Políticas Públicas e Economia Criativa: subsídios da Música, Teatro e Museus na cidade de Natal/RN

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Políticas Públicas e Economia Criativa: subsídios da Música, Teatro e Museus na cidade de Natal/RN Fernando Manuel Rocha da Cruz Doutor em Ciências Sociais DPP/UFRN [email protected]

No presente artigo procuramos conceituar a economia criativa de acordo com os principais autores nacionais e estrangeiros, bem como identificar as políticas públicas que institucionalizaram a economia criativa no Brasil. Trata-se de uma importante política pública que pode contribuir para o desenvolvimento local e nacional, tal como é reconhecido internacionalmente. Interessa igualmente, por versar sobre o patrimônio material e imaterial e o desenvolvimento social, cultural e econonômico. Optamos em esta pesquisa pela metodologia mista, uma vez que procuramos caracterizar quantitativamente os setores da musica, do teatro e dos museus, no estado do Rio Grande do Norte (RN) e quando possível na cidade de Natal, mas também aprofundar o conhecimento sobre estes setores através da aplicação de entrevistas semiestruturadas aos responsáveis de grupos de música, de grupos de teatro e aos diretores de museus sediados em Natal, no estado do Rio Grande do Norte, ou que aí pudessem atuar. O número total de entrevistas foi catorze, das quais foram aplicadas cinco no setor do teatro, outras cinco e grupos de música e quatro em museus da cidade de Natal. Esta pesquisa se enquadra no âmbito do projeto denominado “Estudo de caso e mapeamento das indústrias criativas no estado

do

Rio

Grande

do

Norte”,

PIBIC_PIBIC_AF_PIBITI_2014-2015

aprovado

(UFRN),

e

renovado

apresentando

em

resultados finais relativamente aos setores da música, teatro e museus.

pelo

Edital

este

artigo

Conceitualizando a Economia Criativa… No âmbito da Política Cultural, o Ministério da Cultura brasileiro promoveu a criação da Secretaria da Economia Criativa, em 2011. Nesse mesmo ano, foi aprovado o Plano da Secretaria da Economia Criativa. Dessa forma, era proposta uma política específica no âmbito cultural que agregava a economia, a gestão e a cultura. A mensagem subliminar era a da necessidade de criar renda em setores sobretudo culturais que tradicionalmente viviam dependentes dos apoios federais, estatais ou municipais. Dessa forma, o Estado brasileiro atendia ao interesse despertado internacionalmente com a declaração da “Nação Criativa” pelo governo australiano, em 1994 e pelo governo trabalhista, no Reino Unido, em meados dos anos noventa. O primeiro Relatório da Secretaria da Cultura, Mídia e Esportes (DCMS, sigla em inglês) conceituou as indústrias criativas como “aquelas atividades que têm sua origem na criatividade, habilidade e talento individuais, assim como possuem o potencial de criar emprego e riqueza através da geração e exploração da propriedade intelectual”. (BOP CONSULTING, 2010, p. 13-14). identificando ainda como indústrias criativas: Arquitetura, Arte e Antiguidades, Artes Cénicas, Artesanato, Cinema e Vídeo, Design, Design de moda, Edição, Publicidade, Música, Software interativo de entretenimento, Software e serviços de informática, Rádio e TV (BOP CONSULTING, 2010, p. 14-15). Em 2001, Howkins (2012) publica o seu livro “Economia Criativa: como ganhar dinheiro com idéias criativas” e institucionaliza o termo Economia Criativa, o qual é adotado oficialmente em 2006, no Reino Unido (BOP CONSULTING, 2010, p. 16). O interesse na temática leva igualmente à publicação do primeiro “Relatório de Economia Criativa – Uma opção de desenvolvimento viável”, em 2008, e o segundo, em 2010, pela UNCTAD (2012, p. XV-XVI). O interesse internacional é justificado pelo aumento das exportações de bens criativos, apesar da crise econômica mundial. A diminuição em 12% do comércio internacional em 2008, foi contrariada pelo aumento de produtos criativos, entre 2002 e 2008, de cerca de 14%, ao atingir US$ 592 bilhões, em 2008 (UNCTAD, 2012, p. XVI). Quanto ao Brasil, os dados mostram alinhamento a essa tendência internacional. Em 2011, 243 mil empresas formavam o núcleo da indústria criativa. Sob uma perspectiva mais abrangente, os números mostram que toda a Cadeia da Indústria Criativa, que inclui atividades relacionadas e de apoio, movimenta mais de 2 milhões de empresas brasileiras. Com base na massa salarial gerada por

essas empresas, estima.se que o núcleo criativo gera um Produto Interno Bruto equivalente a R$ 110 bilhões, ou 2,7% do total produzido no Brasil. Essa cifra chega a R$ 735 bilhões se considerada a produção de toda a Cadeia da Indústria Criativa nacional, equivalente a 18% do PIB brasileiro. (FIRJAN, 2012, p. 7)

Miguez (2007, p. 96-97) propõe como conceito de economia criativa o “conjunto distinto de atividades assentadas na criatividade, no talento ou na habilidade individual, cujos produtos incorporam propriedade intelectual”. (MIGUEZ, 2007, p. 96-97) Para Caiado (2011, p. 15), a economia criativa é “o ciclo que engloba a criação, produção e distribuição de produtos e serviços que usam a criatividade, o ativo intelectual e o conhecimento como principais recursos produtivos”. Já o Plano da Secretaria da Economia Criativa brasileira adota o seguinte conceito: definimos Economia Criativa partindo das dinâmicas culturais, sociais e econômicas construídas a partir do ciclo de criação, produção, distribuição/ circulação/difusão e consumo/fruição de bens e serviços oriundos dos setores criativos, caracterizados pela prevalência de sua dimensão simbólica. (BRASIL, 2012, p. 23)

Percebemos, porém, que tratando-se de um conceito em construção se sobrepõe em alguma medida à economia da cultura. Nesse sentido, propomos a reformulação do conceito de modo a atentar à centralidade do elemento cultural. Assim, propomos que a economia criativa seja definida pelas atividades econômicas que têm objeto a cultura e a arte, ou que englobam elementos culturais ou artísticos de modo a alterar o valor do bem ou serviço prestado. Deste modo, compreendemos o ciclo econômico de criação, produção, distribuição, difusão, consumo, fruição de bens e serviços que têm por objeto a arte e a cultura ou que incorporam elementos culturais ou artísticos. Afastamos desta concepção as atividades culturais e artísticas que não têm intuito econômico. O elemento simbólico e intangível são elementos que importam às atividades econômicas e que quando incorporados nestas, lhes altera o valor econômico. Trata-se por um lado da profissionalização de atividades culturais e artísticas, assim como o reconhecimento do valor econômico dos elementos culturais e artísticos incorporados em outras atividades econômicas como a gastronomia, a arquitetura ou os games. A UNCTAD elenca os setores criativos em quatro categorias: Patrimônio, Artes, Mídia e Criações funcionais. Em Patrimônio estão incluídos os setores criativos que se distinguem entre Locais culturais (sítios arqueológicos, museus, bibliotecas, exposições) e Expressões culturais tradicionais (artesanato, festivais, celebrações).

Em Artes, os setores criativos se distinguem entre Artes visuais (pinturas, esculturas, fotografia, antiguidades) e Artes cénicas (música ao vivo, teatro, dança, ópera, circo, teatro de fantoches). Na categoria cultural Mídia, os setores criativos são subdivididos entre Editoras e mídia impressa (livros, imprensa e outras publicações) e Audiovisuais (filme, televisão, rádio e demais radiodifusões). Finalmente, em Criações funcionais, os setores criativos se distinguem entre Design (design de interiores, gráfico, moda, joalheria, brinquedos), Novas mídias (software, vídeo games, conteúdo digital criativo) e Serviços criativos (arquitetónico, publicidade, cultural e recreativo, pesquisa e desenvolvimento) (UNCTAD, 2012, p. 8). O Plano da Secretaria da Economia Criativa (SEC), pelo contrário, optou por identificar cinco categorias culturais: Patrimônio, Expressões Culturais, Artes de espetáculo, Audiovisual/do livro, da leitura e da literatura e Criações culturais e funcionais. Na categoria cultural Patrimônio distinguimos os setores criativos: património material, arquivos, museus e patrimônio imaterial. Em Expressões culturais identificamos os setores criativos: artesanato, culturas populares, culturas indígenas, culturas afro-brasileiras, artes visuais e arte digital. Em Artes de espectáculo estão incluídas as indústrias criativas: dança, música, circo, teatro. Na categoria Audiovisual/ do Livro, da Leitura e da Literatura identificamos os setores culturais: cinema e vídeo, publicações e mídias impressas. Finalmente, em Criações culturais e funcionais distinguimos os setores criativos: moda, design e arquitetura. (BRASIL, 2012, p. 30) Em termos comparativos, verificamos que apesar de uma identificação diferenciada das categorias culturais entre UNCTAD e SEC, não existe uma diferenciação significativa em termos de conteúdo, uma vez que os setores criativos identificados são meramente exemplicativos e não exaustivos. Para este estudo, em que iremos tratar do teatro, da música e dos museus. Verificamos que o último (museus) se insere na categoria do patrimonio, quer na UNCTAD, quer na SEC enquanto teatro e música se incluem em Artes do espetáculo, segundo a SEC, e em Artes, de acordo com a classificação da UNCTAD (cf. Tabela 1). De qualquer modo, museus, música e teatro têm uma forte ligação com o patrimônio imaterial ou intangível dadas as suas fortes ligações culturais, como iremos verificar no discorrer deste estudo.

Tabela 1 – Comparação das categorias culturais e setores criativos entre a SEC e a UNCTAD Secretaria da Economia Criativa (Brasil)

UNCTAD

Categoria Cultural

Setores criativos

Categoria Cultural

Setores criativos

Patrimônio

Patrimônio Material Arquivos Museus

Patrimônio

Locais culturais: - Sítios arqueológicos - Museus - Bibliotecas, - Exposições Expressões culturais tradicionais: - Artesanato - Festivais - Celebrações

Artes

Artes visuais - Pinturas - Esculturas - Fotografia - Antiguidades Artes cênicas - Música ao vivo - Teatro - Dança - Ópera - Circo - Teatro de fantoches Editoras e mídias impressa - Livros - Imprensa e outras publicações Audiovisuais - Filme - Televisão - Rádio e demais radiodifusões. Design - Interiores - Gráfico - Moda - Joalheria - Brinquedos Novas mídias - Software - Video games - Conteúdo digital criativo Serviços criativos - Arquitetônico - Publicidade - Cultural e recreativo - Pesquisa e desenvolvimento (P&D) criativo

Expressões culturais

Patrimônio Imaterial Artesanato Culturas Populares Culturas Indígenas Culturas Afro-brasileiras Artes Visuais Arte Digital

Artes de espetáculo

Dança Música Circo Teatro

Audiovisual/ do Livro, da Leitura e da Literatura

Cinema e vídeo Publicações e mídias impressas

Mídia

Criações Culturais e Funcionais

Moda Design Arquitetura

Criações funcionais

Fonte: BRASIL (2012); UNCTAD (2012) (Adaptado).

Contextualizando Natal/RN… O estado do Rio Grande do Norte localiza-se no Nordeste brasileiro possuindo uma população, estimada em 2014, de 3.408.510 habitantes. A sua área é de 52.811,047 km2 e a sua densidade demográfica é de 59,99 hab/km2. Possui 167 municípios e a capital do estado é Natal (IBGE, 2014) (cf. Fig. 1).

Fig. 1– Estado do Rio Grande do Norte (RN)

Fonte: IBGE (2014).

Natal é uma cidade de destino turístico devido ao seu clima e às praias que se estendem pelo seu litoral. Durante a Segunda Guerra Mundial, recebeu um contingente de dez mil soldados norte-americanos quando sua população não ia além de 60.000 habitantes (PEDREIRA, 2008). É uma cidade que depende econômicamente do setor público e muitas empresas do setor privado dependem de editais e concursos públicos. Hoje, Natal tem uma população estimada em 862.044 habitantes. Sua área territorial é de 167.263km2 e sua densidade demográfica é de 4.805,24 hab/km2 (IBGE, 2014) (cf. Fig. 2).

Fig. 2 - Natal

Fonte: IBGE (2014).

O estado do Rio Grande do Norte (RN) tem um porcentual de municipios que realizam festivais ou mostras de música de 24,55% enquanto a média nacional é de 38,70%. O porcentual de municipios no RN que realizaram concursos de música é de 15,57%, sendo a média nacional de 31,90%. Quanto ao porcentual de municipios no RN com escolas, oficinas ou cursos de música é de 22,16% abaixo da média nacional que é de 33,80%. Porém, o porcentual de municípios no RN com grupos artísticos musicais é de 48,50% acima da média nacional cifrada em 47,20%. Porém, quanto ao porcentual de municípios do RN com grupos artísticos de orquestra é apenas de 4,79% enquanto a média nacional é de 11,50%. Em relação aos municípios do RN com grupos artísticos de bandas de música, o porcentual é de 54,49% acima da média nacional com 53,20%. Mas, se o porcentual de municípios do RN com grupos artísticos de coral é de 23,95%, a média nacional é bem mais elevada com 44,90%. O porcentual de municípios no RN com lojas de discos, CDs, DVDs e fitas é de 40,72% abaixo dos 59,80% da média nacional. Ao nível da graduação, o RN oferece quatro cursos de graduação em música e um curso de graduação em canto. (BRASIL, 2010)

Quanto ao teatro, o RN conta conta 16 teatros. O Índice de Concentração na Capital é de 56,25% e o Índice de Habitantes por Teatro em Natal é de 88.000 habitantes por teatro. O porcentual de municípios com escolas, oficinas ou cursos de teatro no RN é de 14,97% e a média nacional de 23,20%. O porcentual de municípios no RN que realizaram festivais/mostras de teatro é de 22,75% abaixo da média nacional de 25,80%. O porcentual de municípios no RN que realizaram concursos de dramaturgia é de 7,19% igualmente abaixo da média nacional de 9,30%. Ao contrário, o porcentual de municípios no RN com grupos artísticos de teatro é de 47,90%, valor superior à média nacional de 39,90%. Quanto ao porcentual de municípios no RN com teatros e/ou salas de espetáculo é de 12,57%, valor inferior à média nacional de 21,20%. Por último, é de referir que o RN apenas dispõe de um curso de graduação em Teatro e outro em Artes Cênicas. (BRASIL, 2010) Finalmente, quanto a museus é de referir que o RN tem 52 museus. O Índice de habitantes por Museu no RN é de 59.000 habitantes por museu. O porcentual de municípios com museus no RN é de 14,97%, abaixo da média nacional que é de 21,90%. Não existem cursos de museologia no RN cujo total nacional é de 6. (BRASIL, 2010)

Estudos de caso na cidade de Natal/RN A) Música Na música, a origem das ideias criativas é justificada pela inspiração do músico, mas também pelo contato com outros músicos e pelas vivências do cotidiano. São ainda, apontadas como qualidades que facilitam o surgimento de ideias criativas o domínio técnico, o estudo e a prática. Por último, refira-se ainda, a ausência de problemas que afetem a concentração/inspiração, assim como, a experimentação. quanto mais você se aproxima da música, estuda, se aproxima dela, com mais facilidade as músicas vão chegar pra você… isso é uma visão romântica… mas você pode ver também pelo lado pragmático da coisa, que é a questão da repetição, de quantas horas do seu dia, você dedica aquilo. Então, você fica ali tocando dez horas, vamos supor, por dia. Com certeza vai vir um monte de ideia boas na sua cabeça, mas se você não se aproxima tanto do instrumento ou da música… fica atento aos pequenos sinais, a uma frase que você ouve na rua… ou até mesmo uma melodia de três notinhas que vem na sua cabeça. Mas você chega em casa e tenta desenvolver. Eu acho que música é inspiração, é técnica, no caso da composição, mas é muito de você obstinado a fazer aquilo. É um pouco de transpiração também. (Diogo Guanabara, Macaxeira Jazz)

Luiz Gonzaga trouxe a canção Asa Branca falando da seca. Então eu, conversando com um amigo meu no primeiro CD, eu disse: “Rapaz é o seguinte… Eu quero fazer uma coisa diferente, eu vivo no Nordeste, eu estou no Cajueiro de Pirangi todo dia recebendo turista… Eu vejo o turista vindo de fora e vestindo aqui o Nordeste… porque aqui é ruim? Aqui não é ruim ‘caba’… vamos fazer uma música que fale das coisas boas, do cara que está em São Paulo e vem p’ra cá”. Aí a gente fez, Sertão do Cabugi, entendeu? é o cara que está em São Paulo e vai embora e diz: “Eu vou embora, não fico mais aqui,vou lá p’ra minha serra no Sertão do Cabugi. (Francisco Cláudio, Forró Meirão)

Os grupos entrevistados (Macaxeira Jazz, As Nordestinas, e Far From Alaska) são grupos pequenos com quatro a cinco membros enquanto Forró Meirão tende a ser concebido como um grupo médio com mais de seis membros. A Orquesta de Música da UFRN chega a reunir cerca de setenta elementos. Todos os grupos têm como principal característica a complementaridade de papéis. Apenas Macaxeira Jazz se assume como um grupo sem hierarquia e daí a igualdade nas despesas e das receitas dentro do grupo. O ambiente familiar, o respeito de personalidades, a entreajuda, a prioridade dos projetos do grupo face aos individuais são também algumas das características assumidas pontualmente. Claubertto é o sanfoneiro, um dos produtores da banda,[…] vocal. Ele é compositor também. Eu sou Cláudio, eu sou o vocalista, também sou o produtor da banda. [...] Claubertto também ele é design da banda. [...] Ele toma conta dessas coisas de internet aí, essas redes sociais. Ana Cláudia é vocalista, […] tem a parte dela. Papai, ele é o produtor também, ele é o motorista, ele é o professor, ele é quem responde pela gente. Ele é o segurança, entendeu? Minha mãe tem a parte dela também… E aqui o Forró Meirão, agora tem os músicos que trabalham com a gente. A gente está dividindo a estrada com eles por aí… Tem o baterista, nosso grande amigo Calcai, temos o nosso mesário Wellington Garcia, temos o guitarrista Naldo, temos o baixista, Edson Lins. [...] O percussionista é Alex. (Cláudio, Forró Meirão)

A maioria dos grupos de música entrevistados acredita que a cultura potiguar influencia seus projetos musicais e que estes revelam de alguma forma, esse meio cultural, social e físico. Apenas o grupo Far From Alaska rejeita essa influência em seus projetos. Certamente! Acho que não tem nenhum artista que não seja influenciado pelo seu meio. Ele pode até negar esse meio, é uma possibilidade… mas dizer que ele não é influenciado, que ele está completamente desconectado. Absolutamente… eu não acredito nisso. (Maestro André Muniz, Orquestra da UFRN)

Quanto às medidas ou políticas públicas existentes cabe salientar algumas iniciativas locais com a do Vereador Hugo Manso que colocava músicos a atuar nas

praças; a existência de editais para apoio de projetos na área da música. Contudo, falta no RN políticas definidoras de porcentagens da música local na rádio; falta de apoios para que o músico se possa dedicar em pleno à musica e não se tenha de preocupar com o seu empreendedorismo; a abertura de editais para projetos diferentes e inovadores na área da música; maior incentivo das empresas à música. tem os Projetos de Lei, tem a Lei Câmara Cascudo, a Lei Rouanet, que os projetos se inscrevem e tudo mais… só que isso ajuda a viabilizar muita coisa, muitos projetos… Só falta a curadoria abrir um pouco mais p’ra outras, porque são sempre as mesmas pessoas com os mesmos projetos sendo contemplados ano a ano. E enfim, talvez uma abertura maior fosse importante p’ra ter outras pessoas podendo fazer as coisas também, até em menor escala.” (Cris Botarelli, Far From Alaska)

B) Teatro No teatro, a origem das ideias criativas, tanto é de ordem individual como coletiva, não tendo uma única fonte. Trata-se muitas vezes de um processo longo. Tanto parte de um texto, como de temáticas, como de elementos da natureza. Somam-se as experiências dos atores e diretores e se confronta por vezes com os próprios autores ou dramaturgos. Conta, porém, com as limitações materiais. Às vezes cada um do grupo joga na mesa uma vontade, a maneira que o grupo digere isso é que faz o espetáculo. A inspiração é uma combinação de ideias, esse processo é longo. O processo teatral é um processo longo. Não parte só da vontade criativa, mas do casamente dessa vontade criativa com meios materiais. (Nara Kelly, Estação de Teatro)) o Grupo Carmin trabalha com dramaturgia própria, a gente não pega, pelo menos até agora, não pegamos textos já prontos e montamos, a gente cria o texto, convida o dramaturgo pra vir pros ensaios, pra trabalhar com a gente e criar esse texto a partir das nossas experiências, dos nosso estudos, a criação vem muito daí, da montagem do espetáculo, parte também dessa coisa coletiva que o grupo mesmo propõe, eu proponho cenas (Quitéria Kelly, Grupo Carmim)

Os grupo de teatro ensaiam quer em salas alugadas, quer em salas da universidade, quer ainda alternando em salas com outros grupos de teatro. Trata-se de grupos que têm divisão de tarefas, embora o seu núcleo possa ser mínimo. Há, no entanto, na maioria das vezes uma hierarquia dentro do grupo de teatro. eu sou o director. Atualmente, a gente chamou essa professora da UNESP que é a Luciana para também dirigir os espetáculo e os outros vão se revesando como músicos, preparadores corporais, assistentes de direção.

(Robson Hardechpek, Arquétipos Grupo de Teatro) temos um coordenador, um tesoureiro e os outros membros vão se dividindo em tarefas, como pesquisas e estudos, infraestrutura… Ela não segue uma coisa muito organizada, tem um processo meio anárquico… vamos sobrecarregando uma criatura ou outra. (Lenilton Teixeira, Grupo Estandarte)

Quanto à influência da cultura potiguar nos projetos teatrais, ela é assumida unanimemente, embora um dos grupos refira que se trata apenas de uma influência no meio de muitas outras influências. minha formação artística é toda natalense, potiguar. Toda influência da minha carreira, do meu trabalho é daqui… assistindo os grupos de teatro daqui… assistindo os artistas da cidade, tendo como referência meus colegas de trabalho. Tudo daqui, até porque é tão difícil a gente ter acesso a coisas de fora. Agora, com esse advento da Internet está tudo muito mais acessível, mas quando eu comecei a gente só tinha a gente mesmo p’ra se alimentar (Quitéria Kelly, Grupo Carmim) N’“Os desaparecidos” falamos da gente… não deixa de ser universal, pois não somem crianças só em Natal. O Saramago não é daqui, é português, mas ele fala no excesso de informação. Com tanta informação que vi, passa a não enxergar com o excesso de luz, temos isso na nossa cidade e no nosso país. A influência não é de um foco, mas de um todo. (Lenilton Teixeira, Grupo Estandarte)

As medidas e Politicas Públicas existentes para a atividade teatral são sobretudo privilegiadas ao nível do Fundo de Incentivo à Cultura. Os editais são fundamentais na vida dos grupos de teatro que gostariam, no entanto, que seu número fosse ampliado, bem como, os incentivos à pesquisa, produção, fruição e circulação no próprio estado. Por outro lado, registra-se ainda a necessidade de preparação específica para os concursos via edital. A primeira coisa é o incentivo a pesquisa, produção e fruição dessas obras, por que eu preciso de alguma forma ter como produzir e circular com esse material. É preciso ter como produzir, mas também como circular com esse material, por que se não conseguir circular ninguém vai ver, não se vai trocar ideias e nem amadurecer (Lenilton Teixeira, Grupo Estandarte)

C) Museus As ideias criativas no âmbito museológico é fixado em editais, a que os artistas podem concorrer e ter acesso às salas para suas exposições. A organização de exposições temporárias procura inovar e coloca em prática as ideias criativas.

Igualmente, assinalar datas comemorativas e organizar eventos nos museus são formas criativas de renovar as coleções. Desse modo, a criação pode ser provocada através da definição de um edital, de uma proposta do próprio museu e do seu diretor ou sua diretora, quer das propostas dos próprios artistas que aí expõem seus trabalhos. O Instituto tem sempre exposições temporárias que tem a ver com alguma data que a gente está comemorando, tenha ela a ver com Cascudo ou não. Por exemplo, a gente sempre comemora o aniversário dele, que é 30 de dezembro. É nessa ala, que sempre é fora, sempre são painéis, e até para o turista ter sempre alguma coisa diferente, a gente sempre tem alguma exposição diferente. No Dia Internacional da mulher, a gente mostrou o universo feminino pela visão de Cascudo, na semana agora de Museus, que começa na próxima semana a gente vai fazer exposição sobre as coleções de Câmara Cascudo, até porque o tema da Semana de Museus é coleções. Então, a gente se adequa, a gente está dentro do Ibram- Instituto Brasileiro de Museus, nós somos cadastrados no Ibram, e o Ibram sempre propõe programações e exposições temporárias dependendo do que esteja acontecendo. A semana de Museus específica, que é essa que começa próxima semana, é a programação… é sempre voltada para um tema, tema esse que agora é “Museus: as coleções criam Conexões”. A gente fará uma exposição falando sobre as coleções Cascudianas, então sempre a gente tá, ou com temas voltados para Cascudo, ou com temas que são propostos pelo Ibram e por comemorações voltadas para a área de museus. Normalmente sou eu que pensa um pouquinho como é que pode tecer esse tema, né? A gente funciona aqui, também temos funcionários que nos auxiliam nisso aí, mas basicamente a elaboração disso aí fica muito a meu encargo, em relação a esse tipo de exposição. (Daliana Cascudo, Ludovicus: Instituto Câmara Cascudo)

Os museus têm estruturas pequenas e encontram-se divididos hierarquicamente, por alas e exposições temporárias e permanentes. Alguns museus são públicos e outros privados, mas seus acervos são objeto de pesquisa sobretudo de alunos universitários. A divisão de tarefas e funções existe, embora seja necessário em muitos casos um trabalho colaborativo. Trabalhar aqui é trabalhar com uma multiplicidade de tarefas que realmente absorvem muito tempo, por que nós trabalhamos numa cadeia produtiva que cada um tem que desempenhar o seu papel (...) É como o nome diz “colaborar” trabalhar com os outros, a gente tem que tá trabalhando de forma sincrônica e que cada um faça a sua parte como deve para que o trabalho saia realmente bom (Sonia Otton, Museu Câmara Cascudo)

A preservação dos acervos museológicos está presente na organização dos museus e reflete a cultura potiguar e a sua relação com a cidade de Natal. De cada microrregião do estado você tem dois municípios e um brinquedo para representar, então, o museu hoje ele termina sendo uma referência para educação e a cultura do Estado. (Lerson Maia, Museu do Brinquedo Popular)

o nosso principal objetivo aqui é manter viva a memória de Câmara Cascudo. Câmara Cascudo que se dizia um provinciano incurável, nunca quis sair da sua terra, que nunca quis que seu acervo saísse daqui, então tudo isso, essa vontade dele tão grande de se manter aqui, de que as coisas dele se mantenham, é isso que a gente procura seguir e é por isso que nós estamos tão arraigados e vinculados à Cidade do Natal (Daliana Cascudo, Ludovicus: Instituto Câmara Cascudo)

Quanto às medidas e Políticas Públicas existentes para o exercício da museologia, verificamos a ausência de Políticas Públicas estatal e municipal. Apenas o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) apoia e orienta o exercício e o desenvolvimento da museologia. Em Natal eu desconheço, uma política por parte do estado, ou por parte do Município, com a temática do Museu, e se tem a gente nunca foi convidado, para participar de uma reunião.” “A gente sempre dialoga e (...) sempre busca algumas orientações e informações é com o Instituto Brasileiro dos Museus Ibram, mas aqui mesmo no estado e no município a gente desconhece algum setor da Fundação José Augusto, ou da Capitania das Artes que dialogue com essa ação se tem são mais voltados para os museus estaduais. (Lerson Maia, Museu do Brinquedo Popular) Nós queremos que ele fomente, que ele dê apoio, que ele inicie um política contínua de editais, uma política contínua de capacitação, pedindo o apoio do Ibram, chamando profissionais de outros estados, criando um ambiente para que uma política museológica se desenvolva por si, e nem isso que seria obrigação constitucional do estado, aqui no Rio Grande do Norte a gente não tem a mão do poder público na área da cultura no que diz respeito aos museus (Sonia Otton, Museu Câmara Cascudo)

Concluindo… A origem das ideias criativas nos três setores culturais e criativos são não somente de ordem individual, mas sobretudo de ordem coletiva. A educação, a prática e a experiência são determinantes para o desenvolvimento dessas ideias e não se resumem a dotes genêticos ou inatos. O meio cultural, social e natural assume também papel de destaque nessa produção criativa. Os recursos econômicos e as infraestruturas disponíveis são no entanto condicionantes que importa considerar. A ausência de Políticas Públicas locais, tanto municipais como estatais são igualmente imprescindíveis para o desenvolvimento destes setores. Quanto à estrutura e ambiente organizacional dos setores culturais e criativos – música, teatro e museus – estes tendem a ser hierárquicos e especializados através da divisão de funções, embora possa se tratar de estruturas flexíveis, bem como

colaborativas. Alguns grupos, deparam-se com dificuldades sobretudo logísticas, sobretudo, ao nível do teatro. Em todos os setores enunciados, a cultura potiguar encontra-se presente e se reflete na produção cultural. Há, por isso, um diálogo entre o presente e o passado, entre o tangível e o intangível que importa ter atenção e que é importante apoiar em termos locais. É de salientar ainda que Natal se apresentando como uma cidade turística deve olhar com especial cuidado para estes setores quer como setores identitários ao nível local, quer como instrumento de afirmação de uma cultura local que é exposta cotidianamente à cultura global e turística, quer nacional, quer internacional. Por último, importa refletir sobre a demanda de apoios à cultura nos setores da música, do teatro e da atividade museológica. A política pública de desenvolvimento da economia criativa assentando seus pilares no empreendedorismo e na criatividade em todo o ciclo econômico dos setores criativos e culturais coloca a responsabilidade

nos

empreendedores

culturais

e

criativos

na

busca

de

financiamentos e receitas para o desenvolvimento das suas atividades. Porém, o Estado, nos seus diferentes níveis, não se pode eximir da responsabilidade de apoiar estes setores. Há, no entanto, que apoiar estes setores na criação de mercados locais, nacionais e internacionais. Individualmente ou em pequenas estruturas empresariais, esta tarefa é extremamente dificil de alcançar, daí que se exija ao Estado o apoio e a adoção de medidas que permitam a criação de mercados, a difusão de seus produtos culturais por meios tecnológicos e informacionais.

Referências Bibliográficas BOP CONSULTING. Guia prático para o mapeamento das indústrias criativas. London: British Council. 2010. BRASIL. Cultura em números: anuário de estatísticas culturais. 2ª edição. Brasília: MinC, 2010. BRASIL. Plano da Secretaria da Economia Criativa: políticas, diretrizes e ações, 2011 a 2014. 2ª ed. (rev.). Brasília: Ministério da Cultura. 2012.

CAIADO, Aurilio Sérgio Costa. Economia Criativa: Economia Criativa na cidade de São Paulo: diagnóstico e potencialidade. São Paulo: FUNDAP. 2011. CRUZ, Fernando Manuel Rocha da. Ambiente Criativo: Estudo de caso na cidade de Natal/RN. Natal: UFRN. 2014. FIRJAN, Sistema. Indústria Criativa: Mapeamento da Industria Criativa no Brasil. 2010.

Disponível

em

. Acesso em: 20 mai 2013. HOWKINS, John. Economia Criativa - Como ganhar dinheiro com ideias criativas. São Paulo: M. Books. 2012. IBGE. [email protected] 2014. Disponível em . Acesso em 28 out 2014. MIGUEZ, Paulo. Economia criativa: uma discussão preliminar. In: NUSSBAUMER, Gisele Marchiori (Org.). Teorias & políticas da cultura: visões multidisciplinares. Salvador: EDUFBA. 2007. p. 95-113 UNCTAD. Relatório de Economia Criativa 2010. Economia Criativa: uma opção de desenvolvimento viável. Genebra: Nações Unidas. 2010

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