A trajetória da sociedade dos mídias à sociedade em midiatização é um processo lento e gradual que se desenvolve em dois eixos profundamente interligados. De um lado, temos o eixo do tempo que nos insere na perspectiva de uma evolução cronológica que vai dos primórdios da consciência e chega aos dias atuais. O segundo eixo situa-se na dimensão qualitativa, de complexidade cada vez mais crescente nas relações, inter-relações e interconexões humanas. É a bissetriz de ambos que espelha a flecha simbólica da evolução humana.. Sobre a situação, Joel Rosnay4 afirma: Estamos prestes a viver uma mudança de paradigma. Penso que essa mudança de paradigma e essa transição entre a sociedade industrial e a sociedade informacional são a causa de alguns dos grandes problemas que temos hoje, tanto sociológicos quanto socioeconômicos, políticos ou culturais. Frente a essas mudanças, devem-se fazer três coisas. Em primeiro lugar, entender; em segundo, experimentar; e em terceiro, aprender5.

4 ROSNAY, Joël de. “Un cambio de era”. In RAMONET, Ignacio. Las post-televisión. Multimedia, Internet y Globalización. Madrid: Icaria, sd., p.17-32. 5 Idem, p. 31.

97

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fiquemos no primeiro passo utilizado por ele para fazer frente às mudanças. Isto é, sublinhemos o passo do entendimento, da interpretação. Diz ele: Não se trata de deixar passar esta revolução tecnológica pretextando que se trata de tecnologia e que é mais uma que se soma às outras. Não, já não estamos nas lógicas de substituição, mas nas lógicas de integração. Lógicas de integração que abrem novos espaços. Depois da logosfera da linguagem, limitada pelo espaço e tempo, da grafosfera da escritura, não limitada nem no tempo nem no espaço, e da midiosfera da televisão, entramos na ciberesfera, das comunicações eletrônicas. Temos que inventar novas relações que sejam compatíveis com isso, caso contrário outros irão conquistar este novo espaço no nosso lugar. Deve-se entender, portanto, essas ferramentas6.

Até aqui se configura o que se pode chamar de sociedade dos meios. Depois da quebra do paradigma da oralidade com a invenção da escrita, a humanidade foi aperfeiçoando e sofisticando seus dispositivos comunicacionais num nível de complexidade crescente. O desenvolvimento da técnica esteve (e está) umbilicalmente unido à especialização dos meios de comunicação. 6 Idem ibidem.

98

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Não obstante, essa volta à tribo, a retribalização de McLuhan, estrutura-se em bases totalmente distintas. Não é um retorno idílico ao passado oral, mas a uma dimensão de aldeia global: uma glo(tri)balização. É a síntese de algo novo com elementos do passado. Entretanto, tal como aconteceu com a passagem da oralidade à grafia, em determinado momento, aquilo que parecia ser um elemento a mais de complexificação da tecnologia existente, um degrau a mais a ser galgado no plano do desenvolvimento das tecnologias de comunicação, teve conseqüências radicais para o modo de ser no mundo social. Portanto, esse quarto estágio não é apenas um passo a mais no processo de evolução. A ciberesfera representa um salto qualitativo, com tanta força de rompimento quanto o foi a invenção da escrita. Hoje acontece o que se poderia nomear de salto quântico no processo de evolução social. Contudo, esse salto acontece silenciosamente e vai transformando a existência da humanidade. Da Internet 1.0, passando pela Iternet 2.0, estamos observando, lentamente, a configuração de um homem simbiótico, na feliz expressão de Joel Rosnay7. Um dos primeiros que anteviram isso foi Pierre Teilhard de Chardin. Wolfe comenta que, para o jesuíta francês, Deus estava dirigindo, nesse exato momento, o século XX, a evolução do homem para a noosfera (...) uma unificação de todos

7 ROSNAY, Joel. Homem simbiótico. Perspectivas para o Terceiro Milênio. Petrópolis: Vozes, 1997.

99

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

os sistemas nervosos humanos, todas as almas humanas, por meio da tecnologia8. Teilhard de Chardin menciona o rádio, a televisão e os computadores em especial com pormenores consideráveis, e alude à cibernética. [...] Esta tecnologia estava criando um “sistema nervoso para a humanidade”, escreveu ele, “uma membrana única, organizada, inteiriça sobre a terra”, “uma estupenda máquina pensante”. [...] “A era da civilização terminou”, e a da “civilização unificada está começando”9.

Wolfe identifica a noosfera, a membrana inteiriça aduzida por Chardin, com a rede inconsútil de McLuhan. Para ele, a civilização unificada não é outra coisa que a aldeia global do pensador canadense. Ainda citando Teilhard, Wolfe constata: Podemos pensar (escreveu Teilhard) que essas tecnologias são artificiais e completamente “exteriores aos nossos corpos”, mas na realidade elas são parte da evolução “natural, profunda”, do nosso sistema nervoso. Podemos pensar que estamos apenas nos divertindo”, ao usá-las, “ou apenas desenvolvendo o nosso comércio, ou apenas propagando idéias. Na realidade, 8 WOLFE, Tom. “Introdução”. In: MCLUHAN, Marshall. McLuhan por McLuhan. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 17. 9 Idem ibidem.

100

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

o que estamos fazendo é nada menos do que continuar num plano superior, por outros meios, a obra ininterrupta da evolução biológica. Ou, para dizer de outro modo, completa Wolfe: “O meio é a mensagem”10

A produção de Teilhard de Chardin é vasta e abrangente. Entretanto, para o que aqui nos interessa, basta-nos o seu livro sobre o futuro do homem. Numa série de conferências publicadas ao longo da década de 1940, Teilhard traça uma linha de reflexão que procura compreender para onde caminha a humanidade, tendo em conta o crescimento populacional e o desenvolvimento científico e tecnológico. Marshall McLuhan11, quase um quarto de século depois, vai assumir muito dessa posição. Para ele, os meios elétricos tendem a criar uma espécie de interdependência orgânica entre todas as instituições da sociedade, o que dá nova ênfase à posição de Chardin de que a descoberta do eletromagnetismo deve ser considerada como um prodigioso acontecimento biológico. Se as instituições políticas e comerciais adquirem um caráter biológico por força dos meios elétricos de comunicação, é agora explicável que biologistas como Hans Selye pensem no organismo físico em termos de rede de comunicação. Essa posição aparece claramente quando afirma: 10 Idem, p. 18 11 MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. Tradução: Décio Pignatari. 8 ed. São Paulo: Cultrix, 1996.

101

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Depois de três mil anos de explosão, graças às tecnologias fragmentárias e mecânicas, o mundo ocidental está implodindo. Durante as idades mecânicas projetamos nossos corpos no espaço. Hoje, depois de mais de um século de tecnologia elétrica, projetamos nosso próprio sistema nervoso central num abraço global, abolindo tempo e espaço (pelo menos naquilo que concerne ao nosso planeta). Estamos nos aproximando rapidamente da fase final das extensões do homem: a simulação tecnológica da consciência, pela qual o processo criativo do conhecimento se estenderá como já se fez com nossos sentidos e nossos nervos através dos diversos meios e veículos. [...] São poucas as possibilidades de responder a essas questões relativas às extensões do homem, se não levarmos em conta todas as extensões em conjunto. Qualquer extensão – seja da pele, da mão, ou do pé – afeta todo o complexo psíquico e social12.

Estes são apenas alguns pensamentos que poderão nos ajudar na reflexão desse fenômeno fluido e quase inatingível da sociedade em midiatização e a sua contribuição para o estudo do fenômeno da comunicação hoje.

12 Idem, p. 17.

102

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

11 A Experiência Sensível das Imagens: subjetividade, imaginário e dinâmicas sociais Eduardo Duarte A proposição em que me debruço nesse instante visa dar continuidade as pesquisas desenvolvidas pelo grupo Narrativas Contemporâneas, que tem trabalhado há 07 anos a imagem como um propulsor de experiências sensíveis. O percurso da experiência sensível do social prático objetivo, juntamente com o social imaginário e a subjetividade individual que faz emergir a constituição do sentido partilhado das performances comunicativas. Nosso interesse é estudar a interelação de instâncias de experiências aparentemente distintas num quadro de processos sempre em movimento e em fluxo. Nesse sentido, essa pesquisa se propõe, como projeto “guarda-chuva” que abrigará empirias e fenômenos trazidos por meus orientandos, conhecer a experiência que efeitos estéticos de filmes, programas televisivos, games e outros conjuntos audiovisuais desencadeiam na constituição de sentidos ao imaginário, nas impressões sensíveis da subjetividade e provocação de agenciamentos objetivos dinâmicos no grupo social. Trata-se de um desafio metodológico de composição multidisciplinar que possa compreender as diversas dimensões da experiência.

103

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Percurso Teórico Conceitual O que aqui pretendo delinear como um percurso teórico conceitual serve também como a própria fundamentação teórica da proposição a ser apresentada, pois do amadurecimento dessas reflexões novos questionamentos desdobraram a inclusão de outros sistemas de pensamento que fundam as problemáticas dessa pesquisa. Nesse sentido, pretendo discorrer brevemente sobre alguns apontamentos filosóficos que alicerçam a reflexão do grupo trazendo-os até o presente momento. Começo apresentando o trabalho do físico Thomas Kuhn (2000), que sugere que há em toda estrutura paradigmática um componente sociológico aceito por uma maioria estável de autoridades científicas que determinará a sua validade. Kuhn aproxima o desenrolar das estruturas científicas ao longo da história ao evento da evolução biológica das espécies. Segundo o físico, teorias e abordagens variadas e frequentemente díspares concorrem entre si para obterem a primazia e a legitimidade sobre as descrições do real. Teorias que brotam de paradigmas que sucumbiram num processo seletivo da história e da sociologia das ideias que acabam por tornarem-se periféricas, em seguida fracas e, por fim, silenciam, diante da estabilização de uma versão acerca da realidade. Mas o processo evolutivo das estruturas científicas continua em movimento e quando uma certa teoria não possui mais capacidade de adaptação em seu meio histórico sociológico é obrigada a ceder lugar para uma nova concorrência de sistemas de pensamento capazes de fornecer uma mais adequada versão sobre o mundo.

104

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O processo evolutivo descrito por Kuhn não se esgota apenas no ambiente científico. O que o físico tem por intenção na obra A Estrutura das Revoluções Científicasé a proposição de uma forma de abordagem da história cultural das mentalidades. Trata-se de um modelo que possui como meta a descrição de fenômenos em movimento. Movimentos orgânicos de formação, de transformação, desenvolvimento e desaparecimento de ideias. Apontando as mesmas instâncias, mas seguindo um outro caminho, Gilles Deleuze (1998) produziu uma obra fundamental sobre estados de impermanência estrutural, sobre fluxos de pensamentos que criam misturas cognitivas (em ciência, filosofia e arte) que irão derivar de um olhar comprometido com o movimento. A Lógica do Sentido reconstrói e recoloca sob uma luz contemporânea toda uma linhagem de filósofos pouco explorados até então. Algumas abordagens, como as dos Estóicos e a de Epicuro, que haviam sido vencidas no processo seletivo da evolução das ideias, são retomados por Deleuze em sua intenção de construir um outro paideuma, um paideuma de filosofias esquecidas. Encontramos em Gilles Deleuze (1997) a intenção de definir a filosofia como sendo um discurso que tem por base o diálogo. Para ele a filosofia, máquina geradora de conceitos, se constrói em diálogo com campos que não são os seus. Será em diálogo com as descobertas científicas, com os perceptos e afectos da arte que a filosofia gerará seus conceitos. Ou seja, será no movimento de desterritorialização, no movimento de abandono de identidades, na ação de ir em encontro com um

105

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

“não si mesmo” que o pensamento se processará inaugurando um novo território. A “fuga”, o “abandono”, servirão de metáforas não apenas para as circunvoluções da filosofia em busca de gerar seus conceitos. Em Deleuze encontramos estas imagens como esteio para a própria produção artística e comunicacional, seja ela audiovisual, literária ou plástica. Nesse sentido, os conceitos de desterritorialização e reterritorializaçãodeleuzianos, são muito caros a esse projeto, pois a reconstrução de estruturas narrativas a partir da fluência de territórios estéticos distintos que se comunicam e geram uma cognição nova é parte do fenômeno de construção de territórios comunicativos híbridos, que expressam uma nova espacialidade e temporalidade. Essas estruturas híbridas que nascem de composições textuais distintas podem ser vistas como metatextos. O que nos leva a reflexão do que Edgar Morin (1996, p. 268) chama de um macroconceito. Ou seja, o resultado da articulação recíproca de vários conceitos que se associam fazendo emergir um conceito macro, que não pode ser dito de outra forma que não seja pela emergência da articulação dos conceitos associados. Fazer emergir esse metatexto conceitual é o grande desafio que não nos permite saber a priori quais os elementos e em que ordem devem ser dispostos para fazer surgir uma imagem esperada. As estruturas narrativas híbridas comunicam-se, expressam-se em sua novidade, sem que essa antes pudesse ter sido planejada. Ela é o resultado de uma abertura que a experimentação permite. Ela está para além do valor intencional de

106

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

seus realizadores, pois é no jogo comunicativo das valorações sociais que ela assumirá um território móvel de sentido. O cinema, por exemplo, se bifurca com o surgimento do vídeo-clip e do vídeo game. Estes dois fenômenos narrativos possuem componentes oriundos do cinema, porém reposicionam estes componentes somando-os a outros advindos de novos avanços tecnológicos. As artes plásticas se bifurcam quando fazem uso de câmaras de vídeo, criando narrativas híbridas de cinema documentário com poéticas performáticas. A fotografia, por sua vez perde seu caráter de documento quando assume as intervenções digitais no seu processo criativo e informativo, criando verdadeiros curto-circuitos entre registro documental e composição imaginária, entre realidade e ficção. A bifurcação do teatro ocorre quando o status de “representação” passa a se confundir com o de “apresentação”, quando atores não simulam dores e prazeres, porém, se impõem situações de dor e prazer reais. Por outro lado o teatro pode aproximar-se da televisão através dos espetáculos-revista ou dos programas de auditório. A estética da produção videográfica digital invade a estética cinematográfica criando o cinema digital, um produto híbrido e com uma infinidade de outras opções de criação narrativa. No campo comunicacional Neste sentindo, a multiplicidade de recomposições de suportes narrativos da imagem desdobra novas possibilidades

107

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

à pratica comunicativa que por sua vez agenciam a emergência de níveis diversificados de efeitos sensíveis, dos mais sutis aos mais impactantes; do desempenho comunicativo mais silencioso ao mais retumbante; das formas mensuráveis às impalpáveis e soturnas reconstruções do imaginário. Se cogitamos essa dupla força do desempenho de uma imagem, criamos espaços para reflexões mais qualitativas, observamos a participação de outras plataformas perceptivas dentro do mesmo conjunto lógico e intencional da performance comunicativa. O que se observa, com isso, é a possibilidade de construirmos na mesma ideia, no mesmo conceito, campos de deriva para a dimensão do sensível. Essa combinação inspira a ideia que compreendo construir-se da performance comunicativa, que é ao mesmo tempo racional, mensurável, lógica; como também produz marcas emocionais de resposta imediata ou que se acumulam produzindo na dimensão imaginário um quadro de experiências vividas. A performance sensível da comunicação não está no espectro das mesmas possibilidades metodológicas de avaliação exclusivamente quantitativas, ou de registros descritivos restritos a evidências ou ainda a análises baseadas em categorias rígidas. Os rastros desses ecos culturais evocam outros formatos ou paradigmas e observações, que precisam ser descobertos e/ou aprofundados, a fim de que as dimensões do imponderável possam ser minimamente equalizadas nas análises dos efeitos performáticos dos atos comunicativos. A imagem surge para nós como um propulsor de experiências sensíveis. Exatamente isso me motiva indagar se é possí-

108

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

vel acompanhar as ramificações, ou melhor, as capilarizações de efeitos sensíveis das imagens na prática social ativa, tanto quanto nas dimensões do imaginário e da subjetividade. É possível acompanhar e conhecer a experiência que efeitos estéticos de filmes, programas televisivos, games, fotografias e outros conjuntos audiovisuais desencadeiam na constituição de sentidos ao imaginário, nas impressões sensíveis da subjetividade e provocação de agenciamentos objetivos dinâmicos no grupo social? Seria possível criar práticas metodológicas que priorizassem o fenômeno da experiência, no estudo das imagens, observando-a em seu percurso multifacetado de expressões objetivas e subjetivas? É o percurso da experiência sensível do social prático objetivo, juntamente com o social imaginário e a subjetividade individual que faz emergir a constituição do sentido partilhado das performances comunicativas, entretanto, como é possível conhecer as experiências sensíveis que se desencadeiam desses processos? É possível realmente estudar a interelação de instâncias de experiências aparentemente distintas num quadro de processos sempre em movimento e em fluxo? Aqui surge o desafio que trago da experiência do estágio pós doutoral para as minhas pesquisas. As abordagens propostas pelos sistemas estudados nos abrem caminhos diferentes para pensar o conceito de experiência e imaginar possibilidades operacionais na pesquisa científica em comunicação. O que nos interessa conhecer está no movimento que os afetos produzem objetivamente no mundo, no que mobiliza seus agentes nas práticas sociais, mas também no que imprime

109

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sobre o imaginário e a subjetividade. Esse é o lugar em que me encontro para observar a constituição da experiência estética, ou a experiência sensível nos conjuntos de objetos audiovisuais, como o cinema, programas de televisão, games, fotografia e na cultura audiovisual, que me são propostos pelos projetos de pesquisa de meus orientandos e nos meus artigos. Por último, reapresento o que acabou por se transformar numa hipótese de trabalho. A compreensão, como ponto de partida, que o individual e o social estão profundamente imbricados numa mesma teia de relações auto recursivas. De onde quer que partamos na indagação inicial sobre nossos temas e problemas de pesquisa, creio ser possível acompanhar a experiência estética da imagem observando princípios que permitam conhecer a construção de sentidos no imaginário, na subjetividade e suas articulações nos contextos sociais, ou vice versa. Ou seja, conhecer onde o subjetivo é social e onde o social é subjetivo na construção e partilha dos valores agenciados na performance comunicativa da imagem. Metodologicamente o desafio dessa proposição é a efetivação de uma análise multidisciplinar que possa compreender as diversas dimensões da experiência.

110

Sumário

12 Festividade e o Outro: a alteridade em jogo

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Aldrin Jonathan Souza Santos A pesquisa examina a questão da alteridade no âmbito de festas promovidas por estudantes universitários. O referencial teórico adotado consiste na Nova Teoria da Comunicação[1], que entende a comunicação como algo não trivial e incomparável à mera troca de informações; ela pressupõe relação com o Outro distinta de uma relação Eu-Coisa, que não modifica, não abala e não produz nenhum sentido novo nos envolvidos. O objetivo do estudo consiste na investigação sobre a natureza das relações estabelecidas em festas promovidas por universitários: relação Eu-Tu – que se assemelha à alteridade, em que eu me diluo no outro – ou relação Eu – Isso – que estabelece uma relação em que nenhuma das partes é modificada. O “método” de pesquisa proposto está vinculado às práticas que estruturam os projetos desenvolvidos pelo Núcleo de Estudos Filosóficos da Comunicação (FiloCom), trata-se da epistemologia metapórica. O metáporo tem a intenção de deixar que a pesquisa se revele ao observador, é mais um caminhar do que propriamente um caminho. O pesquisador coloca-se na posição de desbravador que vive e sente os efeitos da comunicação. O observador será parte integrante do ambiente, não observando a construção da cena de longe, mas sendo parte constuinte e indissociável desta. Busca-se a apreensão sensível do real, sem conceitos e que se dá no durante do acontecimento.

111

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

[1] Proposta encontrada em: MARCONDES FILHO, Ciro. Princípio da razão durante: o conceito de comunicação e a epistemologia metapórica, Tomo V. São Paulo: Paulus, 2010.

112

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO C 13 Caosmose e Afetiv(Ações) Inscriacionais do Acontecimento Comunicacional Amoroso Maria Luiza Cardinale Baptista O presente texto apresenta a reflexão sobre o contraponto entre caosmose e afetivações inscriacionais, como elementos de proposição de uma teoria amorosa da Comunicação, associada a práticas de investigação inscriacionais, essencialmente marcadas por afetivações especulares e desejantes. Entende-se que a proposição é coerente com o caráter mutacional e caosmótico dos fenômenos comunicacionais, considerados, aqui, como acontecimentos que resultam de processos de desterritorialização e encontros de corpos afetivados. O texto é uma tentativa de responder à pergunta geral do Encontro: “ Em que sua pesquisa pode renovar o olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la?”. A produção desta inscriação, deste texto, orientou-se por trilhas, que correspondem às linhas de vida, no sentido da Esquizoanálise, de Félix Guattari e Gilles Deleuze e também em textos de Suely Rolnik. Linhas que vêm se insinuando nos meus estudos, compondo-se, combinando-se, como é próprio dos pressupostos com os quais eu trabalho. No entrelaçamento das linhas, foram estabelecidos platôs, cuja marca é o que venho chamando de Trama de Saberes.

113

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Nesse início de ‘viagem inscriacional’, alguns cuidados são necessários. Pela dimensão de complexidade do percurso, parece importante sinalizar as trilhas e platôs, como inscrições referenciais, índices de um devir caminho a ser percorrido. O termo platô está sendo usado, aqui, como “zona de intensidade contínua”, sentido atribuído por Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995, p.8). Mais do que para o leitor, percebo que enuncio para mim mesma, na tentativa de não me perder, na proporção do que isso é possível. TRILHA Visão complexa e sistêmica da teia da vida (Edgar Morin, Fritjof Capra, Cremilda Medina, Ilya Prygogine)

PLATÔ Cenário de Mutações Contemporâneas da Ciência e Trama de Saberes.

Esquizoanálise e o Paradigma Ético-Esté- Caosmose e Universos de tico (Félix Guattari, Gilles Deleuze e Suely Referências Incorporais e aRolnik) significantes, na composição de campos de forças em lógicas rizomáticas. Biologia Amorosa e do Conhecimento Autopoiese e enacção, no (Humberto Maturana e Francisco Varela) agenciamento de afetivações inscriacionais. Nova Teoria da Comunicação Comunicação e Amorosi(Ciro Marcondes Filho) dade Desterritorializações desejantes e especulares.

114

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Platô Trama de Saberes – O cenário de mutações contemporâneas da Ciência foi referido por mim, em outros textos, como cenário de desmanche, tempos de desmanche. Nesse sentido, a mutação parece estar relacionada a uma alteração profunda de substâncias constitutivas do conhecimento. Mudam as substâncias e os estados e encadeamentos em que elas se apresentam. Não há solidez nas orientações, nem mecânicas definidas a priori, em lógicas lineares, mecanicistas e reducionistas, mas, cada vez mais, percebemo-nos imersos em cenários mutantes que se desmancham e se constituem continuamente num frenesi semelhante a processos químicos de ebulição. Poder-se-ia dizer, então, que os fenômenos parecem ferver e, assim, evaporar-se rapidamente, desmanchando-se, escorrendo-se por entre os nossos dedos, diante do nosso olhar ou, até mesmo, da nossa imaginação. No caos contemporâneo, percebe-se tanto a grandiosidade da complexidade, mas também a emergência de intensidades abstratas, na constituição de campos de forças, que não só interferem nos fenômenos, mas, muitas vezes, tendem a conduzi-los. Produzir ciência nesse cenário implica em acionamento de aberturas, de coragem, de ousadia e de reconhecimento de si mesmo no processo, bem como de ampliação da percepção das relações e entrelaçamentos. Também implica em desapego a macrovisões explicativas, os paradigmas totalizantes, para um processo também de desterritorialização de saberes, de disposição para transitar em outros territórios e tentar ampliar a compreensão das conexões. Fica sinalizado aqui, também, que em substituição à lógica da linearidade, entende-

115

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

-se ser pertinente considerar a lógica rizomática, na dimensão de heterogênese maquínica, onde simultaneamente convivem os territórios existenciais e os universos de referência incorporais e a-significantes, a que se refere Guattari (1992). Platô Caosmose – Platô contemporâneo, marcado pelo caos em múltiplas dimensões, social, econômico, político e também em termos de maquinismos e redes midiáticas. A expressão dá título a um livro de Felix Guattari (1992), trazendo a composição a partir de caos, osmose e cosmo. A associação das palavras, nessa fusão, informa sobre a condição caótica e de osmose que caracteriza o cosmo. Universos corporais e incorporais. Dimensões visíveis e invisíveis, que se entrelaçam, na composição da trama complexa, de saberes, de vivências, de sujeitos, envolvidos em relação, por muitos agenciamentos, em uma engrenagem maquínica que se movimenta por maquinismos abstratos, mais que nas expressões semiológicas e nas axiomáticas territorializadas. Interessante, nesse sentido, o que afirma Peres et al. (2000, p.37): “[...]a perspectiva esquizoanalítica acredita que duas lógicas permeiam a tessitura ética, na contemporaneidade: a lógica pulsátil (presente nos corpos vibráteis, que não repelem o mundo da sensorialidade, visto que procuram uma existência plena e para isso desejam afetar e ser afetados) e a lógica maquínica (presente nos corpos transformados em máquinas homeostáticas, que perdem qualquer potência de expressão e constroem uma economia narcísica do sujeito)”. [grifo meu] (PERES et al, 2000, p.37)

116

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Do próprio Guattari (1992, p.102), destaco a citação: “O mundo só se constitui com a condição de ser habitado por um ponto umbilical de desconstrução, de destotalização e de desterritorialização, a partir do qual se encarna uma posicionalidade subjetiva”. Há várias conexões possíveis, a partir dessa afirmação. A primeira delas é a das explosões geradoras de universos, com a desconstrução das estrelas. Parece que, neste ponto, a visão de Guattari alinha-se com saberes de outras áreas, como a da Astronomia, que ensina que uma estrela só explode no ponto máximo de tensão e massa, no seu ápice, como uma espécie de gozo do Universo, que gera outra existência, outro tipo de existência, em síntese, gera transformação. O mesmo parece ocorrer com sujeitos, grupos, movimentos sociais, com a eclosão de processos subjetivos de sujeitos singulares e coletivos. Dos estudos de Maturana, a partir da célula, à compreensão do Universo físico, com Fritjof Capra, tudo parece fazer parte de uma narrativa universal, permeada pela lógica da física quântica, pelos conhecimentos do átomo. Somos o todo, somos integrantes do universo caosmótico. Entender isso parece um bom começo para entender processos comunicacionais, os acontecimentos e, principalmente, a incomunicabilidade. Aqui, vale ressaltar a conexão com o conceito de autopoiese, conceito utilizado a partir de Maturana (1998). Autopoiese é autoprodução, reinvenção de si, o que significa desconstrução para reconstruir posteriormente uma outra condição de existência, desterritorializar, para reterritorializar territórios existenciais, a partir de um ponto umbilical do qual

117

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

‘se encarna uma posicionalidade subjetiva’, para retomar a citação de Guattari. É como se Guattari dissesse que a vida se produz de explosões múltiplas e contatos de universos subjetivos, sob o que ele chama de ‘foco de caosmose’. Tem-se, aqui, o que o próprio autor referiu como a reconciliação entre o caos e a complexidade. O foco de caosmose relaciona-se diretamente com o núcleo de autopoiese, “[...] sobre o qual se realizam constantemente e se formam, insistem e tomam consistência os territórios existenciais e os universos de referências incorporais” (GUATTARI, 1992, p.102) Platô Afetivações Inscriacionais e Autopoiese – Platô de acionamentos desejantes do sujeito, no sentido de investig(ações), que permitam se inscrever, criar e produzir ações voltadas a devires conhecimentos, pesquisas, devires processos comunicacionais. Nesse sentido, a lógica inscriacional afetivante se propõe como algo que aciona os afetos, as pulsações do que Rolnik (1986) chama de corpo vibrátil do sujeito, levando-o desse modo à produção de vida, às produções que o provoquem continuamente a continuar produzindo o que lhe dá alegria e renova a potência dos territórios existenciais e, ao mesmo tempo, dos universos de referência incorporais. Nesse platô, tem-se a sinalização para o agenciamento da potência de subjetivação que põe o sujeito em movimento de inscriação e autopoiese, ou seja, movimento de produzir sua marca em ações que o inscrevem, reinventando-o como ‘sujeito que pode’, que tem a potência de realizar algo. Então, acionamento de potência de realização e, na realização, produzir marca que inscriaciona, que inscreve, faz o registro do si

118

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mesmo em condição e momento de entrega. Trata-se de processo de se mostrar e se entregar, condição por si só desafiadora. Mais detidamente, tenho pesquisado, há vários anos, o que ocorre com os processos de escrita, uma das possibilidades inscriacionais potencializadoras do sujeito. Afirmo, nesse sentido, que, quando o sujeito se inscreve, ele se reinventa, se potencializa. É o que ocorre nos processos de escrita, que expliquei da seguinte maneira: Os melhores textos também têm um tempo de fervura, as ‘preliminares’, as afetiv(ações). Assim, o autor vai sendo ‘afetivamente afetado’ pelo texto, em um processo semelhante ao embriagar-se, perder-se de si mesmo. Simultaneamente, busca a si próprio e ao outro, a quem vai se entregar inscrito, inscriacionado. São muitas provocações, muitos atiçamentos, em um jogo de insinuações, em que o texto se mostra e se esconde, assim, meio como quem ri do nosso desejo de escrever... Até que essa ‘fervura’ chega a um ponto do soltar-se ... e o texto... jorra! Resultado: alegria, prazer e contentamento consigo mesmo e com o Outro.

119

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A proposta envolve os pressupostos da construção de dispositivos afetivos de investigação em Comunicação, na perspectiva da Amorosidade e Autopoiese. A ‘viagem’ que proponho, aqui, neste texto, pretende partilhar elementos que constituem o que eu venho chamando de os substratos inscriacionais de afetivação, resultantes da interação terna e afetiva de sujeitos, na construção da investigação em Comunicação e da produção de narrativas, que constituem território privilegiado do acontecimento comunicacional. Esses substratos são agenciados pela desterritorialização. Parece que o deslocamento, o engate, o que põe o sujeito em movimento, é uma das chaves para a criação de novidade, de (re)novação, de (re)invenção. Por isso, tenho dito que a desterritorialização desejante da comunicação tem a potência de gerar o acontecimento, em si, justamente porque o sujeito se desprega do ‘si mesmo’, das amarras territorializadas dos maquinismos de subjetivação dos seus territórios existenciais. Para o encontro-acontecimento comunicacional, há que se pôr na estrada, em direção ao Outro, ao acontecimento comunicacional amoroso. Platô Acontecimento Comunicacional Amoroso – Fiquei pensando que deveria começar a apresentação deste platô enfrentando algumas resistências, com a pergunta: “E por que não falar de amor?”. Tenho me deparado, nos últimos anos, com olhares e risos, que expressam ‘textos vários’, demonstrando tantas vezes desconforto ou menosprezo de algumas rodas de conversa acadêmicas, com a temática do amor associada à Ciência e à Comunicação. Curioso é que não estou sozinha e, muito pelo contrário, estou bem acompanhada. Paulo Freire,

120

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Edgar Morin (2003), Ilyia Prigogine (2001), Humberto Maturana (1998), Bauman (2004), Luís Carlos Restrepo (1998), Roland Barthes (1986), para citar apenas alguns, ousaram, eles mais que eu, a falar de amor, relacionado à produção de conhecimento, à educação, à comunicação e também à arte. Muito bem, mas então, qual é o problema de considerar o acontecimento comunicacional pelo viés da amorosidade? Compreendo que a abordagem vai contra a ciência dos ‘grupos-controle’, dos protocolos engessados, traduzidos em seis línguas ou mais, testados 20 vezes, para ajustes das traduções, vai contra à matematização da vida e da metodologia científica no viés tradicional, não metapórico. Também contraria e incomoda a lógica das hipóteses rígidas, cuidadosamente construídas e marcadas pelo caráter premonitório presunçoso do devir, do que deveria ser a descoberta, o resultado da pesquisa. Na ironia dos corredores, na brincadeira com a palavra ‘amor’, no silêncio engasgado ou no silêncio que ignora, percebo o incômodo. Prefiro pensar que se trata de uma condição que, ao incomodar, pode vir a (des)acomodar, a engendrar linhas de fuga, de reinvenção de percursos, de novos trajetos de novas viagens investigativas, pode desterritorializar, o que, pelos meus estudos, é uma possibilidade promissora. Seguindo a lógica do princípio da razão durante e das proposições da Nova Teoria da Comunicação, entendo também a comunicação no acontecimento e esse acontecimento como sendo marcado pela heterogênese, pelo caos, pelas explosões cósmicas, caosmóticas, transmidiáticas, de confronto de narrativas e cuja potência está na inscrição, nos acionamentos

121

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

desterritorializantes e reterritorializantes, o que só é possível com acionamento desejante e especular, com amorosidade plena, que é geradora de confiança. Afirmo, nesse sentido, que o amor, a condição amorosa, aumenta a potência do acontecimento comunicacional. Nas condições de reconhecimento do outro como legítimo outro na convivência tende-se a construir cumplicidades nos processos de significação que, na sua lógica de acolhimento mútuo, possibilita maior entendimento e realmente afetivação mútua e transformação dos sujeitos envolvidos, que é o que caracteriza a comunicação. A comunicação acontece efetivamente no encontro de corpos subjetivos, no entremear-se, na conjunção significacional e, para isso, é necessário que exista uma espécie de contrato amoroso, é preciso querer ‘estar no outro’, viajar para o território existencial do outro, a tal ponto de misturar-se e apreender um pouco dos universos de referência incorporais. Isso nada tem a ver com concordância ou subserviência amorosa. Isso nada tem a ver com o amor romântico, cuja tradição é muito mais o culto ao desequilíbrio, como algo que, ao mesmo tempo em que é enaltecido pelos poetas como o ‘motor da vida’, é desqualificado como condição que faz o sujeito escapar às engrenagens produtivas e de valorização de uma sociedade maquínica produtivista e classificatória, pela lógica da acumulação do capital. Nesse sentido, a ironia que emerge quando se decide ‘falar de amor’ na academia parece relacionar-se com a oposição arcaica emoção-razão, amor-produção. Maturana (1998, p. 25) afirma, no entanto, que o “[...] amor é o reconhecimento do outro como legítimo outro na

122

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

convivência” e que não há separação entre emoção e razão. A emoção é o que aciona a ação, o que põe o sujeito em ação, até mesmo nas situações aparentemente mais racionais. Ora, se o outro é legítimo outro, o princípio ético, de respeito às condições de cada sujeito envolvido tem que ser o platô referencial das relações, na vida, e, claro, também dos processos comunicacionais. A Comunicação, em especial, precisa partir desse pressuposto, já que as relações se produzem em função de coordenações de relações, que se estabelecem no entrelaçamento de sujeitos. Os processos comunicacionais se fazem com o agenciamento de redes de afetos que vibram, movimentando campos de forças que se compõem em planos de significação emergente e com potência de devir. Depois, esses planos misturam-se, mesclando-se, produzindo, aí sim, sentidos partilhados. Esses processos de afetivação tendencialmente permitem vislumbrar as brotações de criatividade e de forças colaborativas que se entrelaçam, aglutinam e vão, através de sucessivas recursões organizacionais, ganhando visibilidade, sonoridade, existência territorializada. A expressão dos sinais e a potência geradora de acontecimentos comunicacionais vão se dar no movimento, no deslocamento e na composição interacional entre os sujeitos e processos envolvidos. A comunicação é essa ‘viagem’, esse deslocamento em direção ao Outro. Nesse sentido, o acontecimento comunicacional é amoroso, porque implica o reconhecimento do outro, como legítimo outro na convivência, implica em deslocamento do si mesmo para o outro. Depende diretamente da disposição de encontro caó-

123

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tico e conflitual, encontro de corpos vibráteis, de corpos intensidades, marcados mais ou menos por maquinismos abstratos, mais ou menos regidos por lógicas do Capitalismo Mundial Integrado ou por outros maquinismos de aprisionamento do processo de subjetivação, que estiverem instalados. Depois da viagem.... Assim, minha produção teórica parte do cenário de mutações contemporâneas da Ciência, da trama de saberes, de caosmose, para tentar entender os fluxos e processos interacionais e de subjetivação, que se produzem entre os territórios existenciais e os universos de referências incorporais e a-significantes, na composição de campos de forças em lógicas rizomáticas. A proposição de platôs, de intensidades contínuas, que sinalizam para as afetivações inscriacionais autopoiéticas, como geradoras de amorosidade e comunicação, a partir de desterritorializações desejantes e especulares, parece ser o que tenho para oferecer na discussão da Nova Teoria da Comunicação. REFERÊNCIAS BAPTISTA, Maria Luiza Cardinale. Imagem, Sujeito e Mídia. Projeto de Pesquisa. Caxias do Sul, 2011. ______. Usina de Saberes em Comunicação. Projeto de Pesquisa. Caxias do Sul, 2012.

124

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______. Desterritorialização desejante em Turismo e Comunicação: Narrativas Especulares e de Autopoiese Inscriacional. Projeto de Pesquisa. Caxias do Sul, 2013. _______. Psicomunicação: a trama de subjetividades. Disponível em: . Acesso em: 15 de abril de 2013. ______. Emoção Subjetividade na Paixão-Pesquisa em Comunicação. Revista On Line Ciberlegenda, www.infoamerica.org, v. 01, n. 4, p. 01, 2001. ______. Emoção e Desejo em Processos de Escrita Rumo a uma Educação Autopoiética. Novos Olhares (USP), São Paulo, v. 1, n. 6, p. 18-25, 2000. ______. Paixão Pesquisa: o Encontro com o Fantasminha Camarada. Revista Textura, Canoas/RS, v. 01, p. 67-78, 1999. ______. Comunicação: trama de desejos e espelhos. Os metalúrgicos, a telenovela e a comunicação do sindicato. Canoas: ULBRA, 1996. ______. Comunicazione come trama: La complessitá del processo. In: BECHELLONI, Giovanni, LOPES, Maria Immacolata Vassalo de (org.). Dal controllo alla condivisione: studi brasiliani e italiani sulla comunicazione. Roma: Mediascape Edizioni, 2002.

125

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______. O dilúvio babelizante da contemporaneidade e a educação. In: Pauta: Interdisciplinaridade e pensamento científico, Pato Branco, v. 2, n. 1, p. 55-73, dez. 2003. ______. O sujeito da escrita e a trama comunicacional. Um estudo sobre os processos de escrita do jovem adulto como expressão da trama comunicacional e da subjetividade contemporânea. 2000. 440. fls. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação). Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, 2000. ______. AFETIV(AÇÕES) DO TEXTO-TRAMA NO JORNALISMO Ensino e produção de textos jornalísticos e científicos, em tempos de caosmose midiática In: FÓRUM NACIONAL DE PROFESSORES DE JORNALISMO (FNPJ) 2º ENCONTRO SULBRASILEIRO DE PROFESSORES DE JORNALISMO 5º ENCONTRO PARANAENSE DE ENSINO DE JORNALISMO, 2013, Ponta Grossa (PR). II Fórum Sul-Brasileiro de Professores de Jornalismo. , 2013. CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. Uma Nova Compreensão dos Sistemas Vivos. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. ______. O Ponto de Mutação. A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente. 12. ed. São Paulo: Cultrix, 1991. ______. O Tao da Física. Um Paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental. 11. ed. São Paulo: Cultrix, 1990. CREMA, Roberto. Introdução à Visão Holística. Breve Relato de Viagem do Velho ao Novo Paradigma. São Paulo: Summus, 1989.

126

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BARTHES, Roland. Fragmentos do Discurso Amoroso. 6 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986. BAUMAN,Zigmunt. Amor Líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários á prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. _______. Pedagogia do Oprimido, 17 ed.. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. _______. Á Sombra desta Mangueira, 5 ed. São Paulo: Olho d’Água, 2003. GUATTARI, Félix. As três ecologias. 3. ed. Campinas: Papirus, 1981. ______. Caosmose. Um Novo Paradigma Ético-Estético. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. ______. Linguagem, consciência e sociedade. In: LANCETTI, Antonio. SaúdeLoucura, número 2. 3 ed. São Paulo: Hucitec, 1990. ______. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. v. 1. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995. ______. O insconsciente maquínico. Campinas: Papirus, 1988.

127

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______. Revolução molecular. Pulsações Políticas do Desejo. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Cartografias do desejo. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1986. MARCONDES FILHO, Ciro. O Projeto “Nova Teoria da Comunicação” e Suas Aplicações na Pesquisa Comunicacional Atual. São Paulo, 2013. Cópia. ______. O Princípio da Razão Durante. O conceito de comunicação e a epistemologia metapórica. Nova Teoria da Comunicação III. Tomo V. São Paulo: Paulus, ______. Dicionário da comunicação. São Paulo: Paulus, 2009 MATURANA, Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: UFMG, 1998. MATURANA, Humberto; VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e Brincar. Funda-mentos esquecidos do humano. São Paulo: Palas Athena, 2004. MATURANA R., Humberto; VARELA G., Francisco J. De máquinas e seres vivos: autopoiese e a organização do vivo. 3. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. MEDINA, Cremilda. (org.). Novo Pacto da Ciência. A Crise dos Paradigmas – I Seminário Transdisciplinar. São Paulo, ECA/USP, 1990-1991.

128

Sumário

______. O Signo em Processo. XVII Congresso Brasileiro de Pesquisadores em Comunicação, setembro de 1994a, xerox. II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______. Entrevista. O Diálogo Possível. São Paulo, Ática, 1986. ______; GREGO, Milton. (orgs.). Novo Pacto da Ciência 3. Saber Plural. O Discurso Fragmentalista da Ciência e a Crise de Paradigmas. São Paulo, ECA/USP/CNPq, 1994b. MORIN, Edgar. Amor, poesia e sabedoria. 6 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. ______. Introdução ao pensamento complexo. São Paulo: Instituto Piaget, 1991. ______. Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. ______. O método 4. As idéias, habitat, vida, costumes, organização. Porto Alegre: Sulina, 1998. ______. O pensamento em ruínas. In: ______. A decadência do futuro e a construção do presente. Florianópolis: UFSC, 1993. PERES, Rodrigo Sanches et. al. . A Esquizoanálise e a Produção da Subjetividade: Considerações Práticas e Teóricas. Psicologia em Estudo. DPI/CCH/UEM. v. 5 n. 1 p. 35-43, 2000. PRIGOGINE, Ilya. Carta para as futuras gerações, Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 30 jan. 2000.

129

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

_______ . Ciência razão e paixão. In: CARVALHO, Edgard de Assis e ALMEIDA, Maria da Conceição (org). Trad. Edgard de Assis Carvalho, Isa Hetzel. Belém, Pará: Eduepa, 2001. RESTREPO, Luis Carlos. O direito à ternura. Petrópolis: Vozes, 1998. THUM, Carmo. Educação, História e Memória: silêncios e reinvenções Po-meranas na Serra dos Tapes. Doutorado em Educação. Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS, Brasil. 2009.

130

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

14 Comunicação-encontro: amorosidade e autopoiese no encontro com o outro Ricardo Augusto de Souza O Amorcom!, Grupo de Estudos e Produção em Comunicação, Amorosidade e Autopoiese nos proporciona um espaço semanal – os encontros caóticos – em que, ao mesmo tempo, desconstrói-se o formato clássico de comunicação e trabalha-se a produção de outro, referenciado, sobretudo, na dimensão social, no entrelaçamento humano e na constituição de uma ética das relações sociais. Diante disso, destaca-se a importância do (re)conhecimento do olhar do outro nesse processo de construção coletiva de constante renovação. O olhar do outro e o olhar para o outro. Isso está no fundamento da compreensão do amor, como reconhecimento do Outro, como legítimo outro, na convivência, com base em Maturana (1998). A proposta de um espaço no formato “roda de conversa”1 faz com que a aprendizagem da comunicação se dê na mais simples das formas, ao mesmo tempo em que sinaliza para o fato de que o processo de comunicação se efetiva no aconte1 A vivência das rodas de conversa é inspirada nos Círculos de Leitura, de Paulo Freire, e, mais recentemente, em uma rica experiência de pesquisa na área de Educação, no sul do Rio Grande Sul, ligada à comunidade de pomeranos. A tese de doutoramento de Carmo Thum (2009) teve a supervisão de textos, metodológica e de aspectos da escrita científica, feita pela coordenadora do Amorcom!

131

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cimento do encontro com o outro (MARCONDES FILHO, 2010). Esse outro carrega consigo um olhar e uma visão de mundo que influenciam diretamente o processo comunicacional e, portanto, a ocorrência ou não da comunicação. Durante os Encontros Caóticos da Comunicação, ao ouvir a fala dos colegas, observo esses diversos “outros” e acabo me descobrindo como “outro” também, estranhando-me e reinventando-me no encontro. O Amorcom!, então, na prática, alia-se à proposição de uma nova forma de entender a comunicação. Aciona-se nas produções das vivências e das pesquisas uma mistura – caótica – de olhares e realidades, ou seja, uma mistura de “outros”, combinados numa construção coletiva, que tem como substrato e orientação o amor, conforme ensina Maturana (1998). Essa mistura faz emergir do grupo um olhar “híbrido” e sensível. Vejo nesse olhar um indicativo do que pode vir a ser uma Nova Teoria da Comunicação, com um viés mais humano, uma teoria que seja comprometida com as diferentes realidades e que se renove constantemente, diante das contradições produzidas pela vida em sociedade.

132

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

15 Comunicação-viagem: a curiosidade como guia e o amor como combustível Rafael Muller Há poucos meses, descobrimos em grupo que pesquisa e enfado não são sinônimos, nem palavras derivadas uma da outra. Pesquisar é o infinitivo de um verbo infinito. Basta começar a conjugá-lo em nossas vidas e as pessoas do singular unem-se no plural, na multiplicidade de conteúdos e vivências. Vivências essas tomadas por amorosidade e autopoiese. Partindo do contato com o outro, edificamos conhecimento sólido e permeável aos fluxos de informações externas ao Eu. O Amorcom! encanta e faz brilhar os olhos de cada participante. Em certo sentido, todos voltam à infância, frente ao desconhecido, por se sentirem acolhidos e com confiança para avançar, resgatando o que Paulo Freire chama de curiosidade epistemológica. A curiosidade serve de guia; o amor, de combustível. E dessa maneira seguimos, cada qual com seu objetivo. Nos encontros semanais, traçamos rotas, desbravamos caminhos, constituindo-nos como turistas de nós mesmos e dos outros, porque comunicação também é isso, segundo Baptista (2013): viajar ao lugar do outro. Experimentar sensações novas, desfrutar da visão, do horizonte e das percepções alheias. Enquanto isso, esculpimo-nos como pesquisadores. Então, no meio do caos dos encontros, surge a vida, a teia da vida, lembrando Capra

133

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

(1997). Talvez esse viés conceitual relacionando comunicação à viagem seja também uma das contribuições do grupo à Nova Teoria da Comunicação, a partir das formulações de Baptista (2013).

134

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

16 Comunicação-conflito: potência de narrativa e autopoiese na zona de conflito Jennifer Bauer Eme Desde minha primeira participação, no primeiro Encontro Caótico, saí da sala me sentindo capaz. Não esquecerei nunca mais da sensação que tive no final do nosso encontro. Saí me sentido uma p e s s o a! O Amorcom! veio me mostrar algo que estava muito próximo de mim que eu não enxergava, talvez por estar mesmo tão próximo. Pude expandir não só meus referenciais bibliográficos, mas também meu círculo de amizades e, principalmente, a amorosidade em mim e minha potência de autopoiese. Hoje, fazendo parte de um grupo como esse, tento levar para os outros campos da minha vida os saberes que partilhamos em nossos encontros. Tenho aproveitado cada informação trocada com meus colegas e também com a professora. Percebo que minha afetividade se ampliou e ela tem me ajudado a ser mais racional (por incrível que pareça). Ser afetiva tem me levado a pensar mais, antes de tomar uma decisão que possa ou não envolver só a mim. Talvez por colocar essa afetividade em toda a minha vida, meu foco de interesse de pesquisa é algo que me parece crucial para pensar o Jornalismo e a Comunicação como um todo. Tenho me dedicado a pensar como um jornalista profissional se comporta em uma zona de conflito. Que aspectos interferem nas práticas do profissional em um local tenso como este?

135

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Como se produz comunicação no conflito? Mais que isso: será que, em certo sentido, em termos conceituais, a produção da Comunicação é sempre conflito? Penso que meus estudos podem contribuir para repensar a forma como o jornalista é visto na sociedade. Além de profissional, esse jornalista tem seu lado humano, afetado em uma zona de conflito. Quem consome informação precisa aprender a se colocar no lugar do outro, nesse caso, de quem escreve. Quem escreve, por sua vez, tem que se colocar no lugar de quem vivencia diretamente o conflito. Talvez nesse ponto esteja o cerne da questão: a necessidade de constantemente ter que lidar com o lugar do outro, com o conflito em ‘terras estranhas’, que é o Universo do outro, como algo inerente à comunicação. Em ‘zonas de conflitos’ externos, essa condição da Comunicação se exacerba e convida à reflexão profunda do conceito e das práticas comunicacionais.

136

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

17 Comunicação-caos: redescobrir-se, em meio ao caos e à amorosidade Jéssica Souza

Quando que eu iria imaginar me encontrar e me redescobrir em meio ao caos e à amorosidade? Foi exatamente o que aconteceu quando decidi entrar em um grupo de pesquisa que tem por base a complexidade interacional do amor. Desenvolvendo um novo conceito teórico, o Amorcom! nos faz perceber que a pesquisa está longe de ser algo maçante e que nossos projetos são a reaplicação dos nossos próprios “EUS”. Através de encontros caóticos, dos diálogos e da troca de experiências, compreendemos que a essência da comunicação é a relação. Então, nada melhor do que essa relação ser harmônica e afetiva, embora, em sua prática, ela seja, por essência, intensa e transformadora. Como ensina a líder do grupo, professora Maria Luíza Cardinale Baptista: “Comunicação é a interação de sujeitos, sendo que o sujeito só existe em relação ao outro e o outro é tudo que não é eu”. E assim vamos fazendo, das vivências, parte integrante do nosso referencial teórico, pois, como propõe Maturana (1998), a emoção é o grande referencial do agir humano. A autopoiese nos permite florescer junto às nossas produções e hoje entendo o que Baptista (1999-2001) chama de “paixão-pesquisa” e o quanto essa paixão é o que nos move. Dessa maneira, em meio a um caos de pensamentos e quere-

137

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

res, a partir dos encontros, fui vislumbrando, redescobrindo o que é, de fato, “comunicação” e, mais do que isso, me descobri como uma ‘comunicadora e pesquisadora amorosa’.

138

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

18 Comunicação-trama de saberes e seres: cultivo do jeito amoroso de ‘ser’ Jônatas dos Reis Há um ano, aproximadamente, quando o projeto do AMORCOM! Grupo de Estudos e Produção em Comunicação, Amorosidade e Autopoiese ainda estava em fase inicial, na Universidade de Caxias do Sul, eu apostei que pudesse ser algo promissor. O grupo me foi apresentado, numa conversa casual, por um amigo meu muito querido. “Vamos lá, você vai gostar. É um grupo de pesquisa que está começando agora, mas tem muito a nossa cara.” No começo, eu não entendi muito a proposta... “Amorcom?” me perguntei mentalmente: “que raios é isso?”. E, confesso, fui ao primeiro encontro movido pela curiosidade. Naquele tempo, que hoje me parece tão longínquo, só havia eu e meu amigo Ernani, no primeiro encontro caótico. Estávamos só nós dois na sala, aguardando a chegada da professora para o primeiro encontro caótico ter início. As palavras “encontro” e “caótico” passavam pela minha mente e os momentos de espera que se seguiram foram de nervosismo. Milhares de coisas passavam pela minha cabeça no momento. As suposições. As ideias. O caos. Nessas rodas de conversa, podemos ser nós mesmos e debater sobre as mais diversas teorias e assuntos do dia a dia. Acabamos, meio que por consequência, a vivenciar o conhecimento no momento que ele surge, experenciamos a ‘comunicação como acontecimento’. Conseguimos também trazer

139

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

nossas vivências, experiências e acontecimentos da vida fora da universidade para dentro do Amorcom!, o que enriquece e nos motiva mais como investigadores da comunicação em si. O caos dos encontros, por outro lado, nada tem de caos propriamente dito. O que outrora havia me deixado nervoso no primeiro encontro, apenas me instiga mais a cada dia. O caos referido diz respeito à diversidade, diversidade de idades, diversidade de ideias, diversidade de ideais, diversidade de cursos participantes do grupo (muitos inclusive fora dos galhos da árvore ‘comunicação’)... Doutores, mestres ou estudantes de graduação, todos têm muito que contribuir para a construção do conhecimento. Sinceramente, isso é o que me faz amar tanto a comunicação, isso é o que me impulsiona a querer pesquisar e aprender cada vez mais. Isso é o que me fez brilhar os olhos naquele primeiro encontro e me mantém Amorcom!.

140

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

19 Comunicação-campos de forças: autopoiese também nas relações públicas Natalia Biazus Quem diria que eu participaria de um grupo de pesquisa acadêmica nas sextas à noite? Quem diria que eu fosse pegar o ônibus para casa com a Professora Doutora pela USP e conversar sobre coisas mundanas? Quem diria que eu fosse capaz de ser uma pesquisadora em comunicação? Quem diria que eu ouviria uma Professora Universitária falar sobre a importância do amor no processo comunicacional e que isso faria sentido para mim? Quem diria que eu estaria aqui escrevendo um relato sobre minha participação no grupo Amorcom! para o Encontro Nacional sobre discussões da Nova Teoria da Comunicação? Quem diria que algum dia eu entraria em contato com a Nova Teoria da Comunicação e com a Psicomunicação? Sou acadêmica da habilitação em Relações Públicas e estou no curso há mais de sete anos. Tempo esse marcado por momentos de crise de identidade com o curso e muitas incompreensões. Até que foi chegado o momento em que acreditei que meu destino seria trabalhar dentro de empresas na área de marketing, eventos ou comunicação interna, o que é ensinado e aprendido dentro da Universidade. Acreditei que estaria fadada eternamente a ser uma emissora que enviaria uma mensagem por meio de um canal com a definição de um código a um receptor; ou pior, que seria o próprio receptor, sendo capaz de realizar seu grande feito de emitir um feed-

141

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

back, quase que uma prestação de contas ao emissor. O contato com o Amorcom!, no entanto, abriu novos horizontes. Antes da percepção da comunicação de maneira diferente, os Encontros Caóticos proporcionaram perceber-me de maneira diferente. E que maneira é essa? Uma maneira em que me reconheço enquanto um sujeito complexo, como uma espécie de campos de forças, marcado por múltiplas influências, conforme o conceito de Baptista (2013), em seu trabalho teórico da Psicomunicação. Em que compreendo a importância do amor no processo comunicacional. E mais, aprendo que o amor, nas palavras de Humberto Maturana, é o reconhecimento do outro como legítimo outro na convivência, e que a aceitação do outro, parte também de uma aceitação de si mesmo, e que para aceitar e respeitar a si mesmo deve haver uma conexão entre os afazeres e o viver desse sujeito. Essa compreensão abriu um questionamento: “como posso eu aceitar-me e respeitar-me, se o que eu faço, minha atuação profissional em Relações Públicas, não está adequado ao meu viver?” Acredito ser importante ressaltar que esse processo de “dar-me conta” até a compreensão da necessidade de voltar-me à teoria, aconteceu de maneira natural, sem haver um caminho traçado com prazos e metas preestabelecidas. É um processo vivo, ‘acontecendo no acontecimento’, na medida em que eu participo, que crio condições para a chegada do novo e que me permito estar presente. Os Encontros Caóticos são o nosso alicerce, nosso ponto de partida, que se renova a cada semana, nossa alavanca motivadora para seguirmos em nossas pesquisas e também acre-

142

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ditar em nós mesmos. Nós: eu, meus colegas, a Profe, o grupo, todos juntos, todos sujeitos potentes. Hoje fica mais claro para mim, quando leio nos textos da líder do grupo: “Sujeitos potentes têm redes de relações. Redes de relações afetivas em que eles se mostram e são vistos como potentes, construindo ‘identidade em laço’.” (BAPTISTA, 2011). Vida longa ao Amorcom!

143

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

20 Comunicação-movimentação desejante: o acionamento de investig(ações) Laís Alende Prates O Amorcom! por si só é um grupo que se diferencia na graduação. No grupo temos uma possibilidade de ampliação do conhecimento em dimensões mais sensíveis. Nas nossas práticas, o conhecimento científico se mistura com as nossas emoções e sentimentos. Somos instigados a enxergar através do que os olhos podem ver, mas também a partir do que sentimos. Assim, vamos produzindo como sujeitos investigadores, buscando compor nosso relato ético e cuidadoso da realidade investigada. A amorosidade está presente em nossos “Encontros Caóticos”, como sugere o nome do grupo. Isso reflete a maneira com que pensamos e agimos. Sentamos em forma de círculo. Todos podem nos ver e conversar... À medida que vamos falando, contamos o que está acontecendo em nossas vidas, também falamos das leituras que estamos fazendo e as nossas dúvidas e reflexões. A lógica é a da roda de conversa, que brota de diferentes fios condutores, podendo ser alterado a qualquer momento, conforme a vivência do grupo. Nesses momentos, encaixamos teorias com a vivência. Nossas discussões vão surgindo a partir daí, onde trocamos leituras, pensamentos e experiências. Nossos encontros se traduzem em boas conversas, troca de experiências sobre o dia a dia e compartilhamento das discussões teóricas que estamos fazendo, bem como das

144

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

vivências da pesquisa de cada um. Durante os encontros somos provocados a pensar aquilo que nos incomoda, mas também aquilo que nos desperta interesse, também a questionar as coisas como são, as informações que recebemos e buscar novas formas de exercer a profissão. Eu diria que o Amorcom! é um grupo de movimentações. Estamos, aos poucos, nos movimentando em direção àquilo que desejamos e isso parece ajudar a refletir aspectos intrínsecos à Comunicação, o que Baptista chama de investimentos desejantes, em busca da felicidade. A movimentação intrínseca ao processo de comunicação depende do acionamento desejante do movimento. Enquanto grupo, pensamos de maneira plural, respeitando as diferenças e entendendo que essas diferenças nos possibilitam identificar e reconhecer semelhanças, assim como agenciar ‘novos olhares e vivências’. Esse processo é marcado pela transformação complexa dos sujeitos, na rede das relações. Acredito que a contribuição que podemos oferecer à Nova Teoria da Comunicação são as pistas que temos a partir da união nos encontros caóticos, do encontro de corpos que transforma, do acionamento do desejo, da amorosidade, das pulsões, de movimentos e ações e de querer, de fato, mudanças em nosso meio.

145

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

21 Comunicação-complexa: afetivações inscriacionais Renata Chies Temos buscado, no Amorcom! e com a Nova Teoria da Comunicação, a ampliação da compreensão da Comunicação, que parte do desmonte do termo, com a ideia de ação de tornar comum. O que se percebe, nesse sentido, é a dimensão de imensa complexidade que existe em qualquer processo comunicacional, numa proporção infinita, que se amplia todos os dias, em função da complexidade social e tecnológica, além da própria condição do processo de comunicação, em si mesmo. Caótico. Entendo que essa palavra pode descrever tanto a comunicação quanto os encontros do Amorcom! Comunicação, mistério e magia são apenas alguns dos ‘ingredientes’ que compõem esses encontros caóticos, nos quais a pesquisa e a produção estão presentes. O que se produz, a partir do encontro das experiências diversas, é algo meio mágico, que se percebe derivar da abertura de cada um para o encontro, em laços de amizade e de amor, no sentido de Maturana (1998), atributos indispensáveis ao fazer comunicação. Em suma, no Amorcom!, pesquisamos envolvidos afetivamente em um processo desejante de recriação de nós mesmos, no qual vamos cada vez mais a fundo na complexidade da comunicação.

146

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

22 Comunicação-teoria fluxo: contínuo movimento do devir e hibridização Ronaldo Velho Bueno Foi em uma noite de quarta-feira que surgiu-me o convite. Sereno, mas avassalador; pacífico, mas insurgente; opúsculo, mas aurora. A Professora Dra. Maria Luiza Cardinale Baptista propôs-me os “Encontros Caóticos da Comunicação” como alternativa ao ortodoxo sistema de erudição e pesquisa, profundamente atrelado ao pensamento positivista e mecanicista. E eu, sendo um sujeito entrópico, sempre tendendo à ruptura da ordem e ao caos, encarei o convite por um viés convocatório e instigante. De forma imagética, posso sintetizar e comparar meu contato com o AMORCOM! como o impacto entre duas partículas atômicas, ou como a colisão cósmica entre duas galáxias; um encontro que sempre resulta em transformações para ambas as partes. Fundamentada sob a égide da Nova Teoria da Comunicação, proposta por Ciro Marcondes Filho, e dos conceitos da autopoiese, de Humberto Maturana e da comunicação-trama de Maria Luiza Cardinale Baptista, o AMORCOM! e nossos “Encontros Caóticos” propiciam-nos a pluralização da teoria através de sua práxis. A autoprodução de conhecimento, possibilitada por um contexto pedagógico libertário, objetivando a autonomia como via para o fomento do senso crítico, como propôs Paulo Freire, ocasiona a horizontalização do discurso, intrínseco à estrutura dialógica. Dessa forma, com

147

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

a democratização e a socialização do fluxo comunicacional, o conhecimento passa a fazer parte de um processo coletivo, dialético e permanente. Não em busca de uma suposta essência única, sublime e platônica, mas resultado do contínuo movimento e do devir, numa dialética sempre suscetível à contestação e à negação. A contribuição de nossas produções no Amorcom! é são as práticas de subversão do estático, dos padrões, do status quo; de afirmação das tramas/teias de interação, sendo elas objetivas ou subjetivas; do debate e da reflexão das individualidades e da coletividade, bem como a proposição da autopoiese para a construção de conhecimento híbrido, profundo e vivo, que seja também um conhecimento que ajude a reinventar a própria comunicação. REFERÊNCIAS BAPTISTA, Maria Luiza Cardinale. Imagem, Sujeito e Mídia. Projeto de Pesquisa. Caxias do Sul, 2011. ______. Usina de Saberes em Comunicação. Projeto de Pesquisa. Caxias do Sul, 2012. ______. Desterritorialização desejante em Turismo e Comunicação: Narrativas Especulares e de Autopoiese Inscriacional. Projeto de Pesquisa. Caxias do Sul, 2013. _______. Psicomunicação: a trama de subjetividades. Disponível em: . Acesso em: 15 de abril de 2013. ______. Emoção Subjetividade na Paixão-Pesquisa em Comunicação. Revista On Line Ciberlegenda, www.infoamerica.org, v. 01, n. 4, p. 01, 2001. ______. Emoção e Desejo em Processos de Escrita Rumo a uma Educação Autopoiética. Novos Olhares (USP), São Paulo, v. 1, n. 6, p. 18-25, 2000. ______. Paixão Pesquisa: o Encontro com o Fantasminha Camarada. Revista Textura, Canoas/RS, v. 01, p. 67-78, 1999. ______. Comunicação: trama de desejos e espelhos. Os metalúrgicos, a telenovela e a comunicação do sindicato. Canoas: ULBRA, 1996. ______. Comunicazione come trama: La complessitá del processo. In: BECHELLONI, Giovanni, LOPES, Maria Immacolata Vassalo de (org.). Dal controllo alla condivisione: studi brasiliani e italiani sulla comunicazione. Roma: Mediascape Edizioni, 2002. ______. O dilúvio babelizante da contemporaneidade e a educação. In: Pauta: Interdisciplinaridade e pensamento científico, Pato Branco, v. 2, n. 1, p. 55-73, dez. 2003. ______. O sujeito da escrita e a trama comunicacional. Um estudo sobre os processos de escrita do jovem adulto como expressão da trama comunicacional e da subjetividade contemporânea. 2000. 440. fls. Tese (Doutorado em Ciências

149

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

da Comunicação). Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, 2000. ______. AFETIV(AÇÕES) DO TEXTO-TRAMA NO JORNALISMO Ensino e produção de textos jornalísticos e científicos, em tempos de caosmose midiática In: FÓRUM NACIONAL DE PROFESSORES DE JORNALISMO (FNPJ) 2º ENCONTRO SULBRASILEIRO DE PROFESSORES DE JORNALISMO 5º ENCONTRO PARANAENSE DE ENSINO DE JORNALISMO, 2013, Ponta Grossa (PR). II Fórum Sul-Brasileiro de Professores de Jornalismo. , 2013. CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. Uma Nova Compreensão dos Sistemas Vivos. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. ______. O Ponto de Mutação. A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente. 12. ed. São Paulo: Cultrix, 1991. ______. O Tao da Física. Um Paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental. 11. ed. São Paulo: Cultrix, 1990. CREMA, Roberto. Introdução à Visão Holística. Breve Relato de Viagem do Velho ao Novo Paradigma. São Paulo: Summus, 1989. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários á prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. _______. Pedagogia do Oprimido, 17 ed.. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. _______. Á Sombra desta Mangueira, 5 ed. São Paulo: Olho d’Água, 2003.

150

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

GUATTARI, Félix. As três ecologias. 3. ed. Campinas: Papirus, 1981. ______. Caosmose. Um Novo Paradigma Ético-Estético. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. ______. Linguagem, consciência e sociedade. In: LANCETTI, Antonio. SaúdeLoucura, número 2. 3 ed. São Paulo: Hucitec, 1990. ______. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. v. 1. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995. ______. O insconsciente maquínico. Campinas: Papirus, 1988. ______. Revolução molecular. Pulsações Políticas do Desejo. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Cartografias do desejo. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1986. MARCONDES FILHO, Ciro. O Projeto “Nova Teoria da Comunicação” e Suas Aplicações na Pesquisa Comunicacional Atual. São Paulo, 2013. Cópia. ______. O Princípio da Razão Durante. O conceito de comunicação e a epistemologia metapórica. Nova Teoria da Comunicação III. Tomo V. São Paulo: Paulus, ______. Dicionário da comunicação. São Paulo: Paulus, 2009.

151

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

MATURANA R., Humberto; VARELA G., Francisco J. De máquinas e seres vivos: autopoiese e a organização do vivo. 3. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. MATURANA, Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: UFMG, 1998. MEDINA, Cremilda. (org.). Novo Pacto da Ciência. A Crise dos Paradigmas – I Seminário Transdisciplinar. São Paulo, ECA/USP, 1990-1991. ______. O Signo em Processo. XVII Congresso Brasileiro de Pesquisadores em Comunicação, setembro de 1994a, xerox. ______. Entrevista. O Diálogo Possível. São Paulo, Ática, 1986. ______; GREGO, Milton. (orgs.). Novo Pacto da Ciência 3. Saber Plural. O Discurso Fragmentalista da Ciência e a Crise de Paradigmas. São Paulo, ECA/USP/CNPq, 1994b. MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. São Paulo, Instituto Piaget, 1991. ______. O método 4. As idéias, habitat, vida, costumes, organização. Porto Alegre: Sulina, 1998. ______. Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. THUM, Carmo. Educação, História e Memória: silêncios e reinvenções pome-ranas na Serra dos Tapes. Doutorado em Educação. Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS, Brasil. 2009.

152

Sumário

SESSÃO TEMÁTICA 2 Filosofia, Técnica e Subjetividade

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO A 23 A inscrição das tecnologias nos processos de midiatização: contexto, método e questões “em que sua pesquisa pode renovar o olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la”

Jairo Ferreira

CONTEXTO PROPOSITIVO A renovação do olhar sobre a comunicação é oferecida, em primeiro nível, pela linha de pesquisa em que nos inscrevemos, Midiatização e Processos Sociais. Minha leitura da linha é de que ela busca objetos que não estão definidos em outras abordagens da comunicação que estão presentes na área: a que acentua o maquinário-tecnologia em suas incidências sobre a sociedade, o discurso e a comunicação; a que acentua a perspectiva da comunicação em geral desde fenômenos da natureza, anterior a cultura e sociedade humana; a que acentua a comunicação como subsumida em processos sócio-antropológicos (economia, política e cultura); e as que acentuam o lugar do signo como chave para compreensão

154

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

dos processos sócio-antropológicos. A problemática da midiatização é relacional, e nasce de tentativas de elaborar questões, proposições, hipóteses e conceitos que se colocam na interface entre essas abordagens. É no âmbito do contexto dessa contribuição de linha de pesquisa que desenvolvemos nossas contribuições específicas. Elas podem ser situadas em três níveis em que desenvolvemos nossas reflexões. Primeiro nível é sobre a circulação. Consideramos que esse é central para a compreensão da comunicação a partir dos processos midiáticos. Nem produção, nem recepção, mas circulação. Não apenas codificação/decodificação, mas também usos e práticas nas interações com dispositivos midiáticos como referência das (in) conversação social. Estamos desenvolvendo o conceito de circulação enquanto processo de valorização/desvalorização, ou construção-desconstrução de valores sociais. Ou seja, há circulação se um determinado valor é questionado, integrado a outro, negado, etc. Essa circulação é antesala da (in) conversação social possível. A circulação enquanto valorização/desvalorização é uma perspectiva não desenvolvida no campo da comunicação, e, nesse sentido, agrega no âmbito da linha de pesquisa em que estamos ângulos que talvez permitam perceber processos não visíveis com outros ângulos. A análise da circulação não é reduzida, em nossa perspectiva, às operações discursivas, nem aos fluxos sociais que são referências das interações em análise. No primeiro dois casos, a circulação é mais ou menos pressuposta nas análise sócio-

155

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

-discursivas. A midiatização, em nossa perspectiva, deve incluir, sem excluir as duas anteriores, as incidências das técnicas e tecnologias de comunicação. Esse tem sido um problema que atravessa a nossa pesquisa há alguns anos. O segundo nível de análise é sobre o conceito de dispositivos. É por estar inserido no âmbito da circulação que, em nossa perspectiva, o objeto “dispositivo”, sem deixar de ser objeto das teorias sociais críticas, é passível de “importação” ao nosso campo epistemológico, para pensar a comunicação midiática. O central dessa importação é sua adaptação a linhagens de investigação que estão presentes nas questões e problemas quando se estuda a midiatização. Nesse sentido, ele condensa mediações técno-tecnológicas, semio-discursivas e sócio-antropológicas. Nossa formulação propositiva: o dispositivo é um lugar de inscrição e, também, operações estruturantes de novos processos interacionais, usos e práticas sociais. Nesse sentido, o dispositivo não é mediação entre produção e recepção. É lugar de ruptura, descontinuidade. O terceiro nível é sobre a transformação de instituições e indivíduos. A hipótese é de que a comunicação midiática é central na transformação de instituições e indivíduos, na medida em que altera correlações discursivas, conversacionais, de uso, apropriações e práticas que abrem novos processos de apropriação de signos na vida social. Esse terceiro nível é o mais visível e compartilhado nas análises de área. Ou seja, já é um senso comum da área a afirmação de que indivíduos e as instituições midiáticas e não

156

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

midiáticas estão se transformando em processos articulados com os processos midiáticos. Entretanto, esse senso compartilhado, é visitado por diversas angulações que agrupamos no primeiro parágrafo deste resumo ampliado. Nesse nível também – transformação das instituições – a investigação sobre a midiatização, em nossa perspectiva, procura compreender os fundamentos dessas diversas angulações, considerando processos empíricos em análise, de um lado, e os pressupostos teóricos e filosóficos que informam os seus autores. O MÉTODO ENQUANTO OPERAÇÃO COGNITIVA Nossa proposições anteriores são construídas numa perspectiva de método que acentua o valor da inferência abdutiva. Nesse sentido, é uma ruptura com os processos dedutivos e indutivos clássicos. A interposição da abdução em ambos processos valoriza a criação de novas inferências no chão de fábrica de uma formação midiatizada singular – o Brasil. Assim, nos colocamos no contexto da geopolítica do conhecimento científico. A força que temos é a abdução, ou seja, uma inferência, que articule, criativamente, teorias disponíveis e campo de observação. Dividimos essas inferências entre as propositivas e as questionadoras. Propositivas, no sentido de que toda a inferência não é apenas uma diagnose, mas também é prognose e prescrição, onde as dimensões objetivas (materiais) e subjetivas (imate-

157

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

riais) se articulam em cadeias sucessivas de argumentações possíveis. O diagnóstico é analítico e crítico. Crítico pois nenhum pesquisador faz pesquisa á revelia de seus valores individuais, pessoais, de suas ‘filosofias’. Essas filosofias acabam por retornar e “avaliarem” as situações analisadas. Aqui vale a máxima: mesmo o se dizer sem filosofia é uma filosofia. Já a prognose é a percepção de movimento que está subjacente a sua análise e crítica (a prognose pode ser por exemplo: de que o candidato X pode ganhar a eleições se fizer ações R, S e T). Ela é pouco explorada no campo da comunicação, que ainda está tentando resolver sua dificuldade de diagnose e ser reconhecido perante outros campos científicos. Mas ela será cada vez mais demandada, inclusive porque os ofícios que se informam em sua epistemologia fazem, sem parar, diagnoses (o jornalismo e a publicidade em especial). A diagnose com fundamentos em epistemologias herdeiras do cientificismo certamente poderá trazer novos cenários interpretativos à vida social, além daqueles desenhados pelas agências de MKT distribuídas em instituições midiáticas diversas e pelas consultorias comprometidas com estratégias A dimensão prescritiva da inferência remete ao caráter político da pesquisa sobre midiatização e, especificamente, sobre a circulação. Trata-se, nessa dimensão, de sugerir ações estrategicamente orientadas. É nessa esfera que em que a comunicação pode resgatar o seu lugar de “ciência social”. A grande dificuldade dessa dimensão prescritiva é o estigma deixado pela “ciência administrativa”, em que a comunicação

158

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

está a serviço de estratégias de instituições e do poder. Nessa perspectiva administrativa, a prescrição é instrumental, com baixo poder analítico e contaminado por diagnoses e prognoses marcadas ideologicamente. Entretanto, mesmo a diagnose, prognose de prescrição pós-instrumental, analítica e crítica, está subsumida nas filosofias de seus autores – anunciadas ou implícitas. QUESTÕES ESPECÍFICAS EM CURSO Nesse contexto teórico-propositivo e de método, nossa pesquisa atual busca uma análise do lugar que as técnicas e tecnologias ocupam nas investigações sobre processos midiáticos. Não se trata, assim, de dizer qual o lugar que ocupam em nossas proposições, e sim de investigar que lugar ocupam nas investigações conduzidas por outros pesquisadores que se referem explicitamente às técnicas e tecnologias digitais online. O que há de compartilhado entre esses investigadores? Que descontinuidades podemos observar entre eles? O que a intitulada Web 2.0 como processo ontológico (nos sentido de uma experiência sócio-comunicacional real) vem possibilitando em termos de enfoque epistemológico compartilhado e diferencial no campo de estudos constituídos pelas hipóteses sobre a midiatização? Nosso objetivo com a problematização a partir dessas questões é questionar as nossas proposições apresentadas em contexto.

159

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Um ano após iniciarmos essa investigação, concluímos que essas questões/problema vem se constituindo em central nos debates sobre midiatização. Ela é acentuada por autores como Miège, Proulx, Flichy, Scolari, Carlon, entre outros que estamos acompanhando em suas investigações. O que há de compartilhado? Há uma ruptura entre os meios massivos e os meios digitais online. Essa proposição se transformou quase em senso comum, o que produz um problema epistemológico às diversas perspectivas de pesquisa sobre processos midiáticos: como reconhecer essa ruptura sem passar pelo reconhecimento de que as técnicas e tecnologias não se constituem apenas em meios, mas são operadores? Como reconhecer seu lugar de operação sem neutralizar ou “zerar” outros operadores (o signo e o discurso; a natureza; os usos, as práticas e as interações, conforme suas preferências de partida)?

160

Sumário

24 A questão da técnica

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Elenildes Dantas A questão da técnica surgiu durante o mestrado quando estudava o Imaginário do Aquecimento Global já que para alguns estudiosos, é a capacidade técnica do homem que está causando as mudanças climáticas, para o doutorado a proposta é entender a relação entre imaginário e a capacidade técnica. A importância desse estudo para a comunicação é evidente, a relação do homem com a técnica é hoje o tema mais instigante das ciências humanas, pois o homem moderno ou pós-moderno é essencialmente um homem envolvido pela técnica, de tal forma que se quer conseguimos perceber nosso real grau de dependência. Vivemos na sociedade da imagem ou telemática, criada pelo quarto bios, um mundo codificado, a partir de um totalitarismo programado, que nos prende dentro de uma caverna de espelhos, nos tornando indivíduos ‘tautistas’ e ‘disléxicos’, desejosos por ser máquina, ao mesmo tempo em que sofremos com o horror vacui. A sociedade espectral tornou-se um lugar deste vácuo, onde só vemos a nós mesmos e, falamos para nós mesmos, na qual o outro desaparece inteiramente, e na qual, paradoxalmente, apesar de tanto progresso tecnológico em comunicação, ninguém se comunica. Muniz Sodré (2002) descreve a existência de um quarto bios formado pelos meios de comunicação e pela tecnocultura, além dos três definidos por Aristóteles: o bios theoretikos,

161

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

da vida contemplativa; bios politikos, da vida política; e o bios apolaustikos, da vida prazerosa, vida do corpo, descritos no texto Ética a Nicômaco. “Cada bios é, assim, um gênero qualificativo, um âmbito onde se desenrola a existência humana, determinada por Aristóteles a partir do Bem (to agathon) e da felicidade (eudaimania) aspirados pela comunidade.” (SODRÉ, 2002: 25). O poder dos media como quarto bios seria a agenda-setting, ou seja, a capacidade de criar uma agenda coletiva, tanto pelos assuntos que ela fala quanto pelos que ela cala. Para ele, o que há de mais preocupante na tecnocultura é a anulação da autorreflexão e aceitação sem questionamentos dos discursos dos medias. Pois, segundo Sodré, a tecnocultura implica uma transformação das formas tradicionais de socialização, além de uma nova tecnologia perceptiva e mental. Implica, portanto, um novo tipo de relacionamento do indivíduo com referências concretas. (SODRÉ, 2002: 28). Para Sodré, na tecnocultura, a diferença dos valores dissolve-se na equivalência geral da forma-produto. Em vez da sedução da razão argumentativa, a fascinação tecnonarcísica obtida pela retórica do imaginário. Por isso, segundo ele, o espaço público da contemporaneidade é cada vez mais construído pelas dimensões variadas do entretenimento ou da estética, em sentido amplo, cujos recursos provêm do imaginário social, do ethos sensorial e do subjetivismo primitivo. “Profundamente afetada pela esfera do espetáculo, a vida comum torna-se medium publicitário e transforma a cidadania política em performance tecnonarcísica.”, (SODRÉ, 2002: 40).

162

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Mas, segundo Sodré, dos media para o público não parte apenas influência negativa, mas principalmente emocional e sensorial, com o pano de fundo de uma estetização generalizada da vida social, onde identidades pessoais, comportamentos e até juízos de natureza supostamente ética passam pelo crivo de uma indivisível comunidade do gosto, segundo ele, o gosto médio, estatisticamente determinado. “Não há dúvida de que a opinião pública existe, mas como uma estratégia de buscar o que de algum modo já se tem.”, (SODRÉ, 2002: 44). Sodré define o ethos de um indivíduo ou de um grupo como a maneira ou o jeito de agir, isto é, toda a ação rotineira ou costumeira, que implica contingência, quer dizer, a vida definida pelo jogo aleatório de carências e interesses, em oposição ao que se apresenta como necessário, como dever-ser, e conclui: “O grande problema da ética é o seu afastamento das questões de conteúdo e princípio, para aspectos puramente formais ou simplesmente definidos por uma prática profissional.”, (SODRÉ, 2002: 107). A ideia de que os meios de comunicação, ou mais genericamente a tecnocultura, cria um quarto bios, ou seja, cria uma nova forma de estar no mundo, de agir e perceber o mundo já está presente em críticos da teoria da comunicação como Vilém Flusser, Dietmas Kamper, entre outros por meio de conceitos como totalitarismo programado e caverna orbital. O homem telemático, segundo Dietmar Kamper, teria um parentesco entre o homem e a máquina, enquanto um ‘medial antropológico’. A palavra telemático, formada a partir das palavras ‘tele-comunicação’ e mais ‘auto-mático’, por

163

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

estudiosos franceses. Kamper afirma que o telemático de fato surgiu, mas não pode mais acabar, porque o mundo genuinamente humano dos media sobrepôs-se, recalcou-se e, substituiu de tal forma aquele outro mundo, que existe agora também um mundo sem seres humanos, em que já não é mais possível nenhuma manifestação direta sobre o senso do humano, assim como também nenhum dito ou nenhum mito, a não ser através da contestação da imanência medial do Imaginário contra a prevalência do exterior e de toda transcendentalidade. Para Dietmar Kamper, nossa sociedade mais do que um mundo codificado é uma caverna orbital, pois nós continuamos na caverna tal qual no mito de Platão, só que em uma caverna de espelhos, onde só vemos a nós mesmos, cuja caverna é alimentada pelos meios de comunicação. Em contrapartida, nós só olhamos para nós mesmos: o outro é uma figura mediática. Este abastecimento promovido pela indústria cultural corresponde a uma energia circulante, embora só venhamos a ver nós mesmos no contato mediático. A questão levantada por Kamper é saber se existe algo além da caverna de espelhos alimentada pelos media, ou se é correto dizer que eles abrangem atualmente a totalidade da sociedade, ou que constituem a última totalidade que faz referência à desagregação social, ou ainda se representam – da mesma forma como o dogma determinou a sociedade medieval e o dinheiro, a sociedade burguesa –, fundamentalmente estruturas das sociedades pós-modernas. Segundo a visão do pensador alemão, a saída da humanidade seria a então redescoberta do corpo através das artes

164

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

e das danças. Pois, apesar de os corpos, por definição, não aparecerem mais no interior dos novos meios visuais acelerados de comunicação, eles são eficazes nos seus pressupostos da mediação deles, sendo dependentes, quer seja como corpos humanos, que produzem e consomem, quer seja como aparelhos e máquinas, que lançam, sustentam e carregam imagens, sendo que quem acompanha a tendência da desmaterialização mediatizada já não os encontra mais. Vilém Flusser, em O Mundo Codificado diz que para se compreender o homem é preciso entender primeiro as suas ferramentas, seu modo de fabricação. Segundo ele, o Homo sapiens é antes de tudo um Homo faber, pois a capacidade de criação foi que diferenciou os sapiens dos hominídeos anteriores, ou seja, a técnica faz parte da própria constituição do homem sapiens e é por meio da técnica que permanecemos evoluindo. Flusser divide a história humana em três períodos marcados por revoluções industriais ou de capacidade de fabricação do Homo faber, de acordo com as ferramentas e técnicas utilizadas pelo homem, tais como: mãos, ferramentas, máquinas e meios eletrônicos. A primeira Revolução Industrial teria sido a das ferramentas, quando ocorre o nascimento do Homo faber, onde o homem é a constante e a ferramenta a variante. É quando o homem se afasta da natureza para então observá-la. A segunda Revolução Industrial é a revolução das máquinas, ocorrida a partir do século XIX, em que a máquina é então a constante e o homem a variante, sendo que desta vez, o homem é expurgado do processo produtivo, não apenas a

165

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

natureza. Já a terceira revolução industrial, é a que está em curso, em que a substituição das máquinas mecânicas está sendo realizada pelos equipamentos eletrônicos que pretendem converter em coisas as simulações de informações genéticas. A terceira revolução devolveu a mobilidade ao homem, por meio da rede telemática, que transformou o mundo em um mundo codificado. Assim, a terceira revolução é a revolução biológica, ao contrário da revolução industrial predecessora que era apenas mecânica. Para Flusser, o mundo codificado está invadido de não-coisas, de elementos impalpáveis e de informações. E as não-coisas são inapreensíveis, pois têm apenas a função de servirem a contextos meramente decodificáveis. Para ele ainda, esta revolução cria um novo homem, o Homo ludens, que não quer fazer, mais sim desfrutar, que não é homem de ação, mas sim de busca de sensações. Além do mundo da natureza e da cultura, também somos cercados pelo mundo do lixo, segundo Flusser, que cada vez mais chama nossa atenção. Ele descreve a história humana como um círculo vicioso, da natureza para a cultura e da cultura para o lixo e, deste de volta para a natureza. Para ele, a história começa com a invenção da escrita. Segundo Flusser, esta revolução em curso da sociedade do futuro será sem classes, dotada por programadores programados, no que ele denomina de totalitarismo programado. Mas um totalitarismo sem opressão, pois os indivíduos se sentirão livres por poder decidir em que tecla apertar, sem se darem conta que não importa a tecla, pois o programa é que cria as opções, ou seja, todas as opções já estão programadas. Sendo

166

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

assim, para Flusser, o objetivo do mundo codificado é esconder que ele consiste em um tecido artificial. Seria como se vivêssemos numa Matrix. Seguindo ainda esta mesma linha conceitual, o homem pós-industrial ou pós-histórico seria programado por imagens. Em cada revolução, a imagem teve um papel significativo. Na primeira revolução industrial, a das ferramentas, a imagem significava uma revelação adquirida graças a um afastamento do mundo, já na revolução das máquinas, a imagem representava uma contribuição particular para a história pública, que exigia ser processada por outros, não obstante na revolução dos equipamentos eletrônicos, as imagens vêm a significar um método para se programar o comportamento dos funcionários da sociedade pós-industrial. Assim, a imagem pré-histórica é mítica, sagrada, enquanto a imagem história é engajada politicamente, ao passo que a imagem pós-histórica tem a função de transformar o receptor em objeto. Mas as formas imagéticas das quais se refere Flusser, não são eternas porque estão fora do espaço e do tempo, não prescindindo serem criações divinas ou do homem, sendo que a cultura pós-industrial é a cultura do imaterial, que não se trata de modificar a realidade, mas sim de realizar as possibilidades dadas por ela. No entanto, hoje se busca materializar as formas projetadas, ou os chamados modelos. Antes se buscava dar forma às matérias, pois informar significa originalmente impor forma à matéria. Sendo que fabricar é apoderar-se de algo da natureza, transformá-lo em outra coisa, dar-lhe uma aplicabilidade

167

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

e, utilizá-la para um devido fim. Flusser afirma, que por sermos seres alienados, necessitamos dar sentido ao mundo por meio de códigos. Neste aspecto, para ele, comunicação é também substituição, pois ela substitui a vivência daquilo a que se refere. Assim, a revolução técnica que teve início no século XIX, culminando em meios de transporte e comunicação rápidos que continuam, até hoje, a evoluir numa velocidade espantosa. Nossa relação com o mundo é cada vez mais imagial, mediada pelos meios tecnológicos de comunicação. Sabemos como é nosso planeta visto do espaço, por meio de imagens, conhecemos até o formato de nossa galáxia por imagens telescópicas, podemos se quisermos ver até um bebê chupando o dedo do pé ainda na barriga da mãe. Apesar de poucos terem estado nos países asiáticos, conhecemos as grandes plantações de arroz do Vietnã, a grande muralha da China, o trânsito caótico de Bombaim, ou seja, a oferta de imagens é cada vez mais numerosa e variada. Por outro lado, o horror vacui seria o mal-estar da civilização atual. No frenesi do mundo telemático, o homem se vê obrigado a se manter em constante movimento, tendo horror ao vazio e à lentidão, por medo de perder o bonde da história. “Quando me agito, quando busco fazer muitas coisas ao mesmo tempo, quando não paro e só penso em mim mesmo, o mundo não existe, eu só o toco superficialmente, epidermicamente, sou um autista”, (MARCONDES FILHO, 2007, p. 72). Nesta acepção, o homem telemático é o homem que deseja ser máquina, aquele que inveja a imortalidade das máquinas. De certo modo, o homem telemático não só deseja

168

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ser máquina, mas deseja ser mercadoria também, ou seja, ser um bem consumível. “A ligação entre moda e publicidade não se atém às mercadorias; pessoas também são avaliadas segundo critérios de objetos novos e com design atualizado”. (MARCONDES FILHO, 2008, p. 142). O discurso da sociedade telemática é tautológico, porque a mensagem que envio é a mesma que recebo e, porque vivemos num universo comum em que se fala a mesma coisa no discurso pré-fabricado dos media. Vivemos todos num contínuo atmosférico mediático comum e, tautológico, sendo que temos o progresso técnico como nova teologia. Ou como tautismo enquanto confusão entre realidade representada e realidade expressa. Bibliografia FLUSSER, Vilém. O Mundo Codificado. São Paulo: Editora Cosac Naify, 2008. HEIDEGGER, Martin. A questão da técnica. Revita Scientia Estudia. São Paulo, v.5, n.3, p. 375-398, 2007. Disponível em: www.scientiaestudia.org.br/revista/PDF/05_03_05.pdf. KAMPER, Dietmar. Imagem. Disponível em: www.cisc.org.br. KAMPER, Dietmar. Imanência dos Media e Corporeidade Transcendental. Tradução de MARCONDES FILHO, Ciro. Disponível em: www.eca.usp.br/nucleos/filocom/traducao9. html.

169

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

KAMPER, Dietmar, As Máquinas São Tão Mortais Como as Pessoas. Tradução de MARCONDES FILHO, Ciro. Disponível em: www.eca.usp.br/nucleos/filocom/traducao9.html. MARCONDES FILHO, Ciro. Para entender a comunicação: Contatos antecipados com a nova teoria. São Paulo: Paulus, 2008. ______Perca tempo: é no lento que a vida acontece. São Paulo: Paulus, 2007. ______Até que ponto, de fato, nos comunicamos? São Paulo: Paulus, 2007. SFEZ, Lucien. Crítica da Comunicação. São Paulo, Edições Loyola, 2000. SODRÉ, Muniz. A Antropológica do Espelho: Uma Teoria da Comunicação Linear e em Rede. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2002.

170

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

25 Imagem, Corpo e Revolução Digital: Enfrentamentos Sócio-Tecno-Culturais no Mundo Contemporâneo Ana Cecília Aragão Gomes A comunicação está no centro da grande mutação que parece operar na cultura contemporânea. A comunicação prolonga a filosofia realçando as grandes questões tradicionais sobre o real, o vínculo, o imaginário, etc., com conceitos renovados. Nesse cenário, refletir sobre a importância da comunicação e em como as tecnologias de comunicação e informação vêm modificando as relações humanas e o próprio conceito de comunicação. Trata-se de uma análise que leva em consideração os múltiplos vetores sociais, históricos, subjetivos, temporais e culturais que constituem estes fenômenos. O estudo entende comunicação como a construção de vínculos afetivos e comunicativos que o ser humano cria com o outro, e hoje essas relações acontecem a partir dos excessos de informação e imagens proporcionados pelas novas tecnologias de informação e comunicação. Compreende-se que há um impacto e uma mudança significativa nas formas de produção imagética e nos processos de vinculações humanas (seja na comunicação, na construção da subjetividade e na sociabilidade), ficando clara a relação existente entre o excesso e poder das imagens produzidas por meio da tecnologia e seu impacto na relação do homem com sua mídia primária, o corpo, na cultura e na sociedade contemporânea. Haja vista que as manifesta-

171

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ções e os significados são produzidos em meio a um Zeitgeist, em que cada vez mais somos cooptados por um sensorium digital que corrobora para uma in-comunicação e para certa escassez nas experiências cotidianas.

172

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

26 Pensamento técnico e comunicação na cibercultura: crítica do rótulo de “era da comunicação” para o mundo tecnológico contemporâneo Tales Thomaz

Desde o início do século XX a comunicação se tornou questão central para o pensamento ocidental. O surgimento das tecnologias do virtual, no último quarto do século, fez com que a reflexão sobre o tema se tornasse ainda mais necessária e urgente. Nesse sentido, a primeira questão que se coloca é o que é a comunicação propriamente dita. Muitas foram as tentativas de compreender o fenômeno. O que começa a ficar cada vez mais claro é que comunicação não é a transmissão de alguma coisa entre duas pessoas, como costumava-se crer. Em seu lugar, começam a ganhar espaço ideias alternativas, como a que postula que a comunicação – em vez de algo “transmissível”, quase material – é um evento, um acontecimento raro, algo que ocorre com uma pessoa e a altera, provoca e faz pensar. Partindo desse ponto, uma nova perspectiva pode se abrir no estudo a respeito do contemporâneo, especialmente em relação ao fato de proliferarem tecnologias digitais de comunicação. Essas tecnologias marcam a história de tal maneira que convencionou-se chamar de cibercultura os tempos atuais,

173

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

numa referência à ideia cibernética de controle e administração tecnológicos da existência. Ocorre que frequentemente os estudos atuais que tocam no assunto das tecnologias da comunicação tomam-nas como meros meios ou instrumentos de realização dos fazeres humanos. Parece, inclusive, a própria continuação – seja vendo a situação de forma positiva, seja anunciando a ruína da humanidade – do ideal cibernético mencionado acima. Ao longo de toda a modernidade foi marcante a ideia de que a consciência humana está no centro, é o sujeito, enquanto as demais coisas são objetos. Mas há também a reflexão sobre o fenômeno tecnológico que busca entender a essência da técnica, inspirada majoritariamente na obra do filósofo alemão Martin Heidegger. Além dele, diversos outros pensadores procuraram pensar qual o sentido da técnica para o ser humano, em vez de concentrar suas pesquisas nas possibilidades de uso e/ou abuso. Do ponto de vista da essência da técnica, a tecnologia aparece muito mais como a materialização de uma forma de saber do que como um instrumento manipulável. É uma forma de saber que tenta controlar tecnicamente as circunstâncias do entorno e que se instala no ser humano ainda antes da própria existência dos objetos tecnológicos da modernidade. É dessa forma de saber que surgem, apenas posteriormente, os objetos tecnológicos que vão dar a ilusão humana de controle. Nomeia-se aqui essa forma de saber, bem como a ilusão de controle que emana dela, como pensamento técnico. Para muitos pensadores, o pensamento técnico está avançando na cibercultura, o que suscita alguns questionamentos

174

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

em relação à comunicação: qual é a relação do pensamento técnico, definido como aquele em que o homem tenta se apoderar do real e controlá-lo, com a comunicação? Como fica o acontecimento comunicacional num contexto em que a interpelação do real se dá de maneira exclusivamente técnica, entendendo-se técnica nesse sentido mais amplo? Como o pensamento técnico se manifesta na cibercultura e qual é a condição da comunicação virtual diante disso? É em torno desses questionamentos que se desenvolve esta pesquisa. Considerando-se a proposta da pesquisa, a discussão gira basicamente em torno de três tópicos, que serão abordados adiante neste resumo: [1] o pensamento técnico e a ilusão humana de controle sobre a existência; [2] a comunicação como acontecimento; e [3] a contemporaneidade como era de avanço e primazia das tecnologias do virtual. 1. Pensamento técnico e ilusão de controle A cultura ocidental moderna está fundada em pressupostos iluministas, segundo os quais o homem é o agente de transformação do mundo e de si mesmo, sendo socialmente investido de todo o poder para alterar a ordem vigente em nome de um futuro melhor. A vida humana passa a ser descrita como o controle do sujeito sobre o objeto, privilegiando-se estabilidade, ordem, linearidade, unicidade, objetividade e outros valores tipicamente modernos, todos apoiados sobre a tríade razão-ciência-tecnologia. No pensamento ocidental da

175

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

modernidade, a consciência é tida como soberana, como fundamento do mundo. É, de fato, uma concepção antropocêntrica, humanista, que modela praticamente todo o Ocidente a partir de então. É esta concepção antropológica da existência que, no entender de Martin Heidegger, funda o problema de uma compreensão verdadeira da tecnologia e, especialmente, da essência da técnica. Para Heidegger (2007), a concepção antropológica da técnica, que vê a tecnologia como um instrumento, é correta numa avaliação superficial, mas esconde o que realmente está em jogo na técnica moderna. Para encontrar isso, seria preciso superar a dicotomia sujeito/objeto, especialmente a visão humanista que garantia ao sujeito proeminência nessa relação. Para Heidegger, a técnica é mais do que um meio ou instrumento; é um modo de levar à luz algo que antes estava oculto, um modo de desencobrimento ou desocultamento do real. É um modo de produzir, um modo de fazer com que algo que não estava presente anteriormente se mostre no reino da existência. É isso que os gregos chamavam de aletheia, isto é, verdade; verdade é desencobrimento, levar algo à luz. A técnica é, portanto, um modo de verdade ou um modo de saber. Esse modo de saber se baseia na capacidade de tudo mensurar, de tudo representar numericamente, que a ciência moderna – em especial a física – já apontava antes mesmo do surgimento da tecnologia (MICKLE, 1998). Com o número vem a capacidade de representar toda a natureza de forma calculável, e aumentam as possibilidades de manipulação do real.

176

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A técnica moderna está intimamente ligada com a conversão do mundo em imagem na modernidade, ou seja, a concepção de que o real pode ser inteiramente representado. Aquilo que é desencoberto ou desabrigado pela técnica moderna aparece, dessa forma, como disponibilidade para uma finalidade específica. É um modo de dispor as coisas para um uso que o próprio esquema técnico já pré-estabeleceu. O homem participa desse esquema como aquele que atende ao apelo para desafiar a natureza. Ele é invocado a desencobrir as coisas de maneira técnica. Sua participação não é como senhor do processo. Antes, ele é invocado a utilizar o pensamento técnico para desafiar a natureza como disponibilidade. Essa é, para Heidegger, a essência da técnica, Ge-stell, traduzida geralmente como “armação”. A armação é o apelo ao homem para que interpele o real como disponibilidade – esvaziado da sua condição própria – para a reprodução única e exclusivamente do próprio esquema posicionador. Fica claro que a essência da técnica não está no fato de ela ser um instrumento à disposição do homem, mas no fato de ela ser uma forma de pensar responsável por inculcar a ideia de medir, administrar e programar o real. 2. Comunicação como acontecimento Por sua vez, o fenômeno da comunicação é pensado nesta pesquisa a partir da perspectiva adotada da Nova Teoria

177

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

da Comunicação. Normalmente compreende-se a comunicação como algo que passa de um ponto ao outro, ideia lançada e consolidada pela teoria matemática da comunicação e pela primeira cibernética. Entretanto, não existe a mera transmissão de algo quando se trata de seres humanos envolvidos. Merleau-Ponty (2011) mostra que, quando se abandona a perspectiva antropocêntrica que proporcionava a dicotomia entre sujeito e objeto, nota-se que essa espécie de espelhamento nos dois pólos do suposto processo comunicacional simplesmente não ocorre de fato. Para Marcondes Filho, a comunicação acontece quando um conjunto de informações provoca uma ruptura do modo consolidado de pensar a respeito de algo, quando as diversas sinalizações do cotidiano se rearranjam de tal forma na percepção que se produz sentido novo. A comunicação ocorre quando há essa ruptura, ou seja, é um acontecimento. A comunicação envolve necessariamente certo incômodo, alteração nos sistemas fechados. Dessa perspectiva, nem toda troca de informação é comunicação – como no clássico modelo linear de comunicação. Em vez disso, a comunicação é acontecimento raro, que rompe a estabilidade do indivíduo e provoca novos pensamentos, sentimentos e sensações. Comunicação é um instante único, irrepetível, que efetivamente provoca mudanças na forma de pensar. Mas é preciso lembrar que “a comunicação plena, absoluta, total é impossível” (MARCONDES FILHO, 2008, p. 16). Como diz Merleau-Ponty, é impossível colocarmo-nos inteiramente dentro do outro. O máximo que é possível é a constituição de um projeto comum,

178

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mas que ainda é experimentado de forma individual por cada um dos participantes. Além disso, há coisas que dificilmente podem ser comunicadas. É por isso que comunicação não existe como mera transmissão de informações ou emissão. Dessa forma, a comunicação parece se colocar fora da alçada do controle humano. Esse é um ponto importante para discutir a questão da comunicação no pensamento técnico. Este pretende tudo controlar e administrar. Pode-se afirmar que a concepção de comunicação como transmissão ou emissão está inserida na perspectiva do pensamento técnico. Mas, se a comunicação é esse acontecimento raro, irrepetível, ela está mais para o objeto “maligno” de Baudrillard (1996), que não se submete a escrutínio, do que para o objeto que obedece a todas as prerrogativas do sujeito, como dizia a lógica do pensamento técnico. 3. Cibercultura e comunicação A ideia de que é possível controlar o real é ilusória; assim o é também o querer-dominar a técnica para a realização das finalidades humanas. O mundo tecnológico desenvolve-se em rumo próprio, impossível de ser determinado pelo ser humano. O mundo tecnológico se renova com tal rapidez, em comparação com o tempo histórico, e por caminhos tão imprevisíveis, ao largo da visada das instâncias políticas típicas da modernidade, que somente por equívoco pode-se justificar a ilusão de onipotência do sujeito de outrora, como se este estivesse no comando da cibercultura. No entanto, ainda assim, é possível dizer que persiste na cibercultura o ideal do pensamento técnico. “Não é outra a uto-

179

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

pia da cibersociedade, apontada também por Arthur Kroker: é o caráter da “capacidade de potencialização” humana, o indivíduo podendo se apossar de tudo, inclusive do universo” (MARCONDES FILHO, 2009, p. 64). Rüdiger (2007, p. 169) afirma que, “aparentemente, o sentido essencial do que se projeta via tecnocultura é a intervenção em um mundo construído como espaço de controle absoluto e realização dos desejos do sujeito”. A cibercultura seria, assim, a fase em que a armação se encontra mais imbricada no cotidiano. Já se vê por aí como o pensamento técnico parece ser um empecilho para a ocorrência do acontecimento comunicacional. A comunicação é aquilo que não se programa, não se controla, que não pode ser submetido na cadeia do esquema posicionador da armação. Na cibercultura, há êxtase de informação, mas não comunicação. É excesso que no fim acaba se realizando no seu próprio contrário. O excesso de informação – obsessão por conexão, interligação, que leva à adesão à velocidade dos media digitais – parece ser dessa natureza, realizando-se no seu próprio contrário, a incomunicabilidade, em plena era de saturação mediática. A lógica da velocidade e do excesso que rege a interatividade tipicamente cibercultural está mais para o sempre-igual de Adorno (1995) do que para o novo pressuposto na comunicação. As sinalizações perdem a importância que teriam para o pensamento e para a comunicação, convertem-se apenas em matéria-prima para a reprodução do próprio esquema posicionador, em prol da perenização do pensamento técnico.

180

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Na cibercultura, há profusão de informação, mas isso é da ordem da estabilidade, a ilusão humana de controle. A comunicação é do campo do objeto, do inesperado, daquilo que surpreende. Dessa perspectiva, portanto, parece impossível sustentar que cibercultura seja incondicionalmente era da comunicação, como muitas vezes se supõe. Referências ADORNO, Theodor. Palavras e sinais: modelos críticos 2. Petrópolis: Vozes, 1995. BAUDRILLARD, Jean. As estratégias fatais. Rio de Janeiro: Rocco, 1996. HEIDEGGER, Martin. A questão da técnica. Scientiae Studia, São Paulo, v. 5, n. 3, 2007, p. 374-398. MARCONDES FILHO, Ciro. Para entender a comunicação: contatos antecipados com a nova teoria. São Paulo: Paulus, 2008. _______. Superciber: a civilização místico-tecnológica do século 21: sobrevivência e ações estratégicas. São Paulo: Paulus, 2009. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. 4. ed. São Paulo: WWF Martins Fontes, 2011. MICKLE, Enrique Muñoz. Techné y técnica, ousía y materia. In: CENTRO DE ESTUDOS DA ANTIGÜIDADE GREGA DO

181

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA DA PUC-SP. Technê. São Paulo: Educ/Palas Athena, 1998. p. 18-27. (Coleção Hypnos). RÜDIGER, Francisco. Introdução às teorias da cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2007.

182

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO B 27 Repensar os Audiovisuais Educativos em uma Proposta Metapórica: A Dimensão do Sensível Vanessa Matos dos Santos Os movimentos de transformações vivenciados pelas sociedades contemporâneas tem centralizado a questão dos usos da mídia em situações educacionais. Comunicadores e educadores encontram nos materiais audiovisuais diferentes possibilidades de ensino e aprendizagem. Já não se trata apenas de potencializar o processo educativo, mas de explorar novas formas de compreensão e explorar o relacionamento diferenciado com o conteúdo. A utilização de diferentes sentidos implica uma ampliação das possibilidades de aprendizagem, porque o mesmo conteúdo pode ser disponibilizado segundo diferentes aspectos.A linguagem audiovisual convoca diferentes posturas perceptivas do telespectador, desde a imaginação até a reinvenção da afetividade.Soma-se a isso o fato de que estes materiais também incorporam um potencial lúdico marcante que, por sua vez, também pode ser utilizado de forma educativa. Importante destacar que sob o rótulo audiovisual “é possível perceber um amálgama de técnicas e/ ou materiais, de forma a possibilitar a experiência sensorial concreta e direta; experiência representativa e experiência simbólica” (SUBTIL; BELLONI, 2002, p.53).

183

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Ainda que impliquem uma tecnologia de alto custo de produção, os materiais audiovisuais são de grande valia em cursos ministrados em formato de educação a distância (EAD), tanto que este potencial logo foi percebido pelo setor de produção audiovisual. Hoje, em uma busca rápida pela web, é possível perceber que já existem produtoras que realizam apenas projetos educacionais. Em que pese o fato de muitas produções terem excelente qualidade conteudística e técnica (qualidade de som, imagem, roteiro etc), muitos ficam esvaziados em sua dimensão mais essencial: a comunicacional. Destaque-se que diferentes materiais audiovisuais, tais como filmes diversos, podem ser utilizados de forma educativa, dependendo do planejamento do comunicador / educador. Entretanto, os materiais aos quais nos referimos dizem respeito àqueles especialmente planejados com objetivos didáticos, quer seja para uso em sala de aula ou em ambientes virtuais. Para início deste debate, é importante resgatar a assertiva de Franco (s/a, p.9) para quem os audiovisuais devem ser experimentados como “vivência cultural escolar e não como suporte pedagógico de disciplinas e conteúdos específicos”. Partir dessa compreensão de uso dos audiovisuais já pressupõe, de antemão, superar o viés puramente técnico de uso desses materiais e iniciar o percurso rumo à uma proposta de comunicação efetiva. Recentemente, a discussão sobre os materiais audiovisuais tem sido deslocada para a possibilidade da interatividade, ou seja, para a obtenção de retorno mediante uma resposta ao conteúdo exibido por meio dos vídeos de simulação. A grande promessa está centrada no fato do Sujeito espectador poder

184

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

guiar a própria leitura, ritmo do conteúdo, possibilidade de gravar etc. Embora apresentem um imenso potencial, esses materiais ainda carecem de sistemas de avaliação no que se refere ao conteúdo, estrutura, linguagem, estética etc. O mesmo ocorre com relação à definição do gênero em que se enquadram, para viabilizar uma avaliação séria e parametrizada. Ainda assim, a avaliação padronizada não quer dizer, necessariamente, que o material vai sensibilizar o Sujeito para a aprendizagem de um determinado conteúdo. Ao mesmo tempo em que qualifica a produção com a introdução de parâmetros, a avaliação considera que todos os Sujeitos são iguais, gerando um movimento de massificação. A massificação, por sua vez, é um dos pontos nevrálgicos das propostas que envolvem a EAD: a individualidade do Sujeito, com suas fragilidades e fortalezas, nem sempre é levada em consideração. O ideal de uma educação personalizada acaba ficando cada vez mais distante. Isso, no entanto, não é exclusivo da EAD e pode fazer-se presente também na sala de aula presencial. O que ocorre é que, em situação de EAD, essa questão se torna mais evidente, porque a sensação de solidão é iminente. Tal situação indica que, de alguma forma, o processo de comunicação pode não ter se efetivado a ponto de tocar o Sujeito e despertá-lo para novas experiências, sensações, emoções e afetividades. Nesse sentido, é importante destacar que compreendemos a comunicação de acordo com os pressupostos da Nova Teoria da Comunicação que se respalda em uma proposta de trabalho que respeita a dinâmica dos acontecimentos e con-

185

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

textos em que ocorrem.Um dos pontos mais intrigantes dessa nova teoria está justamente concentrado na ideia de realizar a pesquisa com base no metáporo, na apreensão do acontecimento comunicacional. Os audiovisuais, de acordo com essa lógica, podem ser compreendidos além das fronteiras cotidianamente conhecidas, o que abre um novo horizonte de investigação científica ainda não explorado. Compreender o audiovisual não apenas para entreter ou informar, mas para potencializar uma experiência educativa por meio da comunicação, principalmente em situações de EAD constitui-se em um desafio para o qual não estamos preparados. Os estudos sobre a recepção e a construção de sentido, por si só,não conseguem explicar o que efetivamente faz com que um audiovisual seja mais bem compreendido em detrimento de outro. Inicialmente, acreditava-se que a qualidade técnica fosse responsável por transmitir a ideia de algo claro, transparente, próximo e, com isso, pudesse aproximar conteúdo e Sujeito. O que se verifica, após diversos investimentos em televisores de tela plana, LCD, plasma, digital, 3D, interativos, entre outros adjetivos e características, é que vídeos caseiros conseguem aproximar muito mais as pessoas do que fantásticas produções e efeitos visuais. Consideradas as proporções, é possível inferir que, embora muita importância seja dada para a qualidade da imagem e do som de uma produção audiovisual de uma maneira geral, é a história que realmente se sobressai. Isso explica, por exemplo, porque os maiores índices de acesso e visualizações no Youtube, por exemplo, não são necessariamente as melhores produções do ponto de vista da qualidade da imagem e do

186

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

som. Não raro, não possuem qualidade alguma, visto que muitas sequer chegam a ser produzidas no sentido estrito da palavra, sendo apenas gravadas e compartilhadas. Ainda assim, são as mais visualizadas, compartilhadas e, inclusive, traduzidas para outras línguas. Isso, no entanto, não significa que exista efetivamente um fenômeno comunicacional. Os sujeitos se movem no sentido de acessar esses vídeos, mas o alto número de acessos não quer significar que existe comunicação efetiva ocorrendo. No máximo, o que está em curso é um interesse por parte desses Sujeitos em acessar e conhecer determinado vídeo.Muitos desses materiais não conseguem atingir o Sujeito, mexer com seu imaginário e alterar as estruturas pré-estabelecidas com vistas a criar algo novo e, em última instância, efetivamente estabelecer a comunicação (MARCONDES FILHO, 2011). Parte-se, portanto, da hipótese de que é possível re-pensar a produção de materiais audiovisuais educativos para situações de EAD de acordo com a dinâmica proposta pelo metáporo. Assume-se, de antemão, que por mais claros e objetivos que possam parecer estes materiais, existem camadas de silêncio não compreendidas entre os materiais produzidos e o Sujeito receptor. Destaca-se aqui a necessidade de compreender a forma como cada Sujeito constrói os significados diante de uma obra audiovisual, bem como estar sensível para compreender a forma como o imaterial o atravessa e o modifica enquanto novo Ser.Fica claro, portanto, a comunicação acontece no entre, no durante.Isso implica em nos questionarmos em que medida a produção audiovisual realizada por um produtor, jornalista, comunicador pode impactar o Sujeito

187

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

aprendiz que consome o material audiovisual. Mesmo ao realizar um esforço por reproduzir cenas do cotidiano do público ao qual se destina o material, visando justamente impactar o sujeito receptor, existe uma questão maior que envolve o acontecimento comunicacional que, por sua vez está relacionado às dinâmicas do Sujeito diante dos fenômenos diversos. Isso não pode ser dominado e nem compreendido por meio das metodologias clássicas porque ultrapassa o plano da objetividade e recai sobre a apreensão do momento, do durante, uma vez que a apreensão da dinâmica precisa ser feita na brevidade que implica sua ocorrência como fenômeno natural e espontâneo.Essas dinâmicas, permeadas pela subjetividade dos Sujeitos, colocam novos desafios ao pesquisador que, distante de buscar padrões, busca justamente estar sensível para a compreensão e registro do acontecimento comunicacional que pode ou não ocorrer durante uma exibição audiovisual, por exemplo. Nesse sentido, o pesquisador do metáporo não está desconectado do contexto; ele faz parte daquilo que pesquisa e sua sensibilidade pode e deve garantir um registro pormenorizado daquilo que observa, vivencia, compartilha, participa. A saída para esta compreensão que, inclusive, autoriza o pesquisador a libertar-se das amarras do método, está justamente em encontrar saídas pelos poros. Nesse sentido, e buscando estes caminhos, esta pesquisa busca oferecer um relato metapórico dessas dinâmicas, viabilizando uma contribuição para a aplicação da Nova Teoria da Comunicação na produção de audiovisuais voltados para EAD.

188

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Palavras-chave: Audiovisuais Educação a distância.

educativos,

Metáporo;

Referências FRANCO, Marilia. Hipótese-cinema: múltiplos olhares. Disponível em: http://www.educacao.ufrj.br/artigos/n9/2_hipotese_cinema_e_seus_multiplos_dialogos_8_a_3.pdf Acesso em: 15 jul 2013. MARCONDES, Ciro. Princípio da razão durante, vol.III, tomo 5, “O conceito de comunicação e a epistemologia metapórica”. São Paulo, Paulus: 2010. SANTOS, Vanessa Matos. Materiais audiovisuais para a educação a distância: acontribuição dos estilos de aprendizagem. 315 fls. Tese (Doutorado em Educação Escolar) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Araraquara – SP. SUBTIL, Maria José; BELLONI, Maria Luiza. Dos audiovisuais à multimídia: análise histórica das diferentes dimensões do uso dos audiovisuais na escola. In: A formação na sociedade do espetáculo. Edições Loyola, 2002.

189

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

28 O Ornamento do Caminho do Meio: Uma Lógica Filosófica das Possibilidades Comunicacionais Ainda Pouco Explorada. Ana Paula Martins Gouveia

Resumo: Neste projeto de pós-doutorado, pretendo traduzir, comentar, contextualizar eatualizar (no sentido de aplicar à questão específica a ser aqui desenvolvida) um dos textos mais significativos da filosofia e da lógica budista tibetana e discutir a relação direta deste com a Nova Teoria da Comunicação, desenvolvida por Ciro Marcondes Filho, particularmente no que concerne ao “quase método” proposto por ele, o Metáporo. O texto a ser trabalhado, O Ornamento do Caminho do Meio (tib.: dbu ma rgyan), foi originalmente escrito em sânscrito e, como grande parte dos textos deste período, tem o seu original desaparecido; todavia, a tradução do mesmo para o tibetano foi orientada e supervisionada pelo próprio autor, Shantarakshita, um príncipe indianodo século VIII. O objetivo deste projeto é identificar como a lógica da manifestação dos fenômenos e as efetivas possibilidades comunicacionais entre os seres dentro da perspectiva apresentada no texto de Shantarakshita toca, evidencia e talvez até amplie aspectos da Nova Teoria da Comunicação apresentada e proposta por Ciro Marcondes

190

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Filho. Além disso, considero relevante ressaltar a importância de trazer “à tona” um universo de conhecimentos oriundos do pensamento filosófico tibetano/indiano que, mesmo quando mencionado, em geral, é tratado de forma por vezes bastante simplista ou pouco aprofundada. A proposta aqui é a de resgatar estes textos e poder tornar este conhecimento milenar mais acessível tanto aos pesquisadores da comunicação, quanto de outras áreas que possam se interessar por este campo ainda pouco explorado, particularmente no contexto brasileiro. “Se um tesouro inesgotável fosse enterrado no chão embaixo da casa de um homem pobre, o homem não saberia disso e o tesouro não lhe diria: Eu estou aqui!” Ma i t r e y a ( T h e Ma h a y a n a U t t a r a t a n t r a Shastra)

O objetivo deste projeto é identificar como a lógica da manifestação dos fenômenos e as efetivas possibilidades comunicacionais entre os seres dentro da perspectiva apresentada no texto de Shantarakshita toca, evidencia e talvez até amplie aspectos da Nova Teoria da Comunicação apresentada e proposta por Ciro Marcondes Filho. Além disso, considero relevante ressaltar a importância de trazer “à tona” um universo de conhecimentos oriundos do pensamento filosófico iniciado na Índia e posteriormente desenvolvido no Tibete que, mesmo quando mencionado, em geral, é tratado de forma bastante superficial no Brasil.

191

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Quando entrei em contato pela primeira vez com o projeto de pesquisas ligado à Nova Teoria da Comunicação e sua respectiva proposta metodológica, o metáporo, tive a certeza de que havia encontrado um campo de trabalho frutífero em que minha formação na área da comunicação, da filosofia oriental (particularmente da tibetana) e como tradutora pudessem se conciliar e trazer alguma contribuição a comunidade científica brasileira, especialmente por saber da extrema carência de pesquisas sérias que efetivamente consigam conciliar de forma produtiva um saber que, sob o olhar de muitos, pode parecer tão “estrangeiro”. Posto que um dos pilares do pensamento budista é justamente o aprimoramento da nossa compreensão sobre os processos mentais, a partir da investigação e descrição destes, para que pudessem ser transmitidos a outros com os mesmos tipos de preocupação, a possibilidade de poder trabalhar com tais processos dentro do departamento de comunicação, particularmente ligada ao núcleo de Estudo Filosóficos da Comunicação (FiloCom), ao qual sou filiada, pareceu-me singularmente significativa, visto que as áreas da comunicação e especialmente da filosofia – enquanto campo de reflexão sobre a realidade, o mundo tal qual se apresenta diante de nós, e mesmo nós enquanto seres inerentes a estas possíveis realidades – são condizentes com os principais focos de contemplação do pensamento filosófico a ser investigado. Considero também importante ressaltar que, de forma similar às investigações filosóficas da Madhyamaka, a Nova Teoria da Comunicação de Marcondes rompe com as investigações anteriores que se baseiam em evidências con-

192

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cretas e não estão muito interessadas no que as coisas são, mas sim como as coisas funcionam; o autor tira o foco deste objeto de estudos sobre o funcionamento da comunicação e efetivamente pensa no que é de fato tal comunicação. Ciro Marcondes Filho propõe uma expansão do universo perceptivo do ser que se comunica e que é comunicado, quanto maior esta expansão, maior a possibilidade de que o acontecimento comunicacional efetivamente aconteça; entendendo por acontecimento comunicacional o momento em que algo se transforma no ser que foi tocado, que foi comunicado. A “real” comunicação, que difere da mera informação e mais ainda da simples sinalização, acontece no instante em que algo se modifica na pessoa, o instante do insight, da metamorfose, do permitir que algo nos permeie, de estar aberto, poroso, às trocas. O momento do acontecimento comunicacional “bem-sucedido”, teria uma força que, a meu ver, se equipararia ao que Gaston Bachelard descreveu como instante poético, um instante de quebra, de rachadura do “lugar comum”, onde a poesia fecunda e é fecundada. Assim sendo, a comunicação “exige” do receptor uma abertura, um poros, não necessariamente convencional, para que possa acontecer. É como querer colocar água em um vaso; se o vaso está cheio, a água imediatamente irá transbordar, mas quanto maior o espaço livre, maior a capacidade de retenção da água. Refletindo sobre o conceito de vacuidade, quando menos a pessoa estiver “preenchida” mentalmente por seus ininterruptos fluxos de emoções, pensamentos, percepções, julgamentos, maior será a capacidade de efeti-

193

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

vamente absorver informações provenientes das mais diversas fontes comunicacionais externas e mesmo internas. Esta expansão seria uma condição quase que sine qua non do processo de comunicação. Poder explicar como este processo ocorre partindo das perspectivas do texto de Shantarakshita a ser trabalhado e sua confluência com as premissas da Nova Teoria da Comunicação é um dos objetivos fundamentais desta pesquisa. No livro, O Escavador de Silêncios, de Ciro Marcondes Filho, o autor, escreve: “Falou-se... do pensamento nômade, na acepção de Vilém Flusser. Para este autor, nômades são as pessoas que vão atrás de algo, não importando a meta perseguida; a busca nunca terminada, nem mesmo quando se a atinge. Para o pensamento nômade, todas as metas são estações intermediárias, estão juntas ao caminho e, como totalidade, o caminhar é um método sem meta. O investimento no caminho e o abandono da meta tem parentesco com o budismo e com sua doutrina do vácuo. Há também uma proximidade entre a lei da produção condicionada do budismo e o nosso pensamento nômade, pois, enquanto aquele fala do manifestar-se de “fenômenos que são puramente ilusórios”, nós sugerimos a apreensão do transitório em sua permanente mutabilidade.” Dentro deste contexto, acredito que poderia ter algo a contribuir para a linha de pesquisas justamente neste aspecto. Ao falar da “doutrina do vácuo”, que muitas vezes é também conhecida como uma forma de percepção da vacuidade dos fenômenos, este projeto tem por objetivo trabalhar com

194

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

um texto que se preocupa justamente em expor e refletir sobre a vacuidade – em tibetano: stong pa nyid, que é um neologismo a partir do sânscrito shunyata. Segundo o erudito Yongey Mingyur Rinpoche, o termo vacuidade (que é descrita como a base que torna tudo possível), é provavelmente uma das palavras, um dos conceitos, mais mal-entendidos da filosofia budista. Muitos dos primeiros tradutores dos termos budistas em sânscrito e tibetano interpretam a vacuidade como o “Vazio” ou o “Nada” – erroneamente relacionando a vacuidade com a idéia de que nada existe. Nada estaria mais longe da verdade de acordo com a percepção filosófica budista. Quando Buda disse que a natureza da mente – na verdade, a natureza de todos os fenômenos – é a vacuidade, ele não quis dizer que sua natureza fosse verdadeiramente vazia. A palavra tongpa significa vazio, mas somente no sentido de algo além da nossa habilidade em perceber com nossos sentidos e nossa capacidade de conceitualizar. Uma sugestão alternativa de tradução seria “inconcebível” ou “que não pode ser nomeado”. A palavra nyi, ao ser agregada a outra palavra, transmite um senso de “possibilidade” – um senso de que tudo pode surgir, tudo pode acontecer. Quando se fala sobre a vacuidade, não é sobre o “nada”, mas sim sobre o potencial ilimitado que algo tem de surgir, mudar ou desaparecer. Este pensamento, de alguma forma, também se reflete nas novas teorias da física, mesmo no estado de vácuo, as partículas continuamente aparecem e desaparecem. Assim, apesar do aparente vazio, esse estado é, na verdade, muito ativo, repleto de potencial para produzir algo. Neste sentido,

195

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

o vácuo compartilha certas características com a “qualidade vazia da mente”. A mente é essencialmente “vazia” no sentido de que desafia a descrição absoluta; entretanto, todos os pensamentos, emoções e sensações perpetuamente surgem a partir dessa base indefinível e incompletamente conhecida. O coração da pesquisa, que é a relação direta com a Nova Teoria e o Metáporo, e de como a possibilidade de comunicação se estabelece e eventualmente se efetiva dentro e fora do discurso visível, digamos assim, será feita simultaneamente ao processo de tradução e comentários do e sobre o texto e não como um diálogo posterior; o que tornará possível um entremeio constante e uma apreensão mais acurada ligada a percepção de uma possível efetividade comunicacional; que, de acordo com as premissas tratadas no discurso de Shantarakshita a ser estudado, só seria possível através de uma realização da natureza ilusória dos fenômenos e do processo da expansão da própria percepção do receptor/emissor que abre espaço para que a comunicação efetivamente possa acontecer. No que concerne a metodologia, segundo Marcondes, “o metáporo é uma opção de procedimento da pesquisa que não se confunde com a rigidez de um método. Tradicionalmente o saber ocidental utiliza-se de métodos (meta + odos) como uma rota instituída, caminho pavimentado, autopista marcada por seus guard rails, da qual não se pode evadir. Para Heidegger, ele é tecnologia, ele é Descartes e é de essência tecnológica, vinculado a uma vontade prometeica de dominação. Um ato investigativo que não observa o vivente mas o mata para dissecá-lo. O metáporo (meta + poros), ao contrário, é uma via se

196

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

faz e se desfaz o tempo todo, que escapa, que não tem existência prévia, que é geração contínua. Cada nova pesquisa sugere uma recomposição de procederes. É a chance que os fatos dão ao pesquisador de aparecerem, exigem a atenção do observador”. Se pensarmos no termo vacuidade como um campo de possibilidades latentes, seria justamente partindo de um caminho não definido, mas possível, que se daria a aproximação do pesquisador com os eventos comunicacionais a serem observados, posteriormente relatados e assumidos como integrantes de um comunicar; sendo assim, o trabalho a ser desenvolvido, traria à luz aspectos da filosofia tibetana, particularmente no que concerne a natureza dos fenômenos e o potencial implícito na vacuidade de todas as coisas, que se imbricam neste novo olhar sobre a comunicação proposto por Marcondes e o princípio da razão durante descrito por ele. É interessante perceber que há alguns pontos em comum tanto em relação ao metáporo e sua “falta” de uma “razão prévia” e, quem sabe, até certo ponto, uma não tentativa de racionalização do intangível, e um ponto levantado por Immanuel Kant que está em total acordo com as argumentações de Nagarjuna e do próprio Buda; onde se diz que a extensão da razão pura para além da esfera empírica resulta não em conhecimento, mas em antinomias, contradições. Este é apenas um breve relato de um universo muito mais denso e profundo, mas espero que tenha sido possível expor os pilares da pesquisa para que, agora, se possa abrir um diálogo.

197

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

29 Comunicação e Cidadania da Mulher: poder, valores e práticas da sociedade brasileira  Alice Mitika Koshiyama Na realização de estudos sobre o tema mulheres e meios de comunicação percebemos um crescimento dos estudos e dos processos de veiculação dos direitos, o incremento de políticas públicas e de organizações não governamentais e governamentais destinadas a promover os direitos das mulheres. No entanto, se as mulheres são consumidoras, trabalhadoras e sujeitos de direitos, não conseguimos ultrapassar as perspectivas conservadoras que tornam aceitáveis ações de violência e destrato da mulher, em níveis de violência psicológica, moral e física. E percebemos que os estudos da comunicação mostram uma incapacidade científica de equacionar a questão, por trabalhar em bases empiristas que impossibilitam o equacionamento do tema a partir dos valores entranhados nas práticas legitimadas nas relações sociais que definem os lugares sociais de homens e mulheres ao longo da história. O trabalho fundamenta-se na percepção da comunicação como parte do processo da história. Esta consiste no processo de construção, manutenção e destruição de valores, conforme reflexões elaboradas por Agnes Heller (O cotidiano e a história, Rio, Paz e Terra). No conjunto de variáveis intervenientes na construção da história, em que consiste a comunicação? Eis o desafio que enfrentamos. Palavras-chave: Jornalismo, Cidadania da Mulher, Gênero, História.

198

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

30 Subjetividade e Cultura Mediática: Entre o desejo e a responsabilidade social Tarcyanie Cajueiro Santos Este texto é um desdobramento de uma pesquisa financiada pela Fapesp, na modalidade jovem pesquisador, intitulada Comunicação, consumo e novas subjetividades: um estudo sobre as práticas mediáticas, culturais e sociais na contemporaneidade, que teve início em 2008 e terminou em 2012. Procura-se perceber as relações entre desejo e regulação social nos anúncios publicitários, levando em conta a comunicação, a cultura e as subjetividades. Trata-se de um estudo teórico, que no primeiro momento se debruçará com autores que abordam as subjetividades e depois a questão do desejo. A comunicação, entendida como “acontecimento” e “vínculo” é o eixo sobre o qual a pesquisa se apoia. Debruçaremos-nos sobre os contornos de uma nova cultura de consumo através da análise dos anúncios publicitários que focam sobretudo, a sustentabilidade. Buscamos, desta forma, refletir sobre as transformações no discurso publicitário e suas relações com o contexto sociocultural, assim como suas repercussões sobre as subjetividades, procurando entender a importância do desejo e a forma como este é canalizado na alta modernidade. Compartilhamos da ideia comum a muitos autores de que a cultura do consumo que hoje toma corpo não está mais alicerçada no entretenimento, status e hierarquia sociais, mas no que Giddens chama de reflexividade, ou seja, no “uso regularizado de conheci-

199

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mento sobre as circunstâncias da vida social como elemento constitutivo de sua organização e transformação” (GIDDENS, 2002, p. 26), que incide diretamente sobre a autoidentidade dos indivíduos no contexto das sociedades pós-tradicionais. A publicidade é porta-voz de uma irradiação de valores e visões de mundo que integra e perpassa a cultura da mídia, cuja narrativa e imagens veiculadas “fornecem os símbolos, os mitos e os recursos que ajudam a constituir uma cultura comum para a maioria dos indivíduos em muitas regiões do mundo de hoje” (KELLNER, 2001, p.9). O discurso midiático hoje predominante é o da sustentabilidade, tendo como foco o consumo consciente e a qualidade de vida. Nesse caso, os anúncios publicitários sobre a sustentabilidade aparecem não apenas como canalizadores de visões de mundo, como também seus irradiadores. O que chama atenção em suas estratégias narrativas é a crescente preocupação com o homem e ao mesmo tempo a responsabilização que este passou a ter sobre si próprio e o seu entorno, expressas através da temática do consumo “responsável”, “consciente”, “sustentável”, “socioambiental” ou “verde”. Tal preocupação retoma corpo no pensamento ambientalista hegemônico internacional, que deixou de relacionar a crise ambiental ao crescimento demográfico, chamando atenção “para uma nova forma de definir a principal causa dos problemas ambientais: os hábitos de consumo e estilos de vida” (Portilho, 2005, p.15). A importância desse discurso internacionalizado corresponde a sua crescente hegemonia sobre as mais diversas esferas que compõem o tecido social, como Organizações não gover-

200

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

namentais, entidades governamentais e as empresas que se apropriaram desse discurso, só para citar algumas. Assim, independentemente dos termos utilizados e da luta ideológica em torno dele, na publicidade brasileira, eles convergem, para o que Rocha (1994;2005;2007) tem apontado em seus trabalhos como a temática da “responsabilidade social” e da “qualidade de vida”. Os discursos da “responsabilidade social” e da “qualidade de vida” inserem-se em um novo estágio na cultura do consumo, cujo alicerce parece se constituir nas temáticas da saúde e da autoconstrução de si, visando o indivíduo e a vida como um bem supremo. O conceito de sustentabilidade condensa os discursos de qualidade de vida e responsabilidade socioambiental. “Trata-se de permitir que a livre expressão, uma das maneiras de interpretar e praticar a cidadania possa ser exercida sobre a base material que sustenta a vida humana” (RIBEIRO, 2010, p.339). Junto com a qualidade de vida e a responsabilidade socioambiental, a sustentabilidade aparece como um paradigma que articula diversos segmentos da sociedade, uma nova utopia, tomando lugar das metanarrativas orientadoras de sentido, como a apologia ao progresso e ao desenvolvimento a qualquer custo. Os anos 1990, no Brasil, é o momento em que a publicidade incorpora em sua temática as causas sociais, que vão muito além dos valores da sociedade de consumo por ela tradicionalmente defendidos. O anúncio do Mcdonald’s3 aparece como um exemplo desse processo ao fornecer ao consumidor informações de como os seus produtos são produzidos, advertindo para o fato

201

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

de seu óleo de fritura não ter corantes, com baixíssimo teor de gordura trans. Para os que se preocupam com os animais, o anúncio diz que “os rebanhos são criados de acordo com a política do bem-estar animal, que garante um tratamento digno para os animais durante seu crescimento até o abate”. Neste caso, o McDonald’s sabe que o consumidor não deseja apenas saciar a sua fome ou o seu desejo de comer um hambúrguer, por exemplo. O ato do consumo também é o de decidir sobre a sua saúde, sobre a saúde dos animais e até mesmo do planeta. E há um ponto aqui que talvez possamos associar ao surgimento de um maior autocontrole por parte de determinadas pessoas ou segmentos sociais que, ao não tolerar viver com mais riscos e incertezas, procuram evitar consumir produtos que possam causar danos a elas ou a outros4. No consumo, todos os prazeres devem ser permitidos, contudo, segundo Zizek: A fim de ter uma vida repleta de felicidade e prazeres, a pessoa tem que evitar os excessos perigosos, manter a forma, levar uma vida saudável, não molestar os outros [...] De modo que tudo é proibido se não estiver destituído de sua substância e, assim, acabamos por levar uma vida completamente regulada (ZIZEK, 1994, p.98).

Por conseguinte, a publicidade ao retratar e mobilizar um dado valor social quer seduzir o consumidor, oferecendo-lhe mais do que um simples produto. Isto também pode remeter ao processo chamado branding, ou seja, da importância do con-

202

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ceito, do estilo e experiência de vida associado à imagem da marca em detrimento do produto em si, que foi personificado em marcas como a Nike, com o slogan “Just do it” ou como a Apple com o Think different. Aqui a marca adquire um significado, uma identidade, transcendendo em muito seu aspecto meramente funcional, ou seja, mais do que um produto, a marca personifica uma ideia. E esta lógica vai ser extrapolada, ainda na década de 1980, por meio do “nonsense publicitário” (Lipovetsky, 1989; Fontenelle, 2002), quando a publicidade leva ao paroxismo a lógica do absurdo, “o jogo do sentido e do não sentido, e isto num espaço em que, sem dúvida, a parada é a inscrição da marca, mas que – e é este o ponto essencial – de fato não se atribui os meios necessários para garantir a própria credibilidade” (Lipovetsky, 1989, p.138). Por outro lado, a questão que fica é a de como podemos entender essa estratégia da publicidade e do marketing que não se liga ao entretenimento nem ao absurdo ou ao simulacro de si próprio, mas ao lado “espiritual”, “saudável”, ou mesmo “ético” do produto? Estaria havendo aí uma mudança nos padrões de consumo e, portanto, da cultura, razão pela qual, segundo Lipovetsky, “o modelo dessa sociedade não é o mais o Dionísio, mas o zen” (2006, p.6)? E do ponto de vista da comunicação midiática, que mudanças estão ocorrendo já que é a indústria publicitária que assegura os recursos para o espaço midiático? Haveria aí uma mudança no consumidor e na cultura de consumo em geral, fazendo-nos pensar que já não se trata mais de uma cultura de massa pautada pelo entretenimento, mas de um outro tipo de consumo, baseado numa “cultura do acesso”, como

203

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

defende Rifkin (2001) e de outro tipo de comunicação? Estas são algumas questões nas quais nos apoiamos para futuras reflexões. A metodologia utilizada baseou-se na análise de discurso dos anúncios publicados na revista Veja, cuja inspiração vem de Foucault a partir da perspectiva da biopolítica e da noção de dispositivo deste autor. Foucault (2008) considera a linguagem central na construção da vida social, sem desconsiderar a importância de uma perspectiva histórica e social sobre as condições de produção dos textos. Referências DELEUZE, G. Conversações (1972-1990). São Paulo: 34, 1992. EHRENBERG, Alain. O culto da performance: da aventura empreendedora à depressão nervosa. São Paulo: Ideias e Letras, 2010. FONTENELLE, I. O fetiche do eu autônomo: consumo responsável, excesso e redenção como mercadoria. Psicologia & sociedade, Florianópolis, v.22, n.2, p. 215-224, 2010. FOUCAULT, M. Nascimento da biopolítica. In: Resumo dos cursos do Collège de France (1970-1982). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p.87-97. ______. Sobre a história da sexualidade. In Microfísica do poder. Rio de Janeiro, Graal, 1979, p.243-276.

204

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

IASBECK; PEREIRA. Gestão de comunicação da marca – branding: Uma abordagem semiótica da marca nas organizações. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho “Comunicação em Contextos Organizacionais”, do XX Encontro Nacional da Compós, na UFRGS, Porto Alegre, RS, em junho de 2011. Acesso em 20 de nov. 2011. JAMESON, F. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1996. KELLNER, D. A cultura da mídia. São Paulo: EDUSC, 2001. LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. LUCAS, L.; HOFF, T. Sustentabilidade sócio-cultural no discurso publicitário: o corpo em evidência. Comunicação: Veredas. Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação. São Paulo, Unimar, n.5, v.5, p.71-86, 2006. MUNIZ, L. A publicidade de marcas como instância legitimadora da sociedade de consumo. 2004. 175f. Tese (Doutorado em Comunicação e Semiótica). Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2004. PELBART, P. Vertigem por um fio: política da subjetividade contemporânea. São Paulo: Iluminuras LTDA., 2000.

205

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

PORTILHO, F. Sustentabilidade ambiental, consumo e cidadania. São Paulo: Cortez, 2005. ROCHA. M.. A nova retórica do grande capital: a publicidade brasileira entre o neoliberalismo e a democratização. Comunicação Mídia e Consumo, São Paulo, v. 1, n.2, p. 50-76, 2005. ______. O canto da sereia: notas sobre o discurso neoliberal na publicidade brasileira pós-1990. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo, v. 22, n. 64, p.81-90, Jun. 2007. SFEZ, L. Crítica da comunicação. São Paulo: Loyola, 1994. TAVARES, F.; IRVING, M. Naturesa S/A? – o consumo verde na lógica do Ecopoder. São Carlos: RiMa Ed., 2009. WALDMAN, M. Natureza e sociedade como espaço de cidadania. In: PINSKY, J.; PINSKY, C. (Org.). História da cidadania. São Paulo: Contexto, 2010, p.545-561.

206

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

31 A complexidade do conceito de midiatização e a construção de novas comunidades de pertencimento Paulo Roque Gasparetto A pesquisa se propõe a examinar o fenômeno da midiatização da religião e a forma como a mídia afeta as práticas sociais a partir de duas dimensões – de caráter teórico para contribuir para a explicação da complexidade do conceito de midiatização, de modo que ele possa ser considerado um operativo para a pesquisa em mídia e religião – tomando como referência e apontando-se para o fato de que a midiatização afeta as práticas religiosas e faz surgir novas formas de “agrupamentos”. No entanto, ao lado desse papel central da mídia, percebemos, também, que há uma religião que emerge da relação da mídia com a sociedade que, por sua vez, é permeada por diversas lógicas que ultrapassam o controle da produção. Palavras-Chaves: Complexidade; Midiatização; Religião;

Consideração Introdutória No primeiro passo, partimos do uso do conceito referido na esfera dos estudos num diálogo para realizar uma fenomenologia da midiatização da sociedade, que, o seu turno percebe que o termo midiatização encontra-se em múltiplos textos. Ali,

207

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

estuda-se qual é o conceito de midiatização, que na verdade, não possui uma compreensão unívoca nos diversos ambientes. Como já se nota, o conceito de midiatização abarca vários matizes e significado entre pesquisadores e programas de pós-graduação dinamizados pelo trabalho teórico e por operações metodológicas. Os aportes de pesquisadores vinculados à Universidade do Vale do Rio dos Sinos1 expressa um conceito de bios midiático mais abrangente que a análise dos dispositivos tecnológicos. É uma configuração de constituição de ambiências e de novas interações. A técnica complexa, esgarçada, passa a redesenhar o modo de ser dos campos sociais e dos seus processos. Ou seja, as práticas midiáticas afetam práticas sociais, e também as práticas midiáticas afetam de tal ponto as práticas religiosas trazendo-as para o seu ambiente, nas suas lógicas e nas suas operações. Segundo Pedro Gilberto Gomes, o que está surgindo é um novo modo de ser no mundo, representado pela midiatização da sociedade. Supera-se a mediação como categoria para se pensar a realidade hoje. “Podemos dizer que a midiatização nos coloca numa outra galáxia que supera a chamada Aldeia Global. É um processo mais avançado do que uma simples retribalização. A Galáxia Midiática (ou midiatizada) cria o fenô-

1 Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação, que tem os Processos Midiáticos como Área de Concentração, vinculados à Linha de Pesquisa Midiatização e Processos Sociais: Antônio Fausto Neto, José Luiz Braga, Jairo Ferreira e Pedro Gilberto Gomes.

208

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

meno da glo(tri)balização.” 2 Segundo o autor, esse aspecto sinaliza a possibilidade da busca de uma visão unificada da sociedade. Um novo modo de ser no mundo configurado pela midiatização social num retorno ao Uno. Para Antônio Fausto Neto, na sociedade da midiatização é o desenvolvimento de processos e protocolos de ordem sociotécnico-discursiva que vão redesenhando a questão dos vínculos sociais.3 Estes são submetidos a uma nova ambiência, cujo funcionamento decorre de novas estratégias enunciativas. “Tecnologias são convertidas em meios de interação e redefinidoras de práticas sociais”.4 Neste sentido, a midiatização estrutura-se como um processo mais complexo que traz no seu interior os mecanismos de produção de sentido social. Uma chave para a compreensão e interpretação da realidade. Alguns estudos, que dão “outros passos”, procuram ressaltar que conceitos e experimentações aonde vêm à midiatização como a assunção de realidades da vida cotidiana pelos meios de comunicação por meios de coberturas jornalísticas.

2 GOMES, Pedro Gilberto. 2008. Midiatização e processos sociais na América..., op. cit. 3 FAUSTO NETO, Antônio. Enunciação, auto-referencialidade e incompletude. Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia, PUCRS – Porto Alegre, n. 34, dezembro de 2007. 4 Idem, p. 80.

209

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Mesmo assim no âmbito da midiatização alguns autores como Jean-Pierre Poitou5 considera que os dispositivos atuais de comunicação tornam manifesto o caráter essencial da atividade mental de realizar-se graças aos mediadores. Neste sentido, os processos cognitivos estão, necessariamente, inscritos dentro dos dispositivos. Isso faz com que a noção de dispositivo possua uma posição fundamental na antropologia do conhecimento. Nesse contexto de múltiplas vozes e da centralidade do fenômeno da midiatização insere-se o trabalho investigativo na esperança que estas pesquisas contribuam no processo de compreensão do fenômeno da midiatização no mundo em que vivemos. Lugar da conversação Tentamos, nesta parte final, examinarmos algumas “conversações” destas questões sobre de como as pesquisas podem ajudar a compreender a complexidade dos processos midiáticos. Buscar uma compreensão mais aprofundada do assunto nos remete necessariamente a um contexto vasto e complexo no qual convergem uma série de fatores e perspectivas que vão nos ajudar a descobrir a relevância desse estudo, desde uma perspectiva midiática e comunicacional.

5 Jean-Pierre POITOU. Ce que «savoir s’y prendre » veut dire: Ou du dialogue homme/machine, p. 49.

210

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Tendo como contexto de referência a midiatização da religião. Estamos trabalhando sobre esse tema há pelo menos dez anos. No mestrado mostramos uma parte do dispositivo midiático na ação da produção. 6 No doutorado a proposta visou investigar o processo comunicacional na instância da recepção telemidiática religiosa. 7 Buscando descrever e compreender os sentidos e as estratégias de construção das novas comunidades de pertencimento. Na verdade ainda reconheçamos as dificuldades dessas duas partes interligadas, fazer avanços sobre esses pontos de articulação entre produção e recepção, juntamente com a “plurivocidade do conceito de midiatização” continua o nosso desafio. Segundo Verón, “é a articulação entre produção e recepção dos discursos a questão fundamental. Compreender essa articulação constitui, hoje, o desafio principal tanto no

6 GASPARETTO, Paulo Roque. A midiatização do neodevocionalismo religioso: a experiência da TV Canção Nova. Dissertação de Mestrado. São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, 2005. O trabalho apresenta a reflexão sobre o papel das mídias na construção da manifestação de novas religiosidades no Brasil, especialmente na elaboração de práticas televisivas neodevocionais. 7 GASPARETTO, Paulo Roque. Midiatização da religião: processos midiáticos e a construção de novas comunidades de pertencimento. Estudo sobre a recepção da TV Canção Nova. Tese de doutorado. São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, 2009.

211

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

plano da teoria como no da pesquisa”. 8 Assim, é um desafio estudar produção e recepção por meio dos pontos de articulação entre um e outro. Nesta nova ambiência, a religião não somente entra nas casas das pessoas, mas também acaba reintroduzindo em seu discurso a corporeidade, conseguindo fazer uma interação com o cotidiano das pessoas. Os aportes de Verón nos ajudam a entender a relação entre produção e recepção, e de modo especial o processo de apropriação que resulta dessa negociação.9 Neste sentido, esta articulação dual é bastante semelhante à desenvolvida por mim em meu trabalho doutoral, a partir do diagrama de Verón10 em que aparece a negociação entre produção e recepção gerando a apropriação, por ângulos de reinterpretação próprios, parti dele para fazer um 8 VÉRON, Eliséo. Fragmentos de um tecido. São Leopoldo, Editora Unisinos, 2004. 9 VÉRON, Eliseo & LEVASSEUR, Martine. Ethnographie de l’exposition: l’espace, le corps et sens. Bibliothèque publique d’information. Centre Georges Pompidou, BPI, Paris, 1989. 10 Eliséo Véron faz uma análise do funcionamento de uma exposição cultural, em que as suas condições de produção pela instituição e as suas condições de leitura pelos visitantes, conduzem, de acordo com o autor, a duas interrogações: qual é a natureza do ato de expor e como esse ato afeta o sentido do que é exposto? A outra interrogação referia-se ao peso relativo da motivação de visita e o que é necessário construir para compreender os comportamentos da visita?

212

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

segundo diagrama visando compreender os fluxos do processo de interação em que a produção expõe e o nível da recepção apropria-se das mensagens televisivas religiosas. Assim, para tornar visível a problemática desses dois polos da produção e da recepção construímos abaixo o nosso esquema, a partir do texto de Verón da Ethnographie de L’exposition, onde ele apresenta na forma de diagrama o seu modelo. >>>> VER ESQUEMA. Vale destacar que a diferença entre o diagrama do Verón e o nosso está na negociação que ocorre da apropriação. De acordo com Verón, entre o “expositor” da obra de arte e os “visitantes” que fazem o reconhecimento da mesma, existe uma proposta sugestiva de certo roteiro para ser seguido pelos consumidores da exposição. Já no nosso diagrama, abordamos a produção que propõe os programas televisivos religiosos e a recepção que se apropria deles ao seu modo, conforme as condições do mundo da vida. Conforme dizíamos, é esse fluxo do processo de interação entre produção e recepção, onde se realiza o processo de apropriação. O nível da produção expõe e o nível da recepção compõe a partir de operações que são feitas junto à oferta. Dentro da perspectiva expressa, vivemos em um mundo que os fluxos dessas relações são construídos tanto pelas instituições que produzem os conteúdos, quanto pelos receptores que as recebem.

213

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Trata-se, evidentemente, do funcionamento das sociedades pós-midiáticas em que existe uma convergência tecnógica a nível de produção, mas aos mesmo tempo há uma transformação radical nos modos de recepção, como nos diz Verón: “La situación en que estamos entrando es radicalmente diferente y nos obliga a repensar el concepto mismo de ‘recepción’, porque los procesos de consumo se vuelven mucho más complejos. El receptor no es meramente activo: será el operador-programador de su proprio consumo multimediático”.11 Isso significa dizer, é claro, que estaríamos em algo novo, uma nova forma de vida que faz emergir objetos complexos. A recepção em tempos de complexidade é um novo objeto e está associado diretamente na construção de novos coletivos no âmbito da midiatização. Como são construídos esses novos coletivos é uma questão crucial que tentamos persegui-los em nossas pesquisas. Na verdade, os meios estão produzindo constantemente seus próprios coletivos obtidos por esforços permanentes na articulação entre a oferta e demanda, mas sempre “negociada” pela recepção. A preocupação central é a de perceber a extrema heterogeneidade dos discursos midiáticos quando trabalhamos a produções e a recepção. A comunidade de pertencimento

11 VERÓN, Eliseo. La televisión, esse fenômeno masivo que conocimos, está condenada a desaparecer”. Entrevista con Carlos Scolari y Paolo Bertetti, en Alambre: Comunicación, información, cultura, Milão, Marzo de 2008.

214

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

não é produzida somente pela produção, mas pela apropriação que os fiéis fazem dessas mensagens no seu dia a dia. Nota em conclusão Dentro da perspectiva expressa é fundamental importância contribuir para a explicitação do conceito de midiatização de modo que melhor sirva para explicar a realidade complexa em que vivemos hoje. Reconhecemos a centralidade da midiatização que afeta as práticas sociais e faz surgir novas formas de “agrupamentos”. No entanto, ao lado desse papel central da mídia percebemos, também, que há uma religião que emerge da relação da mídia com a sociedade e, por sua vez, é permeada por diversas lógicas que envolvem processos de interações gerando-se interfaces entre produção e recepção de discursos. No âmbito dessa questão, situa-se a complexidade da relação entre a produção e a recepção que nos dá uma dimensão do ambiente no qual estas duas partes se gestam e que se caracterizam pela multimodalidade de operações, cruzamentos, contatos e processualidades de complexos dispositivos. A midiatização gera “efeitos”, mas não somente “efeitos” de uma consequência imediata e unilateral da oferta produtiva. E também não são necessariamente aqueles efeitos previstos pela produção, mas aqueles que são consequência do trabalho de apropriação realizada pelos receptores, inclusive

215

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

produzidos por lógicas diferentes. Uma nova realidade que faz emergir relações complexas entre a produção e a recepção. Referências FAUSTO NETO, Antônio. Epistemologia do zigue-zague. Primeiro Seminário de epistemologia e pesquisa em comunicação, Unisinos, maio de 2009. ---------------------, Enunciação, auto-referencialidade e incompletude. Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia, PUCRS – Porto Alegre, n. 34, dezembro de 2007. GASPARETTO, Paulo Roque. Midiatização da religião: processos midiáticos e a construção de novas comunidades de pertencimento.Estudo sobre a recepção da TV Canção Nova. Tese de doutorado. São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, 2009. GOMES, Pedro Gilberto. 2008. Midiatização e processos sociais na América Latina. Organizadores: Antônio Fausto Neto, Pedro Gilberto Gomes, José Luiz Braga e Jairo Ferreira, São Paulo: Paulus – (Coleção Comunicação). VÉRON, Eliseo & LEVASSEUR, Martine. Ethnographie de l’exposition: l’espace, le corps et sens. Bibliothèque publique d’information. Centre Georges Pompidou, BPI, Paris, 1989.

216

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

-----------------------, Jean-Jacques. Sémiotique ouverte. Itinéraires sémiotiques em communication, Paris, Lavoisier, Hermès Science, 2007. ----------------------, La televisión, esse fenômeno masivo que conocimos, está condenada a desaparecer”. Entrevista con Carlos Scolari y Paolo Bertetti, en Alambre: Comunicación, información, cultura, Milão, Marzo de 2008.

217

Sumário

23/11 – MANHÃ SESSÃO TEMÁTICA 3 Literatura e Música

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO A 32 Alimentação e Iconofagia: Rascunho para um Diagnóstico Cultural Michelle Medeiros As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas. Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos! Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa, olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso. Carlos Drummond de Andrade

O que são imagens? Que movimentos provocam em nós? Como eram capazes de outrora realizar um movimento endógeno, de interiorização, no homem? Como a crise das imagens relaciona-se com o movimento exógeno? O que é iconofagia? Essas serão as questões norteadoras deste breve ensaio. Para abordar o tema da imagem utilizarei como referencial as ideias de Norval Baitello, semioticista da cultura, sobretudo em seu livro A era da iconofagia (BAITELLO, 2005). A problemática concreta que guiará a reflexão será a da alimentação: ontem, tratada como alimento e, hoje, frequentemente, como consumo de imagens de alimentos. Trarei dois exemplos concretos: um extraído da obra Em busca do tempo perdido de Marcel Proust e outro de Roland Barthes, semiologista que influenciou-

219

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

-influencia até hoje o pensamento de alguns semioticistas da cultura. O trabalho está dividido em cinco seções: (1) As imagens: interiorização e exteriorização; (2) A busca da imagem perdida: a produção da imagem interiorizada.; (3) Imagens exógenas: os alicerces da iconofagia; (4) A iconofagia: uma pista para pensar a crise na alimentação contemporânea e (5) um fechamento. As imagens: interiorização e exteriorização O que são imagens? São fantasmagóricas em sua origem mais remota. Possuem a presença de uma ausência e a ausência de uma presença. Fundaram seu próprio mundo, o mundo das imagens, onde são independentes do mundo da vida e das coisas e tentam a todo custo nos seduzir a nos transferirmos para lá. Imagens em um sentido mais amplo podem ser configurações de distinta natureza, em diferentes linguagens: acústica, olfativas, gustativas, táteis, proprioceptivas ou visuais. A imagem nasce na caverna, nasce na palavra que conta a origem do mundo, nasce no interior. Por isso, em seu movimento natural deveria representar um vetor de recordação, de interiorização. Imagens com expressivos vetores de interiorização são notáveis na história das imagens artisticamente produzidas: pintura, fotografia, literatura, cinema, música, dança (BAITELLO, 2005, p. 46).

220

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Hans Belting é quem propõe as categorias de imagens endógenas e exógenas, que permitem um tipo de análise de impacto sobre o meio -ambiente comunicacnional, possibilitando um diagnóstico do potencial dialógico das imagens como força imaginativa, quando seus vetores dominantes conduzem à interiorização, ou como força desnvinculadora, dissociativa, quando seus vetores são mera exterioridade, remetendo apenas à imagens exógenas (BELTING, 2007). Vejamos um exemplo na literatura com Marcel Proust. A cena, do primeiro volume da obra Em busca do tempo perdido, exemplo de uma imagem endógena, tem uma fonte vetor de interiorização, de recordação, ao narrar o efeito de uma taça de chá de tília e um bolinho chamado madalena sobre o autor (PROUST, 2009, p.71-3). As imagens gustativas e olfativas aí funcionam como um convite para um processo interior, de uma busca por algo que não a imagem em si. A verdade buscada estava nele, no próprio narrador. A partir deste disparo imagético há a busca de uma nova imagem, a imagem perdida, a imagem interiorizada. A busca da imagem perdida: a produção da imagem interiorizada Ele, portanto, continua com seu mergulho em busca da razão do frêmito que as imagens gustativas e olfativas lhe causaram.

221

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

[...] Chegará até a superfície de minha clara consciência essa recordação, esse instante antigo que a atração de um instante indêntico veio de tão longe solicitar, remover, levantar no mais profundo de mim mesmo? Não sei. […] (PROUST, 2006, p. 73)

Ainda que destaquemos uma certa disposição do narrador para o alcance da razão do frêmito de uma imagem feliz, é importante salientar que o retorno à Combray, ao verdadeiro paraíso interior, à casa natal e onírica, ocorreu pela memória involuntária, que foi estimulada pelas imagens olfativas e gustativas. “Tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha taça de chá” (PROUST, 2006, p. 74). Imagens como essas abrem as portas do nosso mundo perceptivo e nos convidam a um processo rumo ao interior, às nossas origens: à terra natal, a casa materna, à casa onírica, do sonho, ao útero, à caverna. A partir dessa imagem literária somos capazes de empreender viagens a espaços interiores, verdadeiros processos de subjetivação. São imagens que agenciam enunciações coletivas, como diria Gilles Deleuze em Crítica y Clínica (DELEUZE, 1996). O mundo das imagens, todavia, vive um processo inflacionário. Imagens que fecham as portas para o mundo por serem construídas a partir de um forte vetor de exteriorização são cada vez mais presentes hoje em dia (BAITELLO, 2005).

222

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Imagens exógenas: os alicerces da iconofagia As imagens servem para nos fazer viajar no tempo, recordar e ressuscitar sensações e tempos perdidos. “[…] Quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, […] o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas […] suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação” (PROUST, 2009, p. 73, 4). As imagens servem para eternizar. A motivação primeira da criação das imagens pelo homem foi a fuga da morte (BAITELLO, 2005). Hoje, entretanto, as imagens convidam à fuga do corpo. Estão em profusão por todos os lados. Distantes, abstratas e desencarnadas de interioridades, vazias e ocas, fantasmas de aparição súbita e efêmera, que serão sucessivamente substituídos por mais fantasmas, como uma imagem sucede à outra, infinitamente, sem levar a qualquer outra coisa que não seja uma imagem. Essa sociedade imagética serial abre espaço para o fenômeno, denominado por Norval Baitello de inconofagia: devoração de imagens, por imagens e a gula das próprias imagens. Por medo da morte principiamos a produzir imagens dos mortos. Por medo das imagens de morte aceleramos a produção das imagens para afastar a vivência da morte. As imagens começam a se superficializar, de tal forma que remetem apenas a outras imagens, vivem um processo exógeno, portanto. Ao falar dos degraus da iconofagia Baitello fala das (1) ima-

223

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

gens que se repetem e do (2) consumo de imagens: começamos a consumir imagens, não mais as coisas, mas apenas seus atributos imagéticos. (BAITELLO, 2005). A iconofagia: uma pista para pensar a crise na alimentação contemporânea Se a imagem endógena, literária, nos leva a um processo de subjetivação sobre o alimento, o mesmo não acontece com a imagem exógena: há uma desmaterialização da comida por meio de imagens, cada vez mais eco, cada vez menos oikos, como mostra Baitello (2005), cada vez menos se comem alimentos, cada vez mais se comem imagens de alimentos (embalagens, cores, formatos, padrões de alimentos: o termogênico, o hiperptotéico, a fibra). Roland Barthes (2009), fez uma análise sobre as fotografias de alimentos apresentadas pela revista Elle e detectou um convite à superficialidade do alimento, à cobertura. A contemplação de algo inacessível, consumido apenas pelos olhos e, por isso, uma cozinha ornamental. Diz ele: Nesse tipo de cozinha, a categoria substancial dominante é a cobertura; fazem-se todos os esforços para alisar as superfícies, para arredondá-las: com o intuito de esconder o alimento sob o sedimento liso dos molhos, cremes, fondants e geleias. É evidente que isso se deve à própria finalidade da cobertura, que é de

224

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ordem visual, e a cozinha da Elle é uma cozinha puramente para a visão, sentido distinto. (BARTHES, 2009, p. 130).

Fondants, coberturas, geleias. Coberturas. A devoração da casca. O consumo de imagens de alimentos e não de alimentos em si. O mesmo convite à superficialidade pode ser percebido nas numerosas capas de revistas que convidam à perda de peso ao propor a dieta de algum macronutriente – carboidratos, lipídeos, proteínas – ou vendendo a imagem de alguma celebridade seminua. Consuma-me ou devoro-te. Encontram solo propício, neste cenário, o sobrepeso e a obesidade. Primeiro, como fruto desta inabilidade de o homem lidar com o alimento-imagem. Vendido habilmente pela publicidade alimentar. E, segundo, como doença também por serem incompatíveis com as imagens-padrão de beleza: os corpos obesos fogem à lei da produção em série. Tais imagens contemporâneas chegam para desprivatizar nosso espaço de individualidade. Fechamento Portanto, percebemos que como instrumento de diagnóstico da cultura contemporânea, indo sempre em direção às suas raízes, as ideias da semitótica da cultura prestam um grande serviço analítico. Aqui exemplificamos utilizando a questão das imagens.

225

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A alimentação, na medida que é uma questão biológica, é também uma questão cultural. Por isso, pensar a questão atual da alimentação, requer uma passagem por este diagnóstico cultural. Aqui, as ideias de Norval Baitello demonstraram ter um potencial gerador de reflexões centrais sobre o tema. Destacou-se a importância das imagens endógenas, como a literária, como um convite ao eu que come e que come alimentos. E das imagens exógenas como pistas para pensar problemas relacionados ao tema contemporaneamente, por exemplo, a obesidade. Roland Barthes também parece ser um importante autor, para pensar este diagnóstico cultural referente à alimentação contemporânea. Em muitas de suas obras o tema da alimentação é uma constante: Mitologias (O vinho e o leite, O bife com batatas fritas, Cozinha ornamental), A aventura semiológica (A cozinha dos sentidos), ensaio Por um psicossociologia da alimentação contemporânea, O império dos signos (A água e o floco, Palitos e A comida descentrada), Rumor da língua (Leitura de Brillat-Savarin), Como viver juntos (seção Alimento), O prazer do texto, Roland Barthes por Roland Barthes, Política (Senhores e escravos: sobre Casa-Grande e Senzala de Gilberto Freyre). Reflexões sobre o seu trabalho merecem desdobramentos neste campo de reflexão em ascensão: a alimentação e a cultura.

226

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

REFERÊNCIAS BAITELLO, Norval. A era da iconofagia. São Paulo: Hackers Editores, 2005. BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009. DELEUZE, Gilles. Crítica y clínica. Barcelona: Anagrama, 1996. BELTING, Hans. Antropología de la imagen. Buenos Aires/ Madrid: Kartz Editores, 2007. PROUST, Marcel. Em busca do tempo perdido. São Paulo: Editora Globo, 2006. ( O caminho de Swann, 1)

227

Sumário

33 Uma literatura emancipatória

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Carmen Rivera Parra

Em que sua pesquisa pode renovar o olhar sobre a comunicação e os estudos de comunicação? Eu estou começando uma pesquisa a partir dos ensaios de Virginia Woolf sobre literatura: Um teto todo seu, Três guineias, O leitor comum. Neles a autora desenvolve sua conceição principal sobre a potência da escrita, sobre o que ela pode: o ato de escrever pode ser um meio de emancipação dos sujeitos envolvidos nele. A escrita tem sido um meio de difusão das ideias políticas, tem um rol fundamental em revoluções e revoltas, em períodos de ditadura, mesmo na clandestinidade, tem sido a única via para que as ideias circulassem e que os homens e as mulheres continuaram acrescentando seus “espíritos” nos tempos de imposição da pobreza de ideias. A escrita tem sido o meio de denúncia dessa pobreza, de denúncia da injustiça geral, assim como da reivindicação da justiça e de novos mundos para os homens e as mulheres. Esse é um fato incontestável. E poderia supor uma ligação evidente com algumas teorias da comunicação, as mais divulgadas. A palavra escrita circula, viaja, pode atravessar fronteiras e proibições. Ela tem como natureza essa viajem possível, pode cair nas mãos de qualquer um, pode sempre achar um destinatário, mesmo

228

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

um destinatário nunca imaginado nem desejado. A palavra escrita terá uma intenção quando ela fala, por exemplo, das ideias da política, mas no seu caminho, na sua direção, podem acontecer inúmeros desvios. Segundo Jacques Rancière será esse aspecto da palavra que acha um destinatário qualquer o que Platão sancionará com antecipação na sua critica da palavra escrita: mesmo se o analfabetismo parece segurar a correta correlação entre palavras e destinatários, no momento que nas palavras podem circular no papel fica aberta a possibilidade de que qualquer um receba palavras que falam de outros mundos, de outros desejos, numa outra língua que não estava destinada para ele. Uns dos círculos da comunicação seria quebrado por um desordem. Mas o que nos interessa especialmente é essa outra língua. Talvez a diversidade dos modos da língua não seja exclusiva da palavra escrita. Todos conhecemos a diversidade e mudança continua das “falas” da língua, a introdução de modalidades novas de palavras, a invenção de outras, a mudança das significações, a variedade semântica dos giros gramaticais, etc. E mesmo, essa outra língua ficaria para muitos fora da comunicação. Conhecemos o exemplo de autores como Jean-Paul Sartre, quem para compreender a comunicação opera uma distinção neta entre a língua ordinária, veículo de ideias, e a língua poética, ocupada apenas em si mesma. A língua ordinária permite comunicar, pode ser o corpo de ideias, e essa é a potência política que a língua ordinária tem na mudança do estado de coisas do mundo. A poesia como a literatura, por falar simplesmente, pouco poderia fazer neste mundo.

229

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Porém, também outros autores como Rancière acham que a língua ordinária compartilha a mesma matéria da língua da poesia, e por extensão, da literatura como gênero transversal da palavra escrita. A comunicação, mesmo a comunicação no sentido comunista, não precisaria se separar da poesia e da literatura. O escritor não teria que estar envolvido numa causa política especifica no afora da literatura para que a sua escrita opere mudanças o suporte estados de coisas. Não haveria, em conclusão, um mundo do estado de coisas, e um mundo da língua que poderia agir sobre ele apenas numa das suas modalidades possíveis. Por continuar falando em mundos, antes bem haveria múltiplos mundos construídos e comunicados por configurações diferenciadas e mesmo hierarquizadas da língua comum. Nesse sentido a comunicação poderia talvez ser compreendida segundo sua capacidade de ligar mundos, ou se queremos sair dessa denominação podemos nos referir a atores clássicos das ciências sociais: grupos sociais, âmbitos laborais, classes econômicas, etc. A comunicação seria restrita ou aberta em diversos graus segundo sua disposição para ligar mais ou menos mundos, âmbitos... Mas essa disponibilidade, mais uma vez, não dependeria da língua como matéria, não dependeria apenas, por exemplo, dum uso corrente da mesma, o pelo contrário do uso de termos especializados como no caso dos jargões técnicos, do uso de palavras sofisticadas ou o uso de palavras vulgares. Qualquer um pode dispor de eles, mesmo com esforço, e mesmo se os usos e efeitos desses termos não coincidem com os previstos pelo autor. Antes bem, essa disposição dependeria das relações que na

230

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

escrita mesma se estabelecem por meio dessa matéria comum da língua: relações hierarquizadas, relações igualitárias, quase na sintaxe mesmo, mas em relação também ao tipo de mundo de relações que a escrita mesma constrói. A literatura não precisaria fazer referencia a um mundo exterior a ela do estado de coisas para tentar estabelecer um mundo de relações. A comunicação, nesse sentido, teria lugar no interior mesmo da escrita, nessa superfície povoada de palavras que é a literatura como arte geral da escrita. A outra língua da escrita, da literatura, seria então a conjunção dessa palavra sem destinatário definido com essa língua das ligações que permite perceber mundos diversos. Nesse sentido concordaríamos com a conceição do professor Ciro Marcondes Filho da comunicação como um “encontro”. Quase estaríamos tentados de citar Foucault no prefácio de As palavras e as coisas no fragmento da sua paráfrase de Lautréamont: “Mas todos esses vermes e serpentes, todos esses seres de podridão e de viscosidade fervilham, como as sílabas que os nomeiam, na saliva de Eustenes: é aí que todos têm seu lugar-comum, como, sobre a mesa de trabalho, o guarda-chuva e a máquina de costura...”. Talvez seja um exagero trazer a citação de Foucault, mas coloca de um jeito claro como as relações são feitas de linguagem, e mesmo a mesa comum onde elas esperam para ser retomadas. No caso da minha pesquisa sobre a ligação da literatura e a emancipação a partir da obra de Woolf, se tivermos que a interrogar sobre a comunicação, e tendo em conta as reflexões que colocamos mais acima, começaríamos por interro-

231

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

gar os textos a partir das relações que eles estabelecem entre sujeitos e capacidades, entre sujeitos e espaços, entre sujeitos e sujeitos, entre os diversos mundos que eles mostram. Podemos também dizer que interrogaríamos os processos de subjetivação que eles propõem, pois eles apresentam a existência e a necessidade de emancipação das mulheres como um fato, mas ligados, mesmo necessariamente, ao ato da escrita. Nesse sentido, minha pesquisa, na atualidade, poderia supor uma contribuição aos estudos sobre a comunicação sob a pobre perspectiva da negação: em lugar de um processo de transmissão de unidades de informação, tentaria estudar a comunicação como um processo de encontro entre diversos elementos que é passível de produzir mudanças nesses elementos e nos seus ambientes; em lugar de um esquema de orientação das capacidades humanas (e mesmo das máquinas) em função de resultados conhecidos e limitados a uma utilidade, tentaríamos compreender a comunicação como um processo imprevisível nos resultados que opera nos sujeitos; em lugar de um processo antropologicamente destinado a não se realizar, a perder-se em obstáculos e barulho, como um processo que está sempre tendo lugar mas que precisa de sujeitos que atuem em relação a ele...

232

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

34 Balzac e a comunicação: elementos para pensar a Nova Teoria da Comunicação? Alexsandro Galeno Araújo Dantas

1 – Descrição dos objetivos a) Objetivo Geral Analisar imagens literárias que permitam uma reflexão sobre elementos da Nova Teoria da Comunicação (NTC). b) Objetivos específicos Problematizar a relação entre literatura - comunicação - sociedade Identificar na NTC elementos epistêmicos que dialoguem com a literatura Elencar imagens literárias na obra de Balzac que possam estabelecer conexões com a NTC 2 – Metodologia Para problematizar a relação entre literatura-comunicação-sociedade será realizada revisão de literatura em obras – livros, artigos e vídeos- que tratem sobre o tema específico. Com o objetivo de identificar na NTC os elementos que possam dialogar com a literatura, será realizada leitura dos sete

233

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

volumes da obra. Em seguida, será construído um diário digital contendo notas e comentários sistematizados, apontando os elementos de interesse para esta pesquisa. Quanto ao trabalho com as obras literárias de Honoré de Balzac, decorrerá da seguinte maneira: (1) leitura inicial da obras do autor, especificamente, da Comédia Humana, que somam 17 volumes; (2) eleição das obras de interesse para uma análise mais aprofundada. As obras serão selecionadas de acordo com a relação que estabeleçam com o tema geral deste estudo; (3) nova leitura das obras escolhidas; e (4) produção de um arquivo, uma espécie de diário digital, contendo a sistematização dos pontos de interesse para a análise. Com tais dados em mãos, as categorias de análise serão explicitadas e, em seguida, os resultados serão apresentados e discutidos. Como destaca Ciro Marcondes Filho, a partir de Flusser, somos imaginadores e, por isso, vivemos mediados por imagens. A literatura, sobretudo, é uma grande usina de imagens. Neste sentido, uma NTC não poderia prescindir do seu uso. De romances, sobretudo, para problematizarmos sua ontologia e epistemologia (MARCONDES FILHO, 2010). 3 – Justificativa Como nos disse Georges Bataille “literatura é comunicação”, o que relembra Edgar Morin para quem a literatura nos fornece “antenas para o mundo e vestimentas para a vida”.

234

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Morin evoca La Rochefoucauld para dizer que se não houvesse romances de amor, provavelmente, este nunca seria conhecido. A literatura é fornecedora de imagens que dizem sobre nossa ação diante do mundo. Das vezes em que lê-se alguns romances de Balzac, percebe-se o apelo visual e, então, os leitores podem tornar-se leitores-espectadores no desenrolar das leituras (BATAILLE,1989, p. 10; MORIN, 1997, p. 20) Um exemplo disso é quando se é tomado pelo sentimento da compaixão com o sofrimento do Pai Goriot em função do abandono de suas filhas, ou quando percebe-se a soberba do personagem Vautrin ou, ainda, quando o leitor se depara com aspectos de uma ética da conveniência do personagem Eugène de Rastignac: um estudante provinciano que deseja o reconhecimento social da burguesia francesa a todo custo. Para Ítalo Calvino a literatura faz “chover na imaginação”. Assim, pode-se exercitar a condição de imaginadores (CALVINO, 1990). Escrever, assim como filosofar, como diz Montaigne, é aprender a morrer. Significa o exercício de algo intranqüilo. Ou ainda, como questiona Rilke em suas Cartas a um jovem poeta: “Quais escritores seriam capazes de morrer se lhes fosse negada a possibilidade de escrever?” O poeta aconselha que se escavem respostas profundas. (MONTAIGNE, 2010; RILKE, 2010, p. 25) Essas é uma pergunta que jornalistas, escritores, cientistas teriam de fazer. Pois não se trata meramente de um estilo de escritura, mas de um exercício cotidiano para a vida. Mesmo porque, como afirmou Roland Barthes, seja qual for o estilo e seu refinamento, sempre haverá algo de bruto. Algo que toma

235

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

uma forma sem destino ou de um deslocamento nômade, diria Gilles Deleuze, que viabilize a realização dos passeios, das vagabundagens e dos nomadismos necessários na invenção de seus textos (BARTHES, 2000; DELEUZE; GUATTARI, 1997). Escrever, portanto, é uma vagabundagem estilística através do passeio das palavras. A palavra será o desnudamento corporal e, também, o próprio abismo para quem escreve. Diferentemente da fala, a escrita não deveria ser um fenômeno de velocidade, mas algo pacientemente esculpido e denso. Possivelmente, o rush das redações e do mercado editorial impossibilitam o go slow, isto é, uma certa lentidão para que as palavras não sejam um mero ajuntamento de letras reunidas e compostas sobre assuntos que reproduzem rotineiramente a vida. É claro que o jornalismo diário (diurnalis) não poderá deixar de tratar dos fatos triviais, mas não deveria, nunca, descuidar-se com o frescor da escritura e com os bons “surtos florais” em seu estilo. A literatura é um meio de evitar que a imaginação jornalística se transforme em mero exercício retórico e enfadonho no cotidiano (BARTHES, 2000). Por isso, será necessária uma outra formação. Aquela que não é centrada no modelo tecnológico e na cultura comunicacional de produzir informações breves ou apenas Notícias Breves, como já advertia Balzac (BALZAC, 1999). E é nesta direção que a NTC – Principio da Razão Durante, elaborada por Ciro Marcondes Filho – caminha. Uma proposição epistemológica para se pensar a comunicação que privilegia aspectos literários, artísticos e filosóficos:

236

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Para Proust, os signos, conforme leitura de Gilles Deleuze, representam fielmente o alcance da comunicabalidade; eles ‘violentam’ o pensamento e é isso que precisamos investigar nas práticas comunicacionais. Juntando a isso, dizemos que eles nos fazem pensar, nos forçam a pensar, nada mais que isso, é a comunicação. Na opinião de Proust, somente pela arte (em nosso caso: também pela pesquisa comunicacional) podemos sair de nós mesmos, saber o que o outro vê a partir de seu universo, que não é o nosso, emuma palavra, investigar a incomunicabilidade humana tanto presencial como diante dos sistemas e das tecnologias virtuais da comunicação. (MARCONDES FILHO, 2012, p.77,8)

As idéias, como definiu Balzac em seu romance autobiográfico Luis Lambert, são como florações da natureza. A literatura germina o imaginário e faz com que seus percursos se prolonguem pelos passos vagabundos da escrita. Neste aspecto, explicita-se a afirmação de Bataille de que “literatura é comunicação”. Tal assertiva vale para problematizar qualquer media. Pensa-se, inclusive, que a internet deverá ser um espaço de incentivo aos profissionais de comunicação, sobretudo, se for considerada a geração que não conheceu o exercício lento e paciente da escrita à lápis e no caderno. Geração denominada por Michel Serres de Polegarzinhas. Surgirá uma netliteratura? Uma webliteratura parece algo pertinente já

237

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

que é um tipo de comunicação horizontal e aberta ao infinito (SERRES, 2013). Não se pode esquecer que o escrever relaciona-se ao universo cultural do tecer. Como o vocábulo texto, que se origina da antiga técnica feminina de tecer, o universo da internet surge como metáfora de uma teia. Não teria Balzac, com a sua Comédia Humana, antecipado uma comunicação hipertextual, na medida em que criou o método narrativo do reaparecimento de personagens em romances distintos? Romances que se conectam e ou se linkam infinitamente. O universo rizomático da Comédia pode contribuir com uma nova epistemologia pelo seu modelo recursivo e de religação entre saberes distintos? Balzac, acredita-se, recupera o sentido etimológico da palavra complexus – o que tece em conjunto – e relaciona-se ao apelo ético das palavras complexere (abraçar), communicatio (comunicação) e communicare (comunicar, estar em comunhão). A partir desses enunciados é que pretende-se desenvolver esta pesquisa. 4 – Referências Citadas BALZAC, Honoré de. Os jornalistas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999. BARTHES, Roland. O grau zero da escrita. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

238

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Porto Alegre: L&PM, 1989. CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs. São Paulo: Editora 34, 1997. (Capitalismo e esquizofrenia, 5) MARCONDES FILHO, Ciro. A nova teoria da comunicação. Documento – base do Seminário: 10 anos de Filocom: A Nova Teoria nos 44 anos de Eca, 22 a 26 de novembro de 2010, na ECA – USP. São Paulo, 2010. MARCONDES FILHO, Ciro. Fascinalção e miséria da comunicação na cibercultura. Porto Alegre: Editora Sulina, 2012. MONTAIGNE, Michel de. Os ensaios. São Paulo: Penguin Companhia, 2010. MORIN, Edgar. Meus demônios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre: L&PM, 2010. SERRES, Michel. Polegarzinha. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. Base para a pesquisa Honoré de Balzac: A comédia Humana (Editora Globo) Ciro Marcondes Filho: Série Nova Teoria da Comunicação (Editora Paulus)

239

Sumário

35 LÉVI-STRAUSS: mitos em composição musical

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Betania Maria Franklin de Melo Este trabalho é parte da pesquisa de doutoramento focado no estudo das Mitológicas de Claude Lévi-Strauss (19082009), no qual as linguagens, mito e música, estão relacionadas segundo o autor. Lévi-Strauss propõe que a compreensão dos mitos ocorre de maneira similar com a partitura orquestral, desta forma, a tese seguiu a tetralogiana investigação dos termos musicais usados na análise, como também, a nomeação dada aos capítulos do primeiro volume principalmente. Vários procedimentos de composição e formas intitularam a tetralogia. Compositores em pares foram categorizados como: Bach e Stravinskipara o código, Beethoven e Ravel para a mensagem e Wagner e Debussy para os mitos. (LÉVI-STRAUSS, 2004a). Na grandeza do estudo antropológico, na totalidade deoitocentos e treze mitos da obra, (LÉVI-STRAUSS, 2005), criamos música para oito mitos até o momento, com texto baseado na narrativa. Selecionamos seis composições para este artigo.A proposta de elaboração musical permite que oconhecimento desta cultura se amplie e sensibilize o ouvinte por meio da percepção instrumental e vocal. No decorrer de mais de vinte anos, o pesquisador francês, pesquisou tribos indígenas, e iniciou no Brasil,(1935-1939), a academiafrancesa e brasileira reconheceu a envergadura da obra, no entanto, estes mitos ainda não foram escutados, em contraponto a mensagem do

240

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

autorqueos mitos não foram feitos para serem lidos e sim escutados.(LÉVI-STRAUSS, 2004a). Lévi-Strauss ao tratar da comunicação entre os indivíduos escreveu: “Em toda sociedade, a comunicação opera pelo menos em três níveis: comunicação de mulheres; comunicação de bens e de serviços; comunicação de mensagens”. (LÉVI-STRASS, 1980, p. 25). A partir disto, vemos que os mitos comunicam entre si, como a música também. E, se foram estabelecidos entre estas linguagens uma relação, por que não melodiar as narrativas e intensificar a forma de sensibilidade na escuta? Diante dos termos dados em oposição, contrastes ou em simetria, temas como: o incesto, assassinato,demais acontecimentos e crenças fazem parte da sociedade que eleva a natureza como extensão da própria vida. Ao pensar a antropologia harmonizada à música, Lévi-Strauss pontuou que a estrutura do mito correspondia ao de uma partitura musical que também pensamos, configura-se como uma estrutura rígida no uso da linguagem específica da arte musical. Nas narrativas,a sequência dos acontecimentos não se dão como um romance com final feliz. Muitas vezes, não se sabe o herói da história, porque um personagem da maldade adiante se torna a vítima, como no mito referencial, o M1. LéviStrauss aplica: “O pensamento mítico, totalmente alheio à preocupação com pontos de partida ou de chegada bem definidos, não efetua percursos completos: sempre lhe resta algo a perfazer”(LÉVI-STRAUSS, 2004a, p. 24).De repente um animal se transforma em humano e vice-versa, esta questão entre anima-

241

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

lidade e humanidade, e também os termos utilizados na obra, em oposição como as categorias empíricas, O cru e o cozido, o seco e o molhado, o mel e as cinzas refletem ambigüidades míticas. Assim, mostrou que os mitos não têm fim e que a terra da mitologia é redonda: “Porém, se a cadeia se fecha no mito dos gêmeos, que encontramos duas vezes no caminho, talvez isto se deva ao fato que a terra da mitologia é redonda ou, dito de outra maneira, porque ela constitui um sistema fechado” (LÉVISTRAUSS, 2004b, p. 219). O Mito opera como um ritornello. Têm meios, voltam, repetem são recriados, continuam e aparentam ter um fim. Porém, são infinitos. “Não existe um verdadeiro término na análise mítica, nenhuma unidade secreta que se possa atingir ao final do trabalho de decomposição. Os temas desdobram ao infinito”(LÉVI-STRAUSS, 2004a, p. 24). O ritornelloque é um termo musical é também visto como elemento presente no itinerário mítico, seja o herói ou outro personagem ele sempre retorna ao seu lugar, propondo um estado de repetição ou de circularidade. O primeiro exemplo musical que apresentamos refere à primeira narrativa ou M1, por ser eles numerados. Os acontecimentos históricos do desaninhador de pássaros se dão quando as mulheres vão colher folhas para fabricação dos estojos penianos para enfeitar os rapazes, uma delas é violentada, e ao chegar em casa, o marido percebe que em sua cintura havia penas do enfeite dos rapazes, e assim resolve provocar uma dança para observar qual dos rapazes usa a mesma pena que a esposa trouxera no cinto. Para sua surpresa, era seu pró-

242

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

prio filho. Sedento de vingança manda o filho para o Ninho das Almas. (LÉVI-STRAUSS, 2004a, p.58-59). Várias categorias estão envolvidas como: os personagens: mulher, rapaz, esposo, avó; como os instrumentos: maracá, chocalho; os animais: colibri, juriti, gafanhoto, lagartixa, urubu, peixe, veado; os territórios: floresta, casa, praça da dança, a casa da avó, o ninho das almas, a montanha e outros lugares. No universo destes elementos constitutivos é possível assinalar um pentagrama específico para cada categoria, como a leitura de cada instrumento musical tem sua especificidade no que concerne a alturae nesta abrangência de pentagramas a linguagem dos mitos pode ser estabelecida conforme a associação dada pelo autor, uma grade orquestral refletindo a riqueza sonora comparada a riqueza abrangente dos elementos que constituem os mitos. O segundoe terceiro exemplo musical se encontra emSonata das boas maneiras, título da segunda parte das Mitológicas 1. Nesta, constam narrativas do Mito 14 ao Mito 64. Sublinhamos dois mitos com mesmo título para contextualizar a forma Sonata: o M14 A Esposa do Jaguar da tribo Ofaié e a o M46 A Esposa do Jaguar da tribo Bororo. Na narrativa do M14, o Jaguar deixa uma carcaça no mato e não aparece literalmente, e uma jovem ao encontrar no caminho revela o desejo de comer muita carne. Ele se aproxima, promete o sonho e casa-se com ela. A figura do Jaguar aparece como bom e sedutor porque a mulher afirma a bondade do Jaguar em proporcionar carne para todos da aldeia e permitir que escolham até o tipo da caça. Há como uma modulação diante da

243

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

dúvida anterior de seus familiares sobre a bondade do Jaguar. Na narrativa do M46, o Jaguar por ter salvado a vida do índio, recebe como recompensasua filha e casa-se com ela. Uma vez grávida, ouve a recomendação do Jaguar antes de ir caçar, que ela não risse, porque ao sorrir sentiria dores. A mulher não conteve o riso estando grávida, sentiu dores e o Jaguar volta e faz o parto, era de gêmeos. Novamente a figura do Jaguar aparece como bom e sedutor em meio ao seu pedido. (LÉVISTRAUSS, 2004a, p.108). O quarto exemplo musical refere-se ao mito M29, da tribo Xerente, Origem das Mulheres. Este mito conta que não existiam mulheres e que só havia homens homossexuais. Certo dia,todos viram no reflexo da água de um pequeno rio, a imagem de uma mulher. Tentaram pegar o reflexo e ela estava no alto da árvore, fizeram descer a mulher e dividiram entre eles em pedaços. Cada um levou o seu pedaço e puseram o pacote na parede da cabana. E todos os pedaços foram transformados em mulheres. Assim, cada homem ficou com uma mulher e todos levavam sua mulher quando iam caçar. (LÉVI-STRAUSS, 2004a, p. 139). O quinto exemplo musical se atrela ao Mito, M81, da tribo Tukuna, A vida breve. Nesta narrativa há um diálogo entre a jovem e o espírito da velhice, possibilitando a troca entre a juventude e a velhice. Assim, nos tempos antigos em que os homens não conheciam a morte, uma jovem reclusa durante o período de sua puberdade, não respondeu aos deuses imortais. Passado um tempo ela respondeu, o que foi considerado erro, porque nesse diálogo o Espírito Velhice se instalou na sela

244

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

que ela estava, trocou de pele com ela, passando ele a ficar jovem e ela a ficar velha. Desta forma, os humanos envelhecem e morrem, explica o mito. (LÉVI-STRAUSS, 2004a, p. 189). O sexto e ultimo exemplo musical destaca a cultura do hidromel. O mito, M214, do segundo volume das Mitológicas, Do mel às cinzas. Este mitotraz a história de um tempo em que o hidromel não era conhecido. Então, um velho experimentou o mel com água, diluiu e bebeu, enquanto todos temiam ser a bebida um veneno. Ele disse não ter medo da morte, bebeu e caiu, ninguém quis beber o hidromel. Durante a noite, voltou a si e explicou que o hidromel não era veneno e todos podiam beber. No baixo tronco de uma árvore todos aceitaram e beberam todo o hidromel. O pássaro veio e construiu uma barrica e transformou-se em homem. (LÉVI-STRAUSS, 2004b, p.100). Na América do sul o mel e o tabaco se encontram em correlação à oposição e também compartilham propriedades com produtos naturais. O mito Hidromel que representa a junção do mel com a água também é narrado. O interesse se dava na equivalência do mel fermentado com o veneno, a invenção do Hidromel opera com a passagem da natureza à cultura. Sobre as duas modalidades da mitologia citadas por LéviStrauss (2011a),vemosa implícita que se refere à mitologia ritualista e a explícita às narrativas. Ou seja, a mitologia da literatura oral consegue discernir o aspecto da descontinuidade e continuidade. A forma do ritual prevalece se houver descontinuidade do pensamento mítico, uma maneira de ressurgir da memória as evocações guardadas e os significados que só o ritual elege.

245

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A discussão na tetralogia repousa no fato que no ritual a afetividade se encontra no eixo das práticas. Dada a concepção de mundo, há recusa nestas representações simbólicas: O ritual não é uma reação à vida, é uma reação ao que o pensamento faz dela. Não responde diretamente nem ao mundo nem experiência do mundo, responde ao modo como o homem pensa o mundo. (LÉVI-STRAUSS, 2011, p. 656).

As manifestações afetivas influem no intelecto e esta operação caracteriza as ciências humanas. Explicou Lévi-Strauss, se do contrário fosse, caberia à biologia ou a outras ciências tratar disto. Do ritual, o autor diz tentar lançar a relação da mitologia com a música, exemplificando a música vocal e a instrumental. Da maneira que a música vocal ou o canto (diferente da instrumental) necessita da linguagem como suporte, o campo do mito também. Por ser a linguagem articulada, a função que dá significado ao mito faz intersecção e dependência da linguagem: “[...] pode-se dizer que os campos respectivos da linguagem articulada, do canto vocal e do mito interseccionam. Na zona em que recobrem, manifesta-se uma afinidade entre eles, atestada pelos casos frequentes em que os mitos são efetivamente cantados”. (LÉVI-STRAUSS, 2011, p. 646). Por isso, os mitos se movem. Passados mais de 70 anos da pesquisa dos mitos ameríndios, hoje se fossem devolvidos às sociedades a que pertencem esta interpretação soldada no plano de origem – a narrativa – não teria o mesmo som. A interpretação é móvel porque os

246

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mitos traduzem a cultura e esta é dinâmica, tanto para as tribos que os mitos emergiram como para os intérpretes. Os sons dos mitos não são os mesmos para leitores de diferentes épocas, para informantes nem tradutores das línguas. Mas a música dos mitos em partitura se manterá como uma linguagem universal. A elaboração sonora descrita em partitura fará com que os sons se tornem propagados para futuras interpretações. A música comunica, mas para que exista necessita que a linguagem da semiótica a torne interpretada, a menos que a razão sonora sobrepuje. Ou seja, a apreciação sem o conhecimento da notação musical opere também como linguagem. Na narrativa, os sons estão instalados, porém não permitem que o resultado sonoro seja estabelecido de forma universalizada, como acontece na decodificação da música ocidental. Os mitos dependem da linguagem, enquanto a música dos mitos pode ser revelada pelo sentido sonoro fornecido pelo ouvinte. Dizemos que a música dos mitos se encontra no plano antecessor à partitura porque eles produzem sons e a música se instala por e para esses. Na criação musical ao se ouvir o mito, se transmite o sentido da audição dada aos sons. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS LÉVI-STRAUSS, Claude. A noção de estrutura em etnologia; Raça e historia; Totemismo hoje. Tradução de Eduardo P. Graeff, Inácia Canelas, Malcom Bruce Corrie. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Os pensadores).

247

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______. O cru e o cozido. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cosac &Naify, 2004a. (Mitológicas, 1). ______. Do mel às cinzas. Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura, Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cosac Naify, 2004b. (Mitológicas, 2). ______. A origem dos modos à mesa. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cosac Naify, 2006. (Mitológicas, 3). ______. O homem nu. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cosac Naify, 2011. (Mitológicas, 4). ______. ERIBON, Didier. De perto e de longe. Tradução de Léa Mello, Julieta Leite. São Paulo: Cosac Naify, 2005.

248

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

36 Do grave ao agudo: fenômenos comunicacionais em culturas sonoras Felipe Maia Ferreira O sentido da visão é fundamental para marcos da filosofia ocidental. A ideia atômica de Demóstenes, o plano das ideias de Platão, o modo de pensamento cartesiano e o Iluminismo, cujo próprio título traz a luz (essencial para ver), são exemplos dessa importância. Mesmo o cristianismo, enquanto religião sedimentar da cultura eurocêntrica, apoia-se no poder dos olhos para criar uma, como manda o lugar-comum, visão de mundo. Por que não perguntar-se, contudo, sobre uma audição de mundo? Um dia nas grandes cidades significa estar sujeito a diversas ondas sonoras. O despertador do smartphone indica que é hora de acordar. Os ruídos da cozinha sinalizam um café da manhã. Os barulhos de automóveis em disparada, britadeiras incansáveis e engrenagens operárias trazem a rotina. O silêncio incólume -- ou levemente rompido – dos escritórios também impõe-se como som na ausência dele mesmo. Cada espaço reveste-se de uma paisagem imagética, mas também sonora, tão identitária quanto a primeira, mas relegada. Pela sua própria natureza, esses sons espalham-se, refletem-se, reverberam, atacam, acomodam, incomodam, sensibilizam e morrem. Seus únicos limites são amplitude, frequência, timbre e tempo.

249

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Paralelamente, a tecnologia que os produz, cria e reifica outros modos de escuta pautados pela música. Pode-se dizer que nunca ouviu-se tanta música quanto atualmente. Mais: nunca produziu-se e distribuiu-se tanta música como atualmente. Se há pouco mais de um século o termo ainda vivia somente em rituais sob o fardo das Artes, com A maiúsculo e acompanhado pelo prefixo Belas ou sufixo Populares, hoje a música torna-se palavra tão corriqueira quanto as práticas que a cercam. O mesmo smartphone que desperta também tem uma coleção enorme de faixas em arquivos digitais. Senão, suas conexão móveis permitem que musicotecas de Alexandria sejam acessadas com poucos toques na tela. O café da manhã pode vir acompanhado de canções do rádio, de um canal de clipes da TV ou mesmo de toca-discos – que, em alguns modelos contemporâneos, consegue transformar ranhuras de vinil em bits e bytes. No caminho para o trabalho, as ondas sonoras urbanas podem ser interrompidas pelos alto-falantes do carro ou pelos fones de ouvido conectados a um dispositivo que, como o smartphone, oferece uma enxurrada musical. Mesmo em ambientes de trabalho ela reside: a música segue a esteira de onipresença do som aliada na célere renovação da tecnologia, na permeabilidade da rede e nas práticas de uma sociedade que segue ajustando-se às mudanças enquanto forças-motriz. Dessa atmosfera de moléculas agitadas à qual se propõe uma audição de mundo advêm o primeiro questionamento

250

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

desta pesquisa: quando, como, por quem e por que se dá o acontecimento comunicacional nessas culturas sonoras? Como corpus dessa indagação, foram escolhidas as seguintes formas de escuta: a música ao vivo em bailes funk e em festas de música eletrônica, o consumo de música online pela internet e em dispositivos reprodutores de MP3, a audição de música em lugares urbanos por meio de pequenos aparelhos individual e coletivamente e, por fim, a escuta de música movida a grandes sistemas sonoros em locais públicos e fechados. A abordagem nessas modalidades tenta responder a questão pedra-chave do trabalho, mas também sustenta-se na sua busca por vivê-las. Fazer parte dessas ondas sonoras – graves, médias e agudas – como ente integrante e atuante delas é condição sine qua non não só a pesquisa, que debruça-se sobre a experiência comunicacional, mas também ao som. Ele, em sua essência, só existe no indivíduo quando toca seu corpo. A tomada perceptiva desse fenômeno cabe como uma luva ou como uma onda que só ressoa sob determinada frequência. Referências bibliográficas AIELLO, RITA (org.). Musical Perception. Nova Iorque: Oxford University Press, 1994. BERTHOU, BENOÎT. La musique Du XXe siècle. Paris : Éditions de la Seine, 2005

251

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

DYSON, FRANCES. Sounding New Media: Immersion and Embodiment in the Arts and Culture. Los Angeles: University of California Press, 2009. HENRIQUES, JULIAN. Sonic Bodies: Reggae Sound Systems, Performance, Techniques and Ways of Knowing. Nova Iorque: Continuum, 2011. IHDE, DON. Listening and Voice: Phenomenologies of Sound. Nova Iorque: State of University of New York Press, 2007. MARCONDES FILHO, CIRO J. (org.). Pensar-pulsar: cultura comunicacional, tecnologias, velocidade. São Paulo: Edições NTC, 1996. MERLEAU-PONTY, MAURICE. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999. ROSS, ALEX. Escuta só: do clássico ao pop. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. SERRES, MICHEL. Musique. Paris: Éditions Le Pommier,2011. TINHORÃO, JOSÉ RAMOS. História Social da Música Popular Brasileira. 2ª Edição. São Paulo: Editora 34, 2010.

252

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

37 Afetos químicos – comunicação e vínculos sociais nas festas de música eletrônica Thiago Tavares das Neves

A dimensão dos afetos está completamente associada a história da sociedade e da cultura. Não existiria vida social e cultural se não fosse o afeto uma peça basilar na mediação entre os homens. São os afetos que permitem a construção da existência humana, afinal todos precisam criar vínculos, firmar laços para que a sociedade se estabeleça. O ser humano é homo sapiens demens1, ser invadido pela racionalidade e pela afetividade, movido pelas pulsões, por forças, pelo desejo. Desejo de estar junto, de se comunicar, de ser reconhecido pelo outro, de criar vínculos, de afetar e ser afetado. O afeto é compreendido neste trabalho sob a ótica spinozista. Spinoza, filósofo do século XVII, já falava a respeito dos afetos como ação de afetar. Spinoza compreendia os afetos como afecções do corpo e as ideias dessas afecções. As afecções são imagens ou marcas corporais que remetem a um estado do corpo afetado e implica a presença do corpo afe1 De acordo com Edgar Morin, a especificação homo sapiens permanece insuficiente para explicar o ser humano. Um ser que é exclusivamente constituído de razão excluindo as esferas da loucura e do delírio, privado de vida afetiva, de imaginário, do lúdico, do estético, do mitológico e do religioso. A terminação sapiens-demens inclui a face da loucura, do delírio, da afetividade. (MORIN, 2005).

253

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tante (o corpo que afeta). O afeto seria o processo de transição de um estado para o outro. Através das afecções não só a potência de agir do afeto é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, mas também as ideias dessas afecções. Por exemplo, quando a potência de agir é aumentada surge o sentimento da alegria, quando diminuída, da tristeza. É a potência que define a força de um afeto. A potência de agir varia em função de causas exteriores. O afeto é uma ação quando o sujeito é a causa de uma dessas afecções, e uma paixão quando o indivíduo é afetado. (SPINOZA, 2010). Para Spinoza, o corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras, por corpos exteriores, por objetos e cabe a cada ser humano julgar, de acordo com seu afeto, o que é bom e o que é mau. Uma fotografia, por exemplo, pode afetar um sujeito de diversas maneiras, seja ao trazer uma boa recordação, seja uma má lembrança; um cachorro é afetado pela presença do dono ao abanar o rabo de alegria, ou mordendo-o caso esteja com raiva; o cheiro de uma comida afeta o sujeito seja despertando a vontade de comer ou não. Spinoza reconheceu a existência de apenas três afetos primitivos: a alegria, a tristeza e o desejo. Todos os outros afetos estão relacionados a esses três. De acordo com esses pressupostos teóricos pretende-se enxergar as festas de música eletrônica como um grande laboratório do presente. Tais festas eventos possibilitam também a formação de vínculos sociais por meio dos afetos e da comunicação ali estabelecida. Não são apenas expressões de um vazio contemporâneo em busca de sentido, mas sim formadoras do cimento societal e estruturante da cultura.

254

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

As festas de música eletrônica englobam diversos eventos. Este universo abrange as raves comerciais, underground e em lugares abertos em contato com a natureza. As comercias geralmente têm grande divulgação na mídia. São realizadas em arenas, estádios ou locais para shows, trazendo grandes DJs2 conhecidos mundialmente. Há também as do tipo underground, em que a divulgação geralmente é pouca, comumente realizada de forma oral, acontece em lugares abandonados, e os frequentadores habitualmente já se conhecem entre si. Outro tipo de festa de música eletrônica são as raves em lugares abertos: praias, sítios, granjas, cujo intuito é de destacar o contato com a natureza. É importante ressaltar as festas de música eletrônica que acontecem em casas- noturnas (clubes e bares). Clubes e bares também são relevantes no contexto desse tipo de festa, porém não são raves em stricto sensu. Algumas vezes, o espaço 2 Dee Jay ou DJ (disk jockey) é o artista da festa, o que controla a vibe (energia) dos dançantes. Ele mixa (mistura), a batida de duas ou mais músicas na mesma velocidade, nas mesmas bpm (batidas por minuto). A figura do DJ remonta à época dos músicos de Jazz dos anos 50, na qual os fãs se reuniam num clube para escutar os lançamentos e dançar. Era o fã que durante o intervalo dos shows mostrava as músicas, para manter a vibração da galera. Nos dias atuais, existem três tipos de DJs: o DJ móbile (móvel), o rádio DJ (opera nas estações de rádios) e o club DJ (DJ oficial, “residente”, fixo de um clube). Dados extraídos do texto “Sobre a cultura da música eletrônica e cibercultura” de Cláudio Manoel Duarte de Souza, retirado do site http://www.pragatecno.com.br. Visitado no dia 7 de janeiro de 2009.

255

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

é reservado para raves mensais ou a rave acontece apenas uma vez naquele clube. Tudo isso negociado com os promoters da casa. Uma das diferenças das raves para festas em clubes, de acordo com os frequentadores, incluem o horário que na maioria das vezes não dura muito tempo nas casas-noturnas (5 a 7 horas de duração), enquanto nas raves o tempo é bem maior, algumas raves chegam a durar 12 a 24 horas. È relevante ressaltar que a cena rave começou em clubes. Eles fazem parte da história. (SYLVAN, 2005). A pesquisa de análise qualitativa que está sendo desenvolvida tem o intuito de responder as seguintes perguntas: Qual o significado dos afetos nas festas de música eletrônica? Que tipos de afetos são desenvolvidos? Há relações afetivas entre corpos e música? Os afetos são construtores de vínculos sociais ou promovem apenas trocas comunicacionais naquele instante vivido? A pesquisa espera fornecer recursos para compreender como se dão as trocas afetivas nas festas de música eletrônica e qual o significado dessas trocas para a sociedade e cultura contemporânea. Dessa maneira, faz-se necessário combinar várias técnicas de investigação (observação etnográfica, entrevistas em profundidade, aplicação de questionários, registro imagético, grupo focal) para tentar mergulhar no ambiente desses indivíduos, e, a partir daí, procurar depreender o significado complexo dos afetos nestas festas, abrigando as dimensões do social, cultural, comunicacional, psicológico, biológico e histórico.

256

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Os afetos nas festas de música eletrônica podem ser provocados pela ação da música sobre os indivíduos, dos participantes entre si ou por meio das drogas especialmente o ecstasy, conhecido popularmente como E. A música é um importante ativador do efeito desta substância no corpo, mas é possível sentir alguns dos seus efeitos mesmo sem ingeri-la. O E se transformou no elemento-chave das festas de música eletrônica, sendo consumido em bastante quantidade desde as primeiras raves. O ecstasy pode propiciar uma profunda experiência de comunicação interpessoal e de autodescoberta. Quando um grande número de pessoas tomam E juntos, a droga cria uma atmosfera de intimidade coletiva, um senso elétrico de conexão entre completos estranhos. As emoções comandam o corpo exaltando o sentimento de estar-junto entre os participantes criando uma atmosfera de excitação coletiva. As emoções são elevadas ao pico sob seu uso e o principio do prazer, com intuito de alcançar a felicidade naquele momento, parece dominar todo o corpo nessas festas. O ecstasy ou outras drogas possibilitam uma maior abertura do indivíduo ao outro, uma sensação de bem-estar que ajuda na germinação da sociabilidade entre os dançantes. A abertura para o outro só se dá por meio da comunicação. A comunicação é compreendida que como condição da existência humana, é a construção de pontes para atravessar o vazio entre o “si” e o “outro”. De acordo com Georges Bataille (1992, p.104): “A existência é comunicação – e que toda representação da vida, do ser, e geralmente de ‘qualquer coisa’, deve ser revista a partir daí.” Segundo sua etimologia,

257

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

a palavra vem do latim communicatio e significa estabelecer uma relação com alguém, mas também com um objeto cultural. Os indivíduos estão entrelaçados na e pela comunicação desde sua história filogenética. As moléculas, as células, os corpos tecem juntos uma teia comunicacional com o ecossistema, estão imbricados nos organismos e na sociedade. A comunicação abraça dimensões físicas, químicas, biológicas, sociais, históricas, filosóficas, psicológicas e culturais. É a espinha dorsal, aquilo que liga. Para ser é preciso comunicar, tecer relações com o mundo, com o outro. De acordo com Merleau-Ponty (2006, p. 569): “É comunicando-nos com o mundo que indubitavelmente nos comunicamos com nós mesmos. Nós temos o tempo por inteiro e estamos presentes a nós mesmos porque estamos presentes no mundo.”. Nas festas de música eletrônica, a comunicação acontece, principalmente, na instância corpórea. O corpo dança, treme, pula, pulsa, emite, recebe, simboliza, transcende, extasia. Mídia primária por excelência, a primeira forma de diálogo do sujeito com o meio. (PROSS, 1990). A comunicação se efetua por meio de uma simbologia corporal que se expressa na dança, nos gestos, nas conversas, no comportamento, na despesa de energia. Harry Pross (1980) fala da densidade de comunicação, correspondente à uma mútua dependência de um conjunto de signos que tendem ao reconhecimento comum possibilitando o entendimento recíproco. Nas festas de música eletrônica é notável esse reconhecimento, levando sempre em consideração os signos que os participantes carre-

258

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

gam no corpo, vestindo-se, comportando-se e dançando de forma parecida. Há também comunicação sonora. A música conduz o movimento dos dançantes, é ela quem manda no corpo. Fazendo uso do pensamento de Ciro Marcondes Filho (2004), a comunicação entre o corpo e a música encontra-se no meio do caminho, na razão durante, na imputação de sentindo ao processo comunicacional que ali se desenvolve. O simples ato de escuta musical já é um exemplo, em alguns casos, é normal nessas festas ver pessoas encostadas em caixas acústicas, às vezes, até em cima delas tentando sentir o som ao máximo. Não param de dançar. A música é o guia, melhor, é guiada pelo DJ que cumpre papel relevante na interação entre a pista de dança e o disk jockey. Não se pode esquecer também do papel dos vínculos sociais. De acordo com Norval Baitello (2009)3, o vínculo passa a ser um dos conceitos centrais para a etologia, por ser o resultado de ações (inatas ou aprendidas) do ser vivo que o aproximam do outro ou reforçam e alimentam uma proximidade já existente. O vínculo pode ser compreendido também como um movimento de preenchimento de uma carência, que prenuncia uma nova carência. A incompletude dos seres humanos, em especial, obriga à constituição emergencial e permanente de vínculos sociais, que usam o corpo como meio para se propagar. 3 FILHO, Ciro Marcondes (org.). Dicionário de Comunicação. São Paulo: Paulus, 2009.

259

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

São diversos os fatores que favorecem o estabelecimento de vínculos nas festas de música eletrônica. Quando o ecstasy começa a fazer efeito, facilita a comunicação e aumenta a empatia entre os presentes; a forma de dançar parecida permite que cada um se enxergue no outro; o gosto em comum pela música; a maneira de vestir semelhante; e por ser uma atividade ritualística que acontece com frequência as pessoas são, na maioria das vezes, as mesmas e a criação de vínculos sociais torna-se possível. As festas de música eletrônica operam como fractais necessários para enxergar a função do afeto para a comunicação e para edificação de vínculos sociais. A contribuição de Spinoza é basilar para pensar os afetos na comunicação. Por exemplo, quando há comunicação entre dois sujeitos, ambos são modificados, afetados pelo processo, é uma troca, uma partilha, uma ação de um sobre o outro. A comunicação pode ser equivalente ao processo de transição de estados a que Spinoza se referia. Um objeto, um signo, pode agir sobre um sujeito e modificá-lo, o estado do indivíduo é alterado e a comunicação acontece. A publicidade, por exemplo, tem como principal objetivo afetar as pessoas, incitar o desejo e despertar alegria nos consumidores ao adquirir o produto. Nas festas de música eletrônica o processo não é diferente, uma das hipóteses levantada pela pesquisa é que a lógica é a mesma, e dentro dessa lógica a possibilidade de construção de vínculos é essencial para se pensar a cultura e a sociedade contemporânea com suas raízes arcaicas.

260

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Referências BATAILLE, Georges. A experiência interior. São Paulo: Editora Ática, 1992. BAUER, MARTIN e GASKELL, G. (org.). Pesquisa qualitativa com textos, imagem e som: um manual prático /. Petrópolis/RJ: Vozes, 2002. BETH, Hanno / PROSS, Harry. Introducción a la ciencia de la comunicación. Barcelona: Anthropos, 1990. DELEUZE, Gilles. Espinosa – filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002. FILHO, Ciro Marcondes. Até que ponto, de fato, nos comunicamos? São Paulo: Paulus, 2004. ______.(org). Dicionário de comunicação. São Paulo: Paulus, 2009. MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos – o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2006. PROSS, Harry. Estructura simbólica del poder. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 1980.

261

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

SAUNDERS, Nicholas. Ecstasy e a cultura dance. São Paulo: Publisher Brasil, 1996. SPINOZA, Benedictus de. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. SYLVAN, Robin. Trance formation – the spiritual and religious dimensions of global rave culture. New York: Routledge, 2005.

262

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

38 Migração, comunicação e escuta musical – elementos para um debate Simone Luci Pereira

Resumo A partir das questões suscitadas pela pesquisa recém-terminada sobre imigrantes ouvintes do bolero em S.Paulo, busca-se discutir a questão da escuta musical e suas narrativas como elementos que atuam na construção de imaginários e práticas sociais relativas às diásporas e interculturalidade, em que a memória surge como referência política para a construção e apropriação de espaços materiais e simbólicos. Neste processo, a produção musical, audiovisual e a as redes de sociabilidade articuladas e apropriadas pelos imigrantes têm nas mídias e no entretenimento canais de expressão e visibilidade na construção de formas de inserção social na esfera pública, articulando de maneira complexa local, global, virtual.

263

Sumário

38a O som como elemento fundante da cultura

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Luiza Spínola Amaral As mitologias da criação, às mais diversas e distantes, apontam um traço originário comum proveniente do som, que remete a experiência divina à esfera acústica. Seja pelo hálito ou respiro de Deus, confirmado pelas escrituras hebraicas, basilares das três grandes religiões monoteístas ocidentais; seja pela vibração da palavra inarticulada, OM, na tradição dos Upanishads, como forma de expressão da sonoridade originária, o divino se revela enquanto som e depende, portanto, da experiência auditiva. O som originário antecede não somente a palavra, mas também a voz: A confusão entre voz e som, que seria típica de um pensamento místico arcaico, também perfaz um horizonte de sentido que parece constranger o vocálico a confrontar-se antes de tudo com o âmbito dos sons, em vez de depender imediatamente do sistema da palavra. (CAVARERO, 2011: 34-35).

Embora Cavarero, em sua tese de doutoramento, nos revele o significado próprio da voz, ou seja, a unicidade carnal do corpo que a emite e sua dimensão relacional, não deixa de advertir sobre o desprezo filosófico pelo tema, proveniente da inclinação grega para uma universalidade abstrata e sem corpo do logos. A consequência, milênios depois, sobretudo no

264

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

campo da linguística, foi a redução da voz à perspectiva sistêmica e semântica da língua, onde a palavra aparece muda, apenas como signo. Conforme descreve a autora, a situação começa a mudar nas primeiras décadas do século XX com os estudos sobre as culturas orais, onde a voz ressurge soberana: “o semântico, ainda não submetido às leis congelantes da escritura, dobra-se à musicalidade do vocálico” (idem: 25). Interessante, entretanto, é o caminho escolhido pela autora. Debruçada sobre a Bíblia hebraica, ela apresenta a força que antecede a palavra pela soberania do vocálico, do som da voz. A Palavra, modelada pelo texto bíblico, deveria ser proclamada no ato da leitura, de forma que som e palavra constituíssem dois lados de uma mesma moeda. Reflexo sintomático da própria escrita hebraica, composta por um alfabeto consonântico que, até o século VI antes da compilação do Texto Massorético, omitia as vogais, que deveriam ser inseridas pela voz. Nesse sentido, podemos determinar dois níveis de comunicação, um que se estabelece mediante a visualidade e literalidade da palavra escrita, funcional para a transmissão de conteúdos; e outro auditivo, denominado por Cavarero “comunicação originária”, onde a Palavra é apenas percepção auditiva. Nas palavras da autora: “Na fase mais antiga da religião hebraica, Deus é voz, ou mesmo sopro, não palavra” (Idem: 36). Dois termos recorrentes nas escrituras sagradas corroboram essa afirmativa. São eles, ruah e qol (hebraico), que na versão grega da Septuaginda1 foram traduzidos por, pneuma e 1 Nome da versão da Bíblia hebraica para o grego.

265

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

phoné. O sentido de ruah está mais próximo do sopro, do respiro divino, já o qol é o som, o efeito acústico do sopro e a voz do criador. “Ambos relativos à boca de Deus, [phoné e pneuma] evocam a trama essencial entre voz e respiração, uma trama que na Bíblia judaica é também autorrevelação pneumática e sonora, bem como criação” (idem: 35). É daí que a leitura vocal do texto se faz repleta de sentido, não apenas visual e literário, mas, sobretudo, auditivo, onde som não se limita a significante da palavra, mas é a própria Palavra que vibra. Observem: [A ideia de comunicação encontrada na cultura hebraica] afirma que os falantes se comunicam entre si na voz de Deus que vibra no som da língua deles. A vibração do qol divino na palavra articulada é, de fato, a comunicação originária que torna possível, ulterior e secundária, qualquer outra comunicação. (Idem: 37).

E conclui etimologicamente a autora: Na tradição hebraica, a Palavra sagrada é, antes de tudo, um evento sonoro confirmado no próprio modo como é chamada a Bíblia, miqrá, isto é, ‘leitura, proclamação’ (do verbo qará, ‘chamar, proclamar, declarar’, presente também no próprio termo ‘Corão’). (Idem: 38)

A leitura do Alcorão também confirma a esfera sonora da Palavra e auditiva da experiência divina, na medida em

266

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

que exige a proclamação em voz alta com ondulação do corpo. A musicalidade que provém da leitura em voz alta e que vibra pela palavra, atualiza o som original, a voz de Deus. Comungando da mesma origem semita dos hebreus, também na antiga ciência árabe são recorrentes os vestígios que confirmam a presença do evento acústico originário como parte sonora da linguagem, como confirmam os estudos do pesquisador Amnon Shiloah. Num pequeno artigo que compõe o livro Variantology 5, ao analisar os escritos deixados por um dos mais representativos nomes do início da alquimia árabe, Jabir ibn Hayyan (séculos VIII e IX), analisa exatamente os fundamentos teóricos e filosóficos capazes de trazer à tona a conexão entre música e origem da linguagem. A base desse cruzamento, como demonstra o autor, se dá justamente enquanto a palavra é som. Em árabe, o termo correspondente ao qol hebreu é o sawt que, de acordo com Shiloah, é a palavra chave nas discussões que permeiam o tema, confirmando a dimensão sagrada na rercepção auditiva. O papel predominante da voz como dispositivo de comunicação independente da palavra, está em diversos escritos do alquimista árabe. Neles, também se encontram teorias acerca da função sonora das vogais na revitalização do texto escrito, e especulações embasadas nas leis Pitagóricas da harmonia numérica como base metodológica comum para se pensar a ciência da música, da poesia, da morfologia, da melodia, do ritmo e da poesia; de forma que a mesma lei regente dos fenômenos celestes se refletisse nos terrenos. De acordo com Shiloah, “para os místicos, a voz sim-

267

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

bolizava a vida divina e colocavam o homem em ressonância com a vibração celeste e universal” (Variantology 5: 480). E continua: A prevalecente definição “harmonia dos números” dada ao ritmo e à música por Jabir remonta a alma do mundo e a alma do indivíduo. A alma do mundo contempla a alma do indivíduo, que deve expressar ou incutir sua própria harmonia em música e linguagem. (SHILOAH, 2011, p. 488) 2

Com o pressuposto de que o pensamento alquímico deve ser compreendido pela lógica da mutação, ou da transmutação, podemos sugerir que, neste contexto, a preocupação de Jabir ibn Hayyan era o de compreender de que forma o som se transmutava em palavra e música. Ou, para ficarmos com as palavras de Shiloah, como o “som instintivo” se transmutava em “som inteligível”. Como coloca o autor, as discussões filosóficas da época giravam em torno da dúvida: se a voz é natural ao homem, a linguagem e a música também o são? Fiquemos então com a resposta do próprio Jabir, citada por Shiloah no artigo aqui analisado: 2 Tradução Livre: “The prevailing definition “harmony of numbers” given to rhythm and music by Jabir goes back to the soul of the world and the individual soul. The soul of the world endows and permeates the individual soul, which is said to express or to instill its proper harmony into man’s music and language.”

268

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A afirmação de que a linguagem se dá devido a uma instituição e a uma convenção acidentais é errônea porque a linguagem é uma substância de origem natural; portanto, não é derivada de uma instituição, mas de uma intenção da alma e todos os seus atos são substanciais. […] (apud SHILOAH, 2011, p. 488) 3

O que pretendemos deixar claro até aqui é que embora a ciência da linguagem de tradição grega tenha evoluído em direção a um “logos desvocalizado” e, portanto, sem corpo, como aponta Adriana Cavarero; na raiz arqueológica que fundamenta as bases teológicas das três maiores religiões monoteístas ocidentais, ou seja, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, o som da voz constitui parte indissociável da palavra, de forma que ela a antecede enquanto evento sonoro, e a transcende enquanto presença divina. A esfera visual e insonora da significação da palavra se torna secundária mediante a presença divina audível. Como concordam ambos os autores aqui trabalhados, essa comunicação originária é não só anterior a linguagem, como fundamenta sua origem e transcende seu sentido. Muitos séculos depois, e agora numa Alemanha subdividida em dois diferentes sistemas políticos, Joachim Ernst Berendt (1922 - 2000), a voz mais importante para o jazz naquele país, 3 Tradução Livre: “The assertion pretending that language is due to an institution and a convention and that it is but an accident is wrong because language is a substance and of natural origin; hence, it does not derive from an institution but from an intention of the soul and all its acts are substantial.”

269

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

não mais interessado na música, mas justamente no elemento que faz dela transcendência, elabora uma peça radiofônica para tratar do som: Nada Brahma: die Welt ist Klang, que logo se transformou num livro, com edição brasileira: Nada Brhma: o mundo e o universo da consciência. No segundo capítulo, Berendt retoma essa antiga questão filosófica, que remente a hermética alquímica que vai da Voz à Palavra e que os filósofos da linguística denominam som vocálico e linguagem, quando reflete sobre as milenares fórmulas mântricas denominadas por ele “substância primeva do mundo”. A substancialidade da linguagem, como na Palavra hebraica, já se mostra evidente na abertura do capítulo. Observem: O mundo é som. Imediatamente, põe-se a questão: que tipo de som? Trata-se de uma questão-chave, pois, pelo fato de o mundo ser som, fazer essa pergunta significa o mesmo que perguntar qual a substância primeva do mundo. (Berendt, 1993: 31)

A resposta está evidente em diversos trechos do capítulo, mas pode ser sintetizada nas palavras do sufi Hazrat Inayat Khan citado por Berendt: Ao estudar a ciência da respiração, a primeira coisa que notamos é o fato de ela ser audível; é uma palavra em si, pois o que chamamos de palavra é só uma manifestação verbal da respiração produzida pela boca e pela língua.

270

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Mediante a habilidade da boca, a respiração se faz voz, daí por que o estado primevo de uma palavra é a respiração. Se dissermos: ‘No início era a respiração, isso é o mesmo que dizer ‘no início era o Verbo’ (apud: Berendt, 1993: 47)

Vemos assim, que também na sabedoria mística do sufismo, voz e respiro são indissociáveis da palavra, de forma que o som, ou a esfera audível dessa compilação, tem o mesmo sentido de tornar perceptível a sonoridade da qual surge o universo e o homem. Assim, antes da palavra, somos envolvidos pelo som, pelo não expresso, que possibilita a comunicação originária do encontro entre o homem e a boca de Deus ou o mergulho na vibração primeva. O som se torna sentido da palavra. Daí sua aproximação com os mantras budistas que, segundo Lama Govinda na voz de Berendt, “expressam sentimentos, mas não conceitos; afeiçoamentos, mas não ideias.” (apud Berendt, 1993: 40). E continua ele: Assim como uma partitura musical escrita não consegue transmitir a impressão espiritual e emocional da música tocada ou ouvida, da mesma forma a análise intelectual de um mantra não transmite a vivência de um iniciado, nem revela seus efeitos profundos que só são obtidos mediante uma prática persistente e duradoura. (apud Berendt, 1993: 44).

271

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

As pequenas sílabas mântricas, assim como a arcaica escrita sagrada, só produzem sentido quando pronunciadas, que seria o mesmo que dizer, quando encarnadas. Como falar é também se escutar, o encontro com a dimensão sagrada ou dissolução do ego, se faz mediante a experiência sensória do corpo, capaz de transcender os opostos, homem e Deus, ego e universo. Assim, é pela dimensão audível da voz que o corpo vincula-se ao transcendente, que é pré-racional, ilógico e inominável. De forma que, a comunicação originária só pode ser alcançada mediante a experiência concreta do corpo. Neste caso, o referente da palavra é o que a transcende; o significante, a presença divina e o significado, o corpo que ouve. Se a palavra provém do Som e se a música, como o mantra e a leitura em voz alta, em última instância, pretende atingir a dimensão audível da Palavra, concluiremos esse breve texto com uma passagem de Vilém Fluesser quando, no seu livro Los Gestos, analisa a singularidade do gesto de ouvir música, que como ele mesmo coloca, diferencia-se radicalmente da escuta do discurso, o “logos”, que precisa ser decifrado. Na escuta musical, ou sonora, nos diz ele: O ouvinte de música não se concentra propriamente, senão que concentra no interior de seu corpo as ondas sonoras que lhe chegam. Isso significa que na escuta musical o corpo se faz música e a música se faz corpo. (Flusser, 1994: 74)

272

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Daí, podemos dizer que, na comunicação originária ou transcendente a linguagem só pode ser pensada enquanto percepção antropológica. E que o sagrado só pode ser compreendido enquanto experiência concreta, corpórea. Referências Bibliográficas BERENDT, Joachin-Ernst. Nada Brahma. Die Welt ist Klang. Nada Brahma. A música e o universo da consciência. Tradução de Zilda Schild e Clemente Mahl. São Paulo: Cultrix, 1993. CAVARERO, Adriana. Vozes Plurais – filosofia da expressão vocal. Tradução de Flávio Terrigno Barbeitas. Belo Horizonte: UFMG, 2011.

VILÉM, Flusser. Los Gestos. Fenomenología y Comunicación.

Barcelona: Herder, 1994.

ZIELINSKI, Siegfried. FURLUS, Eckhard. Variantology 5. Neapolitan Affairs. On Deep Time Relations of Arts, Sciences and Technologies. Editorial: König Köln, 2011.

273

Sumário

SESSÃO TEMÁTICA 4 Cinema, Comunicação e Subjetividade

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO A 39 Dispositivo e processo: a relação entre documentário brasileiro contemporâneo e processo de criação Georgia Cruz A presente pesquisa está em desenvolvimento e visa a trabalhar com uma prática que tem se mostrado recorrente na produção audiovisual contemporânea: a criação de dispositivos fílmicos que tem por objetivo estabelecer como central o processo da filmagem em detrimento do controle sobre o que dele devém. Ao abordamos essa centralidade do processo, nos deteremos em filmes que integram a produção documentária brasileira, tomando como marco de referência temporal o Cinema da Retomada. Podemos citar como exemplos dessa produção as obras de cineastas e documentaristas como Cao Guimarães (Acidente, 2003), Sandra Kogut (Passaporte Húngaro, 2001), Eduardo Coutinho (Edifício Master, 2002; Jogo de Cena, 2007; Moscou, 2009), Kiko Goifman (33, 2003; e Filmefobia, 2009), dentre outros. Realizadores cujas produções nos serão fundamentais para compreender essa estratégia fílmica de explicitação do processo como algo central para o projeto artístico, mais que apenas a necessidade de chegar ao final da trajetória que traçam, o processo se torna o personagem principal, indepen-

275

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

dente, no mais das vezes, da realização efetiva da proposta que motiva o filme. A experiência do filme e a experiência do processo de criação fílmica expostos pela imagem ganham mais mportância. Ao longo dos anos 2000 podemos observar um aumento na presença de filmes de dispositivo na produção brasileira. “A interseção com referências e trajetórias vindas da videoarte e das artes plásticas parece estimular a aposta em filmes propositivos que criam protocolos, regras e parâmetros restritivos para lidar com a realidade.” (Lins & Mesquita, 2008; p.58). Essas produções trabalham com a premissa de por em jogo, de estabelecer situações e ambientes, uma espécie de experimentação com a realidade a fim de ver de que maneira essa realidade se comporta, de que forma esse real atua. Esse diálogo com as artes contemporâneas e visuais proporciona outros regimes de visualidade e formas de abordagem temática, um redirecionamento do olhar para as possibilidades imagéticas e narrativas. Além disso, há toda uma discussão que se tem feito em torno do campo do documentário mesmo, bem como da ética cinematográfica, da produção dessas obras, uma forma de pensar o fazer cinema, haja vista haver uma reflexão metacinematográfica que atravessa essas produções, uma vez que os processos estão declarados, as regras do jogo são apresentadas logo. Quando não apresentadas didaticamente, são possivelmente inferidas. Esta centralidade no processo de construção do filme, possibilitada pelos dispositivos armados pelos documentaristas, configura-se como um desafio que tem consequências de

276

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ordem estética, ética e política, cuja questão geradora passa por definir novas regras para a prática documental.Seu estudo passa por definir ainda outros caminhos para a compreensão da imagem fílmica e o acesso que essa imagem proporciona ao processo de criação fílmico. Procedimentos que a cada produção integram, de forma mais ou menos consequente, uma prática documental que se põe sob o risco do próprio processo. Uma das questões que surgem dessa prática documental é a descentralização do poder dos cineastas sobre a sua própria obra a um só tempo, que dá ao processo de filmagem uma abertura explícita aos jogos e tensões que o dispositivo pode acionar. Dessa forma, pode-se dizer que os documentários que se utilizam de dispositivos fílmicos – muitas vezes usados para construir narrativas e em outras para descontruí-las – buscam encontrar um tipo de abordagem a cada proposição, onde o Outro – esse ente com o qual o cineasta se relaciona, seja como temática, seja como personagem – faz parte de um jogo de tensões entre controle e descontrole. Mas de que forma se dá a relação entre os dispositivos utilizados como estratégia narrativa e os processos de criação? Como esse processo aparece no filme? De que forma se dá a conhecer ao público? Todos esses questionamentos levantam importantes discussões sobre essa produção contemporânea, sobre os caminhos que o cinema documentário contemporâneo tem percorrido, quais apostas estéticas tem sido feitas, quais as experiências que a imagem cinematográfica nos traz.

277

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A pesquisa aqui proposta surge como forma de responder a estas questões acerca da relação dos modos de criação que tem marcado a produção documentária brasileira contemporânea, mais propriamente a relação entre processo de criação e dispositivo como estratégia narrativa. Assim, dentre os documentários nacionais realizados na última década, buscou-se aqueles que tivessem uma relação processual declarada na própria formulação de seus dispositivos. Os filmes preliminarmente selecionados abordam o momento criador e não se colocam como obras acabadas. São produções com um caráter híbrido tanto do ponto de vista da narrativa, quanto do ponto de vista dos regimes de imagem que os compõem. Há ainda a presença marcante do realizador (ou daquele que opera a câmera) dentro do quadro, como personagem desses documentários, em sua maioria, autobiográficos. Dessa forma, pretendo analisar o dispositivo narrativo nos filmes e sua relação com o processo de criação explicitado e perceptível na tela, as diferenças estabelecidas de acordo com os dispositivos constituídos em cada um dos documentários e os regimes imagéticos resultantes de todo esse processo. Existe um interesse claro sobre esse durante do processo fílmico, essa experiência que se dá com o filme em curso, que acontece no entre. O corpus preliminar levantado para realização desta pesquisa é constituído pelos filmes Rua de Mão Dupla (2002), de Cao Guimarães; Passaporte Húngaro (2002), de Sandra Kogut; Moscou (2009), de Eduardo Coutinho. Esse corpus vem sendo

278

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

repensado e no momento existe uma possibilidade de alteração dos filmes que o compõe, podendo ser acrescentadas outras produções à medida que os resultados forem sendo obtidos. Metodologicamente temos trabalhado com as perspectivas da Crítica de Processo e da Análise Fílmica, além disso temos incorporado o princípio da razão durante como um bom aporte para compreender esse processo de criação que se dá a perceber pelo próprio fluxo das imagens. A Crítica de Processo, segundo Cecília Almeida Salles (2008), visa a tratar o processo criativo artístico, em especial na produção contemporânea, com o intuito de dar a esses trabalhos e pesquisas – caracterizados pelo seu dinamismo – “um olhar que seja capaz de abarcar o movimento, dado que leituras de objetos estáticos não se mostram satisfatórias ou eficientes.”(p.16). Dessa forma, além de pensar a obra de arte, é preciso pensar também novas metodologias que deem conta da variedade de obras, para acompanhar esses variados processos de criação. A análise fílmica tem como propósito a fragmentação do objeto analisado para que, a partir desse desmembramento e sua subsequente recomposição, possa-se extrair uma análise, uma conclusão (Vanoyé & Goliot-Leté, 2005). Segundo Aumont & Marie (2009), a análise varia de acordo com o objeto de análise e seu objetivo é possibilitar uma melhor apreciação da obra a partir de sua compreensão mais clara. Aqui analisaremos os filmes que constituem o corpus a partir de uma perspectiva de sua formulação narrativa de seus dispositivos e da estética.

279

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Já o princípio da razão durante nos traz a noção de quase-método (metáporo). Esses conceitos são desenvolvidos por Ciro Marcondes Filho no projeto de desenvolvimento de uma Nova Teoria da Comunicação e se apresentam como uma nova forma de abordagem e percepção dos fenômenos comunicacionais. Há aqui uma outra perspectiva para o desenvolvimento de pesquisas na comunicação, a relação dos pesquisadores com seus objetos e o acompanhamento dos processos em fluxo, no durante. O metáporo pretende um caminho de pesquisa em que a experiência do pesquisador com seu objeto sejam levados em consideração, sendo essa experiência um fator de legitimação dos resultados ao longo do processo de pesquisa. A pesquisa aqui apresentada tem se baseado nos três procedimentos do metáporo que dizem respeito ao entendimento das condições de aplicação do quase-método para o objeto; a observação do objeto e a apresentação de seus resultados. Ao cruzar essas perspectivas de abordagem, essa pesquisa contribui para o desenvolvimento da relação entre estudos de comunicação, imagem fílmica, cinema documentário e análise de processo de criação. Uma vez que aqui pretendemos abordar de uma maneira diferenciada os estudos de processo de criação e sua inserção no campo.

280

Sumário

40 Fraturas e errâncias no cinema contemporâneo

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Raquel do Monte A pesquisa de doutorado que desenvolvo versa sobre a compreensão do fenômeno da errância no cinema mundial contemporâneo. Para compreender esteticamente a materialidade visual desta experiência sensível percorro, partindo dos filmes, epistemes distintas que possibilitam o diálogo transdisciplinar entre Filosofia, Comunicação e Artes. Neste sentido, compreendo o objeto fílmico como catalisador de uma representação espaço-temporal de uma existencialidade que cartografa um estar no mundo, que abarca uma virada subjetiva, que ressignifica a percepção, que desterritorializa os processos miméticos. Neste sentido, no trânsito, lanço olhares acerca de um perder-se de si, espécie de ode do perder-se na cidade benjaminiano condição primeira do flâneur, o nômade citadino moderno que entre encanto e nostalgia percorre um local em constante alteração. Aqui, a cidade é uma imagem metafórica que nos indica o espaço de pensamento/conhecimento que iremos desenhar com suas inúmeras vielas, grandes avenidas, largos, entroncamentos. Para traçar o caminho (método), ou melhor, os caminhos da pesquisa pego alguns bondes. No entanto, como nômades que somos, não descartamos a imprevisibilidade das nossas andanças. Como uma cartografia, os vários mapas traçados a partir das inúmeras viagens vivenciadas e percebidas segundo um corpus preliminar, que se baseia

281

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

não apenas na noção restrita da viagem como deslocamento de um ponto A ao B, mas indicam que a melhor vereda a percorrer deve ser aquela que considere a rede, o imbricado, o rizomático. Usarei a linha de Ariadne invertida convicta da sua impossibilidade de esgotamento, mas considerando a sua natureza labiríntica e ainda as escolhas que se originam nos processos. Esta opção aponta para a própria instabilidade do sistema de pensamento que estou construindo, mas ao mesmo tempo convoca à construção de uma topologia que articula várias raízes epistêmicas, favorecendo desta maneira uma arquitetura singular. Neste percurso as posições sujeito-objeto são desconstruídas e no lugar desta dualidade surge uma unidade que é simultaneamente sujeito e objeto, ou seja, a observação do fenômeno comunicacional já pressupõe um cosmo que se constitui holisticamente. O movimento é pensado aqui através do fenômeno da errância, que em si já indica um duplo: o êxodo dos personagens e a natureza da imagem cinematográfica. Diante disto, o método escolhido orientar-se-á, inicialmente, pela busca do espaço-entre, do pensamento fronteiriço. Para perceber o espaço liso que abriga o acontecimento que testemunho, olho, lanço mão, como instrumento, da intuição sensível que é articulada a partir das infinitas impressões ou descrições do fenômeno observado. Essa postura se opõe à intuição cartesiana, exclusivamente intelectiva. Adota-se a intuição como forma de conhecimento que navega entre a nossa consciência e o interior do objeto. Sendo assim, sinto-me vinculada, preliminar-

282

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mente, ao procedimento metapórico que, entre outras coisas, reflete uma busca de captar no próprio objeto o seu sentido. Com relação aos filmes que busco dialogar a proposição passa por lançar-se a eles, misturar-se, contaminar-se com eles para em seguida relatá-los já impregnada destes objetos artísticos. Sendo assim, a primeira vista, delimitamos o cruzamento com viajantes como Travis, do filme Paris, Texas, de Wim Wenders, 1984, que entre paisagens, reaproximações e desencontros cruza conosco e nos mobiliza a pensar o quão frágil é a nossa memória, a nossa relação com o mundo, como sendo o ponto arquetípico inicial da nossa trajetória. Travis está em todos nós à medida que ao acompanhá-lo e ao aproximarmo-nos dele especularmente revelamos a nossa fragilidade, o nosso reencantamento face ao mundo e acima de tudo a nossa busca ancestral que aponta simultaneamente para o apaziguamento e a exacerbação da nossa potência, rompendo e alinhavando a nossa própria existência. Assim, pensar a representação dos sujeitos diaspóricos contemporâneos na produção cinematográfica brasileira é tentar lançar olhares sobre o processo de ressignificação existencial que extrapola a dimensão exclusivamente política e reconstrói novas possibilidades de estar no mundo. Ele reduplica-se, de alguma maneira, em Gerry, narrativa dirigida por Gus Van Sant que apresenta dois personagens que percorrem uma região desértica localizada em algum lugar entre os Estados Unidos e a Argentina. Os passos dos Gerrys, os seus corpos em movimento, somados aos procedimentos da câmera, à paisagem, a experiência temporal que aquela visualidade nos convoca traduz a matéria sensível que me rela-

283

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ciono. Há ainda exemplos como a produção grega Paisagem na neblina, Theo Angeloupolus, que traz Alexandros e Voula movidos pelo desejo incessante de encontrar a si, ao outro, ao estranho, à origem. Percorremos entre apreensão e ansiedade os vários percursos que eles fazem intuitivamente para encontrar a ideação do pai. São nestas veredas que cruzamos com o tempo que sempre foi objeto de reflexão no campo do cinema. Na tradição narratológica ele era visto como uma categoria de constante apreciação. Ao nos distanciar desses discursos instituídos, vamos partir da empiria suscitada pela experiência da temporalidade expressa nos filmes para compreender de que maneira o cinema contemporâneo ressignifica este “dado sensível”, instando-nos a um regime de vidência no qual quatro linhas do tempo, demarcadas a partir da poética proustiana apontadas por Deleuze – o tempo perdido (signos do amor), o tempo que se perde (signos mundanos), o tempo que redescobrimos (signos sensíveis) e o tempo redescoberto (da arte) se entrecruzam. Neste sentido, o contato com o filme pernambucano Eles voltam (2012), do diretor Marcelo Lordello e vencedor do último Festival de Brasília, conduz como a experiência da temporalidade configura um estar no mundo que convoca a uma errância que investe no fluxo, no trânsito permanente, que alimenta simultaneamente um devir imagem e uma existência singular. Para tanto, partiremos de uma metodologia que se ancora, sobretudo, no pressuposto bergsoniano da intuição e por outro lado se nutre da proposta deleuziana de que o cinema, através dos seus personagens e da sua técnica, funciona como disparador conceitual: “A filosofia se ocupa

284

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

de conceitos; ela os produz, os cria. A pintura cria um determinado tipo de imagens, linhas e cores. O cinema cria outro tipo de imagens, imagens-movimento e imagens-tempo;” “O que me interessa são as relações entre arte, ciência e filosofia. Não existe privilégio de uma dessas disciplinas sobre as outras. Cada uma delas é criadora. O verdadeiro objeto da ciência é criar funções, o verdadeiro objeto da arte é criar agregados sensíveis e o objeto da filosofia é criar conceitos”. (MACHADO, 2010, p. 14). Sendo assim, acompanho a errância de Cris, adolescente abandonada na estrada pelos pais que empreende uma viagem, dangerosíssima viagem de si a si mesma, percorre lugares, desencontra-se, rever pessoas, volta pra casa. Cris e a composição do planos, o tempo das sequências, os incontáveis planos sequência, os movimentos de câmera, o ritmo da montagem. Todo este conjunto de signos convida a pensar as fragilidades, os estranhamentos, as ressignificações constantes e a própria existência. Aqui, delineamos uma existência que acontece no movimento e reflete-se no acontecimento. “O acontecimento, na óptica de Deleuze, passa-se num tempo liso, não pulsado, flutuante, aiônico. Ele é coextensivo aos devires, ao meio, ao intempestivo, de certo modo à cesura”. (PELBART, 2004, p.61). Metafisicamente, observamos o acontecimento como o momento de eclosão ou aparecimento através do qual o ser acede àquilo que ele tem de próprio. É o próprio ser que se revela aí, sendo, por isso, diferente dos demais acontecimentos históricos ordinários. O ser tem lugar no movimento, que faz advir ele a si próprio, que lhe dá acolhida. Neste processo trans-subjetivo, encontramos também na compreensão

285

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

do Dasein, a ideia que abarca que a existência é a espera do poder-ser, uma expectativa do chegar-se a si próprio o caminho para si de uma possibilidade. Sendo assim, a nossa busca nesta altura do texto é tentar sentir e este ser que é ex-stase que tem a habilidade de sair de si e ir na direção daquilo que já não é ou ainda não foi, tudo viabilizado pela experiência temporal. Os nossos olhares buscam perceber no filme as nuances das questões filosóficas a partir da materialidade imagética, sendo assim, possibilitamos um mergulho num conhecimento afetivo, que ocorre nas bordas e que o tempo todo se desterriotorializa, que é nômade por excelência. Ao articular todas estas cinematografias pretendo desenhar uma cartografia de uma nova dimensão topográfica constituída através das experiências que envolvem as dimensões temporais e espaciais, compreendendo, sobretudo, como os discursos cinematográficos, através da sua materialidade imagética, ressignificam esteticamente os fluxos existenciais experienciados pelos personagens fílmicos e ancoram lugares de concretização de experiências estéticas que representam um devir existencial na interface com o humano.

286

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

41 Metáporos: uma proposta de pesquisa para estudar Cinema Eliany Salvatierra Machado

Apresentação da proposta de pesquisa Após dez anos acompanhando as pesquisas e os estudos do Filocom, grupo de pesquisa coordenado por Ciro Marcondes Filho na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, voltei meus estudos para questões filosóficas do tipo: “o que é Educomunicação?”,“O que é pesquisa fenomenológica?” e“O que é estética?”. Durante a pesquisa do doutorado, na mesma Escola de Comunicação e Artes, no período de fevereiro de 2005 a fevereiro de 2009, estudei o que estava se consolidando ou, provisoriamente, amalgamando-se com o nome de Educomunicação. Parto da questão do pesquisador Marcondes Filho sobre o que é Comunicação para refletir e, principalmente, analisar a Educomunicação. Na tese defendida em 2009,trabalhamos com os filósofos Emmanuel Levinás e Martín Buber, para discutir o diálogo e a alteridade, questões-chave para a Educomunicação. Para pensar a metodologia do fenômeno educomunicativo apresento o metáporos.

287

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Atualmente, trabalhando no departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense, estudamos o metáporos como uma proposta de pesquisa para observar o fenômeno estético com o cinema. Como parte da pesquisa, rastreamos o termo “estética” em textos considerados clássicos pela filosofia. Em 2012,juntamente comos alunos, estudamos Platão, trecho do livro III de “A república”; Aristóteles, Capítulos I a XII da “Poética”; Plotino, Trecho de “Sobre a Beleza”; Sto. Tomás de Aquino, Trechos de “Contra Gentiles” e “Suma Teológica” e D. Hume, “Do padrão do Gosto”. Em 2013, já estudamos: Baumgarten, Parte III da “Estética”; Kant, Parágrafos selecionados da “Crítica da Faculdade do Juízo”; e Schiller, “Sobre a Educação Estética do Homem em uma Sequência de Cartas”.Está previsto o estudo dos seguintes pensadores até o final do atual período letivo: Schelling, Hegel, Schopenhauer, Marx, Nietzsche, Heidegger, Adorno, Walter Benjamin, Merleau-Ponty e Deleuze.Todos foram selecionados por tratarem do termo ou das questões da estética. Introdução à Comunicação como acontecimento Para que possamos entender o que significa realizar o metáporos como um procedimento de pesquisa, consideramos necessário compreender anteriormente o que Marcondes Filho propões por comunicação como acontecimento. Com esse objetivo, começamos definindo o que não é comunicação

288

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

para o pesquisador:troca, compartilhamento e muito menos passagem. Antes disso, comunicação é aquilo que nos força a pensar, que nos incomoda, que mexe conosco, com as nossas ideias e está associado à expressão estética.Comunicação como expressão estética no sentido de aisthesis – relação sensível com o mundo. Para Marcondes Filho, uma comunicação densa, acontecimento, está próxima da arte, ambas como forma de apreensão sensível do mundo. Ocorre igualmente em contato com objetos culturais das produções televisivas, cinematográficas, teatrais, nos espetáculos de dança, nas performances, nas instalações, na possibilidade de criação de situações similares, inclusive em ambientes de relacionamento virtual. Pensando a Comunicação como acontecimento,surge a essência de um projeto de pesquisa intitulado“Metáporos: uma proposta de pesquisa para estudar cinema”. O que ocorre entre uma pessoa e um filme que toca; que atravessa; que força a pensar? Como ocorre o fenômeno da comunicação, na perspectiva do acontecimento, entre o espectador e o filme? É possível capturar a comunicação, a estesia no momento que ela acontece durante o filme? Introdução ao metáporos Após vinte anos estudando o território dos fenômenos comunicacionais e suas ocorrências fenomenológicas, Marcondes Filho apresenta, em 2008, o debate sobre “Metáporo”.

289

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O estudo sobre uma nova teoria da comunicação e outra forma de pesquisar os fenômenos comunicacionais denominada por Marcondes Filho de metáposfaz parte da pesquisa intitulada“Princípio da razão durante, uma ontologia e uma epistemologia dos fenômenos comunicacionais”. Metáporo está relacionado com o que tradicionalmente na academia se entende por “método” de pesquisa. Porém, paraMarcondes Filho, o termo “método” carrega a ideia de caminho já traçado (meta + odos = caminho que vai para o outro lado). Ao que ele considera: “percurso necessário, camisa de força da pesquisa, conjunto de procedimentos estabelecidos aos quais ela (pesquisa) tem que se dobrar.” O Metáporo é uma proposta que respeita o seu objeto, que é a comunicação – entendida aqui como acontecimento. O processo tenta, então, apreender a fugacidade, a efemeridade e o caráter fortuito do acontecimento comunicacional. São características básicas do acontecimento comunicacional, segundo Marcondes Filho: 1. O objeto é novo, ágil, cobrando do procedimento investigativo uma atitude igualmente dinâmica; 2. O objeto é transitório, exige que o pesquisador atribua legitimidade a esse estadopassageiro; 3. O objeto está assentado no movimento, daí impondo ao estudioso uma atitudeemparelhada no mesmo processo; 4. O acontecimento não avisa que irá se dar: cabe ao pesquisador a identificação de suafulguração e a ini-

290

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ciativa de acompanhá-la. As quatro características – novidade, efemeridade, movimento e imprevisibilidade – ficam mais evidentes quando as definimos segundo a razão inversa: o objeto não é conhecido nemconceituado; não permanece por muito tempo; não está parado, estacionado ou “congelado” e, por último, não avisa quando irá acontecer novamente. No Metáporo, escreve Marcondes Filho, cabe apelar para a estratégia de uma preservação do não-conhecido, do ainda-não-desvendado, assegurando-lhe a potencialidade de continuar a existir. O pesquisador no metáporos O pesquisador precisa participar, misturar-se com o objeto (comunicação). É necessário fazer o jogo para pegar o enredo, acompanhar os movimentos, participar do clima, imergir no processo para viver com ele, para sentir sua pulsação. Ao contrário do que alguns métodos de pesquisa propõem(o afastamento, a objetividade e a imparcialidade), no metáporos a indicação é a “mistura”, “fazer parte”. Não se trata, propriamente, de apreender e muito menos de compreender, masde sentir as vibrações, a força, a energia própria e encontrar uma forma de apresentá-lo ao outro, repassá-lo, de manter os efeitos vibrantes. O desafio é conseguir pensar em uma ciência transitória. Um saber que se dedique aoinstável, àquilo que só se mostra

291

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

no exato momento por efeito das forças que interagemno aqui e no agora. Desta maneira, esse processo nunca será capturado em sua totalidade, pois ésempre transitivo. O pesquisador, nessa linha de pensamento, deve focalizar o exame da ocorrência como esta se dá, que efeitos provoca, qual a lógica de seu impacto, de sua atração, de seu mecanismo de sedução, numa atitude em que “não se visa um saber final, uma construção aser reverenciada, uma descoberta que irradie pelos tempos futuros”. Metáporo se inicia pela apreensão do fenômeno porintermédio da intuição sensível e intelectual. Não se trata de um método dedutivo, tampoucoindutivo, “mas da apresentação de constatações, impressões ou descrições relativaa umsenso artístico, que nos revela aquilo que os seres são em si próprios, por oposição aoconhecimento discursivo e analítico que exerce uma abordagem do conhecimento do exterior”. Marcondes Filho explica que o Metáporo toma como modo de apreensão do real a captura instantânea, sensível,sem conceitos, tal qual se observa na relação estética com o mundo. Ele permite um tipo deinferência pela qual podemos captar o que não está presente. A evidência não é exterior, como pensava o idealismo, mas do próprio mundo, do mundo vivido. Com a intuição sensível, com o ato de nos transportarmos para o interior de um objeto, realizamos asimpatia, isto é, fundimo-nos com o que há de único no objeto. Diferente das ciências positivas, o Metáporo não analisa, não adota um ponto de vista sobre a coisa, não disserta sobre ela, mas buscacaptá-la nasua próprio concretude.

292

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O pesquisador deve considerar três coisas: A primeira delas éque ele é um observador ou, nas palavras de Marcondes Filho, um espectador que, em movimento, vê a vida também em movimento. A Segunda, é entender o seu lugar no Metáporo: estamos no mundo, não estamos fora dele oususpensos, ou seja, não estamos desconectados. Por último, a terceira é que o mundo, em movimento, dá-nos uma “infra-estrutura de operações do pensamento, nos dá um campo aberto, um espaço livre do saber.” O pesquisador, ao colocar-se no espaço liso deve fazer as observações e o seuinstrumento é a sua intuição sensível. O pesquisador deve ser objetivo, mas com uma objetividade sem aspas, pois ele se envolve, participa, é uma objetividade subjetiva. Por isso, Marcondes Filho critica trabalhos que são escritos com distanciamento, nos quais não percebemos o pesquisador e diz: “não é só a gramática que busca a objetividade com aspas. É também a orientação dada ao pesquisador, pois a academia não vê com bons olhos a escrita na primeira pessoa”. O que devemos ver? Ou o que é possível ver no metapóro? Possíveis respostas são: • A construção de sentido; • A realização do acontecimento; e • Atransformação incorpórea promovida pela efetivação do ato comunicacional. O sentido, contudo, não está relacionado, aqui, com significado, e sim com as sensações. O caminho proposto por Marcondes Filho aponta para a possibilidade de sairmos de um

293

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

método que nos aprisiona. Trata-se de uma saída pelos poros: “Os poros são a única coisa que podem conduzir da obscuridade à luz”. Para explicar a ideia de poros, o autor cita Sarah Kofman. Poros é a abertura de uma passagem num espaço caótico; ele introduz vias, cria direções possíveis, caminhos de fuga, ele vence a aporia. Poros, diz ela, dissipam a obscuridade que reina na noite das águas primordiais, abrindo as vias por onde o sol pode levar à luz do dia e as estrelas são capazes de traçar o céu de rotas luminosas das constelações. É a opção para quem não pretende seguir umcaminho estriado, contaminado por uma teoria imóvel, rígida, travada, mas que busca o caminho liso, aberto, indeterminado, difuso, livre. Os poros são a possibilidade de saída, repete Marcondes Filho, mas é uma saída que não se torna o caminho definitivo, é uma saída sempre com outras saídas. Por isso, ele nãofala de métodos, mas de Metáporos (meta + poros). Poros, uma passagem, um vislumbro, uminsight. Metáporos é, pois, um procedimento. Contudo, reconhece os limites do ver, a impossibilidade de se chegar a um todo. O pesquisador deve ser despretensioso ereconhecer que, quando vê algo de frente, jamais, ao mesmo instante, conseguirá visualizar a parte de trás. Marcondes Filho fala de poros enquanto passagem: “construir uma passagempara o outro lado, cavar na superfície da água, no monte de grão, abrindo, no vento, atos que desfazem em seguida tudo o que acabamos de abrir.”

294

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Dentro de tantas novas possibilidades, como não se apaixonar pelo conceito de Metáporos? Contudo, não para possuí-lo, mas para vivenciar a energia de ser espectador dealgo que está vivo, pulsante, e não morto. O grande desafio, contudo, é a capacidade narrativa do estudioso, sua habilidade emtransformar, para o registro não apenas o acontecimento, como também o que o envolve, material e imaterialmente, tentando repassar para o leitor a força, o ânimo, a vitalidade, emsuma: a vida do evento comunicacional. O Cinema, o filme como evento comunicacional Como percebemos um filme? Quais são os elementos que estão presentes no momento comunicacional na recepção fílmica? A apreensão de um filme é estética? Como ocorre? São essas as questões que estamos tentando tratar na presente proposta de pesquisa. Bibliografia DUARTE, Rodrigo. O belo autônomo: textos clássicos de estética, Belo Horizonte, Ed. UFMG, 1997. MARCONDES FILHO, Ciro. O princípio da razão durante: o conceito de comunicação e a epistemologia metapórica: nova teoria da comunicação III: tomo V, São Paulo, Paulus, 2010.

295

Sumário

42 Gesto, Rosto e Morte aa Joana D’arc de Dreyer

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Ciro Inácio Marcondes

Gesto e cinema silencioso A relação entre o cinema silencioso e os paradigmas dos olhar e do gesto é por si só autoevidente e necessária, mas talvez, em seus detalhamentos, menos óbvia do que possa parecer. Dentro de um espectro de expectativas que incluem, ao mesmo tempo, a diminuição ou apagamento da fala, e um multidimensionamento da imagem, o cinema silencioso parece conservar em suas contingências um difícil registro de seus sentidos, um desarranjo de suas próprias pistas, deixando restar apenas o traço daquilo que um dia poderia ter sido. De alguma forma, a metáfora de máscara mortuária da realidade, preconizada por Bazin para todo tipo de cinema, parece ser ainda mais vigorosa no âmbito da tela silenciosa. Os personagens do cinema mudo parecem mais fantasmagóricos, mais esquemáticos, mais oblíquos e mais morfológicos em relação à realidade do que aqueles do cinema falado, que são simplesmente melhor mentidos, mais magistralmente falseados. Se estes personagens silenciosos se parecem, portanto, mais como anagramas fílmicos da própria realidade (e veremos adiante como o rosto destes personagens pode ser uma completa tábua de leitura do mundo), se sua relação com o

296

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mundo que os gerou, de maneira indexical (foram “capturados” deste mesmo mundo pelo processo de revelação fotográfica), não passa de tangencial, se se assemelham a uma série de estilemas de composição que buscam uma totalidade (ver Eisenstein), que tipo de representação é a que efetivamente norteia a leitura de um filme mudo? De início, antes mesmo que possamos pensar especificamente no filme O martírio de Joana D’Arc (La passion de Jeanne D’Arc, de Carl Theodor Dreyer, 1928), que tão bem problematiza estes tensionamentos, podemos pensar, a priori, em como as instâncias do gesto e do olhar intuem uma proposição geral para a experiência do filme mudo. Ao mesmo tempo, a velha correlação entre a profundidade geral da imagem, coadunada à expertise imbuída no trabalho da montagem acabam formando um quadrado de possibilidades para estes personagens geométricos, anagrâmicos, pensados como estruturas sempre em função da arte do filme silencioso. O martírio de Joana D’Arc pertence um período muito específico de filmes crepusculares da história do cinema silencioso. Mais precisamente, está localizado em uma instância histórica que não vai mais ser aquela do amadurecimento técnico e do engrandecimento narrativo da arte cinematográfica, entre O nascimento de uma nação (1914), de Griffith, e a chegada de um cinema de vasta conotação simbólica, altamente plasmado nas vicissitudes de imagens geradoras de outras infinitas imagens, cristais, como as definia Gilles Deleuze. Estes filmes, não fazendo parte das chamadas vanguardas heroicas (Buñuel, Man Ray, René Clair, Duchamp, entre outros) dos anos

297

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

1920, coincidem primeiro em sua periodicidade, curiosamente muito próxima da chegada do cinema falado, e também por estarem encarregados do fardo de fazer do cinema um instrumento de representação não-convencional (ou sequer um instrumento de representação), fazendo de suas sequências, dínamos. A razão histórica e a motivação estética para que, em cantos diferentes do mundo, alguns filmes apresentassem essa motivação, em um período tão curto da história do cinema, é ainda alvo de especulação. Porém, o filme francês O martírio de Joana D’Arc, realizado pelo mestre dinamarquês Carl Theodor Dreyer em 1928, certamente se junta a outros feitos notáveis – como os de Murnau (Aurora, 1927), Dovzhenko (Terra, 1930), Kinugasa (Página de loucura, 1926) ou Vertov (Homem com uma câmera, 1929) –, como um dos mais singulares da história desta forma de arte. Uma das motivações da forte impressão que o filme causa sobre o espectador incauto é certamente o uso do primeiro plano, à época ainda restrito, em praticamente qualquer outro filme, a um elo narrativo que se encadeia à necessidade de se mostrar alguma coisa com mais proximidade, para fins de esclarecimento da narrativa. Este uso, griffthiano, ganha em Dreyer uma potência até então praticamente inédita no cinema. Sem pudor, o diretor dinamarquês vai costurar as falas, retiradas diretamente dos autos originais que condenaram Joana D’Arc à fogueira, a uma sintaxe composta praticamente apenas por rostos. Este desfile de perfis dura praticamente todos os 110 minutos do filme, tornando-o uma experiência de

298

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

robusta proximidade com os atores (todos, sem maquiagem), uma experiência exótica do olhar e um exercício do gesto. O fulcro experimental que norteia O martírio de Joana D’Arc está concentrado na atuação de Maria Falconetti. Encontrada em um pequeno teatro em Paris, sem nenhuma experiência anterior ou posterior com a arte do cinema, a atriz ganhou a história com uma atuação de difícil definição. Em primeiro lugar, é quase apenas seu torso e seus gestos faciais que aparecem no filme, graças à predileção de Dreyer pelo primeiro plano, o close e o hiperclose como código primário de sua narrativa. Em segundo lugar, Dreyer concentra toda a história do filme (sua fábula, na terminologia de Bordwell) no processo de Joana D’Arc, submetendo a personagem a um intenso interrogatório por parte da igreja e dos juízes ingleses, deixando a personagem no tenebroso limite entre a revelação, a angústia e a tortura. Maria Falconetti, na pele de Joana D’Arc, é, portanto, uma figura transtornada e confusa, abatida pelo cativeiro e pelos diversos processos (máquinas de tortura, sangrias) às quais ela vai sendo submetida até que pudesse, enfim, confidenciar que mentira, que não era enviada por deus, que não ouvia vozes que a ordenavam que libertasse a França do jugo da Inglaterra (durante a Guerra dos Cem Anos). Por fim, a direção de Dreyer, realizando cortes longitudinais nos rostos dos personagens, ou posicionando-os geometricamente nas laterais dos planos, ou fixando a câmera no olhar oblíquo, misto de angústia e loucura, de Maria Falconetti, faz do filme um deslizamento na superfície destes rostos, tornando-os significantes, peças para um mapeamento dos códigos gestuais e

299

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

faciais humanos, revolucionando a arte de atuar. É sabido (Cf. filme Radiografia da alma) que Dreyer pressionava Falconetti a jamais sair de sua personagem, mesmo enquanto dormia. Esta técnica, um tanto tirânica, da possessão, acabou por render uma atuação que transcendia, até então, todo o sentido para o qual a atuação cinematográfica se dirigia. Dreyer fez, de sua apropriação do primeiro plano e da atuação em minúscula distância, uma sintaxe nova para o cinema. Os rostos de seus personagens e as molduras nas quais estes rostos se inseriam se tornaram um guia para a própria compreensão da realidade do cinema. Nunca, antes ou depois, o conceito de fotogenia proposto por Louis Delluc teve tanta pregnância. Agigantados, os aspectos destes rostos se tornam mapas de decodificação do insuportável. Frequentes, repetidos, fantasmagóricos, estes são rostos insuportáveis, que ultrapassam até mesmo o realismo proposto pelo diretor a respeito do filme: “[...] o resultados dos primeiro planos era que o espectador recebia o mesmo impacto que Joana recebendo as perguntas, e sendo torturada por elas” (DREYER apud GÓMEZ GARCÍA, 1997, p. 125). As atuações, neste filme, são impactadas, portanto, pela tortura: não apenas a tortura sofrida pela personagem, mas a tortura das imagens em si, que não são imagens de coisas torturantes, mas sim de rostos torturantes. Em poucos filmes somos tão impactados por este tipo de fantasmagoria do rosto. Esta aporia derridiana que o filme nos sugere (rostos insuportáveis, mas que, no entanto, temos a obrigação de suportar) vai se ligar, conforme veremos, ao sentido geral do filme, relacionado com o martírio e a morte, em uma primeira instância, e o conceito

300

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

levinasiano de esforço, em uma segunda. Antes, porém, é necessário investigar mais a maneira como o gesto e o olhar se ligam a estes rostos insuportáveis, e de que maneira estas duas estruturas, alinhadas pela montagem fílmica de Dreyer, tornam o próprio filme um acontecimento possível. O gesto é um conceito caro a Giogio Agamben. Para o filósofo italiano, o século XX desaprendeu a praticar seu gestual. Esta conclusão ele tira a partir de estudos sobre a síndrome de Tourette, um quadro clínico comum no final do século XIX, em que o doente passa a perder controle de seus movimentos, executando um gestual aleatório ou repetitivo, constantemente. O desaparecimento deste modelo de Tourette no início do século XX é para Agamben não um sinal de que esta doença tenha encontrado cura definitiva, mas sim o de que a atribuição de “doença” para este fenômeno tenha sido largada para trás e que toda a sociedade ocidental tenha se adequado ao gestual patológico de Tourette, perdendo a naturalidade gestual original: A dança de Isadora e Diaghilev, o romance de Proust, a grande poesia de Pascoli a Rilke e, enfim, no modo mais exemplar, o cinema mudo traçam o círculo mágico no qual a humanidade procurou pela última vez evocar aquilo que lhe estava escapando das mãos para sempre (AGAMBEN, 2007, p.11).

Para Agamben, portanto, a fantasmagoria principal do cinema mudo residiria em sua tentativa de cristalizar o gesto,

301

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

já perdido ou desaparecido fora de suas instâncias midiáticas. Não surpreende, portanto, que ele posicione o gesto, e não a imagem, como elemento central do cinema, já que “em toda imagem está sempre em ação uma espécie de ligatio, um poder paralisante que é preciso desencantar, e é como se de toda história da arte se elevasse um mudo chamado para a liberação da imagem no gesto” (Idem, p. 12). Esta centralidade do gesto em busca de uma fuga da representação é vital para que um filme como O martírio de Joana D’Arc se assente em termos conceituais. Afinal de contas, se os múltiplos olhares do filme se dirigem para longe de uma significação direta, ou seja, representacional, para onde eles se dirigem? Qual seria uma ontologia para este gestual? Agamben aponta o gesto como movimento que tem em si mesmo seu próprio fim, a exibição da própria medialidade (daí o cinema chamando atenção para o coração de suas próprias articulações estruturais), a comunicação de uma comunicabilidade. O gesto, portanto, se basta, já que se concentra na possibilidade de uma comunicabilidade, e um filme feito inteiramente de gestos, como O martírio de Joana D’Arc, busca uma relação entre seus temas principais (a morte, o esforço...) e esta mesma comunicabilidade, fechando um ciclo não representacional, não hermenêutico, mas estrutural, esquemático, programa de suas próprias possibilidades de comunicação. Bibliografia

302

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

AGAMBEN, Giorgio. “Notas sobre o gesto”. In: IANNINI, Gilson. (Org.). Artefilosofia. No 4. Ouro Preto: IFAC, 2008. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs. Capitalismo e esquizofrenia. Vol. 3. São Paulo: Ed. 34, 1996. DERRIDA, Jacques. Apories. Paris: Éditions Galilée, 1996. GÓMEZ GARCÍA, Juan Antonio. Carl Theodor Dreyer. Madrid: Fundamentos, 1997. LEVINAS, Emmanuel. Existence and existents. Amsterdam: Martinus Nijhoff/The Hague, 1978. SLOTERDIJK, Peter. Esferas II. Madrid: Siruela, 2004.

303

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

43 A Desorganização da Linguagem: A Contribuição de Antonin Artaud e seu Cinema para o Estudo da Comunicação Fagner Torres de França

RESUMO Segundo uma famosa sentença de Jacques Lacan, o inconsciente humano é estruturado pela linguagem. Em outras palavras, a linguagem é a morada do ser. Esta é a base da psicanálise, como a conhecemos pelo menos desde o doutor Freud. Foi ele quem elaborou aquilo que ficou conhecido como “talkingcure”, ou seja, a cura pela palavra. A fala é a janela pela qual o inconsciente libera suas injunções internas, seus traumas, faltas, desejos, compulsões, neuroses, psicopatias. Não que o inconsciente carregue um sentido. Mas através da palavra pode-se chegar à origem de doenças nervosas as quais o sintoma apenas sobrenada na superfície. Seguindo esse caminho seria possível trabalhar o processo de cura. O estudo da comunicação humana também tem seu alicerce, em geral, nesse tipo de proposta. Desde as primeiras escolas, os estudiosos do fenômeno comunicativo tentam lastrear suas conclusões principalmente na compreensão de alguns elementos básicos como emissor, receptor, mensagem e meio, entre alguns outros que foram sendo acrescentados com o passar do tempo. Mas

304

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

praticamente todas elas têm a palavra como principal foco de atenção. A proposta desse resumo é problematizar, a partir do cinema idealizado por AntoninArtaud(Marselha, 4 de setembro de 1896 — Paris em 4 de março de 1948), a comunicação que está para além (ou aquém) da linguagem, aquilo que transcende o especificamente linguístico, que está fora do texto. No campo da comunicação, esta tem sido também uma das preocupações do jornalista e sociólogo Ciro Marcondes Filho (2010). Ao evocar as lembranças trazidas por certos objetos ou situações, por uma memória involuntária suscitada por uma situação puramente sensitiva, Marcel Proust, estudado por Marcondes Filho,proporciona uma reflexão sobre a comunicação que se desenrola dentro de uma noção de Acontecimento, caro na obra de Deleuze, ou seja, de certa forma, fora do tempo, para além dele, para além da linguagem, aquilo que não pode ser simplesmente descrito, mas apenas vivido, uma única vez. Isso significa que a racionalidade pura e simples não nos transporta voluntariamente para o evento, mas é preciso uma série de linhas de força que se cruzam para formar a singularidade da situação e o seu reavivamento, embora não da mesma fora e somente uma vez. Tal “revival” não é alcançado por uma narrativa pura e simples. Está mais perto do estado da arte. Por isso as palavras apenas não o alcançam. O que Van Gogh tenta nos comunicar poderia ser transmitido em linguagem? E o que dizer de Bach ou Beethoven? Por mais que se sente explicar sua nona sinfonia, nada substitui a escuta silenciosa e atenta e o deixar-se transportar. Dá-se o mesmo quando aspiramos um perfume, vemos o céu pintar-se com as

305

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cores idênticas aquele dia especial, ao ouvirmos aquela canção marcante, ao comermos aquela comida saborosa que uma vez provamos em Veneza ou Madagascar. É nesse sentido de uma comunicação total que trabalha AntoninArtaud em sua arte. O teatro de AntoninArtaud propõe uma linguagem para além da simples representação baseada na palavra escrita, em textos lineares, encadeados, dotados de lógica e coerência internas. Trata-se de fazer a linguagem exprimir o inabitual, o inusitado, uma violência primordial, seminal, originária, arcaica. Em O teatro e seu duplo (2006), sua obra mais conhecida, Artaud trata do teatro como arte independente e dotada de autonomia. Sua força estaria na possibilidade de separar-se da escrita, da palavra pura, liberando sua capacidade de experimentação para além das formas fixas. A linguagem dos signos poderia atingir o espectador de forma mais imediata, dispensando a iniciação aos códigos escritos que dificultam a experiência mais diretamente comunicativa com a arte. Ao invés da cultura pela palavra, que paralisa o pensamento, Artaud aposta na cultura pelo gesto espontâneo. Esta operaria por meio de gritos, sinais, onomatopeias e modulações vocais associadas à expressões corporais, exploração do espaço e diálogo entre objetos cênicos. O modelo para esta reflexão é o teatro oriental, o qual, segundo Artaud, soube conservar da linguagem mais que sua articulação gramatical, mas sua relação com o corpo, o movimento, a respiração e seus aspectos eminentemente sonoros. O mesmo se dá no campo da sétima arte. Para ele, um cinema que apela aos sentidos, capaz de reduzir a participa-

306

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ção do entendimento levaria a uma compressão enérgica do texto, pois as palavras “pouco falam ao espírito; a extensão e os objetos falam; as imagens novas falam, mesmo que feitas com palavras” (ARTAUD, 2006a, p. 98). O cinema seria como uma verdadeira liberação, necessária e precisa, de todas as forças sombrias do pensamento (ARTAUD, 2006b), um choque infligido aos olhos, tirado da própria substância do olhar, agindo diretamente no cérebro sem intermédio do discurso, não proveniente de circunstâncias psicológicas. Artaud busca o que ele chama de cinema visual, mais que textual, no sentido de exibir os nossos atos em sua barbárie original e profunda. Artaud atuou em cerca de vinte filmes. Escreveu sete roteiros, dos quais apenas um foi filmado, A concha e o clérigo (1928), sob a direção de GermaineDulac, com quem tentou pôr em prática seu ideal estético cinematográfico. A disposição formal do roteiro é dominada por três elementos: a rapidez, a metamorfose e a transparência. São acontecimentos que se sucedem com extrema rapidez e formas que se encadeiam e dissolvem-se umas nas outras. Em uma das cenas, segundo o próprio roteiro, uma mulher aparece “ora com a bochecha inchada, enorme, ora mostrando a língua, que se alonga até o infinito e na qual o clérigo se agarra como se fosse uma corda. Ora ela aparece com o seio terrivelmente inchado” (2006b, p. 163). Para sua principal biógrafa, Florence de Mèredieu (2011), com esse filme Artaud pretendeu excluir todo aspecto narrativo em favor unicamente da dimensão plástica, embora também considerar-se contra um cinema puramente abstrato. Sua

307

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

“terceira via”, diz Mèredieu, é a de encontrar uma lógica de imagens, “que se engendram, se deformam, se combinam. Ele desenvolve isso criando uma concepção orgânica e – finalmente – muito bergsoniana (ou deleuziana) de cinema: a de um vivente que se move, se transforma” (p. 359). Embora tenha atuado em duas dezenas de filmes, Artaud não conseguiu realizar seu projeto pessoal de cinema, nem deixou herdeiros. O cinema artaudiano, portanto, está por vir. “Gosto de todos os tipos de filme. Mas todos os tipos ainda estão por criar” (ARTAUD, 2006b, p. 169), diz. Aqui foi possível apenas trabalhar com uma hipótese, no sentido de gerar pensamento. Por isso, embora Bazin (1989) discuta a ideia de cinema crueldade com base em outros diretores, fica quase impossível formular um exemplo de experiência concreta efetivamente artaudiana, com exceção de A concha e o clérigo. Aliás, ele próprio ficou insatisfeito com o resultado das filmagens e promoveu, junto com um grupo de surrealistas, um tumulto no dia de sua primeira exibição pública. O presente texto serve, no entanto, como ponto de partida para se fazer essa reflexão, que será desenvolvida ao longo dos próximos anos. REFERÊNCIAS ARTAUD, Antonin. Linguagem e vida. São Paulo: Perspectiva, 2006a. ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2006b.

308

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BAZIN, André. O cinema da crueldade. São Paulo: Martins Fontes, 1989. MARCONDES FILHO, Ciro. O principio da razão durante. O conceito de comunicação e a epistemologia metapórica. Nova teoria da comunicação III / Tomo V. São Paulo: Paulus, 2010. MÈREDIEU, Florence de. Eis AntoninArtaud. São Paulo: Perspectiva, 2011.

309

Sumário

44 A noção de acontecimento no documentário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Ana Tázia Patricio de Melo Cardoso A presente pesquisa consiste na reflexão sobre a noção de acontecimento, à luz do pensamento de Edgar Morin, particularmente refletida em documentários. Neste sentido, a pesquisa extrai do fazer documental o foco nas questões cotidianas, de onde se parte dos fatos para se questionar as realidades sociais. Observamos atentos o quanto os estudos da Comunicação têm traçado esforços e reflexão para compreender as nuances desta sociedade. Desta forma, para a reflexão que nos propomos nesta pesquisa, descobrimos que todo documentário deve ser observado a partir do acontecimento instante, aquele fato acionador, e reiteramos o pensamento de Morin (2005), quando apresentamos uma possibilidade conceitual para designar a noção de ‘acontecimento’, como aquele que incita no fazer documentário. Com Lins e Mesquita (2008) descobrimos um pensamento crítico a respeito de uma lógica midiática, pois também acreditamos que o interesse hoje está na forma minuciosa de como a mídia organiza os acontecimentos do “interior” – onde tudo acontece dentro de uma lógica midiática, capturando de forma simultânea todos os envolvidos, e na maioria das vezes atua como uma formadora de consensos, que podemos também constatar nas coberturas jornalísticas a perda ou a redução do sentido.

310

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Assim, no exemplo documentário, analisamos a hipótese de como o procedimento documental, com foco em revelar uma história particular, pode de fato fazer com esse particular reflita o universal, o que finda por configurar-se em uma sociologia do presente, conforme proposta por Edgar Morin, que busca estudar os acontecimentos da atualidade, o questionamento da tendência do momento, a curiosidade voltada para o cotidiano, partindo dos fatos para questionar as realidades sociais. Ao percebermos essa não delimitação do campo, como bem aponta Morin (1969), devemos assim viver a tensão permanente entre o singular e o universal, o fenomênico e o fundamental, o empírico e o teórico, a compreensão e a explicação. É preciso saber propor questões universais, assim como obter reflexões gerais. Na história, qualquer “campo” encontra-se aberto e é atravessado por correntes que ultrapassam seus limites geográficos. Por partir de uma relação com o real, o documentário muitas vezes é relacionado a funções sociais, e não a serviço da arte e do entretenimento, mas sim, como um canal às minorias, fazendo denúncias, revelando o lado desconhecido do cotidiano das pessoas. Neste sentido, ao valorizar essa aproximação com o real, a liberdade de criar a partir dos acontecimentos pode ficar em segundo plano, correndo-se o risco do gênero documentário ser vinculado mais ao jornalismo – do que ao cinema. Vimos que assim como outras indústrias, o audiovisual também utiliza de estratégias de divulgação e comercialização

311

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

com seus produtos. Segundo Lipovetsky (2009, p. 232) “não se trata mais de informar o público sobre o lançamento de um filme, mas sim, de elevá-lo à condição de acontecimento, de espetáculo imperdível do qual todo mundo fala e que ‘é preciso ver’”. Para ele “a comunicação do cinema é, antes de mais nada, cinema da comunicação. Não cinema dentro do cinema, mas cinema acontecimento, cinema global”. Nesse sentido que consideramos também importante trazer à discussão os processos de registro e difusão de imagens e símbolos, num processo de mediação, pois são tantas as ideias que surgem no dia-a-dia da grande legião de documentaristas em nosso país. Mesmo dedicado à trajetória de um único indivíduo, o documentário não se esgota numa subjetividade. Bazin (2005, apud Novaes, P. 82) observa os filmes documentais como um recorte cultural do mundo fundado em conceitos visuais de construção do outro, e do mundo. Observamos que a mídia é um importante elo entre o que acontece no mundo e a representação das imagens desses acontecimentos, ela atua como uma formadora de consensos. Em grande parte das coberturas midiáticas, vimos a perda ou a redução do sentido. Entendemos, então, que os acontecimentos intervêm de maneira múltipla e decisiva na história humana, conforme já apontamos, tanto externamente à vida social, por catástrofes naturais, como de cunho social, mas externas a uma dada sociedade, por guerras, invasões. Como também aspectos internos às sociedades, como os acontecimentos políticos, os conflitos sociais ou as crises.

312

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Podemos aproximar a noção de acontecimento de Foucault à acepção que Morin dá a ela: presente o acontecimento é impedi-lo de se dissipar na dispersão do tempo, no esquecimento, é guardá-lo no espírito como aquilo que deve ser pensado. Recolher do já pensado – memória como pensamento sobre aquilo que foi pensado, no sentido ainda, de aguardar o não pensado que aí se esconde (Foucault, 1972, p. 153-155). O que buscamos é levantar a discussão no que tange o aspecto acionador do que será tratado pelos documentaristas em seus roteiros, em suas produções. Nesta perspectiva é aquilo que está na esfera do escondido, nas camadas submersas da sociedade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Arguments (Argumentos), t. 1, 1956-1960, t.2, 1960-1962, edições integrais publicadas com o apoio do Ministério da Cultura, Toulouse, Privat, col. “Réflexion faite” (Reflexão feita). BAZIN, André.(1985). Ontologia da imagem fotográfica. Paris: Cerf. BERNARDET, Jean Claude. (2003). Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das Letras. CANCLINI, Néstor Garcia. (2000). Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 3. ed. São Paulo: Edusp.

313

Sumário

CASTORIADIS, Cornelius. (1982). A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

DELEUZE, Giles. (1990). A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense. FOCAULT, Michel. (1977). Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão.Tradução de Denize Lezan de Almeida. Rio de Janeiro: Edições Graal. GALENO, Alex. (2008). Brasil em tela: cinema e poéticas do social. Porto Alegre: Sulina. LINS, Consuelo. (2004). O documentário de Eduardo Coutinho: televisão, cinema e vídeo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, LINS, Consuelo; MESQUITA, Cláudia. (2004). Filmar o real: sobre o documentário brasileiro Contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.. LIPOVETSK, Gilles, SERROY, Jean. (2009). A tela global: mídias culturais e cinema na era hipermoderna. Porto Alegre: Sulina. MACHADO, Arlindo. (2000). A televisão levada a sério. São Paulo: Senac. MORIN, Edgar. (1981). Sociologia do presente. In: SOCIOLOGIA. Paris: Fayard. ______. (1998). Sociologia: a sociologia do microsocial ao macroplanetário. Portugal: Europa-América. ______.(1962). L`Esprit Du Temps (Cultura de massas no Século XX). Paris: Grasset.

314

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______. L`Esprit Du Temps 2.(1975). Nécrose (Cultura de massas no Século XX: Necrose). Paris: 1975. ______. Le Cinéma ou I´Homme imaginaire (O Cinema ou o Homem Imaginário). Paris: Minuit, 1956; Les Stars (As estrelas). Paris: Seiul, 1957. ______. Lá Méthode. T. 4, Les idées. Leur habitat, leur vie, leurs moeurs, leur organization [O método, t.4, As ideias. Seu habitat, sua vida, seus costumes, sua organização]. Paris: Seuil, 1991. ______. Alarme em Orleães. Paris, Seuil, 1969. ______. Por um novo cinema-verdade. In: CRÔNICA DE UM VERÃO: TEXTOS EDGAR MORIN E JEAN ROUCH. Rio de Janeiro: Coleção Vídeofilmes, 2004. ______. Método 4: as idéias. 3 ed. Porto Alegre: Sulina, 2002. ______. Ciência com consciência. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. ______. Cultura de massas no século XX.: o espírito do tempo II: necrose. Rio de Janeiro: Forense-Universitária,1999. ______.. O Cinema ou o Homem imaginário. Portugal: Ed. Grande Plano, 1997. ______. As Estrelas: o mito e sedução no cinema. Tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

315

Sumário

______. O ano zero da Alemanha. Paris: La Cité universelle, 1946. II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______. O método. Paris: Seuil, 1977. ______. O Homem e a morte. Paris: Seuil, 1970. NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Tradução de Mônica Saddy Martins. Campinas: Papirus, 2005. NOVAES, Sylvia Cauby. O nascimento do cinema documental e o processo não civilizador. In: O imaginário e o poético nas ciências sociais. Bauru, Edusc: 2005. PENA-VEGA, Alfredo; LAPIERRE, Nicole. Edgar Morin em foco. São Paulo: Cortez, 2008. STAM, Robert. Introdução à Teoria do Cinema. Campinas: Papirus, 2003. WEBER, Max. A objetividade do conhecimento nas ciências sociais. In: Weber. Organização de Gabriel Cohn. São Paulo: Ática, 1979. XAVIER, Ismail. O olhar e a cena. São Paulo: Cosac & Naif, 2003. ______. Entrevistas (Encontros). Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2009. ______. O cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

316

Sumário

______. Humanizadores do Inevitável, Sinopse. Revista de cinema, ano IV, n. 10, dez. 2004. II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______ .O cinema brasileiro dos anos 90. (p. 104) _______. Ismail Xavier – Encontros. Org. Adilson Mendes. Ismail Xavier – Encontros. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2009. I Fórum Nacional de Tv´s Públicas: Diagnóstico do Campo Público de Televisão – Brasília: Ministério da Cultura, 2006.

317

Sumário

45 A estética singular de Luiz Fernando Carvalho

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Mariana Nepomuceno A proposta de estudo que proponho envolve a produção televisiva recente do diretor Luiz Fernando Carvalho, a partir de Hoje é Dia de Maria, em 2005.Esta minissérie marca o começo de uma trajetória de experimentações estéticas que já poderiam ser observadas de forma sutil na série Os Maias, baseada na obra do escritor português Eça de Queirós. Os Maias foi ao ar no mesmo ano (2001) que Lavoura Arcaica, primeiro longa do diretor, com roteiro baseado no livro homônimo de Raduan Nassar. Ambas possuem aproximações de estilo que geram uma singularidade e até um certo traço de autoria do diretor mas que não se configuram da mesma forma a partir da minissérie de 2005. A produção recente de Luiz Fernando Carvalho se destaca por levar à televisão comercial um mix de linguagens e de referências estéticas que conduzem o espectador a uma queda livre, a um salto no escuro. Em Afinal o Querem as Mulheres, conceitos de Freud e ironias sobre o duplo são diluídos em um ritmo alucinante comum ao cinema e pouco visto na televisão brasileira. Mesmo quando ele trabalha a partir de textos literários, inclusive aqueles que já pertencem ao imaginário cultural brasileiro e, por isso mesmo, são facilmente acessados. Exemplos:Hoje é Dia de Maria é inspirada em contos da oralidade popular brasileira condensados por Câmara Cascudo; A Pedra do Reino surgiu a partir do livro Romance d´A Pedra do Reino e o Príncipe

318

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna; Capitu é uma transposição de Dom Casmurro, de Machado de Assis. O texto de Machado de Assis ganha tons de ópera bufa, apresentadas em imagens filmadas num único espaço. Talvez justamente por utilizar recursos que podem ser considerados singulares (a recusa em usar narrativa em off em Capitu, a mistura entre o sonho e a realidade em Afinal o que querem as mulheres? por exemplo, a permanência da atmosfera medieval do universo de Ariano Suassuna recriada em Taperoá, na Paraíba), o diretor evita situar o seu trabalho com textos já existentes como adaptações, preferindo o uso do termo aproximação. Ainda assim, ele busca colocar as obras de que se aproxima dentro de questões relevantes para o contemporâneo: “Na minissérie (Capitu), estou reafirmando a dúvida presente em Dom Casmurro como parte do processo cultural da modernidade, como processo dialético da modernidade, e acredito que isso não é amoral ou imoral, isso não é um pecado”.Alicerçada por essa visão do diretor, percebe-se nas minisséries uma linguagem visual complexa que desafia os limites da TV comercial e coloca em xeque a relevância da audiência e da crítica para o que é produzido para a televisão. Aproximações – caminhos possíveis Se a tragédia do amor entre dois irmãos une a tessitura de Os Maias à Lavoura Arcaica, Capitu se diferencia por jogar não luz, mas sim ironia a tudo aquilo que poderia ser igualmente

319

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

fatídico a seus personagens. O fio que costura as duas séries é a presença de textos literários situados temporalmente no passado. Mas, em Capitu, esse passado é transformado, é um fragmento reconstruído não só da memória de Bentinho, cuja ação de recontar a vida já às vistas da morte é inspirada nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, também de Machado de Assis. Provavelmente, é no rastro desta obra que a amargura de Bentinho em Dom Casmurro cede lugar para a espirituosidade tomada de empréstimo de Cubas. O respaldo para essas homenagens de Carvalho a Machado de Assis, autor que faz parte da tradição da Língua Portuguesa encontram eco na importância que o conceito de nostalgia assume para compreender o contemporâneo. Podemos seguir a proposta de BOYM (2001), que sugere um passado recontado, contaminado pelos olhos do presente, uma nostalgia que coloca a reflexão sobre o passado a partir da reconstrução através de uma narrativa irônica e fragmentária. Uma recriação mítica tangenciada pela nostalgia e pelo tom farsesco que está presente, por exemplo, no sebastianismo da microssérie A Pedra do Reino. A produção traz um passado ficcional que não se compromete com a historiografia oficial do Brasil. Existe uma demarcação não necessariamente territorial dessas questões. Na apresentação do site do Projeto Quadrante4, do qual fazem parte A Pedra do Reino e Capitu, encontra-se um texto integrante do caderno de anotações de Luiz Fernando Carvalho afirmando o seguinte: “Como dizia o grande Guimarães Rosa, ‘a brasilidade é indizível’. É apenas 4 Inserir explicação. Atenção para as referências!

320

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

uma tentativa, um desejo de reencontrar e contar o meu país”. Esse “contar o país” não se prende a nacionalismos. Na verdade, parece se tratar de um movimento de busca de singularidades abertas ao atravessamento. A presença da estética teatral, a movimentação de câmera e os planos longos típicos do cinema, além dos cortes de cenas semelhantes à estrutura narrativa dos quadrinhos apontam uma hibridização de expressões estéticas presente na obra de Luiz Fernando Carvalho. Essa possibilidade está afinada com a percepçãoque SHOHAT & STAM (2006) possuem sobre o sincretismo no cinema brasileiro, tanto em relação à temática quanto à forma. Em Afinal o que querem as mulheres, por exemplo, é assumido o diálogo com a estética da pop art dos anos 60. Em A Pedra do Reino, a direção de arte foi inspirada nas obras de El Greco, Goya e Velásquez. Já Suburbia tem um tom documental e recebeu influência da blaxpoitation na trilha sonora. Se em Capitu o século XIX é trazido para os tempos atuais, com direito a abertura da série filmada em um metrô, o passado desaparece face o presente. A atmosfera onírica toma força e o espaço também perde delimitação. Este pequeno exemplo aliado à presença do passado, ao excesso presente nas imagens sugere, como perspectiva operativa de leitura investigações sobre o barroco. Michel Maffesoliresgata as origens portuguesas dessa palavra, inicialmente usada como designação dada à pérola irregular, assimétrica. A incorporação do conceito do barroco mais corrobora que afasta as intuições comentadas sobre a presença da nostalgia e da ironia nas obras de Carvalho realizadas desde Hoje é Dia de Maria.

321

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O barroco lembra, de acordo com Maffesoli, que o múltiplo é o que tem muitas partes, mas também “o que é dobrado de muitos modos”. Ele cita a ênfase dada por Deleuze ao labirinto contínuo da alma, algo que a modernidade não pôde resolver cartesianamente. A estética barroca resgata o que não é retilíneo, o que não é definido nem definitivo: Neste ponto da pesquisa, enxergo a experiência estética disparada pelas microsséries Hoje é Dia de Maria, A Pedra do Reino, Capitu, Afinal o Querem as Mulheres e Suburbiapossível de ser alcançada não somente pelas proximidades com o conjunto artístico delimitado pelo Barroco referendado por Wölfflin como acontece em Os Maias e Lavoura Arcaica. O encontro com as microsséries pode ser tomado como um encontro a partir do barroco como um tipo de sensibilidade, conforme Maffesoli aponta. Ele intui que uma das chaves, um dos segredos do barroco, é sua movimentação: do interior ao exterior, enraizamento-tensão para o alto, matéria-espírito, objetivo-subjetivo, história-tempo. Para resumir essas dialéticas, ele sugere o sair de si contido na etimologia da palavra êxtase. O contemporâneo seria uma multiplicidade desses êxtases, hábeis ao escape de condições doutrinárias, e que possibilitam o deslocamento“a um estado quase mágico de fusão do interior e do exterior”. No campo comunicacional Luiz Fernando Carvalho é um dos diretores de núcleo da TV Globo, principal emissora do país. Nos últimos anos, a empresa

322

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tem se inserido em um cenário complexo, em que sua liderança éameaçada tanto pela concorrência de outras emissoras de TV aberta, principalmente pela Record, quanto pelos canais de TV fechada e pelo crescimento do público que trocou a televisão pela Internet. Nesse campo minado, a Globo tem buscado opções que possam trazer novos ares as suas produções. Recentemente, a novela Avenida Brasil trouxe estratégias distintas das suas antecessoras – poucos personagens, movimentação de câmera aproximada com a do cinema, jogos de claro e escuro, por exemplo. Amor à Vida, novela que está no ar, usa constantemente uma câmera nervosa com enquadramentos irregulares, na tentativa de dar mais realismo ás cenas. É neste contexto que projetos com maior liberdade de criação audiovisualtêm ganhado força, como aqueles liderados pelo núcleo do diretor Guel Arraes (o programa Esquenta, que busca manter um vincula com os morros do Rio de Janeiro, é um exemplo). Dentro deste contexto, a pesquisa sobre a estética da obra recente de Luiz Fernando Carvalho vale-se para pensar perspectivas e possíveis sinais e sintomas das narrativas imagéticas trazidas pelo audiovisual e pela televisão aberta contemporânea. Não caminhando para um aprisionamento desta produção mas buscando integrar a seu fluxo pensamentos e imagens que possam estar ao seu lado. Neste primeiro momento,a companhia de caminhada é a sensibilidade barroca e as expressões estéticas que estão alinhadas a esta sensibilidade, com todas as suas multiplicidades, metamorfoses e instabilidades que lhes são próprias e estão presentes no cinema de Peter Greeanaway e Ettore Scola e nos quadros de Giuseppe Arcimbold.

323

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

46 Ensaio sobre uma Visão de Mundo: Pensando a civilização através do cinema Renato Maia

RESUMO EXPANDIDO A proposta desta pesquisa é pensar sobre civilização através do cinema relacionando ao que não percebemos; que não conseguimos enxergar no processo civilizador. Os filmes utilizados abordam a cegueira física e metafórica. Tal escolha é determinante justamente por ter a característica de contraposição à crítica unilateral que generaliza como negativo o “excesso de imagens” da contemporaneidade, ou seja, os filmes estudados abordam criticamente o oculacentrismo, a centralidade no olhar em detrimento dos demais sentidos, que fundamenta as relações na atualidade. Portanto, a afirmação é que o cinema pode ser utilizado para subverter os possíveis aspectos alienantes que a profusão de imagens pode causar. Tomo como estratégia sociológica a tipificação ideal de uma civilização onde as formas institucionalizadas e perpetuadas através do adestramento e da domesticação causaram e continuam a causar mal-estar e desarmonia social. A tentativa de fuga do caos que se instaura é fator determinante para a cegueira generalizada.

324

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Assim, procuro subsídios para a pesquisa nos filmes sobre cegueira e nas teorias de pensadores como: Edgar Morin, Norbert Elias, Sigmund Freud, Jack Goody, John Zerzan, entre outros que, em alguns momentos, as teorias se colidem e também conseguem despertar mais dúvidas, instigando ao pensar e elaborar ideias convergentes e novas teorias que possibilitem perceber o que se camufla na história das ideias, das invenções, do “progresso”, da “evolução”, das anomias e dos consensos que fizeram se concretizar a civilização ocidental. A atenção também se volta para as cegueiras existentes até mesmo nas teorias e filmes que estruturam a construção da pesquisa: até que ponto não há uma espécie de imposição colonialista e sujeição voluntária e involuntária através da produção de conhecimento? Mais uma questão inquietante. Contudo, talvez o obstáculo mais difícil de transpor e que se evidencia como grande desafio é superar as minhas próprias cegueiras, mas como Clarice Lispector já dizia: “é necessário certo grau de cegueira para poder enxergar determinadas coisas”; a tática adotada é seguir o exemplo das pessoas com limitações visuais que desenvolvem outras formas de percepção contra o condicionamento/adestramento a qual somos submetidos desde que nascemos. A produção do conhecimento se caracteriza assim como um malabarismo de ideias procurando realizar a partilha de saberes em movimento, resgatar a vivacidade e o imprevisível do fazer científico. A pesquisa propõe a utilização de ferramentas ainda não totalmente reconhecidas pela academia, como o uso de filmes na análise sociológica. Isso talvez contrarie alguns leitores bem

325

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ajustados ao habitus acadêmico e da, ainda predominante, exigência de objetividade na produção de textos científicos. Talvez esta exigência obedeça ao paradigma positivista que acreditava/acredita na necessidade de separar o sujeito do objeto científico para evitar a “contaminação” com valores ideológicos do pesquisador. No entanto, o desenvolvimento do trabalho, fundamentado através da autocrítica, está submetido à constante vigilância epistemológica apontada como um critério fundamental para a produção científica desde a década de 1940 por Gaston Bachelard e desenvolvida na contemporaneidade por Pierre Bourdieu (2004). A vigilância é permanente, mas também sem autopoliciamento, sem as preocupações comuns aos textos científicos onde se almeja rebuscar a escrita para conseguir a legitimidade acadêmica enquanto produto científico. A sociologia aqui é construída realmente como um esporte de combate1; combate até mesmo às imposições das instâncias de consagração2. 1 Referência ao documentário produzido sobre Pierre Bourdieu em 2001 por Pierre Charles. Em um período de três anos (1998-2001), Bourdieu é acompanhado em palestras, manifestações sociais, entrevistas para rádio e TV, tentando registrar suas posições teóricas e seu processo de criação. No documentário Bourdieu afirma que a sociologia é um esporte de combate, não uma ferramenta para validar as decisões da elite dominante. As pessoas precisariam da sociologia para entender as origens das dissimetrias, das violências simbólicas, e reagir, buscando uma saída para o fatalismo econômico da ideologia hegemônica atual. 2 Conceito proposto por Pierre Bourdieu para definir as instituições que credenciam o que é legítimo ou ilegítimo na produção cultu-

326

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Como em um filme que consegue subverter os padrões de gêneros cinematográficos (drama, documentário, aventura, romance, etc.) a tentativa deste trabalho é não se enquadrar nas ortodoxias acadêmicas, nas disciplinas impostas e isoladas e também pretende ir além das pré-noções e paixões que o envolvimento com o tema propicia investigando sociologicamente através das potencialidades cognitivas do cinema as cegueiras produzidas pelo período da vida humana denominado “civilização”. A conceituação de cinema tenta superar a afirmativa de mais um meio de comunicação de massa, produto da indústria cultural e potencial veículo de legitimação ideológica. A tentativa é ir além desse aspecto redutor e realizar o contrário: investigar e enaltecer a perspectiva do cinema como ferramenta de pesquisa e instrumento de auxílio metodológico. Para possibilitar um desenvolvimento teórico que permita unir a teoria do cinema com a análise sociológica, busquei desenvolver uma ferramenta conceitual que extraísse a potência do conceito primeiramente proposto por Émile Durkheim de fato social, conceito ampliado por Marcel Mauss posteriormente como fato social total, mas que não ficasse restrita a concepção proposta por Durkheim/Mauss. Se o fato social total compreende, na teorização de Mauss (2003), fenômeno também jurídico, ecoral de uma sociedade. Instituições como a escola, academia, igreja, família, etc., são responsáveis pelas construções simbólicas que consagram determinadas formas de expressão artísticas e culturais. Ver: BOURDIEU, Pierre. O mercado dos bens simbólicos. In: A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1987.

327

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

nômico, de morfologia social, estético, etc. e que coloca em ação a totalidade da sociedade e de suas instituições, o fato social complexo também obedece à mesma definição com a diferença de possuir o caráter complexo permitindo perceber o fenômeno de forma não mutilada e também não generalizante, ou seja, não obedece ao paradigma da simplificação. Ao utilizar o cinema como fato social complexo é possível perceber o tecido de acontecimentos, ações e também interações e retroações; determinações, acasos e não a análise linear e rigidamente estabelecida que, possivelmente, estaria inadequada para o estudo do cinema no formato aqui proposto. Cinema que é simultaneamente um fenômeno de comunicação, mas também artístico, industrial, diversificadamente cultural. Fenômeno que ao mesmo tempo produz e é produzido de forma recursiva, que a todo momento é submetido a interferências, deslocamentos, ambiguidades. Uma tecnologia que resulta justamente de uma produção da civilização, ao mesmo tempo em que produz filmes que contestam a forma do ser civilizado. A teoria da complexidade possibilita enfrentar, conviver e saber trabalhar com esse tipo de contradição. A apropriação do conceito de fato social que proponho retira a ambição de totalidade. A inserção do complexo tem o objetivo justamente de fazer compreender que existe a possibilidade da incerteza, da incompletude e que jamais poderemos ter um saber total. O cinema tem conquistado relativo espaço como mídia pedagógica principalmente por professores que atentam para o que tem acontecido na contemporaneidade na proliferação

328

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

das relações mediadas por imagens, no que Michel Maffesoli (1995) chamou de “mundo imaginal”. No entanto, grande parte do uso do cinema com fins educativos ainda acompanha a superficialidade propiciada pelas imagens do entretenimento e do espetáculo. Tanto como recurso pedagógico em sala de aula quanto como fundamentação teórica nos escritos acadêmicos a utilização de imagens permanece ainda como um aditivo, um suporte ilustrativo. Na sala de aula há o sério desvirtuamento do uso de filmes como forma de compensação dos horários sem aulas. Os filmes perdem o potencial de fazer pensar, de propiciar o debate e o aprendizado. Nos escritos acadêmicos, os filmes geralmente são utilizados para exemplificar alguma teoria ou como demonstração retórica e de erudição dos autores. Poucos são os que conseguem perceber o cinema como ferramenta que potencializa o aprendizado e pode ser usada como um fim em si e não apenas como acessório. Ensaio sobre a cegueira (2008), A pessoa é para o que nasce (2004), Dançando no escuro (2000), A cor do paraíso (1999), entre outros, são filmes que abordam a questão da cegueira e estarão incorporados nesta pesquisa não obedecendo à análise fílmica tradicional. Os conteúdos narrativos, as formas representacionais, as questões estéticas e as técnicas inerentes à produção de cada filme não são analisadas separadamente, mas fazem parte também do corpus teórico conciliando a teoria fílmica com a análise sociológica e com elementos da antropologia sócio-audiovisual. Os filmes estruturam o trabalho dando uma ordem sequencial como dispositivos de provocação do pensamento.

329

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A pesquisa sendo realizada neste formato se evidencia como de fundamental importância para pensarmos as possibilidades de utilização dos meios de comunicação para além das suas funções determinadas. O cinema como ferramenta de pesquisa sociológica contribui, assim, diretamente para novas abordagens comunicacionais e científicas.

330

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

47 A criação de atmosferas no audiovisual contemporâneo India Mara Martins

Resumo O objetivo desta etapa da pesquisa “A criação de atmosferas no audiovisual contemporâneo” é refletir sobre as noções de visível e invisível a partir dos estudos fenomenológicos e a sua crítica para ampliar o entendimento da categoria “atmosfera” e sua presença no universo fílmico e nas interfaces digitais. Deste modo pretendemos problematizar a relação das pequenas percepções (Leibniz) com a criação de atmosferas no audiovisual contemporâneo. A atmosfera faz parte dos fenômenos invisíveis, apesar de ser constituída a partir de elementos filmicos concretos. As pequenas percepções fazem parte do regime do visível, mas contribuem para revelar as imagens nuas, que são imagens despojadas de sua significação verbal, mas que arrastam consigo conteúdos-não conscientes, subliminares e fenomenológicos (GIL, 1996). Palavras-chave: Atmosfera; Audiovisual; Production Designer; Tecnologia

331

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Introdução O que motivou este ensaio foi a tentativa de entender o campo de estudo dos fenônemos do invisível, ou metafenônemos1, como propõe José Gil. Especialmente a atmosfera fílmica, que apesar de ter origem em situações presentes no regime do visível, se configura como sensações que não são visíveis. Inês Gil define a noção de atmosfera como sendo um espaço mais ou menos energético, composto por forças visíveis ou invisíveis, que têm o poder de desencadear sensações e afetos nos receptores. É a natureza dessas forças, o seu ritmo e a sua relação que determinam o seu caráter (GIL, 2005, p. 22). De acordo com Gil, a atmosfera é um sistema de forças que está ligado a um espaço determinado. Mas como é este espaço em se tratando do espaço cinematográfico? Ao se deparar com a imagem cinematográfica o espectador se defronta com um espaço diverso de seu universo cotidiano, que é o espaço da superfície da imagem. E não somente, já que outra relação se constituirá através dos elementos de percepção, pois além de perceber a superfície da imagem também entrará em contato com um espaço representado, ou seja, um espaço tridimensional ilusório, mas referente ao espaço real devido a certos graus de analogia. Todos os elementos referentes à percepção do espaço possuem correspondentes em relação aos graus de analogia com a realidade, sendo os índi1 É o estudo do vastíssimo campo de fenômenos de fronteira e de um invisível radical, não inscrito, não manifesto, mas que tem efeitos (por isso mesmo) no visível. (GIL, )

332

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ces de profundidade (alcançados com a perspectiva linear) um dos mais importantes. Contudo, Aumont destaca que as atuações da luz e da cor (perspectiva tonal), além da expressão da matéria também possuem um papel decisivo. Quando se materializa através dos recursos do dispositivo cinematográfico, o espaço passa a ser um “lugar”. O texto fílmico também pode produzir além destes significados já associados ao lugar real, certo número de significados próprios. No caso da localização num espaço completamente fictício, o sentido deste se torna mais livre. Mesmo quando os lugares entram num filme, ligados a uma referência geográfica existente, seu valor semântico não fica a este restrito. A direção de arte através da criação de lugares pode organizar um sistema de produção de sentido. Este é um dos motivos pelos quais o cinema é considerado uma arte do espaço por alguns autores: “O cinema faz da duração uma dimensão do espaço” (FAURE, 1953). “Jamais antes do cinema nossa imaginação fora arrastada a um exercício tão acrobático da representação do espaço quanto aquele que nos obrigam os filmes” (EPSTEIN, 1948). Embora tenha esta ligação com o espaço, a atmosfera não deve ser confundida com clima ou ambiente. Na linguagem corrente e na meteorologia, a atmosfera está associada ao ar. Uma atmosfera leve é entendida como moléculas de ar dispersas. Já uma atmosfera carregada sugere uma forte pressão, que pode levar um aumento da densidade do ar. O Clima pode ser entendido como uma série de estados de atmosfera. Gil acredita que podemos relacionar estes “estados

333

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

naturais” aos estados do clima cinematográfico. A atmosfera é uma consequência do clima. É porque existe certo tipo de clima que uma atmosfera determinada pode se manifestar. Por exemplo, num clima de terror, várias atmosferas coexistem: tensa, pesada, densa, etc.. O clima é fundamentalmente mais geral do que a atmosfera. As diferenças entre as noções podem ser as seguintes: o contexto (de opressão política, por exemplo) é o espaço de criação do clima (tenso), que está no primeiro plano, apresenta-se estável, e é geral. A atmosfera (pesada) também está em primeiro plano, mas é versátil e particular (uma piada sobre o ditador pode dispersar a tensão e gerar uma atmosfera menos tensa). Já o ambiente (pode ser uma reunião familiar, uma festa, etc.) está em segundo plano, apesar de versátil, é geral. No cinema, “o ambiente é como um pano de fundo, que dá certo tom à cena fílmica, mas não tem um papel semântico fundamental” (GIL, 2005, p.32). De acordo com Inês Gil a atmosfera cinematográfica se divide em duas categorias principais: a atmosfera espectatorial, que estuda o fenômeno que existe entre o espectador e o filme a partir da crença ou do reconhecimento de representação, que põe em causa os processos do reconhecimento de identificação e de distanciamento, entre outros, e a atmosfera fílmica, que se interessa pelos elementos fílmicos visuais e sonoros e pela relação entre eles. Contudo, cada vez mais observamos que esta divisão funciona do ponto de vista da criação e da análise da atmosfera no audiovisual. Mas como a atmosfera depende da percepção do espectador para existir, observamos uma relação de dependência da atmosfera fílmica, ou

334

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

talvez, uma possibilidade de pensar a atmosfera como uma noção conceitual ligada diretamente aos estudos de espectatorialidade. Pois os elementos fílmicos são utilizados para gerar uma determinada atmosfera, mas em última instância, para que ela ocorra, depende do espectador. Na tentativa de sistematizar ainda mais os estudos sobre atmosfera, Gil propõe que no interior da atmosfera fílmica, temos dois tipos de atmosfera: a dramática e a fílmica. A primeira é a atmosfera dramática, porque é expressa essencialmente a partir da diegese. Podemos dizer que esta é a atmosfera encontrada especialmente em alguns gêneros (drama, terror) e para se concretizar nas telas do cinema dependia de uma série de fatores e sua interrelação (a direção, a fotografia, a iluminação, a cenografia, a performance dos atores e a própria relação da equipe, que colaborava para criar um clima propício para o desenvolvimento de certas atmosferas). Um cineasta contemporâneo que desenvolve a atmosfera dramática de modo interessante é o taiwanês radicado nos EUA Ang Lee, em filmes como Lust, Caution (2007) e O segredo de Brokeback Mountain (2005). O segundo tipo de atmosfera é associada aos elementos plásticos porque diz respeito à forma da imagem fílmica, e aos elementos que constituem o seu espaço plástico. A atmosfera fílmica se diferencia da dramática, por ter sua ênfase nos aspectos visuais e poder ser constituída de forma independente, sem a presença de todos os elementos citados anteriormente. Um bom exemplo são os cenários do filme Capitão Sky e o Mundo de Amanhã, Kerry Conran (2003), que foram desen-

335

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

volvidos em diferentes produtoras de efeitos visuais ao redor do mundo. Neste caso, a atmosfera está relacionada diretamente à criação de mundos possíveis, para os quais não basta apenas criar um espaço físico, mas transmitir ao espectador uma atmosfera psíquica, que é gerada por este espaço. Esta tem sido uma necessidade também de outras mídias audiovisuais, como os games. É no campo do design que encontramos uma abordagem que coloca a atmosfera como um dos elementos fundamentais para representar o espaço de forma verossímel em suas diferentes dimensões (inclusive psicológica), seja no cinema, animação ou em um game. Weiye Yin, designer chinês especializado na área de “scene design”, acredita que através da atmosfera acentuamos certos temas ou sugerimos determinadas emoções, que ativam a subjetividade do público e fazem uma ilustração ganhar “magnitude”. Novamente, temos o processo de espectatorialidade como o destino final da atmosfera criada. 2. A atmosfera: perspectivas e apropriações das pequenas percepções no campo do audiovisual Inês Gil afirma a percepção da atmosfera faz-se através dos sentidos: da vista, do olfato, do ouvido, do gosto ou do tato. Ela se refere a Tellenbach, que ressalta o aspecto intimista e particular da atmosfera, quando a associa ao gosto em Goût et Atmosphère. Mesmo a atmosfera muito específica, dita “abstrata”, é do domínio da percepção sensorial, porque,

336

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

de uma maneira ou de outra, ela atravessa os pontos da pele do espectador e se materializa enquanto sensação física (GIL, 2005, p. 21). É, portanto, um elemento fílmico que se constitui nos momentos da produção/pós-produção e se estende até a etapa final do processo da realização cinematográfica, na exibição, quando é sentida de maneira emocional através da experiência individual do espectador. Considerando o modo de percepção da atmosfera, observamos uma aproximação da noção de atmosfera com as imagens nuas. As imagens-nuas são imagens despojadas de sua significação verbal (isso inclui todo tipo de imagem, não apenas as de conteúdo psíquico como o sonho) desde um pedaço de muro cinzento, que é entrevisto ao virar da esquina, ao conjunto de formas e cores que constitui uma pintura (GIL, 1996). Para o filosofo português estes exemplos revelam que estamos mergulhados num mundo de imagens-nuas; que a imensa maioria das percepções que preenchem os nossos dias é de imagens-nuas; que são elas que provocam os sonhos, como observava Freud (imagens anódinas, que passavam desapercebidas no fluxo das macropercepções). À elas se associam também os pensamentos fugidios e imperceptíveis que Leibniz chamava “pensamentos voadores” (pensées volantes) e que vão ter importância decisiva na associação livre da cura analítica; que formam o material imagético das técnicas publicitárias, do cinema e de todas as artes; que a cada instante, nas relações entre os seres humanos, são os milhares de imagens-nuas que constituem a imagem do rosto e do corpo do outro,

337

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

que transportam significações mudas e informações muito mais ricas que as verbais (GIL,1996). De acordo com José Gil quando analisadas estas imagens revelam características insuspeitadas, pois “arrastam consigo conteúdos não-conscientes de sentido, de uma não-consciência que convém distinguir do inconsciente freudiano por um lado, e de todos os claros obscuros”subliminares” ou fenomenológicos por outro” (GIL, 1996). Tais conteúdos são produtores de pequenas percepções, o que implica toda uma semiótica particular, já que não entram facilmente nas diferentes classificações conhecidas de signos (em particular, na de Peirce). José Gil vai lembrar que Leibniz já observara, que as pequenas percepções encontram-se associadas a forças: a percepção das imagens-nuas provoca um apelo de sentido, como se estimulasse o espírito à procura da significação verbal ausente. Para José Gil é através da descrição dessas forças e movimentos, que iremos nos aproximar da imagem-nua. No audiovisual contemporâneo observamos uma articulação entre as macro-percepções, quando temos a percepção de espaços imensos em sua totalidade e das pequenas percepções, como é o caso da violência de um pelo de barba irrompendo sobre a pele de uma pessoa (abertura do seriado televisivo Dexter)2, a representação dos elementos do san2 Em Dexter, observamos que são as pequenas percepções, que revelam a violência intrínseca ao personagem, através do primeiríssimo plano, nas atividades cotidianas como fazer a barba, fritar ovos com bacon, vestir sua camisa, que se torna uma espécie de máscara sobre o seu rosto.

338

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

gue, vistos através do microscópio. Este último é um exemplo de situações que não seriam visíveis sem a tecnologia apropriada. Mas se já tínhamos esta tecnologia para ver o micro, hoje temos a possibilidade de representá-lo através da tecnologia digital. Mas isso não se limita à representação das pequenas percepções, mas de fenômenos que seriam invisíveis para o olho humano, como é o caso da trajetória de uma flecha ou de uma gota d’ água antes de atingir o chão (Hero, 2000, Zhang Yimou). Consideramos as pequenas percepções, o aspecto visível, apesar de não nomeado das imagens nuas, que criam determinadas atmosferas e envolvem o espectador. Neste sentido, entendemos que o estudo da atmosfera fílmica faz parte da comunicação, é claro que uma outra noção de comunicação. Comunicação como expressão estética no sentido de aisthesis – relação sensível com o mundo. Encontramos esta noção explicitada na proposta de uma nova teoria da Comunicação por Ciro Marcondes Filho. A nova teoria entende como comunicação, o acontecimento e, apresenta como método o Metáporo, que nos parece adequado como metodologia para esta pesquisa, porque é uma proposta que respeita o seu objeto. Pois busca apreender a fugacidade, a efemeridade e o caráter fortuito do acontecimento comunicacional. A atmosfera também apresenta uma instabilidade como fenômeno, por isso não pode ser pesquisada a partir de métodos que não considerem esta instabilidade e fugacidade como parte intrínseca do objeto e definidora de sua essência.

339

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Referências bibliográficas DELEUZE, G. DELEUZE, Gilles. Francis Bacon: Lógica da Sensação, tradução equipe Roberto Machado, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. Cap. 6 e 8. GIL, Inês. A Atmosfera no Cinema: o Caso de A Sombra do Caçador de Charles Laugthon entre o Onirismo e Realismo, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, FCT, 2005. GIL, José. A Imagem-Nua e as Pequenas Percepções, Lisboa, Relógio d´Água, 1996. GIL, José. Fernando Pessoa ou a Metafísica das Sensações, Lisboa, Relógio d´Água, 1998. MARTINS, I. M. Do Figurativo ao Figural: uma Reflexão sobre a Figura em Francis Bacon e Ryan. Revista Eco-Pós, 2010, v. 13, n. 2, pp 37-58. , v.13, p.37 – 58, 2010. Disponível em: http://www. pos.eco.ufrj.br/ojs-2.2.2/index.php?journal=revista&page=issue &op=view&path%5B%5D=24. MERLEAU-PONTY, M. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. ______. Le visible et l’invisible. Paris: Gallimard, 1964. MITRY, Jean. Estética e Psicologia del Cine. Siglo Veintiuno de España Editore.

340

Sumário

48 A estética da paisagem urbana à luz do cinema

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Raquel Holanda Andar pelas ruas e praças públicas de uma cidade, acompanhar o seu movimento cotidiano, o ritmo próprio estabelecido pela vida urbana, diante das relações sociais e comerciais que nela se desenvolvem. Despertar sentidos numa cidade a partir de seus cheiros, fragmentos de lembranças estimulados por ambientes, lugares, objetos e rostos andarilhos que fazem de um passeio em uma cidade uma experiência única. Ver isso através de um filme é perceber certo olhar sobre uma realidade factual, que traz consigo valores e conceitos próprios de um tempo, de um dado momento. Esses olhares tornam visíveis as mudanças que acontecem nas cidades, suas transformações físicas e sociais. Considerando a Revolução Industrial como um dos estopins das alterações no modo de vida urbano, as inovações no sistema de produção deflagraram, a partir do final do século XVIII, uma série de acontecimentos que redirecionou as funções das cidades e motivou o surgimento dos grandes centros urbanos. O ritmo que a produção fabril implantou no desenvolvimento das técnicas produtivas também teve consequências nas formas de comunicação da sociedade, aperfeiçoando os meios já existentes e inventando novas formas de expressão como maneira de atender as necessidades da nova vida urbana. Nos primeiros anos do século XX, esse crescimento avassalador das cidades dirigia os olhares de jovens cineastas que, se

341

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

utilizando de técnicas ainda experimentais e ensaísticas deste novo meio de expressão artística e comunicacional, produziam filmes que revelavam a urbanização da vida nas cidades. Em Pernambuco, por exemplo, este movimento foi acompanhado por Gentil Roiz, Jota Soares, Ary Severo, dentre outros cineastas que registraram o Recife e suas transformações através de produções cinematográficas como Retribuição (1923/25), de Gentil Roiz, A Filha do Advogado (1926), de Jota Soares, Aitaré da praia (1925) de Gentil Roiz; e outros filmes do conhecido Ciclo do Recife. O modo de vida capitalista e a imersão da vida urbana num circuito cada vez mais inerente aos preceitos de uma sociedade da comunicação de massa resignificou não só as formas das produções artísticas, mas suas próprias categorizações. O valor artístico da categoria “arte” ultrapassou as barreiras da arquitetura, pintura, escultura e agora acompanha o delineamento das chamadas artes menores. Mas de que maneira essas transformações incidem nas modificações da paisagem urbana? Esta é apenas uma das indagações que esta pesquisa pretende observar através dos registros cinematográficos e das produções ficcionais que expõem a cidade como uma personagem de suas obras (CUNHA FILHO, 2006). A cidade pensada enquanto o ponto de partida de toda construção, um organismo cultural complexo, é uma realidade inseparável da tida sociedade urbana. Mas analisar este espaço através de produções cinematográficas pode ter sentido enquanto valor histórico-artístico? Como um lugar pode ser enquadrado? Para Peixoto (2004), “o lugar é inscrito no tempo,

342

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

fugitivo e efêmero” (PEIXOTO, 2004, p. 259). Pensar, então, a cidade nos dias atuais é observar, cada vez mais, este lugar como uma paisagem fluída, insculpida em frágeis e tênues imagens. A paisagem contemporânea, segundo Peixoto, é um extenso lugar de trânsito: As paisagens são a arquitetura da cidade das imagens. (...) Paisagens entre pintura, fotografia e cinema. Paisagens entre essas linguagens e o vídeo, lugar de composição das imagens. Paisagens entre todas essas formas artísticas e a arquitetura, que se confunde com o imaginário da cidade. Grande cruzamento que constitui a paisagem contemporânea. (PEIXOTO, 2004, p.233)

As paisagens urbanas surgem, como descreve Argan (2010), nos “itinerários urbanos diários” de uma pessoa que “deixa trabalhar a memória e a imaginação: anota as mínimas mudanças, a nova pintura de uma fachada, o novo letreiro de uma loja...” (ARGAN, 2010, p.232). As paisagens urbanas podem ser tidas como dados visuais construídos mediante valores e sentidos de uma pessoa, grupo ou sociedade referente a uma cidade. As incessantes transformações vivenciadas pela cidade, desde o final do século XIX e que ganhou impulso após metade do século XX, alteraram também a forma como a cidade se relaciona com a cultura, com a arte. A arquitetura, por exemplo, vista no início desse processo como uma extensão da arte

343

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

que pensaria a criação de espaços de vivência social, aos poucos foi vendo suas obras e organizações sendo resignificadas, sem levar em considerações suas proposições iniciais. O uso dos espaços urbanos como ambientes de experiência com a cultura desse lugar também deixou de ser algo habitual. Ao tempo em que as cidades se modernizavam e atualizavam ao novo modo de vida que o capitalismo industrial condicionava, se expandia na Europa e nos demais continentes a utilização do cinema como forma de expressão artística e registro desse momento. O cinema dá início a uma realidade onde a experiência através da imagem nunca foi tão pródiga. E acompanhar as transformações das paisagens urbanas através do cinema, além de uma experiência estética é a utilização de um fenômeno estético para tal finalidade. O cinema revela imagens que não se pode descrever, proporciona uma experiência estética que frui os sentidos daquilo que é inefável. Desde seu surgimento, quando apenas as imagens contavam suas histórias, o cinema já mostrava as paisagens construídas pelos ambientes nos quais as suas tramas se desenrolavam, Deleuze ao falar sobre o cinema mudo argui: O cinema mudo sempre mostrou a civilização, a cidade, o apartamento, os objetivos de uso, de arte ou de culto, todos os artefatos possíveis. Todavia, ele lhes comunica uma espécie de naturalidade, que parece ser o segredo e a beleza da imagem muda. (DELEUZE, 2009, p. 268).

344

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O cinema, aqui, é colocado como um meio capaz de nos mostrar a cidade de maneira excepcional, dando sentidos que seriam outrora, difíceis de serem verbalizados, inexprimíveis. O encanto gerado pela imagem e som cria “verdadeiro sentido de espaço a todos os seus elementos ilusórios” (PEIXOTO, 2004, p.259). Diante do contexto até o momento discutido, esta pesquisa tem como questão central a investigação das transformações das paisagens urbanas das cidades de Recife e Amsterdam a partir das imagens captadas pelo cinema, fonte documental indispensável para acompanhar essas mudanças. Essa pesquisa objetiva-se a uma a investigação das transformações das paisagens urbanas a partir das imagens encenadas pelo cinema. Partindo do conceito de fruição estética, a experiência proporcionada pelas imagens das cidades de Recife e Amsterdam, captadas em filmes realizados em diferentes momentos, será o ponto de partida da análise das incessantes modificações da paisagem urbana dessas cidades a fim de exprimir a(s) estética(s) surgida(s) a partir desta experiência, assumindo um olhar crítico sobre as transformações urbanas físico-culturais nos dias de hoje, que permitirá pensar sobre a efemeridade do espaço urbano e reflexões sobre a relação entre cinema, história e cidade. A memória da paisagem urbana das cidades de Recife e Amsterdam. Este é o ponto de partida desta pesquisa que de maneira interdisciplinar busca nos estudos cinematográficos, filosóficos, históricos e sociais um aporte para uma reflexão sobre as transformações na paisagem urbana dessas cidades.

345

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Compreender a maneira como a paisagem urbana de uma cidade se encontra nos dias de hoje requer um retorno ao passado, à memória dessa cidade. A imagem da cidade é uma decorrência de sua história, do seu processo construtivo, das agregações sociais que a vivência em sociedade atribui a estes espaços. A cidade e suas imagens são, assim, formas sensíveis, apropriando-se, aqui, do conceito de Rancière: “toda forma sensível é falante, trazem em si marcas de sua história e os signos de sua destinação” (RANCIÈRE, 2009, p.35). A cidade se adaptou à produção em massa, inseriu nos usos cotidianos de seus habitantes o tempo da vida moderna, fez dos meios de comunicação elementos indispensáveis para a interação social e o reconhecimento do que acontece no seu contexto. A experiência estética, sem sombras de dúvida, é diferente nesses novos ambientes. Como é na cidade que grande parte da existência do homem se dá, é também a cidade a fonte das imagens criadas em nossas memórias. Argan (2010) argumenta que essas imagens do espaço urbano real que servem para a “existência-na-cidade” podem ser “visuais ou auditivas e, como todas as imagens, podem ser mnemônicas, perceptivas, eidéticas”. Por isso, ao se falar em cidade, muitas imagens ou assuntos podem vir à tona, muitos deles sendo uma das causas ou consequências dos problemas de integração da vida social ao contexto econômico e tecnológico que há algumas décadas tornou-se a prioridade quando a questão é modernização. A cidade não consegue mais coordenar de maneira funcional seus “diversos aglomerados sociais, a aparelhagem de vastos

346

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

territórios” (ARGAN, 2004, p.512), a paisagem urbana construída deixa de ser vista a partir de suas qualidades estéticas individuais, alterando-se para um sentido perceptível a partir dos grandes planos de observação. O cinema, como arte de recepção coletiva, proporciona a revelação da cidade de maneira fragmentada e individualizada, formada por um conjunto de imagens que constituem o espaço urbano real de uma pessoa, e que nos revela suas memórias e percepções dessa paisagem urbana. Esse sentimento de pertencimento a um lugar é visto por Cullen (2008), como “o recinto, ou compartimento exterior, constitui, possivelmente, o meio mais eficaz e mais imediato de provocar nas pessoas essa sensação de posição ou de identificação com aquilo que as rodeia” (CULLEN, 2008, P. 31). No cinema, a paisagem urbana pode ser compreendida como a protagonista da experiência estética com esse tempo, com essas constantes transformações; a cidade enquanto espaço em que os indivíduos e os diversos grupos sociais se inserem e vivem no sentido amplo. Relacionar as imagens da cidade com as fruições estéticas que despontam a partir da experiência de sua exibição em obras cinematográficas é mergulhar num campo investigativo que concebe tais imagens como formas que fixam e visualizam um determinado ponto de um contexto urbano. Uma visão sobre aquele cenário urbano encenada pelas imagens de um filme. Imagens que juntas revelam a paisagem urbana da cidade.

347

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Como reflexão acerca do contexto cultural que atualmente o Recife e Amsterdam vivem, esta pesquisa acredita que a lacuna que a crítica cultural e a academia deixa aberta quando se propõe a analisar as constantes mutações nas formas de produção artísticas de maneira individualizada e sem acompanhar a evolução da própria cidade que serve de berço para tais experimentações é um ponto que necessita de investigação. Referências ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. ______. História da arte como história da cidade. 5ªed. São Paulo: Martins Fontes, 2010. CULLEN, Gordon. Paisagem Urbana, Edições 70, Lisboa,2008. CUNHA FILHO, P. C. . A representação visual da memória: imagens e melancolia na cidade periférica. In: Angela Prysthon. (Org.). Imagens da cidade: espaços urbanos na comunicação e cultura contemporâneas. 1ed.Porto Alegre: Editora Sulina, 2006, v. 1, p. 219-234. DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2009. PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens Urbanas. 3ªed. rev. e ampl. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2004. RANCIÈRE, Jacques. O inconsciente estético. São Paulo: Ed.34, 2009.

348

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

49 Universos fílmicos dinâmicos: a promessa do filme interativo na era da convergência midiática Daniel Monteiro O presente resumo do meu projeto de pesquisa de mestrado em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (PPGCOM-UFPE) traz como ponto nevrálgico uma discussão acerca do filme interativo como um problema cultural e comunicacional. Se ainda hoje os meios de comunicação broadcasting, em especial a TV, mantêm um padrão hegemônico de distribuição de bens culturais a partir do conceito de grade de programação, organizada por horários fixos de difusão em fluxo contínuo. Por outro lado, a digitalização dos meios de comunicação, a convergência e a integração entre as mídias e a difusão da tecnologia móvel de comunicação estão mudando nossa percepção de tempo e de espaço. Uma nova subjetividade tempo-espacial está transformando o modo de pautar as políticas públicas capazes de configurar a linha de produção da cadeia produtiva, formatar hábitos de consumo e, especialmente, organizar socialmente o fornecimento de informação e entretenimento. Vale ainda destacar que, na última década, a convergência dos meios de comunicação está redirecionando a construção da narratividade pela possibilidade de hibridismos narrativos em diferentes suportes de mídia, em especial na hiper-

349

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mídia (meio e linguagem da internet). A partir do momento em que esses hibridismos narrativos se mesclam no ambiente do ciberespaço (atual ambiente de convergência das mídias) e o espectador, e também usuário, pode interagir com os artefatos digitais, surge a possibilidade da emergência de novas experiências estéticas com produtos audiovisuais desenvolvidos especialmente para esse ambiente. Não perdendo de vista que a cadeia produtiva midiática abrange tanto um conceito e um método quanto um estilo de vida, buscamos problematizar a transmidiação (transmediation) e a ludificação (gamefication) enquanto tecnologias criativas e sociais necessárias e/ou suficientes para que a interatividade se torne fenômeno social mais amplo, principalmente, no que tange à fruição de bens culturais audiovisuais. Se por um lado, a produção cultural ainda hoje é pensada, primordialmente, como modelo de negócio e tudo isso está cada vez mais se consolidando, redirecionando e agendando a mídia e consequentemente, nossas vidas. Nossas formas de sentir. E de pensar. Por outro lado, a convergência midiática tende a expandir a possibilidade de participação nesse modelo porque permite maior acesso à produção, ao consumo e à circulação de bens culturais. A TV digital interativa e a hipermídia inauguram complexidades novas para o audiovisual, mais semelhantes ao videogame do que ao cinema e à TV propriamente dita, onde os bens culturais fluem em múltiplas direções (um para todos, todos para todos, todos para um etc.) de produção, distribuição e consumo. É dentro desse panorama emergente das

350

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

novas mídias digitais e das artes narrativas que o filme interativo se insere enquanto um problema cultural e comunicacional. E, como tal, buscamos tratar o tema escolhido com rigor metodológico, porém, sem perder o olhar crítico e sensível. Transcinemas, hiperfilme, cinema digitalmente expandido, filme-jogo, ciberfilme, machinema, filmes de audiência móvel, filme interativo. Muitos são os nomes encontrados para os produtos audiovisuais interativos realizados até hoje. Esses são os universos fílmicos dinâmicos que propomos como foco de nossa discussão. Nossa questões norteadoras são: I) Quais são as provocações que esses novos produtos audiovisuais estimulam no imaginário social enquanto experiências estéticas? II) Como essas experiências provocam o público a provarem novas vivências emocionais e ontológicas, gerando uma reorganização do imaginário social, da produção e do consumo da ficção audiovisual contemporânea? Não podemos deixar de frisar que, a priori, o que nos interessa como objeto de estudo são os produtos audiovisuais que permitem ao espectador/usuário/interator (EUI) agir e interagir pela: condução narrativa da história; opção de acompanhar o ponto de vista do personagem escolhido – narrativas audiovisuais multilineares e/ou multissequenciais e/ou multiformes, que possuem ramificações em suas histórias, sejam eles convergentes, que possuem mais de uma opção de caminho a ser seguido, mas que sempre levará o EUI a um final único, ou divergentes, que além de possuir mais de uma opção de caminho, também possuem mais de um final –; ou o acesso a con-

351

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

teúdos complementares por meio da interatividade, através do uso de mouse, teclado, joystick, tela sensível ao toque, ou um embrionário sensor de movimento em suportes como os tablets, ou mesmo por meio de sensores que captam movimento e/ou voz como o kinect para o vídeo-game X-box 360, da Microsoft. Como exemplo temos: I) A Gruta (2008), o filme interativo do brasileiro Filipe Cotijo que possui 11 (onze) finais diferentes e 30 (trinta) possibilidades de interação. Onde, a interatividade se dá por links textuais nos quais se podem escolher as ações dos personagens e conduzir a narrativa e/ou ponto de vista dos personagens e; II) a série de quatro filmes interativos chamada Touching Stories (2010), aplicativo desenvolvido para o iPad, na qual a interação se dá tocando, balançando e girando o próprio equipamento. Desse modo, se pode navegar, abrir e revelar variações em cada uma dessas histórias. Como fundamentação teórica, partimos da reflexão de que as novas mídias digitais são estruturas híbridas que nascem de composições textuais distintas (assumindo por texto, aqui, qualquer produto semiótico), ou seja, são metatextos. O que nos leva à reflexão do que Edgar Morin chama de um macroconceito. Também encontramos em Gilles Deleuze e Felix Guattari, outro caminho de fundamentação teórica através da Filosofia. Para eles a Filosofia, máquina geradora de conceitos, se constrói em diálogo com campos que não são os seus. Ela se faz em diálogo com as descobertas científicas e tecnológicas, com os perceptos e afectos da literatura, do cinema e demais artes narrativas, assim a filosofia gera seus conceitos.

352

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A partir dos estudos da narrativa em novas mídias, transmidiação e hipermídia – Manovich; Murray; Simons; Gosciola, Fechine e etc. – de um levantamento sobre teorias, pesquisas e abordagens nas áreas de narratologia – Barthes; Eco; Vogler, entre outros – e da ludologia (game studies) – Ryan; Jull; Frasca e etc. –, buscamos investigar a emergência da noção de texto por referência à de máquina: a noção de cibertextualidade. E por esta em relação à hipermídia (meio e linguagem). Destacamos também a importância da ludologia no contexto do estudo das narrativas clássicas (orais, literárias e fílmicas) para analisar esses novos conjuntos sensíveis capazes de resignificar o eu e o outro na realidade contemporânea.  Por isso, também nos é caro a noção de ludificação – a incorporação de elementos e mecânicas de jogos para enriquecer contextos diversos normalmente não relacionados a jogos. Em particular, nos interessa o contexto relacionado à experiência sensível proporcionada a partir dos filmes interativos. É pertinente reiterar que a digitalização dos meios de comunicação e a convergência e integração entre as mídias iniciaram um novo momento de experimentação de novas linguagens e formatos audiovisuais: A possibilidade de misturar o audiovisual com estruturas cibertextuais para se obter uma narrativa fílmica interativa. Por fim, e não menos importante, destacamos que o projeto apresentado possibilita um estudo interdisciplinar a partir do diálogo com pesquisas realizadas por professores, mestrandos e doutorandos dos Programas de Pós-graduação em Comunicação Social, Design e Informática. Inclusive já existe

353

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

parcerias e debates entre essas áreas do conhecimento diretamente envolvidas no desenvolvimento dos jogos digitais, e aplicativos interativos para a hipermídia e a TVi nos Programas de Pós-graduação da UFPE.

354

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO B 50 Dispositivos Interacionais & Circuitos de Comunicação José Luiz Braga

1. Introdução Essa é uma questão de trabalho delicada – pois uma determinada interpretação de seu sentido implicaria defender a importância e a originalidade daquilo que estamos pesquisando – para o quê nos faltaria provavelmente distanciamento. A efetiva contribuição de uma pesquisa ou de um encaminhamento reflexivo depende do acolhimento, dos usos e da processualidade agonística que a área de conhecimento resolva dar às questões, procedimentos e resultados da pesquisa. Em outro ângulo, porém, a questão em debate no II Encontro evidencia toda sua relevância. Trata-se, aqui, de fazer observar o que uma pesquisa está tentando gerar. Em vez de simplesmente mostrar o que estamos pesquisando, devemos refletir sobre sua especificidade e explicitar, para além dos objetivos próprios de conhecimento a respeito de seus objetos em investigação, o sentido dessa busca enquanto conheci-

355

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mento comunicacional. Ou seja: qual o “ângulo específico de entrada” da pesquisa no espaço de reflexão da área. A diferença entre apenas mostrar a pesquisa e explicitar tais reflexões é sutil. Trata-se, no segundo caso, ainda de mostrar a pesquisa – como o fazemos em geral em todas as circunstâncias em que exista essa possibilidade ou requerimento – em congressos, seminários, proposições da pesquisa para agências de fomento, relatórios subsequentes, reuniões de linha ou grupo de pesquisa; ou bancas de defesa, quando somos mestrandos e doutorandos. A pergunta que nos foi oferecida para esse encontro especial exige, porém, um pequeno deslocamento de nosso próprio olhar sobre a pesquisa. Devemos dar um passo atrás para ampliar o campo de visão – e perceber a pesquisa como uma ação relativa ao campo de conhecimento em que se inscreve. Em síntese, mais que defender a oferta (o que corresponderia àquela interpretação do primeiro parágrafo, referida como de execução delicada), trata-se de esclarecer a oferta que toda pesquisa por definição faz, refletindo sobre que conhecimento é este. Esse gesto de esclarecimento já qualificaria a reflexão como um movimento de ordem epistemológica. 2. A pesquisa em andamento A pesquisa que tenho em andamento (2011-2016) denomina-se “Dispositivos Interacionais – estudo de casos em contexto de mediatização”. É importante evitar a interpretação

356

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

de que “dispositivos”, aqui, se refeririam a meios ou tecnologias. Diversamente, entendemos “dispositivos” como sistemas de relações, em sentido foucaultiano; como matrizes organizadoras dos episódios comunicacionais que os acionam. Para o estudo desta questão, proponho hipóteses sobre o conceito de “dispositivo interacional”, sobre aspectos tentativos da comunicação, sobre relações entre “código” e “inferência” nos dispositivos e sobre os circuitos em mediatização. Assinalando a variedade de tipos de dispositivos e circuitos, a pesquisa trata de analisar um pequeno número destes: de comunicação crítica; de experiência estética; de aprendizagem; de processos acadêmicos; de ação social; de interação polêmica; de produção colaborativa; de formação de comportamento; de apoio psicológico; de articulação entre meios de massa e redes sociais, entre outros. São tomados casos singulares correspondentes. Cada caso é investigado por meio de análise performativa, como processo para perceber as lógicas implícitas das práticas observadas. O objetivo é caracterizar os fenômenos comunicacionais e perceber componentes relevantes de cada interação e seu sistema de relações, descrevendo as tentativas dos processos e de suas articulações com o contexto. Para o desenvolvimento desse programa, o ponto de partida é um conjunto de proposições em elaboração desde pesquisas anteriores, já complementadas nas investigações em curso. São adotadas como bases heurísticas para o trabalho descritivo-inferencial dos observáveis as seguintes perspectivas: 1. A comunicação é sempre uma ação entre participantes – o modo pelo qual a sociedade produz seus varia-

357

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

2. 3.

4.

5.

6.

358

dos processos interacionais viabiliza o funcionamento de ambientes de articulação, dando espaço (parcialmente normatizado) para os participantes sociais exercerem suas estratégias de fala e de escuta. A comunicação é tentativa – se realiza probabilisticamente, com graus variados de “sucesso”. O episódio comunicacional, que é a comunicação singular, se desenvolve no âmbito de “dispositivos interacionais” produzidos em processo histórico e acionáveis nos contextos específicos dos participantes. Os dispositivos interacionais, por sua vez (assim como os códigos, para-códigos e sistemas de normas acionados em uma interação) são gerados, desenvolvidos, mantidos e transformados pelos próprios episódios interacionais que tentativamente os exercem, em sua tática para ampliar a probabilidade de resultados de interações sociais sucessivas. O conceito de “código”, em comunicação, deve ser alargado, para abranger todas as normas, regularidades e informações – que aparecem como elementos compartilhados entre participantes de uma interação ou que possam servir de referência comum a estes, mesmo por acionamentos díspares. “Códigos” são sempre necessários para o processo interacional; mas, mesmo na concepção alargada proposta acima, são insuficientes, dependendo ainda de inferências ad-hoc.

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

7. É preciso, porém, evitar um dualismo entre códigos e inferências, como se fossem coisas não só diferentes mas também mutuamente impenetráveis. A comunicação é transformadora dos códigos que viabilizam a interação porque estes não são outra coisa senão o estado provisório das coisas já compartilhadas. 8. Em cada episódio interacional, mesmo os mais simples, entra em cena uma pluralidade de códigos, com ponderação relativa não pré-estabelecida. 9. Uma apreensão abrangente do comunicacional não pode esquecer a escala em que a comunicação é criadora de códigos. Mesmo fazendo uma distinção entre comunicação fraca (usuária de códigos) e uma comunicação forte (criadora, transformadora), a diferença entre elas é apenas de escala, de perceptibilidade, de intensidade temporal. 10. Os dispositivos interacionais são modulados pelos contextos e processos institucionais específicos em cujo ambiente ou referência se desenvolvem. 11. A circulação comunicacional deve ser pensada para além do “círculo curto” de “manifestação/resposta”. É sobretudo um fluxo contínuo “adiante” que, embora produza retornos e “contrafluxos”, não se organiza em termos de um “ponto de partida” e um “ponto de chegada”. 12. Cada setor da sociedade participa de circuitos múltiplos. Os circuitos interacionais alargados da sociedade em mediatização atravessam campos sociais estabele-

359

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cidos, modificando sua “esfera de legitimidade” e sua capacidade de refração – e isso ocorre inclusive no que se refere ao “campo dos media”. Proposições deste tipo não têm pretensão explicativa a respeito da Comunicação. Trata-se, expressamente, de hipóteses inferidas em processo abdutivo, formuladas de modo a serem utilizadas como estimulação heurística, para gerar novas perguntas e observações mais finas. É sobre os observáveis empíricos que essas hipóteses são testadas – não para confirmar sua pertinência, e sim para aperfeiçoar e substituir conforme a solicitação do que se perceba na ocorrência interacional em estudo. Esse é, aliás, o modo de derivação das proposições e perguntas até agora elaboradas. 3. O sentido dessa perspectiva enquanto “busca de conhecimento comunicacional” Em um campo de conhecimento em formação (sem bases teóricas abrangentes e consensuais, como referência de partida), entendo que o fenômeno comunicacional ocorrente na prática social é o que deve ser observado, para a reflexão e para a inquirição. Por mais que existam preferências diversificadas sobre os ângulos pelos quais esse fenômeno complexo deva ser observado, estamos todos convencidos de sua existência; e temos perspectivas de senso comum a seu respeito. Trata-se, então, nessa linha reflexiva, de refletir sobre o senso comum, buscando ir além dele na caracterização do

360

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

fenômeno. As descobertas e proposições feitas sobre essa base permitirão, nos debates da área, elucidar sua produtividade epistemológica e aperfeiçoar as próprias percepções, propostas e conceitos tentativos desenvolvidos. Creio que a interação social é o objeto mais produtivo e abrangente, em sua diversidade, como fenômeno no qual podemos encontrar pistas sobre o “comunicacional”. Para trabalhar esse objeto, procuro observá-lo em duas configurações principais, enquanto “dispositivos interacionais” e enquanto “circuitos de comunicação”. Essas duas configurações viabilizam inquirições muito diversificadas – o que é necessário, dada a variedade de modos de aparição do fenômeno. As bases reflexivas de explicitação desses dois conceitos têm servido como heurística para minhas observações; e estas, por sua vez, têm direcionado aquelas reflexões. Algumas das proposições heurísticas assim trabalhadas são aquelas listadas acima, no item 2 deste texto. Um segundo ângulo de abordagem complementa esse trabalho de caracterização do fenômeno. Com base em algumas referências histórico-filosóficas sobre produção de conhecimento em áreas novas (Alain, 1947: 295-304), considero que um trabalho necessário, no âmbito da comunicação é o desenvolvimento de perguntas e hipóteses que estão fora do horizonte de percepção das disciplinas de Ciências Humanas e Sociais estabelecidas. Assim, aquele modo de caracterização do fenômeno comunicacional não tem o objetivo de propor uma teoria explicativa da comunicação. Volta-se antes para estabelecer bases mínimas sobre as quais possam ser feitas

361

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

perguntas tentativas (não chanceladas pelas disciplinas vizinhas). É por esse processo que a pesquisa busca desentranhar o comunicacional. O que tenho em elaboração, portanto, corresponde a uma construção reflexiva sobre aqueles ângulos bastante abrangentes a respeito de um fenômeno referido, através de conjecturas que funcionam como movimento heurístico – isto é, servem de base para desenvolver perguntas que, por sua vez, levam a novas hipóteses; que viabilizam ainda outras perguntas. Nesse jogo sucessivo, a expectativa é a de uma apreensão crescentemente aprofundada de características do fenômeno; de realização de correções de percurso; e de alguns desenvolvimentos reflexivos mais abstratos, em nível conceitual. Os artigos em que tais perspectivas vêm sendo desenvolvidas são os seguintes: Braga, José Luiz. Comunicação, disciplina indiciária. Matrizes, Ano 2, vol. 1, série 2. São Paulo: ECA/USP, p. 73-88, 2008. _____. “Comunicação é aquilo que transforma linguagens”, Alceu, PUC-RIO, vol. 10, série 20, p. 41-54, 2010. _____. “Experiência estética & Mediatização”, in Souza Leal, Bruno; Mendonça, Carlos; Guimarães, César (orgs.). Entre o sensível e o comunicacional. Belo Horizonte, Autêntica, p. 73-87. 2010. _____. Nem rara, nem ausente – tentativa. Matrizes, Ano 4, nº 1, jul./dez. São Paulo: ECA/USP, p. 65-81, 2010.

362

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

_____. Dispositivos Interacionais. Apresentado ao Grupo de Trabalho Epistemologia da Comunicação, no XX Encontro da Compós. Porto Alegre, UFRGS, 2011. Disponível em . _____. La política de los internautas es producir circuitos. In Carlón, Mario e Fausto Neto, Antonio (orgs.) Las políticas de los internautas, Editora La Crujia, Buenos Aires, Argentina, 2011. _____. “Uma teoria tentativa”. E-Compós, vol. 15, série 3, p. 1-17, 2012. _____. “Circuitos versus campos sociais”, in Mattos, Maria Ângela; Janotti Júnior, Jeder; Jacks, Nilda (orgs.) Mediação & Midiatização. Salvador, EDUFBA, p. 31-52, 2012. _____. “Interação como contexto da comunicação”. Matrizes, vol. 1, série 6. São Paulo: ECA/USP, p. 25-41, 2012. _____. “O que a comunicação transforma?” (inédito)

363

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

51 Dispositivos interacionais “psi” na sociedade em midiatização Monalisa Pontes Xavier No contexto da sociedade em acelerado movimento de midiatização, nos deparamos com uma série de transformações que atravessam os mais variados campos sociais, redefinindo-os segundo emergentes lógicas de funcionamento e regulação social. À medida que a mídia passa a atuar como processo interacional de referência (BRAGA, 2006), se capilarizando em tantos espaços quanto possível e promovendo outros modos de interação social, atentamos para a importância de olhar para os processos que neste espaço se configuram, a fim de compreender os dispositivos tentativos que os fazem funcionar, bem como os próprios campos que tendem a se movimentar nos tensionamentos, muitas vezes se reconfigurando, seja nos limites de suas próprias fronteiras, seja nos agenciamentos produzidos com outros campos, dos quais resultam construções híbridas. Um exemplo dessas construções híbridas é o que ocorre com o campo social “psi” que, como tantos outros campos sociais, se viu atravessado por novas circunstâncias que findaram por colocar em movimento suas regularidades. Os “peritos da subjetividade” passaram a constituir experiências sociais de produção de circuitos e de dispositivos interacionais que estão continuamente conduzindo a questionamentos de seus tradicionais códigos de interação no contexto da midiatiza-

364

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ção. Assim, outras interações e outros dispositivos vão sendo tentados, testados, inventados, abandonados, recriados, miscigenados no espaço dos agenciamentos constituídos entre esses saberes e as instâncias de mídia. É o que ocorre quando a produção de informação/conhecimento “psi” se faz presente em sites que se proliferam cada vez mais rápido, em inúmeras revistas femininas, em programas de rádio, em quadros em programas de tevê, em jornais de grande circulação local e/ou nacional, etc. Com isso, no espaço dessas construções midiatizadas, a circulação de saberes e práticas “psi” aponta para significativos indícios de alterações nos modos de comunicação que a sociedade cria e nos conduz a pensar por novos olhares os insurgentes e proliferantes dispositivos interacionais que delineiam as tentativas invenções sociais para comunicar. Dentre eles, situamos um amplo conjunto de âmbitos de circulação dos saberes e práticas “psi” na sociedade em geral, que abrange desde livros a situações cotidianas de tensão social, passando por congressos, debates, demandas sociais, problemas “psi” socialmente formulados, discussões abrangentes de sofrimentos, patologias, relações entre sofrimento e cultura, interfaces com a filosofia, o senso comum e/ou a auto-ajuda, espaços interativos de sites e serviços de atendimento online, publicações jornalísticas e matérias televisivas, entre tantos outros espaços de circulação, a partir do qual selecionamos nosso observável, que diz respeito a produções “psi” presentes na mídia que apontam para uma possível transformação da consulta.

365

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Para falar da consulta transformada vamos nos ocupar dos agenciamentos entre campos, que é uma criação própria da sociedade em midiatização e sintetiza as experimentações que conduzem a coisas novas, a descobertas, a atualizações, a validações em diferentes contextos, fazendo vivo o conteúdo de nossa investigação e livrando-o de se tornar obsoleto frente à historicidade do mundo. Nesta sociedade, como sabido, dentre os inúmeros dispositivos interacionais insurgentes, destacamos os que caracterizamos como dispositivos interacionais “psi”, ou seja, aqueles que promovem um certo tipo de interação pautada na abordagem de questões referentes a conteúdos de ordem psíquica e/ou subjetiva. Aconselhamentos amorosos e comportamentais, soluções de problemas de relacionamento, respostas para conflitos interpessoais e de sexualidade, auxílio no controle das emoções, prescrições de modos de ser e bem-estar, dúvidas sobre condutas e criação de filhos, entre tantos outros fazeres que se proliferam resguardados pela legitimidade de um perito “psi” e popularizam os saberes e práticas assim caracterizados, tornando-os acessível ao grande público e, assim, passando a participar da constituição de modos de ser, da produção de subjetividade. Este tipo de interação, no cenário da midiatização, se desloca para ambiência midiática, marcando também um deslocamento de objeto e de processos que nos leva a afirmar a existência de uma modalidade de consulta que passa a coexistir com o formato canônico, a qual estamos nomeando “consulta transformada”.

366

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Ilustrativos da situação interacional que é a consulta transformada são: a coluna Vida Íntima do Jornal o Globo, de autoria do psiquiatra, psicanalista e literato Alberto Goldin, a participação consulente da psicóloga Anahy D’amico no Programa Casos de Família, do SBT, e o circuito psicológico elaborado por Olga Tessari em seu site www.ajudaemocional.com. Nos três casos pesquisados, nos deparamos com uma prática deambulante que se inscreve no entre espaço do aconselhamento, da autoajuda e da afirmação perita resguardada pela titulação de profissional “psi”. Os mesmos nos levam a problematizar a transformação da prática nestes espaços vigente, chamando-nos a atenção para a especificidade da interação que aí se erige, bem como para os tensionamentos de campo estabelecidos, que vão marcar as singularidades dos campos sociais envolvidos – Psicologia/Psicanálise e Comunicação – na atualidade. Goldin recebe cartas de seus leitores e responde aos conflitos que os afligem. Nas respostas, uma espécie de crônica pautada em significativos referentes do fazer psicanalítico, com acionamentos teóricos e técnicos que, ao mesmo tempo em que o diferem do literato, o aproximam de algumas regularidades canônicas que garantem o marca do psicanalista na coluna. D’amico, por sua vez, já se apresenta no programa Casos de Família como a psicóloga responsável pela mediação e emissão de parecer perito a respeito dos casos apresentados, sendo sua fala uma espécie de finalização técnica – um misto de prescrição e aconselhamento – dos problemas exposto no dia. Por fim, Olga Tessari é autora de um site de ajuda psicoló-

367

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

gica – como ela própria nomeia – que oferta os mais variados serviços: consulta mediada por computador, aconselhamento, leituras, palestras, vídeos, participação em programa de rádio e web-tevê, entre tantas outras possibilidades de ajuda psicológica mediada por recursos tecnológicos. Os três profissionais desenvolvem práticas em ambientes que tensionam a forma tradicional de fazer Psicologia/ Psicanálise, embora exemplifiquem abordagens contemporâneas das questões psíquicas frente às quais o próprio conselho profissional da categoria – Conselho Federal de Psicologia – passa a se posicionar a respeito, como é o caso da Resolução 12/2005, que regulamenta em termos experimentais o atendimento psicológico mediado por computador. Temos que dispositivos de interação são tentados, ganham evidência e buscam legitimação nos diferentes contextos. Cabe-nos, diante disso, buscar compreender a produção desses dispositivos de interação que passeiam na interface das questões “psi” no que se refere aos modos possíveis de interação por eles proporcionados na sociedade contemporânea. A partir desta proposta, acreditamos estar em consonância com um objetivo maior que é o de refletir sobre o campo da Comunicação no momento em que este se encontra. Ao transpor as elaborações próprias à Comunicação, pensando suas afetações e reverberações nos múltiplos espaços de produção de conhecimento e delineamento de práticas contemporâneos, a partir de um estudo de interface, embora não figure como novidade, nos parece importante para problematizar a área de conhecimento em questão e assim fazê-la

368

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

avançar, renovando o olhar direcionado para ela, bem como a forma de estudá-la, na medida em que o balizamento sobre este processo se desloca do que a Comunicação nos diz sobre ela mesma para o que as incidências da Comunicação nos espaços sociais nos diz sobre este campo de saber. Isto se justifica na medida em que concebemos que os processos interacionais, ao mesmo tempo em que nos falam de uma produção socialmente circulante, também caracterizam a Comunicação. Logo, ao assumir como ângulo de entrada na pesquisa em Comunicação o olhar pela interface que produz um tipo distinto – talvez novo – de interação, cremos estar, em grandes linhas, falando das apropriações sociais dos dispositivos e processos interacionais, da produção de modos de ser e das complexas dinâmicas de relação entre a mídia e a sociedade, ou seja, estamos pensando o próprio movimento de midiatização da sociedade em sua articulação com os processos sociais. Novidade aí não nos parece ser a renovação de olhar ou a forma de estudar, até porque em se tratando de um campo aberto, em processo contínuo de constituição, talvez seja difícil – se não desnecessário – marcar a novidade, muito embora este novo se concretize nas mais variadas tentativas e criações que daí possam brotar, já que o lugar de intercessão entre os campos em questão aponta para o devir: devir interagir, devir comunicar, devir “psi”.

369

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

52 Fé na mídia: a busca de legitimidade e autenticidade da IURD via TV Record Heinrich Araujo Fonteles

Resumo expandido: A fé nas imagens da mídia (IURD-TV Record) demonstra, não só a atualidade do fenômeno religioso, que, na superfície da magicização, exacerba o processo do desencantamento do mundo com uma aparência de um recrudescimento do encanto da fé, mas também ilustra a forma pela qual os diversos segmentos sociais e religiosos podem ser reconhecidos na cultura: via mobilidade virtual. As práticas e ações comunicacionais das neorreligiões apontam, descrevem e exemplificam esse fenômeno da midiatização da comunicação religiosa, o qual se pode nomear como fé na mídia. O estudo apresenta as mudanças implementadas na Rede Record pela IURD a partir de 2006 para ter mais legitimidade e autenticidade na sociedade brasileira ao promover um pseudo afastamento da religiosidade ao focar-se nas imagens calcadas no telejornalismo. A aposta no jornalismo é uma busca por legitimação e mais autenticidade, mas isso não aconteceu por acaso, e sim como estratégia deliberada, visto que a entidade dissimula a ideia de um afastamento religioso ao não usar o veículo como meio de propagar uma mensagem dominantemente religiosa. Esta foi

370

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

transferida para o horário da madrugada e para espaços comprados em outras emissoras. Esse percurso demonstra como um campo social faz usos de diferentes meios e estratégias para se firmar na cultura, reproduzindo esse sistema econômico midiático, legitimando seus suportes dominantes, na medida em que, como componente das representações sociais, deposita fé neles. Assim, o uso do processo da realidade e da religiosidade exposto por Flusser (2002) interessa na medida em que o campo social (religioso ou midiático) precisa se impor para proteger/esconder o outro. A ida da IURD para a TV (representativa desse fenômeno das tele religiões) faz com que esta opere por meio das imagens visuais à distância, sentidas por um esquema de proximidade (jornalismo), camuflando as complexidades inerentes das proximidades. Assim, observa-se como o campo religioso saiu da periferia das decisões (burgo) para a centralidade da vida moderna, fazendo usos dos meios modernos de comunicação, enaltecendo e justificando um paradigma econômico que se encontra em exaustão. A pesquisa fundamentou-se nas teorias da imagem e mídia para tentar explicar e entender a cultura imagética por que passa a contemporaneidade, na qual tanto o segmento neopentecostal, matriz da IURD quanto a mídia, retratada pela mídia e jornalismo atual, expressam a atualidade do fenômeno da passagem do texto escrito para as imagens técnicas propostas por Flusser e que essas mesmas só tem adquirido poder por que se estruturam em mídia terciária teorizada por Pross. Por fim, as imagens visuais técnicas ascenderam a uma categoria na qual parecem substituir as narrativas míticas. E essa substituição favorece um

371

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

esquema de continuidade e sobrevivência do segmento religioso no paradigma de mercado, numa cultura calcada na imagem midiática. A IURD e as demais neorreligiões nesse esquema expõem um momento histórico da crise entre texto e a imagem. Imagem midiática que sinaliza uma nova relação do sujeito com a fé. Fé esta que confia na mídia como estratégia de sobrevivência. Palavras-chaves: Fé na Mídia; TV Record; IURD

372

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

53 Intermitências do epistemológico na constituição das Teorias da Comunicação Luís Mauro A interpretação das questões disciplinares e institucionais da área de Comunicação como um problema epistemológico é um dos principais desafios do Projeto de Pesquisa “Teorias da Comunicação: Processos, Instituições e Epistemologia”, desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa Mídia, Instituições & Poder Simbólico, do PPG em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero. Em linhas gerais, a proposta poderia ser descrita como uma oportunidade de apreender alguns dos processos de institucionalização das questões epistemológicas da área, tal como se apresentam, em particular, no ensino da disciplina Teorias da Comunicação. Embora a princípio esse problema possa ser tomado como uma questão vinculada a uma pedagogia da Comunicação, o vínculo que se busca aqui não é pensar a questão como um problema de ensino-aprendizagem, mas de observar como as questões epistemológicas efetivamente se inscrevem dentro do discurso de uma disciplina fundamental dentro dos cursos de Comunicação. É possível dizer que a visibilidade das problemáticas epistemológicas trabalhadas em revistas acadêmicas, grupos de pesquisa e, em particular, no GT Epistemologia da Comunicação da Compós, de alguma maneira encontra sua objetivação no momento em que orientam, ou podem orientar, a definição do que será efetivamente construído como o “canon” da área. Na medida em que a visibilidade desse

373

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

“canon” deve ser haurida de algum lugar específico, é possível eleger uma disciplina acadêmica específica como eixo ao redor do qual se desenvolvem as questões de pesquisa. Uma das premissas fundamentais da pesquisa, desenvolvida a partir de trabalhos preliminares, é a ausência de consensos a respeito de questões epistemológicas básicas da área de Comunicação (Martino, L. M. S., 2008; 2011). Há inúmeros aportes, conceitos e teorias vinculadas aos estudos da área, bem como diversas proposições a respeito dos temas e objetos de estudo, métodos e problemáticas. Mesmo sua constituição disciplinar/interdisciplinar é objeto de dissenso, assim como a validade de determinados aportes epistemológicos diante dos cenários midiáticos que se apresentam diante da investigação em Comunicação. Essa pluralidade, sem dúvida, pode ser vista como um indício da vitalidade da área, sobretudo quando se observam os caminhos tomados pelas discussões epistemológicas desde o início dos anos 2000. Nota-se, mesmo sem uma pesquisa exaustiva, na observação das discussões institucionalizadas nos espaços de discussão, como revistas acadêmicas e os Encontros da Compós, entre outros, a definição de alguns caminhos, as mudanças de foco a respeito do que deve ser discutido, a inclusão/exclusão de temas referentes ao universo das pesquisas em Comunicação. Dessa maneira, se em perspectiva sincrônica nota-se uma pluralidade de abordagens, uma observação diacrônica revela igualmente uma genealogia de debates, proposições diversas e debates que sugerem uma pluralidade de vozes no propósito de se pensar, em termos quase metalinguísticos, o próprio saber da área.

374

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Essas discussões, no entanto, ganham uma dimensão específica quando se pensa nas demandas de objetivação institucional desses saberes, observáveis sobretudo na constituição de disciplinas acadêmicas que serão responsáveis por compartilhar com os quase dois mil estudantes de Comunicação que se graduam todos os anos nas diversas habilitações o que é o pensamento da área. Pensar a comunicação, nesse sentido, não está desligado de se estudar a Comunicação, na medida em que a organização disciplinar dos saberes não está desligada das discussões a respeito do que é ou não constitutivo dos espaços de investigação da área. A escolha dos saberes que devem convergir no espaço de ensino e pesquisa deriva de critérios e premissas referentes às considerações de validade desses saberes; ao escolher determinados conceitos ou autores para compor um programa de ensino ou para balizar uma disciplina teórica, pesquisadores e professores deparam-se com o desafio epistemológico de distribuição dos espaços de luz e de sombra a determinados saberes, definindo, ainda que de maneira tentativa e provisória, o que constitui a base teórica dos saberes da área – veja-se, por exemplo, Sholle (1995) ou Silva (2006). Os critérios de escolha de alguma maneira indicam a articulação dos indivíduos e instituições com o espectro de saberes da área, tecendo uma intersecção ambivalente entre o institucional e o epistemológico, como recordam Sánchez e Campos (2009) ou Lozano e Vicente (2010). A questão reveste-se de especial destaque quando se pensa, nesse aspecto, que o epistemológico, em seu vínculo com o institucional, não escapa das demandas técnicas, buro-

375

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cráticas, políticas e econômicas presentes nesse processo. A escolha de temas para compor uma disciplina acadêmica nem sempre é objeto de livre decisão por parte dos docentes e pesquisadores, por vezes levados a observar programações pré-definidas institucionalmente ou a partir de “demandas de mercado” que, em tese, teriam as condições de definir o que interessa ou não para determinada formação acadêmica. Se a pluralidade de pontos de vista referentes a uma epistemologia não deixa de ser, em si mesma, objeto de disputa pela definição de significados e valores, o espaço institucional pode dar outra dimensão a essa questão, amplificando-a, como recorda Braga (2006) ou, em perspectiva diferente, Mattos (2003), no terreno da formação. Por se tratar da definição de critérios de escolha referentes à constituição de saberes da área de Comunicação, a perspectiva aqui é trabalhar a institucionalização como um problema epistemológico. A eleição da disciplina “Teorias da Comunicação” como ponte entre o institucional e o epistemológico deve-se a uma série de fatores relacionados a várias instâncias. À beira do truísmo, seria lícito esperar de uma disciplina que traz em seu título nome da área acompanhado de uma indicação conceitual oferecesse um repertório teórico para se pensar as temáticas incluídas dentro dessa fronteira disciplinar, como definem Russi-Duarte (2010) e Luiz C. Martino (2007). No entanto, é nesse momento que o dissenso epistemológico se objetiva: a disciplina Teorias da Comunicação parece refletir as indefinições teóricas, metodológicas e conceituais da área, apresentando-

376

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

-se como um espaço privilegiado para se observar a inscrição desses problemas dentro do espaço institucional. Vale marcar uma diferença entre “Teoria da Comunicação” enquanto disciplina curricular e o problema do estabelecimento de Teorias vinculadas/pertencentes à área de Comunicação. Os dois problemas, no entanto, caminham paralelos, de maneira que seria no mínimo redutor pensar a questão do estabelecimento de Teorias da Comunicação, enquanto questão epistemológica, da disciplina “Teorias da Comunicação”, quanto mais porque esse é exatamente um espaço privilegiado de disciplinarização das discussões epistemológicas ou, em outros termos, sua inscrição em um conjunto de práticas e definições de práticas vinculadas a espaços institucionais. Certamente há, nos cursos de Comunicação, inúmeras “disciplinas teóricas” costumeiramente opostas “técnicas” ou “práticas”, que poderiam ser estudadas a partir do que se propõe. No entanto, vale observar que algumas dessas disciplinas, como Sociologia da Comunicação ou Psicologia da Comunicação parecem se constituir, ao menos pela observação dos nomes, na intersecção de outras áreas do saber constituídas, enquanto Teoria da Comunicação parece se direcionar na constituição de um núcleo de discussões, ideias e teorias específicas da Comunicação, critério a partir do qual se elege essa disciplina como eixo para o desenvolvimento das pesquisas. Nesse sentido, a observação das proposições epistemológicas, se por um lado pode se distanciar ligeiramente da perspectiva de uma discussão a respeito de método e objeto que

377

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

enfoque essas problemáticas em si, abre espaço para que se pense, em termos próximos de uma arqueologia institucional das práticas do saber, o que foi ou vem sendo considerado “epistemológico” dentro da área de Comunicação. Em termos mais amplos, se é possível ou mesmo desejável pensar em algum tipo de articulação próxima a essas questões, pode-se dizer que os padrões de institucionalização de uma área são articulados e interseccionados com suas problemáticas epistemológicas na medida em que essa relação não se firma apenas sobre uma base política, econômica, de campo ou paradgimática, no sentido que uma “sociologia da ciência”, no sentido de Bourdieu (2006), ou uma “arqueologia”, na perspetiva de Foucault (2001) poderia propor; pensar a institucionalização como problema epistmeológico significa, neste caso, observar como as indagações a respeito de método, objeto, limites e fronteiras teóricas de uma área se articula com as questões institucionais. Para usar os nomes e as coisas, partir da Epistemologia da Comunicação para observar a elaboração das Teorias da Comunicação, seja como quadro teórico de referências, seja como disciplina acadêmica. Referências BOURDIEU, P. Os usos sociais da ciência. São Paulo: Unesp, 2006.

378

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BRAGA, J. L. Ensino e pesquisa em Comunicação:da teoria versus prática à composição contexto & profissão. Comunicação & Educação. 12(2), Maio/Agosto 2007. FOUCAULT, M. História da Sexualidade. Rio de Janeiro: Graal, 2001. LOZANO A., C. y VICENTE M., M. (2010): La enseñanza universitaria de las Teorías de la Comunicación en Europa y América Latina. Revista Latina de Comunicación Social, 65. La Laguna (Tenerife): Universidad de La Laguna, pp/ 255 a 265 MARTIN ALGARRA, M. La comunicación como objeto de estudio de la teoría de la comunicación. Anàlisi 38, 2009, pp. 151-172. MARTINO, Luiz Cláudio.Uma questão prévia: Existem Teorias da Comunicação? XXX Congresso da Intercom. Santos – SP, 2007. MARTINO, L. M. S. A disciplina interdisciplinar. Texto apresentado no GT Estudos Interdisciplinares no XVI Intercom Sudeste. São Paulo, 10 a 12 de maio de 2011. MARTINO, L. M. S. A ilusão teórica no campo da comunicação. Famecos, no.38. Junho-. Agosto. Porto Alegre, 2008. MATTOS, M. A. Paradigmas, teorias, modelos constitutivos da formação teórica em Comunicação Social. Trabalho apresentado no Núcleo de Teorias da Comunicação, XXVI Congresso da Intercom. Belo Horizonte/MG, 02 a 06 de setembro de 2003.

379

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

PINEDA, M. Los paradigmas de la comunicación; nuevos enfoques teórico-metodológicos. Diá-logos de la comunicación, pp. 264-271. RUSSI-DUARTE, P. Por que ensinar teorias (da comunicação)?. Trabalho apresentado no XXXII Congresso da Intercom. Curitiba: Universidade Positivo, 2009. SÁNCHEZ, L. e CAMPOS, M. La Teoría de la comunicación: diversidad teórica y fundamentación epistemológica. Dialogos de la Comunicación. No. 78, Janeiro-Julio 2009, pp. 24-38. SHOLLE, D. Resisting Disciplines: Repositioning Media Studies in the University. Communication Theory, 5 (2), 1995, pp.130–143. SILVA, M. L. Currículo e ensino de comunicação. UNIrevista – Vol. 1, n° 3, julho 2006, pp. 12-25. TEMER, A. C. Teorizar é pensar a prática: uma reflexão sobre o ensino das Teorias da Comunicação nos Cursos de Jornalismo. Texto apresentado no 10º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo – Goiânia-GO – 27 a 30 de abril de 2007.

380

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

54 O Contato e as TIC em uma sociedade que se midiatiza Marcelo Salcedo Gomes Tendo em vista a “precisão cirúrgica” da questão central do evento: “Em que sua pesquisa pode renovar o olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la?” Propomos uma resposta organizada a partir de três eixos que correspondem a produção de nosso período de mestrado na linha de pesquisa Midiatização e Processos Sociais do PPG em Ciências da Comunicação da Unisinos (2011-2012). A divisão proposta, além de organizar de forma racional nossa possível contribuição ao campo da comunicação, serve de autoreflexão para o início de nosso processo de doutoramento. Tendo em vista a ênfase na questão de um olhar renovado, seccionamos nossa exposição em: I. Relato dos resultados achados em nossa dissertação de mestrado; II. Explorações sobre o papel das TICs em uma sociedade em midiatização e seu impactos na sociedade e na cultura e III. Proposta de uma caminho metodológicos para se entender as imagens a partir de uma interface entre semiótica peirceana e processos sociais. *** I. Nossa pesquisa de mestrado, que culminou na dissertação A midiatização do Contato nos retratos da National Geographic (GOMES, 2013), almejou algum grau de inovação, quando propôs compreender a representação fisionômica dos rostos e da presença humana nas fotografias da revista,

381

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

como pontencializadoras, não só de discursos midiáticos, mas também da dimensão preliminar de um certo tipo de “fotojornalismo de afecções” que se produz através do conceito de “Contato”. O Contato, em nossas elaborações, é uma qualidade, especificamente comunicacional, que certos tipos de retratos têm de despertar a nossa percepção do “outro”, mobilizada através da expressão do afeto no rosto e no olhar. Uma sensação pré-cognitiva de atração e proximidade com o rosto retratado que produz um nível de intimidade como se pudéssemos “ver suas almas”. É a midiatização de um olhar presente em determinados tipos de imagens em primeiro plano, viabilizada por processos de produção técnica, que tem como sua principal característica nos levar a alteridade que de outra maneira só ser realizaria presencialmente. Desta maneira nos (re)coloca na condição de observadores ativos, mesmo no regime de mediação fotográfica. Esta tendência ao reconhecimento da face como instância comunicativa primeira é algo que nos é inato, que faz parte da constituição do nosso aparelho psíquico e integra a nossa cognição. Neste sentido o Contato não é visto como fisicalidade, como algo que precisa estar ligado ou conectado, mais como uma função da própria comunicação. Este Contato, portanto, não é a expressão de um retrato em uma circunstância particular, mas a expressão da qualidade de uma comunicação mais genérica que desperta um conjunto de afetos que têm a potencialidade de tornarem-se ícones culturais. Há uma disposição psíquica para o Contato, é como se estivéssemos

382

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

preparados para nos comunicar, seja face-a-face ou através de mediações técnicas e, neste último sentido, caberia falar de midiatização do contato. Talvez o Contato que intentamos desvelar esteja relacionado com a necessidade de interação com o “outro”, que na sociedade midiatizada se realiza por meio de ligações socio-técnicas, cujas indícios se encontram nas materialidades dos retratos, ou seja, o signo imagético toma o lugar do “outro” na representação da fisionomia e da presença humana nas fotos. Suportado pela técnica, reproduz-se um Contato que é, originalmente, de origem sócio-antropológica, mas que aqui se (re)configura via dispositivo midiático para dar conta da falta deste outro presencial. Quando nos referimos a signo fotográfico, adotamos as concepções da Semiótica peirciana que nos permitiu pensar na dimensão do Contato como primeiridade, ou seja de uma qualidade fundamental da própria comunicação. Peirce chamaria de primeiridade do signo icônico, e que é um primeiro nível da estruturação da semiose comunicacional. Só a partir deste primeiro Contato se segue a estabilização da dimensão indicial da secundidade que atualiza o objeto no espaço/ tempo, para finalmente culminar na ordem do simbólico da terceiridade, na qual se daria a significação. Desta forma, parece que o Contato está mais relacionado com uma dimensão pré-significado, algo que estaria no nível da imagem-afecção, em Deleuze (1983). O trabalho originou-se de questionamentos que surgiram a partir de respostas obtidas em nossa pesquisa anterior

383

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

(GOMES, 2010). Apesar de nossas descobertas acerca de o porque as fotografias parecem “fantásticas”, a partir de um estudo sobre a produção fotográfica da revista, ainda nos intrigava o fato de que certos retratos possuem uma dimensão expressiva que sensibilizam o leitor independentemente dos processo de significação postos em marcha pelo discurso jornalístico. Na busca por algo que fizesse avançar a pesquisa, nos deparamos com questões epistemológicas de primeira grandeza. Se, por um lado, uma parte dos teóricos do campo da comunicação defendem que as fotografias só poderiam ser analisadas em seu contexto discursivo, conteúdo e representação, portanto submisso a certos pressupostos socio-antrológicos, outros trabalham com a possibilidade de compreender as fotografias em sua essência como imagem. Divergências à parte, nosso esforço foi de congregar alguns conhecimentos destes dois modos de pensar, construindo um modelo próprio que, por um lado, visa à descoberta das característica de certos retratos em primeiro plano, portanto ontológicas. E por outro se inscreve em um contexto sócio-histórico denominado midiatização, ou seja, o Contato que se estabelece através dos retratos da National Geographic é característica da sociedade midiatizada. A delimitação de nossa questão de pesquisa veio de inferências abdutivas a partir da observação dos próprios retratos nas páginas da revista. Percebemos, depois de muito observar os materiais, que na visualização do rosto humano em primeiro plano, produz-se uma experiência que sensibiliza o observador. É como se despertasse uma caracterísica comunicacional que

384

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

nos é inata, sem a preocupação de significar simbolicamente qualquer discurso. Por um momento se abstrai a situação espaço-temporal e a expressão da fisionomia vista em detalhes ampliados nos retratos ganha o valor intrínseco do todo, de uma qualidade fundamental que denominamos de Contato. Ciente de que estamos inscritos em um programa com área de concentração em Processos Midiáticos, não buscávamos um estudo de semiótica pura, ou de estética das imagens, ou de análise do discurso, ou ainda de sociologia/antropologia visual. O que almejávamos era uma compilação destes ou de outros conhecimentos disponíveis, que nos ajudassem a entender que possíveis características, presentes nas fotografias da National Geographic, asseguram sua autenticidade comunicacional. Alguns autores afirmam que, em boa medida, parte da representação que os norte-americanos constroem dos “outros” povos do mundo e de sua própria identidade, como apontam Lutz e Collins (1993) e Baitz (2004 e 2005) se apresenta através de signos imagéticos advindos da National Geographic durante mais de um século de publicação. Já Hawkins (2010), acredita que este processo é mais complexo, existindo mediações que permitem um maior diálogo entre a produção e a recepção. Nós poderíamos, outrossim, estudar o discurso jornalístico produzido pela revista, os processos de representação deste ou daquele povo, ou tentar “desvendar” a construção de sentido a partir de determinado tema ou grupo social. Ao invés disto, preferimos nos propor o desafio de descobrir o que há nas próprias fotografias, ainda que sirvam para potencializarem e referendarem os discursos ideológicos e culturais dos

385

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

veículos de comunicação, que lhe atribuem uma dimensão comunicacional tão expressiva a ponto de tornarem-se ícones da cultura globalmente midiatizada. É neste ínterim que se trata de um tipo específico de fotojornalismo que produz determinados discursos que afetam e são afetados pela sociedade (midiatização), mas que, simultaneamente, determinados tipos de fotografias da revista possuem uma dimensão que é um primeiro nível da estruturação de uma semiose comunicacional (Contato). E aí ocorre uma cisão com os estudos que assumem que toda fotografia de imprensa possui a mesma classificação e está necessariamente subsumida pelos discursos das mídias. Em boa medida, é isto que a pesquisa intenta desmistificar. Nem toda a fotografia de imprensa possui a mesma categoria, se analisada em termos semióticos. E nem mesmo as fotografias de um mesmo suporte, como a revista National Geographic, poderiam ser classificadas como homogêneas. Está certo que é o conjunto das fotografias, envolucradas em um dispositivo midiático denominado National Geographic Magazine juntamente com artigos, títulos, legendas, editoriais e todo projeto gráfico, que têm sido considerado como extraordinário ao longo do tempo. Todavia, podemos notar que há certos tipos de retratos que ganham notoriedade e extrapolam as páginas da revista, tornando-se verdadeiros ícones culturais, como é o caso da celebrada Menina Afegã. Estas fotografias, de uma antropológica midiatizada, digamos assim, desde as primeiras edições, retratam povos que “devem ser desvendados” pelos olhares ocidentais civilizados.

386

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Neste jogo de representações, o fotógrafo assume o papel do explorador, do desbravador de novos horizontes, aquele que aponta sua câmera para o desconhecido, enquanto os retratados assumem o papel do “outro”, do “quase selvagem” que causa estranhamento e admiração. Os retratos, mais que os demais grandes temas fotográficos da revista (vida animal, botânica, paisagens, objetos arqueológicos, inovações científicas etc), parecem trazer à tona com maior clareza a dimensão interacional em que opera a comunicação midiatizada. A representação da fisionomia humana através do rosto nos retratos é a forma mais expressiva de que o fotojornalismo pode dispor para tentar estabelecer afetos que serão não mais da ordem da inteligibilidade dos sentidos ofertados, mas da potencialidade de engendramento de sentidos a serem construídos no próprio fluxo comunicacional. A figura humana na imagem se constitui pelo processo de reconhecimento de uma identidade, que poderá ser de personalidade (personagens midiáticos consagrados) ou de tipo étnico, sendo que, na quase totalidade das vezes, na National Geographic será deste último, estabelecido através dos modos da presença do indivíduo na imagem: as vestes, o cenário, a pose, os gestos, a expressão corporal, a fisionomia facial etc. Além da tipicidade étnica, cada rosto humano representado nos retratos é portador da singularidade pessoal que ativa nossa capacidade psicológica de reconhecimento facial, uma das mais elaboradas faculdades humanas. Como afirmou Benjamin (1989, p. 102):

387

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

(...) renunciar ao homem é para o fotógrafo a mais irrealizável de todas as exigências. Quem não sabia disso, aprendeu com os melhores filmes russos que mesmo o ambiente e a paisagem só se revelam ao fotógrafo que sabe captá-los em sua manifestação anônima, num rosto humano. Mas essa possibilidade é em grande medida condicionada pela atitude da pessoa representada.

Nas imagens fotojornalísticas, entretanto, parece não ser possível analisar a representação fisionômica sem levar em conta o contexto no qual foi capturada a cena, que normalmente se refere a um regime discursivo complexo. O que significaria dizer que toda individualização dos sujeitos, possível na recognoscibilidade dos retratos nos álbuns de família, por exemplo, fica assimilado, no caso da fotografias de imprensa, à situação do instante fotográfico e sua dimensão espaço/temporal de significação. Todavia, há uma dimensão comunicacional em um tipo específico de fotografia, as imagens de “rosto em primeiro plano”, que parecem conter um vetor intrínseco a toda comunidade humana, que independe do contexto histórico para nos mobilizar os afetos (EKMAN, 1999). É como se este fenômeno fizesse parte da comunicação, independentemente do “realismo” da cena formada pelo discurso jornalístico, mas que não deixa de ser verdadeiro na medida em que existe na realidade empírica, pois nos afeta pela sua expressão e não pela sua significação, assim como o faz a arte.

388

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Diante do exposto acima, o foco da pesquisa recai sobre um conjunto de retratos da National Geographic (fotografias que contêm a presença de humanos) e sua relação com o aspecto comunicacional do fotodocumentarismo midiatizado da revista. A investigação buscou analisar de forma empírica a presença humana nas imagens e suas implicações no afeto e no sensível como também a dimensão pela qual a fisionomia dos rostos humanos em primeiro plano se constitui como uma espécie de Contato sensorial e psicológico, que opera dentro de um projeto midiático amplo. Percebemos, em nossas análise empíricas, que há uma tendência, observada pelo padrão da produção imagética da revista National Geographic, para a sensibilização do leitor acerca das fotografias do periódico. Essa sensibilização, no sentido mesmo de despertar emoção através da visualização de tais imagens, oferecida pela instância produtora, parece não decorrer apenas do conteúdo: diversidade cultural, étnica e sócio-econômica das pessoas retratadas; mas de um fenômeno que percebemos quando folhamos a revista e nos deparamos com fotografias em que há a presença de seres humanos, muitas das quais ocupam uma ou duas páginas inteiras da publicação. A técnica fotográfica utilizada, em muitos casos, estabelece uma espécie de intimidade entre observadores e retratados, principalmente quando produz grandes closes que mostram a fisionomia em detalhes tão particulares que, fora do universo fotográfico, só uma relação muito próxima poderia produzir.

389

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Não estamos afirmando que o Contato é uma característica dominante de todas as imagens da revista. Nota-se que são as fotografias de pessoas, denominadas de retratos, em que a busca pelo Contato fica mais evidente ou mais aparente. A “beleza melancólica”, encontrada no rosto humano, como observou Benjamin (1989, p. 174), seria a “última trincheira da aura”. Percebemos que em muitos destes retratos há uma dramaticidade que nos move em busca do “outro” (os olhos fixos em direção ao observador, a expressão enigmática que nos interpela, a naturalidade da cena, a ideia de que alguma ação está, esteve ou irá acontecer, a busca pela informação extra-quadro, a tentativa de adivinhar o pensamento do retratado na hora da tomada da foto), mas, ao mesmo tempo, ainda estão lá as informações sobre a cultura do ser fotografado, suas roupas típicas, seus acessórios, objetos pessoais e o próprio cenário que o distingue em seu contexto social e cultural. Desta forma, a questão da pesquisa foi: Qual é a natureza do Contato viabilizado pelos retratos da National Geographic? Partimos da premissa de que, na visualização destes retratos humanos, produz-se uma espécie de Contato que é de uma dimensão comunicativa abstrata que neutraliza, ou torna secundário em um primeiro momento, o contexto sócio-histórico em que foram produzidas. A partir da análise da fisionomia facial e da presença humana nos retratos étnicos da revista, pretendíamos entender a importância das implicações deste Contato na constituição do ato comunicacional e do seu papel no trabalho do dispositivo midiático.

390

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O estudo buscou refletir teórica e criticamente sobre as características, propriamente comunicacionais deste tipos de imagens midiatizadas, que dão sustentação ao discurso jornalístico (stricto sensu) e midiático (lato sensu), mas simultaneamente, possuem uma potência icônica de despertar afetos. Consideramos que a investigação colabora com os estudos teóricos sobre fotojornalismo, especialmente fotodocumentarismo da revista National Geographic e seus ícones globais, que, segundo nosso levantamento bibliográfico, mostraram-se raros não só no Brasil, como internacionalmente. Nosso trabalho almejou contribuir, com os estudos sobre a midiatização e os processos sociais, foco de nossa linha de pesquisa. A investigação, espera-se, deve colaborar com reflexões sobre a midiatização das imagens, em especial da fotografia de imprensa. A relevância deste trabalho está, sobretudo, na proposta de demonstrar que as imagens utilizadas na comunicação midiatizada, ainda que sirvam para potencializarem e referendarem os discursos ideológicos e culturais dos veículos de comunicação, possuem também uma dimensão de Contato que é própria da comunicação humana. *** II. Esta segunda dimensão se refere a pesquisas realizadas em interação com as reflexões da linha de pesquisa Midiatização e Processos Sociais, principalmente referentes a produção de 2 artigos a partir dos seminários: I Seminário da Escola de Altos Estudos – Fundamentos Sociais das TICs, com o Professor da Universidade de Grenoble, Dr. Bernard Miège; II Seminário da Escola de Altos Estudos/Capes, intitulado Mutação

391

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

da comunicação: Emergência de uma cultura da contribuição na era digital, com o professor Prof. Dr. Serge Proulx. Tais trabalhos, abrangem questões que propõe a investigação de questões novas sobre a midiatização e as tecnologias digitais. O primeiro artigo, Uma perspectiva sociotécnica das tecnologias da comunicação e informação e sua importância na constituição de uma sociedade midiatizada, discute a fundamentação sociotécnica das TIC na configuração da comunicação midiatizada contemporânea à luz do pensamento de Bernard Miège. A partir da definição de alguns conceitos como mídia e inovação, problematiza-se a pregnância dos discursos tecnodeterministas e a supervalorização de uma espécie de comunicação experimental viabilizada por atores sociais considerados revolucionários, mas que quando submetida a uma análise empírica mostra-se frágil. As tecnologias convertidas em meios parecem estar se encaminhando mais para a complementação do modelo comunicativo tradicional do que para lhe causar rupturas radicais. Contrariando um bom número de estudos realizados no Brasil, os quais assumem as chamadas “novas mídias” (ligadas principalmente a tecnologias digitais) como protagonistas na realização dos processos comunicativos contemporâneos, Bernard Miège (2009) considera que há uma certa euforia por parte de tecnólogos, representantes da indústria e do marketing, determinados atores sociais e pesquisadores de diversas áreas (informática, economia, administração etc; e mesmo da comunicação) ao realizarem seus prognósticos, muito mais

392

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sobre suas próprias crenças e esperanças do que sobre a análise empírica dos fatos. Miège nos alerta que, durante as últimas três décadas, alguns teóricos têm apostado suas fichas naquilo que denomina “tecnodeterminismo”, ou seja, na proliferação de discursos sociais que atribuem os problemas da comunicação/ informação às questões técnicas, como que acreditando que as “inovações” pudessem garantir uma espécie de revolução tecnológica e comunicacional que por sua própria constituição poderia arrastar a reboque processos e práticas sociais. De forma ponderada e consistente, Miège argumenta que as próprias concepções do que sejam estes “novos meios de comunicação”, tanto para as correntes francófonas denoninadas TIC (Techniques de l’information et de la Communication), quanto para as de origem anglo-saxônicas, chamadas New Media, parecem confusas e imprecisas. Nos parece evidente, portanto, que as mídias tradicionais estão implicadas com as TIC, na medida que estas últimas configuram uma complementaridade do modelo de comunicação já enraizado pelos denominados “meios de massa”. Reformulações sociotécnicas têm descolcado os estudos de comunicação para a dinâmica da circulação e do papel do dispositivo midiático nas construções de sentido e na organização social. Esta ecologia comunicacional, composta, tanto pelas mídias tradicionais (TV, rádio, Imprensa Impressa etc) como por novas “tecnologias convertidas em meios”, configuram uma nova ambiência comunicacional complexa, um

393

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

novo entorno midiático, que alguns teóricos estão chamando de midiatização. Se por um lado, o discurso do tecnodeterminismo se mostra frágil e, por vezes fantasioso, por outro, rupturas sociais importantes tem ocorrido pela viabilização de uma comunicação midiatizada mais horizontal e plural. O mês de junho de 2013 já pode ser considerado um marco na história política, social e, por que não dizer, comunicacional do Brasil. A onda de manifestações por melhores serviços públicos que tomou as ruas do país mobilizando milhões de pessoas deixou atônitos os políticos brasileiros acostumados com a passividade do povo. Os conglomerados midiáticos foram surpreendidos pelas críticas dos manifestantes à sua forma monolítica de comunicação. Diante deste cenário, o segundo artigo, objetivou, a partir do conceito de “sociedade em rede” (CASTELLS, 2002), propor um debate sobre esta espécie de “revolução midiatizada” que vem ocorrendo globalmente. Entendemos a midiatização, assim como Fausto Neto (2010) e Ferreira (2011), como uma reorganização sócio-tecno-discursiva que altera o modo de interação humana e constitui um novo ambiente no qual a realidade inteligível se constrói via processos midiáticos na dinâmica da circulação e segundo o fluxo da própria rede. O movimento brasileiro, salvo suas particularidades, converge com uma postura que vem sendo adotada por jovens do mundo todo, como se viu nos Indignados da Espanha, Occupy Wall Street, Primavera Árabe, Revolta na Turquia e alguns outros, que têm como características comuns: mobilização a partir das “redes de relacionamento” (Twitter, Facebook etc), apartida-

394

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

rismo, descrença nas formas de representatividade da política tradicional, ausência de líderes, descentralização das pautas reivindicatórias que, genericamente, giram em torno da construção de um mundo mais justo e participativo, assim como a propõe Proulx (2010). Resta-nos saber como esta expansão da comunicação mediada por computador (peer-to-peer) potencializa um novo modelo de cultura da participação que visa suplantar as deficiências da Sociedade Moderna? Para tal empreendimento, analisamos a circulação de materiais relativos aos protestos, tanto nas redes de relacionamento quanto no jornalismo tradicional, procurando entender a complexidade das disputas simbólicas e da construção dos sentidos. Nossa proposição central é que na medida que os atores sociais se midiatizam, ou seja, começam a produzir comunicação segundo lógicas de mídia, o poder representativo político e as instituições midiáticas corporativas se enfraquecem pela própria obsolescência dos modelos existentes. Criou-se a possibilidade das pessoas obterem informação independentemente dos meios de comunicação tradicionais, de se auto-organizarem sem a necessidade de lideranças, de se mobilizarem nos espaços urbanos sem a necessidade da convocação de partidos políticos ou sindicatos, ou seja, diminui-se o papel das instituições mediadoras. *** III. No contexto societal contemporâneo, as imagens ganham cada vez mais espaço na vida dos indivíduos e grupos, constituindo os imaginários e operando como vetores de sentido. O mundo midiatizado parece estar se (re)descobrindo

395

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

em termos de imagens. Prova disso é a avalanche de fotografias, ilustrações, animações, vídeos etc, que alcança o sujeito urbano diariamente. Desde as peças publicitárias dispostas pelas cidades, passando pelos meios de comunicação social, pela internet. Até os ícones dispostos nas pequenas telas dos telefones celulares parecem apontar para uma proliferação do signo imagético. Reconhecendo a natureza sígnica da imagem, propomos pensar a fotografia, objeto central de nossas investigações, a partir da semiótica de Charles Sanders Peirce, por se tratar de uma lógica que contém as categorias universais presentes nos mais diversos fenômenos, portanto, adequada à análise da visualidade de um modo geral e fotográfica em particular. Uma concepção que nos parece bastante promissora é a de Verón (1997, p. 51) no texto De la imagen semiológica a las discursividades: El tiempo de una fotografia, no qual o autor relata a fracasso de alguns autores estruturalistas, como Greimas, na tentativa de estabelecer uma “semiológia de la imagen”: “La supuesta universalidade de una teoría lingüística ha sido transferida com excesso a objetos que no pueden separarse de prácticas sociales específicas”. Para Verón, os estudos sobre as imagens precisa passar de semiologia a semiótica, levando em consideração o que estes dois termos significam históricamente. O primeiro está ligado a uma tentativa de conceber uma técnica de análise de corpus, como se fosse possível instituir uma espécie de gramática da imagem, o segundo está relacionado com a obra de Peirce e se estabelece como uma teoria geral dos sentidos da sociedade e da cultura, portanto

396

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

não se traduz na tentativa de estabelecer um disciplina capaz de traduzir signos de “maneira imperialista”, conforme Verón (1997, p. 68): “[...] la semiótica, en la medida en que es una teoría da la producción de sentido puede (y debe) articularse con las conceptualizaciones de la historia, de la antropologia, de la sociología, de las ciencias políticas y de la economía”. A solução que Verón oferece, parece resolver de uma vez por todas o problema da pretensão pouco produtiva e exaustiva de estabelecer um método que possa dar conta da analise de signos sem levar em conta que na nossa sociedade midiatizada há uma quantidade infinita de semioses possíveis a partir de dois distintos movimentos do discurso. O primeiro é uma “convergência” entre produção e recepção, dinamizado por uma constante busca pela articulação, e o segundo a “divergência”, resultante da evolução da sociedade, e porque não dizer da sociedade que se midiatiza, onde ocorre constantes disputas de sentido. REFERÊNCIAS BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: BENJAMIN, Walter. Mágia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 165-196. DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

397

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

EKMAN, Paul. Emotion in the Human Face: Guidelines for Research and an Integration of Findings. Oxford: Pergamon Press, 1972. FAUSTO NETO, Antônio. A circulação além das bordas. In: Mediatización, Sociedad y Sentido – Diálogos Brasil – Argentina. Rosário: UNR, 2010. FERREIRA, Jairo. As instituições e os indivíduos no ambiente das circulações emergentes. Paper: PPGCOM – Unisinos, São Leopoldo, 2001. GOMES, Marcelo Salcedo. A midiatização do Contato nos retratos da National Geographic. Dissertação de Mestrado. Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2013, 187 p. ______. As fantástica fotografias da National Geographic. Trabalho de Conclusão de Curso – Comunicação Social, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2010, 124 p. MIÈGE, Bernard. A sociedade tecida pela comunicação: técnicas da informação e da comunicação entre inovação e enraizamento social. São Paulo: Paulus, 2009. PEIRCE, Charles Sanders. Collected Papers. 8 vols. Cambridge: Harvard University Press. 1931-1958. PROULX, Serge; MILLERAND, Florence e RUEFF, Julien. Web social, mutation de la communication. Québec: Presses de l’Université du Québec, 2010.

398

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

VERÓN, Eliseo. Fragmentos de um tecido. São Leopoldo: UNISINOS, 2004. ______. De la imagen semiológica a las discursividades: El tiempo de una fotografia. In: VEYRAT-MASSON, Isabelle e DAYAN, Daniel. Espacios Publicos em Imagenes. Barcelono: Gedisa, 1997.

399

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

55 Contribuições do Estudo da Midiatização para Renovar o Olhar sobre a Comunicação Ricardo Z. Fiegenbaum Discorro brevemente sobre a questão que se coloca para este encontro: “em que minha pesquisa pode renovar o olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la”. Desenvolverei uma tentativa de resposta em dois pontos. No primeiro, faço um relato suscinto sobre a minha pesquisa; no segundo, coloco o acento sobre o desenvolvimento embrionário de uma perspectiva epistemológica da midiatização e processos sociais. Mas como se verá, ao final, essa divisão não é assim tão severa. 1. Minha pesquisa estuda os processos de midiatização da sociedade. Mais especificamente, volta-se para a análise das implicações da dinâmica midiática sobre instituições não midiáticas, instituições midiáticas e atores individuais. Busca compreender como a midiatização afeta cada uma dessas instâncias em suas estratégias de difundir valores, obter visibilidade e estabelecer e manter vínculos. Nessa perspectiva, afirma a centralidade dos dispositivos midiáticos, porque é neles que se realizam esses embates estratégicos que configuram o mercado discursivo midiatizado. Eles atuam como organizadores e dinamizadores dos processos de interação em que aquelas três instâncias estão implicadas. O conceito de dispositivo baseia-se em Ferreira que os toma na perspectiva de acoplamentos sistêmicos de três

400

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

dimensões – sócio-antropológica, semiolinguística e técnica-tecnológica. Nesse sentido, dispositivo midiático é uma materialidade tecnológica, simbólica e social, ou seja, tem uma consistência técnico-tecnológica visível, que é inseparável de sua essência simbólica (de lugar de circulação de sentidos), portanto, discursiva, e que serve para produzir comunicação auto e heterorreferenciando-se continuamente. É um sistema articulado de operações tecno-simbólicas e sociais, no qual se materializam os processos de produção, circulação e consumo de sentidos, por meio da organização e da dinamização dos processos pelos quais as estratégias de valores, de visibilidade e de vínculos se realizam. É um operador sistêmico de estratégias de valores, de visibilidades e de vínculos. Os dispositivos midiáticos constituem-se, assim, como o lugar observável dos processos midiáticos. São midiáticos porque suas operações são presididas pelo habitus midiático e porque possibilitam a oferta coletiva de sentidos num mercado discursivo (Verón). Essa perspectiva teórico-metodológica que afirma a centralidade dos dispositivos midiáticos no processo de interação das três instâncias, acolhendo, organizando e dinamizando as suas estratégias de valor, visibilidade e vínculo, desloca a análise da midiatização dos polos de produção e de recepção para a dinâmica da circulação, tanto dos sentidos nos dispositivos como dos próprios dispositivos. Ressalte-se, ainda, que os dispositivos midiáticos não se constituem a si mesmos ao acaso. Eles são constituídos por uma das instâncias, as quais exercem sobre eles uma espécie de força gravitacional. Por causa dessa relação original, que os dipositivos midiáticos têm com a sua

401

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

instância instituidora, é que se pode mobilizar as categorias de auto e heterorreferencialidade para observar a circulação. Em síntese, portanto, minha pesquisa visa estudar os processos de midiatização nos quais instituições não midiáticas, instituições midiáticas e atores individuais estão implicados, analisando as operações sistêmicas que ocorrem nos dispositivos midiáticos. Resulta daí, de um lado, a necessidade de qualificar os conceitos de dispositivo midiático e de midiatização; de outro, a exigência de explicitação das categorias analíticas de valor, visibilidade e vínculo e de auto e heterorreferencialidade. Essas duas demandas da pesquisa, se levadas ao seu refinamento, poderão abrir novas perspectivas para renovar o olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la (assim espero). Em outras palavras, significa colocar os dispositivos midiáticos como objetos de estudo da comunicação contemporânea e desenvolver, a partir das categorias explicitadas, metodologias de análise que podem resultar numa compreensão melhor dos fenômenos comunicacionais das sociedades midiatizadas. 2. Isso posto como plano geral da pesquisa, exponho, nesse segundo tópico, algumas considerações para pensar uma epistemologia da midiatização e processos sociais, inserindo-me, assim, no âmbito dos estudos do Grupo de Pesquisa Epistemologia da Comunicação (Epistecom). Parto da hipótese de que discursos e práticas sociais se constituem enquanto processos paralelos e mutuamente implicados que têm na midiatização o seu ponto de acoplamento. Essa proposta sustenta-se sobre uma abordagem teórica-metolológica que consiste da

402

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

relação campo/sistema e envolve necessariamente o conceito de dispositivo midiático e as categorias referidas anteriormente. A fim de tornar mais clara essa relação, tomo como objeto analisável as recentes manifestações de rua e a cobertura jornalística. Os processos sociais, como os recentes protestos das ruas, e a circulação midiática desses acontecimentos colocam em paralelo dois processos simultâneos, que, no entanto, se afetam mutuamente. De um lado, um processo social de prática política que toma as ruas e alcança as esferas de poder instituídos; de outro, um processo midiático de produção de sentidos, que se realiza no âmbito das redes sociais e das instituições jornalísticas tradicionais. A observação dessas práticas sociais e discursivas em sua dinâmica processual é singular para compreender como a sociedade midiatiza-se ao passo célere em que os dispositivos midiáticos vão ocupando o lugar central de mediação, organização e dinamização dessas práticas. A teoria dos campos sociais de Bourdieu e a teoria dos sistemas de Luhmann são a base teórica para essa análise. Conforme assinala Pfeilstetter “operando a la vez con una teoría de la comunicación y una teoría de las prácticas, tenemos dos instrumentos útiles para distinguir entre acción y discurso, vinculándolos comparativamente al mismo tiempo en un marco teórico común” (PFEILSTETTER, 2012, p. 507). Além disso, “los conceptos de campo/sistema proporcionan modelos suficientemente abstractos para permitir observar estructuras sociales complejas y ausentes de centros únicos que marcan las sociedades modernas, como para asegurar que son los procesos y no

403

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

los elementos el centro de nuestro análisis” (PFEILSTETTER, 2012, p. 507, grifo meu). Em outras palavras, Bourdieu e Luhmann têm como objeto de análise os processos e não as estruturas que constituem a sociedade. Essa perspectiva permite estudar a midiatização como circulação, na qual práticas sociais e discursos se implicam mutuamente enquanto operam a dinâmica social com suas disputas de poder e de sentidos. Assim, se na Sociologia de Bourdieu, o objeto de estudo são as formas de poder ou capitais que se revelam pela observação das práticas sociais, sendo as práticas sociais o resultado do embate entre duas estruturas em conflito: o habitus e o campo, em Luhmann, o objeto da Sociologia é a suceção de atos comunicativos que estabelecem ou não conectividade. Em outras palavras, não são as relações de poder que lhe interessam, mas a comunicação – Bourdieu, a seu tempo, entende a comunicação como uma expressão de poder, ao que Luhmann contrapõe que essa evidência é, antes, um resultado da comunicação, ou seja, a comunicação vem antes de qualquer esquema de diferenciação social e é pela comunicação que os elementos da estrutura social são comunicáveis e socialmente partilhados. Resulta daí que essa dinâmica processual, que envolve a prática dos agentes no campo político e a prática discursiva que caracteriza o midiático constitui, em minha perspectiva, o modo como a sociedade se midiatiza. E aqui estamos trazendo a relação campo/sistema para o campo da comunicação. Nesse sentido, prática social e prática discursiva operam acoplamentos de uma sobre a outra, produzindo discursos e

404

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ações políticas. A midiatização é o processo pelo qual o midiático produz diferença nas práticas sociais e discursivas. Altera o habitus, como sistema de estruturas estruturadas e estruturantes, modificando o próprio campo e reorganizando as disputas de poder dos seus agentes, qualificando os capitais em jogo, e modifica também a comunicação, na medida em que opera sobre as práticas discursivas. Nesse sentido, a diferenciação que Luhmann diz que os meios de comunicação simbolicamente generalizados produzem no sistema e que os leva a distinguir entre auto e heterorreferencialidade é também, em minha perspectiva, a diferenciação que se pode observar no habitus na presença dos meios como dinheiro, poder, amor, etc. Em ambas teorias, os processos sociais envolvem, simultaneamente, autonomia e dependência. Essas operações resultam em tensões (Bourdieu) ou irritações (Luhmann) que por meio de processos de seleção auto e heterorreferentes mantêm o habitus e o sistema de comunicação operando as suas estratégias. Na perspectiva de Luhmann, esse processo visa reduzir a complexidade do ambiente para que o sistema continue operando em seus limites. Em Bourdieu, isso oferece ao agente um modo de atuação e de percepção dessa atuação dentro de um campo. Em ambos os casos, estabelecem-se aí as fronteiras, que são, de um lado limites de sentido e, de outro, de poder. Mas o que permite o acoplamento dos processos e a operação de um sobre o outro são os dispositivos midiáticos. Neles se manifestam as disputas de poder e de sentido e construímos, assim, um novo olhar sobre os estudos da comunicação. Ao

405

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

observar as estratégias realizadas pelas instituições não midiáticas, pelas instituições midiáticas e pelos atores individuais nos dispositivos midiáticos, percebe-se o trabalho dos sistemas de valor, de visibilidade e de vínculo de cada instância em movimentos de resistência, de acomodações e de acoplamentos. Os dispositivos midiáticos, pelas caracaterísticas acima descritas, são singulares no acolhimento dessas estratégias, organizando e dinamizando esses processos. No fim, o que resulta é mesmo a midiatização como resultado de uma sociedade que atua e se comunica cada vez mais por processos midiáticos organizados e dinamizados pelos dispositivos midiáticos. Nada disso, porém, é certeza. Antes, são angústias genuínas de quem se sabe em processo e que entende que produzir conhecimento é tarefa coletiva, de interlocução crítica e desafiadora, e que não basta apenas colocar questões ou elencar perguntas. Antes, o que estimula a mente para que se afadigue em busca de uma verdade, de uma crença, é a existência de uma dúvida real e viva, capaz de poder colocar em dúvida também as próprias premissas (PEIRCE, 1877, p 1-15). Por isso, responder a questão colocada para este seminário a respeito das novidades de nossa pesquisa é buscar a saída para deixar a irritação da dúvida e abraçar o aconchego da crença, ou seja, deixar o estado de desconforto em que a inquirição nos coloca, para encontramos a indicação mais ou menos segura de como pesquisar no campo da comunicação.

406

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Referências BOURDIEU, Pierre. A Distinção. Crítica social do julgamento. Tradução de Daniela Kern e Guilherme J. F. Teixeira. São Paulo: Edusp, Porto Alegre: Zouk, 2007. ______. Questões de Sociologia. Tradução de Jeni Vaitsman. Rio de Janeiro: Marco Zero. 1983. ______. Razões Práticas. Sobre a teoria da ação. Tradução de Mariza Corrêa. Campinas: Papirus, 1996. BRAGA, José L.Sobre “mediatização” como processo interacional de referência. GT Comunicação e Sociabilidade, 15º Encontro Anual da Compós, Bauru, junho de 2006, cd-rom. DELEUZE, Gilles. Foucault. Tradução de Claudia Santana Martins. São Paulo: Brasiliense, 2005. FERREIRA, Jairo. Uma abordagem triádica dos dispositivos midiáticos. Líbero (FACASPER), v. 1, p. 1-15, 2006. KUNZLER, Caroline de Morais. A teoria dos sistemas de Niklas Luhmann. Estudos de Sociologia, Araraquara, 16, p.123-136, 2004. LOYOLA, Maria Andréa. Pierre Bourdieu. Entrevistado por Maria Andréa Loyola. Rio de Janeiro: Eduerj, 2002. LUHMANN, Niklas. A improbabilidade da comunicação. Tradução de Anabela Carvalho. 4. ed. Lisboa: Vega, 2006.

407

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

_____ . A realidade dos meios de comunicação. São Paulo: Papirus, 2005. _____ . O conceito de sociedade. In: NEVES, C. B.; SAMIOS, E. M. B. (Orgs.). Niklas Luhmann: a nova teoria dos sistemas. Porto Alegre: UFRGS, 1997. _____ . Soziologische Aufklärung 6. Die Soziologie und der Mensch. Opladen: Westdeutscher Verlag, 1995b. MAINGUENEAU, Dominique. A cena da enunciação. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2000. MOUILLAUD, Maurice et al. O jornal: da forma ao sentido. Brasília: Paralelo 15, 1997, p. 85-144. PEIRCE, Charles Sanders. A fixação das crenças. Popular Science Monthly. Tradução de Anabela Gradim Alves. Beira: Universidade da Beira Interior. Nº 12 (November 1877), p. 1-15 (versão inglesa), PERAYA, Daniel. Médiation et médiatisation: le campus virtuel? In: Le Dispositif – Entre usage et concept. Hermes, 25: Cognition, Comunicacion, Politique. Paris: CNRS Editions, 1999. PFEILSTETTER, Richard. Bordieu y Luhmann. Diferencias, similitudes, sinergias. Revista Internacional de Sociologia, Vol. 70. Nº 3, Septiembre-Diciembre, 2012, pg. 489-510. RODRIGUES, Adriano Duarte. A gênese do campo dos mídia. In: SANTANA, R. N. (Org.). Reflexões sobre o mundo contemporâneo. Teresina: Ed. Renan, 2000, p. 201-214.

408

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______. Estratégias da comunicação. 2. ed. Lisboa: Presença, 1997, p.152-160. SAMPAIO, Inês Sílvia Vitorino. Conceitos e modelos da comunicação. Ciberlegenda, n. 5, 2001. Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (Mestrado e Doutorado) da Universidade Federal Fluminense. VERÓN, Eliseo. Esquema para la análisis de la mediatización. Revista diálogos, n. 37, Lima, 1987.

409

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

56 Comunicação e religião: uma interface de pesquisa entre a circulação e a reconstrução sociossimbólica Moisés Sbardelotto Em que sua pesquisa pode renovar o olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la?

Introdução Nossa atual pesquisa em nível de doutoramento nasce de nosso interesse por uma interface específico dos estudos em Comunicação, a saber, a midiatização da religião, ou os processos comunicacionais e midiáticos que embebem as atuais práticas religiosas das sociedades contemporâneas. Nossa pesquisa anterior1, em nível de mestrado, abordou os chamados rituais online em sites católicos brasileiros2, bus1 Seus resultados foram publicados em livro, intitulado E o Verbo se fez bit: A comunicação e a experiência religiosas na internet (Aparecida: Santuário, 2012). 2 O interesse pelo âmbito católico se deve a muitos fatores. Os resultados do último Censo Demográfico 2010 mostram o crescimento da diversidade dos grupos religiosos no Brasil. Embora com uma perda de fiéis (em 1872, 99,7% da população brasileira era católica), o perfil religioso da população brasileira ainda se mantém: em 2010, o país continua conservando a histórica maioria católica. De 73,6%

410

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cando compreender, a partir de uma perspectiva comunicacional, como se dão as interações entre fiel-sagrado para a vivência, a prática e a experiência da fé nesses rituais. Pudemos, assim, aprofundar a reflexão sobre a complexidade da interface entre o fenômeno da comunicação – em suas ocorrências concretas, como o caso das práticas comunicacionais desenvolvidas na internet – e o fenômeno religioso – a partir da apropriação de dispositivos midiático-comunicacionais para a sua ocorrência. Em nível de doutoramento, nossa pesquisa busca aprofundar como se dão os processos de circulação e de reconstrução do “católico” no fluxo comunicacional das redes sociodigitais. Ou seja, analisar desdobramentos que a midiatização digital e a conectividade das redes sociodigitais geram na experiência, na prática e na doutrina católicas, além de examinar processualidades comunicacionais (interfaces, protocolos e lógicas) que estão implicadas na reconstrução dos construtos católicos que circulam nas redes sociodigitais. Pois, nelas, a vida social encontra-se em constante pulsação a partir das conversas sobre “o que está acontecendo”3. Nessas interações sociais em 2000, os católicos eram 64,6% em 2010. Portanto, há uma grande relevância sócio-histórico-cultural da Igreja Católica no Brasil, dentro de um cenário de grande mobilidade e sincretismo religiosos. Dados disponíveis em http://migre.me/dXrg7. 3 Chama a atenção que em duas das principais redes sociodigitais, o Twitter e o Facebook, essa expressão encontra-se ipsis litteris em suas páginas principais. O Twitter afirma: “Bem-vindo ao Twitter. Descubra o que está acontecendo, agora mesmo, com as pessoas e organizações que lhe interessam” (grifo nosso). Já no Facebook,

411

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tecnologicamente mediadas, manifestam-se lógicas midiatizadas nas práticas dos indivíduos, que envolvem também as estratégias de instituições sociais como a Igreja. As instituições religiosas, assim, precisam se reposicionar nesse novo cenário e vão sendo impelidas pela nova complexidade social a modificar suas próprias estruturas comunicacionais e sistemas internos e externos de significação do sagrado. Um olhar comunicacional sobre o religioso Nossa pesquisa, nesse sentido, parte de um ponto de vista específico sobre o religioso: o comunicacional. Não se trata de uma pesquisa sobre a Comunicação a partir do ponto de vista teológico ou das Ciências da Religião, mas sim uma pesquisa da Comunicação sobre um âmbito social, a saber, o religioso. Em nosso objeto específico, podemos ver fluxos de sentido em rede que moldam e fazem circular comunicacionalmente (por meio de imagens, textos, vídeos etc.) construtos “católicos”. Nisso, percebemos ainda a circulação comunicacional, na qual a sociedade diz “isto é católico”, “isto não é”. Nos fiéis comuns que tomam a palavra e dizem o “católico” midiaticamente para a sociedade em geral, entrevemos a reconstrução e a ressignificação das crenças e das práticas religiosas, provocando deslocamentos e alterações muito relevantes para a pesquisa, mediante as trajetórias comunicacionais dos sentidos o usuário se depara com a seguinte pergunta: “O que está acontecendo, [nome do usuário]?”.

412

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

e discursos. No fluxo comunicacional de sentidos incessante que marca as mídias digitais, o “católico” é, assim, uma complexa construção social a partir dos mais variados polos da circulação comunicacional, não delimitados aos papéis de “produção” e “recepção”, mas constituindo-se enquanto tais justamente em sua “ação circulatória”. Não nos interessa analisar que “católico” é esse, mas sim como ele se forma e se constitui – isto é, os processos comunicacionais envolvidos nessa ação social. Nesses ambientes digitais, portanto, há inúmeros sentidos religiosos em circulação, por meio de certas lógicas e regularidades. Não apenas as instituições eclesiais, nem somente as instituições midiáticas, mas também a sociedade em geral, nos mais diversos âmbitos da internet, falam sobre e fazem algo com o “católico”. E isso se dá em um processo simultâneo de “procepção” (produção-recepção) ou “prossumo” (produção-consumo). O religioso passa a circular nos meandros da internet , e esse cruzamento de sentidos colabora para a circulação e a reconstrução do “católico”, fomentando o surgimento de um “novo” catolicismo – marcadamente midiatizado. Nesse sentido, o “âmbito de feixes de relações que se estruturam cada vez mais em redes complexas de discursividades e de funcionamento dos signos” (FAUSTO, 2009, p.3) será analisado, dentro dos limites da pesquisa, em “sua totalidade, com suas relações, conexões e interconexões” (GOMES, 2009, p.13), a partir da perspectiva da midiatização. Assim, ultrapassa-se o objeto em si para buscar a apropriação da totalidade dos processos midiáticos, não buscando mais sua fragmentação

413

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

em produtor, produção, conteúdo, veículo, público, receptor, recepção (cf. GOMES, 2009). Midiatização e tecnologias digitais Para além da experiência religiosa, portanto, nossa pesquisa busca perceber como se dá a experimentação religiosa nas redes sociodigitais. Para além do caráter privado de um ritual online, interessa-nos como se constituem as manifestações públicas do fenômeno religioso nas redes digitais. Para além de uma prática ritual de fé, queremos analisar como se dá a prática sociocomunicacional sobre o “católico”. Em suma, o que os usuários fazem para além da oferta religiosa disponível na internet, em termos de reconstrução e de circulação dos sentidos e discursos religiosos católicos, nos fluxos comunicacionais do ambiente digital. Nesse sentido, nossa análise nasce de pistas e indícios que nos afetam e que observamos especificamente em interações via Twitter e grupos de temática religiosa no Facebook. “Se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas – sinais, indícios – que permitem decifrá-la” (GINZBURG, 1989, p.177). Assim, minúsculas particularidades das interações entre internautas podem ser pistas para reconstruir grandes transformações sociocomunicacionais, pois, “quando as causas não são reproduzíveis, só resta inferi-las a partir dos efeitos” (Ibid., p.169). Em termos comunicacionais, os meios passam a ser “marca, modelo, matriz, racionalidade produtora e organizadora de sentido” (MATA, 1999, p.84), inclusive das práticas religiosas da

414

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sociedade. Por isso, é preciso “transcender os fenômenos individuais e se concentrar na análise dos processos midiáticos mais amplos, com suas inter-relações, interconexões na sociedade” (GOMES, 2009, p.8). Segundo Verón (1997, p.14), supera-se, assim, uma noção puramente linear entre “causa e efeito” para uma configuração de processos e um “emaranhado de circuitos de feedback”. Em síntese, “quanto mais uma sociedade se midiatiza, tanto mais ela se complexifica” (VERÓN, 2002, p.13, tradução nossa). Assim, dentro da lógica da midiatização, os processos sociais midiáticos passam a incluir, a abranger os demais, como o religioso, “que não desaparecem mas se ajustam” (BRAGA, 2006, p.2). Como afirma Mata (1999), surge uma nova racionalidade que supera a interação propriamente dita e manifesta-se mais em um nível sociocultural: nasce, assim, uma nova natureza sócio-organizacional (cf. FAUSTO NETO, 2005). É o caso da religião, que passa a se remodelar e a se reconstruir a partir desse novo contexto social. Assim, baseamo-nos em um aporte metodológico de pesquisa baseado no pensamento sistêmico e complexo – da midiatização – em busca de uma perspectiva de análise mais ampla: a do “objeto organizado ou sistema cuja explicação não pode mais ser encontrada unicamente na natureza dos seus constituintes elementares, mas se encontra também em sua natureza organizacional e sistêmica, que transforma o caráter dos componentes” (MORIN, 2002, p.127). Nossa pesquisa, portanto, pode contribuir em termos epistemológicos e metodológicos para conjugar uma perspectiva

415

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

micro (“ginzburguiana”, a partir das microinterações no interior de redes digitais) com uma perspectiva macro (da midiatização, a partir dos efeitos sociais dessas microinterações no caldo do fenômeno religioso contemporâneo). Especialmente por se situar numa “fronteira” comunicação com o fenômeno religioso, nossa pesquisa pode permitir a percepção de um polo de tensão social contemporâneo, além de oferecer, no contato com o fenômeno religioso, um ponto de vista marginal, fronteiriço, interfacial dos processos sociomidiáticos. Por outro lado, para compreender o fenômeno da reconstrução e da circulação do “católico” nas redes sociodigitais, é importante acompanhar Miège (2009) em sua definição de mídia, conceito que permeia também a sua definição do fenômeno da midiatização. Segundo o autor, as mídias não são entendidas apenas como aparatos tecnológicos, mas sim como “dispositivos sociotécnicos e sociossimbólicos, baseados cada vez mais no conjunto de técnicas (e não mais em uma única técnica, como antigamente)” (MIÈGE, 2009, p.110). Nesse contexto, as tecnologias da informação e da comunicação propriamente ditas são apenas a “base material das mídias” (MIÈGE, 2009, p.111). As mídias, portanto, são dispositivos técnicos que ganham sentido a partir dos usos e práticas sociais. São interfaces sociotécnicas que passam a estabelecer redes complexas de circulação comunicacional. Nesse contexto, a midiatização pode ser entendida como uma “ação das mídias”, pois aponta para “os fenômenos midiatizados pelo intermédio não das numerosas instâncias de mediação social, mas pelo intermédio de mídias no sentido

416

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

específico do conceito” (MIÈGE, 2009, p.83). A midiatização revela aquilo que, “nas relações interindividuais e mesmo intergrupais ou intraorganizacionais, se produz quando uma Tic, ou melhor, um dispositivo, interpõe-se entre Eu e Você, Eu e Nós, Nós e Nós”. Ou seja, as “modificações dos próprios atos de comunicação”, também em âmbito religioso. A circulação em ação Com a midiatização digital da religião, ocorre um desvio da autoridade eclesial e uma autonomização dos fiéis em práticas religiosas conectadas. Com o avanço da internet, “os amadores ocuparam o centro do palco” e “se encontram hoje no coração do dispositivo de comunicação”. Isso porque “as tecnologias digitais são profundamente marcadas pelos comportamentos de autonomia individual e de ‘conectividade’ [mise en connexion]” (FLICHY, 2010, p.15, tradução nossa), contribuindo para o desenvolvimento de novas práticas sociais e religiosas. Vemos aí que não é possível falar em midiatização sem levar em conta os processos de circulação. Nas redes sociodigitais, podemos perceber que, para além da “produção” eclesial histórica e tradicional do “Católico” oficial, entra em jogo também uma instância que não apenas “recebe informação”, mas também reconstrói o que é recebido e faz circular a sua reconstrução. Dessa maneira, a circulação pode ser entendida como “um trabalho complexo de linguagem e técnica”, que manifesta uma “atividade construcionista” (FAUSTO NETO, 2010,

417

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

p.3). Portanto, não há circulação sem reconstrução e, vice-versa, não há reconstrução sem circulação, pois ações respondem a outras ações e atuam sobre outras ações, e sentidos só têm sentido sobre outros sentidos. Ao abordar a reconstrução do religioso em redes sociodigitais, nossa pesquisa também pode contribuir com o entendimento desse “dispositivo central” do processo de comunicação que é a circulação (FAUSTO NETO, 2010). Nesse âmbito, é importante destacar que “circular é produzir um efeito de distinção”, diferenciação essa que ocorre “a partir dos capitais econômicos, culturais e políticos [e religiosos]” (FERREIRA, 2005, p.76) dos agentes midiáticos envolvidos no processo de produção de sentidos. O que o estudo da circulação no permite é identificar, justamente no processo de circulação, “relações explicativas sobre o próprio sucesso da reprodução, transformação e constituição de poder simbólico no campo das mídias” (Ibid.), e também para além dele, incluindo agentes de outros campos, como o religioso, no caldo da midiatização. Como indica Ferreira (2010, p.74), “a comunicação como circulação está na base da proposição da comunicação dialógica”, e “o valor do diálogo enquanto comunicação pode traduzir o esquema básico da circulação, em que cada um dos interlocutores é, idealmente, produtor e receptor dos atos de linguagem”. Nossa pesquisa contribui, nesse sentido, com a análise dos processos de circulação em um âmbito específico de “diálogo”, a saber, religioso, em que processos de produção de sentido e atos de linguagem ocorrem continuamente em redes sociodigitais.

418

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Nossa pesquisa, também, contribui com uma compreensão mais acurada da interface comunicação/religião e da circulação a partir especificamente do papel da tecnologia nessas práticas sociocomunicacionais, daquilo que, concreta e especificamente, conecta esses dois âmbitos, possibilita a circulação e provoca o interesse de pesquisa comunicacional (para além dos efeitos sociais acima abordados). Analisando uma sociotecnicidade específica da contemporaneidade, a saber, os meios digitais, poderemos aprofundar a compreensão das mídias como “dispositivos sociotécnicos e sociossimbólicos” (MIÈGE, 2009, p.110), ou seja, uma relação sinérgica de processos sociais e processos tecnológicos para a produção de sentido social. Miège (2009) se recusa a analisar a técnica como uma instância exterior à sociedade. Para o autor, é preciso analisar “os desenvolvimentos técnicos através de suas determinações sociais [...] e das lógicas sociais da comunicação”, que se manifestam como processo, ou seja, como “movimento da sociedade bem identificado, em curso, feito de mutações e mudanças diversas, e em torno do qual, a longo prazo, se afrontam e se confrontam as estratégias dos atores sociais envolvidos” (MIÈGE, 2009, p.18). Ou seja, “a esfera técnica também é feita de social” – ou seja, manifesta-se uma “dupla mediação”, que “é ao mesmo tempo técnica, pois a ferramenta utilizada estrutura a prática, mas a mediação é também social, porque os motivos, as formas de uso e o sentido atribuído à prática se alimentam no corpo social” (JOUËT apud MIÈGE, 2009, p.46).

419

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Segundo o autor, é importante perceber como essa dupla mediação – técnica e social – se articula, sem pensar que o social é determinado pela, depende da ou se adapta à técnica. Ao invés de determinismo, Miège (2009, p.21) prefere falar em “enraizamento social” de determinadas “determinações técnicas”. Para o autor, “todo dispositivo técnico modifica numa certa medida a comunidade, e institui uma função que torna possível o advento de outros dispositivos técnicos” (MIÈGE, 2009, p.45). Portanto, ocorreria uma “tecnicização da ação” (JOUËT apud MIÈGE, 2009, p.47), que se manifesta, em nosso caso de estudo, também na construção e vivência do religioso. As práticas e processos religiosos, dessa forma, também passam a operar mediante novos modos de fazer, estruturados a partir da “racionalidade da técnica” (JOUËT apud MIÈGE, 2009, p.47). Essa racionalidade, hoje, baseia-se no fenômeno da midiatização digital, por exemplo, a partir das redes sociodigitais. Segundo Miège (2009, p.32), a inovação sociotécnica atual está centrada no digital (digitalização, compressão dos dados) e na internet (rede física integrada). Aí se manifestam novas modalidades midiáticas como a self-media, a automedia ou ainda a plurimedia. A digitalização, portanto, manifesta-se como uma “construção social, cujos contornos resultam ao mesmo tempo das limitações ligadas às lógicas socioeconômicas dominantes e da ação mais ou menos eficiente de diversos grupos sociais” (TREMBLAY & LACROIX apud MIÈGE, 2009, p.37). Assim, também no digital manifestam-se determinações

420

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

técnicas que se articulam e se complexificam a partir de uma construção social. Essas determinações técnicas da sociotecnicidade contemporânea apresentam “determinadas matrizes interacionais e modos práticos compartilhados para fazer avançar a interação” comunicacional na e entre a sociedade (BRAGA, 2011, p.5). Chamamos essas matrizes de dispositivos conexiais, ou seja, sistemas sócio-técnico-simbólicos heterogêneos de conexão digital que organizam a comunicação entre os atores em rede, sejam eles indivíduos ou instituições. Em suma, os dispositivos dispõem o mundo e a sociedade; o mundo e a sociedade dispõem os dispositivos; e por meio deles a sociedade dispõe o mundo. E se a “essência de toda rede” é a conectividade (KERCKHOVE, 1999), a internet é “o meio [mídia] conectado por excelência, é a tecnologia que torna explícita e tangível essa condição natural da interação humana” (Ibid., p.25, tradução nossa). Nesse sentido, as interações sociais possibilitadas pelos dispositivos conexiais, portanto, vão além dos laços sociais tradicionais: elas operam por reconexões sócio-técnico-simbólicas. Ou seja, conexões “novas”, “ultraconexões” que vão além do já dado em termos sociais, técnicos e simbólicos sobre o religioso, e nas quais que se manifesta a invenção social sobre o “católico” nos processos de circulação comunicacional. É na reconexão que os internautas constroem a partir do que já existe social, técnica ou simbolicamente por meio de “práticas conectadas” (MIÈGE, 2009, p.185), que se somam a práticas mais tradicionais de construção do “católico”. Portanto, a partir de nosso estudo, poderemos analisar as redes sociodigitais não como estruturas já dadas, bastando ana-

421

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

lisá-las e explicá-las. Toda rede é uma ação de conexão, um trabalho em rede (network), que se dá a partir de condicionamentos do dispositivo (interfaces, protocolos). Ou seja, as conexões não existem “em si mesmas”, mas são construídas e mantidas constantemente pela ação social de comunicação via dispositivos conexiais. Elas existem enquanto relações de poder, disputas por controle, ações de reconstrução, invenção e também subversão dos indivíduos em rede. Indo além de uma análise meramente tecnológica ou computacional das chamadas “redes sociais”, reconhecemos que a essência das redes não está apenas na rede, mas em seus complexos modos de apropriação pela sociedade. E a interface religiosa é um âmbito privilegiado – embora ainda fortemente negligenciado – para a análise desses processos comunicacionais.

422

Sumário

SESSÃO TEMÁTICA 5 Virtualidades

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO A 57 Biopolítica e Estética nas experiências dos projetos sociais de comunicação Lylian Rodrigues A investigação está inserida no campo comunicacional das interações sociais, que compõem o mundo comum em suas fronteiras e fraturas. Os processos sociotecnológicos, em suas combinações técnicas, culturais e práxis, estão em vias de constituição de instituições e linguagens da midiatização e não podem dispensar estudos sobre a produção e troca de sentidos – representações, memórias – assim como os modos de vínculos – lugar de percepção do outro e efeitos estéticos. A comunicação é o lugar de transmissão de tradições, regularidades, cognição, conectividade tanto quanto de expressões pessoais, partilhas de sentido e do sensível e vinculação. A partir destes elementos, são construídas noções de estrutura social, utopias tecnológicas, autonomia individual, fluxo de pensamentos e valores. Os processos comunicacionais compõem, contemporaneamente, a formação de uma esfera social a partir da apropriação e produção, tecnológica e difusa, na mão do pólo da escuta (ou usuário). Cada vez mais, o indivíduo particular e midiático, pode fazer-se ver e ouvir pelo coletivo, pluralizando a cadeia de experiências e provocando (potencialmente)

424

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

experiências estéticas a partir dos textos, das imagens e dos sons que se compõem. Propomos pensar os efeitos estéticos da experiência singular (DEWEY, 2010) como um deslocamento de consciência e, portanto, também de subjetivação. Alterar a percepção sobre o outro e, conseqüentemente, sobre mim mesmo tem estreita relação com a construção dos vínculos sociais. É no campo da comunicação, pelas interações de troca, difusão e mediação de experiências, nas relações entre tecnologia e vida, racional e sensível, que se mobilizam as dimensões estéticas sobre deslocamentos e sobre a constituição social de uma esfera pública racional e sensível. Problematizamos, nesta tese, como os processos sociotecnológicos vêm afetando práticas sociais no que tange à emancipação política do sujeito, em suas fronteiras de público e privado, indivíduo e massas, nas ações comunicativas, assim como nas fraturas provocadas sobre o lugar-comum de quaisquer pessoas. É um estudo sobre os possíveis modos de inserção política e social pela tecnologia eletrônica, avaliando legitimidades, discursos, partilhas e experiências das pessoas denominadas vulneráveis sociais, a priori, excluídas socialmente. Questionam-se as apropriações, as transmissões e a circulação estética da experiência nas redes sociais para compreender as partilhas de sentido e visibilidade dessas pessoas. Partimos dos vídeos do YouTube e algumas de suas materialidades -comentários, sinalizações, links-, exploramos as expressões reprodutivas, reinventadas, em suas heterogenias culturais e seus efeitos de visibilidade, espetáculo e partilha sensível. Para tanto, foi necessário colocar as primeiras questões

425

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sobre a condição do sujeito vulnerável social, determinante social e individual e, em seguida, a estrutura eletrônica e virtual, fracionando, especialmente, o lugar da emissão na economia informacional e cultural. A ação do indivíduo sobre a representação e a apresentação de lugares de pertencimento passa pelas práticas sociais herdadas, de valores e julgamentos, e atualizadas, no cotidiano, na bricolagem e na tecnologia. A virtualidade eletrônica acumula noções de organização diferenciada sobre os arranjos sociais, em suas divisões de tarefas, papéis estabelecidos e exercício de poder institucional a partir de processos descontínuos sobre a economia, o usuário e a esfera pública. Ao mesmo tempo, é notório no processo comunicativo o aspecto relacional, em que o fluxo é processual e emerge das partes em relação, usuários, mídias de massa e governo, passado e presente, crítica e experimentação. Os vídeos e as expressões humanas sobre os vídeos demandaram uma observação em fluxo, produzindo efeitos de sentido e estéticos sobre um corpo social. Emergindo, a partir de então, possibilidades de circularem realidades e recriar realidades sobre a percepção do outro, e sobre si mesmo. Neste momento, nos escapavam as subjetividades dos que postavam seus vídeos. Por isso, houve a recuperação (em memória e atualizações) da experiência do estágio docência. Naquele período, o material audiovisual foi disparado junto ao grupo de alunos para perceber a interação com os produtos em circulação estética e experimentar questões de investigação.

426

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A intenção era compreender as possibilidades de legitimar a emancipação política não só do mundo simbólico dos sujeitos que circulam suas experiências, mas também no mundo da vida prático. Neste último caso, a partir de emails trocados, relatos escritos e conversas informais, mas, sobretudo, das evidências sensíveis da partilha com este grupo, a investigação permite compreender deslocamentos e movimento do pensamento que legitimam experiências estéticas e produção de conhecimento a partir da comunicabilidade inteligível entre pensamento, imagem, som e inventividade humana. À ação de pertencimento social tela-à-tetê tornou-se imprescindível a relação tetê-a-tetê. No que diz respeito às expectativas de movimento e fluxos de pensamento e da ação social, tecnologia e estética dispararam graus de interatividade, distância e proximidade que provocam diferentes sentidos e sensibilidades. Instaurou-se durante a pesquisa níveis e desníveis sobre a emergência social e pragmática, por um lado, e, por outro, a sensação de pertencimento a um mundo simbólico. Ambas, não parecem excluir o valor subjetivo de inserção na vida comunitária, mas dão diferentes graus de interatividade e efeitos de sentido e estético. A emancipação política da pessoa do vídeo passa pela compreensão que ela vê em si mesma uma razão para ganhar o mundo. Tal construção de subjetividade que se constitui nos processos sociais em vias de midiatização, não é mais apenas exterior; pois ela também é uma mídia e processa rompimentos de determinações, potencialmente. Ao mesmo tempo, se insere no mundo comum, legitimada por discursos regulares,

427

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

estereotipados e tradicionais. Desse modo, não se define uma emancipação ou intervenção política universal ou centralizada, completamente nova ou diferente de tudo que já fora visto, mas calcada em rede, em micro espaços, em passos sem saltos, com experiências cumulativas que se compõem de narrativas dispersa, fragmentadas, vividas, reflexivas, difusas e híbridas sobre lugares e tempo. Como minha pesquisa inova o campo científico da comunicação? Em realidade, não vislumbro um campo de debate original, novo ou inovador. Acredito que esta investigação é um corpo tão coletivo de autores da área e colegas interlocutores do doutorado e mestrado, em comunicação, que não teve pretensão em fraturar ou romper com pessoas tão dialógicas com o trabalho. Portanto, no máximo, ele está inserido em um fluxo de pensamento sobre a área da comunicação que se encontra questionando os vínculos sociais não só a partir de suas representações e significações, mas das suas concepções simbólicas e, sobretudo, estéticas. A linguagem, que me torna comum ao outro, ganha outras dimensões além de palavras, imagens, visualidades ou sonoridades. Não se trata do olho que vê, o ouvido que escuta ou a mão que tateia. Há algo que envolve a percepção, um campo que se expressa no mundo e parte dele, mas não se coagula nele. Parece-me um sopro ao ouvido, ligeiro. Ao mesmo tempo,

428

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

uma pausa, no vazio. É como os olhos, as mãos e o ouvido percebem o mundo ao redor e conecta-se a ele e a outras criaturas humanas, criando e inventando relações possíveis que caminha meus interesses de investigação. Redigindo os últimos fragmentos da tese, ainda há questões e são muitas. Inclusive a que duvida sobre o que se soube ao longo do processo. Certamente, não sinto que cheguei a um fim, porque nem mesmo afirmo que consegui fechar um problema ou redigir em palavras o conhecimento adquirido com os estudos estéticos. Há aí um grande desafio, se é que há chance de ser tomado como tarefa: redigir a percepção. Julgo que ela pode ser capturada, em sua fração no acontecimento, de modo despercebido e desconhecido, especialmente no imediato dos nossos sentidos. Como? Não sei. Mas, indico ainda que ao acionar a memória para resgatá-la, muitas intervenções a reinventam. Neste caso, a inventividade humana tornou-se questão fundamental para a continuidade desta investigação.

429

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

58 Jornalismo e redes sociais online: estratégias de contato e captura do leitor no perfil de Zero Hora no Facebook Carlos Sanchotene

Resumo Novos protocolos e dispositivos interacionais estão transformando as relações do jornalismo com seus leitores, afetando, de modo específico, o trabalho voltado para a constituição de vínculos das organizações jornalísticas com seu público. Nesse sentido, o artigo busca compreender tais transformações a partir de um caso específico: o perfil do jornal Zero Hora no Facebook. Ao estudarmos o jornalismo em redes sociais online, apreendemos uma nova arquitetura comunicacional decorrente dos processos crescentes de midiatização que já produzem mudanças no âmbito da produção e circulação dos discursos. Assim, buscamos responder algumas questões: Como se dão as mudanças de práticas jornalísticas em redes sociais online? Que estratégias de vínculos com o leitor, o jornal Zero Hora adota em sua página no Facebook? Ao refletirmos sobre o assunto estaremos contribuindo com as pesquisas no campo da comunicação, uma vez que as redes sociais online constituem-se como objetos em constante mutação, sendo necessário perceber, debater e analisar seus funcionamentos enquanto

430

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

dispositivos interacionais fortemente caracterizadores da sociedade atual. Palavras-chave: jornalismo; redes sociais, Facebook; contatos; vínculos.

431

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

59 Reciprocidade e Dom no Ciberespaço: Uma Análise dos Tutoriais no Youtube Ana Eliza Trajano Soares

RESUMO Esta pesquisa trata dos vídeos tutoriais do Youtube e as relações criadas a partir deles na perspectiva da reciprocidade baseada na teoria da Dádiva. Entendemos o Youtube como uma rede social e para a pesquisa utilizaremos vários tutoriais, onde serão analisados: motivações e as formas da comunicação e trocas estabelecidas. A análise partiu do clássicoMauss e as suas releituras comCaille e Godbout auxiliados porAime e Cossetta. Um fenômeno que chama a atenção pela grande repercussão, crescimento da modalidade dos vídeos e também pela grande utilidade dos mesmos na rede. Elementos para análise que vêm do paradigma clássico e a pesquisa no ciberespaço faz com que este surja cheio de possibilidades, pois se trata de um território em expansão e reconfiguração constante. A teoria do Dom de Marcel Mauss aponta que as prestações, a vida social são pautadas em três ações: dar, receber e retribuir. Ele reconhece que não há ações desinteressadas, desde as sociedades arcaicas das quais ele realiza sua pes-

432

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

quisa observa as formas de trocas e estando em questão não só coisasmateriais, mas também favores e serviços: “Ademais, o que eles trocam não são exclusivamente bens e riquezas, bens móveis e imóveis, coisas úteis economicamente. São, antes de tudo, amabilidades, banquetes, ritos, serviços militares, mulheres, crianças, danças, festas, feiras, dos quais o mercado é apenas um dos momentos (...)” (MAUSS, 2003, p. 191)

Ele aponta que a partir destas trocas os vínculos sociais iam sendo tecidos, os contatos entre as tribos e famílias, porémdepois do estabelecimento do sistema capitalista essas trocas pautaram-se em sua maioria por valores estabelecidos economicamente, o que hoje conhecemos tão naturalmente como compra e venda, a predominância do mercado. As reflexões primeiras apontam a cerca da dádiva que na sociedade atual, as formas encontradas desta na sua maioria se restringem a prestações de determinadas comemorações ou festas durante o ano. O dom estar no sentido colocado por Mauss e resgatado por releituras contemporâneas principalmente de Caille e Godboutcomo algo que obrigação e liberdade se misturam“A dádiva é um jogo constante entre liberdade e obrigação”(GODBOUT,1998) e seu principal valor não é o monetário como observamos na sociedade capitalista“Uma primeira característica de um sistema de dádiva consiste no fato de que os agentes sociais buscam se afastar da equivalência de modo deliberado(...)” (GODBOUT, 1998). Essas práticas

433

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

com traços de antigas tradições são fundamentais também hoje para a manutenção e o surgimento de relações com os outros(Sennett, 2004), estes que nos são na maioria das vezes devido à complexidade da teia onde estamos inseridos os nossos estranhos. As novas configurações destes rituais de Dom são o foco do nosso trabalho, e as observaremos a partir do ciberespaço, este entendido como um espaço de trocas, aberto, múltiplo e em constante crescimento. O objeto de nossa análise são os tutoriais do Youtube,que são vídeos sobre os mais diversos assuntos que consistem basicamente em ensinam através de um passo a passo o funcionamento de algo, ou como realizar alguma determinada atividade. Algo que pode ser uma lanterna de espião ou um motor, e atividades que vão desde como maquiar-se até descobrir senhas de email. Nossa pesquisa ainda em fase de andamento trata dessa rede de relações aqui entendida como uma dinâmica da reciprocidade, o dom como colocado pela Teoria da Dádiva é promotor de relações. O fluxo da comunicação que acontece a todo instante no Youtube proporciona uma rede complexa de doadores e recebedores a uma primeira vista estes os são estranhos uns aos outros, e a partir dessas relações onde não se põe em comum somente o resultado do trabalho, mas também algo de si como coloca Mauss: “a coisa dada não é uma coisa inerte” (MAUSS, 2003, p.200). As questões levantadas para a pesquisa consistem em entender as motivações de dedicar-se a uma atividade que demanda tempo, conhecimento e experiência, como são

434

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

os tutoriais que estamos analisando. Selecionamos canais de vídeos sobre programação de computadores, esses canais têm as características de não possuírem propagandas e na sua maioria não revelam as identidades dos seus donos principalmente em relação as suas imagens. Essas características foram observadas a partir das descrições dos seus perfis e dos próprios vídeos. E nos questionamos: para qual retorno? Existe um retorno material, tendo em vista que no nosso sistema capitalista tempo é dinheiro? Qual a motivação de tal dedicação? Como se dar a relação entre estes usuários? E ainda entender a criação dos vínculos nesta rede social. A possibilidade apresentada pela internet de uma comunicação mais horizontal que vertical atrai e suscita muitas questões, encontra-se quase tudo free, qualquer um que estar conectado a web pode ser o emissor e esta pode ganhar muitas utilidades. O caso dos tutoriais do Youtubeque iremos nos debruçar na pesquisa, será colocado como uma das formas modernas de dádiva na internet, como colocam os autores:“Di certo il web, attraversolareciprocitàdelloscambio, crearelazione, comunità, gruppi, persino, tribù. Spazioaperti, chefanno da ponte verso altrimondi e luoghi e spazi(...)” (AIME e COSSETTA, 2010, p.8)pois já identificamos pesquisas com o software livre, os blogs, as redes sociais, a wikipedia e o file sharing. Procurar através de a pesquisa buscar um aspecto positivo da internet, espaço onde se podem enxergar várias expressões de trocas e reconhecimento pelo outro mesmo que esse me seja um total estranho. A “novidade” que podemos tentar trazer na pesquisa é a comunicação aqui abordada como essa

435

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

troca recíproca que faz com que surja a relação entre diferentes, entre estranhos, a relação entre mim e o outro, uma troca que não tenha como finalidade a equivalência, tendo em vista a complexidade da relação entre os seres que não pode ser reduzida a uma racionalidade econômica.

Referências AIME, Marco; COSSETTA, Anna. Il dono al tempo de Internet. Torino: Giulio Einaudieditore, 2010. CAILLÉ, Alain. Nem holismo nem individualismo metodológicos – Marcel Mauss e o paradigma da dádiva. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 13, n. 38, p. 5-37, out. 1998. GODBOUT, J.T..Introdução à dádiva. Rev. bras. Ci. Soc. [online]. 1998, vol.13, n.38, pp. 39-52. ISSN 0102-6909. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69091998000300002.  MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac e Naify, 2003. SENNETT, Richard. Respeito: A Formação de um Caráter em um Mundo Desigual. Rio de Janeiro: Record, 2004.

436

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

60 Os relacionamentos amorosos na contemporaneidade através das redes sociais da internet: o exemplo do Badoo Maria Rita Pereira Xavier A pergunta principal deste trabalho é saber em qual estado predomina as relações afetivas entre casais heterossexuais na contemporaneidade. Uma característica contemporânea que chama a atenção é a troca de parceiros instantânea e a ressignificação do amor enquanto valor ético-moral, na sociedade atual. (mudança dos padrões do amor romântico, do casamento, da família) – uma problematização sobre a cultura amorosa. O amor e como ele se traduz nos relacionamentos no Badoo. O Badoo é uma rede social voltada para conhecer pessoas e expandir o círculo de amizades.O serviço é gratuito, até certo ponto, e permite que o usuário crie uma conta ou utilize o login de outras redes sociais como o Facebook, Yahoo, Google, etc. Após o cadastro, se pode interagir com pessoas que estão ao seu redor através de um comunicador instantâneo na própria rede. Uma das opções do programa é que o perfil indique sua localidade e aproxime pessoas que estão na mesma cidade, por exemplo. “O Badoo ocupa um terceiro espaço entre redes sociais comuns e os sites de namoro. No Facebook, por exemplo, há um constran-

437

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

gimento em tentar adicionar gente nova. Já no site de namoro, após achar uma pessoa, o usuário tende a deixar o serviço”, explica Alice Bonasio, diretora de marketing da empresa no Brasil. (Simão, 2012).

A proposta da pesquisa é realizar uma investigação a respeito de uma possível transformação no amor, através do comportamento de usuários em um site na internet. O site Badoo. Pretendo problematizar a cultura da sociedade atual através dos relacionamentos amorosos na internet. O enfoque do trabalho diz respeito ao comportamento dos indivíduos contemporâneos nessas relações, para apreender de que maneira a configuração da cultura na modernidade líquida e sociedade do consumo, atua sobre as relações no campo emocional e também que papel a internet desempenha neste contexto. A partir desta proposição, pretendo mobilizar os campos teórico e empírico identificando os possíveis efeitos do consumo nessas condutas amorosas. O campo empírico se constituirá através de uma cartografia do comportamento atual das pessoas em relação ao amor e as suas perspectivas de buscar, ou não, um envolvimento amoroso na internet, mais especificamente na rede social chamada Badoo. A inovação deste trabalho para a comunicação se dá por meio desta investigação na internet, para pensar como essa alteração radical nos meios de comunicação, proporcionada pela internet, reverbera na comunicação interpessoal dos usuários de redes sociais. As condutas emocionais, assim como todos os outros tipos de relação, são projetos da cultura. Entende-se aqui o con-

438

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ceito de cultura empreendido por Bauman em “O mal-estar da pós modernidade” (1998), no qual o modelo seria o de cultura como consumidor cooperativo, onde não se distingue facilmente o “autor” do “agente” e espera-se que cada membro atue em ambos os papéis. Deste modo, cada sociedade modifica ou desenvolve uma fórmula mais geral pelo qual as pessoas se relacionam, seja no amor, no trabalho, nas amizades, etc. Mobilizo Zygmunt Bauman, especialmente, porque minha hipótese principal surge da sua categoria de “Liquidez” aplicada ao campo afetivo, na qual se supõe que os valores sociais atribuídos aos relacionamentos amorosos contemporâneos foram perpassados pelos valores do consumo, ou seja, relações cada vez mais rápidas, sem perspectivas de compromisso e com expectativas semelhantes às que são atribuídas às mercadorias, em geral. Proposições como as de Bauman (2004), Sennett (2012) e Illouz (2011) apontam para uma modificação nas relações interpessoais da sociedade atual. Ambos apostam em afrouxamento de laços entre as pessoas e na intervenção do consumo e/ou capitalismo, que parece estar ocupando uma posição de mediação nessas relações. A tentativa deste trabalho é apreender para a maneira na qual as relações amorosas/afetivas estão sendo afetadas pela estrutura social vigente. A internet, então, aparece como um dispositivo potencializador desta tendência de comportamento ao tornar possível que se tenha ao mesmo tempo o impulso de liberdade e a ânsia por pertencimento, através do ‘aproximar-se’ e do ‘afastar-se’; ao proporcionar proteção através da distância, proporciona

439

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

também “proteção” das consequências que estes anseios trazem em relação ao Outro. O ideal de conectividade luta para apreender a difícil dialética desses dois elementos inconciliáveis, pois promete uma navegação segura entre a solidão e o compromisso. Para Bauman, nos chats o que importa não são as mensagens em si, mas a circulação delas. O ir e vir que formam a mensagem, se pertence à conversa e não ao conteúdo dela. (BAUMAN, 2004, Pg. 25) O mercado, então, atua como intermediário nas atividades de estabelecer e desmanchar relações interpessoais, ao aproximar e separar as pessoas, conectá-las e desconectá-las, aceitá-las e deletá-las, etc. Segundo Illouz (2011) a criação do capitalismo caminhou concomitante a criação de uma cultura afetiva intensamente especializada, e que quando nos concentramos na dimensão dos sentimentos podemos ter condições para revelar outra organização social do capitalismo. Na nova cultura da afetividade, desenvolvida ao longo do Séc. XX, o “eu” privado foi publicamente posto em ação e atrelado aos discursos e valores das esferas econômicas e políticas. O capitalismo afetivo pode ser traçado como uma cultura em que os discursos e práticas afetivos e econômicos moldam uns aos outros, produzindo um movimento abrangente em que o afeto se torna um aspecto essencial da vida econômica e a vida afetiva segue a lógica das relações econômicas e da troca.(Illouiz, pag.11, 2011) Nesta linha de raciocínio o mercado também altera as relações humanas no trabalho e no lar, no domínio público e nos mais íntimos domínios privados. Narra o viver como uma

440

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sucessão de problemas que quase sempre têm sua solução disponível nas prateleiras das lojas. Vende atalhos para todos os tipos de objetivos, fornece engenhocas e serviços sem os quais, na ausência de habilidades sociais, “relacionar-se” com outras pessoas e desenvolver um modus vivendi duradouro seriam tarefas assustadoras para um número cada vez maior de pessoas. Transmite aos lares a mensagem de que tudo é ou poderia ser uma mercadoria e como tal deve ser tratado. Isso significa que como as coisas deveriam ser “como mercadorias” devem ser encaradas com suspeita ou rejeição caso se recusem a se enquadrar no padrão de objeto de consumo.(BAUMAN, 2007) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN. Zygmunt. Vida Líquida. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. ________. Zygmunt. Amor Líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. ________. Zygmunt. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Tradução de Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. COSTA, J. F. (1998). Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico. (5a ed.). Rio de Janeiro: Rocco

441

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

FAUST, André. O negócio do flerte na web com o Badoo. Reportagem, 19.10.2011. Disponível em: http://exame.abril. com.br/revista-exame/edicoes/1002/noticias/o-negocio-do-flerte-na-webConsultado em: 05.05.2013. ILLOUZ, Eva. O amor nos tempos do capitalismo. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2011 ROMANINI, Vinicius. Badoo, uma rede social de paquera. Reportagem, 17/05/2012. Disponível em: http://exame.abril. com.br/revista-exame-pme/edicoes/0048/noticias/badoo-uma-rede-social-de-paqueraConsultado em: 08.05.2013. SIMÃO, Mairins. Badoo: um dos virais mais bem sucedidos da história. Entrevista em 10.05.2012. Disponível em:http://www. administradores.com.br/entrevistas/marketing/badoo-um-dos-virais-mais-bem-sucedidos-da-historia/78/ Consultado em: 05.05.2013. SENNETTT, Richard. Juntos. Os rituais, os prazeres e a política da cooperação. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro-São Paulo: Editora Record, 2012.

442

Sumário

61 Comunicação através dos amadores

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Edu Jacques Filho Poderíamos considerar que a massa foi a categoria analítica privilegiada nos estudos de comunicação iniciais, então na primeira metade do século XX (MIÈGE, 2000).As incertezas sobre a ação dos meios, premente naquele momento, ocupava a atenção dos analistas, ainda inexperientes com esse tipo de objeto. Durante o mesmo século a engenharia proporcionou inovações na forma de nos comunicarmos individualmente e em grupo. O mais recente advento que vem estabelecer-se como desafio à constituição de um saber científico no nosso campo é a internet. A consolidação de uma infraestrutura possibilitou que a tecnologia de redes digitais se expandisse comercialmente e se tornasse referência no início do século XXI. O problema, para nós, nascente dessa aposta comunicacional é a crítica dos modelos de pesquisa tradicionais. A pergunta centrada naquela categoria, massa, necessita de revisão. O contexto formado a partir da rede infotécnica e a apreensão dos agentes sociais sobre seus mecanismos adquire um estatuto diferenciado no marco histórico que experimentamos. O conceito ainda em desenvolvimento de midiatização vem auxiliar nessa problemática. Um fenômeno compreendido segundo discursos diferidos e difusos (BRAGA, 2007). Em pesquisa de mestrado ainda em curso atentamos a esses tópicos. Tomamos como problema os modos como fãs

443

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

de Harry Potter desviam os sentidos da narrativa industrial. Ora a derivação que denominam de fanfictionsou através de postagens no Facebook, eles ilustram a capacidade de ação do indivíduo em posse das ferramentas digitais. O agente tratado usualmente como consumidor foi dotado assim de capacidade de expressão, não necessariamente com interesse de auferir lucro. Esses grupos amadores, sejam fãs ou outra forma de organização, demonstram a capacidade de auto-organização através da internet. Tal apropriação social é gradualmente incorporada ao mercado, já que as ações despretensiosas acabam por se tornar oficinas às corporações. São exemplos disso as transformações de jogos modificados em títulos à venda, como Counter Strike e Defense of the Ancients, ou, no domínio da literatura, a publicação da “ex-fanfiction”50 Tons de Cinza. O objeto empírico na dissertação são as maneiras pelas quais fãs transformam os sentidos fundados pela escritora Joanne Rowling em criações com motivos distintos. Ainda estamos em um momento preliminar para efetuar apontamentos sobre em que consistem esses motivos, se necessidade de expressão, se vontade lúdica etc. Entretanto, as formas em que tomam a narrativa se tornaram exemplopara organização de fãs na era da internet. O método empregado sustenta a via da construção de hipóteses para enriquecer a análise.É dizer, além de reconhecer as inferências clássicas das ciências, a dedução e a indução, recorremos a uma inflexão que pretende construir o caso da pesquisa (FERREIRA, 2012).

444

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Mas se pode estabelecer um corte epistêmico nessa abordagem: são aquelas iniciativas fenômenos de experimentação, de reconhecimento, ações livres, ou seriam práticas construídas num espaço de tempo com essência cristalizada seja qual for? Essa pergunta de aspecto simples coloca as pesquisas dentro de uma amplitude temporal. Problematizando sua reposta podemos entender se as inferências poderão se estender no futuro ou seu significado é momentâneo (MIÈGE, 2009). Assim propomos um trabalho a partir desses grupos de amadores a agir com as ferramentas digitais. A plataforma chamada de web 2.0, embora forme um conceito vago, representa a aposta em investimentos coletivos de conteúdo. Temos como exemplo mais claro a wikipedia, mas também blogs, Twitter, Facebook. Os agenciamentos que decorrem desses espaços, à exceção do primeiro, são aparentemente descoordenados, o que exige aproximações frequentemente quantitativas para analisar seus termos. É nessa encruzilhada sobre os rumos que o pesquisador deve tomar que apostamos na construção do caso. Apesar da liquidez dos usos individuais que se desenvolvem atualmente podemos estabelecer alguns pontos de referência. Já citamos Harry Potter sobre a razão do fandom1 e wikipedia como enciclopédia coletiva. Uma no âmbito da cultura e outra no do conhecimento. Outros projetos emergem

1 Neologismo de língua inglesa que mistura as formas fan e domain. Em tradução equivaleria a domínio dos fãs. É aplicado a objetos específicos, como o fandom de Harry Potter, o fandom de Game of Thrones.

445

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

com gratuidade na internet,seja com o tema de acesso à informação (wikileaks) ou petições digitais (Avaaz). O discurso tecnológico que testemunhamos por vezes reclama características herdadas da cibernética do século XX. Mas a interconexão não resolve imediatamente problemas de ordem política. Estudamos, na dissertação, o âmbito da cultura, mas mesmo nessa aproximação são observadas assimetrias nas relações entre agentes. Há moderadores, postadores, designers que condicionam a organização do material de modo que a nuvem de conteúdo não seja tão arbitrária assim. Ademais, é claro que alguns indivíduos se destacarão na esfera da internet, obtendo maior audiência que os demais. Aí que entendemos a importância desses grupos organizados como âncoras. No caso de fãs temos uma comunidade que se autodenomina fandom e possui normas tácitas no seu modo de agir. Não é uma iniciativa recente, fãs existem, pelo menos em relação a produtos mediáticos, desde os anos 1970 (JENKINS, 1992). O que ocorre é uma mutação na forma de se organizarem e sua expansão com a internet (FLICHY, 2010). Desses núcleos deslizam sentidos tanto para a indústria como para agentes comuns que se deparam com as criações em circuitos abertos, como o Facebook. A dinâmica de amadores (fãs, modificadores...) representa o potencial de investimento do indivíduo fora das leis de mercado, fora das exigências do ofício. A pesquisa em Comunicação pode apreendê-los como modelo de estudo mesmo para as ações, instáveis, que executam, pois delas florescem novos hábitos de consumo e expressão simbólica. O ato

446

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

de escrever, de assistir a conteúdos de humor, de se instruir, de escutar música, podem estar se inspirando em plataformas que foram apostas individuais mais do que projetos corporativos. A sociedade parece reconhecer a si mesma a partir dos usos que são manifestados nos dispositivos digitais. É claro que boa parte desse cenário enfrenta ora a utopia política da igualdade (de acesso e de expressão), ora a invasão do setor financeiro (vide bolha das pontocom), mas esses momentos são incidentais e parecem não demover a midiatização de ser assumida aos poucos através de práticas. Um bom ponto de partida para analisarmos na pesquisa é a observaçãodo que se repete como qualidade ao longo desses processos, o que é análogo na sua constituição ao longo dos projetos amadores, e qual o sentido que eles incorporam no conjunto social. Esse último tópico, sobre as funções, as homologias, é menos aparente e necessita de esforço aprofundado. As perguntas que direcionamos ao campo da Comunicação são as seguintes: como podemos assumir os atores individuais fora de sua aura de massa, já em posse das tecnologias digitais? Como tal fenômeno modifica as relações sociais? Referências BRAGA, José Luiz. Midiatização como processo interacional de referência. In: Imagem, visibilidade e cultura midiática – Encontro da XV Compós. MÉDOLA, Ana Silvia; ARAÚJO, Denize Correa; BRUNO, Fernanda (orgs.). Porto Alegre: Sulina, 2007.

447

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

FERREIRA, Jairo. O caso como referência do método: possibilidade de integração dialética do silogismo para pensar a pesquisa em comunicação. In: Intexto, Porto Alegre, UFRGS, n. 27, p. 161-172, dez. 2012. FLICHY, Patrice. Le sacre de l’amateur: Sociologie des Passions Ordinaires à L’Ère Numérique. Seuil: Paris, 2010. JENKINS, Henry. Textual Poachers: television fans and participatory culture. New York: Routledge, 1992. MIÈGE, Bernard. O pensamento comunicacional. Petrópolis: Vozes, 2000. ___. A sociedade tecida pela comunicação: técnicas da informação e comunicação entre inovação e enraizamento social. São Paulo: Paulus, 2009.

448

Sumário

23/11 – TARDE SESSÃO TEMÁTICA 6 Visibilidades e Cidades

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO A 62 A cidade pelo gosto Victor Stoimenoff

Resumo O gosto constitui-se numa das formas por excelência de conformar hierarquias. O capital cultural, tal como definido por Bourdieu, é inegavelmente um forte fator de segmentação, de diferenciação social. Um conceito que reduziria a ideia de cultura a uma de suas acepções clássicas, uma espécie de sinônimo de educação formal. O excessivamente popular, dentro desta visão dicotômica, estaria direcionado ao grupo formados pelos supostos “menos exigentes”. A chamada música brega sempre foi alvo de acaloradas controvérsias entre a autoproclamada elite cultural, bem como entre os críticos musicais e jornalistas que associavam o gênero a uma produção de gosto duvidoso, de menor qualidade musical e artística. Inúmeros artistas consagrados pelo grande público receberam ao longo da carreira um tratamento diferenciado por parte da crítica especializada por possuírem atributos supostamente bregas.O Brasil dos últimos anos testemunhou diversas transformações econômicas e sociais que, obviamente, reverberam na ideia de nação e de

450

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

beleza compartilhada fora e dentro do país. A ideia do brasileiro comum reificada pela mídia nativa, vive um processo de contínua mudança. Fenômenos como a ascensão das classes C e D certamente contribuem para subverter o que seria entendido por brasilidade e por bom gosto ou, dito de outra maneira o que é considerado bonito no país e aquilo que não deve ser mostrado.O interesse recente da mídia hegemônica em torno do tecnoberga paraense parece romper as fronteiras geográficas e simbólicas tradicionais da indústria fonográfica e midiática nacional. Ao introduzir um alargamento do imaginário de Brasil para além do eixo Rio -São Paulo, o fenomeno contribui para difundir uma estética duplamente periférica: a periferia brasileira sendo projetada por meio da periferia de Belém.

451

Sumário

63 Assim é o que se parece (fotografia)

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Angela Almeida Minha obsessão tanto na pesquisa quanto no próprio ato de fotografar é compreender o que ultrapassa os limites do visível na fotografia, tentando assim captar os sentidos que extrapolam a forma ou o que pode surgir entre o real e o imaginário, a ficção e a verdade, a cultura e a natureza, o belo e o feio; ou até mesmo a fotografia que pode sugerir mais do que expor. Como método de escrita e análise, eu me inspirei na enciclopédia chinesa de Borges, que ordena e divide os animais em categorias como: pertencentes ao imperador, embalsamados, domesticados, fabulosos, cães em liberdade etc. Nesse sentido, passei a transferir essa taxonomia esse corpo para o universo das imagens fotográficas, de modo que ordenei algumas categorias como: pertencentes à abstração; ao universo das coisas; a uma certa desordem estética; à cultura do corpo; ao humano em sua relação de fé; às sombras que se humanizam; ao humano. Fazendo referência à enciclopédia de Borges, Foucault (1992, p. 9), no prefácio do seu livro As palavras e as coisas, comenta: [...] é que a enciclopédia chinesa citada por Borges e a taxinomia que ela propõe conduzem a um pensamento sem espaço, a palavras e categorias sem tempo nem lugar mas que, em

452

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

essência, repousam sobre um espaço solene, todo sobrecarregado de figuras complexas, de caminhos emaranhados, de locais estranhos, de secretas passagens e imprevistas comunicações [...].

No rastro também de construir espaços assim, “pensamentos sem espaço”, “palavras sem tempo”, figuras complexas, fui me alimentando de imagens de fotógrafos como Numo Rama, Marcelo Buainain, Juan Esteves e Eustáquio Neves. Quanto a este trabalho, tanto a narrativa como as imagens não estão dispostas de forma linear e sim se propõem a transitar por territórios estranhos e talvez desconhecidos, em constante processo de “imprevistas comunicações”. E se estamos falando de imprevistas comunicações, nada como lançar laços ao pensamento inovador do teórico da comunicação, Ciro Marcondes Filho (2004, p. 15), que desenvolve um conceito em que pensa a comunicação como [...] algo não estável, fixo, consistente; nela nada se transfere, ela não é “uma coisa”, menos ainda uma coisa única que como vai, assim é recebida. Por isso, “não sendo nada”, ela não pode encerrar nenhuma verdade, não pode ser traduzida, não há uma chave que nos diga o que a coisa significa, quer dizer, representa.

O mesmo autor mostra, ainda, que comunicação é “[...] um processo, um acontecimento, um encontro feliz, o momento

453

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mágico entre duas intencionalidades, que se produz no atrito dos corpos” (MARCONDES FILHO, 2004, p. 15). Assim, a comunicação, para ele, realiza-se também no silêncio, no contato dos corpos, nos olhares, nos ambientes. Podemos exemplificar, então, como a possibilidade no ato de contemplação de uma imagem, uma possibilidade de comunicação (MARCONDES FILHO, 2010). Ademais, tomei o rumo das ideias desenvolvidas por Aby Warburg quando trata as imagens como portadoras de uma memória coletiva, as quais são capazes de criar pontes entre os tempos históricos (DIDI-HUBERMAN, 2013). Para isso, segundo Didi-Huberman (2013, p. 31), Warburg pôs em prática um constante deslocamento “[...] no pensar, nos pontos de vista filosóficos, nos campos de saber, nos períodos históricos, nas hierarquias culturais, nos lugares geográficos”. A partir dessas ideias, as imagens aqui foram selecionadas e se colocam por vizinhanças de sentidos, muito mais do que por autoria. Por exemplo, as imagens da série Riobaldos: homens imaginários (de minha autoria) podem se avizinhar de algumas das da série Diáspora, do autor Numo Rama. Já a fotografia de Numo pode, do mesmo modo, avizinhar-se da fotografia de Koudelka que, por sua vez, pode avizinhar-se da de Marcelo Buainain, ou de alguma das imagens de Juan Esteves, de Eustáquio Neves e assim por diante. Por conseguinte, os percursos aqui são bifurcados, fluídos e, às vezes, incertos. Nessa perspectiva, mesmo sendo bastante complexas essas ideias de Warburg, seguir alguns rastros inspirado nelas é tentador. Para Warburg, as imagens são circulares, elas regres-

454

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sam em culturas variadas e tempos variados, de forma que a arquitetura desse pensamento o impulsionou a organizar seus livros a partir de afinidades eletivas. Seus livros passaram, então, a ser colocados nas estantes a partir de vizinhanças de assuntos e relações e não pelo sistema intrínseco de seu conteúdo. Outrossim, as imagens aqui selecionadas colocam-se também na fluidez dos tempos históricos, nos limites das categorias estéticas, no deslocamento do pensamento, na diversidade das autorias. Ressaltando também que o importante na escolha de qualquer dessas imagens é o sentido dos limites de visibilidade que se justifica no conjunto desta obra. Talvez essa cartografia desejada mostre-se muito próxima do termo “bodenlos”, criado por Vilém Flusser, que significa “sem chão”, “sem fundamento”. Flusser emprega essa expressão em vários sentidos, escolho aqui o da possibilidade e procura de sentidos arrancados da realidade, porém já não reais ficcionais como a própria fotografia e o que ela pode exprimir como fantasmagoria (FLUSSER, 2007). Na série Diáspora, do fotógrafo Numo Rama (paraibano, radicado em Natal-RN), podem-se ordenar categorias como: pertencentes à abstração; ao humano; à natureza e descrevê-las em sentidos, quais sejam: a) rasgos de um movimento entre galhos e parede; b) cruzes na estrada; c) sombra de um corpo preso numa cerca circular; d) urubus em fila observando uma carcaça; e) bicho morto no mato; f) homem entrando no mato; g) flores que nascem próximas a palhas secas; h) sombra de um animal e corda; i) criança na estrada; j) árvores retorcida e prédios ao longe.

455

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

No entanto, nenhuma dessas imagens nos chega facilmente, nada é dado prontamente. É preciso um tempo para absorvê-las, chegar mais perto, pensar, relacionar, questionar, amar, odiar, não entender; é necessário estabelecer vínculos com elas. Como diz Giordano Bruno (2012, p. 40): “Todas as coisas que podem ser atadas por vínculo são, de alguma forma, sensíveis, e, na substância dessa sensibilidade, observa-se uma determinada espécie de conhecimento e determinada espécie de apetite”. A meu ver, as fotografias de Numo Rama avizinham-se das fotografias de Josef Koudelka. Nesse sentido, o escritor Bernard Cuau (2012, Notas) descrevendo sobre as fotografias de Koudelka diz que: “As fotografias importantes são invisíveis para as pessoas apressadas. É verdade que não sabemos mais olhar a não ser de um jeito estranho”. Ele mostra, também, que Koudelka mistura-se à sua comunidade quando fotografa, conhece o rosto de todos e todos conhecem o dele. Nessa perspectiva, podemos dizer o mesmo de Numo Rama, uma vez que ele fotografa sua comunidade, os que estão bem próximos dele, tanto o humano quanto a natureza, as plantas, as paisagens, os bichos, as pedras, todos integrados em um só sentido. Em relação a Koudelka, Cuau (2012, Notas) acredita que “Seus valores vêm de longe e se reduzem ao elementar: dar vida, amar, sofrer, morrer. E, para aqueles que ficam não esquecer”. Nesse caso, é outra característica que também podemos transferir e dizer sobre Numo Rama. Assim, não são apenas os homens que se encontram, mas também suas obras. A esse respeito, Geoff Dyer (2008, p.

456

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

139) diz que: “Todos os grandes fotógrafos são capazes de se metamorfosear em outros fotógrafos, mesmo que só de vez em quando e por acidente. Todos tiraram fotografias que parecem fotografias de outros grandes fotógrafos”. Porém, Numo também tem o seu próprio mundo, seu olhar singular de registrar as coisas ao seu redor. É um criador de imagens que desencadeiam em nós o inesperado, o surpreendente, o indefinível e também o completamente estranho, desconhecido (visto sobre outro prisma) e profundamente humano. Ele registra o que está dentro, nas bordas, nas sombras, no rastro, no que não foi dito. Ele nos força a mudar a forma de ver para poder perceber suas imagens, pois compreender já é pedir demais. São imagens que lembram um verso do poeta E. E. Cummings “Nalgum lugar em que eu nunca estive”. Neste trabalho, incluo também as minhas fotografias, mesmo confessando certa insegurança em operar, nesse caso específico, em um campo tão próximo, que é a inserção da própria produção. Porém, tento conduzir um afastamento necessário para não cair na presunção, mesmo tendo a consciência de que narrativas assim podem gerar imagens menos lúcidas. Quanto às imagens, a série de fotografias denominada de Riobaldos: homens imaginários são representações de vaqueiros de qualquer sertão, homens de qualquer lugar imaginário, porque são imagens que transitam entre o real e o fantástico, o mítico e o festivo, o lírico e o poético, a terra seca do sertão e até o verde exuberante quando nela brota. É também, é claro, uma referência ao personagem Riobaldo, da obra Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

457

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Sob essa ótica, são fotografias próximas de subjetividades que podem relatar um tempo não linear, um tempo de silêncio, de solidão, de melancolia, de certezas e incertezas, de sertões reais ou talvez apenas sonhados. Imagens como síntese de uma estética do sertão e ao mesmo tempo expandidas, próximas da pintura, porque foram construídas a partir dos processos da arte. Elas são também como ruídos, desvios, imperfeições da experiência estética, isto é, imagens rasgadas, perfuradas como o sertão poético de Câmara Cascudo (1926, p. 4) em seu poema, que diz: [...] Prefiro o sertão vermelho, bruto, bravo,/com o couro da terra furado pelos serrotes/ hirtos, altos, secos, híspidos / e a terra é cinza poalhando um sol de cobre / e uma luz oleosa e mole escorre/ como óleo amarelo de lâmpada de igreja.

São imagens também que se metamorfoseiam e compõem cenários ficcionais na intenção de reinventar o real, de extrair o invisível das coisas e o fantástico. Para mim, elas lembram a metáfora criada por Michel Serres (1993), o casaco de Arlequim, sobre o Rei Lua que, diante de seu público, vai se despindo e à medida que retira seu casaco, outros e outros vão surgindo e, enfim, quando consegue ficar nu, sua pele é tatuada, revelando, então, seu sexo hermafrodita e até o seu sangue mestiço, impuro.

458

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Do mesmo modo, facilmente o olhar capta a construção dessas fotografias, compostas por camadas como o casaco de Arlequim, construídas a partir de fragmentos de imagens e editadas sobrepostas, transformando em uma imagem infinitamente possível de ser recriada e nunca acabada em si. A esse respeito, o fotógrafo e escritor Joan Fontcuberta (2010, p. 31) constata que: “Fotografar, em suma, constitui uma forma de reinventar o real, de extrair o invisível do espelho e de revelá-lo”. Nesse sentido, todas as fotografias aqui selecionadas fogem do que Vilém Flusser (2008, p. 28) enquadra como imagens “prováveis”, do ponto de vista do programa dos aparelhos, uma vez que “[...] é preciso utilizar os aparelhos contra seus programas. É preciso lutar contar a sua automaticidade”. Até mesmo no sentido da recepção, ao olhar naturalmente uma imagem pode-se apenas captar a aparência de seu conteúdo. Contudo, para entendê-la, é necessário conhecer a reconstituição das dimensões abstratas no seu momento de feitura. Sob esse prisma, Flusser (2008) procura a intencionalidade tanto de quem constrói a imagem quanto de quem a observa, tendo em vista que o conhecimento desses processos de construção das fotografias torna-nos mais conscientes de nossas relações entre as imagens e o mundo. Essa concepção leva-nos, ainda, ao texto do fotógrafo Juan Esteves, quando escreve a respeito de uma fotografia de Marcelo Buainain (Campo Grande – Mato Grosso do Sul) confirmando que: “A sensibilidade do nosso consciente e inconsciente, reflexo de nosso despertar, se mostra na fotografia” (ESTEVES, 2013a, Impressões). A obra de Marcelo Buainain

459

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

é, portanto, brenha de imagens compostas por meio de uma técnica primorosa, exuberante e elegante. Além disso, grande parte de sua obra procura registrar os caminhos dos homens pela fé e para a fé. A respeito da arte de fotografar, Pedro Vasquez, na apresentação de do mais recente livro de Marcelo Buainain, MiAmasVin, comenta: “Como fotografar o invisível? Como expressar o indizível? Seria realmente possível oferecer um vislumbre do universo metafísico através de um meio de expressão tão atrelado ao mundo visível quanto a fotografia?” (VASQUEZ, 2012, Apresentação). Marcelo Buainain responde a essas perguntas a partir de sua obra. Ele sabe que os humanos jamais cessaram de pedir ajuda e proteção às suas divindades celestiais, como bem disse Edgar Morin (CASSÉ; MORIN, 2008). E, assim, ele percorre o mundo para captar instantes entre o homem e sua fé nas divindades. Talvez seja a fotografia a expressão que mais se aproxime da verdade desse momento, porque a escrita sempre estará mais distante pelo próprio ato de interpretação. Se nos permitirmos mergulhar profundamente nas fotografias de Marcelo, as imagens nos arrancarão o coração como o teocal do México (os sumos sacerdotes astecas que sacrificavam centenas de adolescentes arrancando-lhes o coração) e, quando de nosso retorno a terra, com certeza, estaremos com os olhos enxertados de dor. Há entre nós e os retratados de Marcelo Buainain uma espécie de pacto de silêncio ou uma entrega, como bem definiu Juan Esteves (2013b): “Buainain é o instrumento desta ação,

460

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

nos leva a correr juntos, a fechar os olhos. Nos entregamos tão destemidos com eles”. Já o campo da fé, que pode nos levar à nudez da alma, também pode levar à nudez do corpo. Nesta outra obra que avizinho aqui, corpos e seus fetiches cruzam várias fronteiras: o amor, a perversidade, o mito, a prisão ou o encantamento. Nesse caso, estamos nos referindo à série fotográfica Nus dos arames, de autoria do fotógrafo Juan Esteves, a qual apresenta fotografias que se deslocam do campo da fé para cair numa espécie de atrator. Em relação ao termo “atrator”, Canevacci (2008, p. 16) assim descreve: “[...] anula temporariamente o movimento do olho exercendo um poder que une o olhar e a coisa e que determina os novos cursos dos fetichismos visuais”. Dos fotógrafos aqui tratados, Juan Esteves (Santista-SP) talvez seja o mais metropolitano, não só pela origem, pelos próprios temas, ou pela estética, mas por sua própria obra. Um fotógrafo com um imenso lastro de retratos de personalidades da cultura brasileira de sua geração (cujos trabalhos foram publicados em livros de referência, tendo ainda fotografias em coleções de grandes museus aqui e fora do país), mantendo também uma constante produção que faz uso de tecnologias digitais através de aplicativos e, inclusive, com inserção desse material em redes sociais. Entretanto, vamos no ater apenas à série de fotografias citada acima e alguns trabalhos com aplicativos que se avizinham de algumas fotografias já citadas. Quanto à série de fotografias Nus dos arames, apresenta corpos femininos, longilíneos. Às vezes se mostram tímidos, outros destemidos, expostos de forma até exibicionista (as poses são

461

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

próximas da linguagem publicitária). Nesse sentido, o nosso olhar se mistura com o olhar voyeur do autor, mas, as retratadas, por sua vez, nunca nos olham, nunca encaram seu predador (o fotógrafo). São fotografias que esteticamente lembram gravuras. Além disso, há alguma coisa nelas de perverso e amoroso ao mesmo tempo. Os arames não perfuram os corpos, os corpos não sentem os arames, não há possibilidade de união, como visto no ensaio de Péter Esterházy (2010, p. 51): “Há uma mulher. Sente por mim o que eu sinto por ela, me odeia, me ama. Quando ela me odeia eu a amo, quando ela me ama, eu a odeio. Não existe outra possibilidade”. A esse respeito, é possível até mesmo dizer que o corpo e os arames são como a relação do toureiro com o animal, na tauromaquia, que segundo Michel Leiris (2001, p. 48), pode ser uma relação em que: “[...] o sortilégio se desata: depois de tantas carícias mais e mais lancinantes, os dois parceiros separam-se, doravante estranhos um ao outro”. Essas imagens passam-nos a impressão de que algo nunca é dado completamente, nem mesmo roubado. Outras imagens do autor – feitas com aplicativos para celular e difundidas em redes sociais como o facebook – são imagens que ele divulga e produz mais constantemente. Em sua maioria, tratam da arquitetura da cidade de São Paulo estendendo-se também como imagem de sentido “atrator”. Desse modo, consistem em arquiteturas que se movem, se imbricam, se penetram como corpos (sem desmedidas), embora não se dilatem umas nas outras. São corpos que se tornam transparentes (dissolução

462

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

do concreto), porém nunca líquidos, nem fluxos, apenas entrelaçados e hibridizados como os corpos e os arames. Juan, nesse trabalho, deixa as formas curvas de um corpo feminino para entrar na linguagem geométrica dos concretistas. Nessas fotografias facilmente encontramos referências que lembram as obras de artistas como Waldemar Cordeiro, Luis Sacilotto, Franz Weissmann e Willys de Castro. O próprio fotógrafo confessa sua admiração pela gravura e passagem por algumas de suas técnicas. Essa espécie de cartografia (imagens e textos) também pode nos dizer que, se algumas dessas imagens nos fazem pensar, também terá o poder de comunicar (tomando o conceito de comunicação desenvolvido por Marcondes Filho, 2010). Assim é o que parece. REFERÊNCIAS BRUNO, Giordano. Os vínculos. Tradução: Elaine Sartorelli. São Paulo: Hedra, 2012. (Coleção Bienal). BUAINAIN, Marcelo. Impressões. Disponível em: http://www. buainain.com/ impressao/#.UcxvHW2oBGM. Acesso em: 27/06/2013. CANEVACCI, Massimo. Fetichismos Visuais – Corpos Erópticos e Metrópole Comunicacional. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008. CASCUDO, Luis da Câmara. Não gosto de sertão verde. In: ______. Terra roxa e outras terras. v. 1, n. 6. Rio de Janeiro, 1926.

463

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

CASSÉ, Michel; MORIN, Edgar. Filhos do céu: entre vazio, luz e matéria. Tradução: Edgard de Assis carvalho, Mariza Perassi Bosco. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008. CUAU, Bernard. Notas. In: KOUDELKA, Josef. v. 10. Tradução: Irene Ernest Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2012. (Coleção Photo Poche). DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013. DYER, Geoff. O instante contínuo: uma história particular da fotografia. Tradução: Donaldson M. Garschagen. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. ESTERHÁZY, Péter. Uma mulher. Tradução: Paulo Schiller. São Paulo: Cosac Naify, 2010. ESTEVES, Juan. Impressões. In: BUAINAIN, Marcelo. 2013a. Disponível em: http://www.buainain.com/impressao/#. Uc4IV9gQPaE. Acesso em: 26/06/2013. ESTEVES, Juan. Nos entregando a uma imagem. In: BUAINAIN, Marcelo. 2013b. Disponível em: http://www.buainain.com/ convidado-juan/#.Uczm9NgQPaE. Acesso em: 27/06/2013. FLUSSER, Vilém. Bodenlos: uma autobiografia filosófica. São Paulo: Annablume, 2007. ______. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

464

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

FONTCUBERTA, Joan. O beijo de Judas – Fotografia e Verdade. Tradução: Maria Alzira Brum Lemos. Barcelona: Editora Gustavo Gili, 2010. FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução: Salma Tannus Muchail. 6a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. LEIRIS, Michel. Espelho da tauromaquia. Tradução: Samuel Titan Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2001. MARCONDES FILHO, Ciro. O princípio da razão durante: o conceito de comunicação e a epistemologia matapórica. Nova teoria da comunicação III; tomo V. São Paulo: Paulus, 2010. ______. Até que ponto, de fato, nos comunicamos? São Paulo: Paulus, 2004. SERRES, Michel. Filosofia mestiça. Tradução: Maria Inez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. VASQUEZ, Pedro Afonso. Apresentação. In: BUAINAIN, Marcelo. MiAmasVin. Natal, 2012. Disponível em: http://www.buainain. com/mi-amas-vin-livro/. Acesso em: 26/06/2013.

465

Sumário

CADERNO DE IMAGENS

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fotografias da série Riobaldos: Homens imaginários e Fulô (autoria: Angela Almeida)

466

Sumário

467 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

468 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fotografias de Numo Rama

469 Sumário

470 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fotografias de Marcelo Buainain

471 Sumário

472 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

473 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

474 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

475 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fotografias de Juan Esteves

476 Sumário

477 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

478 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

479 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

480 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

64 Desenho e Pintura em Antonin Artaud – A Estética da Crueldade Gerlúzia de Oliveira Azevedo

RESUMO Nos propomos pensar / construir um caminho no qual possamos perceber a estética da crueldade, a partir dos desenhos e da pintura presentes na obra de Antonin Artaud, visualizando, assim, a Arte como registro da cultura, portanto, como duplo da vida, que nos possibilita um olhar para a sociedade mais critico e consciente. Nesse contexto, como pensar a arte e sua relação com a cultura por meio de uma perspectiva artaudiana da estética da crueldade? Nessa construção, temos como base um aporte teórico fundamentado no pensamento de Antonin Artaud, no que tange suas reflexões acerca da cultura, da arte e da vida. Muitos autores têm versado acerca do potencial poético e artístico – direcionado ao Teatro – inerente a Antonin Artaud e, diante de tantos escritos sobre ele, ressaltamos que não fora apenas nas áreas da literatura – poesia – e do teatro seu destaque como ser, como um ser-no-mundo. Há uma presença marcante de Artaud também em todas as linguagens da arte, seja no teatro, na música, na dança ou nas artes plásticas. É um pensador cujas obras transcendem áreas distintas do conhecimento. Existe certa transversalidade em seu

481

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

pensamento, e isso é notório quando trata da linguagem, da arte, da cultura, da vida e mais especificamente quando não admite separação entre civilização e cultura. Palavras-chave: Vida. Cultura. Estética da crueldade.

482

Sumário

65 Considerações sobre fotografia contemporânea

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Bruna Queiroga

Resumo Da contemporaneidade. Primeiro centenário da contemporaneidade. O Palais dês Beaux-Arts, em Bruxelas, recebeu em 2000 a exposição “Look! 100 Years of Cotemporary Art” dedicada à arte do século XX, com curadoria de Thierry de Duve. Século XXI e ainda denomina-se arte atual como “contemporânea”. Um dos grandes desafios de se propor a estudar a fotografia contemporânea é estipular este tempo atual. Procurando entender este período nos deparamos com vários conceitos históricos e filosóficos, mas primeiramente é preciso se debruçar sobre a questão do tempo. Proponho um diálogo do “contemporâneo ocidental” com o “aqui e agora” oriental. Como ponto de partida o artigo procurará expor uma breve leitura sobre o tempo e espaço na cultura japonesa, onde o tempo é um fluir irreversível, e se reflete em todas as expressões artísticas.   Da experiência fotográfica. O crescimento da fotografia com a proliferação de câmeras fáceis reforça que ela sempre foi um meio de massa. Qualquer pessoa pode produzi-la ou reproduzi-la. Ela está na construção da imagem da família através dos álbuns, na construção da imagem de perfil em redes

483

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sociais, na construção de notícias. Esteve ao lado da indústria, da arte e da sociedade. Por isso, a crítica benjaminiana de que a fotografia é apenas uma simulação do olhar que leva a uma crise da percepção. No entanto, é justamente este acesso facilitado à tecnologia da fotografia que permite um desenvolvimento epistemológico e fenomenológico dela. Fotografar mais pode significar excesso de imagem o que leva uma atrofia do olhar, mas ao mesmo tempo significa que a experiência do gesto fotográfico, da presença da câmera, é muito relevante. A fotografia atual fotografa o banal, o ordinário, o superficial, o “estar receptivo ao instante” que propunha Cartier-Bresson. Longe dos retratos tradicionais que tinham preocupações históricas e sociológicas, busca o “aqui e agora”. A tentativa de desvinculação com a massa colocou a fotografia definitivamente do mercado de arte. Ganhou espaço na medida em que a obra de arte passou a ser pensada muito mais enquanto objeto do que experiência, trocou a valorização da obra pela imagem. A reprodução invertia a hierarquia entre indivíduo e sociedade. A época que Charles Baudelaire desenvolveu tal crítica, fazer fotografia pertencia a um determinado grupo. Atualmente, a percepção antes alterada pela reprodução, como disse Walter Benjamin, é novamente alterada pelo gesto fotográfico. Quando se faz, se repensa a si próprio. Da percepção. Voltando-se primeiro para o fazer para depois preocupar-se com o resultado plástico, chega-se a resultados tão expressivos que muitos que fotografam pensam

484

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

estar, automaticamente, fazendo arte. Um exemplo disso é a Lomografia, um movimento que surgiu retomando a concepção fotográfica de equipamento analógico de baixo custo com propostas de capturar o acaso, se permitir o imprevisível. Tornou-se um movimento artístico não apenas pelo apelo plástico, mas inclusive pela experiência fotográfica de seus praticantes. Temos então a técnica da câmera com os gestos do corpo, os olhos e os dedos. Para Merleau-Ponty, o sentido expõe-se no gesto, confunde-se com a estrutura do mundo, pois o corpo, onde estão os gestos, é fronteira interior e exterior, é por ele que habito o mundo. É pelo corpo que percebo e sinto. É o corpo que nos orienta no mundo, que nos possibilita significação e existência. Encontra-se entre o mundo e a consciência, onde psiquismo e organismo movimentam-se e misturam-se. É seu ponto-de-vista, possibilidade de criar perspectivas únicas em espaço e tempo. Incorporando este pensamento, a fotografia pode encontrar seu potencial de comunicar.

485

Sumário

66 Cultura Visual: a poética e a política das imagens

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Silas de Paula e Érico Oliveira

Introdução As possibilidades de relacionar estética e política, nas imagens, não são simples. Ora, estamos em uma instrumentalização de uma pela outra, ora estamos na constatação de que ambas estão imbricadas, mas talvez ainda faltem sempre algumas complexificações que permitam efetivamente uma entrada no problema. A separação do estético e do político já foi, em certa medida, posta em crise, sobretudo se partirmos das contribuições de Rancière (2005), e dos desdobramentos gerados pelas operações conceituais propostas por ele. É de todo ainda aberta a dimensão de articulação que se pode traçar entre uma política da arte e uma estética da política, entre uma política no campo das sensibilidades e um regime de visibilidade articulado à política – e a própria filosofia de Rancière nos movimenta justo para sempre questionar e gerar problemas nesses lugares do entre, regiões de incertezas e de risco.1 O estudo da cultura visual caminha em direção a uma teoria da visualidade que tem como meta analisar o que é tornado visível, quem vê o quê e como vê; sem esquecer que nesse processo o conhecimento e o poder estão sempre inter1 Ver Silas de Paula, Érico Oliveira e Leila Lopes, 2013.

486

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

-relacionados. Parece que a nossa cultura está muito mais baseada naquilo que vemos do que no que lemos e, portanto, é necessário avaliar o ato de ver como um produto das tensões criadas pelas imagens externas e os processos mentais internos. Argumentamos em outro texto2 que o conceito de representação está sob ataque cerrado, mas o poder da visualidade sobreviveu. Embora a crise da visão seja apontada por vários teóricos e a relação háptica do corpo (HANSEN, 2004) retire dela o papel de sentido mais nobre, a imagem – seja ela digital ou analógica – ainda exige a visão como sentido fundamental, mesmo que a percebamos com os olhos da mente. Para Marin (2001), existe uma diferença crucial, entre ver e olhar. “Olhar” é o ato natural de receber nos olhos a forma e a semelhança. Já “ver”, é considerar a imagem e a tentativa de conhecê-la bem, fazendo com que o observador constitua-se como sujeito. As imagens nos fazem sonhar, sofrer, delirar, rir e até compartilhar desejos, pois o ser humano é movido pelos imaginários que inventa. Mas são imagens e, portanto, partes de narrativas que podem ser alteradas por novas sensações e aprendizados. Algumas tentam o tempo todo escapulir da prisão que é o museu imaginário. Difícil segurá-las pois são velozes, muitas vezes confusas, desobedientes e intempestivas. Mas não escapam tão facilmente e só conseguem passagem para a vida se estiverem atreladas à construção da nossa ficção cotidiana: um paradoxo das imagens midáticas, trabalham com a realidade mas não se submetem incondicionalmente a ela. 2 Idem.

487

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Nicholas Bourriaud (2002) nos instiga a pensar sobre um velho adágio talmúdico segundo o qual um texto (e por extensão, qualquer outro objeto) não adquire o seu real valor senão a partir do momento em que foi sujeito a um comentário. Arquivos fotográficos: Adros de um pensamento. Silas de Paula Adro já significou um lugar aberto, uma passagem; hoje pode cercar espaços ao redor de igrejas e, nas mais antigas, é comum a existência de cemitérios em seu interior. Mas templos são espaços sagrados, onde os corpos ao redor buscam a salvação da alma. A procura de redenção nos arquivos modernos tem mais a ver com o vazio que nos olha. Não são, simplesmente, depósitos de corpos ou lugares sagrados, mas espaços repletos de fragmentos de vida, com fronteiras temporais que são limites a serem cruzados numa tentativa de encontros sempre complexos na diversidade, mas compartilhando o mesmo espaço subjetivo da vida vivida. Imagens que, enquanto descansam, esperam que o inconformismo com olhares guardados transforme os vazios da incompletude numa diversidade de caminhos possíveis – esses fragmentos são adros visuais de um pensamento. A construção da memória é uma questão fundamental para a fotografia, desde seu surgimento como método de reprodução em massa e disseminação. Criamos imagens materiais e mentais para uma descrição perspicaz e pessoal

488

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

do cotidiano, o que nos ensina um pouco sobre como vivemos ou procuramos viver os sentimentos mais arraigados da nossa existência. Entre sonho e realidade, ambiguidades são replicadas e, de certo modo, caracterizam o olhar como um sólido e perceptível espaço, produto de muitos construtores que modificam constantemente a estrutura por razões particulares. Difícil controlar o seu crescimento e forma. Não existe um resultado final, mas somente uma contínua sucessão de fases numa peça impregnada de memórias e significações. Kevin Lynch (1960), ao falar sobre a imagem da cidade, argumenta que “não somos apenas observadores deste espetáculo, mas uma parte ativa dele, participando com outros num mesmo palco” (pg. 11). Podemos utilizar o mesmo argumento na construção do arquivo fotográfico. Seguindo W.J.T. MITCHELL (2005), parto do princípio que o ato de fazer/criar a imagem é um sintoma do desejo. E, “desenhar desejo” significa não só a descrição de uma cena ou figura que se apresenta para tal, mas também indica a maneira como o próprio desenho é a performance dele. Assim, as relações imaginárias entre o real que a foto mostra e o que o sujeito viveu, fundem-se: algo que está na imagem e o que lhe falta. O que foi e o que ficou. Talvez seja este um dos aspectos constitutivos da imagem, elas estão predispostas a serem tomadas, incorporadas. Embora fotos e quadros possam ser destruídos, as imagens podem viver, nos assombrar, provocar, tentar ou nos inspirar. Então, qual é a importância do realismo fotográfico em relação aos paradigma do arquivo? Walter Benjamin (1999)

489

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

argumentava que a fotografia sem algo construído, sem algo artificial, colocado para ancorar o seu significado seria sempre muito vaga para funcionar de forma crítica. Além disso, a percepção das mudanças estéticas e estilos das imagens naturalistas, ou realistas, sugere mais do que um simples mapeamento ou progresso nas história das imagens. São formas variadas de ver, de conhecer o mundo, e diferentes visões sobre valores e significados. Muitas ideias sobre realismo coexistiram através da história. A questão aqui não é apontar qual abordagem resulta na mais acurada representação do mundo contemporâneo, mas o que podemos encontrar e o que a visualidade nos diz sobre cultura e política em um determinado contexto. Não existe padrão universal para o realismo e ideias sobre ele podem variar profundamente. Nós temos a tendência em acreditar que a imagem que reproduz algo de forma “realmente” parecida é realista. E, provavelmente, assumimos que reconhecemos um trabalho realista quando o vemos. Na maioria das vezes, esquecemos que o realismo tem sido ligado a uma variedade surpreendente de de convenções e abordagens. Cada período da história tem diferentes epistemes para ordenar as coisas ou representar o conhecimento sobre elas3. O termo Realismo refere-se (tipicamente) a um conjunto de convenções, estilo de arte, ou representação, compreendidos num dado momento histórico como forma acurada de 3 Ver M. Foucault, 2000

490

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

representar a natureza ou o real e transmitir e interpretar significados universais sobre pessoas, objetos e eventos no mundo. (…) Porém, isto não nos diz como a realidade é compreendida na cultura de qualquer momento histórico dado, e quais convenções são consideradas as mais corretas para representá-la nesses contextos. (STURKEN e CARTWRIGHT, 2009: 146)

Os códigos e as convenções do realismo continuaram a mudar com as tecnologias visuais eletrônicas. Com a imagem digital podemos vivenciar uma multiplicidade de mundos virtuais na mesma tela. O ciberespaço e as tecnologias virtuais são distintas do espaço cartesiano tradicional – físico, tridimensional e mensurável matematicamente. O espaço virtual, criado por tecnologias digitais, não pode ser mapeado ou medido de forma matemática. O que procuramos, como projeto, é seguir um caminho análogo ao de Thomas Demand, fotógrafo alemão. Partindo do arquivo fotográfico, abordar as questões de veracidade que permanece no centro do ato fotográfico como modelador de histórias incompletas, guardadas em arquivos como adros de um pensamento, e o seu retorno à mostra, à esposição de sua realidade material, num momento em que o campo cultural é modelado gradativamente pelo uso de representações eletrônicas. Pensar, como faz Demand, sobre uma das principais questões do nosso tempo: “as políticas de representação em um mundo desestabilizado e hipermediatizado” (LAXTON, 2008: 89).

491

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A perspectiva aqui está na ordem de uma resistência: operar entre a estética e a política. Resistir não como forma de criar dicotomias, opor organizações sensíveis em detrimento de outras, uma modalidade de atuação no mundo contra outra. A resistência é compreendida mais na dimensão de uma fenda ou de uma brecha que se abre, para desordenar o que está posto. Não é, simplesmente, uma questão de tomar um poder, mas tentar instaurar novas relações de espaço e de tempo, outras maneiras mesmas de tornar comum, operações singulares e ramificadas, que não se agregam em blocos uniformes, mas são dispersas e intermitentes. A imagem que resiste opera no limiar para fazer fugir e para instaurar dissentimentos, ela é insubordinada e inconstante, metamórfica e pensativa.4 Trabalhar com as imagens, não como arquivos históricos tradicionais, mas com fotos sem textos, sem indicação temporal ou local. Lembrando ao espectador da impossibilidade de reconstituição de eventos históricos a partir dessas informações fotográficas. Uma possibilidade de prováveis acusações de esteticismo, de sublimação do traumático (a arte fotográfica como fetiche), de supressão da memória histórica. No entanto, o espectador ao ser confrontado com a ausência de informações, com fotografias que se recusam a satisfazer a expectativa do conhecimento e da informação objetiva prometida pelas imagens midiáticas, pode se ver cercado de importantes implicações, como por exemplo, nosso consumo acrítico das imagens fotográficas. 4 Ver Silas de Paula, Érico Oliveira e Leila Lopes, 2013.

492

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Novamente, como argumentamos em texto anterior5, se a fotografia expande as próprias possibilidades de produção, mistura procedimentos, opera pontes, liberta-se de compromissos que se imaginavam necessários e fundantes, já teríamos aí um encaminhamento político. Quando a produção de imagens nos tira do lugar de conforto, das seguranças e das expectativas, pode-se pensar em reconfigurações de uma cena partilhada. A operação estético-político estaria no âmbito da insubordinação, daquilo que pode instalar querelas e desorganizar o que estava consensualmente distribuído em funções e lugares fixos. É preciso colocar-se nesse lugar, enfrentar o desafio que o problema nos coloca. É em torno dessas potências que o projeto deve se situar, em adros de um pensamento. Imagens urgentes em Glauber Rocha Érico Oliveira Diante do cinema de Glauber Rocha – e assim também da vida do próprio realizador – vem a percepção de uma multiplicidade. Essa me parece ser uma experiência estética desencadeada pelas imagens e também uma proposta que me move para trazer a importância de seguir os trabalhos de Glauber, no perceber brechas e bifurcações. Compondo com o pensamento deleuzeano, diria que é importante considerar o caráter rizomático dos caminhos do diretor no cinema, na arte e na vida. É assim que as questões propostas para entrar 5 Ver Silas de Paula, Érico Oliveira e Leila Lopes, 2013.

493

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

nesse universo de imagens glauberianas partem de um recorte que tentará captar potências de filmes em que o embate com o mundo dá-se segundo novas modulações e numa dimensão capaz de suscitar acontecimentos estético-políticos. Claro (1975), Di Cavalcanti (1977) e A Idade da Terra (1980) operariam, por perceptos e afectos, a matéria fílmica e as dimensões do sensível numa proposição de novos lugares e novos mundos. Para a discussão aqui, trago com maior ênfase a figura da urgência suscitada por essas obras. Di Cavalcanti (1977) é realizado num impulso. Há um gesto de arrancar imagens e sons do mundo, produzir cinema num movimento tomado por forças cósmicas e por uma abertura ao descontrole. Mergulha-se em experiência de tensão com modalidades de planejamento e regra. “Di Cavalcanti foi feito num impulso. Acordei de manhã, sete e meia, li que o Di Cavalcanti tinha morrido, nove horas fui filmar” (ROCHA, 2006, p.332), retoma o realizador. A imagem é ela mesma um processo de experimentação. É no limite que Glauber filma e monta o curta. No limiar das possibilidades de efetivar uma filmagem de um velório e de um sepultamento, vai com a câmera em close-up no rosto do pintor que morreu. “Corta! Dá um close na cara dele!”, grita o realizador, na faixa sonora incluída após as filmagens, quase numa descrição do processo. Estamos no entremeio de uma experiência estética porosa, aberta às trocas, intempestiva. O que se dá nesse meio, nessa zona de indiscernibilidade que passa a ser delineada? Poderíamos falar em um composto sensível Di-Glauber? É de qual ordem esse

494

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

encontro tão urgente? Glauber desencadeia um processo que faz a mistura entre olhares, sensibilidades e temporalidades. Todo o caos promovido em Di Cavalcanti tem a ver com pesquisas estéticas em que o aleatório, o simultâneo e o descontrole seriam condutores da fabricação fílmica. Nessa experiência, a questão é deixar-se tomar por forças capazes de arrastar para algo novo. Trata-se de fazer o movimento e desencadear transformações. Nos encontros promovidos pela imagem, é possível gerar torções e resistir aos enquadramentos dos corpos, que podem se libertar em percursos de relação com o outro. A experiência estética nessa região perde uma direção clara e faz fissura com uma organicidade e com uma linha dominante e ordenadora da percepção. No turbilhão, o que se tem é alteração de si, dos sentidos, uma incapacidade de síntese, de organização de significados. Uma polifonia barroca prolonga as intensidades e multiplica as vozes, que aqui já não remetem a uma verticalidade capaz de reunir o conjunto, mas estão a todo o momento em choques e rodopios, em trajetos disjuntivos. Filmar como quem não sabe filmar. Filmar sem o cálculo ordenador da experiência, abrir-se às bifurcações de possíveis que o próprio processo pode desencadear. A imagem não tem clareza, os corpos não estão com lugar marcado e direcionamento claro. Com Di, o realizador acrescenta possibilidades para a produção de olhares. Prolifera mesmo os possíveis para fazer cinema, numa estética com gritos, misturas, impurezas, desordenamento. É toda uma ocupação de espaço marcada pela errância: era assim já nas filmagens de Câncer, em 1968,

495

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

quando ia para as ruas do Rio de Janeiro sem planejamento do que fazer, sem roteiro, apenas com a proposta de deixar ações acontecerem em frente a uma câmera ligada, em planos-sequência; era assim na experiência do exílio, com Claro (1975), perambulador das ruas de Roma, dando orientações sobre os enquadramentos no ato de filmagem, com posteriores sobreimpressões de camadas, fusões na imagem, simultaneidades de blocos sensíveis reunidos na montagem. Essas experiências de urgência são operações de risco, poderia ser dito. Um cinema que se dá na tensão com o mundo, que parte para o encontro numa tentativa de escapar ao controle dos programas, no que trago as discussões desenvolvidas por Comolli (2008). Se a roteirização da vida se espalha, é preciso buscar outros métodos para fazer com que os filmes aconteçam. A proposição de Comolli marca uma defesa de uma postura do documentário frente ao caráter consensual dos roteiros. A experimentação do risco faz surgir cenas, que se constituem de forma aberta e em meio a um imponderável. Fugir ao controle de uma previsibilidade, sair de zonas de segurança, desarranjar, borrar. “Os filmes documentários não são apenas ‘abertos para o mundo’: eles são atravessados, furados, transportados pelo mundo” (COMOLLI, 2008, p.170). Deixar-se furar pelo mundo seria uma postura política que se constitui como um modo de agir na polis, em gesto indisciplinado. Furar: há na proposta de Comolli uma radicalidade que diz respeito mesmo a uma maneira de se dispor ao encontro. Pois não basta a postura da abertura. É preciso uma atitude mais drástica que se opera na escritura mesma do filme, um

496

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

movimento de deixar que o mundo faça a fissura no filme, crie buracos e fendas. Quando furo, exponho algo ao indecidível, invento caminhos e permito que sejam traçadas bifurcações. A figura conceitual da fissura tem grande importância aqui, como modo de resistência potente para pensar a experiência estética do cinema. “Longe da ‘ficção totalizante do todo’, o cinema documentário tem, portanto, a chance de se ocupar apenas das fissuras do real, daquilo que resiste, daquilo que resta, a escória, o resíduo, o excluído, a parte maldita” (2008, p.172). O que resiste faz fugir, inventa outras perspectivas para apreender o mundo, para recortar o espaço e o tempo, para constituir mise-en-scènes. A parte maldita é tensionadora de formas majoritárias de organizar a experiência. Ela é o que resiste apesar de tudo (DIDI-HUBERMAN, 2012a). Mas como lidar com essa parte maldita? Quais procedimentos estão envolvidos na tensão gerada pelo pequeno, pelo resíduo, pelo menor? Seria uma questão de incluir aquele que está fora? Imagens urgentes, imagens que queimam (DIDIHUBERMAN, 2004, 2008, 2012b). Dentre outras maneiras, elas queimam “com seu movimento intempestivo, incapaz de parar no caminho (como se diz ‘queimar as etapas’), capaz de sempre bifurcar-se, de ir bruscamente a outra parte (como quando se diz ‘arder de inquietude’)” (DIDI-HUBERMAN, 2008, p.52). Ao tocarem o real, as imagens incendeiam, desencadeiam modos inquietantes para o ver, lançam outras perspectivas de temporalidades, maneiras outras de ter com o mundo. Elas não se adequam a uma lógica formatada do sensível, tomam espaço com um movimento que não pode ser parado, na constante

497

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sístole e diástole e no jogo de tensores de uma experiência cindida. Elas não são uma organização clara e bem ordenada do sensível, mas um rodopio, uma maneira de se espalhar e de confrontar o turbilhão. O cinema que queima pode teimar em ser enquadrado num modelo e também evitar ser ele mesmo um indicador autoritário de posturas de corpos dos seres filmados, sejam os corpos de homens ordinários, sejam mesmo as paisagens como corpos – a cidade, talvez, como um ser, em processos de individuação. O que é preciso fazer para que haja um filme? Existem condições de possibilidade? O impulso da realização em Di Cavalcanti traz que implicações para as maneiras de fazer e pensar cinema? O gesto fílmico do curta de Glauber implica desejo. É a partir daí que são reunidos amigos, para celebrar a vida do pintor Di Cavalcanti, também ele amigo do realizador. É como produção desejante que a equipe parte para as ruas e arrisca fazer imagens no velório e no enterro do artista. Risco no contato com o mundo, risco na criação de uma relação. Já um outro sentido para a ardência da imagem: “A imagem queima com o desejo que a anima, com a intencionalidade que a estrutura, com a enunciação, inclusive com a urgência que manifesta (como quando se diz ‘ardo de desejo’ ou ‘ardo de impaciência’)”. (DIDI-HUBERMAN, 2008, p.51). O trabalho de homenagem ganha contornos de uma experiência que perturba a ordem da cerimônia configurada para o ato de despedir-se dos mortos. A chave do transe, tão cara ao pensamento cinematográfico de Glauber, vai aqui operar mesmo uma ideia

498

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

de transformação e de delírio, na elaboração de um ritual descentrado, marcado por desequilíbrios e pelo caos. Também sem passar por longo período de preparação, Claro (1975) é rodado durante 15 dias em Roma, numa abordagem ensaística que mistura blocos de deriva nas ruas e cenas de interior em que se esboçam situações ficcionais. Como destaca Mateus Araújo Silva (2012), todo o filme fica pronto em cerca de dois meses e meio, após um processo sem roteiro prévio, com amigos, câmera na mão e som direto. Aqui há um mergulho delirante em relação com a própria cidade, com questões tão caras a Glauber, em crítica ao capitalismo. As imagens têm nelas mesmas uma processualidade, uma escritura marcada por planos que não estão previamente estabelecidos, por tensões com os que passam e estranham Juliet Berto em movimentos errantes pelas ruas, por uma câmera que vai expondo a própria busca nos caminhos que experimenta. “A incursão de Glauber e Juliet é uma aventura em terreno desconhecido, atravessada pela instabilidade de um gesto desmedido e insólito” (SILVA, 2012, p.262). As questões de A Idade da Terra, ao mesmo tempo que expandem pesquisas de Di Cavalcanti, podem também ser vistas com uma torção rumo a uma composição heterogênea mais próxima a um mural. Um filme que tem a urgência de sair do próprio espaço destinado à exibição convencional de filmes. Uma obra que já parece não caber na tela, na medida em que explode a narração e também coordenadas de enquadramento, de plano e de relação entre as imagens. Seria possível arriscar e dizer que Glauber faz um cinema apesar do

499

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cinema? Questão, certamente, complicada e cheia de riscos. E também paradoxal. Como colocar os problemas do plano e da montagem nessa obra? Como pensar o tempo e o espaço, a articulação da parte com o todo, a passagem mesma das imagens, as relações com os sons? É de um extrapolamento da própria arte cinematográfica que se trata. A Idade da Terra opera uma desconstrução na própria mudança repentina de ritmos, na mistura de procedimentos, no descompasso e na surpresa. Nunca se sabe o que está para vir, não só se tratamos daquilo que está na cena, mas também de como a encenação se constituirá, de como os cortes irão acontecer, de como a câmera vai se movimentar. O efeito de desorientação faz sentir a imagem e o som em pura plasticidade e porosidade, em quedas e subidas, em uma produção no aqui e agora, como a trilha sonora feita ao vivo ou os giros que, num impulso, são feitos com a câmera. A abordagem de A Idade da Terra é da ordem do que desorganiza, do que não tem resultados, não é redondo. Mais do que o confronto com o cinema comercial, merece destaque uma tensão fora do campo dos dualismos e que me parece mais ampla, uma tensão que se dá com o próprio cinema. Não para negá-lo, opor-se a ele ou ultrapassá-lo, numa leitura que seria teleológica, de etapas. Mas um problema constituinte, que tem a ver com um processo de passagens, para fazer um filme desenraizado de um território cinema, um filme-vibração, filme-terra, filme-onda. E ainda assim uma obra que lida com questões cinematográficas, mas para fazer delas um outro uso,

500

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

para torcer e fazer ponte com um fora. A Idade da Terra como uma obra estrangeira dentro do próprio cinema. Referências bibliográficas BENJAMIN, W. “Little History of Photography” (1931) In: JENNINGS, M.; EILAND, H.; SMITH, G. (eds). Walter Benjamin: Selected Writings vol.2. Cambridge: Harvard Univ. Press, 1999. BOURRIAUD, N. Relational Aesthetics: Documents sur l’art. Paris: Presses du réel, 2002. COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder – a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Editora UFMG, 2008 DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo (Cinema 2). São Paulo: Brasiliense, 1990 ______. Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 2011 DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Kafka: para uma literatura menor. Lisboa, Assírio e Alvim, 2003 DE PAULA, Silas; OLIVEIRA, Érico; LOPES, Leila. “Imagens que pensam, gestos que libertam: apontamentos sobre estética e política na fotografia”. In: BRASIL, André; LISSOVSKY, Maurício; MORETTIN, Eduardo (Orgs.). Visualidades Hoje. Salvador: EDUFBA, 2013. DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. Lisboa : KKYM, 2012a

501

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______. “La emoción no dice ‘yo’. Diez fragmentos sobre la libertad estética”. In: Alfredo Jaar: La política de las Imágenes. Santiago de Chile: ediciones metales pesados, 2008 ______. “L’image brûle. In: Zimmermann”, L., Didi-Huberman, G., et al, Penser par les images. Autour des travaux de Georges Didi-Huberman, Editions Cécile Defaut, Nantes, 2006, pp. 11-52. ______. “Quando as imagens tocam o real”. In: Pós: Belo Horizonte, v. 2, n. 4, p. 204 – 219, nov. 2012b FOUCAULT, M. As Palavras e as Coisas: Uma Arqueologia das Ciências Humanas. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2000. HANSEN, Mark. New Philosophy for new media. Mass.: MIT Press, 2004. LAXTON, S. “What photographs don’t know”, in VAN GELDER, H. e WESTGEEST, H. Photography: Between Poetry and Politics. Leuven: Leuven Univ. Press, 2008. LYNCH, K. Imagens da Cidade. Lisboa: Ed. 70, 1960. MARIN, LOUIS. On Representation. Stanford: Stanford University Press, 2001 RANCIÉRÈ, J. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Ed. 34, 2005. ROCHA, Glauber (organização: Ivana Bentes). Cartas ao mundo: Glauber Rocha. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

502

Sumário

______. O século do cinema. São Paulo: Cosac Naify, 2006

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______. Revolução do cinema novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004 SILVA, Mateus Araújo. “Glauber Rocha e os Straub: diálogo de exilados”. In: GOUGAIN, Ernesto; TADDEI, Fernanda; MOURÃO, Patricia; ARAUJO, Mateus; FRANCA, Pedro. (Org.). E. Gougain, F. Taddei, P. Mourão e M. Araújo Silva (orgs.). Straub-Huillet. São Paulo: Centro Cultural Banco do Brasil, 2012, p. 243-263. STURKEN, M.; CARTWRIGHT, L. Practices of Looking: An Introduction to Visual Culture. Oxford: Oxford Univ. Press, 2009

503

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

66a Espaço, Imagem e Imaginário: considerações sobre o problema do lugar no ambiente midiático Maurício Ribeiro da Silva Se o século XX, por um lado, passa para a história como o momento onde se consubstancia o projeto relativo à prevalência, por meio da técnica, da razão como validadora dos processos relacionados à compreensão e explicação dos fenômenos do mundo, por outro é nele onde se consolidam as bases do que podemos definir como característica categórica deste início de século XXI: a onipresença da imagem estabelecida a partir de suportes midiáticos. Gilbert Durand (2004) constata o paradoxal embate iniciado no ocidente com os filósofos gregos (com posterior apoio com teor iconoclasta promovido pela teologia do monoteísmo judaico-cristão-islâmico) entre Razão e Imagem, sendo consequente a valorização do primeiro termo em detrimento do segundo. Neste contexto, se a imagem – compreendida aqui como veículo de elementos simbólicos vinculados ao imaginário – tem seu valor epistemológico reduzido ou quase aniquilado em nome do discurso promovido pelo Método, são justamente os feitos baseados no conhecimento científico fundado nos processos racionais que propiciam os instrumentos tecnológicos a partir dos quais passa a imagem a se apresentar como objeto representativo da verdade factual, objetiva e, portanto, portadora de significados relativos ao mundo que ela enseja.

504

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Obviamente, tomados “instantâneos” relativos à caracterização da imagem no passado anterior ao Renascimento (representativas dos processos vinculados à subjetivação e interpretação do mundo) e no presente (relacionadas à objetividade e constituídas a partir das tecnologias eletroeletrônicas), há enormes diferenças, não restritas somente ao âmbito das técnicas constituídas no contexto do distanciamento temporal ou histórico, mas vinculadas à própria episteme. Flusser (1985:13) indica que Imagens são superfícies que pretendem representar algo. Na maioria dos casos, algo que se encontra lá fora no espaço e no tempo. As imagens são, portanto, resultado de se abstrair duas das quatro dimensões espaciotemporais para que se conservem apenas as dimensões do plano. Devem sua origem à capacidade de abstração específica que podemos chamar de imaginação1. No entanto, a imaginação tem dois aspectos: se, de um lado, permite abstrair duas dimensões dos fenômenos, de outro, permite reconstituir as duas dimensões abstraídas na imagem. Em outros termos: imaginação é a capacidade de codificar fenômenos de quatro dimensões em símbolos planos e decodificar as mensagens assim codificadas. Imaginação é a capacidade de fazer e decifrar imagens.

1 Grifo do autor.

505

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Tomada tal definição como padrão para a compreensão do caráter vinculado à imagem, o filósofo define, então, que a imagem produzida no contexto das máquinas constituídas para este fim relaciona-se ao universo das imagens técnicas ou tecnoimagens, tratando-se de (...) imagem produzida por aparelhos. Aparelhos são produtos da técnica que, por sua vez, é texto científico aplicado. Imagens técnicas são, portanto, produtos indiretos de textos – o que lhes confere posição histórica e ontológica diferente das imagens tradicionais. Historicamente, as imagens tradicionais precedem os textos, por milhares de anos, e as imagens técnicas sucedem os textos altamente evoluídos. Ontologicamente, a imagem tradicional é abstração de primeiro grau: abstrai duas dimensões do fenômeno concreto; a imagem técnica é abstração de terceiro grau: abstrai uma das dimensões da imagem tradicional para resultar em textos (abstração de segundo grau); depois, reconstituem a dimensão abstraída a fim de resultar novamente em imagem. Historicamente, as imagens tradicionais são pré-históricas; as imagens técnicas são pós-históricas. Ontologicamente, as imagens tradicionais imaginam o mundo; as imagens técnicas imaginam textos que concebem imagens que imaginam o mundo. (FLUSSER, op.cit.:19)

506

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Nesta rápida diferenciação a partir de Flusser, percebe-se a obliteração dos processos imaginativos vinculados à Imagem – tanto no âmbito de sua elaboração quanto sua decifração – que, constituída como tecnoimagem, de certo modo, sucumbe ao processo de objetivação do mundo promovido pela Razão Instrumental, alinhando-se, mesmo que com diferenças, ao desenvolvimento apresentado por Durand. Entretanto, em lugar de estar estabelecida – digamos – a falência do imaginário presente no contexto das imagens, o paradoxo apontado por Durand constitui-se pelo fato de que, a despeito do consistente e paulatino processo promovido pela Razão de esvaziamento simbólico da Imagem que lhe servia de veículo, o imaginário conserva-se, ainda que sua existência não se apresente no âmbito consciente, relativo – nos termos de Flusser – à capacidade de imaginá-las, ou lhe seja atribuído o devido valor. Sendo, então, a imagem questão central tanto sob o ponto de vista cultural quanto tecnológico neste princípio de século, trabalhamos com a hipótese de que os processos concernentes à relação entre imaginário e imagem suplantam os limites reconhecidamente vinculados ao espaço da superfície, seja ela estabelecida no suporte físico e bidimensional ou nas formações nulodimensionais constituídas a partir dos pixels ou bits. Assim, se a valorização da Razão implicou, filogeneticamente falando, na objetivação da Imagem e na consequente crise de seu estatuto como representação (Belting, 2007), consideramos que o processo, vinculado à cultura, não se limita ao contexto até aqui discutido: as imagens técnicas, decorrentes

507

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

que são do saber científico (agenciado pela lógica do mercado), ao imaginarem o mundo (conforme dito por Flusser) o fazem em sua plenitude espacial, não se atendo às fronteiras da superfície própria dos suportes imagéticos (tecnológicos ou não), pelo contrário, superando-as em direção à tridimensionalidade de nossos espaços e corpos. Nossa pesquisa, portanto, pode renovar o olhar relativo à área de comunicação incluindo no âmbito das discussões relativas à teoria da imagem, a compreensão dos processos que antecedem sua formação, isto é, ainda no contexto do espaço tridimensional do qual Flusser parte para estabelecer sua Escalada da Abstração.

508

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO B 67 Mediação e interação: por uma arqueologia dos processos comunicativos Lucrécia D’Alessio Ferrara

Resumo da pesquisa Situando-se no domínio de uma epistemologia que procura delinear a ontologia da comunicação através do estudo das suas dimensões metodológicas empíricas, esta pesquisa procura superar a sinonímia que tem caracterizado os conceitos de mediação e interação e, para tanto, analisa e compara as características da interação que se confronta com a mediação mas dela se distingue, porque estabelece um processo cognitivo que se manifesta em diferentes movimentos sintetizados em três dominantes fundamentais: a) o domínio da mediação caracteriza uma comunicação de mão única de caráter transmissivo e, frequentemente, persuasivo; b) o domínio da interação caracteriza uma comunicação que ocorre na possibilidade incerta do comunicar ao processar-se no intercâmbio de emissores e receptores e

509

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

se apresentam instáveis no desempenho mutável dos seus papeis, c) entre mediação e interação inscreve-se um domínio comunicativo que se constrói nas fronteiras do comunicar e se manifesta como imprevisibilidade, embora subjugue ou reduza os códigos mediativos. A discriminação e análises dessas dominantes centralizam o objeto epistemológico que se fundamenta em várias bases teóricas (Bateson, Foucault, Deleuze, Derrida, Searle, Lotman, Agamben, Virno, Esposito) e em estratégias metodológicas que observam a indeterminação do objeto empírico que se apreende nos processos de interações comunicativas. Palavras-chave: comunicação, epistemologia, mediação, interação

Objeto e etapa atual do desenvolvimento da pesquisa O objeto da pesquisa está concentrado no levantamento empírico de processos mediativos e interativos que se apresentam na cidade, entendida como laboratório comunicativo e onde podem ser encontradas manifestações inusitadas daqueles processos. A pesquisa está na sua fase empírica de levantamento e análise de manifestações que têm a cidade como cenário ou suporte, no caso de processos eminentemente mediativos, ou como ator, no caso de manifestações onde se

510

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

observa as marcas ou rastros que podem ser originários de distintas temporalidades, mas manifestam com vivacidade sua energia interativa (v. relatórios parciais de pesquisa). Como consequência, a cidade se apresenta como território empírico adequado para teste de hipóteses que, caracterizando a natureza das mediações e interações, têm levado a verificar o modo como se escrevem, na cidade, distintas epistemologias da comunicação que se manifestam através de meios de massa ou de novas tecnologias digitais. Nos dois casos, entretanto, tem-se observado que, na cidade entendida como fenômeno comunicacional, os processos de mediação e interação se inscrevem em fronteiras mais ou menos perceptíveis e conforme o grau da atividade que transforma a cidade em território planejado onde se reduz a comunicação a uma mediação que, ao ordenar, inibe a livre manifestação do comunicar. Porém e apesar desse processo ordenador, encontra-se denso processo comunicativo, através do qual é possível traçar uma resistência informal, mas suficiente para apreender a cidade que se faz ver através dos lugares das suas trocas interativas. As atuações empíricas desenvolvidas têm sido fundamentais para apreender, de um lado, a necessidade da atividade empírica para estudar, de modo concreto, em que consiste a comunicação que se registra em um objeto que, ao se afastar do domínio manipulado pelos meios técnicos, se apresenta de modo inusitado e imprevisível. De outro lado, esse exercício tem sido suficiente para analisar manifestações comunicativas que apresentam dimensões midiáticas de ordem ética e estética com desdobramentos políticos e morais que colocam, para

511

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

uma empiria da comunicação, outras e novas temáticas que precisam ser estudadas, porque atingem o cerne da sua ontologia e sugerem outros parâmetros epistemológicos.

512

Sumário

68 O Minhocão: entre curvas e retas

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Regiane Miranda de Oliveira Nakagawa Inaugurado em 1971 pelo então prefeito Paulo Maluf, o elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão, possui 3,4 km e liga a praça Roosevelt ao Largo Padre Péricles. Para evitar acidentes noturnos e, por causa do barulho, o Minhocão é fechado após às 21:00hs de segunda a sábado. Aos domingos e feriados, o elevado é interditado ao longo de todo o dia. Nesses períodos, o Minhocão adquire outra configuração, pois se transforma numa grande área de lazer, em virtude da apropriação realizada pelas pessoas que residem no seu entorno. À noite, é possível observar a presença de corredores e ciclistas que aproveitam a imensa passarela para se exercitarem. Aos domingos, é maciça a presença de esportistas, grupos de amigos e famílias inteiras, que transformam o elevado numa espécie de praça “horizontal”, onde realizam inúmeras atividades de lazer. Em ambos os casos, nota-se que o uso feito do espaço não se coaduna com aquele para o qual ele foi projetado. É justamente por meio dessa relação tensiva, na qual se observa a contínua fricção entre o programa instituído pelo urbano e o movimento da cidade, que intentamos observar a relação que se estabelece entre mediação e interação na cidade, como também, o modo pelo qual a urbe constrói uma retórica própria. Com base numa série de derivas realizadas no Minhocão a partir do segundo semestre de 2012, foi possível delinear um

513

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

caminho investigativo para a pesquisa. Em primeiro lugar, cumpre salientar que a visualidade do Minhocão não se dissocia dos prédios alocados no seu entorno, cujo diálogo é essencial para apreender a diversidade de relações e vínculos que distinguem a sua comunicabilidade. Outro aspecto distintivo da sua visualidade diz respeito à horizontalidade, como também, às curvas presentes ao longo do seu trajeto. No caso da primeira, nota-se como ela se coloca como condição de possibilidade para o estabelecimento de novas associações, a começar pela própria concepção de “praça horizontal”. Além disso, a horizontalidade também contribui para a constituição de uma visualidade em perspectiva, gerando uma “espacialidade ótica”, marcada pelo direcionamento perceptivo, enquanto as curvas tendem a romper com o ponto de fuga, ocasionando a edificação de uma “espacialidade háptica”, marcada por um maior envolvimento sensório-perceptivo, do qual resulta a constituição de novas formas associativas. A partir dessas observações iniciais, foi possível aventar duas hipóteses para a pesquisa: 1) as diferentes associações geradas pelo elevado tendem a constituir uma espécie de “memória comum” que, por sua vez, geram novos usos nos quais se observa a dominância ora da mediação, ora da interação; 2) tais usos permitem apreender a constituição de diferentes formas argumentativas na cidade, nas quais se observa a correlação entre processos lógicos e sistêmicos.

514

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

69 Nas dobras do tempo e da comunicação: os processos de renovação urbana em São Paulo e Berlim Adriana Maciel Gurgel Santos O presente trabalho tem como objeto empírico a cidade, especificamente o centro de São Paulo (marcado pelo edifício Copan, projetado na década de 1950 por Oscar Niemeyer) e o bairro berlinense Hansaviertel (concebido no final da década de 1950, de acordo com as premissas do Movimento Moderno). Empreendimento idealizado para as comemorações do IV Centenário de São Paulo, o Copan teve sua construção inserida no programa de renovação e modernização da cidade, que se preparava para comemorar 400 anos. Dentro deste contexto, o edifício explicita, em sua forma, escala, dimensões e programa, o ideário desenvolvimentista moderno. Em Berlim, o antigo Hansaviertel foi praticamente destruído pelos bombardeios da Segunda Guerra, e sua reconstrução foi objeto de uma requalificação urbanística e arquitetônica vinculada à realização de uma exposição internacional de arquitetura (INTERBAU – Internationale Bauausstellung), que ocorreu em 1957. Situada no momento histórico do pós-guerra, marcada pela divisão de Berlim e pela concorrência entre os sistemas capitalista e socialista, a exposição, que tinha como lema “a cidade do amanhã” (die Stadt von Morgen), desejava refletir, a partir da arquitetura e urbanismo modernos, uma sociedade livre e democrática. Oscar Niemeyer projetou um edifício habitacional para o Hansaviertel, e foi o único representante latinoamericano da INTERBAU.

515

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Por meio do levantamento empírico de processos ora mediativos, ora interativos, ou ainda, situados entre a mediação e a interação, busca-se investigar o confronto (e o possível diálogo) entre distintas representações flagradas na cidade como meio técnico (cidade planejada, racionalmente projetada a partir do ideário que caracterizou o Movimento Moderno, registrada em mapas, desenhos e textos de projetos, textos acadêmicos e de periódicos) e na cidade como meio comunicativo (modelada pelo cotidiano vivido e por suas manifestações signicas – icônicas, indiciais e simbólicas; cidade metodologicamente flagrada a partir de deslocamentos feitos à deriva, orientados por manifestações comunicativas). Estas duas categorias de análise da cidade (como meio técnico e como meio comunicativo) são trabalhadas a partir de suas variáveis de espacialidade, temporalidade e visualidade, indo além, no entanto, da descrição e da análise fenomênica. Deste confronto, e enquanto objeto epistemológico da pesquisa, procura-se apreender, por meio daquelas variáveis, os processos cognitivos que podem constituir paradigmas para uma possível epistemologia da comunicação na cidade. O objetivo deste trabalho consiste, assim, na investigação daquelas representações (flagradas nos espaços do habitar em São Paulo e em Berlim) como signos de uma visualidade icônica e indicial que comunicam modos de vida na cidade. Trabalha-se principalmente com a hipótese de que estas representações podem promover uma incessante renovação comunicativa dos lugares urbanos, capaz de engendrar o conhecimento da cidade como laboratório comunicativo.

516

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

70 Avenidas Paulistas possíveis: por uma epistemologia da comunicação por meio do olhar Marília Santana Borges A presente pesquisa empírica tem como objeto de trabalho a Avenida Paulista. Inaugurada no fim do século XIX, a avenida, em um primeiro momento, configurou-se como um grande bulevar, que abrigava os casarões da burguesia industrial e cafeeira paulistana. A sua afirmação como importante artéria de ligação e crescente verticalização a definiram como principal centro financeiro de São Paulo, condição abalada a partir da década de 1980, com a efetivação de outros centros de negócios, como a Berrini, por exemplo. Porém, o caráter emblemático e simbólico da Paulista permanece muito forte e, em conjunto com sua história que perpassa distintas fases, a tornam um rico e complexo laboratório para a pesquisa. Nela, pulsa o confronto de uma avenida institucionalizada e planejada, que conta seu percurso sob a ótica do progresso e usufrui do título de grande símbolo da cidade, com outra que resiste e cotidianamente se reinventa, aflorando de suas brechas e fissuras distintas narrativas, espacialidades e temporalidades. Os recentes protestos realizados em São Paulo também destacaram a Paulista como principal palco de disputa entre o Estado e os manifestantes, ratificando sua condição de espaço iluminado. Entender o porquê desse peso simbólico, assim como evidenciar os distintos processos comunicativos de caráter mediativo e interativo que nela se apresentam e a res-

517

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

significam, transitando entre essas esferas, é o objetivo desta pesquisa. Como estratégia metodológica, derivas estão sendo realizadas pela avenida, com o intuito de flagrar tais processos no calor do momento. Tais vivências serão analisadas e confrontadas com a deriva ‘em quadrinhos’ empreendida por Luiz Gê em seu romance gráfico Avenida Paulista, publicado em 2012 pela Companhia das Letras, já que os quadrinhos possuem uma interativa relação com as ambiências urbanas. Nesta HQ, Luiz Gê conta a história da criação e afirmação da avenida, desde a sua fundação, mas não de uma forma linear, cronológica e meramente informativa, ratificando um discurso oficial. Ao contrário, o quadrinista a constrói como uma fábula, superpondo tempos, mesclando memórias, empregando alegorias, trabalhando elementos gráficos da linguagem, apontando caminhos, o que enriquece a sua montagem e a experiência cognitiva do leitor, além de traduzir, sob a sua ótica, as tensões que atravessam e cotidianamente reinventam a cidade. Coloca-se, com isso, a pergunta: ‘como diferentes maneiras de olhar apresentam possíveis Avenidas Paulistas?’, inferindo-se a hipótese que desconstruir e colocar em relação dialógica essas distintas derivas – realizadas pela pesquisadora e por Luiz Gê em sua HQ -, esgarçam qualquer configuração semiótica ou conceituação de cidade, cruzando olhares distintos que revelam a tensão de seus processos, produzindo, com isso, uma epistemologia da comunicação por meio do olhar.

518

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

71 Entre Japão e Brasil – imagem de bairros multiétnicos Michiko Okano O presente trabalho pesquisa a imagem de dois bairros multiétnicos que se destacam sobremaneira como bairros coreanos: o Bairro do Bom Retiro, em São Paulo, Brasil, e o Bairro de Shin-ôkubo, em Tóquio, Japão. Estudam-se as visualidades que representam o existir e o viver de um bairro multiétnico e analisa-se como elas nos provocam e convocam a pensar sobre a questão de ser o “outro”, isto é, viver num país no qual não se nasceu, de ser, enfim, estrangeiro. Foram escolhidos dois bairros de países diferentes, um ocidental e outro oriental, a fim de que seja possível estabelecer diálogos não somente entre as suas diferenças, mas encontrar também similaridades. Este estudo vem sendo desenvolvido desde 2009, com viagens para o Japão por 4 anos consecutivos para acompanhar o desenvolvimento do bairro de Tokyo. A análise da imagem desses bairros realiza-se por meio dos conceitos comunicativos de mediações e interações, os quais possibilitam desvendar o que subjaz na relação entre ambas; em que aspectos o bairro multiétnico se mostra como tal; o que permite pensar com base nessas características e o que se recusa a revelar. Foram, preliminarmente, adotadas cinco variáveis para a análise dos bairros: deslocar, agrupar, mostrar, esconder e conviver. O deslocamento é, neste caso, de pessoas que atra-

519

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

vessam as fronteiras nacionais, distanciam-se da sua terra natal e tentam uma nova vida nas cidades: são produtos de novas diásporas criadas pelas migrações pós-coloniais. No Bairro do Bom Retiro, esses deslocamentos englobam nacionalidades variadas, que abrangem os italianos, cuja imigração se mostra dominante a partir de 1880, judeus, desde 1920, gregos, na década de 1950, coreanos, de 1970 em diante, e bolivianos nestas últimas três décadas. Em Shin-ôkubo, a maior concentração de coreanos ocorre a partir de 1950 e a de pessoas do sudeste asiático (Tailândia, Índia, Filipinas, Sri Lanka) inicia-se na década de 1990. Tal agrupamento de nacionalidades distintas faz do bairro étnico ou multiétnico, o qual ocorre em várias localidades do mundo, um lugar singular, construído pela necessidade de conservar e fortalecer a identidade dos imigrantes em sua condição de ser o “outro” num país estrangeiro. O mostrar-se significa o modo fenomenológico pelo qual essa multiculturalidade se manifesta em um lugar específico de concentração de etnias. No Bom Retiro, os setores comerciais lugarizam espaços: etnias misturam-se de acordo com o comércio local de confecções, ao passo que, em Shin-ôkubo, as etnias lugarizam espaços: elas são os elementos simbólicos da comercialização. No bairro brasileiro, o que se mostra para vender é o produto comercial (confecções) e, no japonês, o caráter étnico é o que se apresenta para o estabelecimento das relações comerciais (restaurantes, mercadorias pop, gêneros alimentícios, cosméticos, etc.).

520

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O ocultar está presente nas minorias étnicas do bairro, como no caso dos bolivianos no Bom Retiro ou dos asiáticos do sudeste em Shin-Ôkubo. Também se manifesta nos vestígios de imigrações não mais dominantes do bairro (tal qual os judeus no Bom Retiro) ou num lugar que se destina exclusivamente ao uso dos imigrantes, como uma mesquita ou um restaurante sem indicação de placa na língua do país onde se localiza, ou, ainda, num museu que denuncia o biopoder japonês contra os coreanos. A convivência de várias nacionalidades num mesmo lugar produz diversas visualidades conforme a etnia, guiada por uma intencionalidade coletiva comercial do mundo capitalista. Mas também se referem à coexistência de atividades de tempos distintos, como hotéis, lojas musicais, restaurantes e, em Shin-ôkubo, comércio pop coreano. O conviver traz outro parâmetro, o da tolerância, traduzido no permitir-se viver em comunidade, porque os imigrantes, na maioria das vezes, não são agasalhados pelo governo local. A hipótese levantada é a de que a imagem de um bairro multiétnico é dominantemente sustentada por uma comunicação mediada, em que a interação é pouco observada, por se tratar de um espaço do biopoder. No entanto, diferenças podem ser notadas entre um país aberto à imigração como o Brasil e um país que possui um sistema mais fechado, como o Japão.

521

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

72 O circuito Barra-Ondina e a espetaculização da cidade do carnaval Fábio Sadao Nakagawa Trata-se de uma pesquisa que está sendo desenvolvida pelo grupo de pesquisa ESPACC em parceria com o Programa de Educação Tutorial da Faculdade de Comunicação da UFBa. A pesquisa visa elucidar o funcionamento da cidade como um meio de comunicação, tendo por objeto de investigação o circuito carnavalesco localizado na orla da cidade de Salvador, conhecido como Circuito Dodô ou Barra/Ondina. O Circuito é constituído por 4,5 quilômetros, onde passam diferentes blocos e trios elétricos, em um percurso que dura em média quatro horas. A programação de 2013 começou no dia 7 e terminou no dia 12 de fevereiro. Sobre ele, incide a seguinte questão: de que maneira o Circuito Barra/Ondina altera a cidade por meio de processos mediativos e interativos, caracterizando a cidade, ao mesmo tempo, como meio técnico e comunicativo?. Para o desenvolvimento da pesquisa, partimos das seguintes caracterizações: 1) em função do carnaval, o trecho que parte do Farol da Barra até a Avenida Adhemar de Barros transforma-se num espaço de espetáculo e, com isso, produz sobre a cidade um local de visibilidades pública e privada; 2) a cidade funciona como suporte de mensagens e programas padronizados, sendo redesenhada como um grande palco de atrações. Dessa forma, é possível verificar a predominância da tecnosfera sobre a psicosfera por meio do confronto entre a cidade pro-

522

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

gramada/ imaginada e a cidade indicial, oriunda do devir do cotidiano. Enquanto a primeira consiste numa esfera da racionalidade produtiva que lhe confere uma caracterização altamente programática, a segunda refere-se à esfera das ideias e crenças, em que os significados são produzidos no embate com o cotidiano do espaço vivido. A metodologia de análise tem como base a realização de pesquisa de campo por meio de visitas “exploratórias” junto aos bolsistas do PETCOM sob a minha tutoria nas quais está sendo feita a discriminação semiótica do local, com o objetivo de apreender o modo pelo qual se opera a interação entre tecnosfera e psicosfera para a construção do espaço de visibilidade e de exponibilidade. A primeira etapa da coleta de dados foi feita antes e durante o carnaval deste ano. Munidos de câmeras fotográficas, eu e os alunos registramos a orla de Salvador e acompanhamos o processo de montagem dos camarotes e, posteriormente, o desfile dos trios elétricos e a movimentação dos carnavalescos. Até o momento, conseguimos identificar dois trechos com visualidades distintas: 1) do Farol da Barra até o Morro do Cristo e 2) Do Morro do Cristo até final do Circuito, no bairro de Ondina. No primeiro trecho, há a diálogo entre a orla e os camarotes, favorecido pela perspectiva gerada pelo ponto de vista de quem está no início do circuito até o Morro do Cristo, que permite a construção da horizontalidade. Dessa forma, surge uma pista linear semelhante às passarelas dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Ocorre a publicização do espaço público e a exponibilidade é gerada com base nessa grande passarela. No segundo trecho, forma-se um pare-

523

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

dão por meio dos dois corredores paralelos de prédios, morros e camarotes. Nesse trecho, estão os principais camarotes, tais como o da Band Folia e da Cláudia Leite. A visibilidade do mar desaparece e a passarela adentra uma espécie de espaço fechado pela claustrofobia produzida pelos paredões. A festa pública continua na rua, mas outro espaço se ilumina: o interior dos camarotes. Dessa forma, o eixo é invertido. Da privatização do espaço público, surge a publicização do espaço privado. No primeiro, a rua é o espaço predominante de exposição e, no segundo, o camarote passa a ser o principal local de visibilidade. A pesquisa, ainda em construção, terá um segundo momento de exploração do campo, que ocorrerá no carnaval de 2014. Além do circuito Barra-Ondina, será investigado também o circuito Batatinha, localizado no Centro Histórico de Salvador. Trata-se de circuito mais antigo, que ainda mantém marcas da tradicional festa pública frequentada pelos habitantes da cidade. A intenção é construir um contraponto entre os circuitos para conseguir elucidar o funcionamento do processo de espetaculização presente no circuito Barra-Ondina. Além disso, busca-se comprovar ou não a presença do o envolvimento dos carnavalescos com a cidade com a intenção de criar a singularidade da multidão distinta do ambiente geral de espetacularização do carnaval.

524

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

73 Grafites, pichos e bombs: espetacularização e carnavalização nas ilustrações da cidade Adriana Vaz Ramos O objeto empírico dessa pesquisa são as ilustrações feitas nos muros da ligação Zona Leste/ Zona Oeste da cidade de São Paulo, mais especificamente, do Largo Padre Péricles (ZO) até o entorno da construção do Estádio do Corinthians, em Itaquera (ZL). Tal ligação é uma autovia expressa da cidade, cuja função principal é conectar o Elevado Costa e Silva, o Minhocão, à via axial mais conhecida como Radial Leste, porém esta designação não é oficial, porque ao longo de sua extensão esse trajeto possui diversos nomes diferentes. Trata-se de uma via horizontal com características bastante semelhantes em toda sua extensão e, por essa unidade sugerir um corredor, é também identificada como “a continuação do Minhocão”. Construída entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1970, a Radial Leste, assim como o Minhocão, gerou inúmeras polêmicas por contribuir para a degradação das regiões que tiveram suas ruas seccionadas, sobretudo na Baixada do Glicério e no bairro da Bela Vista, na região do Bixiga. Ainda na fase inicial da pesquisa, a adoção da deriva como estratégia metodológica para observação da ligação ZL/ ZO tornou evidente a existência de diferentes formas de ilustrações, feitas nos muros dos prédios e no concreto dos viadutos. Nestes suportes, foi possível registrar grafites, pichos e bombs, pinturas que, embora possam ser confundidas entre

525

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

si por um olhar apressado, marcam processos comunicativos muito distintos. Atualmente o grafite possui maior aceitação que as demais formas de ilustração da cidade e já é considerado como uma forma de expressão incluída no âmbito das artes visuais. Em geral, são desenhos de complexa elaboração, feitos com muitas tintas coloridas, podem ser encontrados até mesmo nas galerias de arte, no Brasil e no exterior. Aceitos pelo poder público e muitas vezes oficialmente patrocinados, tanto que, no corredor estudado, são protegidos por grades de ferro, contra possíveis atos que os destruam. Encontra-se na mesma região, em maior quantidade os pichos e bombs que são vistos como contravenções e vandalismos. Bombs e pichos assemelham-se por serem ações desautorizadas, realizadas com rapidez, em locais estratégicos de grande visibilidade. Os bombs são pinturas de letras grandes, encorpadas e arredondadas, executadas em pouco tempo e com poucas cores. Quase sempre são produzidos por artistas organizados em grupos, denominados por eles de crews. Em maioria, essas inscrições são assinaturas de pseudônimos de seus autores. Os pichos são quase sempre feitos em letras mais finas, de uma só cor. Podem tanto ser assinaturas como expressões de protestos. Por esse caráter de ação ilegal e também por serem inscrições quase criptografadas, de difícil leitura, o senso comum já os associou às ações do PCC. Entretanto, essas ilustrações são manifestações de cultura urbana, comum às outras cidades estrangeiras e também ligadas a diversos outros movimentos originados nas periferias, tais como o hip hop, que

526

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

possuem fabulações próprias, distante das práticas de cultura elitista. A tensão existente entre essas duas formas de ilustrações urbanas, presentes na ligação ZO/ ZL, é o interesse dessa pesquisa. As formas de representação mencionadas guardam em si o desajuste inerente aos processos comunicativos mediativos e aqueles caracterizados pela interação. Os grafites são ilustrações espetacularizadas, toleradas por serem compreendidas como formas de embelezamento urbano e correspondem ao “lado a” das pinturas das cidades. Os pichos e bombs utilizam os mesmos suportes e os mesmos materiais dos grafites, entretanto podem ser compreendidos como o “lado b” dessa forma de expressão. Invertendo o conceito construído a respeito dos grafites como forma de representação, as crews de pichos e bombs parecem gerar estratégias de biopolítica. Busca-se trabalhar com a hipótese de que as crews que agrupam os pintores de bombs e de pichos possuem intencionalidades coletivas, traduzidas por suas inscrições nos muros públicos, no sentido de ressignificar o uso que é feito da ligação ZO/ ZL. Talvez seja possível encontrar, em meio à visibilidade desordenada dessas ilustrações, uma forte carga de informação, capaz de transportar o observador mais atento ao nível da visualidade intrínseca à essa forma de expressão urbana, voz de artistas da periferia, não inseridos no mainstream.

527

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

74 Cartografia do Medo: as estratégias de poder da imagem na cidade de São Paulo Adriano Miranda Vasconcellos de Jesus Em busca de uma governabilidade eficiente, o estado constrói novas estratégias para a atuação no território midiático. Entre elas está a construção do medo como forma de controle do imaginário e da ação. A midiatização do poder do Estado parte da necessidade de ordenação do mundo sensível pela utilização de estratégias figurativas. A presente pesquisa se ocupa deste medo como potencialidade de instituições sociais autônomas e indutoras do imaginário social. Na observação da produção midiática de massa dos últimos vinte anos, destaca-se o posicionamento de uma Cultura Dirigente preocupada com a eficiência da atuação estatal capaz de assegurar os direitos adquiridos no âmbito urbano. Atuando através de vetores como Vigiar, Sanear, Alertar, Deslocar e Formalizar, o poder gera imagens em um sistema de coordenadas que possibilitam observar suas formas de intencionalidades recorrentes. O objeto de estudo refere-se ao medo implantado a partir do ambiente comunicativo das cidades, recuperado e ordenado espetacularmente pelas mídias de massa, expandidos pelos processos de comunicação (espontâneos ou não) e dissolvidos na cultura cotidiana. Partindo de variáveis do território urbano onde o medo é uma manifestação visual identificável, a pesquisa considera como hipóteses: 1) o meio comunicativo induz o medo em suas pro-

528

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

duções para estimular um modo ordenado de relações com o espaço, 2) a midiatização do poder gera imagens estratégicas que procuram induzir a aceitação das suas próprias atuações de controle do imaginário, 3) aquelas imagens procuram concretizar intencionalidades coletivas que têm como objetivo assegurar uma resposta afirmativa à ação induzida. A pesquisa tem como corpus os elementos que se alojam nos resíduos não planejados da cidade, os bairros da cidade de São Paulo que não possuem visibilidade midiática e o modo como criam sua própria mídia informal. O foco estará nas estratégias da midiatização presente na diferença entre o poder da mídia formal e a mídia informal em regiões selecionadas da cidade de São Paulo. Tal pesquisa empírica partirá das ações complexas e tensivas ocorridas nas áreas residuais de São Paulo partindo das cartografias dos incêndios de favelas em um período de 2006 a 2013 relacionados aos projetos e leis aprovadas com características de alterar as formas de uso e costumes da região e a consequente repercussão na mídia. Pretende-se que os resultados obtidos na presente pesquisa caracterizem um viés de um objeto mais epistemológico do que empírico.

529

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

75 Espaços residuais: entre o aproveitamento e o descarte comunicacional dos lugares da cidade Thiago Machado Balbi O termo espaço residual é usado para designar aquelas espacialidades geradas pelas inúmeras “sobras” acumuladas no processo de construção das cidades através do seu percurso histórico. Toda cidade possui seus terrenos baldios, imóveis abandonados, canteiros, jardins, alças de viadutos, escadarias, empenas cegas, muralhas, linhas férreas, becos e inúmeras outras “sobras” que são, não só inevitáveis, mas, muitas vezes, necessárias para o seu funcionamento e existência. Nota-se que o termo é abrangente e difícil de definir com precisão. No entanto, a partir dos exemplos anteriores, é possível perceber que alguns espaços já surgem como residuais: a empena cega de um edifício, a alça de um viaduto, um terreno baldio... E outros, por sua vez, se tornam residuais com o passar do tempo, como nos casos de abandono, tanto de imóveis, como de praças e equipamentos públicos. Assim, o uso – ou melhor, a falta de uso – é uma das características mais evidentes do espaço residual. O primeiro caso revela que o projeto não considerou o uso de um determinado espaço ou considerou um uso muito limitado, específico e previsível. Já o segundo, revela que seu uso foi diluído – enfraquecido – com a ação do tempo. Há, no entanto, um terceiro caso, que se refere àqueles espaços que surgem residuais mas assumem usos imprevistos. O gramado de uma alça de viaduto pode virar um campo de

530

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

futebol para a vizinhança, um canteiro pode ser ocupado por vendedores informais ou moradores de rua e uma escadaria pode se tornar um museu de arte urbana; são infinitas as formas de reaproveitamento, ou reciclagem, de espaços residuais. Nesse contexto abrangente e complexo não há como especificar precisamente o que é um espaço residual, mas apenas constatar que a cidade – sobretudo através da ação de seus usuários – descarta alguns espaços, transformando-os em resíduos, ao mesmo tempo em que recicla outros. Assim, mais do que um conceito estanque, o espaço residual é marcado por vetores, por tendências, que levam ao seu descarte ou sua reciclagem. A problemática do espaço residual, não é muito diferente da do lixo. Sabe-se que o lixo – um dos sinônimos de resíduo – não é necessariamente descartável; com as preocupações ambientais contemporâneas o lixo se tornou algo muito mais complexo do que o simples descarte. A reciclagem do lixo, além de reduzir impactos ambientais, possuí um alto potencial produtivo e criativo. O primeiro, estende o ciclo de vida de alguns materiais ou os transforma em combustíveis, adubos, etc. Já o segundo, é notável nas incontáveis formas de reaproveitamento de resíduos – embalagens e outros objetos – que são ressignificados por artesãos e designers. Os casos em que o espaço residual é apropriado por usos imprevistos parecem ser fruto desse potencial produtivo e criativo que envolve o resíduo/lixo. Assim como o espaço residual, o lixo também é atravessado por vetores, tendências, que levam ao seu descarte ou sua reciclagem.

531

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Essa condição complexa permite afirmar que esse processo de ressignificação pelo qual o resíduo/lixo passa quando não é descartado é, também, um processo semiótico. Desse modo, para além dos aspectos construtivos e materiais, que caracterizam os espaços residuais enquanto meio técnico, este estudo inclina-se pra a interpretação dessas espacialidades como meio comunicativo. Ou seja, os aspectos semióticos e informacionais devem ser observados e interpretados a fim de apreender as tendências de transformação dos espaços residuais nas relações de mediação e interação engendradas entre os usuários e tais espacialidades. O trabalho terá como base empírica a cidade de São Paulo. As operações de observação e interpretação dos espaços residuais serão fruto de uma série de derivas em lugares aleatórios pela capital paulistana e, portanto, não é a sua localização que interessa neste estudo empírico, mas, sobretudo, os movimentos e transformações dos espaços residuais no espaço/tempo. Através da estratégia metodológica da deriva pretende-se flagrar essas espacialidades pelos seus indícios e “assinaturas” que podem revelar o modo como se desenvolvem os processos e mediação e interação estabelecidos entre os usuários e os espaços residuais. Com base nestes aspectos levantados, que vão muito além de uma condição inerte e permanente do espaço, o que interessa para este trabalho não são os espaços residuais em si, mas a potencial residualidade presente em diversas espacialidades. O termo “espaço residual” passa uma ideia de constante, já a “residualidade do espaço” abrange a variável que

532

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

faz com que estes possam ser descartados e/ou reciclados; assim como o lixo. A hipótese levantada nessa fase inicial do trabalho consiste no fato de que, enquanto meio comunicativo, os espaços residuais apresentam, pelo menos, duas formas de residualidade. Uma “residualidade mediativa”, marcada por “uma comunicação de mão única de caráter transmissivo”, e, por outro lado, uma “residualidade interativa”, fruto de “uma comunicação que ocorre na possibilidade incerta do comunicar ao processar-se no intercâmbio de emissores e receptores”. A primeira, estaria relacionada aos espaços residuais descartados, e a segunda, aos reciclados.

533

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO C 76 Beleza Brasileira Gustavo de Castro A pesquisa visa colher, tratar, sistematizar e explorar dados quantitativos e qualitativos, imagens, documentos, bibliografias, narrativas e índices dos imaginários da beleza brasileira. A investigação problematiza o trajeto sociocultural, antropológico e econômico do final da década de noventa do século XX até a primeira década do século XXI. Trata-se de investigação estética (dos imaginários sociais, poéticas periféricas, afetos no espaço da vida cotidiana, moda e cosmetologia, movimentos artísticos locais, periféricos e regionais, tendências e percursos do belo e do feio contemporâneo) da beleza brasileira. Envolve para isso corpo significativo de pesquisadores1 em torno do problema do “complexo da beleza” no contemporâneo, impli1 São 15 pesquisadores da Universidade de Brasília – UnB, de quatro faculdades diferentes: Faculdade de Comunicação (FAC), Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), Instituto de Artes (IDA) e Faculdade de Administração (FA). São professores com dedicação exclusiva, alunos de doutorado, mestrado e especiais. São sete pesquisadores de outras instituições: Universidade Católica de Brasília/ UCB, Universidade Estadual do Rio de Janeiro/UERJ, Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN, Universidade Estadual do Rio Grande do Norte/UERN e Ministério da Cultura/MinC. Contamos ainda com três técnicos; um pesquisador-colaborador.

534

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cando na inclusão do feio como parâmetro de análise estética. As pesquisas aqui sugeridas devem resultar obrigatoriamente na produção de artigos científicos a serem apresentados em seminário específico reunindo os pesquisadores, alunos e colaboradores envolvidos, além de convidados. Estes artigos serão compilados na forma de livro organizado pelo coordenador do projeto, professor Dr. Gustavo de Castro e pela professora Dra. Cláudia Maria Busato, com apresentação de ambos, a ser lançado no segundo semestre de 2015. A questão da beleza é complexa no Brasil por que passa pelo imaginário (individual, grupal e social) do brasileiro e, também, sobre a prática socioeconômica de um país que é o segundo maior consumidor de cosmetologia do mundo. O projeto propõe investigar os percursos, imagens e imaginários do belo e do feio no Brasil para que se possa compreender a situação da esfera estética em nosso país. Esteticamente, como o brasileiro se vê? Quais são as reflexões e práticas formais a respeito dos valores estéticos e das representações sobre o corpo, a arte, os símbolos que se pode elaborar/analisar/pensar/re-pensar e que aponte uma nova visão da beleza (ou uma visão ampliada de Brasil). Ver o país a partir da dimensão do sensível, do feminino e dos afetos da vida cotidiana é uma das inovações desta proposta. O problema a ser enfrentado nesta pesquisa é o da complexidade da beleza brasileira. Em uma estrutura social o modelo estético é uma “opção cultural” em que os indivíduos que dela participam produzem e são produtos de classificações estéticas. Atualmente, a beleza brasileira tornou-se um produto de

535

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

venda por excelência, de marketing e de políticas do desejo. Os brasileiros foram definidos por processos culturais que definiram o seu processo estético. A investigação desses processos é aqui central. As representações da beleza e da feiura no campo cultural, nos diversos setores do conhecimento (ciências da religião, mitologia, filosofia, história, antropologia, psicologia, arte, comunicação, vida cotidiana, entre outras) têm como pressuposto a ordenação de um conjunto de estratégias utilizadas para suscitar um determinado conjunto de efeitos nos seus receptores. Percebendo o espaço acadêmico como meio de compreensão, constante reflexão sobre os processos, relações sociais e imaginárias, explicita-se a importância desta pesquisa para um diálogo entre o audiovisual e a arte, que se dá justamente pela proposta de discussão teórica do imaginário, audiovisual, artes e estéticas com foco na beleza e no feio, além de suas replicações na mídia brasileira. Para pensar a beleza que se constrói nos corpos, obras e gestos na sociedade brasileira contemporânea, rica pela diversidade étnica e as influências interculturais, faz-se necessário delinear alguns marcos ou registros do embelezamento nas últimas décadas. Nesta perspectiva cabe, em primeira instância, divisar estudo que pense as práticas individuais da beleza e os rituais coletivos que marcaram seus deslocamentos de sentido. É importante ressaltar, inclusive, que o arcaico (ancestral) está presente no programa gestual e expressivo contemporâneo. O Corpus desta pesquisa compreende os seguintes recortes: 1) O tecnobrega de Belém do Pará, de Goiânia, Salvador e Recife); 2) O feio e o belo na arte produzida nas pequenas cidades (expedições a

536

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

partir dos grandes centros); 3) A arte de rua e as intervenções urbanas; 4) a arte digital em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro; 5) As pomba-giras e a imagem do feminino sagrado-e-profano nos terreiros e Umbanda e Candomblé pelo Brasil; 6) Os afetos e as narrativas da vida cotidiana nos espaços da cidade; 7) Feio, grotesco e deboche a partir dos arquivos da mídia; 8) A estética da moda e os bancos de dados da economia da beleza (São Paulo e Rio de Janeiro); 9) O discurso, o imaginário e as narrativas da mídia sobre a beleza e 10) Mapeamento icônico da beleza brasileira. A presente proposta investigativa prevê quatro etapas: 1) Pesquisa de campo e documental sobre a beleza brasileira; 2) Produção de artigos/ensaios (científico) a partir da pesquisa realizada; 3) Evento para apresentação dos artigos/ensaios e 4) Produção de livro. A ideia de nação como comunidade imaginada parece mais explícita do que nunca, embora sempre reconfigurável, por seu próprio caráter discursivo e, por conseguinte datada historicamente e sempre provisória. Assim, a brasilidade, inspirada no conceito de “inglesidade”, citado por Hall (2003, p. 49) estaria aberta a toda uma série de ressignificações. A ideia de Brasil que se quer mostrar, do brasileiro comum, reificado pela mídia nativa, estaria em processo de plena mudança. Sem pretender ser genérico, antes o estudo pretende ser complexo2, lança um olhar que busca a unidade na multiplicidade, isto por 2 Edgar Morin, sobre a necessidade de um pensamento complexo, afirma que “não podemos isolar uma palavra, uma informação; é necessário ligá-la a um contexto e mobilizar nosso saber, a nossa cultura” (MORIN, 2003, p. 13).

537

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

que o Brasil dos últimos anos testemunhou diversas transformações econômicas e sociais que, obviamente, reverberam na própria ideia de Brasil compartilhada fora e dentro do país. A ascensão da nova classe média, o aumento de seu poder econômico/aquisitivo, é um fenômeno que traz consigo uma série de impactos culturais. Faz-se mister nessa análise a compreensão do gosto como uma das formas de conformar hierarquias. O capital cultural, tal como definido por Bourdieu (2008), é inegavelmente um forte fator de segmentação, de diferenciação social. Um capital que reduziria o conceito de cultura a uma de suas acepções clássicas, a uma espécie de sinônimo de educação formal. O excessivamente popular, dentro desta visão dicotômica, estaria direcionado ao grupo formado pelos supostamente “menos exigentes”. Sem embargo, as identidades e hierarquias simbólicas contemporâneas revelam de maneira explícita as suas incongruências e fissuras. A ideia de um sujeito estável, produto de uma mentalidade positivista, parece desmoronar ante a profusão de novos significados atribuídos por diversos lugares simbólicos partilhados por um mesmo sujeito. A própria ideia de nação é um bom exemplo de como o grupo de pertencimento por excelência padece do mesmo mal das instituições contemporâneas: a precariedade. Elencam-se duas categorias a serem exploradas dentro da temática “beleza brasileira” e que ajudarão no sentido de articular funcionalmente a busca pela resolução do problema de pesquisa apresentado. São elas: Os imaginários e As paisagens.

538

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A primeira categoria visa tratar as questões relacionadas ao momento de reconfiguração da beleza no Brasil – no final do século XX ao início do século XXI, as tensões e hierarquias conceituais: pureza x mistura; natureza x cultura; culto x inculto; popular x erudito; comunicação x incomunicação, passando pelos mitos fundadores: o feminino, o idílio; o paraíso; “inferno verde”, o universo fantástico, chegando finalmente às imagens e imaginários da beleza e da feiura no Brasil. A investigação dos “campos imaginários comuns” possibilita, por exemplo, a compreensão e o valor dado às curvas e cores no Brasil; os ícones da beleza sincrônica e diacronicamente associados; assim como explorar a dinâmica de gestualidade, o riso, o deboche e a gargalhada como fatores de resistência sociocultural; os afetos; os espaços sociais e a vida cotidiana, entendidos a partir do prisma da sedução, paixão, amizade, amor e a simpatia, a atração e a repulsão. A segunda categoria, “paisagens”, visa problematizar as diversas estéticas, centrais e periféricas, além de questões de natureza semiótica como o rosto do brasileiro, a moda, o vestuário, o corpo, a sexualidade, sensualidade, elegância, vulgaridade, artes visuais, cultura visual e intervenções urbanas, revistas, catálogos de moda, blogs, publicidade, cinema, jornalismo, a economia do feminino e o consumo da beleza. Entre estes impactos “paisagísticos” pode-se citar o fenômeno do “tecnobrega paraense” que vem, neste contexto, rompendo as fronteiras geográficas e simbólicas tradicionais da indústria fonográfica nacional, introduzindo um alargamento da visão de Brasil reificada pelas mais diversas mídias para além do

539

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

eixo Rio-São Paulo ao difundir uma estética duplamente periférica: a periferia do Brasil sendo projetada por meio da periferia de Belém. O primeiro registro estético feito sobre o povo brasileiro foi positivo (registro português/europeu). Primeiro estavam (os brasileiros) despidos, depois foram vestidos, tiveram os corpos domesticados/apropriados/modelados pela cultura. São longínquas as matrizes da beleza no Brasil. Nesta história de pouco mais de quinhentos anos, a beleza feminina ornamentou a natureza em regimes estéticos os mais sublimes e perturbadores. São paisagens que, de século em século, reverberaram em textos e representações que reiteram uma visão comum do belo, em um Brasil feito de curvas e sensualidades marcadas pela insistente e instintiva erotização de seus corpos e rostos. São igualmente paradigmáticas as belezas de Iracema, Iemanjá e a musa de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, celebrada na antológica música-símbolo da bossa nova, Garota de Ipanema. Não menos inquietante foi o rosto da transexual Roberta Close nos idos de 1980 que, evocada pela música Dá um close nela, de Erasmo Carlos, produziu um misto de riso e fascínio por uma beleza que se construiria sob a égide do híbrido e do mitificado no limite do grotesco ou incomum. A música, aliás, foi sucesso estrondoso nas rádios e a modelo, que encantou uma geração de admiradores, não parou de ser notícia nas revistas e programas de televisão da época. Imagens dessa ordem são recorrentes. Surgem estampadas e descritas liricamente em imaginários literários, religiosos e poéticos. Algumas provocaram o gozo de um olhar masculino,

540

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

entre estas se destacam: a bela e lânguida virgem tupiniquim Iracema de José de Alencar, a fulgurante deusa do candomblé Iemanjá e a beleza alva e sensual dos corpos femininos nas areias da praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. Em Iracema é clara a descrição da beleza sensual e das práticas corpóreas − o banho, o hábito de adornar o corpo, a perfumaria − categoria considerada neste estudo como constitutiva do itinerário do belo no Brasil. O imaginário do belo e do feio está intimamente ligado à história, literatura, artes e à mídia brasileira. Já em 1926, Mário de Andrade está preocupado com a identidade nacional, tentando reconstruir um perfil do brasileiro que reunisse a superação da dicotomia feio-belo. No livro Macunaíma – O herói sem nenhum caráter, o personagem é descrito vindo do mundo mítico da selva amazônica. Da sua rede se ouve sempre o grito: “Ai! Que preguiça!...”. Sua virtude é andar pela vida sem nunca precisar trabalhar. Se ele se levanta uma vez, se deita imediatamente em cima de três meninas num bordel em São Paulo. Macunaíma é negro, preguiçoso e feio. “Um brasileiro bem brasileiro”. No livro, Mário de Andrade (1893-1945) o descreve: No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. (...). De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: “Ai! Que preguiça!...”. (...). O divertimento dele era decepar cabeça de saúva (1993, p. 237).

541

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Identifica-se em Macunaíma o riso já ligado à estética da vida e à dinâmica de resistência. O riso e o humor negro que está por trás da história da inquietante na cultura literária brasileira. O primeiro romance publicado no país chamou O Diabo Coxo – verdade sonhada e novela da outra vida, de Alain René Lesage e, de acordo com informações levantadas por Alfredo do Valle Cabral, em 1881, no Anais da Imprensa Nacional do Rio de Janeiro de 1808 a 1822, este romance satírico e picaresco, marca, em certo sentido, o início faustico da literatura brasileira. Em levantamento preliminar, o diálogo feio-belo aparece revestido no humor, no absurdo e na aparição dos mitos, monstros e seres encantados de nossa literatura e cultura popular. Nos caminhos e descaminhos da história de formação do povo, desde o “descobrimento”, o imaginário que se construiu, revela um discurso que parece “ensinar” a necessidade de superar a dicotomia belo-feio como condição de possibilidade de uma beleza ampliada. A mídia descobriu muito cedo a necessidade de estimular o grotesco e o deboche no mercado da atenção. O feio e o belo (e suas zonas de diálogos, incertezas e trocas) estão impregnados no imaginário muito antes dos programas televisivos patrocinarem a mudança de fisionomia. Os quadros e programas de mudança de fisionomia entraram com força na disputa da audiência do entretenimento televisivo.

542

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

77 A Estética do Fluxo através da Artemídia Contemporânea Gabriela Pereira de Freitas Temos observado com frequência em muitos estudos recentes da área de Comunicação – principalmente aqueles relacionados às configurações da imagem e do audiovisual -, bem como em outras áreas das Ciências Sociais, o uso de uma palavra para caracterizar o que parece ser uma espécie de ‘sintoma’ da contemporaneidade: fluxo. Tomemos como exemplo amplamente conhecido as reflexões do sociólogo Zygmunt Bauman, para quem o mundo, em várias de suas esferas, vive atualmente num estado líquido, sempre relacionado ao seu aspecto de fluidez. O constante uso do vocábulo, no entanto, carece de uma investigação mais profunda que leve a uma compreensão do conceito de fluxo e suas implicações. Nesta pesquisa nos interessa, particularmente, buscar o fundamento dessa palavra e seus desdobramentos estéticos no contemporâneo. Em um artigo sobre estética contemporânea, Priscila Arantes (2008) atenta ao fato de que estamos passando por um momento de transição de uma estética da forma a uma estética do fluxo. A partir daí levantamos algumas perguntas: podemos falar em estética do fluxo? O que seria isso? Esses questionamentos deram o ponta-pé inicial para a construção do que viria a ser o nosso problema de pesquisa. Para isso voltamos nosso olhar inicialmente para as artes, principalmente para a artemídia.

543

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O artista está sempre em busca de ampliar os limites, “ele cria o possível ao mesmo tempo que o real quando executa sua obra” (BERGSON; 2006:118). Assim, acreditamos que as artes – com destaque para artemídia -, ao se apropriarem de meios de comunicação e recursos multimídia, antecipam usos e processos que posteriormente serão adotados pela própria Comunicação, num devir midiático das artes, como aponta Ivana Bentes (2006:102). Portanto, se quisermos investigar o contemporâneo e suas manifestações, encontraremos nas artes um campo profícuo. Conforme ressalta Giorgio Agamben (2009), o contemporâneo não coincide exatamente com o tempo corrente. Pertence ao contemporâneo aquele que consegue se distanciar do atual para percebê-lo, assim como fazem os artistas. Pelo aspecto pujante da convergência entre arte e comunicação na artemídia é que optamos, num primeiro momento, por esse recorte, na busca por compreender o que se chama de fluxo nesse contexto. No entanto, ainda se faz necessário o suporte de um referencial teórico que contemple o conceito de fluxo. Por isso, procuramos pesquisar as raízes tanto etimológicas quanto filosóficas do termo, criando um diálogo entre filósofos que se inicia na Grécia antiga, com Heráclito, e repercute em vários outros filósofos ao longo dos séculos. Essa pesquisa, aliada à observação de nosso objeto nos levou a ratificar a importância de uma abordagem estética do tema fluxo. É com a arte contemporânea que o observador passa a interferir na obra, tornando-se parte dela, que, por sua vez, só se completa mediante essa interferência. O ponto

544

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

de vista subjetivo, tanto do artista quanto do participador bem como sua experiência na fruição da obra ganham destaque, consolidando uma relação de caráter estético entre a obra e aquele que a vivencia. Diante desse cenário, nos propomos a formular, com mais convicção, uma das hipóteses que guiarão nossos percursos investigativos e que reforça uma percepção geral do que chamamos aqui de ‘sintoma’ do contemporâneo: o fluxo, na contemporaneidade, não se manifesta apenas como conceito, mas como uma estética. Ressaltamos que a discussão estética acerca da artemídia se faz cada vez mais necessária frente ao deslumbramento tecnológico que sobrepõe a ela a discussão técnica. O olhar que nos interessa parte da observação de que na interação que constitui a experiência do participador com a obra (por meio de aparatos tecnológicos) existe uma produção de subjetividade que funda um sujeito – um dos muitos sujeitos contemporâneos, no caso, um sujeito em fluxo. Portanto, não é de se estranhar que o aporte teórico apresentado aqui, e que será usado na investigação acerca do conceito de fluxo, terá uma abordagem fenomenológica ao objeto de estudo. Diante disso, formulamos nossa segunda hipótese: para pensar o fluxo e, consequentemente, uma estética do fluxo, devemos considerar o ponto de vista subjetivo. Assim, diante de tais hipóteses, acreditamos que o problema desta pesquisa se norteará pela seguinte pergunta: Como as recorrências da sensação de fluxo na experiência de

545

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

obras da artemídia se articulam na constituição de uma estética do fluxo? METODOLOGIA Bergson, em seu livro O pensamento e o movente (2006), faz uma reflexão sobre como abordar a realidade fluida em que estamos inseridos. Como analisar algo que está, por sua própria natureza, em constante movimento? Como aplicar recortes a uma realidade sem tirá-la de sua duração em fluxo? Estamos habituados à tradição cartesiana da ciência, no entanto, permanecer restrito aos seus métodos de análise não será suficiente para a compreensão de um objeto de estudo que está em contínua mudança. Devemos pensar numa forma de aliar a análise tradicional a um pensamento e uma metodologia do fluxo, afim de entender uma estética decorrente daí. Assim, Bergson vai desenvolver uma reflexão acerca de como pensar o movente a partir da ‘intuição’: “Intuição, portanto, significa primeiro consciência, mas consciência imediata, visão que mal se distingue do objeto visto, conhecimento que é contato e mesmo coincidência” (2006:29). Ele complementa: “A intuição é aquilo que atinge o espírito, a duração, a mudança pura” (2006:31). A percepção do objeto, portanto, – mais do que apenas observação, pois irá assumir a dimensão da experiência – não se desvincula do sujeito, repercutindo uma metodologia de abordagem fenomenológica. Assim, dando importância ao

546

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ponto de vista subjetivo, a experiência daquele que analisa também torna-se fundamental – lembremos do personagem que adentra o rio, em Heráclito. Somente dessa maneira, por meio da intuição e da experiência somos capazes de apreender as coisas, participando delas. No entanto, para proceder à análise, já estando imerso no objeto, necessitamos estabelecer um distanciamento da coisa em si, por meio da observação de uma imagem da coisa, como propõe Martin Heidegger (2002). Para Heidegger, quando falamos da imagem de algo quer dizer que o próprio objeto está diante de nós. Nesse processo devemos, portanto, conceber o mundo como imagem, ou seja, olhar o mundo de fora, ao mesmo tempo em que fazemos parte dele – aí somos sujeito e objeto concomitantemete. Ao colocarmos o próprio mundo diante de nós, por meio de sua representação imagética, podemos contemplá-lo segundo o princípio da mundividência, conforme nos mostra o filósofo: “mundividência significa intuição de vida” (2002:117), e pressupõe a vivência do observador como sujeito em meio àquilo que se propõe observar. Assim, nesta pesquisa procuramos trabalhar sempre na relação entre diferentes abordagens, de maneira a conseguirmos um estado de suspensão momentânea de alguns processos, colocando-os entre parênteses enquanto levantamos outros elementos, sejam eles conceituais, analíticos ou subjetivos, para depois retomá-los e estabelecer um diálogo segundo múltiplos pontos de vista. Consideramos que essa seja uma forma pertinente de contemplar um objeto em constante

547

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mutação: um método que encontra repercussão também no pensamento da complexidade. Ao discorrer sobre o tema, Edgar Morin atenta para alguns perigos em que podemos incorrer. Damos destaque aqui para alguns deles. O primeiro se refere à possibilidade de cairmos numa redução simplista que apenas crie categorizações, colocando cada elemento em sua respectiva caixa, dando a falsa sensação de multiplicidade e transcisciplinariedade (2005:138). Devemos, portanto, buscar uma organização que constitua, ao mesmo tempo, uma unidade e uma multiplicidade: “A complexidade lógica de unitas multiplex nos pede para não transformarmos o múltiplo em um, nem o um em múltiplo” (MORIN; 2005:180). Nesse sentido, Morin nos apresenta o princípio hologramático. Ele é particularmente interessante por se apoiar metaforicamente sobre uma imagem muitas vezes usada pela artemídia: a imagem holográfica. No holograma cada um de seus pontos incluem quase toda a informação do conjunto que ele representa. Temos, portanto, uma situação em que não só a parte está no todo, mas o todo está na parte. Ao princípio hologramático, Morin acrescenta o princípio dialógico pois acredita que somente mediante o diálogo conseguimos realizar uma abordagem multidimensional, num trabalho de tessitura de contrários que formam um todo complexo1. Ao falar em ‘todo complexo’ devemos, mais uma vez, ter cautela, pois pensar dentro de uma lógica de manutenção das relações todo/partes, uno/diverso também pode resultar num 1 Complexus = aquilo que é “tecido junto” (MORIN; 2005:215)

548

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

reducionismo que simplifica o pensamento. Este é o grande desafio da complexidade: trata-se de um sistema aberto e, por isso, passível de constantes mudanças – tal qual o fluxo. Morin afirma que esse todo pode ser maior ou menor do que as partes e do que o próprio todo, assim como as partes podem ser maiores ou menores que a própria parte. Justamente por se constituir num sistema aberto, devemos pressupor que “o progresso não está necessariamente na constituição de totalidades cada vez mais amplas; pode estar, pelo contrário, nas liberdades e independências de pequenas unidades” (MORIN; 2005:262). Diante disso, retomamos nossa proposta de trabalhar na relação entre diferentes abordagens que, aqui, constituirão um tripé teórico metodológico, construído, por sua vez, no trânsito entre os campos da Ciência, das Artes e da Filosofia – assim como também propõe Morin. Nesse caso, para não cairmos nas armadilhas reducionistas de uma má aplicação do método complexo, vamos procurar olhar para essa relação pela intuição, contemplando o ponto de vista subjetivo não apenas do pesquisador, mas do artista e, também, do participador da obra de arte, quando possível, tendo em mente que essa postura mantém a análise aberta e sujeita a constantes mudanças, de acordo com as características próprias de cada obra que constitui nosso objeto. Ainda ressaltamos que a escolha por um método complexo apoiado na relação entre os campos da ciência, arte e filosofia não pretende constituir uma solução a primeira vista confortável que englobaria múltiplos pontos de vista que poderiam contemplar o objeto como um todo, pelo contrário. Por

549

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ser aberto, concebemos o objeto como estando em constante mudança e nossa análise (ou experienciação) apenas como uma possibilidade de compreensão e abordagem desse objeto no fluxo de sua existência. Eis como pretendemos articular tais campos: No campo filosófico, a discussão se desenvolverá inicialmente com uma pesquisa a partir das raízes etimológicas da palavra fluxo, ligando-a às noções desenvolvidas por filósofos que trataram do tema desde a antiguidade, buscando o fundamento e o sentido do conceito. A pesquisa contemplou a etimologia nas línguas portuguesa e latina, inicialmente e, após o contato com Heráclito, principalmente, acabamos sendo levados às raízes gregas do termo também. Dentre os filósofos que pensaram o movimento e, consequentemente, o fluxo ao longo dos séculos, nos voltamos mais especificamente às reflexões de Heráclito de Éfeso (535 a.C. – 475 a.C., aproximadamente) e como ela repeercutiu em outros filósofos, principalmente em Platão (2001); Giordano Bruno (1998); Heidegger (1998, 2008, 2008a); Hegel (2011); Nietzsche (1999, 2007, 2012); Bergson (2006, 2010) e Deleuze (1995, 1997, 2007, 2009). O importante aqui é termos sempre a cautela de não recorrer à filosofia como única guardiã de uma suposta verdade acerca dos conceitos. Por isso, recorreremos ainda às abordagens científica e artística Na esfera científica, faremos um levantamento dos recursos tecnológicos usados na composição da obra e que tornam possível a interação, que consistirá, mais especificamente em: 1) Descrever fisicamente a obra, percebendo a relação

550

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

dela com o participador e o espaço que ocupa; 2) observar os recursos multimídia apropriados para realização da obra (e outros recursos tecnológicos não multimídia também) e como eles constituem uma interface de interação com o visitante. A articulação com o campo artístico é intrínseca ao próprio objeto. Acreditamos que é no campo das artes, por motivos já manifestados anteriormente, que conseguiremos compreender o que é o fluxo no contemporâneo e desdobrar essa compreensão na elaboração de uma estética. Além disso, também já mencionamos o fato de os artistas e as artes nos despertarem percepções que ainda não somos capazes de ver, o que faz com que a artemídia – no caso desta pesquisa -, ao se apropriar de recursos multimídia, antecipe usos que, mais tarde, possivelmente serão comuns aos meios de comunicação. Assim, partiremos de uma compreensão da noção de fluxo a partir de um levantamento etimológico e filosófico que formará a base conceitual para a análise das obras de artemídia contemporânea, priorizando, ao nos guiarmos pela intuição, a vivência da obra (seja do ponto de vista do artista, do participador ou de quem a analisa, de acordo com o caso). Em seguida, procuraremos comprender como essa noção de fluxo se configura numa estética, buscando eluciar as categorias que a compõem e que nos guiarão pelos caminhos da experienciação das obras. Portanto, depois de definir como serão articulados cada campo de nosso tripé teórico-metodológico, surge a questão: o que buscamos como consequencia dessas relações? Acreditamos que, mediante essa rede, poderemos partir da

551

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

intuição à análise, a partir da noção de fluxo e construir uma compreensão acerca de uma estética do fluxo por meio da experienciação de obras de artemídia através de suas categorias constituintes. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

6.1. Bibliografia consultada para qualificação AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009. ARANTES, Priscila. @rte e mídia: perspectivas da estética digital. São Paulo: Editora Senac, 2005. ______. Tudo que é sólido se derrete: da estética da forma à estética do fluxo. In: ARANTES, Priscila. SANTAELLA, Lucia (orgs.). Estéticas tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: Educ, 2008, pp. 21-33. ______. Arte e mídia no Brasil. Perspectivas da estética digital. ARS (USP). São Paulo, vol.3 no.6, p.52-65, 2005. AZEVEDO, Francisco Ferreira dos Santos. Dicionário Analógico da língua portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010.

552

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo: Martins Fontes, 1997. BENTES, Ivana. Mídia-arte ou estéticas da comunicação e seus modelos teóricos. In: BRUNO, Fernanda; FATORELLI, Antonio (orgs.). Limiares da imagem: tecnologia e estética na cultura contemporânea. Rio de Janeiro: MauadX, 2006, pp. 91-108. BERGSON, Henri. Matéria e memória. Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes: 1999. ______. O pensamento e o movente. São Paulo: Martins Fontes: 2006. ______.Duração e simultaneidade. São Paulo: Martins Fontes: 2006. ______. A evolução criadora. São Paulo: Ed.UNESP: 2010. BRAGA, S.J.; PEREIRA, Isidro. Dicionário Grego-Português Português-Grego. 7 ed. Lisboa: Livraria Apostolado da Imprensa,1990. BRUNO, Giordano. A causa, o princípio e o Uno. São Paulo: Nova Stella Editorial: 1998. COSTA, Alexandre. Heraclito. Fragmentos Contextualizados. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda: 2005. CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4 ed. São Paulo: Lexikon, 2010.

553

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. São Paulo: Ed. 34, 1995. ______.Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 4. São Paulo: Ed. 34, 1997. DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. São Paulo: Editora 34, 1999. ______.A imagem-tempo. Cinema 2. São Paulo: Brasiliense, 2007. ______. A imagem-movimento. Cinema 1. 2 ed. Lisboa: Assírio & Alvim: 2009. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio. 5 ed. Curitiba: Editora Positivo, 2010. FLUSSER, Vilém. Língua e realidade. 3a ed., São Paulo: Annablume, 2007. ______. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008. GUADAGNINI, Silvia R. Gráfico Crononógico da arte e tecnologia no Brasil (1949 – 2007). Disponível em: Acessado em: 10/01/2013. HEGEL, G. W. Friedrich. Ciência da lógica (excertos). São Paulo: Barcarolla, 2011. HEIDEGGER, Martin. Heráclito. Rio de Janeiro: Relume Dumará: 1998.

554

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______.Caminhos na Floresta. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. ______. Ser e Tempo; tradução revisada e apresentação de Márcia Sá Cavalcante Schuback; pósfácio de Emmanuel Carneiro Leão. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 2008. HOUAISS, Antonio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva: 2009. ITAÚ CULTURAL. Enciclopédia Arte e Tecnologia. Disponível em: < http://www.cibercultura.org.br/tikiwiki/home.php> Acesso em: 10/01/2013. LAURENTIZ, Silvia. Imagem e (I)materialidade. In: DOMINGUES, Diana. VENTURELLI, Suzete (orgs.). Criação e poéticas digitais. Caxias do Sul: Educs, 2005, p. 87-96. LUCCHESI, Bárbara. Filosofia dionisíaca. Vir-a-ser em Nietzsche e Heráclito. Cadernos Nietzsche (USP), São Paulo, no. 1, p. 53-68, 1996. MACHADO, Arlindo. Máquina e Imaginário: O desafio das poéticas tecnológicas. 2 ed. São Paulo: EdUSP, 1996. ______. O quarto iconoclasmo e outros ensaios hereges. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2001. ______. Arte e mídia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010. MACIEL, Katia (org.). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009.

555

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 2005. MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 8 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. MORIN, Edgar, et al. O problema epistemológico da Complexidade. Mira-Sintra: Europa-América: 2002. NIETZSCHE, Friederich. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural 1999. ______. O nascimento da tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. ______.A filosofia na era trágica dos gregos. Porto Alegre: L&PM, 2012. OLIVEIRA, Jelson R. Nietzsche e o Heráclito que ri: solidão, alegria trágica e devir inocente. Veritas (PUC-RS), Porto Alegre, v. 55, no. 3, p. 217 – 235, 2010. PARENTE, André (org.). Imagem Máquina. A era das tecnologias do Virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. PLATÃO. Crátilo. Lisboa: Instituto Piaget, 2001. SANTAELLA, Lúcia. Por que as artes e as comunicações estão convergindo? 2a edição. São Paulo: Ed. Paulus, 2007. ______. A estética das linguagens liquidas. In: ARANTES, Priscila. SANTAELLA, Lucia (orgs.). Estéticas tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: Educ, 2008, pp. 35-53.

556

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

SARAIVA. F.R. dos Santos. Dicionário Latino-Português. Belo Horizonte: Garnier, 2006. SLOTERDIJK, Peter. Esferas I. Microsferología (Burbujas). 3ed. Madrid: Siruela, 2009. WEISZFLOG, Walter. Michaelis. Moderno Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: 2004.

6.2. Levantamento bibliográfico para prosseguimento da pesquisa ALLEN, Graham. Intertextuality. The new critical idiom. New York: Routledge, 2000. ARANTES, Priscila. SANTAELLA, Lucia (orgs.). Estéticas tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: Educ, 2008. ASCOTT, Roy. Telematic embrace: visionary theories of art, technology and consciousness. Los Angeles: University of California Press, 2003. BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008. BALL, Steven; CURTIS, David et al. Expanded Cinema. Art, Performance, Film. London: Tate, 2011. BELLOUR. Raymond. L’Entre Images. Photo. Cinéma. Vidéo. Paris: La Différence, 2002.

557

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

______. L’Entre Images 2. Mots, Images. Paris: P.O.L., 1999. BELLUZZO, Ana Maria; AMARAL, Aracy, A.; RESTAGNY, Pierre; PIGNATARI, Decio. Waldemar Cordeiro: uma aventura da razão. São Paulo: MAC – Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1986 BELTING. Hans. An Anthropology of Images. Picture, Medium, Body. Princeton: Princeton University Press: 2011. CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. São Paulo: Companhia das letras, 1990. CINTRÃO, Rejane; NASCIMENTO, Ana Paula. Grupo Ruptura. São Paulo: Cosac & Naify: 2002. COELHO, José Teixeira. Coleção Itaú Contemporâneo – Arte No Brasil 1981-2006. São Paulo: Itaú Cultural, 2007. ______. Itau Moderno – Arte No Brasil 1911-1980. São Paulo: Itaú Cultural, 2008. COSTA, Mario. L’estetica della comunicazione: cronologia e documenti. Salermo: Palladio, 1988. CRARY, Jonathan. The techniques of the observer. On Vision and Modernity in the 19th Century. Cambridge: MIT Press: 1990. DOMINGUES, Diana. A arte no século XXI. A humanização das tecnologias. São Paulo: Editora UNESP, 1997. DOMINGUES, Diana. VENTURELLI, Suzete (orgs.). Criação e poéticas digitais. Caxias do Sul: Educs, 2005.

558

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

GUADAGNINI, Silvia R. Imersão e Interação nas instalações interativas de três artistas brasileiros: Diana Domingues, Equipe Interdisciplinar SCIArts e Gilbertto Prado. 2007. 172 f. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Centro de Artes, Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2007. GUASQUE ARAUJO, Yara R.; GUADAGNINI, Silvia R. et al. Parâmetros para o entendimento das mídias emergentes e a formação de um público especializado no Brasil, 2007. Disponível em: . Acessado em: 10/01/2013. GRAU, Oliver. Virtual Art. From illusion to immersion. Cambridge: MIT Press: 2003. MANOVICH, Lev. The language of new media. Cambridge: MIT Press, 2001. MERLEAU-PONTY. Maurice. Fenomenologia da Percepção.4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011. ______. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 2009. NAUGRETTE, Catherine (org.). Qu’est-ce que le contemporain? Volume I. Paris: L’Harmattan, 2011. ______. Le contemporain en Scène. Volume II. Paris: L’Harmattan, 2011. OSORIO, Luiz Camillo. Abraham Palatnik. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

559

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

OSTHOFF, Simone. De musas a autoras: mulheres, arte e tecnologia no Brasil. ARS (São Paulo). São Paulo, vol.8 no.15, p.74-91, 2010. PARENTE, André. Cinema em Trânsito. Cinema, arte contemporânea e novas mídias. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2011. PARFAIT, Fraçoise. Video: un art contemporain. Paris: Regard, 2001. POPPER, Frank. From Technological to Virtual Art.Cambridge, Massachusetts, London, England: The MIT Press, 2007. RANCIÈRE. Jacques. Le destin des images. Paris: La fabrique, 2003. ROSE. Frank. The art of immersion. How the digital generation is remaking Hollywood, Madison Aenue and the way we tell stories. New York: W.W. Norton & Company: 2011. RUSH, Michael. New Media Art. London: Thames & Hudson, 2005. SLOTERDIJK, Peter. Esferas II. Macrosferología (Globos). 2ed. Madrid: Siturela, 2011. ______. Esferas III. Esferología Plural (Espumas). 2ed. Madrid: Siturela, 2009. SANTOS, Nara Cristina. História da Arte: contexto e entorno em arte e tecnologia no Brasil. In: XXIX Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte, 2009, Vitória. Anais

560

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

do XXIX Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte. Disponível em: < http://www.cbha.art.br/coloquios/2009/ coloquio_2009anais.html>. Acessado em 10/01/2013.

561

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

78 Por uma beleza ampliada: imaginário do feio no Brasil Verônica Guimarães Brandão

O primeiro registro estético feito sobre o povo brasileiro foi positivo (registro português/europeu). Primeiro estavam (os brasileiros) despidos, depois foram vestidos, tiveram os corpos domesticados/apropriados/modelados pela cultura. Etimologicamente, a palavra estética deriva das palavras gregas aisthesis, “sentimento”, e ica, “relativo à”; a definição seria então, atendendo as raízes: ciência relativa aos sentimentos. Ciência que trata do belo em geral e do sentimento que ele desperta em nós; beleza. O que desejamos é não ficar, apenas, em conceitos do “belo”. Intenta-se ir além do “belo/ beleza/bondade” em busca de uma estética bem brasileira, com foco na feiura. A beleza baseada na imagem e na simetria procurou ocultar seus elementos perturbadores e inquietantes (aspectos trágicos, feios, cômicos, a desmesura do sublime), mas acabou revelando-os de forma ainda mais essencial. Diferentes modelos de beleza coexistem em uma mesma época. A beleza atrai o olhar e deleita os sentidos. Para o filósofo e escritor espanhol Adolfo Sánchez Vázquez (1915-2011) temos a estética como ciência do belo:

562

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

As dificuldades desta definição derivam exatamente do lugar central que nela ocupa o belo. Fora dela resta o que não se encontra nas coisas belas: não só sua antítese o feio, mas também o trágico, o cômico, o grotesco, o monstruoso, o gracioso etc.; ou seja, tudo que, mesmo não sendo belo, não deixa de ser estético (1999, p.38).

Na obra “História da Feiúra” (2007), o feio é associado a valores negativos como a monstruosidade ou a maldade. Mas, Eco, em longa exposição, afirma que a feiura triunfou na contemporaneidade. E que, hoje, os limites entre o belo e o feio não são tão nítidos assim. É exatamente este limiar (ainda incerto e complexo) no movimento entre beleza e feiura no Brasil que este estudo pretende explorar. O imaginário do belo e do feio está intimamente ligado à história, literatura, artes e à mídia brasileira. Já em 1926, Mário de Andrade(1893-1945) está preocupado com a identidade nacional, tentando reconstruir um perfil do brasileiro que reunisse a superação da dicotomia feio-belo. No livro Macunaíma – O herói sem nenhum caráter, o personagem é descrito vindo do mundo mítico da selva amazônica. Da sua rede se ouve sempre o grito: “Ai! Que preguiça!...”. Sua virtude é andar pela vida sem nunca precisar trabalhar. Se ele se levanta uma vez, se deita imediatamente em cima de três meninas num bordel em São Paulo. Macunaíma é negro, preguiçoso e feio. “Um brasileiro bem brasileiro”. Identifica-se em Macunaíma o riso já ligado à estética da vida e à dinâmica de resistência. O riso e

563

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

o humor negro que está por trás da história da inquietante na cultura literária brasileira. Nos caminhos e descaminhos da história de formação do povo, desde o “descobrimento”, o imaginário que se construiu revela um discurso que parece “ensinar” a necessidade de superar a dicotomia belo-feio como condição de possibilidade de uma beleza ampliada. A mídia descobriu muito cedo a necessidade de estimular o grotesco e o deboche no mercado da atenção. O feio e o belo (e suas zonas de diálogos, incertezas e trocas) estão impregnados no imaginário muito antes dos programas televisivos patrocinarem a mudança de fisionomia. Os quadros e programas de mudança de aparência entraram com força na disputa da audiência do entretenimento televisivo. O grotesco1, para o jornalista Muniz Sodré e a escritora Raquel Paiva na obra “O Império do Grotesco” (2002), é o riso; a sexualidade, o horror, a crueldade, o nojo, a baixaria, a animalidade, o choque, a estética transgredida (foge as leis da natureza, desproporção). 1 Grotesco vem do latim grotto, do italiano grotta, que significa gruta, porão, pequena caverna, e foi aplicado em algumas pinturas antigas fora de toda regra, de todo o sentido comum, com figuras tanto ridículas como monstruosas. Imagens grotescas encontrada em construções abaixo do solo (fim do século XV), em criptas e cavernas antigas, especialmente no palácio romano de Nero (a Domus Aurea) e nas Termas de Tito em Roma. São imagens para ofender ou imitar a natureza de uma forma bizarra, e tornou-se sinônimo de ridículo, esquisito (ornamentos com formas de vegetais/caracóis) e extravagante. (SODRÉ; PAIVA, 2002), (ECO, 2007).

564

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O grotesco é assunto corrente em nossos estudos acadêmicos. O brega é estilo e a tragédia, assunto de todos os dias no noticiário. O deboche (escárnio, ironia, zombaria, excesso) como dissolução da identidade nacional. No país é visível a inversão de papéis. O barroco contemporâneo, o carnaval, as belezas naturais e a mistura étnica contribuem mundialmente com a erosão dos ideais clássicos de beleza. O feio assumiu o papel de protagonista pelas mãos do cômico, do grotesco e do deboche. Schiller, na obra “Sobre a Educação Estética do Homem”, afirma que “é pela beleza que se vai à liberdade” (1990, p. 26). Mas é pela feiura, o riso, o deboche ̶ armas de resistência ̶ que a busca da liberdade se torna um fato do cotidiano. O fait diver das ruas e esquinas. Não só no Brasil a beleza é um tema-força. Ela surge em horizontes disciplinares os mais díspares: etólogos, psicólogos, antropólogos e mitólogos destacam sua função social. Para estes, o homem é objeto de cultivo da própria imaginação. O pesquisador da PUC-SP, Norval Baitello Junior, aponta que “a possibilidade de construir-se, do refazer-se, do melhorar-se ou piorar-se, do embelezar-se ou enfeiar-se, constitui a ponte para a superação das amarras da realidade físico-biológica”, chamada de “Primeira Realidade” pelo semioticista Ivan Bystrina de (1997, p. 26). O tcheco Ivan Bystrina cita a “segunda realidade” como a realidade da qual faz parte o vestir, os gestos, as artes, as danças, os rituais, a literatura, os mitos, o morar e suas formas individuais e sociais, os hábitos (comer, beber, cumprimentar, relacionar-se), as religiões, os jogos e os brinquedos. “Segunda realidade”são os fenômenos que superam os limites

565

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

da natureza e o mais incontornável deles, a própria morte, oferecendo como soluções de nível simbólico textos imaginativos e criativos da cultura. A ideia de um sujeito estável, produto de uma mentalidade positivista, parece desmoronar ante a profusão de novos significados atribuídos por diversos lugares simbólicos partilhados por um mesmo sujeito. A própria ideia de nação é um bom exemplo de como o grupo de pertencimento por excelência padece do mesmo mal das instituições contemporâneas: a precariedade. A investigação dos “campos imaginários comuns” possibilita, por exemplo, a compreensão e o valor dado às curvas e cores no Brasil; os ícones da beleza sincrônica e diacronicamente associados; assim como explorar a dinâmica de gestualidade, o riso, o deboche e a gargalhada como fatores de resistência sociocultural; os afetos; os espaços sociais e a vida cotidiana, entendidos a partir do prisma da sedução, paixão, amizade, amor e a simpatia, a atração e a repulsão. Como eu, brasileiro, me narro esteticamente (filosófica e artisticamente)? Como a mídia, um meio mediador, narra o “brasileiro bem brasileiro” (lembrando Macunaíma)? O que é belo no Brasil? O que é feio no Brasil? Como tais conceitos são formados? Faz-se necessário perceber, interpretar as hibridações e os dialogismos da feiura; do grotesco, do escárnio (humor, riso, avacalhamento), do exótico, como forma de resistência e espírito lúdico do povo brasileiro na mídia nacional (e suas possíveis reverberações internacionais). O problema a ser enfrentado nesta pesquisa é o da complexidade da beleza

566

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

brasileira. Um problema do “complexo da beleza” no contemporâneo, implicando na inclusão do feio como parâmetro de análise estética. Em uma estrutura social o modelo estético é uma “opção cultural” em que os indivíduos que dela participam produzem e são produtos de classificações estéticas. Atualmente, a beleza brasileira tornou-se nosso melhor produto de venda, de marketing, de políticas do desejo. Os brasileiros foram definidos por processos culturais que definiram nosso processo estético. A investigação desses processos é aqui central. As representações da beleza e feiura no campo cultural, nos diversos setores do conhecimento (ciências da religião, mitologia, filosofia, história, antropologia, psicologia, arte, comunicação, vida cotidiana, entre outras) têm como pressuposto a ordenação de um conjunto de estratégias utilizadas para suscitar um determinado conjunto de efeitos nos seus receptores. Investigação estética (dos imaginários sociais, poéticas periféricas, afetos no da vida cotidiana, tendências e percursos do belo e do feio contemporâneo) da beleza brasileira. A questão da beleza é complexa no Brasil por que passa pelo imaginário (individual, grupal e social) do brasileiro. Percebendo o espaço acadêmico como meio de compreensão, constante reflexão sobre os processos, relações sociais e imaginárias, analisamos a importância desta pesquisa para um diálogo entre o audiovisual e a arte, que se dá justamente pela proposta de discussão teórica do imaginário, audiovisual, artes e estéticas com foco na beleza e no feio.

567

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A tentativa de uma pesquisa exploratória com observações e análise históricas sobre nossa beleza ampliada2 traz certa diversidade que produz complexidade. Não há unidade possível a esta diversidade a menos que seja compreendida dentro de uma noção de “Aberto” bachelardiano3. A necessidade de superação desta dicotomia deve-se a uma aposta (hipótese) importante em nossa investigação: a de que o Brasil expande a noção de beleza ao incluir/retrabalhar/adaptar o feio ao seu sistema de beleza, gestando-a como elemento de apreciação, deleite e até prazer estético. Há poucas pesquisas sistemáticas e estudos direcionados do percurso histórico que envolve contemporaneamente e conjuntamente a questão da estética, simbologia e a sociologia do belo e do feio no Brasil. A pouca bibliografia, geralmente muito localizada, e as poucas pesquisas de campo apontam para o imaginário (por vezes semelhante ao senso comum) da “diversidade”, sendo que este recorte, no sentido do belo não foi ainda devidamente elucidado mediante o percurso sistemático de pesquisa científica. 2 Aquilo que chamamos de beleza ampliada é a dilatação e a contaminação dos espaços do feio pelo belo e do belo pelo feio. É a dilatação das fronteiras definidoras e matemáticas da estética. 3 Para Bachelard, o discurso científico e o discurso poético devem dialogar, através de um espaço dinâmico e aberto da imaginação. Somente o imaginário pode preservar, reatualizar e exprimir as relações do futuro com o passado e com nossas imensas intimidades. Somos um organismo inacabado, inocupado, um organismo “aberto” (1978, p. 78).

568

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Como (e com que parâmetros) podemos entender o Brasil a partir do sensível, do feminino4, dos afetos, das interações belo-feio, enfim, do “complexo da beleza”, complexidade que vai do imaginário do brasileiro sobre a questão até a realidade de um país que é o segundo maior consumidor de cosmetologia do mundo? Qual a história, o imaginário, os mitos, a simbologia, as visões e aparições, assim como qual a produção, o consumo, a economia e a sociologia da beleza no Brasil, em sentido amplo, qual a “unidade múltipla” desta beleza? REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO ANDRADE, Mário. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Villa Rica Editoras Reunidas, 1993. BACHELARD, Gaston. A filosofia do não; O novo espírito científico; A poética do espaço. Seleção de textos de José Américo Motta Pessanha; Traduções Joaquim José Moura Ramos et al. São Paulo: Abril Cultural, 1978. BAITELLO, Norval. O animal que parou os relógios. São Paulo: Annablume, 1997. ECO, Umberto. História da Beleza. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2004. 4 Do arquétipo feminino entendido como uma leitura que se aproxima do sensível como não meramente inteligível associado historicamente ao masculino.

569

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

____________. História da feiúra. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2007. HALL, Stuart. A identidade cultural da pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. SCHILLER, Friedrich. Sobre a educação estética do homem. São Paulo: Iluminuras, 1990. SODRÉ, Muniz; PAIVA, Raquel. O império do Grotesco. Rio de Janeiro: MAUAD, 2002. VÁSQUEZ, Sánchez, Adolfo. Convite à estética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO CONSULTADO AZEVEDO, Thales. Os brasileiros: estudo de caráter nacional. Salvador: Centro Editorial e Didático da Universidade Federal da Bahia, 1981. BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução de Maria Ermanita Galvão G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1997. BODEI, Remo. As formas da Beleza. Tradução de Antonio Angonese. São Paulo: EDUSC, 2005. BOSI, Alfredo. Cultura Nacional: temas e situações. São Paulo: Ática, 1987.

570

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Tradução de Guy Reynaud. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. CHAUÍ, Marilena. Conformismo e Resistência: Aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987. HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime. São Paulo: Perspectiva, 2010. DAMATTA, Roberto. O que faz o Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1993. DUAILIBI, Roberto; PECHLIVANIS, Marina (Org.). Duailibi essencial: minidicionário com mais de 4.500 frases essenciais. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução a arquetipologia. Tradução de Hélder Godinho. São Paulo: Martins Fontes, 2002. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996. FLUSSER, Vilém. Fenomenologia do Brasileiro. Rio de Janeiro: Eduerj. 1998. FREIRE, Gilberto. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime patriarcal. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 2008.

571

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

GOMES, Roberto. Crítica da Razão Tupiniquim. São Paulo: FTD, 1994. JORGE, Ana Maria Guimarães. Introdução à percepção: entre sentidos e o conhecimento. São Paulo: Paulus, 2011. KAY, Patrícia. Metodologia de pesquisa em comunicação. São Paulo: abreOlho, 2001. KUJAWSKI, Gilberto de Mello. Idéia do Brasil: a arquitetura imperfeita. São Paulo: SENAC, 2001. MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: MARTINS, Francisco Menezes; SILVA, Juremir Machado (Org.). Para navegar no século XXI. Porto Alegre: Sulina/ EDIPUCRS, 2003. PRANDI, Reginaldo. Herdeiras do Axé. São Paulo: Hucitec, 1996.

572

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

78a Comunicação e corpo: o caso da beleza brasileira Liv Sovik

Antecedentes O discurso identitário brasileiro produzido nos meios de comunicação, principalmente na música popular, é a formação discursiva que venho explorando há quase duas décadas. Na tese de doutorado, busquei entender a qualidade pós-moderna de um país “periférico” através da examinação dos sentidos do tropicalismo e suas implicações para a teoria de um pós-moderno brasileiro. Depois, veio o foco no debate público intelectualizado em que se discutia a globalização às custas do pós-moderno, na segunda metade dos anos 90. Durante os anos 2000 a 2008, as figurações de relações raciais em diversas obras da música popular e também na imprensa e na TV foram o foco, na busca de entender a valorização de ser branco em um país declaradamente mestiço. Estas reflexões acabaram constituindo um livro, Aqui ninguém é branco, que saiu nos últimos dias de 2009. Uma pesquisa em figurações brasileiras do corpo brasileiro como emblema da nacionalidade começou em 2008. De certa forma é a continuação lógica do trabalho anterior: depois de um livro sobre identidades raciais que também eram de gênero

573

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

vem um interesse pela questão de gênero, marcada por racialidades. A questão da pesquisa era sobre como o Brasil se “vende” no exterior a partir da “sensualidade” ou da qualidade sexy ou “tchan” de sua população, sobretudo as mulheres, e como, ao mesmo tempo, há uma tradição brasileira, presente nos meios de comunicação, de mulheres independentes que não falam sobre sua condição: Chiquinha Gonzaga, Pagu, Carmen Miranda. Quanto ao estereótipo, ele é sustentado por um número grande de “comprovações”, é sobredeterminado (Gilman, 1989). Uma das principais determinações é a da identidade étnicorracial da população brasileira: são negros e negro-mestiços, sobretudo negras e negro-mestiças, que são dotadas, no imaginário mundial, de uma maior liberdade corporal e de uma sensualidade que chega a ser considerada excessiva, mas que também uma vantagem, no momento em que brasileiras e brasileiros se comparam com as populações do hemisfério norte. Um dos objetivos da pesquisa sobre “raça” na cultura contemporânea era de elaborar uma intervenção no debate sobre raça, na academia e entre intelectuais fora dela. Logo depois de adotar “gênero” como a próxima temática, também me dei conta da impermeabilidade do espaço público ao discurso crítico aos estereótipos femininos. Onde a crítica que fazia aos discursos raciais parecia ainda revelar algo novo (a presença do branco e suas implicações para entender a formação de hierarquias raciais), os papéis de gênero parecem primais, não há espaço onde não são naturalizados. Assim, pelo menos, dá para explicar a resistência enorme à crítica, fora da acade-

574

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mia e também em grande parte dela. Desmontar estereótipos da brasileira gostosa e do capoeirista ou jogador de futebol cuja inteligência reside no próprio corpo, então, logo se esgotou como tática que pudesse render algo novo. Daí, tomou a dianteira a exploração de Chiquinha e também Chica da Silva, uma espécie de tela sobre a qual se projetam diversas versões da feminilidade brasileira. Mas isso chegou a um limite também. Abordando a questão de outra maneira, podemos afirmar que a época é pós-identitária. Isso não significa que os discursos identitários não tenham mais impacto político (viz. o nacionalismo extremado do Tea Party ou a violência anti-gay na Avenida Paulista), mas sua análise crítica não parece fazer impacto sobre o debate público. Quando Angela Merkel declarou que o ideal multikulti fracassara na Alemanha no mesmo discurso em que afirmou que o islã já fazia parte da Alemanha contemporânea, expressava essa paradoxal convivência entre as diferenças culturais e a falta de interesse intrínseca das identidades. Uma década antes de Merkel, em Refashioning Futures (1999), David Scott propôs que a demanda da crítica já não era a descolonização do presente, como era na esteira de Orientalismo, de Edward Said, e seguidores. Na sua proposta de uma “crítica estratégica” que alargasse as possibilidades no presente, disse, o que está em jogo não é a afirmação (ou ressurreição) da humanidade do colonizado. O que está em jogo não é se o colonizado acomodou ou resistiu. O que está em jogo, sim, é como o poder (colonial) alterou o terreno em

575

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

que a acomodação/resistência foi possível para começar. (Scott, 1999: 16)

Assim, este projeto quer passar além da análise dos lugares ocupados pelo equivalente, no Brasil, do colonizador, dos prejuízos, lucros e tramas do menosprezo do negro e da mulher. A intenção é virar-se para o que resta uma vez desfeitas essas tramas, uma vez que a dinâmica de desejo e rejeição simultâneos (ver Bhabha, 1994) que produz e reproduz o estereótipo é colocada de lado. Voltando à pergunta que sustenta todas as pesquisas que fiz desde o doutorado, o que resta da diferença cultural? O foco da nova pesquisa é no corpo, pois é ele que carrega e estrapola o estereótipo. O objetivo geral desta pesquisa é, então, de entender a força comunicativa e epistemológica do corpo, através do desenvolvimento de uma análise da beleza brasileira para além de sua história na colonização, na escravidão, na modernização periférica e no patriarcado. O objeto O corpo como local do conhecimento vem sendo tema de pesquisas em outra subarea, a de tecnologias de comunicação, e foi motivo de uma matéria jornalística recente, intitulada “O meu presente é meu corpo”. Aqui, trata-se de uma nova sensibilidade política, brasileira e mundial, de acordo com um pesquisador de tecnologias digitais em relação a problemas ambientais:

576

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Parece claro que as formas de protestos e atuação contemporâneas têm um horizonte mais imediato e menos político e ideológico. Este mecanismo traz uma maior atenção do que é próximo, do que é físico, corporal, ligado ao presente. [...] Afinal, o meu presente é o meu corpo. O social deixa de buscar utopias astrais, deixa de buscar a sociedade perfeita e uma justiça absoluta para se tornar um tipo social mais próximo das exigências corporais. (Di Filice apud Torres, 2013)

As novas discussões do corpo como local da política presumem, elidem e não prestam atenção ao que nos interessa aqui: o corpo como fato cultural. Cada corpo guarda um tipo de conhecimento que se mostra na sexualidade, na dança, no esporte. Fazer amizade pode ter também um componente corporal, pois parece que a convivência produz afetos e conhecimento mútuos. Isso é tema de muitos filmes em que se observa o encontro de casais e outras duplas incongruentes – em Gran Torino (2008) de Clint Eastwood ou Whatever Works (2009) de Woody Allen, por exemplo. Outro tipo de acúmulo de conhecimento corporal se faz presente na experiência subjetiva de mudar-se de uma cultura a outra: ao viajar de avião do Rio de Janeiro para a Bahia, ou de um país a outro, por exemplo, quem viveu em ambos pode sentir a transformação da postura, maneira de falar e de se relacionar em cada um dos lugares. O encaixe rápido e fácil é do corpo e é quase involuntário. Prova mais uma vez da diferença epistemo-

577

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

lógica entre ler a respeito e estar em um local, diferença sobre a qual sabemos muito pouco, na nossa área. O que podemos dizer, em ambos os casos, na convivência humana e geográfica, é que o conhecimento parece ser físico, prático. Questões de abordagem A bibliografia a ser acionada nesta pesquisa ainda está sendo definida. Começa com Nietzsche e a filosofia (1962/1985), de Gilles Deleuze, que traz uma discussão do corpo como produto (nega a pre-existencia do corpo como campo) do embate entre forças dominantes e dominados, ativos e reativos, em busca de uma hierarquia. Outros autores tratam o corpo como coisa. Barbara Johnson (2008) cita, nesse sentido, Heidegger e Freud, enquanto elabora uma teoria da retórica, do desejo e da materialidade das coisas tratadas como pessoas, na literatura e na cultura contemporânea. Existe também um acervo teórico ligado à arte e particularmente à dança. Escreve André Lepecki, “é um fenômeno curioso e under-theorized que, na última década, a dança tem se tornado um referente crucial para pensar, fazer e curar a arte visual e de performance” (2012). Os teóricos da dança como imagem do corpo formam outro acervo para pensar a que o belo corpo brasileiro está atrelado, qual seu significado para além de sua história na colonização, na escravidão e no patriarcado. O projeto se inicia agora, com dois trabalhos a ser apresentados em congressos:

578

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

“Caetano Veloso’s Recanto, conjunctural analysis and bodies that sing” Until the demonstrations in the streets of Brazil’s major cities, in June 2013, there seemed to be little popular resistance to official discourse on Brazilian economic and social development, its dynamism and success in redistributing income, its positive results overall. One harbinger of the current, more critical ethos is singer-songwriter Caetano Veloso. Ever tuned to the zeitgeist, his compositions for Gal Costa’s 2011 disc, Recanto, provide both a multifaceted retrospective and contemporary view of his and Gal’s lives and a reaction to, perhaps an analysis of, current cultural and social trends. This paper, part of a research project on the body as both a stereotype of nationality and communicative value in Brazilian social life, starts from Deleuze’s reading of Nietzsche by which the body is constituted by active and reactive forces in relations of tension that form a hierarchy, and in which the dominant or “active” forces are not available to consciousness. Recanto is read, then, as a series of references to the forces that constitute the Brazilian body, sometimes particularized by biography, others understood as generic. The aim and expected result is to answer questions about the current conjuncture and examine Caetano’s apprehension of the body as Brazilian self. “Pornochanchada versus o cinema erótico escandinavo: uma investigação da singularidade corpórea”

579

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A promoção da mulher sexy brasileira enquanto menina dourada de biquini ou mulata de lantejoulos, vistas por um olhar implicitamente masculina, causa uma certa fadiga de parte de observadores críticos – gera mais indiferença do que impulso analítico. Por outro lado, algo da singularidade cultural brasileira permanece depois que as determinações coloniais e patriarcais foram retiradas do estereótipo. Esse resto é, às vezes, identificável na vida cotidiana, marcada por hábitos, gestos e movimentos, pela presença corporal. Talvez algo novo possa ser dito sobre a singularidade cultural brasileira a partir do conceito do corpo que Deleuze elogia em Nietzsche: o corpo constituído por uma relação entre forças dominantes e dominadas. Este trabalho examina o corpo feminino brasileiro e as forças que o constituem no pornochanchada e, como ponto de comparação, os corpos de mulheres no cinema erótico escandinavo dos anos 70 e 80. O que significa ser sexy, em cada um dos casos? Em que a pesquisa pode renovar o olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la? Será a primeira vez, que eu saiba, que o impasse teórico-político do esgotamento da análise do estereótipo, que é do campo da política cultural (cultural politics), e a preocupação com o corpo como arquivo e presença se juntam em uma pesquisa em Comunicação. Essa junção é de uma concepção de Comunicação como algo imediato, presencial, estético como

580

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

outra, do acúmulo de imagens e repertórios que lemos, quando apreendemos o corpo do outro.

REFERÊNCIAS Bhabha, Homi. The Location of Culture. London: Routledge, 1994. Deleuze, Gilles. Nietzsche and Philosophy. New York: Columbia University Press, 1983 (1962). Gilman, Sander. Difference and Pathology. Ithaca: Cornell, 1985. Johnson, Barbara. Persons & Things. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2008. Lepecki, André (org). Dance. London: Whitechapel Gallery/ Cambridge, MA: MIT Press, 2012. Scott, David. Refashioning Futures: Criticism after postcoloniality. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1999. Torres, Bolívar. “O meu presente é o meu corpo”: A urgência do presente pode ser uma grande aliada na luta por um mundo sustentável. O Globo, caderno “Amanhã”, 9/07/2013. Disponível em: http://oglobo.globo.com/amanha/o-meu-presente-o-meu-corpo-8970846. Acessado em 13/08/2013.

581

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

79 Consumo cultural e expressões de subjetividade nas paisagens da cidade midiatizada Josimey Costa da Silva

Resumo expandido O corpo e seu modo de perceber o mundo, na perspectiva de Maurice Merleau-Ponty, são base da aproximação desta investigação sobre o ser que habita a cidade midiatizada. Segundo o princípio da recursividade, basilar na epistemologia complexa de Edgar Morin, a pregnância da esfera simbólica se reflete nesse corpo representado midiaticamente e que se representa por si mesmo na paisagem urbana. A função constitutiva do simbolismo é inspirada por Ernst Cassirer e Harry Pross, assim como os conceitos de mediapaisagem e bodyscape são inspirados nas formulações de Arjun Appadurai e Massimo Canevacci. Michel de Certeau contribui com a discussão sobre lugar e espaço. Milton Santos, por seu turno, argumenta que a cidade representa a acumulação desigual de tempos e sistemas diferentes, que fazem do lugar o resultado de ações multilaterais, conforme Milton Santos. A experiência urbana é, portanto, a da multiplicidade de estímulos e a da profusão das imagens, da extrema proximidade física e da maior distância psíquica, da velocidade e da simultaneidade, o que é discutido

582

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

com base em Georg Simmel, Walter Benjamin, James Hilmann e Rose de Melo Rocha. O pressuposto da pesquisa é a existência e as interrelações de subjetividades que alteram a paisagem da cidade, que por sua vez penetra nas subjetividades de seus habitantes, conferindo-lhes modos de ser peculiares a uma territorialidade ao mesmo tempo física e simbólica. O território da cidade são seus símbolos e nele a uma cidade local e arcaica subsiste juntamente com uma cidade universal e contemporânea perceptíveis na comunicação urbana, no aparato midiático e nas expressões dos corpos que produzem e consomem os bens simbólicos da cidade. Buscam-se os símbolos da cidade e as expressões de seus habitantes nas as imagens das ruas (edifícios, ocupação das calçadas, outdoors, letreiros, fachadas comerciais, cartazes, faixas de propaganda, intervenções gráficas nas edificações, mídias alternativas da comunicação urbana, trânsito de veículos, resíduos sólidos abandonados, lixo, ruídos, odores) e nas imagens dos seres (movimento e apresentação dos corpos, vestuário, modas, atitudes de convivência, afetações mútuas, expressão das emoções, falas, música e outros elementos a serem observados e que sejam constitutivos dos hábitos urbanos de consumo e fruição simbólicos nas ruas da cidade. O consumo é outra noção central da abordagem. Com o apoio das propostas teóricas de Lévi-Strauss, Mike Featherstone, Néstor García Canclini, é possível delinear uma cidade que se realiza por meio de trocas incessantes, que são materiais e simbólicas: o consumo, o comércio, a circulação de pessoas

583

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

que oferecem e adquirem mercadorias de todos os tipos e os diferentes modos como fazem tudo isso representam espaços vitais para a convivência urbana. As trocas em grupos sociais, segundo Lévi-Strauss, têm função simbólica. Isso implica em considerar um som, um gesto, um ser, não apenas por si mesmo, mas como símbolo de outra coisa, como linguagem e como comunicação. As relações e as trocas, sejam elas matrimoniais ou econômicas, são parte integrante de um sistema maior de troca e de reciprocidade, e podem ser estudados do ponto de vista linguístico e comunicacional, pois constituem um princípio de ordenação que implica em circulação de bens econômicos e de mensagens entre os grupos. Na sociedade contemporânea de massa, a mediação tecnológica da comunicação social é grandemente enfatizada. Livros, jornais, filmes, revistas, novelas de televisão são formas de transmissão de informação, que resultam dos mecanismos e procedimentos culturais de textualização. Os sistemas comunicativos têm sempre a função ordenadora dentro das sociedades porque, através deles, os símbolos regram as relações entre membros de um mesmo grupo por intermédio do estabelecimento de significados e valores compartilhados através das convenções e, portanto, ordenam, tecem redes de sociabilidade. Estabelecer uma relação é criar um vínculo, construir um sentido, o que só se faz com o circuito completo: emissão, veículo, recepção, sem esquecer código, mensagem, contexto e ruído. Os textos culturais em seu conjunto constituem a cultura de uma sociedade e se relacionam num encadeamento de

584

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

signos, ao qual se incorpora a temporalidade. Esses textos são construídos nas singularidades individuais tanto quanto no todo social. Por isso, a comunicação midiática é muito mais do que o aparato tecnológico; torna-se um espaço socioeconômico e cultural, uma dimensão da sociabilidade contemporânea, em que as relações entre os indivíduos se pautam por uma sensibilidade profundamente alterada pela mediação técnica, por um espaço que é simultaneamente reduzido (distância eliminadas no processo de comunicação) e ampliado (raio de abrangência do contato midiático com outras culturas geograficamente distantes) e por um tempo que é expandido tecnicamente. Edgar Morin, ao discutir as referências mais primordiais para a constituição do ser humano, ajusta o foco sobre o imprinting cultural, que se inscreve cerebralmente desde a infância pela estabilização seletiva das sinapses, manifestando os seus efeitos mesmo nas percepções visuais (MORIN, 1998). Em suas cidades, os cidadãos constroem discursos de toda a ordem que reproduzem a cidade não como ela é, mas como a percebem e representam. Isso ocorre porque os imprintings culturais estão na base das representações. Embora estas se situem para além do verificável, são um olhar legítimo da sociedade sobre si, ultrapassando os sentidos de verdade e falsidade. Além disso, manifestam o sentido do conjunto de questões cruciais para uma abordagem sistemática. (Silva, 1996, p.15). Norval Baitello Jr. (1997) considera que a construção de um texto qualquer seleciona não somente a perspectiva através da qual um acontecimento é visto, mas seleciona o próprio acontecimento enquanto fragmento perceptível dentro

585

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

de um fluxo. As imagens da paisagem urbana constroem a cidade para quem a vê e para quem vive nela. Como esclarece Deleuze sobre o cinema, e que pode ser aplicado para as imagens vividas na cidade, “a imagem torna-se pensamento, capaz de apreender os mecanismos do pensamento” (DELEUZE, 1992, p.76-95). Cada uma das imagens escritas, gravadas, faladas, materializadas sob todas as formas pelos cidadãos, é a cidade, à maneira do que ocorre com os fractais. Hologramaticamente, a cidade é o todo, que é mais que a soma das partes, mas cujas partes contêm, em si, também o todo. Os menores detalhes do contexto urbano vivido por seus habitantes são fonte material de produção e comunicação de criações alegóricas, que significam uma coisa na palavra e outra no sentido1. A comunicação de massa, por sua vez contexto determinante da cultura citadina, está na mente de quem a vive, bem como é reconstruída por essa mente. Deleuze descobre, na imagem, um tempo que é a coexistência de todos os níveis de duração; daí, que “... o imaginário não se ultrapassa em direção a um significante, mas em direção a uma apresentação do tempo puro” (DELEUZE, 1992, p.85). O real, que me impressiona, também pode ser lido como um texto. Objetos, antes secundários, tornam-se significativos. O novo se entrelaça necessariamente com o velho; a cidade não conta, mas contém o seu passado. Importa o significado, mas também o significante (a forma). Os olhos não vêem coisas, mas figuras de coisas que significam outra coisa, e estão 1 Sobre isso, v. CANEVACCI (1993).

586

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

incorporados às coisas mesmas (DELEUZE, 1992, p.57). Assim, os textos culturais que, em seu conjunto, constituem a cultura da cidade, se relacionam num encadeamento de signos, ao qual se incorpora a categoria “temporalidade” (Baitello jr., 1997, p.28-41). Esses textos são construídos nas singularidades individuais tanto quanto no todo social. A construção das significações é parte da rede simbólica que constitui a vida e as coisas. A simbolização se dá a nível do imaginário humano. É nesse patamar, o do imaginário, que tentam intervir os mídias e a indústria cultural. Assim podem ser vistas as muitas cidades reunidas sob o nome Natal. A cidade de todos os dias e de cada dia é uma cidade comunicativa, está em todo lugar, no espaço, no comportamento dos indivíduos e no seu modo de ser e agir. Hologromaticamente, no sentido a que se refere Morin (1998), o indivíduo e a cidade estão em constante transformação, em constante metamorfose. Organismos vivos, ambos informam, emitem sinais e símbolos. Esta simbiose produz a comunicação urbana. A comunicação é compreendida neste estudo como um processo, um acontecimento, um entendimento, um estar em relação, um tornar comum, segundo a etimologia da palavra comunicação. Comunicação não se confunde com sinalização nem com informação, pois na natureza e na sociedade tudo sinaliza. Animais, seres humanos, acontecimentos, sensações. Qualquer coisa ao redor do individuo sinaliza algo, que podem ou não ser convertidos em componentes do processo comunicacional. Essa sinalização pode tornar-se uma informação ou comunicação.

587

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A cidade é o locus da comunicação, do coletivo de imagens midiáticas que dominam a paisagem urbana. A comunicação urbana surge aqui como premissa para o desvelamento da urbe. Nesse desvelar, a mídia, o corpo e as imagens apontam para uma paisagem urbana em constante transformação. Em Natal, os imprintings se revelam nas imagens da comunicação urbana e nas pessoas que transitam por suas ruas, mostrando em seus corpos a face visível desses imprintings Na cidade, o corpo que se estende para além da pele dos indivíduos. As imagens na/da cidade em conjunto com os indivíduos compõe a dupla hélice de DNA que forma o corpo urbano. Um corpo que flutua entre os interstícios2 da metrópole comunicacional, dando-se a ver como um bodyscape3. De acordo com Massimo Canevacci, o sufixo –scape se junta ao prefixo body para acentuar um conceito flutuante de corpo, que estende à observação alheia e própria enquanto panorama visual repleto de signos. O corpo do sujeito se entrelaça em tais panoramas intersticiais criando novos sistemas percep2 De acordo com Massimo Canevacci: “Os interstícios são zonas que estão entre (in-between) áreas mais ou menos conhecidas, onde se inserem como parasitas freqüentemente temporários. Eles se localizam nos limites incertos entre diversos quarteirões, entre velhos cruzamentos abandonados pelas novas redes viárias, ou ainda no interior dos quarteirões que se acredita conhecer muito bem e que, ao contrário, mantêm alguns nichos deslocados.” (CANEVACCI, 2008, p. 33). 3 Segundo Massimo Canevacci (2008), o bodyscape é um corpo panorâmico, além da pele, que flutua entre os interstícios da metrópole comunicacional. Corpo-espaçado.

588

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tivos, novas sensorialidades, descobrindo as zonas mortas entre o que é percebido ou, de todo modo, já visto e o que está brotando. Fala-se de um corpo que não é somente natural porque, em cada cultura e em cada indivíduo, o corpo é constantemente preenchido por sinais e símbolos. A pele não é o seu limite: ela se liga aos tecidos ‘orgânicos’ da metrópole. O corpo expandido em edifícios, coisas-objetos-mercadorias, imagens, um corpo-panorama. (CANEVACCI, 2008). A comunicação urbana, sob esta, é composta de imagens midiáticas disseminadas pela cidade que podem ser visualizadas como extensão do corpo natural, em que o sujeito se enxerga na imagem e a imagem se reflete no sujeito. O corpo se funde na mediapaisagem, noção tomada de empréstimo à Appadurai (2004). Segundo o autor, é possível pensar paisagens para além do ambiente físico, assim como é possível juntar mídia e migração, globalização e circulação infinita e permanente de imagens. As noções de identidade, localidade e imaginação estão alteradas na sociedade contemporânea; o movimento simultâneo de imagens e corpos criou identidades híbridas, à maneira de Canclíni (2008), localidades em mutação e imaginários sem referentes territoriais rígidos. Para Norval Baitello Jr. (2005), há uma multiplicação desordenada de imagens no ambiente urbano por causa da rarefação de sua capacidade de apelo imagens. Se assim é, essa imagens se articulam umas às outras, formando um continuum comunicativo criador do ambiente comunicacional. Muitas vezes, as imagens remetem a outras imagens, esvaziadas de um enraizamento cultural mais peculiar, tornando-se passíveis de

589

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

manipulação devoradora de singularidades. Simultaneamente, as imagens se vinculam ao que há de mais arcaico e estruturante no ser individual e social, que é o imaginário. Imagens que se vinculam a corpos, que se vinculam a cidades, que se vinculam a imagens compondo a paisagem urbano-midiática. O ciclo é continuo e recursivo. O bodyscape e as mediapaisagem passam a ser operadores conceituais fundamentais para compreender a comunicação metropolitana. Palavras-chave: Cidade . Corpo. Comunicação. Consumo. Subjetividades.

Contribuição à pesquisa e teoria da comunicação A cidade assim vista reivindica uma cartografia transdisciplinar, capaz de promover um processo cognitivo que permita a rearticulação de visões de mundo numa nova direção, pois não se olha a paisagem e o ser de forma fragmentada; cada um só pode existir na realimentação do outro. A mídia em expansão e seu alto consumo auxiliam a construção da subjetividade na cidade; essa ecologia comunicacional, conforme Vicente Romano, com sua hipersensibilização de alguns sentidos e anestesia de outros, cria uma noosfera específica, que por sua vez recria o sujeito. Assume-se, reiteradamente, o pressuposto de que a comunicação midiática produz imagens em profusão, que configuram paisagens no cenário da convivência urbana entre diversos indivíduos e segmentos sociais. Essas imagens se articulam umas

590

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

às outras, formando um continuum comunicativo criador de um ambiente comunicacional. Muitas vezes, as imagens remetem a outras imagens, esvaziadas de um enraizamento cultural mais peculiar, tornando-se passíveis de manipulação devoradora de singularidades. Simultaneamente, as imagens se vinculam ao que há de mais arcaico e estruturante no ser individual e social, que é o imaginário. Que paisagens midiáticas são constituídas a partir das várias formas de comunicação midiática urbana? E que paisagens psíquicas, constituídas de imagens endógenas, são formadas a partir das imagens exógenas veiculadas pela mídia da comunicação social urbana?

591

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

80 A Tessitura da Cidade que se Entretece: Comunicação Urbana e Expressões Subjetivas na Produção e no Consumo Simbólicos em Natal-RN Patrícia de Carvalho Silva Josimey Costa da Silva Resumo Este artigo é produto de trabalho de campo e leituras concernentes ao projeto de pesquisa MÍDIA, CORPO E CIDADE: Comunicação urbana e expressões subjetivas na produção e no consumo simbólicos em Natal-RN1. Sob esse aspecto tem como objetivo pensar e analisar a cidade como espaço de convivências, em que o massivo, o popular e o sofisticado de alguma forma dialogam e representam o passado materializado no patrimônio histórico imaterial, configurando importante referência da relação orgânica entre passado, presente e futuro, a qual precisa ser repensada e questionada a partir da dinâmica social do espaço e de suas disposições, marcos, representações e possibilidades. Como metodologias foram utilizadas a pesquisa de campo e a observação participante, 1 O projeto de pesquisa “MÍDIA, CORPO E CIDADE: Comunicação urbana e expressões subjetivas na produção e no consumo simbólicos em Natal-RN teve trabalho de campo nos seguintes bairros da cidade do Natal-RN: Alecrim, Capim Macio e Petrópolis. Neste artigo, especificamente, será tratada a pesquisa de campo em Capim Macio.

592

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tendo como principal referência bibliográfica o autor Massimo Canevacci2. Palavras-chave: cidade; comunicação; consumo; espaço; mídia. Paris muda, mas nada em minha melancolia mudou: palácios novos, massas, velhos subúrbios, cenários, tudo se transforma para mim em alegoria, e mais que rochas gravam as lembranças mais caras. (Massimo Canevacci)

Assim, a cidade se constitui, com seus monumentos, suas praças, sua história, com sua população, com suas pessoas e com essas pessoas dentro da cidade. Pessoas que correm, que vivem suas ilusões, suas decepções, suas morosidades, suas angústias, alegrias e tristezas. Perto delas, somos também pessoas. Nos reconhecemos ou não, nos falamos, nos tocamos ou não e continuamos pessoas. Dividimos o consciente coletivo 2 Livro fundamental utilizado neste projeto de pesquisa. CANEVACCI, Massimo. A cidade polifônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana. Tradução: Cecília Prada. ­– 2ª ed. – São Paulo: Studio Nobel, 1997. – (Cidade Aberta).

593

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

em uma sala de cinema e, ao mesmo tempo, somos pessoas. Individuais e únicas. Mas também inseridas no todo, que se constituem em suas partes e em sua totalidade. Assim, como na epígrafe, a melancolia é única. É a melancolia do indivíduo. Cada ser carrega consigo a sua e guarda as memórias individuais de acordo com os fatos que por algum motivo lhe chamaram atenção e lhe lembram de acontecimentos públicos. Mas a história também é dos espaços, que também guardam, igualmente, em si, histórias e segredos, em suas construções, cenários e velhos subúrbios que se transformam em alegoria e mais que rochas gravam as lembranças mais caras. Desta forma, a ideia do projeto de pesquisa intitulado MÍDIA, CORPO E CIDADE: Comunicação urbana e expressões subjetivas na produção e no consumo simbólicos em Natal-RN teve como objetivo observar a cotidianidade, a expressividade de alguns bairros da cidade do Natal-RN, bem como seus marcos, seus fluxos, suas dimensionalidades3 e suas pessoas. Assim, procurou-se observar as paisagens humanas e não-humanas. As paisagens das construções e das convivências, em trechos4 localizados na Avenida Engenheiro Roberto 3 Os trechos a serem observados durante pesquisa de campo do projeto de pesquisa mencionado foram previamente determinados em reunião do grupo de pesquisa Marginália, coordenado pela Prof. Dra. Josimey Costa. Os trechos foram escolhidos mediante conhecimento prévio dos integrantes do grupo sobre os fluxos nos locais a serem observados. 4 No meu caso, durante o período em que estive no projeto de pesquisa, a observação se deu somente no bairro de Capim Macio.

594

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Freire. Esta Avenida é de considerável importância na cidade do Natal-RN, dando acesso aos bairros de Capim Macio e Ponta Negra, bem como a outros espaços e vias da cidade do Natal-RN. É por ela que se chega à Ayrton Senna, à BR, à praias, ao centro da cidade, aos bares, às petiscarias, supermercados e shoppings. Nesta Avenida estão localizados três supermercados: Nordestão, Hiper Bompreço, Favorito; uma universidade: a Universidade Potiguar Laureate Universities; faculdades: a Maurício de Nassau e a Fatern5. Também nela está localizada o Praia Shopping, além de um shopping de artesanato. Esta Avenida é também de conhecido e considerável movimento, de transeuntes que chegam e saem. De carros que vão e que vem e que em suas idas e vindas, comunicam. Observando esses trechos da Avenida, parando para observá-los, vê-se que: “Cada detalhe mínimo do contexto urbano não é mais só ele mesmo: ele se agita como fonte material que produz e difunde –­­­ comunica – criações alegóricas, em busca de outros significados” (CANEVACCI, 1997, p. 100). E essa disposição da cidade produz novas formas de pensar e de agir, além de novas vias de comunicabilidade(s). Para os senhores, acostumados à Natal antiga, o espaço do supermercado, na Avenida Engenheiro Roberto Freire, passou a ser um novo espaço de encontro com amigos de mesma idade, ou mesmo espaço para novas amizades. De chapéus, de camisas de pano, eles se cumprimentam, pois já se conhecem, posto que costumeiramente estão ali, senão cotidianamente, pelo menos algumas vezes por semana, aos fins de tarde. Depois 5 Universidade Estácio de Sá.

595

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

dos saudosos encontros na Ribeira, bairro histórico e boêmio da cidade do Natal-RN, esses senhores migraram, com a descentralização do bairro (da Ribeira) ou da mudança de endereço dessas pessoas, ou de seus filhos para outros lugares da cidade, o espaço do café da tarde, badalado e comentado, passou a acontecer neste supermercado da Avenida. É lá que entre um gole e outro do líquido preto, se conhece e se reconhece. A si e ao outro. A conversa pode girar em torno da política, da economia, dos assuntos que foram manchetes em jornais no dia anterior. Os senhores se (re) encontram nesses espaços. Estes espaços, por sua vez, produz(em) novas sensibilidades, desorienta(m) as percepções tradicionais e estáveis: um tapete pode recobrir verticalmente uma ponte, sobre a qual estender-se com o olhar ou com a imaginação. Ou então é a ponte quem se apresenta como um enorme tapete sobre o qual passear como um flanêur. Ou ainda a cidade inteira é um cartaz imenso no qual se transita indiferentemente entre pontes, tapetes, cisnes, Andrômedas. Este é o poder surreal do fragmento: ele pode viajar em qualquer direção. Mas só a grande cidade tem esta estranha liberdade (...) (CANEVACCI, 1997, p. 101).

Na observação dos trechos, que foram do supermercado Nordestão até as imediações da loja de carros Ponta Negra Fiat (trecho 01) e do Praia Shopping até as imediações do shopping

596

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

de artesanato e, no sentido inverso, até pouco mais do estacionamento do Praia Shopping (trecho 02), a Avenida Engenheiro Roberto Freire, como um todo, além de localizar os espaços já supracitados, de grande confluência, também é um espaço disputado de comércio, em sua maioria espaços de restaurantes, barzinhos, ambientes de venda de comida e, alguns bancos, como o Itaú e o Bradesco, além de floriculturas e lojas de carro (a Jac Motors e a Ponta Negra Fiat). Nesta Avenida encontram-se também de espaços sofisticados, notadamente frequentados por pessoas classificadas como pertencentes à classe econômica “A”, à lugares mais rústicos e menos oponentes economicamente6. O espaço também pode ser classificado como local de disputa para colocação de outdoors e letreiros eletrônicos. No primeiro dia de pesquisa de campo no local, uma performance era realizada na rua asfaltada, mediante o fechamento do semáforo. Dois performistas encenavam.

6 Segundo Gramsci: a hegemonia é a capacidade de um grupo social assumir a direção intelectual e moral sobre a sociedade, sua capacidade de construir em torno de seu projeto novo sistema de alianças sociais, um novo “bloco histórico”. A noção de hegemonia, desta forma, desloca a de classe dominante, cujo poder residiria inteiramente em sua capacidade de controlar as fontes do poder econômico. Na análise de poder, introduz a necessidade de considerar negociações, compromissos e mediações (MATTELART, 2009, p. 108).

597

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

E, em trabalho de campo realizado7 posteriormente observou-se um quiosque rústico, de cipó e madeira, com acabamento em pintura verde. O proprietário do local, com um brilhante no dente frontal da arcada superior, observou a nossa admiração pelo lugar e veio até o grupo. Tratava-se de um baiano, de apelido Jhonny, que havia mudado da cidade de Salvador-Ba para a cidade do Natal-RN, em busca de qualidade de vida. Jhonny havia começado seu negócio com um quiosque de acarajé, ao chegar em Natal-RN, mas passou o ponto à frente e agora estava somente com a venda de água de coco e pastéis, principalmente. Ao lado deste estabelecimento há um lugar, igualmente rústico, que vende espetinhos, tapiocas, entre outras comidas.

7 Refere-se à pesquisa de campo realizada no mês de abril de 2013.

598

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fig. 1: Quiosque de Jhonny

599 Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fig. 2: Quiosque vizinho ao de Jhonny

Fig. 3: Espaço entre os quiosques

600

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Nesta observação participante, a oralidade é figura permanente, por meio de formas hospitaleiras de venda e abordagem ao consumidor por funcionários e proprietários de estabelecimentos, junto à escrita presente em outdoors e letreiros eletrônicos. Assim, Canevacci (1997, p. 104) diz: Oralidade e escrita estão presentes em simultâneo para a antropologia, que deve fazer reviver experiência direta com pessoas distantes, dando voz e subjetividade ao informador, utilizando a dialógica e as novas formas experimentais de escrita. O informador ­­– termo ambíguo com vago sabor policial – finalmente torna a ser também um narrador de poesias, um intérprete e, por que não, um ativo transformador da imagem de um romancista (e de uma certa antropologia) fechado em si mesmo.

Nesses trechos observados, há também o fluxo de pessoas. Percebeu-se que o maior fluxo nos pontos de ônibus, ocorre no fim da tarde, entre 16 e 17 horas e se dá no sentido Avenida Roberto Freire – Centro. E que, neste mesmo horário, as pessoas caminham enquanto conversam, pelo calçadão construído com esse interesse, e que o som da Avenida muda quando o semáforo fecha, indicando a passagem para os transeuntes. Quando isso acontece pode-se observar um silêncio que toma conta do ambiente ao redor e causa uma sensação de acon-

601

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

chego. Junto a esse momento, do outro lado da rua, onde se encontra um shopping, pode-se observar uma reserva de mata atlântica, o Parque das Dunas8. Mas agora a reserva é observada de uma forma diferente do comumente observado no corre-corre do dia-a-dia. A mata parece mais verde e exuberante, parecendo ter vida própria. No corre-corre, do dia-a-dia, essas observações não podem ser feitas. Com a pressa de chegar ao trabalho, de chegar à universidade, à academia, ao curso, ou com a pressa de voltar para casa depois de um dia exaustivo de trabalho. A cidade, assim, é narrada por um coro pluriverso e polifônico no qual os vários itinerários musicais ou os materiais sonoros se cruzam, se encontram e se fundem, obtendo harmonias mais elevadas ou dissonâncias, através de suas respectivas linhas melódicas. A cidade se apresenta polifônica 8 O Parque das Dunas, constitui uma unidade do IDEMA- Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte, órgão vinculado à SEPLAN – Secretaria de Planejamento do Estado do Rio Grande do Norte. O Parque Estadual Dunas de Natal “Jornalista Luiz Maria Alves” foi criado através do Decreto Estadual nº 7.237 de 22/11/1977, sendo a primeira Unidade de Conservação Ambiental implantada no Estado do Rio Grande do Norte, possui 1.172 hectares de mata nativa, sendo parte integrante da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica Brasileira e exerce uma grande importância para a qualidade de vida da população da cidade de Natal. Disponível em: < http://www.parquedasdunas.rn.gov.br/apresentacao.asp > Acesso em: 26 de abril de 2013.

602

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

desde a primeira experiência que temos dela (...) é possível elaborar uma metodologia da comunicação urbana mais ou menos precisa, com a seguinte condição: a de querer perder-se, de ter prazer nisso, de aceitar ser estrangeiro, desenraizado e isolado, antes de se poder reconstruir uma nova identidade metropolitana. O desenraizamento e o estranhamento são momentos fundamentais que – mais sofridos do que predeterminados – permitem atingir novas possibilidades cognitivas, através de um resultado “sujo”, de misturas imprevisíveis e casuais entre níveis racionais, perceptivos, e emotivos, como unicamente a forma-cidade sabe conjugar (CANEVACCI, 1997, p. 15 – 16).

Ainda segundo Canevacci (1997, p. 22), Um edifício se ‘comunica’ por meio de muitas linguagens, não somente com o observador mas principalmente com a própria cidade na sua complexidade: a tarefa do observador é tentar compreender os discursos ‘bloqueados’ nas estruturas arquitetônicas, mas vívidos pela mobilidade das percepções que envolvem numa interação inquieta os vários espectadores com os diferentes papéis que desempenham. Espectadores que, por sua vez, ao observarem por meio de sua própria bagagem experimental e teórica, agem sobre as estruturas arquite-

603

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tônicas aparentemente imóveis, animando-as e mudando-lhes os signos e o valor no tempo e também no espaço. Existe uma comunicação dialógica entre um determinado edifício e a sensibilidade de um cidadão que elabora percursos absolutamente subjetivos e imprevisíveis. Por exemplo: eu posso preferir determinadas ruas, em determinadas horas do dia, razão pela qual escolho meus itinerários urbanos não somente em termos vantajosos quanto à rapidez dos movimentos, mas também pelo fluxo emotivo que se libera quando atravesso essas ruas, e não outras. Cada forma arquitetônica tem o poder inexaurível de comunicar-se através de todo o aparelho perceptivo – emotivo e racional – do espectador, que muda de papéis segundo o tempo e o espaço (...) Uma cidade é também, simultaneamente, a presença mutável de uma série de eventos dos quais participamos como atores ou como espectadores, e que nos fizeram vivenciar aquele determinado fragmento urbano de uma determinada maneira que, quando reatravessamos esse espaço, reativa aquele fragmento de memória.

Afinal, uma cidade é também, e se constitui também, pelo conjunto de recordações individuais e coletivas, que dela emergem assim que o nosso relacionamento com ela é

604

Sumário

estabelecido, fazendo com que ela se anime com as nossas recordações. II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

E que ela seja também agida por nós, que não somos unicamente espectadores urbanos, mas sim também atores que continuamente dialogamos com os seus muros, com as calçadas de mosaicos ondulados, com uma seringueira que sobreviveu com majestade monumental no meio da rua, com uma perspectiva especial, um ângulo oblíquo, um romance que acabamos de ler. As memórias biográficas elaboram mapas urbanos invisíveis. Por este motivo a comunicação urbana é do tipo dialógico e não unidirecional. E, algumas paisagens urbanas, com o passar do tempo um conjunto de signos se estratifica (na memória individual, de um casal ou de um grupo), tornando-as exemplos de alguns comportamentos que podem criar tendências: isto é, retomam os movimentos comportamentais de estratos significativos da população, os quais terminam por assumir uma função que atrai também os outros extratos, como um modelo onde se experimenta e se realiza o grande jogo dos códigos urbanos (...) Eles (panoramas) formam uma constelação: quanto mais nos distanciamos, melhor percebemos o desenho que sua borda representa. Neles não se desenvolve somente a neutralidade indiferente dos códigos a serem interpretados

605

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

como frequentemente se pensa; pelo contrário, dentro deles se manifesta o conflito, ou pelo menos um dos conflitos mais significativos da nossa sociedade contemporânea, o que não quer dizer que todos os outros conflitos – especialmente os de classe, sexo e etnia – sejam anulados ou superados. Significa que a atual sociedade da comunicação exprime os próprios conteúdos conflituais também através da competição dos signos, do crescente processo de dessimbolização, da luta dos códigos e do status, que envolvem todos os outros âmbitos da sociedade contemporânea (CANEVACCI, 1997, p. 22- 23).

Além das pessoas, que vão e que vem e, dos estabelecimentos já citados, o lado direito da Avenida Engenheiro Roberto Freire é disputado por empresas que pretendem divulgar sua marca e novas propostas ao seu cliente, além de tentar conquistar novos públicos. Entre as empresas que anunciam em outdoors desta Avenida estão principalmente empresas de tecnologia, universidades/faculdades e motéis, conforme pode-se ver nas imagens abaixo9. A linguagem desse tipo de publicidade é a comumente já conhecida: linguagem persuasiva, de convencimento, que leva o cliente para uma nova possibilidade de compra, ou o mantém na zona de conforto (de clientela) em que ele já está. 9 As imagens exibidas neste artigo são de minha autoria.

606

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fig. 4: Publicidade de Motel

Fig. 5: Publicidade de Empresa de Tecnologia

Junto a esses outdoors, convivendo lado a lado, estão os letreiros nos muros. Estes, geralmente, com inscrições de prestação de serviços, tais como anúncios de empréstimos, como nas imagens abaixo.

607

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fig. 6: Anúncio pregado em poste

Fig 7: Anúncio de recarga de cartucho, pintado em muro.

608

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fig 8: Anúncio de pessoa desaparecida. Pregado em poste.

Fig. 9: Anúncios de imóveis e de loja de carros.

609

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

E, como não poderia deixar de ser, a Avenida Engenheiro Roberto Freire é também o espaço da consumação e do consumo, tanto dos bares, restaurantes, pizzarias e barzinhos padronizados e sofisticados, como do comércio informal, dos lanches rápidos e sobremesas que têm seus restos descartados diretamente no ambiente, fora dos cestos de lixo. Nesse aspecto, o sofisticado conflitua com o mau hábito. No trabalho de pesquisa de campo encontrou-se desde latinhas e garrafas de refrigerante, em sua maioria de Coca-Cola, à recipientes de água descartável, papéis de bala, cupons fiscais e casquinho de sorvete. O lixo acumulado na Avenida se junta principalmente entre os canteiros centrais, e contrasta com as bem podadas árvores do ambiente, conforme as imagens10 abaixo.

Fig 11: Fachada de lojas

10 As imagens exibidas também são de minha autoria.

610

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fig. 10: Fachada de restaurantes

Fig. 12: Shopping e copo descartado

611

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fig. 13: Coca-Cola descartada

Fig. 14: Mala de viagem descartada

612

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fig. 15: Casquinho de sorvete descartado

Fig. 16: Nota fiscal abandonada

613

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Fig. 17: Lixo acumulado no canteiro central da Avenida

(...) ‘Espaço-vida’ em que estão em jogo as relações entre um organismo e seu meio e no qual se define a conduta do indivíduo como resultante de suas relações com o meio físico e social que age sobre ele, e no qual ele se desenvolve (...) a maneira pela qual as ‘forças’ ou ‘vetores’, de intensidade e direção variadas, que atuam entre um e outro indivíduo, entram em ação para tentar resolver a “tensão” produzida por certas necessidades em um organismo (MATELLART, 2009, p. 53).

Afinal, segundo Silverstone (2005, p.21), “é pelo senso comum que nos tornamos aptos (...) a partilhar nossas vidas uns com os outros e distingui-las umas das outras”, o que conforme Martin-Barbero (2006), com sua teoria das mediações sociais, implica em uma sociologia dos processos de comunica-

614

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ção particularmente atenta aos contextos sócio e subculturais específicos, nos quais se produz a recepção e os usos sociais dos bens simbólicos e das mensagens dos meios de comunicação massivos às práticas sociais, aos movimentos populares e à experiência cultural dos distintos segmentos da população. Assim, é oportuno lembrar que, [...] toda e qualquer sociedade constrói, por pactos semânticos ou semióticos, regimes auto-representativos ou de visibilidade pública de si mesma. Os processos públicos de comunicação, as instituições lúdicas, os espaços urbanos para os encontros da cidadania integram tais regimes (SODRÉ, 2001, p. 16).

e que segundo Silverstone (2005, p. 34-35): (...) A mediação implica o movimento de significado de um texto para o outro, de um discurso para o outro. Implica a constante transformação de significados, em grande e pequena escala, importante e desimportante, à medida que textos da mídia e textos sobre a mídia circulam em forma escrita, oral e audiovisual, e à medida que nós, individual ou coletivamente, direta ou indiretamente, colaboramos para sua produção. A circulação de significado, que é a mediação, é mais do que um fluxo em dois estágios – do programa transmitido via líderes de opinião para as pessoas na rua –, como Katz

615

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

e Lazarsfeld (1955) defenderam em seu estudo seminal, embora ela apresente estágios e realmente flua. Os significados mediados circulam em textos primários e secundários, através de intertextualidades infindáveis, na paródia e no pastiche, no constante replay e nos intermináveis discursos, na tela e fora dela, em que nós, como produtores e consumidores, agimos e interagimos, urgentemente procurando compreender o mundo, o mundo da mídia, o mundo mediado, o mundo da mediação.

Considerações Quando se pensa em uma cidade, as primeiras imagens que costumam vir à mente são de origem material, assim surgindo os monumentos, os prédios, os acidentes geográficos, as construções humanas ou naturais que representam aquele espaço. Mas, conforme se demonstrou neste artigo e, segundo Arrais, Andrade e Marinho (2008), a cidade não pode ser resumida à suas construções físicas, pois no denso espaço citadino se equilibram diversos interesses e ações que transformam cotidianamente os espaços públicos e privados da cidade. As próprias construções materiais resultam de interesses e ações que desejam mudar o espaço urbano. A cidade só é completa com a união às práticas imateriais dos seus moradores, atribuindo significados e significações às estruturas materiais, “[...] pois

616

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

somente por meio das práticas, dos usos, os espaços ganham sentido” (ARRAIS; ANDRADE; MARINHO, 2008, p. 129). A cultura é, assim, percebida como compondo um sistema social, manifestada em comportamentos e produtos de comportamentos, percebedora de como seus membros percebem, pensam, sentem, a partir de valores que são conscientemente construídos e absorvidos. Representações imaginárias sociais, construídas e reconstruídas nas relações cotidianas dentro de uma organização. E assim, reforçam os valores compartilhados, os ritos, as narrativas, e utilizam objetos, atos e eventos como forma de significados, atentando para as interações, para os processos de comunicação, como elementos que podem ajudar a desvendar a cultura, além dos artefatos visíveis, situando, sempre, “os processos comunicativos em perspectivas e conjunturas históricas, sociais e culturais” (SANTAELLA, 2010, p. 57; 64). Compreendendo, como fizeram Foucault, Kristeva e Derrida (apud DUARTE, 2009, p. 208), a alteridade e a construção de significados com base na relação do eu com o outro, que faz com que a desconstrução social possa construir novas formas de significação e produção social da significação, processos que são realizados pelos sujeitos que se comunicam e os enunciam. Seguindo esse pensamento... ... tal reconhecimento é possível somente dentro do espaço da comunicação, segundo modalidades diferentes para a produção e a compreensão, o fazer persuasivo e o fazer interpretativo – quer dizer, em suas relações intertex-

617

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tuais (...) A semiótica e a semiologia de origem francesa (...) fornecem a compreensão do sentido expressivo, do espaço do discurso, da representação, da construção dos simulacros significantes, e também do sujeito, do corpo, da sensação, do tempo vivido que sempre insiste em se reinvestir na imagem (...) O corpo, reconfigurado num tipo específico da forma da indumentária, manifesta os conceitos e os valores veiculados em e para essa situação (DUARTE, 2009, p. 209).

Assim, os significados mediados, como os que se encontrou em trabalho de campo e observação participante no projeto de pesquisa MÍDIA, CORPO E CIDADE: Comunicação urbana e expressões subjetivas na produção e no consumo simbólicos em Natal-RN, puderam ser medidos por meio do tempo e de espaços. Públicos e privados, institucional e individual e vice-versa. Conforme Silverstone (2005, p. 37), eles (os espaços e o tempo) são fixos nos textos e fluidos nas conversas. São visíveis em quadros de aviso e sites da Internet e enterrados nas mentes e nas lembranças (...) a mediação é infinita, produto do desenredamento textual nas palavras, nos atos e nas experiências da vida cotidiana, tanto quanto pelas continuidades da mídia de massa como da mídia segmentada. Referências

618

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ARRAIS, Raimundo; ANDRADE, Alenuska; MARINHO, Márcia. O corpo e a alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930. Natal, RN: EDUFRN, 2008. CANEVACCI, Massimo. A cidade polifônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana. Tradução: Cecília Prada. – 2 ed. – São Paulo: Studio Nobel, 1997. – (Cidade Aberta). DUARTE, Jorge; BARROS, Antônio (Orgs.). Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação. 2 ed., São Paulo: Atlas, 2009. MATTELART, Armand e Michele. História das teorias da comunicação. 12 ed. São Paulo: Loyola, 2009. MUNIZ SODRÉ. Antropológica do Espelho: uma teoria da comunicação. 4. Ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2009. SANTAELLA, Lucia. Comunicação e pesquisa: projetos para mestrado e doutorado. 2 ed., São José do Rio Preto, SP: Bluecom Comunicação, 2010. SILVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia? 2. Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

619

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

81 Experiência estética e cidadania: a constituição da experiência pública entre comunidades virtuais e espaço urbano Márcia Larangeira Jacome Este resumo do meu projeto de pesquisa visa compreender qual é o lugar da experiência estética na constituição de uma experiência pública, a partir de uma aproximação entre estética e cidadania, tomando como foco de investigação a comunicação como possível vetor de mobilização de afetos, considerando o papel do ativismo político – online e presencial – em processos massivos de mobilização social. Nesta perspectiva, o projeto toma as relações entre comunicação e estética como um campo em permanente construção, ao mesmo tempo em que enfoca a comunicação como processo por meio do qual torna-se possível o estabelecimento de relações entre diferentes e a construção de um comum que não elimine diferenças, mas antes, que se constitua a partir do reconhecimento do princípio igualitário como condição para que todos tomem parte na política (Rancière, 2011a). Pois se assim o é, têm um caráter contingente, ou seja, trazem em si as possibilidades de participação igualitária de qualquer pessoa, a emergência do dissenso e a constituição de uma comunidade inédita, compreendida por Rancière (2011b) como aquela que institui vozes dissonantes em nome da igualdade entre diferentes, fazendo emergir o dano e transgredindo a ordem.

620

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Para empreender uma leitura de como essa construção do comum ocorre, os elementos que dela fazem parte, as tensões e contradições emergentes, que exigem enfrentamento coletivo, observamos as revoltas populares contemporâneas. Contestadores do sistema político estabelecido, esses protestos ganharam novos contornos a partir das articulações traçadas por meio de fluxos comunicacionais que produzem narrativas diversas e, muitas vezes, conflituosas, em um entrelugar situado entre territórios na internet e no espaço urbano. Por outra parte, trazem implícita a possibilidade de instituir novas comunidades a partir de multidões anônimas e plurais, esboçando novos contornos da esfera pública e colocando em cena novas problematizações sobre os sentidos de coletividade. De modo geral, essa onda de insurgências, que emerge em grandes metrópoles no biênio 2011-2013, tem se enraizado nos territórios nacionais nos quais se originam, ao mesmo tempo em que sua difusão pela internet conecta e potencializa experiências similares pelo mundo, gerando processos de retroalimentação. Tais fluxos de comunicação potencializam a articulação de estratégias para o enfrentamento do establishment em meio ao deslocamento do centro do poder dos Estados nacionais para os conglomerados financeiros (Bauman, 1999), gerados por uma economia globalizada que também provoca o deslocamento de pessoas, bens simbólicos e materiais, além de recursos financeiros. Dentre as principais características dessas experiências públicas contemporâneas, é possível perceber a dimensão multitudinária, marcada pelo anonimato e a horizontalidade

621

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

nos processos de decisão e potencializada pelo compartilhamento de trabalho em redes. Acreditamos que tais experiências sugerem haver uma preocupação com a tentativa de recriar os sentidos da vida em comum para confrontar subjetividades forjadas pelo modelo de capitalismo neoliberal. No entanto, problematizar os limitadores desse processo. Assim, nos perguntamos se o caráter difuso dessas experiências públicas potencializa uma articulação de forças ou se coloca em risco a própria reconstrução dos sentidos de coletividade em torno da construção de um comum e, com isso, coloca em risco também o resgate da política como dimensão cotidiana, da qual todos podem tomar parte de maneira igualitária. Para fazer uma leitura dessa situação, este projeto busca compreender de que modo os processos de comunicacionais operam na construção do comum no âmbito das revoltas populares que vêm ocorrendo pelo Brasil desde o início de junho de 2013. Por este motivo, consideramos a existência de dois momentos distintos nesse acontecimento. No primeiro momento, há um deflagrador dessa mobilização reconhecido amplamente, que é a luta pelo passe livre e melhoria da qualidade do transporte coletivo em diferentes capitais. Com a incidência da repressão policial às manifestações ocorridas no Rio e São Paulo, produz-se um recorte, a partir do qual se constitui um segundo momento, marcado pela convocação da população às ruas para resistir à violência de Estado. Tal convocatória produz adesão massiva e, com ela, o surgimento de diferentes pautas que torna visível o alto grau de insatisfação popular e

622

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

produz evidências de que algo maior se coloca em jogo: “Não se trata de 0,20. É uma questão de democracia.” Importa olhar para este fenômeno no Brasil como parte de um contexto internacional mais amplo. Em todos eles, a democracia é ‘um guarda-chuva’ que agrega todas as lutas: da resistência às ditaduras, na Primavera Árabe (Tunísia, Egito, Líbia, Síria, 2011) à exposição dos limites das democracias ocidentais filiadas ao modelo neoliberal, como é o caso #DerinGezi, (Turquia, 2013), o #15M ou Indignados! (Espanha, a partir de 2011), Occupy Wall Street (EUA, 2011) e #OccupySintagma (Grécia, 2011), Que se lixe a Tróika (Portugal, 2012), entre outros. Estas revoltas já vinham impactando o Brasil, assinalando mudanças em curso nas formas de organização social. Em 2012, já vinham ocorrendo mobilizações que, de alguma forma, delas se aproximavam – seja pela semelhança de temas, pelo uso de símbolos, seja construção de estratégias de comunicação e mobilização que articulam a formação de comunidades de redes sociais na internet com a reocupação de ruas e praças. Porém, mantendo características ainda muito diferenciadas, em especial no que diz ao grau de radicalidade das ações levadas a termo. Estamos nos referindo à algumas iniciativas de cunho local, de críticas à gestão pública das cidades ou estados, como o #ForaMicarla, em Natal, #OcupeEstelita, em Recife e #Quemderaserumpeixe, em Fortaleza; outras de abrangência nacional, como a luta contra a corrupção na política, deflagradora d o # FichaLimpa, ou de luta por moradia e território rurais e urbanos, a exemplo de #SomostodosGuarani-Kaiowá, #SomostodosPinheirinho, e, por fim, outras vinculadas a iniciati-

623

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

vas internacionalizadas, a exemplo da #MarchadasVadias, pelo direito das mulheres ao corpo – território primeiro da existência. Nossa hipótese é que tais mobilizações funcionaram como um balão de ensaio, fomentando a criação de um ambiente favorável à eclosão da chamada “Revolta do Vinagre”1. No entender de Manuel Castells (2013), estamos diante de movimentos que são, principalmente, emocionais, motivados por um fato que funciona como dispositivo para ampliar os motivos de indignação. Esse forte caráter emocional pode ser percebido, também, como um componente importante da comunicação entre diferentes países que unifica todas essas experiências. Se olharmos para tais processos como parte de um contexto global, perceberemos nessas experiências evidências que nos fazem indagar: estaríamos vivendo um processo de quebra de paradigmas, de modo a propiciar o resgate da política de um contexto de crise? Dentre essas evidências, interessa particularmente a este projeto de pesquisa, fazer uma leitura sobre as tentativas de se recriar os sentidos da vida em comum por meio de atos estéticos que, ao ganhar vida nas ruas e praças – como ocupações, passeatas e/ou assembleias – se constituiriam como parte das condições propiciadoras da retomada da política como dimensão da vida cotidiana. Se tomarmos esses movimentos como ambientes potencializadores dos afetos, seu caráter estético, necessariamente, se dará a ver aqui. Assim, a abordagem da comunicação que 1 A alcunha de Revolta do Vinagre é uma alusão ao uso desse produto – que mininiza os efeitos do gás lacrimogêneo – como método de resistência à violência policial.

624

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

nos propomos a fazer evidencia ser não apenas plausível como também necessário o rompimento com a dicotomia entre a razão e o sensível para tecer uma compreensão dos fluxos de afetos presentes na construção do comum. Sobre o problema de pesquisa Uma vez que a eclosão da Revolta do Vinagre ocorreu em seguida à construção do projeto de qualificação, provocando novas questões que abriram uma mudança nos rumos que vínhamos tomando na construção do objeto e do problema, o momento atual é de reconfiguração do projeto. O problema de pesquisa está sendo redefinido, contando apenas com um esboço inconcluso. De todo modo, a construção do problema se localiza na perspectiva de buscar responder as seguintes questões: em um tempo histórico no qual as tecnologias mediam cada vez mais as experiências coletivas, os processos de comunicação que emergem entre o ambiente virtual e o espaço urbano na constituição da Revolta do Vinagre têm sido capazes de dar sustentação à experiência sensível do comum? Se isso ocorre, essa comunicação contribui com a restauração da plenitude dos sentidos como parte da experiência corporal, compreendida como dimensão da construção de relações de alteridade, que possibilita transformar as formas do ‘viver junto’ em sociedade? Essa comunicação tem propiciado uma circulação e potencialização de princípios e valores associados à

625

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

democracia, que propiciam uma reconfiguração da partilha do sensível? Tais considerações nos apoiam a pensar sobre qual tem sido o papel das comunidades de redes sociais nesses processos de compartilhamento de uma experiência sensível, mas também como a própria experiência pública, cria uma atmosfera, envolve a presença corpórea, favorece, de um lado, a gestão compartilhada do espaço e a participação direta, transformando subjetividades no ambiente da rua. Por outra parte, não se pode deixar de considerar que as contradições também se fazem presentes aí e, portanto, não podem ser desprezadas. Não raro, tem sido possível observar nos debates ocorridos na internet entre manifestantes de diferentes tendências, expressões de autoritarismo e intolerância e preconceito – homofobia, racismo, preconceito de classe nacionalismo. Este é um dos paradoxos que só em um regime democrático é possível ver. E assim sendo, torna-se uma questão central observar e analisar como a comunicação faz emergir na internet tensões que se colocam entre manifestantes, a partir do dissenso interno a esse ambiente plural, e seus desdobramentos nos modos como as pessoas se expressam nas ruas. Principais referenciais teóricos Para caracterizar as mobilizações, será necessário identificar e distinguir as nuances entre concepções de correntes teóricas de campos diversos que usam os mesmos conceitos

626

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

com interpretações diferentes ou que tratam de maneira aproximada conceitos tão variados e passíveis de serem confundidos, tais como: comunidades, comunidades virtuais, redes, redes sociais, redes sociais na internet, redes digitais, associativismo, cyberativismo e movimentos sociais. Tais distinções nos permitem eleger conceitos e categorias de análise mais adequadas, bem como não perder o foco na análise da experiência estética como parte de experiências coletivas – algumas das quais ainda vigentes. Além das recentes produções de Maria da Glória Gohn (2011), que trazem um panorama do debate contemporâneo sobre movimentos sociais, consideramos pertinente tomar em consideração os aportes de Manuel Castells (2011) sobre o que ele considera como auto-comunicação de massas como estratégia de contra-poder e que pode nos ajudar a compreender a crescente participação de indivíduos anônimos nas mobilizações contemporâneas; Deleuze e Guatarri (1992) nos apoiarão na discussão sobre a complexificação das maneiras pelas quais se organizam, hoje, as ações em redes horizontalizadas e que se valem do potencial das tecnologias de comunicação para colocar em prática os princípios do rizoma, a saber, conexão, heterogeneidade, multiplicidade, ruptura, cartografia e decalcomania; Raquel Recuero (2005), a partir das teorias das redes, nos apoia na construção de argumentos sobre os riscos que existem na vulgarização do conceito de ‘redes sociais’ para identificar o que na verdade constitui-se como ‘comunidades de redes sociais digitais’.

627

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Tomamos como um pressuposto o fato de que a comunicação no ambiente a ser analisado é composta por diferentes fluxos comunicacionais concomitantes, que se articulam e mesmo se sobrepõem: no ambiente digital das comunidades de redes sociais; entre as redes sociais e o espaço urbano e no próprio ambiente de praças e ruas. Deste modo, buscaremos demonstrar como a comunicação atravessa a experiência coletiva sendo dela constituinte. Para este fim, nos basearemos na articulação das postulações de Marcondes Filho (2010) acerca da comunicação, no que ela se difere da informação e dos signos. Interessa-nos, particularmente, a afirmação de que a comunicação se dá na medida em que torna possível mudar nossas formas de ver, sentir e pensar o mundo. E seu diálogo com a obra de Serres, quando este afirma o corpo como lugar prioritário, onde se elabora o conhecimento pois, afirma Marcondes Filho, é daí que se pode pensar a participação na comunicação, entendida como “relação, como clima, ambiente criado entre pessoas no interior de um grupo, entre homens e obras. O acontecimento só ocorre se se atinge essa fulguração, essa mudança qualitativa no ato de comunicar” (Ídem, p. 31). Tais considerações nos apoiam a pensar sobre qual tem sido o papel das comunidades de redes sociais no compartilhamento de experiências sensíveis de caráter público, criando uma atmosfera que envolve a presença corpórea que pode favorecer a gestão compartilhada do espaço e a participação direta, transformando subjetividades no ambiente da rua. Nesse sentido, acreditamos que se colocam em franco diá-

628

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

logo com as concepções de Dewey (2010) sobre experiência e, como constituintes dessa, a experiência estética e a própria comunicação, pois como afirma este autor “Comunicar é o processo de criar uma participação, de tornar comum o que era isolado e singular, e parte do milagre que ele realiza é que, ao ser comunicada, a transmissão de sentido dá corpo e definição à experiência, tanto de quem enuncia quanto daqueles que escutam.” (Dewey, 2010, p.427) Se as experiências coletivas no espaço das ruas são atos estéticos que cocorrem para construção de uma comunidade inédita, torna-se pertinente averiguar se estaríamos diante de um acontecimento paradoxal: no sentido aportado por Marcondes Filho (2010, p. 30), quando afirma que o acontecimento, ao contrário de um processo, é “fulguração singular”. Mas também no sentido aportado por Rancière (2007, p.5), referindo-se à ação política dos sem parte, afirma ser o acontecimento não uma irrupção política, mas antes uma “transformaciones del paisaje común [...] una transformación del tejido común” , que encerra em si o desafio de não fixar-se como um fim em si mesmo, pois a política estaria vinculada à necessidade de “universalización de la capacidad de cualquiera”. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CASTELLS, Manuel. Redes de indignación y esperanza: los movimientos sociales en la era de internet. Madrid: Alianza Editorial S.A., 2012. 294 p.

629

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

_______. A mídia de massas individual. In: Dossiê 01 – Le Monde Diplomatique Brasil. Ano 1.Janeiro de 2011. São Paulo: Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: http://diplomatique.uol.com.br/edicoes_especiais_artigo.php?id=3 Acessado em 08/07/2011 DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia. Vol.1. 1ª edição. São Paulo: Editora 34. 1995 (6ª reimpressão – 2009). 96 p. (Coleção TRANS) DEWEY, John. Arte como experiência. 1ª ed. SP: Martins Fontes, 2010. 646 p. GUATTARI, Felix e ROLNIK, Suely. Micropolítica. Cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1986 GOHN, Maria da Glória. A revolução será tuitada. In: Dossiê A Esquerda na Encruzilhada. Cult – Revista Brasileira de Cultura, nº 169. São Paulo: Editora Bregantini, junho/2012. pp.23-27. ______. Teorias sobre os movimentos sociais: o debate contemporâneo. In: XV Congresso Brasileiro de Sociologia, 2011, Curitiba. ANAIS do XV SBS, 2011. 19 p. Disponível em: www. sbsociologia.com.br/portal/. Acessado em: 07 nov. 2012. MARCONDES FILHO, Ciro. O princípio da razão durante. O conceito de comunicação e a epistemologia metapórica: nova teoria da comunicação III – Tomo V. São Paulo: Paulus, 2010. 389p. (Coleção Comunicação)

630

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

PALLASMAA, Juhani. Os olhos da pele. A arquitetura e os sentidos. Porto Alegre: Bookman, 2011. 76 p. RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento. Política e filosofia. São Paulo: 1996. 138p. (Coleção TRANS) ______. A partilha do sensível. Estética e política. 1ª ed. São Paulo: EXO experimental.org, editora 34, 2005a. 71 p. ______. Política da arte. In: ENCONTRO INTERNACIONAL SITUAÇÃO #3: ESTÉTICA E POLÍTICA. São Paulo: SESC Belenzinho, 17 a 19 de abril de 2005b. 12p. ______. O mestre ignorante. Cinco lições sobre a emancipação intelectual. Belo Horizonte: Autêntica Editora. 2011a, 192 p. ______. A comunidade como dissentimento. In: PEIXE, Bruno; NEVES, José. A política dos muitos. Tradução de Miguel Serras Pereira. Portugal: Tinta da China, 2011b. RECUERO, Raquel. Comunidades Virtuais em Redes Sociais na Internet: Uma proposta de estudo. Ecompos, Internet, v. 4, n. Dez 2005, 2005. 19p. SENNETT, Richard. Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, 417 p. TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar. A perspectiva da experiência. São Paulo: Difel, 1983. 250 p.

631

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

82 Olimpíadas 2016, o discurso da cidade integrada e as remoções de favelas cariocas Camila Calado Lima A pesquisa discute as controvérsias da inserção das favelas no projeto de reinvenção do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016, pensando especialmente sobre as práticas de remoções em curso na cidade. Partedas narrativas elaboradas acerca da favela no projeto de candidatura Rio 2016, Live yourpassion;passa pelas atuais políticas públicas e o discurso oficial da cidade integrada, à luz do biopoder, por Foucault (2005); e, a partir de Lafuente e Corsín (2011), analisa a comunicação da resistência, que emerge diante das remoções. A comoção generalizada e o forte apoio popular presentes na vitória do Rio de Janeiro à sede dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, em outubro de 2009, parece ter se desestabilizado, ao longo desses anos que seguiram, com os preparativos para o megaevento. Se a percepção crítica acerca do projeto de cidade que se pretende construir ainda não abarca a totalidade dos moradores do Rio de Janeiro, é possível notar um aumento na composição do grupo. O forte argumento do legado para a cidade, sagazmente construído na candidatura do Rio, contribuiu para o apoio popular da grande transformação a ser implementada na cidade, mas, aos poucos, foi sendo colocado em questão: afinal, legado para quem? Tais indagações começam a vir à tona quando o prefeito Eduardo Paes, apenas três meses após a eleição do Rio como futura

632

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sede olímpica, divulgou uma lista de 119 comunidades a serem removidas até o ano de 2012. Com o início das remoções, a realidade altera-se de modo significativo. Uma multiplicidade de atores passa a manifestar-se a respeito das irregularidades nos processos de remoções de comunidades do Rio de Janeiro. Corpos moventes em torno de um desejo comum, da luta por um bem comum. Às diversas comunidades afetadas, unem-se ONGs, instituições acadêmicas,movimentos sociais e outros, em um movimento de luta por justiça. Reúnem-se, ocupam as ruas, reivindicam direitos de cidadão e exibem suas vozes no ambiente online. É assim que se constitui o Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas como coletivo de resistência à construção de uma cidade de exceção e de luta pelo estabelecimento “de um processo amplo e democrático de discussão sobre qual deve ser o real legado dos Megaeventos” (COMITEPOPULARIO, 2011). Os pressupostos teóricos de Lafuente e Corsín(2011) ajudam no entendimento da constituição dessa comunidade. Os teóricos propõem a noção comunidades de atingidos para pensar comunidades de “estranhos, emergentes e em luta”, de pessoas que se sentem ameaçadas e sentem falta de algo que consideram crucial, desde que lhes foi retirado. (LAFUENTE, CORSÍN, 2011, p. 13). De “um lado, a todos lhes aperta o sapato no mesmo lugar e, de outro, decidiram lutar contra o que consideram uma agressão [...] comunidades de atingidos que tentam ser de empoderados e, até, em caso extremo, de afetos”. (LAFUENTE, CORSÍN, 2011, p. 13). São comunidades que se

633

Sumário

mobilizam para não renunciar seus direitos enquanto cidadãos e seres vivos. O comum se constituiria a partir da ação colaborativa de uma comunidade que, por meio das tecnologias da comunicação, alcançaria a visibilização das suas práticas e reivindicações, por um processo de “contraefetuar oditame, o instituído, o consensual e, com certeza, o que é imposto” (LAFUENTE,CORSÍN,2011,p. 8) ou, em outros termos, de trazer à tona e pôr em relevo o problema da comunidade, a partir da exposição do seu contexto de produção. Tais comunidades sãoconvidadas a ser epistêmicas, tendo em vista que o empoderamento das mesmas dependerá da capacidade de se apropriarem do conhecimento e das novas tecnologias (LAFUENTE, CORSÍN,2011). O Comitê Popular Rio construiu as remoções como problema pelo viés da legalidade, a partir da evocação da legislação vigente que concede direitos aos moradores e regulamenta as ações de reassentamentos por parte do poder público, e da exposição das violações de direitos dos moradores nas atuais práticas do poder municipal. Além do campo jurídico, também aproximaram-se do campo científico. À experiência cotidiana dos moradores de favelas, somaram-se o saber dos pesquisadores do Comitê Popular Rio, através de assessoria técnica para produção de laudos sobre as áreas marcadas para remoçãoe da elaboração de projetos de urbanização, que excluam a necessidade de remoção de comunidades, garantindo a permanência das mesmas.

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Aliada à produção e divulgação dos novos saberes, encontram-se estratégias de visibilização das remoções comoum problema da cidade, por meio da criação de perfis em redes sociais, de mobilizações populares,da realização de debates acadêmicos e de evento de lançamento do Dossiê de violação dos direitos. Além da circulação da narrativa da violação do direito, também é comum a circulação da narrativa dos interesses mercadológicos, do caráter turístico das obras que estão sendo realizadas e dos movimentos de valorização imobiliária, intimamente associados às obras e à expulsão de moradores de regiões de interesse do capital imobiliário. Os moradores das favelas são narrados enquanto vítimas na medida em que têm seus direitos violados, mas também como sujeitos ativos na luta pelos seus direitos e pela afirmação identitária da favela.São inscritos de uma realidade do que é e do que deveria ser. Uma luta por novas posições, novas relações, pela ressignificação do espaço e pela construção de uma identidade própria que diverge da imagem instituída e se forma a partir de experiências diversas. Todo o movimento de resistência e de denúncia das ilegalidades nas práticas de remoções acontecia simultaneamente ao desenvolvimento por parte do poder público do discurso da cidade integrada, que trata as remoções como ações a favor da vida dos moradores e abarca políticas públicas também voltadas para a melhoria da vida na favela. As Unidades de Polícia Pacificadora visariam oficialmente recuperar os territórios ocupadospelo tráfico de drogas e, com isso, devolver a paz para o cotidiano dos que lá residem. O Morar Carioca e o Porto

635

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Maravilha, por sua vez, propunham intervenções urbanísticas nas favelas, com vistas a urbanizar tais territórios, com melhorias em infraestrutura, saneamento básico, legalização dos serviços de luz e TV paga, construção de planos inclinados e teleféricos, com vistas a, segundo o discurso oficial, facilitar a circulação e a acessibilidades dos moradores, dentre outras obras. Compete ainda ao Morar Carioca lidar com o problema de moradia de algumas comunidades, por meio do desadensamento de áreas de intensa ocupação ou percebidas como insalubres, e do reassentamento de moradores de regiões de risco. Há também casos de remoçõesmotivados por obras a serem realizadas nas favelas, por exemplo, a construção de teleférico, ou pelas obras dasinstalações olímpicas, que culminam na retirada de comunidades localizadas no trajeto olímpico ou, simplesmente, como alguns casos denunciam, nas proximidades das instalações. Os principais argumentos eleitos pelo poder público para justificar as remoções são: (a) risco de vida; (b) proteção ambiental; e (c) megaeventos. O argumento dos megaeventos para justificar as remoções estariaintimamente vinculado ao discurso do legado olímpico para a cidade, mais uma vez, ressaltando os benefícios para a vida dos seus habitantes e para o desenvolvimento do Rio. Em relação à problemática do risco de vida, destaca-se as palavras do prefeito Eduardo Paes: “não podemos continuar vendo, todos os anos, vidas sendo perdidas na época das chuvas [...] Por isso, podem me xingar, mas quem vive em área de risco no Rio terá que sair de casa. Vamos dar uma alternativa digna”. (PAES apud BRITTO, 2011). Em vários outros

636

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

textos jornalísticos, o discurso da remoção pela vida do morador dafavela é reforçado, seja por meio de declarações do prefeito Eduardo Paes, do secretário de Obras Pezão ou de outros. De prática autoritária, a remoção se transformaria em algo benéfico para os favelados. Nesta construção, destaca Magalhães (2012, p. 50), “ninguém poderia ser contra a retirada de pessoas que estivessem em áreas de risco”. Os críticos à tais práticas seriam ainda considerados “‘demagogos’ e aproveitadores que não se preocupariam com a vida dos moradores destas localidades”. (MAGALHÃES, 2012, p.50). Este movimento discursivo tenta superar o tabu histórico sobre o tema, vez que, nas demais reformas urbanas da cidade, a favela era claramente tratada pelo poder público como um problema para acidade que se remodelava, como um incômodo à nova urbanidade proposta. No atual projeto de reconfiguração urbana do Rio, o discurso é suavizado e ressignificado como ação a favor do favelado, o que evidencia a percepção de que o jeito brasileiro de lidar com as diferenças internas se dá por meio da cordialidade. O discurso da cordialidade, como elemento da identidade nacional, estariasendo acionado para legitimar ações de segregação social. A postura de Paes, em entrevista à BBC, é denunciativa: “as mudanças farão do Rio uma melhor cidade para se morar e trabalhar, mais igualitária e mais gentil com sua população. [...] O que está sendo feito na cidade é principalmente para o carioca médio, o carioca mais pobre”. (PAES apud CARNEIRO, 2012, grifo meu). Enquanto o discurso oficial da prefeitura defende as remoções para o bem do favelado, todavia, a

637

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Secretaria Municipal de Habitação marca casas no meio da noite econtribui para a redução da pobreza no Rio Olímpico, para o desenvolvimento turístico e a valorização imobiliária dos territórios. O atual projeto de resgate das maravilhas do Rio, de projeção de uma cidade integrada e pacificada, tem como ações a retirada/exclusão de pobres. Trata-se da gestão do lugar do pobre na cidade, da gestão da circulação na cidade. Para Sovik (2009), “o afeto é uma metáfora para a unidade nacional, para a maneira brasileira de lidar com a diferença interna”. Essa metáfora, complementa a autora, “ajuda a transpor barreiras entre o ideal (e a realidade) do Brasil hospitaleiro e os fatos, visíveis em cada esquina, da desigualdade social e racial”. A afetividade e a cordialidade – no sentido expresso pelo senso comum – como representações da brasilidade seriamnarrativas bastante eficazes no cotidiano de desigualdades do país e, por isso mesmo, constantemente evocadas em discursos de políticos e de políticas públicas implementadas aos principais sujeitos que vivenciam as desigualdades. Os discursos de mestiçagem e democracia racial, que se proporiam a falar de um país de maioria não branca, ainda minimizam a presença de negros, valorizam a branquitude e ressaltam-na como valor estético, apesar de, a princípio, propor seu silenciamento. Discursivamente, ressaltam a ideia de um país em que não há ódio racial, religando diferentes setores sociais desiguais, mas a hierarquia social, como se sabe, ainda se faz presente, explicitamente ou não, enfraquecendo a posição do negro (SOVIK, 2009). De modo semelhante, o discurso da cidade integrada propõe a superação das hierarquias

638

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

sociais entre morro e asfalto, e a melhoria da vida dos moradores de favelas, que passariam a dispor de melhores habitações, serviços e mais segurança no cotidiano. A realidade, todavia, denuncia que as práticas remocionistas, inseridasno sistema de biopoder (FOUCAULT, 2005), expõem favelados à morte, a riscos e à exclusão pelo bem da vida na cidade. Separa-se a boa da má circulação. Elimina-se o adversário – o perigo – que coloca em risco a vida daqueles que o Estado deveria proteger. O projeto político da cidade integrada se fortalece, no plano discursivo, com as intervenções urbanísticas no território das favelas, apesar de os moradores das comunidades definitivamente não serem os maiores beneficiados. As remoções servem a um projeto político-econômico de cidade e o mito da cordialidade brasileira contribui para legitimá-las. O resultado é a ressonância cada vez maior para além dos limites das nações do discurso de um Novo Rio Olímpico e integrado, que suplantaria as violações de direitos dos favelados e os interesses político-econômicos em jogo nas mudanças urbanísticas, de modo semelhante à disseminação do discurso da mestiçagem, que supostamente superaria a noção de racismo internamente, mas que, ao final, sustenta a prevalência branca e serve a um projeto político de Estado. Referências BRITTO, Thaís. Paes lança projeto de remoções no Morro da Providência. O Globo, Rio de Janeiro, 16 jan 2011. Disponível

639

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

em: . Acesso em: 25 jul. 2011. CARNEIRO, Júlia Dias. Olimpíada é ‘desculpa fantástica’ para mudar o Rio, diz prefeito. BBC. 9 mar. 2012. Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2012 FOUCAULT, Michel. Aula de 17 de março de 1976. In: Em Defesa da Sociedade– Curso no Collège de France (19751976). São Paulo: Martins Fontes, 2005. LAFUENTE, Antonio; CORSÍN JIMÉNEZ, Alberto. Comunidades de atingidos, o comum e o dom expandido, Revista Galáxia, São Paulo, n. 21, p. 10-25, jun. 2011. Disponível em: Acesso em: 06 fev. 2012. MAGALHÃES, Alexandre. A gramática da ordem na cidade: a reatualização da remoção de favelas no Rio de Janeiro. In: E-metropolis: Revista eletrônica de estudos urbanos e regionais, Rio de Janeiro, ano 3, n. 8, mar. 2012. Disponível em: . Acesso em: 16 jun. 2012. SOVIK, Liv. Aqui ninguém é branco. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009.

640

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

83 Midiatização de mulheres em situação de rua: um novo olhar sobre a comunicação Suzana Rozendo Bortoli O presente projeto de doutorado, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), está inserido na área de concentração “Estudos dos meios e da produção mediática”. Tal área abarca a linha de pesquisa “Informação e mediações nas práticas sociais”, que estuda os processos de produção, difusão e recepção da informação no universo midiático, sob a perspectiva dos valores da cidadania, ética e interesse público, com ênfase nos vetores da produção da narrativa jornalística (percepção e reconstrução discursiva da realidade). Voltada à compreensão da comunicação noticiosa, ao estudo das relações éticas na construção dos produtos informativos, à reflexão sobre a informação como direito fundamental do cidadão, esta linha também inclui o debate entre o discurso hegemônico e o alternativo. Dentro deste escopo, elegemos estudar a midiatização de mulheres adultas em situação de rua. Antes de seguir com detalhes do projeto, vale a pena explicar que trabalhamos com população de rua desde o nosso Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo (UFMS/2008), quando produzimos do documentário “Droga de Rua”. Posteriormente, em 2012, no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, defendemos a dissertação “Ocas e

641

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Hecho en Buenos Aires: um outro tipo de jornalismo na América Latina?”, que relacionou o trabalho de pessoas em situação de rua com revistas jornalísticas. Durante nossa trajetória de estudos, percebemos que existe um ofuscamento desses referentes nas matérias de jornais, nos sites e na TV. Em geral, o repórter, não os escuta como fontes ou pede que outras pessoas falem por eles, desqualificando publicamente a imagem da população de rua. Se o bom exercício do jornalismo pede que os dois lados da história sempre sejam ouvidos, nesses casos, alguns códigos deontológicos da profissão são facilmente “esquecidos”. Esta realidade pesa ainda mais, quando o desfavorecido é do sexo feminino, considerando que a mulher, historicamente, vem sendo relegada ao ostracismo político, social e cultural desde o advento da propriedade privada (ENGELS, 2000). Partindo da hipótese de que as mulheres adultas em situação de rua são invisíveis nos relatos jornalísticos, justifica-se a escolha do recorte da pesquisa por serem elas a minoria de uma minoria. Além disso, para sobreviver nas ruas das grandes cidades, precisam criar estratégias, andar em grupos e oferecer alguns serviços como troca de proteção. Não raro, são vítimas de estupros coletivos, sofrem mais intensamente as rupturas familiares e adoecem por não terem alimentação adequada e pela falta de acesso a postos de saúde. Na maioria das vezes, são vistas como as culpadas pela situação em que se encontram e pelo abandono dos filhos. Estigmatizadas pela realidade vivenciadas nas ruas, adotam o uso de álcool e de outras drog  as em suas vidas como forma de amortizar as dores físicas e

642

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

psíquicas, o que dificulta o caminho de volta para uma vida considerada “normal”. Os motivos pelos quais algumas mulheres passam a viver nas ruas são diversos. Englobam desde drogadição, adoecimento, dívidas, desastres ambientais, perda de emprego a brigas familiares. Em alguns casos, a violência doméstica é maior que nas ruas e a única “opção” é o abandono do lar. Na cidade do Rio de Janeiro, onde a pesquisa de campo deste projeto será desenvolvida, somam-se outros três fatores contemporâneos. Primeiro, a especulação imobiliária: pesquisas indicam que o aluguel residencial na cidade é o mais caro do Brasil e é o terceiro mais caro do mundo. Segundo, em função dos megaeventos que o município sediará, muitas famílias estão sendo removidas das favelas e sendo levadas para locais sem infraestrutura adequada, o que pode aumentar gradativamente o número de mulheres vivendo nas ruas nos próximos anos. E, por fim, a distância do local de trabalho aliada aos problemas de mobilidade urbana. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é no Estado do Rio de Janeiro onde as pessoas perdem mais tempo se deslocando de casa para o trabalho, podendo chegar esse tempo a quatro horas de viagem em transportes públicos superlotados. Assim, muitas vezes, é preferível dormir nas ruas próximas ao emprego dur  ante a semana e ir para casa apenas nos sábados e domingos a chegar à residência tarde da noite e acordar de madrugada para trabalhar. O objetivo principal da presente pesquisa é desvendar como a mídia cobre mulheres em situação de rua. Como

643

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

objetivo secundário, porém não menos relevante, pretendemos cruzar a análise desse conteúdo com os depoimentos das mulheres em situação de rua e dos profissionais das mais diversas áreas que trabalham diretamente com elas, apontando os possíveis “erros” e os “acertos” midiáticos. Nesse sentido, foram elaboradas algumas estratégias metodológicas que serão desenvolvidas por etapas. O primeiro passo consiste em realizar entrevistas com mulheres em situação de rua e com profissionais que trabalham com elas. Nesta fase, interessa-nos investigar por quais problemas essas pessoas passam diariamente; o que elas entendem por mídia; por quais meios elas se informam nas ruas e nos albergues, abrigos públicos e instituições de caridade; e se elas se sentem representadas midiaticamente. Alguns contatos com os profissionais já foram estabelecidos (conforme Apêndice A). A partir do depoimento das mulheres adultas em situação de rua sobre meios pelos quais elas acessam as notícias, faremos um levantamento desses materiais durante um período que seja possível ter uma amostragem suficiente para se chegar a alguma conclusão. Nesta etapa, o procedimento metodológico utilizado será a análise de conteúdo. Como embasamento teórico, o trabalho será orientado por ideias nucleares, difundidas por: Stoffles (1977); Goffman (1988); DaMatta (1997); Bursztyn (2000); Elias e Scotson (2000); Giorgetti (2007); Bourdieu (2008); Silva (2009), Franco (2008), Cunha (2008), Paulino (2009), Frazão (2010) e Ijuim (2013). Enfim, buscando responder à pergunta proposta pelo “II Encontro nacional da Rede de Grupos de Pesquisa em

644

Sumário

Comunicação”: “Em que sua pesquisa pode renovar o olhar sobre a comunicação e a forma de estudá-la?”, acreditamos que, se de fato a hipótese inicial de que as mulheres em situação de rua são invisíveis nos discursos midiáticos for comprovada, os profissionais de comunicação precisam estar cientes de sua implicância nesta realidadee, com isso, esperamos que eles passem a abrir espaço na mídia para grupos minoritários excluídos; representar esses grupos de forma correta e sem generalizações; ouvi-las como fontes quando em situações de inferioridade ou acusação, mantendo o princípio da imparcialidade e, por fim, dispensar um olhar mais humanizadoe horizontalizado à referida clientela, retomando os princípios negados pelo modo de produção jornalística atual, que é superficial e atrofiado pelo maniqueísmo e pela urgência de uma instantaneidade. Entretanto, é importante ressaltar que esta pesquisa ainda está em fase embrionária e sujeita a alterações e, portanto, apenas os estudos e as constatações futuras poderão apontar considerações mais conclusivas.  Palavras-chave: Jornalismo, Cidadania, Mulheres adultas em situação de rua, Gênero. Referências ARRUNÁTEGUI GADF, Gisele Aparecida Dias Franco. Olhares entrecruzados: mulheres em situação de rua na cidade de

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

São Paulo. [Tese de Doutorado]. São Paulo. Faculdade de Saúde Pública da USP, 2008. BOURDIEU, Pierre et al. A miséria do mundo. Petrópolis: Vozes, 2008. BURSZTYN, Marcel (Org.). No meio da rua: nômades, excluídos e viradores nômades excluídos e viradores. Rio de Janeiro: Garamond, 2000. CUNHA, Marcelo Antonio da. No olho da rua. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. DAMATTA, Roberto. A casa e a rua. 5. Ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. ELIAS, Norbert; SCOTSON, John L. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. ENGELS, Friedrich. Barbárie e civilização. In: A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Ática, 2000. FRAZÃO, Theresa Christina Jardim. O morador de rua e a invisibilidade do sujeito no discurso jornalístico. 2010. [Tese Doutorado]- Programa de Pós-Graduação em Linguística. Universidade de Brasília, Brasília, 2010. GIORGETTI, Camila. Poder e contrapoder : imprensa e moradores de rua em São Paulo e Paris. São Paulo: FAPESP, EDUC, 2007.

646

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

GOFFMAN, Erving. Estigma : notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4a ed. Rio de Janeiro, GUANABARA, 1988. IJUIM, Jorge Kanehide. As diferenças e o diferente: o respeito ao outro como forma de humanizar o jornalismo. In: XIII Congresso Internacional Ibercom, Santiago de Compostela, 29-31, maio 2013. Anais ...p.1-14. PAULINO, Fernando Oliveira. Responsabilidade social da mídia: análise conceitual e perspectivas de aplicação no Brasil, Portugal e Espanha. Brasília: Casa das Musas, 2009. SILVA, Maria Lucia Lopes da. Trabalho e População em Situação de Rua no Brasil. São Paulo: Cortez, 2009. STOFFLES, Marie-Ghislaine. Os medios na cidade de São Paulo: ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.

647

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

84 Conflito Estético e as Formas Sujas da Cultura Popular Thiago Araujo Ansel

Contexto, objetivos O projeto parte de uma hipótese: a existência de um conflito estético, entre o sublime e o vulgar, constitutivo da produção erudita1 – acadêmica ou não – sobre as culturas populares urbanas, na última década. Orientado por esta suspeita, o trabalho quer demonstrar a articulação de regimes de visibilidade 1 As narrativas midiáticas e a produção criativa, articuladas a partir dos espaços populares ou sobre eles são objeto de reflexão de expressiva parcela dos pesquisadores da área de Comunicação nesta década. Muitos dos professores vinculados ao programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ investigaram, no mínimo, de forma transversal aspectos das culturas periféricas e suas diferentes expressões (HERSCHMANN, 2000; COUTINHO; PAIVA, 2006; FILHO; HERSCHMAN; PAIVA, 2004; SOVIK, 2000, 2012; VAZ, 2005; VILLAÇA, 2007, 2007b, 2008, 2012; JAGUARIBE, 2007; BENTES, 2001, 2002, 2007, 2010, entre outros). Ainda sobre a produção acadêmica, tomando também como ilustração apenas o Programa de PósGraduação em Comunicação da UFRJ, entre os anos de 2004 e 2011, foram apresentadas entre teses e dissertações, 17 trabalhos que tratam de iniciativas ou problemas de comunicação diretamente relacionados às favelas e periferias.

648

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

e discursivos que orientam diferentes mediações e atores sociais (como a universidade, a mídia e outros) na produção de representações das culturas populares urbanas neste período. Com isto pretende-se, inicialmente, traçar um panorama da rede conceitual que cria espaços onde certas figuras e figurações do popular são possíveis e outras não. Entre os anos de 1990 e 2000, começam a aparecer com mais força na cena pública projetos sociais e artístico-cultuais envolvendo a participação de jovens, moradores de favelas. Estas iniciativas [p]rimeiro, fazem parte de uma nova forma de ação pública que não passa tanto pela mobilização social e pressão sobre governantes quanto pela abertura de avenidas para o reconhecimento da população pobre, através da mídia e da quebra de barreiras de discriminação de classe e raça. Favelados do Vidigal apresentam Shakespeare em Londres, Olodum toca no Central Park, MV Bill faz Falcão, transmitido no Fantástico, e participa de Malhação, os projetos de percussão do Afro Reggae formam a polícia mineira em direitos humanos, e a novela das oito da TV Globo é protagonizada por um galã negro. (SOVIK, 2012, p.2)

Parte da produção cinematográfica brasileira da última década articulou-se com tais projetos artístico-culturais em favelas e periferias para produzir suas narrativas sobre o uni-

649

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

verso dos pobres. Similarmente, em paralelo, a academia (e aqui destaco o campo da comunicação) também se utilizou deste tipo de mediação para produzir conhecimento sobre as culturas periféricas urbanas, gerando uma quantidade notável de trabalhos sobre o tema. Contudo, o problema é que os pobres alçados a condição de objeto do saber, sofrem uma assepsia que lhes despe da “vulgaridade”, do “cafona” (termo que marca hierarquias), do “orkutizado”2 e de outras características – aqui chamadas de sujas – teoricamente indignas de participarem da constituição de objetos nobres do pensar. A hipótese da omissão/esquecimento do pobre sujo surgiu de minha dissertação (ANSEL, 2011), na qual procurei demonstrar que a construção da identidade de favelado, longe da univocidade representada pelo binário “falsificação midiática versus alteridade radical”, se dá a partir de um regime de verdade sustentado por atores sociais e instituições tão variados quanto a mídia, a academia, as organizações da sociedade civil, o Estado e a gestão pública em suas diferentes áreas, além dos próprios favelados. A principal pergunta a partir da qual a investigação se estruturou foi: “o que significa ser favelado na contemporaneidade?” Dirigi a indagação aos textos midiáti2 O termo “orkutização” é uma forma pejorativa de se referir à mídias sociais quando começam a ser utilizada por todos os tipos de públicos e, em especial, por pobres. O termo ficou bastante conhecido depois que a colunista do jornal O Globo, Cora Rónai, escreveu sobre o tema em setembro de 2011. Participar, portanto, de redes sociais mais “exclusivas”, é também um signo de distinção na Internet.

650

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cos, às produções acadêmicas e artísticas sobre o tema e a favelados (numa etapa de inspiração etnográfica da pesquisa, realizada numa favela da Zona Norte do Rio de Janeiro). No trabalho de campo entrevistei pessoas comuns (trabalhadores, estudantes, donas de casa etc.) que residem no Complexo da Cidade Alta, composto por três conjuntos habitacionais e cinco favelas, no bairro de Cordovil, Zona Norte do Rio de Janeiro. Percebi que seus moradores mobilizavam uma multiplicidade de discursos sobre a favela, articulados de forma contraditória, de acordo com estratégias próprias. Ouvi, por exemplo, falas de contestação dos discursos criminalizantes da grande mídia sobre estes espaços, combinadas com definições de favelado que o descreviam como aquele que “Num lugar diferente da favela, não sabe se portar”, “Pessoa baixa, pessoa porca...”; “o cara assim desorganizado, não tem hora pra nada, não tem hora pra dormir, não tem hora pra trabalhar”. Eram discursos que, do ponto de vista do traçado de estratégias de construção identitária, não podiam ser resumidos pela mera reprodução de estereótipos midiáticos e nem a “pura” contestação dos valores dominantes – visões mais recorrentes em diferentes abordagens sobre as experiências dos pobres das cidades. Buscando uma nova forma de compreender um tema mais ou menos estabelecido na área – neste caso, as figurações do popular -, pretende-se seguir a suspeita de que, pelo menos nos últimos dez anos, há um personagem ausente da reflexão erudita sobre as culturas periféricas: aquele que não participou de projetos sociais e culturais e talvez construa rela-

651

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ções diversificadas (que não se resumem à submissão e rejeição) com os estereótipos midiáticos. Pretendo me ocupar das razões para a sua ausência em parte representativa do imaginário intelectual, além de que consequências isto trouxe para a história da constituição da cultura popular urbana como objeto de estudo, em especial, no campo da comunicação. A preocupação, entretanto, não é apontar para uma identidade mais idêntica a si mesma que fora ignorada, mas mostrar justamente as condições não subjetivas que possibilitam o aparecimento de experiências subjetivas. Aqui as perguntas são análogas àquelas formuladas por Foucault sobre a loucura: não é “como o poder/saber destrói o homem?”, mas “como o poder/ saber produz subjetividades?” Portanto, a investigação não se dirige à busca por uma identidade essencial, mas sim à possibilidades de pensar um tipo de experiência subjetiva – forjada também pelas narrativas da mídia, pela academia e instituições -- talvez pouco exploradas no imaginário erudito nos últimos anos. Que saberes/poderes contribuem para constituir a experiências dos pobres das cidades? Responder talvez seja possibilitar a abertura de novas políticas de produção de verdades sobre as culturas populares urbanas. Questões de método e abordagem Suponho que as formas sujas da cultura popular, quando incluídas entre os objetos da reflexão erudita, podem dar lugar a substitutas mais “limpas”. E talvez esta seja uma das razões pelas

652

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

quais o diálogo da academia com os projetos artístico-culturais nas periferias, nos últimos 10 ou 15 anos, se faça tão frequente, uma vez que o que caracteriza a arte, além do aval institucional é a nobreza de seus temas (“Para que um determinado fazer técnico – um uso das palavras ou da câmera – seja qualificado como pertencendo à arte, é preciso primeiramente que seu tema o seja”) (RANCIÈRE, 2009, p.47-48). Mas o que determina a nobreza destes temas? Os exemplos a seguir podem fornecer pistas. A “Revista O Globo”, suplemento dominical do jornal homônimo, estampou no dia 23 de setembro de 2012 em sua capa, o quadro “A Origem do Mundo”, de Gustave Courbet, que retrata uma genitália feminina (FIG 1). O que autoriza tal imagem, passível normalmente de censura, a figurar numa seção de destaque de um noticioso fortemente identificado com o conservadorismo da classe média carioca?

FIG 1. “A perseguida”. Fonte: Revista O Globo. Ano 9, nº426, 23

653

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

de setembro de 2012. Stallybrass e White, analisando as origens do nojo burguês, em The Politics & Poetics of Transgression destacam como Bakhtin percebe a diferença entre a apreensão da representação do corpo humano nas festividades populares e na estatuária clássica da Renascença. O linguista russo descobriu como esta iconografia podia existir em registros completamente diferentes. As estátuas aparecem sempre no alto de pedestais -que remetem a elevação, monumentalidade e distanciamento da comunalidade --, em oposição ao corpo grotesco (também representado pela indumentária das festividades populares), sempre mais múltiplo e partícipe da multidão. (STALLYBRASS; WHITE, 1986, p.21-22) Stallybrass e White afirmam que o corpo clássico se tornou, então, muito mais do que um padrão estético ou modelo, sendo constituido de forma caracteristicamente identificada com os discursos elevados da filosofia, da arte de governar, teologia e direito, assim como da literatura. “Gradualmente, os protocolos do corpo clássico vieram para marcar a própria identidade do racionalismo progressivo”, observam. (STALLYBRASS; WHITE, 1986, p.21-22) Embora Courbet seja um pintor do século XIX e não da Renascença, a estrutura da análise de Stallybrass e White ainda é útil para pensar a relação que hoje “A Origem do Mundo” mantém com o cânone estético, além de como isto autoriza a genitália feminina a estampar a “Revista O Globo”. Colocando de outra maneira, que formas não canônicas de representar o mesmo objeto retratado pelo artista francês estampariam capa do suplemento dominical do jornal? O que oferece tão

654

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

poderoso álibi para o olhar tão diretamente um objeto proibido em nossa cultura? Miller (2013, p.77) observa que a moldura correta se torna invisível, transmitindo o modo exato pelo qual devemos ver aquilo que ela enquadra. De outro lado, quando a moldura é inadequada, imediatamente o espectador se torna consciente de sua existência. Radicalizando tal visão se pode chegar a conclusão de que a arte e a nobreza de seus objetos existem simplesmente por causa das molduras. A questão não se restringe, entretanto, ao campo das artes. O que ocorre a respeito das conformações estéticas que licenciam tal voyeurismo, pode também se aplicar ao discurso científico. Citando o caso de Saartje Baartman, a Vênus Hotentote (FIG. 2) -- uma mulher africana exibida como atração de circo na Europa do século XIX --, Hall mostra como o discurso do interesse científico também permite que observadores se sintam autorizados a continuar olhando de forma minuciosa o corpo da escrava, negando ao mesmo tempo a natureza sexual de seu olhar. Etnologia, a ciência, a busca por evidências anatômicas aqui desempenham o papel de ‘disfarce’, de negação, que permite que o desejo ilícito opere. Permite que um duplo enfoque seja mantido olhando e não olhando -- que um desejo ambivalente seja satisfeito. O que é declarado diferente, hediondo, ‘primitivo’, deformado, é ao mesmo tempo obsessivamente apreciado mais demoradamente porque é estranho, ‘diferente’, exótico. Os cien-

655

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tistas podem olhar, analisar e observar Saartje Baartman nua e em público, classificar e dissecar cada detalhe de sua anatomia, tendo o álibi perfeitamente aceitável que ‘tudo está sendo feito em nome da ciência, do conhecimento objetivo, da evidência etnológica. (HALL, 1997)

FIG. 2. “A Vênus de Hottentot”, Saartje Baartman Fonte: HALL, 1997. Estas reflexões suscitam até agora um conjunto maior de questões. São elas: 1) Existem formas intoleráveis para a reflexão erudita? 2) Qual o significado de tantos trabalhos acadêmicos cujos objetos são produtos ou processos próprios de projetos artístico-culturais nas periferias, nesta última década? 3) As molduras que determinam o que é arte sempre podem “limpar” as formas sujas? Em que ocasiões isto seria impossível?

656

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Resultados A pesquisa completará, ao fim de julho de 2013, seu primeiro semestre. Portanto, não há como apresentar resultados. Todavia, o grande ganho desta fase inicial pode ter sido um insight metodológico a partir do qual o trabalho etnográfico se desloca e toma como objeto, não mais o discurso dos pobres, mas os eruditos e sua produção sobre as culturas populares urbanas na última década. Esta nova estratégia metodológica, ao lado do exame de produções acadêmicas e midiáticas deste período, pode ajudar a compor um retrato da rede conceitual mencionada já no primeiro parágrafo deste resumo. Referências ANSEL, Thiago. Novos Mediadores, Representação da Favela e Produção Cotidiana da Identidade de Favelado. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Comunicação, Programa de Pós-Graduação em Comunicação, 2011. HALL, Stuart. “The spectacle of the Other”. In: Representation: Cultural Representations and Signifying Practices. London: Sage, 1997, p 223-290. MILLER, Daniel. Trecos, Troços e Coisas: Estudos Antropológicos sobre a Cultura Material. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. SOVIK, Liv. “Os projetos Culturais e seu significado social”. No prelo, 2012.

657

Sumário

SESSÃO TEMÁTICA 7 Imprensa, Jornalismo e Meios

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO A 85 O cotidiano jornalístico: organização do trabalho, prazer e sofrimento Cristiane Oliveira Reimberg Em nossa pesquisa de doutorado, iniciada em fevereiro de 2011, estudamos como se dá a relação de sofrimento e prazer no trabalho do jornalista. Para isso, traçamos a organização do trabalho no jornalismo, relacionando estudos da sociologia do trabalho com os aspectos organizacionais encontrados em obras sobre o jornalismo. Esse mapeamento é complementado com as entrevistas com profissionais que atuam na área, de diferentes faixas etárias e com experiência em diferentes meios. Pretendemos trilhar um caminho de reconstrução das palavras e recuperação das vivências dos jornalistas no trabalho por meio dessa parte qualitativa da pesquisa. Por fim, observaremos a partir da análise de conteúdo das entrevistas quando o sofrimento no trabalho é transformado em prazer e quando esse sofrimento leva ao adoecimento. O nosso referencial teórico, nesse sentido, é a psicodinâmica do trabalho. A abordagem de nossa pesquisa pode contribuir para renovar o olhar sobre a comunicação ao trazer uma visão interdisciplinar para refletir sobre o trabalho do jornalista. Pensamos a comunicação a partir do ponto de vista do trabalho desses comunicadores. Ao pensar o trabalho, problematizamos

659

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

as condições organizacionais e as práticas jornalísticas, o que reflete no universo de como ocorrem esses processos de comunicação. Também acreditamos inovar ao utilizar a psicodinâmica do trabalho para realizarmos a análise de conteúdo das entrevistas. Apesar de não pretendermos fazer um estudo de psicodinâmica do trabalho, o que requer outra metodologia, utilizaremos seus estudos como referencial teórico. A psicodinâmica do trabalho, criada por Christophe Dejours na França, olha para o sujeito e tem caráter interdisciplinar. Inspira-se em conceitos da psicanálise, como os mecanismos de defesa, e da ergonomia, por exemplo, a relação entre trabalho prescrito e real. Assim analisa o sofrimento e as defesas contra os aspectos nocivos da organização do trabalho à saúde mental. Esse sofrimento estará sempre presente, no entanto, criamos defesas para superá-lo e não adoecermos. Dejours (2011a, p.13) aponta que a normalidade resulta “de uma luta entre o sofrimento provocado pelos constrangimentos organizacionais e as estratégias de defesa inventadas pelos trabalhadores para conter esse sofrimento e evitar a descompensação”. O sofrimento pode ser, então, transformado em prazer. Assim o trabalhar é apontado por Dejours (2011b) como consubstancial ao humano, e o trabalho tem a ambiguidade de poder gerar saúde e acréscimo de vida ou a doença e a morte. O trabalho tem o poder de ordenar o mundo, objetivar a inteligência e produzir a subjetividade. Como sujeito inacabado, eu me construo enquanto trabalho.

660

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A psicodimâmica do trabalho pleiteia em favor da hipótese segundo a qual o trabalho não é redutível a uma atividade de produção no mundo objetivo. O trabalho é sempre uma provação para a subjetividade, da qual esta sai sempre ampliada, engrandecida ou, ao contrário, reduzida, motificada. Trabalhar constitui, para a subjetividade, uma provação que a transforma. Trabalhar não é apenas produzir, mas ainda transformar-se a si próprio e, no melhor dos casos, é uma ocasião oferecida à subjetividade de provar-se a si mesma, de realizar-se. (DEJOURS, 2012, p. 33-34) Dejours (2011a) destaca que o trabalho pode ser um mediador importante para o prazer e para a construção da saúde mental. A boa adequação entre organização do trabalho e estrutura mental se apoia numa “análise precisa da psicodinâmica da relação homem/trabalho” (DEJOURS, 1992, p.134-135). Essa situação é alcançada quando “as exigências intelectuais, motoras ou psicossensoriais da tarefa” vão ao encontro das necessidades do trabalhador, assim, o exercício da tarefa se origina de uma descarga ou de um “prazer de funcionar”.   Outra possibilidade ocorre quando o “conteúdo do trabalho é fonte de uma satisfação sublimatória. Nesse caso, concepção do conteúdo, do ritmo de trabalho e do modo operatório são deixados em parte nas mãos do trabalhador. A organização do trabalho pode ser modificada conforme seu desejo ou suas necessidades e até variar “com seus próprios ritmos biológicos, endócrinos e psicoafetivos” (Ibid).

661

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

No caso do jornalismo, o prazer pode ser uma defesa? Dejours (Ibid) fala de artistas e pesquisadores, que apesar de sacrifícios materiais os fazerem sofrer, o prazer do trabalho é a melhor defesa que possuem. No caso dos jornalistas, isso também seria possível? O trabalho pode ser aliado aos seus desejos ou a forma como é organizado impede que isso aconteça? Podemos pensar nos jornalistas que trabalham como “free-lancer” e conseguem organizar o seu trabalho a partir dos seus desejos e necessidades. Em relação ao desejo, quando consegue aliar a pauta da matéria a assuntos que gosta e que tem a ver com o que acredita. Já sobre os ritmos, como “frila” pode tentar adequar a produção dos textos ao seu ritmo biológico com mais liberdade do que um jornalista que deve cumprir horário em uma empresa, com uma organização fechada. No entanto, não deixa de estar submetido a uma organização do trabalho, pois mesmo quando pega um “frila” está submetido a um prazo e a uma empresa. Além do que, se o valor pago por matérias for baixo, pode ser necessário pegar um grande número de matérias e também se submeter a um ritmo alucinante. Ainda há de se considerar aqueles que são chamados informalmente de “frila fixo”, submetendo os jornalistas a condições de trabalho precárias, sem direitos trabalhistas, com jornada excessiva e presença no local de trabalho como se fosse um celetista.  Sobre o prazer, acreditamos, que pode existir, tanto para o profissional “free lancer” quanto para o contratado de um veículo de comunicação, desde que o exercício da tarefa lhes traga satisfação e eles afiram um valor positivo ao que realizam. Isso também acontece quando existe o reconhecimento do

662

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

trabalho. Outro aspecto importante é a liberdade para sugerir pautas e exercer sua criatividade na elaboração das matérias. Além disso, partimos da hipótese de que o imaginário construído pelos jornalistas sobre o seu trabalho faz com que suporte as contradições da organização do trabalho e com que sofrimento e prazer caminhem lado a lado. Vemos, assim, no jornalismo a possibilidade de existência de um prazer proveniente do conteúdo significativo e simbólico do trabalho. Em nossas pesquisas, temos visto que há um imaginário em torno da profissão do jornalista, que a vê como missão e com certa superioridade em relação a outras profissões. Acreditamos que isso pode ser uma ideologia defensiva para enfrentar as longas jornadas e estar sempre pronto a trabalhar, o que deixa de ser visto como um trabalho, quando caracterizado como missão. Isso é utilizado pelas empresas para explorar o profissional e obter mais produção e dedicação ao trabalho. Em um cenário de exploração em que não há reconhecimento, o sofrimento pode levar ao adoecimento no trabalho. Para Dejours (1992, p. 133), o “sofrimento, de natureza mental, começa quando o homem, no trabalho, já não pode fazer nenhuma modificação na sua tarefa no sentido de torná-la mais conforme às suas necessidades fisiológicas e seus desejos psicológicos”. Dessa forma, “a relação homem-trabalho é bloqueada”. Uma de nossas hipóteses é que a forma como o trabalho do jornalista é organizado leva a um ritmo acelerado, que pode levar ao adoecimento e a uma piora da qualidade do texto por não se ter tempo para fazer uma apuração adequada, o que gera mais sofrimento. A vida mental do jornalista pode ser neutralizada pela

663

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

padronização existente da atividade e uma organização do trabalho fechada, que inibe a criatividade e autonomia, regida por manuais de redação e por pouca liberdade de atuação. Outro aspecto importante, apontado por Dejours (2011a), é que a forma como a avaliação individual tem sido desenvolvida leva a destruição das possibilidades de trabalho coletivo, de cooperação e solidariedade. Esse tipo de organização do trabalho está relacionado aos “processos de servidão voluntária e de deterioração da saúde mental no trabalho”. Dessa forma, o sujeito fica sozinho frente à dominação, à injustiça e ao assédio. Pretendemos observar em quais momentos o ambiente de trabalho jornalístico é dominado pela competitividade em um cenário sem solidariedade e propício ao assédio moral. Dejours (2012) afirma que o sujeito tem que lidar com o prescrito e o real do trabalho, o qual resiste aos procedimentos. Na relação de sofrimento no trabalho, “o corpo realiza a um só tempo a experiência do mundo e de si mesmo” (p.24). “Trabalhar bem implica infringir as recomendações, os regulamentos, os procedimentos, os códigos, os termos de referência, a organização prescrita” (p.32) A organização do trabalho na atualidade privilegia a avaliação objetiva e quantitativa do trabalho e recorre a individualização da concorrência, do desempenho e de metas, levando a quebra da solidariedade (p.42).   As consequências destes princípios organizacionais do trabalho é, de um lado, o aumento extraordinário da produtividade e da riqueza; mas de outro, incluímos a erosão do lugar acordado à subjetividade e à vida no trabalho. O resultado é um agravamento das patologias mentais do trabalho em todo

664

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

o mundo ocidental, o aparecimento de novas patologias, os suicídios perpetrados no próprio local de trabalho, o que não ocorria, em hipótese alguma, antes do domínio neoliberal, bem como o desenvolvimento da violência no trabalho, o agravamento das patologias de sobrecarga, a exposição das patologias do assédio. (DEJOURS, 2012, p. 43) Em Heloani (2003), vemos relatos de jornalistas que mostram a relação agressiva da chefia. Um dos entrevistados afirmou: “Sei de colegas que ouviram coisas horríveis. Uma garota na minha sala foi falar sobre o aumento de salário e o chefe respondeu assim: ah, vocês vão continuar tomando no cu até o fim do ano” (p.61). O aspecto do desgaste mental, em nossa pesquisa, será aprofundado a partir de Seligmann-Silva (2011), que além de explorar a questão dos transtornos mentais, também aborda a fragilização dos vínculos sociais e as transformações do mundo do trabalho. A autora aponta a precarização da saúde mental, que acompanha as precarizações social, do trabalho e do meio ambiente.  Seligmann-Silva (2011, p.472) afirma que “o trabalho humano tornou-se, cada vez mais, um trabalho dominantemente mental. Porém o cansaço mental do trabalho intelectual intensificado e a exaustão emocional foram igualmente ignorados nas reestruturações”. A desregulamentação e a flexibilização do trabalho trazem impactos para a saúde, e até mesmo as relações interpessoais são flexibilizadas. O trabalho precarizado e dominado, que traz em si a impotência, tem repercussões psicossomáticas. Essas reflexões da autora nos ajudarão a entender o sofrimento no trabalho e a ocorrência do adoecimento.

665

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O trabalho do jornalista, marcado por essa relação de sofrimento e prazer, é a parte do universo da comunicação que estamos estudando. Acreditamos que esse olhar pode inovar o campo da comunicação, por trazer a questão do trabalho e do sujeito que faz a comunicação acontecer a um lugar central.  Palavras-chave: Cidadania; Organização do Trabalho; Jornalismo; Saúde do Jornalista.

Referências DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho– estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992. ______. Psicopatologia do trabalho – Psicodinâmica do trabalho. Laboreal, vol. VII, n.1, 13-16, 2011a. ______.“Trabalhar” não é “derrogar”. Laboreal, vol. VII, n.1, 76-80, 2011b. ______. Trabalho Vivo II: Trabalho e emancipação. Brasília: Paralelo 15, 2012b. HELOANI, José Roberto. Mudanças no Mundo do Trabalho e Impacto na Qualidade de Vida do Jornalista. São Paulo, Fundação Getúlio Vargas, NPP – Série Relatórios de Pesquisa – Relatório n° 12/2003. SELIGMANN-SILVA, Edith. Trabalho e desgaste mental. São Paulo: Editora Cortez, 2011.

666

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

86 Alimentação: diretrizes para uma nova abordagem midiática Tatiana Aoki A pesquisa objetiva fornecer diretrizes na abordagem da alimentação, de forma que se disponibilizem subsídios práticos a quem se propõe a tratar do tema e a ampliar o debate acerca do assunto. Pode-se afirmar que as mídias que abordam dieta e nutrição baseiam-se no nutricionismo – a ideologia oficial da dieta ocidental – cujo foco é tratar o alimento como se ele fosse somente a soma de seus nutrientes, sempre sob aval do saber científico. A mídia também dispõe a alimentação como campo predominantemente voltado à dieta e nutrição, e constrói o discurso de que a alimentação do indivíduo e, por consequência, sua saúde, é uma responsabilidade individual e pouco vinculada a aspectos como à cultura e à política. Na ausência de um veículo midiático que contrastasse com essa abordagem, foi adotado como objeto de estudo o material didático do Projeto Educando com a Horta Escolar (PEHE), que surgiu em 2005 e foi realizado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). A metodologia do PEHE consiste em uma estratégia em Segurança Alimentar e Nutricional, de maneira que se efetivem os princípios do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) e da Soberania Alimentar. De caráter trans-

667

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

disciplinar, seu material comunicativo propõe a execução de uma horta comunitária, bem como um laboratório para abordar temas como saúde, nutrição e economia. Como resultados são fornecidas 32 diretrizes na abordagem da alimentação, divididas em quatro temas centrais. No que concerne à análise do PEHE, foram detectadas seis temáticas centrais. E, tanto as diretrizes quanto a apreciação crítica do objeto se deram pelo método da análise temática, em conjunção com a pesquisa documental. Pode-se afirmar que as diretrizes trazem à tona quanto o questionamento do tema alimento é intersetorial, político e, por consequência, de interesse público. E, ao tornarem públicas tais questões, os diversos setores envolvidos – sobretudo o Estado, a indústria alimentícia e o jornalismo – deverão rever suas políticas e estratégias em torno do alimento. Palavras-chave: comunicação, cidadania, alimentação, saúde, promoção da saúde

668

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

87 Jornalismo global e a construção da cidadania: jornalistas e as respon-sabilidades diante de uma dissolução do binômio assunto de interesse nacional/assunto externo Ben-Hur Demeneck A pesquisa acima proposta pode renovar o olhar sobre a comunicação porque explora um conceito em construção: o jornalismo global. Um dos objetivos da investigação é interpretar o fenômeno e, em algum nível, captar a participação de jornalistas brasileiros em um modelo de comunicação que, ao ter um impacto global, cobra responsabilidades de mesma ordem. As discussões sobre o futuro do jornalismo passam pelo estabelecimento de uma perspectiva que não se resuma a uma divisão entre assuntos de ordem nacional/internacional. Por muito tempo, uma discussão semelhante foi feita acerca de algo próximo “ética global” num âmbito filosófico, como quando um Emmanuel Kant teorizava sobre o cosmopolitismo. No entanto, com a aceleração dos processos de globalização, ela se tornou uma questão prática para os produtos e processos do jornalismo. O jornalismo global surge como uma demanda na medida em que a globalização se consolida com a crescente conectividade das tecnologias, mobilidade pelo mundo e o apagamento de fronteiras (BERGLEZ, tradução livre, 2013, p.855). Ou

669

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

seja, há necessidades de diversas origens – econômica, política, cultural, ecológica, entre outras (id.). Ainda que a tecnologia conduza a comunicação a uma abrangência global, uma perspectiva global depende, sobretudo, de fundamentos epistemológicos para ser promovida. Uma perspectiva global seria, primeiramente, uma busca de compreensão das relações complexas estabelecidas ao redor do globo, observa Berglez. No entanto, tal perspectiva não garante a assunção de pressupostos de uma ética universal/global (BERGLEZ, tradução livre, 2013, p. 848). É onde surge um campo fértil para a discussão da Comunicação no que compete ao campo da ética, uma vez que há problemas, temas e deveres que podem surpreender devido a amplitude e a diversidade de culturas que envolve. Uma das definições provisórias a um jornalismo com perspectiva global seria aquele cuja informação produzida teria um caráter intercontinental, “potencialmente incluindo tanto as relações internacionais (entre estados-nação) quanto os processos transnacionais, como as ameaças ecológicas e as pandemias” (id). Não faltam razões para a transformação do jornalismo em jornalismo global. Stephen Ward organiza uns pontos em seu favor: a) a crescente globalização dos meios de comunicação; b) impactos globais conduzem a responsabilidades globais; c) um jornalismo global se faz necessário para dar visibilidade a uma pluralidade de visões de religiões e de grupos étnicos, representada numa maior variedade de valores e de agendas; d) um jornalismo de visão global ajudaria cidadãos a entender os problemas globais da pobreza, degra-

670

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

dação ambiental, desigualdades tecnológicas e instabilidade política; e) uma ética global é necessária para unir jornalistas na construção de uma mídia honesta e informada (WARD, tradução livre, 2008, p. 144). Em contrapartida, permanecem as barreiras nacionais e mesmo uma cultura jornalística “transnacional” enquadra temas em conformidade a um binômio nacional/internacional (ou, em outras palavras, assuntos domésticos / assuntos externos). Para Ward, “a ética jornalística foi desenvolvida para um jornalismo de um alcance limitado, cujo interesse público é assumido até que pare na fronteira” (id., tradução livre, p. 143). Citando trabalhos de Ronning (1994) e de Christians & Traber (1997), observa que a “busca” por uma ética global enfrenta o problema de como fazer justiça tanto para o particular como para o universal (id., p. 144). Quanto às relações entre jornalismo e cidadania, elas importam na medida em que um “jornalismo global” presume a assunção de uma “cidadania global”. Norberto Bobbio (1992) é um dos pensadores que vai buscar na Cosmópolis kantiana e na Declaração Universal dos Direitos do Homem ilustrações da “evolução” dos direitos de um sentido apenas individual para os direitos políticos e, depois, aos sociais. Uma quarta fase seria pensar o planeta como fosse potencial cidade de todos. De certa maneira, Bobbio já sugeria em “Era dos Direitos” essa discussão que a pesquisa procura aprofundar, embora seu enfoque fosse jurídico. Se a cidadania diz respeito à participação política, o jornalismo se apresenta como um campo em que se manifestam

671

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

e silenciam lutas sociais travadas dentro do sistema capitalista desde a modernidade. A articulação entre um e outro se dá ora em aproximações, ora em tensionamentos quando há luta por direitos sociais, ao exemplo das quebras de monopólios (EUA, século XIX) e as manifestações brasileiras em 2013, iniciadas com a luta pelo Passe Livre. Dentro desse contexto, para Sylvia Moretzsohn, “o jornalismo vive em permanente tensão entre seu compromisso de esclarecimento, que exige uma desnaturalização dos fatos, e a tendência à naturalização” (2007, p. 251). A naturalização, segundo Moretzsohn, está ligada às rotinas de produção e as expectativas de público a favorecem e a ajudam se consolidar. Até mesmo a característica comercial das empresas de comunicação, não retira o papel do jornalismo na construção da cidadania, ainda que os interesses se tornem mais promíscuos em tempos de conglomerados. Para Victor Gentilli, um jornal pode se manter uma instituição social mesmo que seja privado porque ele serve de “combustível para o aprofundamento democrático e a melhoria na própria qualidade do serviço que está sendo oferecido” (2005, p. 145-146). Através da promoção do direito à informação, o jornalismo poderia “construir a cidadania” uma vez que, ao assegurar esse direito, ele permite acesso a outras prerrogativas sociais. Quanto ao o referencial teórico da pesquisa desse doutoramento, há uma associação entre os conceitos de objetividade jornalística, ética e jornalismo global. Como observado acima, discussões de ordem epistemológicas e deontológicas antecipam a compreensão do tema estudado. Importante

672

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

reforçar que o quanto da teoria do jornalismo se deu diante de reflexões dentro de bordas das fronteiras nacionais e não “com” elas. Ward é um dos comentadores desse indicador, subjacente em diversos críticos da Comunicação. No entanto, há uma consciência que vínculos nacionais e lingüísticos são fatores de identidade e proximidade e não serão substituídos por um jornalismo global, mas sim passarão a coabitar os mesmos espaços de mídia. Complementarmente, interessa-nos identificar como jornalistas brasileiros com alguma inserção nos debates globais se mostram conscientes ou não de estarem construindo uma forma de jornalismo além do binômio nacional / internacional. Assim que houver resultados da pesquisa, eles serão divulgados. Devido a lacunas acerca de uma maneira de pensar esse jornalismo (grande parte das publicações são desses últimos dez anos e de origem internacional), há um caráter exploratório presente na pesquisa, porém, com oportunidades de inovação bastante promissoras. Outro ponto a somar no estudo pretende se dar feito junto a centros de debate em ética, a centros de excelência de jornalismo, a escolas de jornalismo e a “usinas de idéias”, como o Poynter Institute, Nieman Journalism Lab e a Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI). Se houver essa análise, avaliar-se-á como esses canais conseguem avançar ou não na discussão de um jornalismo global e não apenas de um jornalismo que se faça dentro em organizações de impacto global. Palavras-chave: Jornalismo Global, Cidadania, Ética, Futuro do jornalismo.

673

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Referências BERGLEZ, Peter. What is Global Journalism?: Theoretical and empirical conceptualisations. In: Journalism Studies, 2013; 9:6, 845-858. BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Campus, 1992. CANCLINI, Néstor García. A globalização imaginada. São Paulo: Iluminuras, 2003. GENTILLI, Victor. Democracia de Massas: Jornalismo e Cidadania: estudo sobre as sociedades contemporâneas e o direito dos cidadãos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005. 180p. IANNI, Octavio. A sociedade global. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996. MELLADO, Claudia; MOREIRA, Sonia V; LAGO, Claudia. HERNÁNDEZ, María E. Comparing journalism cultures in Latin America: The case of Chile, Brazil and Mexico. In: The International Communication Gazette, 2012, 74(1) 60–77. MORETZSOHN, Sylvia. Pensando contra os fatos: Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico. Rio de Janeiro: Revan. 2007. REESE, Stephen D. Understanding the Global Journalist: a hierarchy-of-influences approach. In: Journalism Studies, Volume 2, Number 2, 2001, pp. 173–187. RIBEIRO, Jorge Cláudio. Sempre Alerta – Condições e

674

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Contradições do Trabalho Jornalístico. São Paulo: Editora Brasiliense e Olho Dágua, 1994. WARD, Stephen J. A. Philosophical Foundations for Global Journalism Ethics. In: Journal of Mass Media Ethics: Exploring Questions of Media Morality, 2005, 20:1, 3-21. _____. Global Journalism Ethics:Widening the Conceptual Base. In: Global Media Journal. Canadian Edition, 2008. Volume 1, Issue 1, pp. 137-149.

675

Sumário

88 Circulação de saberes em Jornalismo

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Caroline Casali

1. Preâmbulos sobre a investigação Episódios recentes como os protestos políticos organizados nas redes sociais e que tomaram as ruas brasileiras, em junho de 2013, permitem inferir que existe um público que domina a lógica midiática; esse público não apenas consome, mas também produz e reproduz informações, atuando ativamente na circulação de temas, angulações e sentidos. Portanto, falamos de uma parte da sociedade que, mesmo sem utilizar termos técnicos, consegue entender as lógicas midiáticas e explicar seu funcionamento. E de que forma os saberes acadêmicos sobre Jornalismo se relacionam com esse novo contexto? A pesquisa que conduzo, sob orientação do Professor José Luiz Braga, reflete sobre a circulação de saberes em Jornalismo na sociedade midiatizada, problematizando a questão da dupla ruptura epistemológica proposta por Boaventura de Souza Santos (1979). Considera-se, de antemão, que se não há como separar o eu-pesquisador do eu-sujeito social, não há como pensar em rupturas entre conhecimento de senso comum e científico, simplesmente porque não se pode mensurar o momento exato em que essas rupturas aconteceriam. Como dizer que, enquanto pesquisadores, rompemos com esse

676

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

“senso comum” dos sujeitos midiatizados em prol de um conhecimento científico? Quem garante que o conhecimento desses sujeitos já não é parte de uma “segunda ruptura”? Seria possível operacionalizar a identificação dessas etapas tão estanques de rupturas epistemológicas? Investindo nas questões acima elencadas, nos pareceu mais plausível o estudo de circuitos de inscrições do conhecimento acadêmico do que a utopia de mensurar rupturas, até porque “as rupturas epistemológicas com o universo mental do homem comum costumam levar, via de regra, tão somente a um pseudoconhecimento do geral. Nada mais.” (GUSMÃO, 2012, p.31). Ao inscrever os saberes sobre Jornalismo na problemática dos circuitos, entende-se que “novos processos de circulação de mensagens e, de modo especial de produção de sentidos, organizam uma nova arquitetura comunicacional, afetando as condições de vínculos entre produtores e receptores, ensejando novos modos de interação entre instituições, mídias e atores sociais” (FAUSTO NETO, 2010, p.01). Significa dizer, em Midiatização, que a circulação não é apenas o movimento do produto midiático da produção à recepção ou a resposta direta desta àquela. Trata-se também das reações do subsistema de resposta social: “o fluxo comunicacional não pára e um novo circuito, diferenciado, se inicia: o das leituras e apropriações” (BRAGA, 2011, p.05). Hoje, pesquisamos objetos que não são apenas praticados pelos atores sociais, mas também são pensados, refletidos e discutidos por eles.

677

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

É claro que esse circuito inverso existe desde sempre – mas se torna socialmente evidente em uma sociedade em midiatização. Mais que evidente: torna-se processo comunicacional inarredável, componente para o que quer que se faça ou se pretenda, comunicacionalmente, fazer. Aspecto este que parece ser uma característica da sociedade em midiatização. No contrafluxo, passamos a produzir a partir das respostas que pretendemos, esperamos ou receamos. (BRAGA, 2011, p.07).

Ao trazer a ideia de dispositivos e circuitos para a produção de saberes em Jornalismo, queremos destacar que (a) o conhecimento é da ordem da circulação e só podemos alcançá-lo quando ativamos circuitos; (b) esses circuitos envolvem também os processos que antecedem e sucedem o acionamento de um dispositivo; (c) existem alguns dispositivos já conhecidos na produção de saberes (produtos midiáticos, eventos científicos, projetos de extensão, revistas de divulgação, etc.), mas outros tantos podem ser desvelados a partir da investigação empírica desta tese. Consideramos que o conhecimento não é produto científico, nem tampouco de senso comum; outrossim, é o acúmulo e a ação de saberes que atualizamos em nossas relações sociais e, diante disso, destacamos como objetivo central da pesquisa desvelar circuitos na circulação do conhecimento em Jornalismo, principalmente no que concerne aos objetivos específicos de (a) compreender a relação entre Jornalismo e práticas sociais em tempos de

678

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

midiatização, (b) revelar relações entre as práticas jornalísticas e os saberes de senso comum com as ações acadêmicas na área, e (c) desvelar circuitos em que se inscrevem os saberes em Jornalismo na sociedade, a partir de ações acadêmicas institucionalizadas e atos individualizados. Em síntese, o propósito da tese é desvelar circuitos não planejados pelas instituições mas que, mesmo na informalidade, compõem sentidos sobre o Jornalismo. Para isso, tomamos por caso de pesquisa a investigação de diálogos sobre Jornalismo empreendidos pela pesquisadora Márcia Franz Amaral, docente do Departamento de Ciências da Comunicação do Centro de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFSM, e líder do grupo de pesquisa Estudos de Jornalismo (CNPq/UFSM). As ações da pesquisadora a serem investigadas são (1) as postagens publicadas em sua página pessoal do Facebook, especialmente entre os dias 27 de janeiro e 28 de fevereiro de 2013, relacionadas à tragédia na cidade de Santa Maria; (2) suas ações de ensino na graduação e na pós-graduação; (3) suas ações de pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFSM; (4) os circuitos institucionalizados de divulgação científica de que participa; (5) as atividades de extensão que desenvolve ou que deixa de desenvolver; (6) demais circuitos de diálogo com a sociedade que a pesquisadora aponte como importantes para a circulação de sentidos sobre o Jornalismo. É importante salientar que todas essas ações serão analisadas não como estanques, mas

679

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

em relação umas às outras e, principalmente, em conexão com demais sujeitos (acadêmicos ou não). O estudo de caso está sendo conduzido a partir da análise das postagens em questão, bem como de documentos de ensino, pesquisa e extensão que envolvam a pesquisadora (tais como planos de aula, artigos científicos, participação em eventos, projetos de pesquisa e extensão, etc). Prevê-se, ainda, a realização de entrevista em profundidade com a pesquisadora, no sentido de complementar inferências sobre ações de diálogo empreendidas por ela e não endereçadas nesses documentos analisados. Interessa a essa análise entender como, a exemplo das práticas sociais e do debate social sobre o Jornalismo, também a academia se vê à mercê da midiatização e encontra nela suportes para outros diálogos não necessariamente previstos pelas instituições. 2. Ângulos de contribuição de nossa pesquisa ao conhecimento comunicacional Na sociedade dos meios, os papéis dos sujeitos da comunicação eram facilmente identificáveis – estudávamos ora a instância de produção, ora o produto ou a recepção. Não problematizo se alguma vez na história humana a Comunicação foi efetivamente linear, mas destaco que o estudo de suas instâncias era mais preciso em termos de mensuração de papéis e funções. Falar em processo de midiatização é justamente questionar essa linearidade da comunicação, pensando em circuitos

680

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

que envolvem diferentes instâncias sem que necessariamente uma seja ativa e outra passiva no processo comunicacional. Assim, como assinala Fortunati (2005, p.34), em vez de meramente se adaptar à lógica midiática, os atores sociais passam a ter a possibilidade de abrir canais próprios para se comunicar diretamente com o público em geral ou com audiências específicas. Configuram-se, assim, as condições de realização do modelo democrático de comunicação pública da ciência, que se pauta por uma relação dialógica e igualitária, em termos de interlocução, entre cientista e público (CUEVAS, 2008), da qual os chamados blogs científicos são a expressão mais recente (AGUIAR, 2012, p.34).

Entendemos que sujeitos sociais fundaram práticas que se tornaram protocolos ao fazer-midiático, bem como sujeitos discutem e reestruturam, hoje, a rotina dos meios de comunicação de massa – ainda que em movimentos tímidos. Sendo assim, não podemos ignorar que as ações acadêmicas sejam também retrabalhadas em falas individuais e informais, muitas vezes à revelia de registros institucionais. E de que forma os estudos em Jornalismo têm lidado com essa circulação? De certa forma, as pesquisas acadêmicas respondem ao cenário de circuitos, ao trabalharem questões como jornalismo colaborativo ou agendamento em redes sociais. Contudo, não se encontram trabalhos que deem conta da circulação das falas

681

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

acadêmicas sobre o Jornalismo em circuitos não institucionais. É justamente sobre isso que se debruça nossa investigação: buscamos desvelar circuitos de saberes em Jornalismo fora dos muros universitários. Com essa pesquisa, tensionamos não apenas o fluxo comunicacional de produção midiática como também refletimos sobre os circuitos que estão envolvidos na produção de diferentes tipos de saberes em Jornalismo. Partimos da hipótese de que os saberes acadêmicos devam servir de insumo prático, analítico e/ou reflexivo também para problemas extra-acadêmicos e queremos analisar como essa circulação de saberes se dá no que concerne ao Jornalismo. Os estudos realizados por ocasião da confecção da tese não se pretendem como conclusões definitivas acerca da circulação do conhecimento na área para uma sociedade midiatizada. Nem pretendemos fundar teorias generalizantes sobre saberes acadêmicos e não acadêmicos. Em contrapartida, acreditamos que a análise da produção de circuitos ao entorno das realizações da pesquisadora Márcia Amaral possam suscitar dados relevantes, que permitam realizar inferências sobre a relação entre práticas institucionalizadas e atividades individualizadas na composição dos saberes em Jornalismo. Pretendemos estabelecer inferências e possibilidades sobre a maneira como atos individuais incidem sobre práticas institucionalizadas e, por vezes, burlam essas práticas. Ou seja, nos interessa – e cremos que essa seja uma contribuição ao campo – entender de que maneira as novas lógicas de circulação midiática incidem também sobre as circulações acadêmicas.

682

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR, Sonia. O papel das universidades na midiatização das ciências: cenários, processos e estratégias. In: FAUSTO NETO, Antonio (org.). Midiatização da ciência: desafios e possibilidades. Campina Grande: EDUEPB, 2012. BRAGA, José Luiz. Dispositivos Interacionais. Anais. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Epistemologia da Comunicação, do XX Encontro da Compós, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011. FAUSTO NETO, Antonio. A circulação além das bordas. Texto apresentado no Colóquio “Mediatización, sociedad y sentido”. Convênio CAPES/MYNCT, Agosto/2010, Universidade Nacional de Rosário, Argentina, 2010. GUSMÃO, Luís de. O Fetichismo do Conceito: Limites do conhecimento teórico na investigação social. Rio de Janeiro: TopBooks, 2012. SANTOS, Boaventura de Souza. Introdução a uma ciência pós-moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

683

Sumário

89 Crise e Debilidade da Mediação Jornalística

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Antonio Fausto Neto As lógicas e operações digitais que estruturam e dinamizam a ‘relação com o outro’ e a ‘relação com os dados’ afetam e produzem transformações complexas nas instâncias de mediações, que historicamente, se colocaram como ‘elos de contatos’ entre os sistemas complexos e os atores sociais. Na condição de ‘peritos’ que receberam delegações dos seus próprios campos sociais,os mediadores se percebem atravessados pela presença de ‘exércitos de amadores’ que fustigam suas identidades, põem em questão seus diplomas, como ‘emblema de reconhecimento’, e manejam, segundo procedimentos de auto-instrucionalidades conhecimentos que, até então, eram propriedade de corpos de especialistas e regulados, segundo código profissionais. O ‘assédio’ que afeta o mundo dos especialistas, de modo geral, debilita também o campo jornalístico, especialmente a atividade dos seus funcionários. Registros destes processos se manifestam na organização dos ambientes produtivos, que se estruturam segundo novos modelos de rotinas produtivas; no status, perfil e nos processos formativos dos seus atores; nas especificidades de um trabalho enunciativo fundado na autonomia e na testemunhalidade do jornalista, enquanto o mediador, constituído por uma representação delegada pelos demais campos sociais: e também nas suas relações com os leitores. A formulação de Robert Dahrton – “noticia, tudo que couber a gente publica” – que simbolizava

684

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

a autonomia que o jornalismo/ta gozava para construir/relatar realidades, parece debilitada ou mesmo, condenada ao desaparecimento, na medida em que tal atividade de mediação se mostra crescentemente afetada por dinâmicas, de processos e de operações sócio-tecnico-discursivos que constituem a ‘sociedade em vias de midiatização’. Nos valemos de registros que emanam de manifestações do campo jornalístico, especialmente as suas relações com ‘acontecimentos complexos’. A recente exibição ‘ao vivo’ pelo Jornal Nacional, durante 4 minutos, de imagens sobre as manifestações rua, enviadas pelos tele expectadores, é um dos exemplos desta nova dinâmica que põe em questão o status mediacional do dispositivo midiático.

685

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

90 Aproximações e tensionamentos entre a circulação crítico midiática e o jornalismo Eloísa Klein Ao pensarmos em processos comunicacionais, buscamos compreender como se constituem as relações entre pessoas, objetos, produtos, meios tecnológicos, instituições, campos sociais, ambiente – considerando-se os contextos histórico, social, cultural, econômico como pertinentes para o que comunicacionalmente fazemos. Estas relações são buscadas como forma de superar a limitação a um pensamento esquemático de comunicação, frequentemente associado ao modelo de produção dos grandes conglomerados midiáticos, com tendência a tratar de produtos culturais como criação unilateral de uma “esfera de produção”, à revelia dos interesses e do contato com a “recepção”, sendo que à recepção se imporiam, igualmente, as características do meio tecnológico usado para a fabricação, disseminação e uso de um produto. Pela crítica epistemológica ao enquadramento esquemático, demanda-se a complexificação do olhar à comunicação, pensada, assim, como processualidade. Estudos de Discurso pensam a circulação social de sentido, superando a ideia de uma produção que inaugura um conteúdo em sua totalidade e o impõe ao social. Em perspectiva similar, os estudos de Gênero, na linha dos estudos culturais, procuram observar como socialmente se formam “parâmetros de reconhecimento” de produtos culturais. Em relação ao jornalismo, a visada relacional

686

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

contempla a busca do leitor inserido no jornalismo, a análise da crítica de mídia, a constituição social de abordagens e reflexões sobre o discurso jornalístico, os processos organizacionais, institucionais e de relacionamento com pessoas de outros campos como parte do trabalho do jornalismo. Os estudos culturais e de recepção desenvolveram a crítica à concepção limitada da participação das pessoas que acessam os produtos culturais como receptoras passivas de conteúdo e de formatos pré-programados de meios tecnológicos – observando que, ao contrário, as pessoas estabelecem suas próprias significações (GOMES, 2004, p. 174). Pesquisas com visada interacional pensam como as interações sociais constroem a realidade, por processos intersubjetivos, que em sociedades mediatizadas são atravessados por questões tecnológicas e midiáticas diversas. No âmbito da interface de Comunicação e Educação, são elaboradas considerações sobre o desenvolvimento de habilidades e competências pela relação contínua com a mídia. Entre os estudos sobre Tecnologias da Informação e Comunicação, encontramos perspectivas que se preocupam com as transgressões e desvios nos usos das tecnologias, que acabam resultando na reconfiguração de produtos existentes e desenvolvimento de outros. Consideradas estas angulações, podemos pensar que os processos comunicacionais estão a se realizar continuamente, com transformações e permanências, com agregação de novidades e manutenção de características de coisas previamente experimentadas – sendo que o pensamento linear, com a busca de começo e fim de cadeias comunicacionais, não contempla

687

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

a complexidade destas processualidades. Podemos pensar, igualmente, que há uma cotidianidade da presença de objetos desenvolvidos tendo a comunicação como objetivo, bem como a cotidianidade das instituições midiáticas e “indústrias culturais”. Esta cotidianidade nos permite questionar a ideia de produtos controladores de circuitos comunicacionais, posto que podemos pensar que há uma bagagem da experiência com a mídia que participa tanto da elaboração destes produtos como do modo como eles circulam socialmente. Além disso, se admitimos que as pessoas atuam na significação, e se considerarmos a ação de crítica midiática (considerando-se mídia corporativa, mídias sociais e outras experiências de ‘mediação tecnológica’), podemos pensar também que fazemos coisas, o tempo todo, com a mídia e com nossos circuitos comunicacionais, convocados para a realização das mais variadas atividades. A reflexão a respeito dos processos comunicacionais como sendo contínuos, sobre a cotidianidade dos objetos, instituições e práticas midiáticas entre nós, e acerca da atividade social sobre a mídia e sobre os circuitos comunicacionais fundamenta a compreensão de processos de circulação que vão além da ideia de distribuição, disseminação ou troca de produtos/ informações. Braga (2011) considera a circulação “como um fluxo incessante de ideias, informações, injunções e expectativas que circulam em formas e reconfigurações sucessivas”. Este fluxo interacional é abrangente e “não se manifesta como uma ida-e-volta entre participantes” (quando o emissor fala e o receptor devolve um retorno), mas por “um fluxo comunicacio-

688

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

nal contínuo e adiante” (BRAGA, 2011b, p.6). Esta circulação ocorre “em processos diferidos e difusos”, envolvendo múltiplos circuitos, que se embaralham, fazendo com que “ideias, proposições, imagens, posições polêmicas e tendências expressas” se reforcem, se contraponham, despareçam ou retornem (2011b, p.6). Esta circulação envolve, ainda, pela mediatização da sociedade, uma articulação crescente aos processos de escuta e produção centrada no receptor – com o que Braga observa um contrafluxo, da recepção à produção: “alguma coisa retroage, ‘modificando’ a produção a partir das expectativas sobre sua recepção e pela repercussão destas expectativas na configuração das falas” (idem, p. 7). Sendo a comunicação “tentativa”, estes processos experimentais incidem sobre os dispositivos interacionais, que são “as matrizes sociais que vão sendo tentativamente elaboradas para assegurar a interação” (BRAGA, 2011, p. 15). Considerando-se a característica de “fazer coisas com a mídia”, observamos que a circulação envolve tanto a experiência cotidiana sobre a mídia, como uma fala mais ou menos organizada sobre esta experiência, que participa de uma espécie de conversação dispersa, que eventualmente possibilita a manifestação de crítica, de ressignificação de conteúdos, ou o desenvolvimento de produções midiáticas e de outros circuitos comunicacionais. Envolve, também, a disseminação de produtos midiáticos, imagens, textos, sons, vídeos em circuitos sociais. Nestes casos, é possível que haja adição de comentários ou transformações materiais e de conteúdo, a

689

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

reutilização, elaboração de materiais com características distintas das originais, a colocação de produtos, objetos, ideias em circuitos além daqueles originariamente previstos – como também o retorno deste trabalho social aos circuitos comunicacionais que os impulsionaram. Tais âmbitos da circulação foram historicamente difusos, diluídos na experiência social. Contemporaneamente, as redes sociais na internet têm nos permitido observar processos de circulação singulares, que se desenvolvem de forma associativa às características destas redes, ao mesmo tempo acionando características de formas de comunicação anteriores. Algumas questões atuam na acelerada diversificação das possibilidades de realização da circulação comunicacional e midiática. O acesso a meios tecnológicos que permitem o registro imagético e audiovisual de aspectos da realidade, e disponibilizam ferramentas de edição e manipulação deste conteúdo, favorece a disseminação de uma pluralidade de vozes e de informações sobre locais, eventos, pessoas, culturas. A possibilidade de conexão “permanente” facilita a disseminação de conteúdos e elaboração “coletiva” de variações destes, ou criação de outros conteúdos, e também permite que assuntos sejam continuamente comentados, que ideias e imagens fragmentadas sejam parte das sociabilidades contemporâneas, que uma ação ou evento singular sejam replicados no mundo inteiro. Desde minha trajetória de pesquisa, uma das questões em investigação, contemporaneamente, é a de que, se a comunicação alternativa de resistência à ditadura nos anos 1970 demandava a criação de outros meios de comuni-

690

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cação (e estes meios também acabavam possibilitando a criação de circuitos comunicacionais e políticos em torno de si), as visadas alternativas em relação aos circuitos comunicacionais midiáticos do século XXI estão em boa medida ancoradas na própria circulação comunicacional, a partir dos circuitos difusos criados, sobretudo, a partir da internet, redes digitais e tecnologias móveis. A acelerada diversificação da circulação repercute no modo como pensamos os processos comunicacionais. Entre as perspectivas visualizadas a partir do contexto contemporâneo destaca-se a ideia de um esvaziamento da mediação – que afetaria substancialmente o campo jornalístico, constituído como campo profissional especializado na realização da mediação das informações entre os vários campos, entre os cidadãos e o Estado, entre os habitantes de lugares variados. Uma das apostas é a de que as pessoas estariam a todo tempo envolvidas com a realização dos acontecimentos do mundo – e não mais dependeriam da atividade de síntese de eventos, de condensação de conteúdos, de aglutinação de falas feito pelo jornalismo e que demandaria, assim, uma periodicidade, um ponto temporal específico para a atividade de “se informar”. Rompidas as barreiras de tempo e espaço, esta periodicidade perderia sua justificativa, como também aquele modo de narrar (do jornalismo) perderia espaço, em detrimento desta experiência total do contato, conexão, circulação. À parte algum nível de “previsão” sobre as transformações na comunicação, observo a pertinência da demanda de tais perspectivas teóricas para a realização de um tensionamento

691

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

aos processos comunicacionais que predominaram, com relação às instituições midiáticas, no século XX, a partir da formulação de questões sobre os contextos atuais e por análise de casos empíricos. Em minha pesquisa de doutoramento (KLEIN, 2012), com o estudo do programa Profissão Repórter, observei que, em alguns momentos, o jornalismo convoca a circulação como parte de seus processos de constituição de produtos, aproveitando o conhecimento prévio sobre a mídia para a atualização de sua linguagem, prevendo e contando com a realização de atividade crítica sobre a emissão original, e com a circulação diversa, inclusive com interferências e transgressões. Pesquisas do campo da Comunicação apontam para a reinserção do jornalismo nos circuitos comunicacionais mediatizados por tecnologias digitais, com transformações nas características discursivas, na temporalidade, nas rotinas de trabalho de seus profissionais, no tipo de proposta de vínculo com o público. De alguma forma, os fluxos dispersos dos circuitos comunicacionais em redes digitais confluem com o jornalismo e suas características de trabalho com informações e relação com o mundo. Minha pesquisa contemporânea tem a preocupação de observar como se desenvolvem estas confluências, quais as relações estabelecidas entre a circulação e o jornalismo e como elas nos contam sobre a complexidade dos processos comunicacionais contemporâneos. Estas interrogações também nos permitem pensar sobre as continuidades e transformações na relação do jornalismo com os acontecimen-

692

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tos, com um tipo de discurso informativo, com as pessoas e sua experiência no mundo. Referências BRAGA, José Luiz. Mediações e Mediatização. Circuitos versus Campos Sociais. São Leopoldo: Unisinos, 2011. ______. A política dos internautas é produzir circuitos. São Leopoldo : Unisinos, 2011b. ______. Dispositivos interacionais. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Epistemologia da Comunicação, do XX Encontro da Compós, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, de 14 a 17 de junho de 2011. 2011c.

693

Sumário

91 Acoplamentos e Reconfigurações do Jornalismo

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Demétrio de Azeredo Soster

RESUMO A pesquisa em processo busca compreender as reconfigurações que se estabelecem na práticas jornalísticas quando seus dispositivos, mais que vetores de midiatização, são afetados pela processualidade dessa, midiatizando-se. Ao fazê-lo, provocam afetações tanto no âmbito dos dispositivos (jornais, revistas, rádios, televisões, livros, sites etc.) quanto no sistema em que se inserem, jornalístico. O foco da pesquisa, nesse momento, recai sobre o acoplamento estrutural que se verifica entre o sistema jornalístico e o literário, e que transforma a ambos, em uma perspectiva relacional. Denominamos esse movimento, o diálogo entre dois sistemas, de “dialogia”, e o identificamos como característica do jornalismo midiatizado, ao lado das já nominadasauto-referência, co-referência, descentralização e atorização. O recorte analítico se estabelece sobre o que chamamos de livros-reportagem e biografias de natureza jornalística. Ou seja, dispositivos cuja natureza discursiva é jornalística, mas que se valem, em suas operações,de elementos da narrativa literária para gerar sentidos e estabelecer, assim, diferenças que gerem diferenças.Ao fazê-lo, a) garantem sua manutenção como dispositivos do sistema jornalístico e b) fortalecem

694

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

seus traços identitários b.1) frente aos demais sistemas e b.2) ao meio em que se insere,complexificando, dessa forma, toda uma ecologia comunicacional.Isso se verifica, para ilustrarmos com um exemplo, quando, nesse cenário, as fontes jornalísticas sofrem uma mudança de estatuto e passam a ocupar o lugar de personagens da narrativa em questão. PALAVRAS-CHAVE: jornalismo midiatizado, midiatização, dialogia

695

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

BLOCO B 92 A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL PIAUIENSE NA REVISTA REVESTRÉS Afonso Rodrigues Bruno Neto

INTRODUÇÃO Quando se fala na região Nordeste, é comum ter em mente os elementos culturais ligados à cultura sertaneja. De fato, a região foi construída historicamente utilizando o sertão como critério de distinção das demais regiões do país. O Nordeste surgiu como área tipicamente sertaneja, castigada pelas secas, terra de um povo sofrido e lutador, que encontra na devoção e na religião um alento para os períodos de calamidade. A identidade cultural piauiense, seguindo essa perspectiva, é, até hoje, associada quase que exclusivamente à tradição, seja por segmentos da história, seja pelas políticas culturais oficiais. Além disso, o Piauí repetiu historicamente o discurso vitimológico, colocando o atraso econômico, social, político, tecnológico e cultural como suas marcas identitárias, o que construiu uma identidade piauiense sob o estigma da inferioridade, com problemas em sua auto-estima.

696

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Ocorre que o momento em que se vive permite uma reflexão crítica a respeito das identidades culturais. Os processos de globalização, acelerados desde a década de 70 do século XX, permitem um maior fluxo de pessoas entre as regiões do planeta, e isso, por sua vez, possibilita um ambiente em que os encontros e trocas culturais são cada vez mais constantes, gerando culturas híbridas, resultado do cruzamento entre a tradição e o moderno e entre o local e o global. Essa discussão, do hibridismo cultural e do papel das tradições locais na sociedade global, pode ser trazida ao contexto local, com o debate sobre os novos caminhos para se pensar a identidade cultural piauiense a partir das transformações ocorridas desde o processo de modernização da capital, Teresina, até os dias de hoje, em especial no que toca à produção cultural. OBJETIVOS O objetivo desta pesquisa é analisar a identidade cultural piauiense construída na revista Revestrés, publicação piauiense do gênero jornalismo cultural, de periodicidade bimestral, surgida no ano de 2012, que aborda a produção cultural piauiense, seja nas artes, na música, no teatro ou na literatura, e traz, ainda, a palavra de intelectuais, em artigos de opinião e entrevistas. Para tanto, surge a necessidade de discutir determinados conceitos referentes ao estudo das identidades no cenário

697

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

atual, como os de nação, comunidade imaginada, cultura da mídia e tradição. Além disso, é preciso, também, contextualizar a problemática, a partir do estudo de como a identidade cultural piauiense foi construída historicamente. METODOLOGIA Para atingir os objetivos a que se propõe, este trabalho adota a técnica da análise de conteúdo categorial, de caráter descritivo e qualitativo, aqui explorada a partir dos conceitos de Bardin (1977) e Gomes (2008). Cumpre destacar, nesse aspecto, que a análise qualitativa preocupa-se com a presença ou ausência de determinados temas nos textos analisados e segue as etapas de descrição, categorização, inferência e interpretação, momento em que se vai além do material para se alcançar uma discussão mais ampla, o que permite, no caso concreto, inserir a produção jornalística no contexto histórico e social e, a partir daí, analisar a identidade cultural piauiense construída nas edições de Revestrés. Cumpre destacar, ainda, que o corpus desta pesquisa são as cinco primeiras edições da revista Revestrés, lançadas no ano de 2012. RESULTADOS E DISCUSSÃO Após a leitura das edições da revista, chegou-se a seis categorias de análise, que são: a relação tradição/contem-

698

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

porâneo; o espaço urbano e a memória; a produção cultural piauiense; os personagens da comunidade imaginada; a integração do local ao nacional; e, por fim, o hibridismo cultural. Quanto à relação tradição/contemporâneo, existe, na revista, um diálogo entre o novo e o velho, entre a tradição e o contemporâneo, em que um não anula o outro, mas ambos se transformam e se complementam, e fornecem material para uma nova forma de ver a identidade piauiense. No que diz respeito ao espaço urbano e à memória, Revestrés fornece elementos da arquitetura e da paisagem que remetem a lembranças capazes de despertar identificação, construindo, assim, uma comunidade imaginada piauiense. Uma terceira categoria da análise cuida da visibilidade dada pela revista à produção cultural piauiense. A leitura das cinco edições da revista sugere que o estado possui uma produção rica no campo da cultura, o que vai de encontro à imagem de atraso que marcou a identidade piauiense no século XX. Já quanto aos personagens da comunidade imaginada, é recorrente em Revestrés a presença de matérias que destacam um personagem e sua história, representados a partir de uma relação de proximidade tal que permite inferir que eles fazem parte do imaginário popular local. A integração do local ao nacional é uma questão cara à historiografia piauiense, visto que o estado ressentia-se do isolamento geográfico e do abandono oficial desde o período colonial. Observa-se, nesse sentido, em Revestrés, a presença de mecanismos que tentam inserir o Piauí na história brasileira.

699

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A sexta categoria, que cuida do hibridismo cultural, revela-se como uma espécie de categoria central, que engloba as demais, visto que, em todas elas, há aspectos das transformações decorrentes do encontro entre culturas diferentes, seja nas tradições revisitadas, nas mudanças operadas pela modernização no espaço urbano, na nova produção cultural, inserida nos grandes eixos urbanos, seja na integração do Piauí com o Brasil, que revela, na verdade, um encontro entre o local e o global. CONSIDERAÇÕES Percebe-se, das análises já empreendidas, que há em Revestrés uma tentativa de reformular a ideia de identidade cultural piauiense. A tradição não é esquecida ou rejeitada, mas não ocupa mais o lugar de única marca identitária da comunidade. Ao invés disso, o Piauí é retratado como espaço de transformações, em que convivem o antigo e o atual, o local e o global, e nesse encontro ambos se ressignificam. Pode-se falar, assim, em uma identidade híbrida, fragmentada, plural. Mais do que isso, a identidade cultural piauiense encontra-se em uma fase reflexiva e aberta. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 2ed. São Paulo: Cortez, 2001.

700

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ALENCASTRE, José Martins Pereira de. Memória Cronológica, Histórica e Corográfica da Província do Piauí. Teresina: COMEPI, 1981. ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa : Persona Edições, 1977. BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. ______. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999. CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999. CASTELO BRANCO, Renato. O Piauí: a Terra, o Homem, o Meio. 2 ed. São Paulo: Quatro Artes, 1970. FEATHERSTONE, Mike. Cultura Global: nacionalismo, globalização e modernidade. 2ed. Petrópolis: Vozes, 1998. GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole. 6ed. Rio de Janeiro: Record, 1999.

701

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

GOMES, Romeu. Análise e interpretação de dados de pesquisa qualitativa. In: MINAYO, Maria Cecília de Souza (org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 27ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2006. HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Edições Loyola, 1992. HOBSBAWN, Eric; RANGER, Terence (org.). A invenção das tradições. São Paulo: Paz e Terra, 1997. KELLNER, Douglas. A Cultura da Mídia. Bauru: EDUSC, 2001. NUNES, Odilon. O Piauí na História. Teresina: COMEPI, 1975. QUEIROZ, Teresinha. Do Singular ao Plural. Recife: Edições Bagaço, 2006. SAID, Edward. O Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990 SILVA, Tomaz Tadeu (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. SOUZA, Paulo Gutemberg de Carvalho. História e Identidade: as narrativas da piauiensidade. Teresina: EDUFPI, 2010. THOMPSON, John B. A Mídia e a Modernidade: uma teoria social da mídia. 7 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.

702

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

93 Um Olhar Sobre Si: a oferta de identidades culturais piauienses nas Caravanas Meu Novo Piauí e TV Cidade Verde 25 anos Leila Lima de Sousa Quando se pensa na região Nordeste não é difícil vir à mente a imagem do vaqueiro ou de outros símbolos que de uma maneira geral remetam à cultura sertaneja. Isso acontece pelo fato da região ter sido construída historicamente tendo no sertão o critério de distinção em relação às outras regiões do país. Por isso, quando se fala em seca, messianismo e pobreza não é difícil que se trace um paralelo com a região nordestina. O Nordeste foi construído no imaginário social como a região da seca e para Antunes (2002, p. 125) a identificação entre ambos é “perfeitamente natural e compreensível, pois a seca foi a matriz, a “mãe” da região, aquilo que, desde o início (finais do século passado) lhe conferiu uma identidade própria”. As identidades nordestinas foram arquitetadas tendo a imagem do sertão como elemento simbólico definidor, assim elas estão ligadas às péssimas condições climáticas e sociais, à pobreza, ao sofrimento, a luta e a fé, o forte apego à religião como forma de creditar à natureza e à vontade divina a responsabilidade pelos problemas da região, tornando-os dessa forma, imutáveis. Representado na mídia nacional como uma cultura fortemente ligada às tradições, ao messianismo, saudosismo e romantismo, o Nordeste foi inventado pelo Sul, construído pelo

703

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

olhar do “Outro”, o de São Paulo, que era tido na década de 30, como o centro econômico e político do país. São Paulo, aos intelectuais da época, assemelhava-se à Europa e o Nordeste, tinha uma imagem medieval, de subdesenvolvimento econômico, político e social, marcado pelo atraso em relação ao restante do país (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2006). Com o Piauí não foi diferente. As identidades piauienses foram construídas historicamente, internalizadas e naturalizadas no imaginário social fazendo analogia à imagem do vaqueiro, à simbologia do boi e do couro. A identidade cultural piauiense foi construída tendo como base o determinismo econômico, devido ao período da colonização em que a pecuária constituía a principal atividade econômica do Estado. E muito embora hoje a pecuária já não tenha papel fundamental na economia do Estado esta tradição ainda é muito divulgada pela mídia local e pelos governos como forma de ofertar ao piauiense, um lugar de identificação e perpetuar relações de poder. Através da ideologia da cultura sertaneja, a memória histórica do piauiense é acionada no sentido de observar estes símbolos como autênticos representantes da identidade cultural do Piauí. É fácil perceber que ainda há um esforço de instituições, da política local e da própria mídia para enfatizar a valorização da tradição e dos costumes como elemento definidor da identidade piauiense. Desse modo, as identidades piauienses foram construídas tendo como pano de fundo o sentimento da nação, a comunidade imaginada que oferta aos sujeitos a ideia de estarem aglutinados a experiências comuns,

704

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

uma espécie de “camaradagem” instituídos como verdade nas mídias nacionais e locais e que garantem, em certa medida, a perpetuação de tradições que já não traduzem mais a realidade (HALL, 2000a; FEATHERSTONE, 1997). Para Souza (2010), a historiografia a partir do século XIX, teve papel fundamental na construção, ou como propõe o autor, na “invenção das identidades culturais piauienses”. Foi neste período que os primeiros registros da identidade do Estado passaram a ser descritos. As primeiras caracterizações da província Piauí vieram com os historiadores Clodoaldo Freitas, Abdias Neves e Higino Cunha e a interpretação que estes fizeram “sobre as origens históricas e a colonização do Piauí, bem como as suas explicações quanto ao atraso material e intelectual do Estado, atravessaram décadas” (SOUZA, 2010, p. 257). Assim, a identidade piauiense foi historicamente arquitetada pelos conceitos “do abandono, do isolamento e do determinismo geográfico para explicar o atraso material e cultural (que teria se prolongado no tempo), tal como formularam os intelectuais-historiadores” (p.257). Mas não foi só a história a responsável pela construção das identidades piauienses. Também na música, na literatura, nas artes e nas imagens midiáticas, a figura do vaqueiro e os símbolos que remetem ao sertão aparecem como elementos definidores da identidade do Estado. Neste sentido, as tradições locais seguem os elementos desta identidade histórica, fato que pode ser percebido nas brincadeiras infantis, nas cantigas, nas danças e também, como apregoa Fortes Said (2003,

705

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

p. 343), na caracterização do “nome de cidades, pelo vestuário, pelas expressões de fala”. No entanto, com as intensas modificações sociais, políticas, culturais e econômicas ocasionadas a partir da década de 60, do século XX, através da intensificação do processo de globalização, faz-se necessário verificar as identidades culturais e sua constituição a partir de uma postura crítica. A globalização trouxe consigo o desenvolvimento do turismo e o barateamento e aprimoramento dos meios de transporte, fato que possibilitou migrações e a emergência de intensos fluxos culturais, resultantes da troca e do encontro entre diferentes culturas. Podemos dizer que as culturas são cada vez mais híbridas e resultam do diálogo entre o novo e o antigo, o tradicional e o moderno, gerando elementos novos. Levando em consideração que o Piauí vivencia as consequências do processo de globalização, da desterritorialização e do diálogo com diferentes identidades, partindo da concepção da identidade como algo que é reconstruído, ressignificado e remodelado constantemente, interessa saber as particularidades ou não dos discursos da mídia local, na construção e/ou ressignificação das identidades piauienses. O objetivo desta pesquisa é, portanto, descrever, analisar e mapear a oferta de elementos identitários piauienses visibilizados nos programas Caravana TV Cidade Verde 25 anos e Caravana Meu Novo Piauí, programas especiais produzidos pelas emissoras regionais piauienses TV Cidade Verde e Meio Norte, que visitaram e narraram durante determinado período de tempo a história de alguns municípios do Estado.

706

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Mas, afinal, o que são “Caravanas”? Denominados de “Caravanas”, os programas da TV Meio Norte (Televisão regional – independente) e TV Cidade Verde (afiliada do SBT) são compostos por uma série de matérias especiais resultantes de um “passeio” pelos municípios piauienses. Mensalmente uma equipe jornalística e de técnicos de ambas as Tvs, era enviada para determinada cidade piauiense, e lá narravam a história do local e de seus habitantes, exaltando e apresentado as particularidades e potencialidades de cada localidade, bem como enfocando características marcantes da população. A caravana realizada pela TV Meio Norte foi exibida de julho de 2009 a fevereiro de 2010 e recebeu a denominação “Caravana Meu Novo Piauí”1 . A Caravana em questão foi produzida no momento em que a emissora começava a implantar o seu processo de regionalização. Buscava-se naquele instante, entre outras coisas, aproximações maiores com os espectadores do restante do Estado. Ao todo três equipes de jornalistas da TV, jornal e Portal Meio Norte, além de técnicos, fizeram parte do projeto. Na TV, as reportagens realizadas foram veiculadas diariamente, uma semana por mês, nos telejornais “Agora” no período vespertino, e “70 Minutos”, no período noturno.

1 Ressaltamos que nomenclatura do programa da TV Meio Norte coincide com o slogan adotado pelo Governo do Estado, em peças publicitárias que tratam de investimentos em obras de melhoria nos municípios piauienses, exibidas nas Tvs abertas locais tanto na época de realização da Caravana(Governo Wellington Dias, PT), como atualmente(Governo Wilson Martins, PSB).

707

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O programa da TV Cidade Verde foi conhecido como “Caravana TV Cidade Verde 25 anos”, pois marcava as comemorações das bodas de prata da emissora, e teve a duração de um ano (de janeiro a dezembro de 2011). A equipe de trabalho era formada por mais de 30 profissionais, entre fotógrafos, repórteres de TV e portal, produtores, técnicos, cinegrafistas, entre outros. Os programas da “Caravana TV Cidade Verde 25 anos” foram veiculados uma vez por mês no Jornal do Piauí (horário do começo da tarde), que saía dos estúdios onde a TV está localizada (cidade de Teresina, capital do Piauí) e era transmitido ao vivo de cada cidade visitada. As reportagens especiais de ambas as Caravanas foram produzidas a partir do levantamento de informações dos municípios visitados que diziam respeito a questões econômicas, políticas, culturais, sociais e de infraestrutura, bem como através de entrevistas com a população, inclusive com empresários e políticos locais. Cada cidade escolhida foi “vivida” durante um espaço de tempo pela equipe jornalística (mais ou menos uma semana) que fez uso desse período para eleger os sentidos identitários de cada cidade que mereciam ser veiculados e também para a definição de entrevistados e das histórias a serem contadas. O corpus de análise desta pesquisa é constituído por 20 programas, 11 da Caravana Meu Novo Piauí (quantidade total dos programas) e nove da Caravana TV Cidade Verde 25 anos (quantidade total dos programas). Por se tratar de um número relativamente pequeno e ser possível analisá-lo dentro do tempo que se dispõe para a realização do estudo, opta-

708

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

mos por utilizar o universo como um todo, o que caracteriza a pesquisa como censitária, e não apenas parte deste, fato último que caracterizaria a pesquisa por amostragem (Noveli, 2006). O recorte temporal é o período no qual foram exibidas as Caravanas: Caravana Meu Novo Piauí, julho de 2009 a fevereiro de 2010; Caravana TV Cidade Verde 25 anos, de janeiro a dezembro de 2011. Esta pesquisa, que ainda está em fase de experimentação, traz uma discussão e análise dentro dos estudos de comunicação, para a necessidade de observar a influência que os meios de comunicação e, em especial, a televisão, detêm na formação identitária dos sujeitos. Partimos do pressuposto de que os meios de comunicação, em especial a televisão, instituem identidades coletivas, propagam estereótipos e representações sociais. A televisão assume hoje um papel que vai muito além de sua caracterização como um eletrodoméstico. Ela ocupa o lugar de meio socializador, sendo grande a sua influência na educação e na formação dos sujeitos. É por meio do consumo midiático que os atores sociais têm contato com o mundo que os cercam e com as identidades que com as quais irão se identificar. Na sociedade brasileira, a influência da televisão adquire uma importância grandiosa, dado o modo como os brasileiros incorporaram o uso dessa tecnologia de entretenimento e informação em seu cotidiano, de modo que não é difícil ouvir falar que determinado fato só terá credibilidade se veiculado na TV, tal como propõe o estudo de Correia e Vizeu (2008).

709

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Nesta pesquisa, verificamos, sobretudo, as estratégias utilizadas por emissoras regionais para criar laços de credibilidade e confiança para com o público telespectador. O público sente nessas emissoras que é representado, cria um laço de familiaridade, um lugar de visibilidade. Ao fazer uso da cultura local, as emissoras redefinem a identidade. Narram novas histórias, enfatizam elementos comuns, criam espaços de intercâmbio entre a empresa de comunicação e o público. Trata-se então de uma estratégia que tem feito modificações no próprio fazer jornalístico. Antes o que se percebia era uma certa distância entre público e a programação das emissoras, os canais de participação eram menores. Hoje, aos poucos vamos percebendo que a produção jornalística busca estar mais próxima do público, seja através da cobertura cada vez mais interligada entre as grandes redes e suas afiliadas, de modo a oferecer espaço global/nacional (já que as emissoras nacionais e também locais podem ser acompanhadas através de sites, em tempo real) a acontecimentos locais ou através das próprias emissoras regionais que buscam veicular os principais acontecimentos da região em que atuam. Palavras- Chave: Televisão, Identidades, Piauí, Caravanas Referências ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 2ed. São Paulo: Cortez, 2001.

710

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

ANTUNES, Nara Maria de Maia. Caras no espelho: identidade nordestina através da literatura. In: BURITY, Joanildo A. Cultura e Identidade: Perspectivas interdisciplinares. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. p. 125-141. CORREIA, João Carlos; PEREIRA JR, Alfredo Eurico Vizeu (org.). A sociedade do telejornalismo. Petrópolis: Vozes, 2008. FHEATERSTONE, Mike. O desmanche da cultura: globalização, pós-modernismo e identidade. Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Studio Nobel SESC, 1997. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2000a. NOVELI, Ana Lucia Romero. Pesquisa de opinião. IN: BARROS, Antonio; DUARTE, Jorge. Métodos e técnicas da Pesquisa em Comunicação. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2006. SAID, Gustavo. Dinâmica cultural no Piauí contemporâneo. In: SANTANA, R. N. Monteiro de (org.). Apontamentos para a história cultural do Piauí. Teresina: FUNDAPI, 2003. SOUZA, Paulo Gutemberg de Carvalho. História e Identidade: as narrativas da piauiensidade. Teresina: EDUFPI, 2010.

711

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

94 Identidade e Telenovela: As Representações do Piauí na Novela Cheias de Charme da Rede Globo de Televisão Núbia de Andrade Viana

Resumo Vivemos num período onde a questão da identidade se volta não mais para uma única essência, mas para o constante atravessamento de referências diversas, nas quais a fluidez da comunicação garante o contato entre os mais inatingíveis locais, causando uma desconstrução de velhas identidades, antes pensadas como imutáveis. Mas como entender essa rede de significados? Ainda tentamos eleger características que nos diferenciam e, mesmo diante da rapidez das transformações, ainda buscamos nos fixar a uma ideia de pertencimento. A mídia é um dos lugares onde esse tipo de caracterização é praticada. Conforme Martim-Barbero (2001), a mídia surge como um dos lugares “de onde se outorga o sentido ao processo dacomunicação”, ou seja, um espaço que produz entendimentos. Neste caso, a mídia seria uma grande força constituidora de padrões que geram sentido. Segundo Stuart Hall (1997), culturalmente partilhamos valores, significados e um conjunto de práticas, portanto, podemos entender que nos são oferecidos modelos que nos fazem

712

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

inserir todas as coisas num padrão, velho, novo, feio, bonito, bom, ruim.É importante esclarecer que esses modelos não são imutáveis, mas essas distinções categorizadas servem para nos diferenciarmos uns dos outros e de nós mesmos. Tudo isso é apreendido ao longo da nossa existência e se ressignifica ao longo da história do mundo. Não se perguntar como esses conceitos foram construídos é naturalizá-los. Diante da problemática sobre a identidade na contemporaneidade, procuramos entender como o Piauí, que já teve sua identidade tradicionalmente construída com base na família, na religião, tendo no vaqueiro uma figura de destaque, se apresenta atualmente em termos simbólicos-identitários. O estudo aqui proposto elege o Piauí como local simbolicamente construído ou propositalmente inventado�a partir de um produto midiático, a telenovela. Dentre as novelas que já foram apresentadas ao longo de mais de 50 anos, Cheias de Charme (2012), é a única telenovela que destaca o estado com mais relevância. Com o intuito de compreender como o estado é representado por esta telenovela e quais características são eleitas como estereótipos na constituição identitária do Piauí nesta narrativa analisaremos a competência representacional1 da telenovela, além da constituição e variação de identidades piauienses que aparecem na mesma. Com 143 capítulos, a telenovela de Felipe Miguez e Isabel de Oliveira é o objeto de estudo desta pesquisa. Sua sinopse revela a história de três Marias, Maria do Rosário, Maria da Penha 1 A capacidade de representar da Telenovela, sua competencia em descrever algo.

713

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

e Maria Aparecida, três empregadas domésticas, que num golpe de sorte gravam um clipe que vira sucesso na internet. As três tem seu sucesso atrapalhado pela cantora Chayene, uma piauiense que já foi aclamada rainha do eletroforró e que está com a carreira em queda. Ajudada por sua conterrânea e empregada doméstica, Maria do Socorro, Chayene arma diversos planos para separá-las. Nessa pesquisa analisaremos a telenovela podendo vislumbrá-la como um objeto sociocultural capaz de revelar traços culturais da sociedade em que se projeta. A reflexão será sobre as identidades manifestadas na amostra da telenovela. Não trataremos de seu aspecto mercadológico ou político. Diante das inúmeras possibilidades que o objeto empírico oferece, optamos por um que se adapte à problemática e aos objetivos propostos. Especificamente falando, é necessário compreender como a identidade piauiense se configurou nessa telenovela, quais elementos se destacam como piauiensese quais elementos novos a novela agrega às identidades do povo piauiense sempre em constante ressignificação. Para essa análise destacamos as cenas ambientadas no Piauí, além das cenas dos quatro personagens piauienses e das cenas em que são mencionados. Esses elementos apresentam-se significativamente para a identificação de marcas identitárias. Precisamente a pesquisa parte de uma problemática geral: como a telenovela Cheias de Charme representa o Piauí ou os piauienses? A partir daí dá lugar a perguntas mais específicas, como:

714

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

1. Quais os elementos identitários dos indivíduos piauienses construídos na telenovela? 2. Quais os estereótipos afirmados pela telenovela em relação ao Piauí? 3. Como os personagens piauienses são construídos em relação aos outros (sudestinos)? A telenovela afirma estereótipos baseados nos erigidos para o Nordeste no início do século XX, e o Piauí, como parte dessa região, também se baseia nestes estereótipos. Alguns deles são: a ignorância, a pobreza, o apego a tradições, a força, a cordialidade, as comidas exóticas, o sotaque acentuado, a religiosidade. Em oposição a esses estereótipos podemos citar a aproximação com o contemporâneo, como no caso de Chayene no quesito uso de tecnologias e moda. No entanto, ela apresenta aspectos que caracterizam o homem primitivo, como sua impulsividade, passionalidade e crenças em mitos e curas populares. O Piauí que aparece é um híbrido entre personagens de uma cidade pequena do litoral, Lagoa de Sobradinho, e a vivência deles no Rio de Janeiro, ou seja, o resultado da mistura entre o moderno e o tradicional. A metodologia adotada neste estudo é análise de conteúdo categorial, que toma como ponto de partida a mensagem e que se estrutura num conjunto de procedimentos que permite programação adequada às necessidades da pesquisa. A análise de conteúdo pode se organizar a partir das seguintes etapas: preparação da informação, unitarização ou codificação, categorização, descrição e interpretação.

715

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

A pesquisadora francesa Laurence Bardin (1988) é a responsável por uma estruturação do método da análise de conteúdo, dando a ele cinco fases: 1) Organização da análise; 2) Codificação; 3) Categorização; 4) Inferência; 5) Tratamento informático e interpretação. Na pré-análise e exploração do material, foi decidido trabalhar apenas as cenas da novela em que os personagens piauienses atuavam e os momentos em que outros personagens os citavam, na tentativa de compreender a relação dual de representação, tanto a partir dos personagens, quanto da concepção que outros personagens faziam deles. Dentre essas cenas definiu-se: as cenas de Chayenne, as cenas de Maria do Socorro, as cenas de Rivonaldo, as cenas de Dona Epifânia e as cenas de outros personagens falando sobre eles. A categorização semântica foi demarcada a partir dos seguintes temas: patriarcalismo e cordialidade; tipo físico; cangaço; fome e seca; falta de instrução; irracionalidade ou primitivismo; religiosidade exacerbada e tradição. Em oposição a esses temas temos os que aparecem na novela como características dos personagens do Sudeste: racionalismo, acesso ao estudo e ao desenvolvimento tecnológico, cientificidade, entre outros. Além desses é importante incluir categorias referentes ao Piauí baseados na cultura indígena, a cultura do vaqueiro e a valorização da família. Dentre os conceitos que nortearam a pesquisa estão os de identidade, de Stuart Hall e Manuel Castells, os de cultura, de Nestor Garcia Canclini, HommiBhabha e Edward Said, os da constituição identitária do Brasil, com Sergio Buarque de Holanda, e sua relação com

716

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

a constuitição do Nordeste, de Durval Muniz de Albuquerque, além da história do Piauí com Teresinha Queiroz, Claudete Dias e Tanya Brandão. O entendimento sobre essa provável elaboração de identidade, parte do Piauí, como um lugar simbólico construído nacionalmente a partir da mídia. Essa foi oferecida por uma grande emissora nacional, portanto, com maior pregnância. No entanto, sabe-se que nenhuma identidade é fixa, são múltiplas, contraditórias, deslocadas, em constante movimento2. Portanto o que a telenovela apresentou foi apenas um rascunho de algo que ainda se desenha e talvez não pare de ser rabiscado nunca.

2 HALL, Stuart. A identidade Cultural da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2007

717

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

95 Subjetividades e telenovela: representações midiáticas do narcisismo contemporâneo Nina Cunha A telenovela pertence a um gênero de ficção televisiva seriada que apresenta uma história contada por meio de imagens, diálogos e ação. De acordo com Vassalo Lopes (2003), a telenovela pode ser considerada um dos fenômenos mais representativos da modernidade brasileira e objeto de estudo privilegiado, em se tratando de cultura e sociedade. Os autores, ao produzirem enredos, mesmo que ficcionais, levam em consideração situações reais do cotidiano, recortam histórias da realidade brasileira, geram discussões, favorecem debates e, assim, instigam a curiosidade do público em acompanhar os capítulos. A produção midiática de ficção, em geral, reflete as culturas que as produzem e consomem, abordam tendências, hábitos, atitudes, ideias, crenças e valores. Sugerem pontos de contestação ou, na maioria dos casos, reforçam algumas práticas sociais. O código estabelecido entre produção e público tem que estar ao menos em sintonia, uma vez que a telenovela encontra-se subjugada a questão mercadológica, diretamente ligada à resposta da audiência. Conforme França (2007), a telenovela ocupa importante lugar na cultura e na sociedade brasileira, pois edifica um cotidiano na tela em estreita relação com a realidade social em que se situa, trazendo para a construção dos personagens as

718

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

preocupações, valores e os temas que cruzam a vida dos telespectadores e despertam sentimento de identificação. É na própria vida cotidiana que emergem os temas a serem trabalhados na ficção. Essa íntima relação entre telenovela/ sociedade e ficção/realidade tornou-se marca essencial do folhetim brasileiro. Os produtores de narrativas vão, de algum modo, refletindo conceitos atuais que surgem na complexidade das novas configurações sociais para galgar a identificação (e atenção) do público. Atualmente, há um cenário de mudanças significativas alastradas por todos os setores da sociedade: economia, cultura, política. Tais transformações afetaram a constituição do sujeito, que já foi encarado como centralizado e hoje é reconhecido por sua fragmentação e pluralidade. Compreendida como um bem cultural, a telenovela no Brasil pode ser interpretada como um texto sociocultural que muito diz sobre a sociedade contemporânea e a conformação subjetiva dos sujeitos que nela vivem. Para Guatarri & Rolnik (1996), a subjetividade não remete a uma posse, mas a uma construção constante, através do encontro com o outro. Sendo este outro, o outro social, a natureza, os acontecimentos e as invenções, ou seja, tudo aquilo que produz efeitos na maneira de enxergar o mundo. Para estes autores, participam do processo subjetivação vários componentes, resultantes da apreensão que o sujeito realiza de uma vasta heterogeneidade de elementos presentes no contexto social.

719

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O sujeito, segundo Deleuze (2001), é construído continuamente de acordo com a experiência, no contato com os acontecimentos e na relação com a alteridade. O sujeito se constitui pela ação das forças que circundam fora, e que, através de enfretamentos, afetam e passam a circular também dentro de si. Daí a importância do contexto sociocultural na construção das subjetividades. Nessa perspectiva, a subjetividade é composta e reformulada continuamente por múltiplos componentes exteriores, que conquistam relevância coletiva e são interpretados de variadas maneiras, de acordo com a vivência do sujeito. Embora uma construção pessoal, a subjetividade sofre influência fundamental do contexto histórico e das configurações sociais, em um processo concomitante de forças. Dessa maneira, para compreender a subjetividade contemporânea de maneira geral, ou ao menos algumas de suas principais características, há de se relevar as condições econômicas, sociais, políticas e culturais de nossa época. Diversas esferas da sociedade vivenciam mutações, cujas consequências, de acordo com Bauman (2001), esgarçam o tecido social, fazendo com que as instituições percam a solidez, sendo caracterizadas justamente pela fluidez e pluralidade. A modernidade líquida (BAUMAN, 2001) seria, então, o tempo de desapego, da efemeridade e da individualização, responsável por acarretar uma crise no sujeito, que se apresenta cada vez mais desnarrativo e fragmentado. Ao contrário da subjetividade moderna que se apoiava nas noções de interioridade e reflexão sobre si mesmo, a subjetividade contempo-

720

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

rânea se apoia no autocentramento e se associa, de maneira contraditória, ao valor da exterioridade. Portanto as subjetividades adquirem um formato mais estético. As individualidades se transformaram em objetos descartáveis e o que se sobressai é a exaltação gloriosa do próprio eu. (BIRMAN, 2000). Para Jameson (1997), as mudanças socioculturais da sociedade desestabilizaram a narrativa consolidada do sujeito de outrora, forçando emergir uma subjetividade engajada em jogos de diferenças flexíveis, que ultrapassou o individualismo e a rigidez da identidade burguesa, tornando-se hipernarcisística e alienada da participação coletiva. Na visão de Lipovetsky (2005), o descrédito dado à política e a dessindicalização trouxeram esse esvaziamento no sentido de coletividade, apresentando um sujeito que galvaniza todas as suas energias e esforços ao redor do eu. Essa supervalorização pessoal representa o último momento de uma sociedade que está se liberando da ordem disciplinar e completando a privatização sistemática já iniciada pelo consumismo desenfreado. Um dos aspectos mais relevantes das subjetividades, que ascendem no final do século XX, relaciona-se justamente as características do narcisismo, responsável por inaugurar, de acordo com Christopher Lasch (1983), um perfil inédito de sujeito. Este sujeito, destituído do sentido de uma continuidade histórica, seria indiferente ao passado e ao futuro, amedrontado pela velhice e pela obsolescência do corpo. Assim, “viver para o momento é a paixão predominante – viver para si, não para os que virão a seguir, ou para a posteridade”. (LASCH, 1983, p.15) Embora mediante o investimento pessoal aguçado, o nar-

721

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cisista contemporâneo necessita do olhar do outro para validar sua autoestima e para admirá-lo pela beleza e celebridade. Mas ao tratar de narcisismo, não se pode deixar de lado a pioneirismo de Freud ao desvela-lo em “Introdução ao Narcisismo” (1914/1990). O narcisismo aparece, nesta obra, como um estágio de auto-erotismo, correspondente a um narcisismo primário, em que a libido se agruparia no Ego. Esse direcionamento da energia libidinal para o Ego primitivo serviria de proteção, além de fonte criadora de fantasias megalomaníacas, marcando uma etapa natural do desenvolvimento psíquico humano. Mas o narcisismo como uma metáfora para a condição existencial humana na contemporaneidade beira a patologia, de uma cultura consumista e midiática que aguça fragilidades e carências e aprofunda a dependência da admiração de outrem. Esse estágio narcisístico também assume uma característica defensiva, mediante as ameaças aterradoras apresentadas pelo mundo externo. As telenovelas, acompanhando o cenário sociocultural em que estão inseridas, incorporaram às suas representações a transitoriedade das relações sociais e da constituição subjetiva na contemporaneidade e abordam, em algumas produções, características da sociedade atual e desse sujeito pertencente a uma cultura de propriedades narcisistas, pautada no consumo, na presença maciça da mídia e na economia capitalista. Foi o que se constatou nas representações exibidas pelas telenovelas da Rede Globo, sobretudo do horário das sete horas, em que o apelo temático circunda principalmente temas atuais. Os personagens, sobretudo os antagonistas, demonstram

722

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

características que remetem ao sujeito narcisista, com direcionamento para a consagração do próprio eu, imerso em todas as implicações sociais requeridas para este expediente. A escolha se deu porque o enredo das telenovelas das sete, além do atributo da atualidade, geralmente envolve o atributo da comédia. Com pitadas de humor e exagero dramático revelam, através de sátiras e deboches, aspectos importantes da sociedade brasileira. Diante do exposto, procura-se discutir como a telenovela, que se propõe a retratar ficcionalmente recortes da realidade, representa a subjetividade contemporânea, sobretudo acerca das questões que circundam o narcisismo? Utilizando, para este fim, cenas de personagens e as respectivas relações estabelecidas com os “outros” sociais, dentro do construto ficcional da produção televisiva. De início foram escolhidas as duas últimas novelas veiculadas pela emissora no horário das sete horas, “Cheias de Charme” e “Sangue Bom”, excluindo “Guerra dos sexos” que se configura em um remake1 . As novelas selecionadas apresentam como núcleo central o mundo dos famosos e das celebridades, a primeira através da música e a segunda de moda e televisão, ambas envoltas pelo espetáculo midiático e de consumo. No entanto, por conta do caráter inicial da pesquisa, os materiais ainda estão sendo coletados, enquanto se solidifica a construção teórico-metodológica. Para análise das peças será utilizada “análise textual”, que pode ser compreendida como 1 Nova versão, refilmagem de antigos clássicos da teledramaturgia brasileira. Guerra dos Sexos foi exibida pela primeira vez em 1984.

723

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

um processo auto-organizado de edificação interpretativa, em que novos entendimentos surgem através de uma sequencia composta por três fases: a desconstrução dos textos do corpus; o processo de categorização, através do estabelecimento de relações entre os elementos averiguados e, por fim, a compreensão emergente da interpretação. (MORAES, 2003) Esse método visa o entendimento criativo e detalhado do objeto a ser pesquisado, de acordo com aprofundamento intenso do referencial teórico utilizado para analisar o texto (entenda-se por texto qualquer produção cultural passível de ser lida, interpretada). Esta pesquisa, que ainda dá seus primeiros passos, lança um olhar sobre a comunicação em dois eixos: mídia e processo comunicativo. O primeiro focalizando o conteúdo da produção dos meios, de acordo com as estruturas socioculturais. Os textos não podem ser analisados dissociados de uma análise cultural dos processos sociais e das complexas práticas imbricadas neste. A telenovela passa a ser entendida, enquanto produto midiático, relacionada com outras instituições da sociedade e interessa compreender como essa interação reflete no seu próprio conteúdo. No segundo, o viés comunicacional engloba o estudo das subjetividades contemporâneas, uma vez que a construção subjetiva, ainda que em uma representação ficcional, prescinde da relação de trocas simbólicas e linguísticas com a alteridade, tratando-se, assim, de um processo comunicativo/ relacional. Além disso, nesta circunstância de edificação subjetiva do sujeito contemporâneo, em muito colabora o diálogo

724

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

estabelecido com a potencialidade comunicativa apresentada pelos próprios meios de comunicação de massa. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. 1ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. BIRMAN, Joel. Mal estar na atualidade: a psicanálise e a novas formas de subjetivação. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. DELEUZE, Gilles. Empirismo e Subjetividade: ensaio sobre a natureza humana segundo Hume. São Paulo: Editora 34, 2001. FRANÇA, Vera; SIMÕES, Paula Guimarães. Telenovelas, telespectadores e representações do amor. ECO-PÓS- v.10, n.2, julho-dezembro 2007, pp. 48-69. FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: FREUD, S. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v.14. Rio de Janeiro: Imago, 1990. GUATTARI, Félix. ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes. 1996. JAMESON, Frederic. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Editora Ática, 1997.

725

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

LIPOVETSKY, Gilles. A Era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri: Manole, 2006. LOPES, Maria Immacolata Vassalo. Telenovela brasileira: uma narrativa sobre a nação. Comunicação & Educação, São Paulo, v. 1, n. 26, p. 17-34, 2003. MORAES, Roque. Uma tempestade de luz: a compreensão possibilitada pela análise textual discursiva. Ciência & Educação, v. 9, n. 2, p. 191-211, 2003

726

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

96 Televisão e educação: reflexões sobre o uso da televisão na escola Jucieude de Lucena Evangelista Márcia de Oliveira Pinto Maria Soberana de Paiva O presente texto pretende apresentar algumas reflexões acerca da relação estabelecida entre os meios de comunicação e a educação. Elas foram elaboradas a partir de resultados obtidos no projeto de iniciação científica intitulado A Televisão na Escola1. A pesquisa foi desenvolvida entre os anos de 2009 a 2012, envolvendo nos dois primeiros anos professores e alunos do ensino médio, respectivamente, da Escola Estadual Prof. Abel Freire Coelho do município de Mossoró – RN. No último ano a pesquisa envolveu também as famílias dos estudantes pesquisados nesta escola. Utilizamos uma metodologia de pesquisa quantitativa, baseada na aplicação de questionários estruturados, que abordaram as formas de apropriação da televisão por parte dos sujeitos e como eles percebiam esse meio como espaço de formação e socialização. 1 O projeto A Televisão na Escola foi desenvolvido nos anos de 2009 a 2012 com o apoio do CNPq. O projeto é vinculado ao Grupo de Pesquisa em Comunicação, Cultura e Sociedade – GCOM do Departamento de Comunicação Social em parceria com o Grupo de Pesquisa do Pensamento Complexo – GECOM, da Universidade do estado do Rio Grande do Norte-UERN.

727

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Entendemos a educação como um fenômeno social complexo que não se inicia nem se encerra na escola, que envolve diferentes espaços e processos de formação e de socialização, portanto, não se apresenta apenas de maneira formal, mas também não-formal. Deste modo, abordamos as relações entre comunicação e educação considerando basicamente três espaços de socialização em que ocorrem os processos educativos: a escola, a família e os meios de comunicação. Dentre os meios de comunicação, elegemos a televisão como objeto particular de nossa pesquisa por conta de sua ampla penetração social, que a coloca no lugar de principal meio de informação e de entretenimento entre os brasileiros. Ao consideramos a presença da televisão na escola, não a concebemos apenas a partir da apropriação de alguns de seus conteúdos específicos como suporte aos conteúdos curriculares. Consideramos também as interações que podem ser estabelecidas por meio da assistência televisiva comum entre professores e estudantes, através de programas como telejornais, telenovelas e filmes, entre outros, que integram o cotidiano desses sujeitos fora do ambiente escolar. Nossos dados revelaram, porém, que as abordagens em relação ao uso da televisão na educação formal, não buscam as aproximações entre a escola e os meios de comunicação como espaços de formação e de socialização. Conforme 88% dos professores pesquisados, suas aulas seguem prioritariamente as recomendações do livro didático, salvo algumas contribuições pessoais de cada docente.

728

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Ao serem indagados sobre a utilização de conteúdos televisivos em sala de aula, 65% dos professores investigados demonstraram que acreditam que eles tanto podem ajudar como podem atrapalhar a prática do ensino e a aprendizagem dos alunos. Dados que não correspondem as expectativas de 83% dos estudantes pesquisados, que afirmaram que a utilização dos conteúdos televisivos em sala de aula poderiam ajudar no seu aprendizado. Fato também admitido pelas famílias dos estudantes, pois 79% dos pais acham que a televisão e seus conteúdos podem ajudar seus filhos na escola. Entendemos que a televisão além de atuar como agente de informação e entretenimento, ela também desempenha papel formador, independente das instituições legitimadas para tal, família e escola. Ela transmite valores sociais e padrões de comportamento, que podem contribuir diretamente sobre a construção do universo de saberes e visões de mundo. Por outro lado, há a tendência por parte da escola de rechaçar os conteúdos televisivos de modo geral, estabelecendo a incomunicabilidade entre esses espaços. Esta perspectiva é construída com base em alguns estereótipos atribuídos à televisão: 1) A TV é encarada por alguns professores como inimiga da educação formal, pois transmite conteúdos nocivos para a educação dos jovens; 2) A TV é espaço do não-sério, com conteúdos que vão de encontro com matérias e assuntos pedagógicos; 3) Cabe exclusivamente à escola a função de educar (GOMEZ, 2008). A freqüência e o tempo que os sujeitos pesquisados destinam à televisão nos levam ao entendimento de que é importante estabelecer pontos de interação entre o saber escola e a

729

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cultura midiática. Nossos dados revelaram que 85% dos alunos pesquisados assistem televisão todos os dias da semana, 36% deles afirmaram passar de uma a duas horas diárias em frente à TV, 27% disseram ficar entre três a quatro horas, 17% entre quatro e cinco horas e 20% afirmaram que passam seis horas ou mais em frente à televisão. Esses números são expressivos considerando que, do total dos sujeitos, 64% dedica três horas diárias ou mais à televisão, se compararmos ao tempo gasto na escola, que é de quatro a cinco horas diárias. A partir da variável tempo, entendemos que a televisão pode ocupar um espaço tão importante quanto a escola no cotidiano desses estudantes, pode inclusive substituir outras atividades de lazer e horas que seriam dedicadas a tarefas escolares. Não propomos aqui uma inserção intensa da televisão na sala de aula. Mas acreditamos que uma postura diferente em relação à televisão possa favorecer a aproximação entre os conteúdos curriculares e a cultura midiática, contribuindo para aproximar também a educação escolar do cotidiano. Esta aproximação poderia também despertar ainda um olhar mais curioso e instigador sobre a televisão, além possibilitar que os estudantes estabeleçam suas próprias conexões e reflexões entre o espaço escolar e o espaço midiático. Estamos pensando a televisão na sua relação com a educação, para além do seu uso instrumental, ou seja, para além de um suporte ou de uma ferramenta pedagógica destinada à transmissão de um determinado conteúdo. Pensamos na sua apropriação cotidiana como meio de informação e de entretenimento fora do ambiente escolar, por parte de estudantes

730

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

e professores. A sala de aula aparece como espaço em que ocorrem fluxos derivados de outros espaços e que possibilita pontos de contato e cruzamentos entre esses fluxos. Deve-se atentar [...] para o fato de ocorrer, hoje, na escola o cruzamento tanto das manifestações vinculadas ao discurso pedagógico formal – questões curriculares e de conteúdo mais específicos das disciplinas, por exemplo – como também das estruturas discursivas que, pelo menos na aparência, não fazem parte dos programas levados a termo pelos docentes e onde podem ser incluídas as linguagens da comunicação e das novas tecnologias. [...] a sala de aula ganhou a condição de lugar onde ocorre ainda que de forma nem sempre visível e sistemática – uma complexa intersecção de ordens discursivas diversas e não necessariamente ajustadas ou complementares (CITELLI, 2000, p. 17-18).

Assim, a televisão está presente na escola através de diversos ícones e produtos da cultura midiática, que aparecem estampados no material escolar, nas brincadeiras com bordão engraçado do personagem da novela, da notícia sobre corrupção que faz o adolescente dizer que não gosta de política, enfim, a cultura dos meios de comunicação permeia o universo

731

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

escolar de muitas formas, estão lá em potência, mas dificilmente são problematizados ou considerados pelos educadores. Buscamos assim, refletir sobre a problematização das mensagens televisivas no ambiente educacional. Sabemos que a lógica da produção simbólica da televisão atende principalmente à lógica do espetáculo e da superficialidade. A televisão explica muito pouco, não mostra os fatos contextualizados, mas oferece respostas prontas e imediatas. Então, como se apropriar positivamente desse aspecto das mensagens televisivas? Acreditamos que o professor pode aproveitar as lacunas deixadas pela televisão e preenchê-las, mostrar que a explicação pronta e os fatos, geralmente descontextualizados, são partes de processos sociais, históricos, econômicos, culturais, naturais, enfim, que são mais complexos que o relato circunstancial de um telejornal, por exemplo. Assim, é possível re-significar um aspecto negativo e estimular uma nova experiência de recepção e novas posturas em relação à televisão. O processo de recepção inicia antes de estarmos diante da televisão e se desdobra após o contato direto com suas mensagens, pois o impulso para assistir a televisão tem relação direta com formas rotineiras de passar o tempo que são uma expressão da maneira como aprendemos a ser telespectadores (GOMEZ, 2008, p. 67). Para Masetto (2000), a utilização das tecnologias no processo de ensino, tendo o professor como motivador da aprendizagem, constitui uma verdadeira ponte entre o aprendiz, o professor e novas formas de ensinar e de aprender. O diálogo estabelecido com as tecnologias de comunicação e a cul-

732

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tura midiática se torna assim um importante mecanismo para o desenvolvimento dessas novas formas de ensino e de aprendizagem. Através da TV, além de outros meios de comunicação e diferentes linguagens, o estudante completa seu mundo de informações e conhecimentos: [...] o aprendizado das gerações atuais se realiza pela articulação dos ensinamentos das instituições tradicionais da educação [...] com os ensinamentos das mensagens, recursos e linguagens midiáticos. A educação contemporânea está vivendo um conjunto de transformações que influenciam a natureza de nossas relações pessoais e sensibilidade e, consequentemente, passam a condicionar as instituições que regulam nosso aprendizado, nossa formação cognitiva, afetiva, psicológica, portanto, nossas percepções sobre o mundo. (SETTON, 2010, p.24).

Pensando o espaço da família nesse contexto complexo, a partir de nossa pesquisa, observamos que cem por cento dos pais concordam que os conteúdos veiculados pela televisão exercem influência na formação dos seus filhos, pois transmite visões de mundo, estilos de vida e informações que os jovens também tomam como referência. Porém, este entendimento não corresponde à atenção dada ao conteúdo televisivo que seus filhos têm acesso. Metade dos pais afirma ter atenção ao que os filhos assistem na TV, mas afirmou também que não pro-

733

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cura manter diálogo sobre os conteúdos televisivos de interesse deles. Por outro lado, 21% dos pais afirmam não se preocupar com o tipo de conteúdo que seus filhos assistem na TV, pois considerando que são adolescentes, já teriam maturidade suficiente e não necessitam de nenhum tipo de orientação em relação ao que assistem na televisão. Diante disso levantamos a questão: como a escola pode mediar a relação entre os educandos e a televisão quando a própria família não participa desse processo? A família não pode abster-se de seu papel formador, nem a escola pode assumir sozinha esse papel. A família e a escola realizam papéis diferentes no processo de formação de crianças e jovens, e esta relação é ainda mais complexa porque, juntamente com elas estão os meios de comunicação, produzindo, reproduzindo e transmitindo valores e saberes que podem ser ao mesmo tempo conflitantes, concorrentes e complementares. Percebemos que nem a família, nem a escola estão preparadas ou apontam para um caminho que busque o diálogo com a cultura midiática ou a problematização dos meios de comunicação em seu cotidiano. Atualmente, a preocupação maior de famílias e instituições educacionais está direcionada às novas tecnologias articuladas em torno da internet. As famílias se preocupam com a quebra das fronteiras entre o espaço público e o espaço do lar, que já não garantem mais proteção quando os filhos estão conectados à internet. A escola se ocupa com a inserção das novas tecnologias – ou novas “ferramentas” – para otimizar os processos de “transmissão” dos conteúdos curriculares. Mas indagamos: como lidar com as novas

734

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

tecnologias de comunicação, se não aprendemos a lidar com os meios mais antigos? Acreditamos que o problema é cumulativo. A televisão nunca alcançou um status verdadeiramente positivo na relação com a educação familiar e escolar, ela foi predominantemente instrumentalizada ou rechaçada, mas não compreendida como fenômeno cultural. Nunca aprendemos a desenvolver uma experiência reflexiva sobre a televisão, aprendemos apenas a usá-la, assim como as novas tecnologias. Assim, escola e família também têm dificuldade de desenvolver usos e estabelecer diálogos mais produtivos com a televisão. É necessário um exercício recursivo, na medida em que exercitamos uma nova relação com a televisão, exercitamos também a reflexão sobre ela, ao mesmo tempo que a reflexão sobre a televisão constrói com ela uma nova relação. REFERÊNCIAS DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio. Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. 2ed. São Paulo: Atlas, 2009. FAUSTO NETO, Antonio. Ensinando à televisão. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2001. GOMEZ, Guillermo Orozco. Professores e meios de comunicação: desafios, estereótipos. Comunicação & Educação. Brasil, v. 3, n. 10, 2008. Disponível em: http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/comeduc/article/view/4368/4078. Acesso em 03 mai. 2010.

735

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

MASETTO, Marcos T. Mediação pedagógica e o uso da tecnologia. In: MORRAN, José Manuel; MASETTO, Marcos T.; BEHRENS, Marilda. Novas tecnologias e mediação pedagógica. São Paulo: Papirus, 2000. MARCONDES FILHO, Ciro. Televisão. São Paulo: Scipione, 1994. MARTÍN-BARBERO, Jesus. Dos Meios às Mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003. MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. SETTON, Maria da Graça. Mídia e educação. São Paulo: Contexto, 2010.

736

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

97 Direito à informação em emissora pública de comunicação: análise do telejornal Repórter Brasil Davi Lopes Gentilli A construção da cidadania no Brasil passou por diversos momentos de disputas. Um desses campos dessas disputas é o da comunicação social. Em nossa pesquisa, resgatamos as conceituações clássicas acerca da cidadania e da construção dos direitos. Fazemos um paralelo do desenvolvimento histórico da cidadania e do jornalismo. Percebemos que os valores atribuídos à prática do jornalismo, ao longo da sua história, determinaram a sua interface com o Estado e as demandas de direitos que tangem essa prática, culminando no que conhecemos hoje como o direito à informação. O direito à informação é um direito que pode ser considerado tanto como direito civil como direito social. Direito civil num sentido que proclama a liberdade do câmbio de informação sem empecilhos para que os demais direitos possam ser efetivados e para a realização da democracia. Ou social quando implica a obrigação de o Estado difundir informações públicas originadas em si que permitam o cidadão de se informar acerca daquilo que intermedeia sua relação com o Estado. O nosso trabalho buscou verificar se o telejornal Repórter Brasil, da TV Brasil, atende aos princípios do direito à informação. Fizemos um histórico das televisões públicas no Brasil chegando a formação da Empresa Brasil de Comunicação – empresa

737

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

pública que opera a TV Brasil – discutindo as diferentes perspectivas acerca da comunicação pública. O que nos levou a eleger o Repórter Brasil como objeto de análise é o fato de ser um telejornal novo emitido por uma televisão pública nacional, a TV Brasil. Percebemos que as determinações econômicas que sofrem os veículos de comunicação comercial são a origem de seus problemas e das determina como é realizado o seu jornalismo. Discutiremos o jornalismo em veículos públicos de comunicação em vistas a pensar as possibilidades de um jornalismo diferente para a realização do direito à comunicação. As perspectivas dos estudos que abordam a comunicação pública, em grande parte, a considera a partir da mediação cultural que ocorre por meio da comunicação eletrônica devido ao seu papel econômico de produção e circulação de bens culturais audiovisuais. Perspectivas que abordam mais especificamente o jornalismo, geralmente, pensa o jornalismo público como uma alternativa à comunicação privada, pautando temas ignorados pelos veículos comerciais, ou abordando os mesmos assuntos a partir de uma perspectiva diferente. A questão que nos colocamos é que a comunicação pública, dessa forma, se colocaria simplesmente complementar, acrescentando pautas e perspectivas faltantes no jornalismo dos veículos de mídia predominante. Nosso ver, entretanto,não enxerga o jornalismo do veículo público por meio de um papel político de contraposição ou complementarização do jornalismo comercial, mas como uma forma de conhecimento do mundo por meio de procedimentos jornalísticos alimentado pelos aconte-

738

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cimentos cotidianos. O veículo público, portanto, tem a relevância por ser, potencialmente, um veículo que dá condições para que a prática do jornalismo se dê livre das determinações econômicas inerentes aos veículos privados de comunicação. Por sua configuração comercial, esses veículos, por um lado reproduzem uma lógica ideológica de produtividade nas redações que impedem a reflexão necessária na prática jornalística, por outro atuam deliberadamente defendendo seus interesses econômicos. Palavras-chave: Jornalismo, Cidadania, Direito à informação, Telejornal, Repórter Brasil.

739

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

98 Crime sem castigo: questões de gênero na imprensa brasileira: o caso Roger Abdelmassih Lieli Loures Pensar a comunicação como um direito fundamental para garantia de outros direitos humanos, em especial, os direitos das mulheres. Este é o pano de fundo da pesquisa que aqui se apresenta. O caminho escolhido para esta reflexão foi a análise do discurso da imprensa na cobertura de casos de violência de gênero que, na definição do Artigo 5º do código Civil Brasileiro, é entendida como qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual, moral, patrimonial ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como no privado. A violência de gênero é uma manifestação de relações de poder historicamente desiguais entre homens e mulheres. O corpus da pesquisa é a cobertura do caso Roger Abdelmassih, médico especialista em reprodução in vrito, condenado por estuprar várias de suas pacientes. Antes de dar continuidade a descrição do trabalho, cabe ainda definir o conceito de gênero, introduzido na academia durante na metade da década de 70, nos Estados Unidos. Nas palavras de Gayle Rubin, antropologa norte americana a quem se atribui a origem do conceito, o sistema sexo/gênero é um conjunto de arranjos através dos quais uma sociedade transforma a sexualidade biológica em produtos da atividade humana, e na qual estas necessidades sexuais transformadas são satisfeitas (RUBIN, 1975). A estrutura do pensamento de

740

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

Rubin encontra origens no pensamento marxista. Ao entender o sexo como uma matéria-prima, Rubin isenta-o de questionamentos a respeito do seu caráter construído sócio-culturalmente. No vocabulário feminista, a categoria biológica “sexo” foi substituída pelo “gênero”, que abarca toda divisão social estabelecida entre o masculino e o feminino. Na nossa cultura existe uma gama de símbolos que nutrem um repertório heterogêneo para homens e mulheres. São conceitos normativos, socialmente reproduzidos e cultivados que vão sendo naturalizados e ajudam a perpetuar relações desiguais de poder. As relações desiguais de poder entre os gêneros permeiam a estrutura de nossa sociedade e o jornalismo não está isento. Propomos a investigação do discurso da imprensa nos casos de violência de gênero, por considerá-lo o principal elemento de negociação entre as práticas comunicacionais e a cultura. Entendemos que ao tornar público os casos de agressões contra mulheres, a imprensa se vale de um discurso que, em última instância, culpa a mulher pela agressão sofrida. Entendemos ainda que tal discurso só é passível de sustentação se encontrar respaldo na cultura. É justamente no nó entre a cultura e a comunicação que localizamos o espaço para reflexão sobre a responsabilidade e a possibilidade que o discurso jornalístico encontra de interferir nas estruturas sociais. Entendemos que a informação numa sociedade de massa é fundamental para a ampliação da democracia, afinal, é também no espaço midiático que os cidadãos adquirem o conhecimento necessário para o exercício de seus direitos civis, sociais e políticos. Devido à tal importância, chama a atenção

741

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

o modo como a imprensa brasileira cobre os casos de violência de gênero. Enquadrando a questão em cadernos como ‘Cidade’, ‘Policial’, ‘Cotidiano’ as reportagens, geralmente, reduzem a violência contra mulher ao recinto doméstico ou às relações pessoais, negligenciando o caráter social que é inerente à questão. Para exemplificar o problema, destacamos dados apresentados no relatório ‘Progress of the world’s women 2011-2012: in pursuit of justice.’, divulgado em julho de 2011 pela Onu, que mostram que “a violência doméstica é proibida em 125 países, apesar disto, 603 milhões de mulheres ainda vivem em países onde esta forma de violência não é considerada crime. No Brasil, segundo dados coletados a partir da aplicação da Lei Maria da Penha, entre 2008 e 2012, 15.889 homens foram presos pela prática de violência doméstica. Seria interessante pensar quanto isso representou para os cofres públicos (tanto no que se refere ao gastos com sistema judicial e penitenciario, quanto ao que se refere aos gastos no sistema público de saúde para as vítimas das agressões). Ao invés de tratar o problema por este angulo, vemos a imprensa encerrar a questão no âmbito doméstico, tratando-a preferencialmente sob a ótica do espetáculo, como ocorrido no caso do goleiro Bruno ou, nem isto, como no caso Roger Abdelmassih. Repensar as escolhas jornalísticas quando o assunto é violência de gênero pode significar o questionamento de uma estrutura patriarcal e machista em prol do debate mais plural. O autor Victor Gentilli (2005) coloca o jornalismo como instrumento para a construção da cidadania quando aponta o direito à informação como sendo crucial para a consolidação da demo-

742

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

cracia de massa. Nesse sentido, pensar o imbricamento entre a comunicação de massa e a construção da imagem feminina é repensar a construção do conceito de cidadania, uma vez que a igualdade, premissa básica da democracia, pressupõe o nivelamento das desigualdades. Como democracia de massa, o autor define o usufruto dos direitos sociais pela população, pelo cidadão comum, derrubando a ideia de um ser humano genérico e hipotético. Ele explica que os direitos sociais fazem surgir “personagens como sujeitos de direito: o trabalhador, a mulher, a criança, o idoso, o doente, o d eficiente físico, o consumidor” (GENTILLI, 2005, p. 105). Parece-nos impossível pensar a evolução dos direitos civis, sociais e políticos excluindo o peso que a informação teve e tem neste processo. Apesar do jornalismo não ser um campo da ciência, Gentilli ressalta que o jornalismo enquanto campo de mediação é de valor singular para cientistas e historiadores (GENTILLI, 2005, p. 9). Nesta perspectiva, consideramos a análise do discurso da imprensa na cobertura da violência de gênero uma possibilidade de verificar sua contribuição para a construção da cidadania – especificamente no que diz respeito à posição social da mulher. Para pensar a estrutura narrativa que pauta as coberturas da imprensa utilizaremos como referencial teórico a Análise Crítica do Discurso, além da bibliografia feminista sobre o tema e autores relevantes do campo da comunicação. O autor Teun A. Van Dijk (2008) nos fala das posições ideológicas embutidas no discurso da imprensa que, em última análise, refletem o pensamento hegemônico e os valores exaltados pelo senso comum –

743

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

conceito este que será trabalhado a partir da definição de script do autor. A relação entre a linguagem e o posicionamento ideológico é inevitável para Van Dijk. Reproduzindo suas palavras, “uma abordagem discursiva analítica é apropriada porque a maior parte da manipulação, como nós entendemos essa noção, desenvolve-se através da fala e da escrita” (DIJK, 2008, p. 234). Esta pesquisa em nível de mestrado encontra-se acolhida no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) cuja área de concentração são os “Estudos dos meios e da produção mediática”. Tal área abarca a linha de pesquisa “Informação e mediações nas práticas sociais”, que estuda os processos de produção, difusão e recepção da informação no universo midiático, sob a perspectiva dos valores da cidadania, ética e interesse público, com ênfase nos vetores da produção da narrativa jornalística (percepção e reconstrução discursiva da realidade). Voltada à compreensão da comunicação noticiosa, ao estudo das relações éticas na construção dos produtos informativos, à reflexão sobre a informação como direito fundamental do cidadão, esta linha também inclui o debate entre o discurso hegemônico e o alternativo. Palavras-chave: Jornalismo, Roger Abdelmassih, Violência de gênero, Feminismo, Análise do Discurso, Informação e Cidadania.

744

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

99 Interação entre jornal e leitor: regramentos, estratégias discursivas e silêncios Viviane Borelli

Resumo A pesquisa “A dinâmica das interações entre produção e recepção nos jornais do Rio Grande do Sul”1 analisa as estratégias discursivas utilizadas por seis jornais do interior gaúcho na busca de vínculos com seus leitores e de ampliação do contato para além da materialidade do jornal. Os jornais estudados são: A Razão e Diário de Santa Maria (Santa Maria, RS), Pioneiro (Caxias do Sul, RS), Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul, RS), O Nacional (Passo Fundo, RS) e A Plateia (Sant’Ana do Livramento). São analisados os protocolos e as estratégias discursivas utilizadas pelos jornais para ampliar seu vínculo com os leitores. Descreve-se ainda como e de que forma os leitores contatam o seu jornal por meio das redes sociais e dos portais. Em termos metodológicos, foram analisados os jornais impressos, a publicação de conteúdo nos dispositivos digitais e entrevistados editores e jornalistas. Para interpretação e análise dos dados utiliza-se a semiologia dos discursos sociais que permite análise do contexto em que esses discursos são oferta1 Com apoio financeiro do Governo do Estado do Rio Grande do Sul por meio da Fapergs (PqG 2011/2013).

745

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

dos, buscando marcas dos processos de produção de sentidos. A pesquisa desenvolve-se no contexto de uma sociedade em processo de midiatização em que há um novo redimensionamento das práticas sociais em função dos processos midiáticos e é nessa ambiência que novos processos de interação são travados entre os jornais e seus leitores. A pesquisa contribui para pensarmos as mutações no jornalismo para além da questão estrita da técnica ou da tecnologia, mostrando também que estratégias os ‘jornais do interior’ desenvolvem para dar conta da convergência tecnológica, da perda de leitores e da sociedade em processo de midiatização.

746

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

100 Construção discursiva do feminino marcado por racialidades em revistas femininas e processos de subjetivação de mulheres negras Erly Guedes Barbosa A pesquisa propõe-se a discutir os processos de interpretação, leitura e apropriação por mulheres negras do Rio de Janeiro dos discursos jornalísticos das revistas de comportamento direcionadas para mulheres Claudia e Marie Claire. Estudar os processos de consumo mediático, leitura e apropriação a partir de uma perspectiva de gênero e de raça implica conhecer como e por que as mulheres negras se aproximam das revistas femininas nas quais o discurso preponderante é carregado de estereótipos, em que contexto leem suas mensagens, de que forma essa leitura/recusa/reelaboração acontece. Portanto, entende-se a comunicação como um processo de interação em que a interlocutora tem a possibilidade de dar novos sentidos ao texto de acordo com seu universo cultural ou reiterar os sentidos propostos nesses discursos. Essa perspectiva de estudo oferece as bases necessárias ao desenvolvimento desta investigação, que busca entender a) como se dá a produção de sentidos pelo público feminino negro a partir dos discursos mediáticos excludentes, e b) como esses discursos podem influenciar nos processos de subjetivação dessas mulheres.

747

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

O que é uma revista afinal? Tentando responder a esta simples, mas instigante pergunta, Marília Scalzo (2008, p. 11) afirma: “Uma revista é um veículo de comunicação, um produto, um negócio, uma marca, um objeto, um conjunto de serviços, uma mistura de jornalismo e entretenimento”. E avisa: “Nenhuma das definições acima está errada, mas também nenhuma delas abrange completamente o universo que envolve uma revista e seus leitores”. As revistas femininas brasileiras adotam uma política de silêncio e estereotipia em relação a mulheres negras, forjando um discurso fundado no mito da democracia racial e na ideologia do branqueamento. Observam-se duas principais estratégias discursivas engendradas pelas revistas em relação às mulheres negras especificamente: por um lado, esboçam o perfil da mulher ideal ou padrão de normatividade a partir de associações que tendem a homogeneizar o gênero feminino e reservar a mulheres negras o território do não-dizível; por outro lado, configuram os valores, aptidões, possibilidades, comportamentos, desejos e modelos dessas mulheres, inserindo-as nas fronteiras do dizível somente por meio de estereótipos. Entender como mulheres negras se apropriam dos discursos dessas revistas é compreender de que forma essa leitora se percebe no mundo, de quais recursos se utiliza para funcionar nesse mundo e qual a relação entre essa visão de si e os discursos midiáticos. Interessa nesse estudo entender, ainda, como se dá o diálogo entre discursos atravessados pelo racismo e sexismo engendrados mensalmente pelas/nas revistas femininas e as representações de mundo que as leitoras negras configuram

748

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

em outras tessituras da vida social. Como e em que medida essa dissonância de discursos e de sentidos interfere ou condiciona o processo de leitura e apropriação? Quais os efeitos dessa dissonância? Esses discursos dissonantes são racionalmente percebidos pelas leitoras? Se sim, como explicar a permanência do consumo, tendo em vista que as leitoras são seletivas e tendem a se expor a produtos mediáticos que estejam de acordo com as estruturas de classificação do mundo social condizentes com suas experiências? De que forma as práticas de consumo, interpretação e apropriação dessas revistas femininas ensejam a construção de experiências, leituras e sociabilidades e, a partir daí, a formação de subjetividades? Para dar conta desta questão, recorre-se neste estudo, ainda, à noção de subjetividade conceituada por Foucault (2004, p. 236) como “a maneira pela qual o sujeito faz a experiência de si mesmo em um jogo de verdade, no qual ele se relaciona consigo mesmo”. Dessa forma, as subjetividades – de onde o sujeito é um efeito provisório – mantêm-se flutuantes, uma vez que cada indivíduo abriga os componentes de subjetivação em circulação e concomitantemente os emite, conjecturando essas trocas como uma dinâmica construção coletiva. Assim como Foucault, Deleuze (2001, p. 118) rompe com a noção atribuída ao sujeito como uma unidade, um ser prévio que permanece. Para este autor, o sujeito não está dado, mas se constitui na experiência, no contato com os acontecimentos, com o outro. “E, olhando bem, isso é tão-só uma outra maneira de dizer: o sujeito se constitui no dado”. Nessa perspectiva de

749

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

análise, o conceito de sujeito só pode ser considerado a partir de uma processualidade, de uma construção constante, de um vir a ser que não se estabiliza de maneira definitiva. Sob esse viés, a produção do sujeito envolve um movimento constante, afinal, o sujeito não está dado de uma vez por todas. Pensar os processos de subjetivação de mulheres negras e as variações produzidas pelos encontros com o outro – discursos jornalísticos das revistas femininas – a partir da noção de sujeito empreendidas por Foucault e Deleuze, remete a um campo complexo de problematizações: afinal, que pode vir a ser no encontro com o dado de cada experiência que a elas advém? Com quais outras forças podem se compor e o que pode devir desse movimento? Por força dos debates estabelecidos com a orientadora nesse primeiro momento de pesquisa exploratória, o trabalho passa a buscar um diálogo mais direto com as noções de apropriação (SILVERSTONE, 2007) e fruição ou prazer (BARTHES, 2013) para um escopo teórico metodológico, num movimento de deslocamento da pergunta inicial a nortear a pesquisa: como as mulheres negras recebem os discursos das revistas femininas? Apoiava-se, assim, nos conceitos e modelos apontados nos estudos de recepção latino-americana, em especial propostos por Martín-Barbero (1998). Entre as hipóteses consideradas para essa pesquisa destacamos que essas mulheres estabelecem uma leitura que envolve uma resposta prazerosa ou o consumo prazeroso do texto. Barthes (2013, p. 26), destaca que o conceito de prazer não é invariavelmente triunfante pois pode assumir a forma de

750

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

uma deriva: “A deriva advém toda vez que eu não respeito o todo e que, à força de parecer arrastado aqui e ali ao sabor das ilusões, seduções e intimidações da linguagem, qual uma rolha sobre as ondas, permaneço imóvel, girando em torno da fruição intratável que me liga ao texto (ao mundo)”. O interesse em estudar as relações entre as apropriações dos media e o gênero feminino marcado por racialidades nasce da comprovada insuficiência de pesquisas que abordem gênero e raça como categorias teóricas e explicativas para o consumo midiático, assim como da curiosidade de entender como funciona o processo de recepção de discursos dissonantes em relação ao público. Além dessas justificativas para o campo da comunicação, explico o empenho em compreender essas questões pelo envolvimento com o estudo das representações de mulheres negras em revistas femininas iniciado em discussões no Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Maranhão, do qual fiz parte desde 2008. O tema também foi abordado no trabalho de conclusão de curso. Em termos metodológicos, o trabalho procura se desenvolver em campo para fazer uma pesquisa híbrida teórica e empírica em que há revisão de literatura e definição de categorias de análise e dos conceitos capazes de dar conta das particularidades do objeto. Elegeu-se como metodologia suporte a coleta de dados por meio de aplicação de questionário sociocultural e com entrevistas semi-estruturadas, acerca do consumo dos exemplares publicados, com 16 mulheres frequentadoras ou funcionárias de dois salões de beleza locali-

751

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

zados na cidade do Rio de Janeiro. Nesse aspecto, o salão é um espaço de discursos múltiplos que intermedeia a circulação de sujeitos de diversas classes sociais, raças, gêneros, graus de escolaridade. Segundo Lüdke e André (1986), a entrevista semi-estruturada se traduz numa técnica que implica na relação de interação entre o sujeito e o pesquisador, havendo uma atmosfera de influência recíproca entre quem pergunta e quem responde, sendo desenvolvida por um esquema básico, que permite ao entrevistador fazer as adaptações que julgar necessárias. Além disso, tal técnica apresenta como vantagem o fato de permitir a captação imediata e corrente da informação desejada. As informações apreendidas serão analisadas com o auxílio do quadro teórico utilizado na investigação. REFERÊNCIAS BARTHES, R. O prazer do texto. 6 ed. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2013. DELEUZE, G. Empirismo e subjetividade: ensaio sobre a natureza humana segundo Hume Trad. L. B. L. Orlandi. São Paulo: Editora 34, 2001. FOUCAULT, M. A ética do cuidado de si como prática da liberdade. In: FOUCAULT, M. Ética, sexualidade e política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. p. 264-287.

752

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO

LÜDKE, M.; ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em Educação: Abordagens qualitativas. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária Ltda., 1986. MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Trad. Ronald Polito e Sérgio Alcides. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, l998. ORLANDI, E. P. A linguagem e seu funcionamento. Campinas: Pontes, 1996. RABINOW, P.; DREYFUS, H. Michel Foucault: Uma trajetória filosófica para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. SILVERSTONE, R. Media and Morality: on the rise of the mediapolis. Cambridge: Polity Press, 2007.

753

Sumário

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE DE GRUPOS DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO COMISSÃO CIENTÍFICA Alex Galeno Ciro Marcondes Filho Josimey Costa COMISSÃO DE ORGANIZAÇÃO Alex Galeno Alysson Araújo Angela Almeida Gerlúzia Azevedo Kênia Maia Lauren Colvara Michele Medeiros E-book Organização Alex Galeno Angela Almeida Gerlúzia Azevedo Maria Rita Xavier Projeto gráfico Helton Rubiano

Lihat lebih banyak...

Comentários

Copyright © 2017 DADOSPDF Inc.