Revista Partes - Exclusão Social

May 23, 2017 | Autor: Paulo Lima | Categoria: Educação de Jovens e Adultos
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Educação Ano I ­ Nº 4 ­ Julho de 2000 .

Quantos temos por fazer! Paulo de Abreu Lima  Patric... Sorriso curto, estreito, barriga acentuada, cheia de verme. Quando me vê, um olhar profundamente terno, que envolve a voz tímida, acompanha o gesto da perninha esticada indicando o sapatinho desamarrado. " Tio, amarra pra mim..." Na sua expressão, no seu jeito, tem mais que um pedido, tem uma fala firme, embora pueril. Uma fala forte, profunda, que é também do seu pai, da sua mãe, que já não devem tê­las tão fortes. Mas o Patric, sim. É forte porque‚ pura. Mesmo que a faça, também, do seu pai e da sua mãe; antes de tudo é sua. Acho que‚ justamente por isso, é forte.

" Tio amarra pra mim...me dá um pouco do seu carinho..." Porque é forte, não teme pedir carinho...porque não teme dar...porque é forte. Ainda não fizeram ocorrer a ele que um dia ele vai temer. Pobre Patric...um dia sussurrarão a ele: "Patric, não dê carinho á toa; guarde­os para si ou troque­os por..." Pobre Patric... embora com uma fala tão forte, tornar­se­á indefeso, quando desse sussurro. Engraçado...nós, adultos, que temos a fala fraca, é que impingimos a eles nossa verdade. Verdade de adulto; verdade de gente grande (?!?) Somos nós, seguramente, que sussurramos em seus ouvidos. E pior: talvez o façamos exatamente quando nos esticam a perninha indicando o sapatinho desamarrado.   Luciano...no caminho de volta do trabalho, tem um cruzamento. É lá que encontro o Luciano; grudado à mãe, que tem passos pesados, olhar triste; pedindo... desesperançada... Luciano não articula bem as palavras; quando repito seu nome, ele balbucia algo incompreensível; quer sair correndo, mas a mãe não deixa, pois o trânsito é muito pesado. Pobre Luciano... O trânsito daquela esquina é desumano...é cinzento... fuliginoso...os motoristas não têm rostos; têm expressões pesadas e tensas à espera da abertura do farol. Não é infantil o trânsito daquela esquina. O Luciano é...tão sonhador!! quer correr na grama, atrás de uma bola, rindo, gargalhando, pulando em cima do pai e da mãe... Mas ele não está. Está grudado à mãe; ora no seu colo, ora no chão, grudada em sua mão. Pobre Luciano... Aquela  esquina, provavelmente está cheia de anjos, pendurados nos muros, no viaduto; pois é o que deve acalentar o Luciano e sua mãe – pois parecem não acreditar mais em sonho qualquer, de tão pesadas e tristes, suas expressões. E o sonho só tem sentido quando sonhado junto – e o Luciano e sua mãe parecem não ter mais direito de sonhar; parece que estão impedidos de sonhar; mas o Luciano sonha; ele é teimoso ( ainda bem!! )...ele esperneia e quer sair do colo da mãe, que não o deixa. Patric e Luciano...quanta fragilidade e ternuras juntas; quanta força na fala e nos gestos.

Sussurrar, esticar os braços, acolher, envolver...como é forte e decisiva a nossa presença. É bom lembrar dos 10 anos de

existência do Estatuto da Criança e do Adolescente! Que temos muito caminho para percorrer. Paulo de Abreu Lima é psicólogo

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