Trauma e perdão: a memória da escravidão e da Guerra Civil na historiografia norte-americana

October 8, 2017 | Autor: Lara Taline Santos | Categoria: American History, History of Slavery, Abolition of Slavery, American Civil War
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RUSEN, Jörn."Using History: The Struggle over Traumatic Experiences of the Past in Historical Culture". In: Historein, vol. 11, 2011, pp.14-17
Ibidem; p. 17
RICOEUR, Paul. Memória, história, esquecimento. Conferência escrita e proferida em inglês a 8 de Março de 2003 em Budapeste sob o título: "Memory, history, oblivion" no âmbito de uma conferência internacional intitulada "Haunting Memories? History in Europe after Authoritarianism". Disponível em: http://www.uc.pt/fluc/lif/publicacoes/textos_disponiveis_online/pdf/memoria_historia Acesso em: 04 de fevereiro de 2014, p. 07.
RUSEN, Jörn. "Como dar sentido ao passado: questões relevantes da meta-história". In: História da Historiografia, no 02, março de 2009. Traduzido por Valdei Araujo e Pedro S. P . Caldas, revisão de Estevão de Rezende Martins; pp. 163-209.
Ibidem; pp. 163-164.
RUSEN, Jörn."Using History: The Struggle over Traumatic Experiences of the Past in Historical Culture". In: Historein, vol. 11, 2011, p. 17
RUSEN, Jörn. "Como dar sentido ao passado: questões relevantes da meta-história". In: História da Historiografia, no 02, março de 2009. Traduzido por Valdei Araujo e Pedro S. P . Caldas, revisão de Estevão de Rezende Martins; p. 164.
Ibidem, p. 166.
Ibidem, p. 167.
Ibidem, pp. 167-168.
Ibidem, pp. 173-174.
Ibidem, p. 175.
Ibidem, pp. 168-173
Ibidem, pp. 175-176.
RICOEUR, Paul. Memória, história, esquecimento. Conferência escrita e proferida em inglês a oito de Março de 2003 em Budapeste sob o título: "Memory, history, oblivion" no âmbito de uma conferência internacional intitulada "Haunting Memories? History in Europe after Authoritarianism". Disponível em: http://www.uc.pt/fluc/lif/publicacoes/textos_disponiveis_online/pdf/memoria_historia Acesso em: 04 de fevereiro de 2014, p. 01.
RUSEN, Jörn. A história entre a modernidade e a pós-modernidade. Segunda palestra proferida na Universidade Federal do Paraná, Curitiba - PR. Tradução de Peter Naumann, Porto Alegre; revisão de Estevão de Rezende Martins, Brasília.
Ibidem; pp. 04-05.
Ibidem; p. 07
Ibidem; p 05.
Ibidem; pp. 02-05
RICOEUR, Paul. "O perdão pode curar?" In: Esprit, no 210, 1995, pp. 77-82. Texto de uma conferência proferida no Templo da Estrela, na série "Dieu est-il crédible?". O título foi-lhe atribuído pelos organizadores. Foi pela primeira vez publicado em português na revista Viragem, no21, 1996, pp. 26-29, e republicado in: Fernanda HENRIQUES(org.), Paul Ricoeur e a Simbólica do Mal, Porto, Edições Afrontamento, 2005, p.04.
Ibidem; p. 04
RICOEUR, Paul. Memória, história, esquecimento. Conferência escrita e proferida em inglês a 8 de Março de 2003 em Budapeste sob o título: "Memory, history, oblivion" no âmbito de uma conferência internacional intitulada "Haunting Memories? History in Europe after Authoritarianism". Disponível em: http://www.uc.pt/fluc/lif/publicacoes/textos_disponiveis_online/pdf/memoria_historia Acesso em: 04 de fevereiro de 2014, p.03.
RICOEUR, Paul. "O perdão pode curar?" In: Esprit, no 210, 1995, pp. 77-82. Texto de uma conferência proferida no Templo da Estrela, na série "Dieu est-il crédible?". O título foi-lhe atribuído pelos organizadores. Foi pela primeira vez publicado em português na revista Viragem, no21, 1996, pp. 26-29, e republicado in: Fernanda HENRIQUES(org.), Paul Ricoeur e a Simbólica do Mal, Porto, Edições Afrontamento, 2005, p. 04
RICOEUR, Paul. Memória, história, esquecimento. Conferência escrita e proferida em inglês a 8 de Março de 2003 em Budapeste sob o título: "Memory, history, oblivion" no âmbito de uma conferência internacional intitulada "Haunting Memories? History in Europe after Authoritarianism". Disponível em: http://www.uc.pt/fluc/lif/publicacoes/textos_disponiveis_online/pdf/memoria_historia Acesso em: 04 de fevereiro de 2014, p. 05.
RICOEUR, Paul. "O perdão pode curar?" In: Esprit, no 210, 1995, pp. 77-82. Texto de uma conferência proferida no Templo da Estrela, na série "Dieu est-il crédible?". O título foi-lhe atribuído pelos organizadores. Foi pela primeira vez publicado em português na revista Viragem, no21, 1996, pp. 26-29, e republicado in: Fernanda HENRIQUES(org.), Paul Ricoeur e a Simbólica do Mal, Porto, Edições Afrontamento, 2005, p. 05.
RICOEUR, Paul. Memória, história, esquecimento. Conferência escrita e proferida em inglês a 8 de Março de 2003 em Budapeste sob o título: "Memory, history, oblivion" no âmbito de uma conferência internacional intitulada "Haunting Memories? History in Europe after Authoritarianism". Disponível em: http://www.uc.pt/fluc/lif/publicacoes/textos_disponiveis_online/pdf/memoria_historia Acesso em: 04 de fevereiro de 2014, pp. 05-07.
RICOEUR, Paul. "O perdão pode curar?" In: Esprit, no 210, 1995, pp. 77-82. Texto de uma conferência proferida no Templo da Estrela, na série "Dieu est-il crédible?". O título foi-lhe atribuído pelos organizadores. Foi pela primeira vez publicado em português na revista Viragem, no21, 1996, pp. 26-29, e republicado in: Fernanda HENRIQUES(org.), Paul Ricoeur e a Simbólica do Mal, Porto, Edições Afrontamento, 2005, p. 06
RICOEUR, Paul. Memória, história, esquecimento. Conferência escrita e proferida em inglês a 8 de Março de 2003 em Budapeste sob o título: "Memory, history, oblivion" no âmbito de uma conferência internacional intitulada "Haunting Memories? History in Europe after Authoritarianism". Disponível em: http://www.uc.pt/fluc/lif/publicacoes/textos_disponiveis_online/pdf/memoria_historia Acesso em: 04 de fevereiro de 2014, p. 01.
RICOEUR, Paul. "O perdão pode curar?" In: Esprit, no 210, 1995, pp. 77-82. Texto de uma conferência proferida no Templo da Estrela, na série "Dieu est-il crédible?". O título foi-lhe atribuído pelos organizadores. Foi pela primeira vez publicado em português na revista Viragem, no21, 1996, pp. 26-29, e republicado in: Fernanda HENRIQUES(org.), Paul Ricoeur e a Simbólica do Mal, Porto, Edições Afrontamento, 2005, pp. 06-07
Ibidem; p. 08
Ibidem; p. 08.
MOISES, Claudia P. "O perdão e os crimes contra a humanidade: um diálogo entre Hannah Arendt e Jacques Derrida". In: Hannah Arendt e a Condição Humana. CORREIA, Adriano (org). Salvador: Ed. Quarteto, 2006, pp. 211-213
Ibidem; pp. 211-214
Ibidem; p. 213
Ibidem; pp. 214-216
Ibidem; p. 215.
Ibidem; pp. 218-219.
RICOEUR, Paul. Memória, história, esquecimento. Conferência escrita e proferida em inglês a 8 de Março de 2003 em Budapeste sob o título: "Memory, history, oblivion" no âmbito de uma conferência internacional intitulada "Haunting Memories? History in Europe after Authoritarianism". Disponível em: http://www.uc.pt/fluc/lif/publicacoes/textos_disponiveis_online/pdf/memoria_historia Acesso em: 04 de fevereiro de 2014, p. 07
Trauma e perdão: a memória da escravidão e da Guerra Civil na historiografia norte-americana

Lara Taline dos Santos
Mestranda UFPR
Prof. Dr. Renato Lopes Leite
Disciplina: HH794 - Teoria da história e historiografia

Introdução

A escravidão negra africana teve um papel crucial na construção da nação americana e deixou marcas indeléveis na história dos Estados Unidos. Por mais que a ideologia patriótica americana baseie-se em uma noção de história essencialmente progressista e triunfal, a escravidão teve impacto profundo na estrutura da sociedade. A contradição no discurso patriótico é evidente: a mesma nação que se proclama defensora da democracia - "lar dos livres e terra dos bravos" - é aquela que por vezes tenta manter no esquecimento a memória de anos de opressão contra a população negra escrava e liberta. Desta forma, percebemos que a formação da identidade americana, as diferentes formas de conceber-se americano, baseavam-se em valores essencialmente positivos, enquanto que havia a desvalorização da imagem do estrangeiro. Segundo Jörn Rüsen, essa atitude de depreciação do outro é característica de um comportamento etnocêntrico com relação à formação da sua própria identidade e dos outros e, infelizmente, o etnocentrismo é praticamente inerente à natureza humana.
Economicamente, a utilização de mão de obra escrava deu força aos grandes proprietários de terras e acabou por criar a riqueza necessária para impulsionar o desenvolvimento industrial que foi decisivo para a transformação da ex-colônia britânica em potência econômica mundial. No plano social, as relações criadas no cenário da escravidão imortalizaram-se em inúmeros retratos por todo o país. Para além desses fatores, toda a carga cultural trazida pelos escravos oriundos de diferentes regiões do continente africano ajudaram a moldar o grande mosaico cultural que são os Estados Unidos da América.
Pensando acerca de tamanha importância da escravidão na formação da identidade americana, as últimas décadas a historiografia sobre a secessão vem tentando mudar a cultura histórica do país acerca do tema. Em se tratando de experiências históricas traumáticas, como a escravidão, é preciso uma mudança na forma com que a história profissional como um todo trata a questão do sofrimento. Ele não pode ser simplesmente ignorado, é preciso compreende-lo como um conceito básico da interpretação histórica. Desta maneira, narrando a vida e a luta daqueles que sentiram os horrores do cativeiro, tem-se a oportunidade de superar o etnocentrismo, a dor e o trauma que a escravidão significa na história dos Estados Unidos. Conforme explicitado por Paul Ricouer: "As penas, sejam elas quais forem, tornam-se suportáveis se as narrarmos ou fizermos delas uma história".
Com base nessas idéias, nas próximas páginas buscaremos mapear as principais concepções sobre trauma e as possibilidades de sua superação em quatro pensadores que dedicaram-se ao tema; quais sejam, Jörn Rüsen, Paul Ricoeur, Hannah Arendt e Jacques Derrida. Com base nesses autores, pretendemos demonstrar a importância dessa nova linha historiográfica norte-americana que tem como objetivo narrar os horrores do cativeiro e da guerra a partir da visão daqueles que a vivenciaram em sua face mais cruel, os escravos.

Como modificar identidades históricas? Trauma e perdão em Jörn Rüsen

Segundo Jörn Rüsen, todo processo de reconciliação necessita a introdução de novos elementos da cultura histórica, de novos modos de pensamento histórico: o perdão e o luto. É necessário que aqueles que carregam o fardo de um passado de submissão aceitem as desculpas daqueles que os oprimiram. Pedir perdão e perdoar é a única maneira de superar e transformar os "discursos interculturais do presente"; identidades baseadas em valores excludentes.
Experiências históricas traumáticas - como a escravidão - criam uma distância abissal entre o passado de violência e opressão e o futuro que se desenha menos abusivo. Essa relação desconexa entre passado e presente reflete na formação da identidade e a atrela ao sofrimento e a dor, tornando-a exclusivista, dominante, díspar, etnocêntrica. Para reverter isso, é preciso voltar-se para o início dos processos de formação de identidade e incluir em seu desenvolvimento aqueles que cometeram atos violentos e opressores, suas vítimas e todos aqueles que de alguma forma partilham a herança de um período traumático. O sofrimento necessita representação, não esquecimento. Somente desta maneira é possível libertar as vítimas de uma identidade histórica da angústia.
Para Rüsen, a dor é um elemento básico à experiência histórica e o processo que envolve sua rememoração e a reconstrução da identidade é um fenômeno fundamental no processo de luto, sendo ele próprio também uma prática cultural. Desta forma, a memória assume papel fundamental no processo de superação de um trauma por sua imbricada relação com a história e com as carências de orientação da vida prática, do tempo presente.
A memória torna o passado significativo, o mantém vivo e o torna uma
parte essencial da orientação cultural da vida presente. Essa orientação inclui
uma perspectiva futura e uma direção que molde todas as atividades e
sofrimentos humanos. A história é uma forma elaborada de memória, ela vai
além dos limites de uma vida individual. Ela trama as peças do passado
rememorado em uma unidade temporal aberta para o futuro, oferecendo às
pessoas uma interpretação da mudança temporal. Elas precisam dessa
interpretação para ajustar os movimentos temporais de suas próprias vidas.

Em se tratando de memória histórica, Rüsen compreende que é neste campo -conflituoso e controverso - que se dá a relação contígua entre passado e presente. Todavia, a memória volta-se sempre para o passado a partir do presente, pois é nele que ela se desenvolve. Neste relacionamento, o passado apresenta-se como " força móvel do espírito humano guiado pelos princípios do uso prático".
Para cumprir com a importante tarefa de lidar com o passado a partir do presente, da vida prática e cultural das pessoas, a memória divide-se em três níveis; comunicativo, coletivo e cultural. O primeiro encontra-se entre a auto-compreensão e as experiências de mudança no tempo. Lidando com conflitos geracionais, esse nível de memória gera o sentimento de pertencimento tão caro as pessoas. Em última instância, suas características de fluidez e de ligação com o presente, relacionam-se com questões simbólicas e debates do campo político acerca da importância da representação. O nível coletivo da memória, por outro lado, apresenta-se com maior seletividade, estabilidade e importância na vida cultural das pessoas comuns. Por fim, a memória cultural é o próprio núcleo da identidade histórica. Ela possui um meio e um lugar próprios na vida cultural dos indivíduos e constitui a matéria para rituais institucionalizados. É nesse nível que os sistemas políticos podem assumir um caráter permanente em meio a fluidez do tempo, uma vez que a memória cultural os reveste de unicidade.
As divisões e classificações da memória podem ser inúmeras dependendo dos critérios adotados. Se tomarmos por base a representação do passado como elemento classificatório, podemos apontar a existência de outros dois tipos de memória; a responsiva e a construtiva. Em se tratando de trauma, a memória responsiva é fundamental, uma vez que através dela que o passado é rememorado e transportado para o presente. É através da memória responsiva que uma experiência histórica traumática é acionada em toda a sua intencionalidade pela vítima. Por outro lado, a memória construtiva remete a discursos, debates e narrativas que tem como objetivo a rememoração do passado. A memória construtiva molda o passado e o coloca em paralelo às perspectivas do futuro.
Entretanto, para além das distinções, Rüsen aponta uma característica que é inerente a memória histórica como um todo: sua capacidade de modificar-se no curso do tempo. Neste sentido, a consciência histórica também apresenta-se como um tipo específico de memória histórica dotada de uma perspectiva temporal mais complexa na qual passado, presente e futuro relacionam-se de forma íntima e elaborada.
É a conjunção entre memória e consciência histórica que desenvolve e expressa as identidades, delimitando o domínio da vida individual em contraponto ao universo habitado por aqueles que são alheios a sua vivência e suas práticas culturais. É da união entre memória e pensamento histórico que desenvolve-se a identidade em uma perspectiva temporal, no limiar entre origem e futuro.
Desta maneira, a identidade pode ser compreendida como uma conquista da consciência histórica por meio da memória individual e coletiva que evoca o passado e o relaciona ao presente em um processo de criação de sentido para orientação da vida prática do indivíduo. A criação de sentido consiste na conjunção das experiências do passado com as expectativas futuras. Dessa união resulta uma imagem inteligível do progresso temporal, um conceito que molda o mundo e o "eu". O "eu" é poderoso, carregado de valor e dotado de uma dimensão espacial e temporal que delimita fronteiras culturais e define a noção de alteridade de um grupo. "A alteridade é uma imagem refletida de nós mesmos. Precisamos inclusive desta alteridade para legitimar nossa autoestima."
Contudo, o poder da memória reside no fato de que proporciona - aqueles que relembram - um reencontro com o passado. Passado este que é histórico porque transcende a vida do indivíduo; volta-se antes para a cadeia de gerações no processo mental de voltar no tempo, ao passo que cria expectativas futuras que vão além da vida de quem leva a cabo o exercício de rememoração.
Nesta relação histórica construída com o passado tem-se de levar em consideração o peso da experiência histórica e das formas narrativas que traduzem sua apropriação. O passado é enriquecido pela experiência, e ela por sua vez é apropriada repetidas vezes através das inúmeras estratégias narrativas de que temos conhecimento.
É através do trabalho narrativo, da comunicação intra e intercultural que pode-se aventar uma cura para o mal etnocêntrico que assola a maioria dos grupos sociais. O etnocentrismo consiste em uma estratégia cultural de distinção da memória coletiva a partir da valoração positiva da própria imagem e da depreciação dos "outros". Quando a identidade é construída sob a égide desses parâmetros tem-se o choque com identidades culturais diferenciadas. É neste sentido que a narrativa pode ajudar, desconstruindo a estratégia cultural etnocêntrica a partir do momento que conta uma história do ponto de vista daqueles que até o momento eram desqualificados simplesmente como "outros".
A ação de narrar pode auxiliar na reconquista de si mesmos daqueles que perderam sua identidade humana devido a violência física e psicológica que sofreram. Ou seja, narrando abre-se a possibilidade de perdoar, de transcender a moralidade etnocêntrica e perceber nos "outros" a humanidade.


Memória, história e narrativa: a visão de Paul Ricouer sobre perdão e cura

Em uma linha analítica muito próxima de Rüsen, Paul Ricoeur enfatiza que em se tratando de perdão e cura é preciso ter em mente que as questões suscitadas são relativas à memória "(...) já não como simples matriz da história, mas como reapropriação do passado histórico por uma memória que a história instruiu e muitas vezes feriu." Este processo de instrução da memória pela ação da história se dá a partir de dois procedimentos básicos da historiografia: a escrita e a leitura. A confluência entre ambos encontra-se na narrativa - a forma específica de representação da historiografia que se ocupa de eventos e interações. É a narração que agrega a tarefa histórica por excelência - a escrita e suas variadas formas - ao exercício primordial da leitura.
Desta maneira, é preciso compreender e acionar a memória em toda a sua complexidade, tendo em vista, igualmente, os problemas que ela apresenta. Segundo Paul Ricouer, o primeiro deles refere-se a ideia de representação do passado enquanto memória. Esse tipo de representação é transmitida pela história através da própria memória e pode levar a idealização e manipulação da última através do trabalho de configuração narrativa dos textos históricos. É durante esse trabalho que as estratégias de esquecimento - como o evitamento e evasão - se tornam ainda mais incisivos.
A reapropriação do passado histórico envolve três traços primordiais: a presença, a ausência e a alteridade. A partir delas, cria-se uma "imagem-recordação" do evento passado. Esse evento - o que aconteceu - que é o objeto de perseguição da memória. Para lidar esse passado e suas características a memória utiliza-se de alguns recursos: a lembrança e a rememoração. Quando acionados, esses dispositivos levam ao reconhecimento - passo fundamental no processo de superação de um evento traumático por estar situado no centro de toda a problemática da memória.
À história, por sua vez, está vedado este reconhecimento, uma vez que ele é domínio exclusivo do campo da memória. A história apenas pode nos oferecer construções, que ela mesmo admite serem reconstruções do passado histórico. Tendo em vista essas reconstruções, o conhecimento histórico assume papel de confrontação da memória; primeiramente, porque possuem objetivos - pessoais e coletivos - e características bastante distintas.
A história engloba um horizonte de acontecimentos passados mais amplo do que a memória Além disso, a história pode introduzir comparações que tendem a relativizar a unicidade e o caráter incomparável de memórias dolorosas. Acrescente-se a isso a pluralidade de perspectivas que a história abre sobre os eventos: econômica, social, política, cultural.

Entretanto, uma das principais diferenças entre memória e saber histórico reside no fato de que o segundo engendra uma poderosa pretensão à verdade. É esse suposto compromisso com a veracidade do fato histórico que impede o historiador de julgar ou, até mesmo, concluir. A ele é apenas permitido ponderar, compreender, discutir, explicar.
Contudo, essa imbricada relação entre esses conceitos básicos para tratar o passado - história e memória - vem sendo alterada nos últimos anos. Com o desenvolvimento de novas linhas teórico-metodológicas e historiográficas, os historiadores vem procurando anexar de forma definitiva a memória ao campo cultural. O desenvolvimento da história cultural é o maior expoente dessa transformação. Progressivamente, a memória passa a ser objeto de estudo dos historiadores, não se limitando apenas a ser uma matriz da disciplina histórica.
Recorrendo à conceitos oriundos da psicanálise, Paul Ricouer demonstra como o "excesso de memória" - problema já identificado por Freud - torna ainda mais complexo o processo de perdão e cura do trauma histórico. Por vezes, o excesso de memória leva à repetição excessiva, uma verdadeira obcecação pelo passado que acaba por paralisar a vítima, prendendo-a em um círculo vicioso que não leva a interpretação e compreensão do que aconteceu. A compulsão por repetir impede o indivíduo de rememorar; e é este último que está ligado ao processo de luto e cura do trauma. Por outro lado, o mesmo excesso de memória pode conduzir outros à uma fuga desesperada de seu passado. Temendo por uma vida de angústia e medo, a vítima não revisita os eventos traumáticos e assim não compreende, narra, supera. Para Freud, contra as armadilhas do excesso de memória é preciso que ela seja utilizada de maneira crítica, através de um "trabalho de lembrança".
O procedimento indicado por Freud para cura de um trauma passa sobretudo pela narrativa. É através dela que a memória pode ser levada à linguagem e ser interpretada de maneira crítica. Segundo Paul Ricoeur, o ato de narrar consiste em "(...) toda a arte de contar, narrar, que encontra, nas permutas da vida quotidiana, na História das histórias e nas ficções narrativas, as estruturas apropriadas do linguajar." Quando a vítima de uma ato violento do passado testemunha seu sofrimento ela coloca em jogo uma extensão de sua memória traumática através da narração. Desta maneira, narrar é preciso - tendo em vista uma narrativa que privilegie o ponto de visto da vítima, do oprimido.
Uma narrativa que relate fatos históricos a partir da visão dos "outros" assume uma importância ainda mais fundamental quando se tratam de eventos fundadores da história de um determinado grupo social, de memórias coletivas basilares na construção da identidade. Sobre essas memórias atuam pressões sociais fortes, daí sua complexidade. Segundo Freud, quando se tratam dessas lembranças o trabalho de rememoração crítica se torna ainda mais complexo, uma vez que os perigos do excesso de memória são particularmente grandes quanto à essas experiências. Entretanto, isso não significa que recursos críticos estão ausentes nas memórias coletivas. Pelo contrário, é apenas necessário trabalhá-las da maneira adequada à utilização destes dispositivos.
É através do ato de narrar que podemos mudar a carga moral de que está repleto um evento traumático do passado. Alterando a compreensão do passado pode-se mudar também a visão sobre o tempo presente e, paralelamente, as expectativas criadas com relação ao futuro. O esforço de rememoração, a alteração do sentido do passado, impele aquele que narra ao perdão, na medida em que recontar o fato histórico parece abrir uma possibilidade de libertação do pesado fardo de sofrimento e dor que o trauma carrega.
É precisamente neste ponto que reside a função moral da memória. Ela tem um dever para com as vítimas, o dever de não esquecer, de narrar sua história de dor, luta e sofrimento. No caso da escravidão norte-americana, os historiadores tem o dever de fazer memória, de rememorar a história do ponto de vista daqueles que viveram os horrores do cativeiro. Narrar os anos de exploração degradante da comunidade negra africana nos Estados Unidos tem sua justificativa no apelo à justiça que deve-se as vítimas de atos físicos e psicológicos tão brutais.
Os trabalhos de rememoração e narrativa, aliados ao esforço psicológico de pesar, levam a dimensão crítica do saber histórico à adentrar o seio do trabalho de memória e de luto. A partir disso, pode-se iniciar o árduo processo de cura de um trauma. Desta maneira, recordar e contar a história daqueles que sofreram abusos no passado é dever de todos. Por mais doloroso que seja, é preciso voltar o olhar ao passado e, de forma comedida e sensível, contar a história daqueles que sofreram e sofrem, libertando-os, assim, de seu fardo de dor.
Entretanto, é preciso ter em mente que a cura é um processo trabalhoso e complexo e que envolve também uma seleção. Segundo Paul Ricouer, toda a memória é seletiva e, por sua vez, as recordações e as narrativas também. Essa característica seletiva da memória e da narrativa tem implicações práticas no processo de memorização, uma vez que o mesmo acontecimento é lembrado de formas diferenciadas em virtude do momento específico pelo qual passa o indivíduo. Desta maneira, relembrar um evento traumático não significa que suas possibilidades de análise estejam esgotadas, uma vez que toda a memória encerra em si também esquecimentos. Desta forma, o esquecimento assume papel fundamental no processo de perdão e cura, uma vez que consiste em uma das dimensões da condição histórica dos homens.
No caso de um evento traumático o esquecimento geralmente é apenas uma fuga, uma forma de manter afastado o sofrimento do passado. A vítima tem medo de reviver suas memórias porque não as compreende. O perdão encontra-se justamente na contramão deste exercício de evasão, uma vez que não se pode perdoar eventos que não são recordados.
Por outro lado, a complexidade de perdoar encontra-se no fato de que ele escolta um outro tipo específico de esquecimento, aquele dito "ativo", pois é preciso esquecer durante o processo de luto. Por mais que o esquecimento muito freqüentemente se refira à noções de supressão e destruição, seu pólo ativo está ligado justamente ao processo contrário: a rememoração. Perdoar auxilia na destruição da dívida que prende a vítima ao passado e a impede de projetar o futuro. Isso se dá através da rememoração do fato traumático e do processo de luto, que contém em seu bojo também um esquecimento.
Entretanto não é dever do perdão destruir a lembrança, ele não se reporta aos acontecimentos em si, mas antes à carga traumática que eles possuem. A lembrança deve manter-se presente, pois é a partir dela que o processo de perdoar e esquecer ativamente a partir do luto pode curar. Segundo Paul Ricoeur, " (...) o perdão, em virtude da sua própria generosidade, se revela ser o cimento entre o trabalho de memória e o trabalho de luto."


O perdão e o luto possuem uma face política? Debates entre Hannah Arendt e Jacques Derrida

Também em sua dimensão política o perdão tem como meta a destruição da dívida que paralisa e aprisiona a vítima no passado traumático. Segundo Hannah Arendt perdoar constitui também uma grandeza política. Na visão da autora - divergente em vários aspectos daquelas cunhadas por Paul Ricouer e Jörn Rüsen - o perdão parece ser limitado, uma vez que os homens são incapazes de perdoar aquilo que não podem punir, nem punir aquilo que é imperdoável. A punição figura como alternativa ao perdão, tendo ambos a mesma característica de destruir o sofrimento que poderia se estender indefinidamente na vida prática das vítimas.
Diferentemente de Hannah Arendt, Jacques Derrida compreende que é possível perdoar sem julgar, ao passo que é igualmente possível acusar perdoando. Segundo o autor, é justamente no imperdoável que surge o poder de perdoar. As concepções do autor francês também divergem de Arendt quanto ao elo entre o político, o jurídico e o perdão. Para ele, a ação de perdoar é um ato absolutamente alheio a esses campos. O papel do Estado, das instituições e das instâncias jurídicas limita-se apenas ao julgamento, e para Derrida, julgar e punir não tem correlação alguma com perdoar. O perdão deve ser restrito aos indivíduos, não mantendo ligação alguma com o espaço público, com instituições políticas ou sistemas jurídicos. Segundo o autor, "O perdão não deve ser banalizado, deve ser sempre excepcional". Desta forma, o perdão quando é pedido por uma instituição não é autêntico, é apenas uma desconfiguração do verdadeiro processo de perdoar, que consiste em um ato único e extraordinário de apelo à memória; um ato que desafia a ordem das coisas e muda a vida das pessoas - algozes e vítimas. Assim, o perdão em Derrida assume uma dimensão quase divina, ao passo que Arendt enfatiza sua dimensão política.
Derrida divide, dentro da tradição judaico-cristã, duas formas basilares de perdão. A primeira, dita condicional, refere-se aquele perdão que é dado mediante pedido daqueles que perpetuaram o crime. Nesta modalidade de perdão, aquele que cometeu o ato violento já está a caminho da remissão, uma vez que o pedido de perdão em si já pode ser considerado uma demonstração clara de transformação. Por outro lado, o perdão dito incondicional revela-se como o verdadeiro ato de perdoar, pois nesse caso o algoz não pede qualquer tipo de indulto.
Entretanto, apesar de suas diferenças quanto à natureza do perdão - política e institucional para Arendt, divina para Derrida - é importante notar como a questão do trauma e do perdão nortearam também os escritos desses pensadores. Independente das diferenças teóricas, os pesquisadores vem ocupando-se a anos dos temas relativos à superação de experiências históricas traumáticas, fato que vem refletindo na historiografia, inclusive na americana - como será visto a seguir.

A nova historiografia americana: uma visão sensível sobre escravidão e guerra a partir dos relatos de escravos e seus descendentes

Durante décadas, os historiadores da guerra civil e da escravidão dividiram-se basicamente em duas linhas interpretativas bem definidas: uma dita tradicionalista e outra conhecida como revisionista. Enquanto tradicionalistas compreendiam a guerra como inevitável, os revisionistas a consideravam uma carnificina desnecessária que poderia ter sido evitada pela via moral e política. Desta maneira, percebe-se que grande parte da produção norte-americana, parte de uma polarização dos autores que se ocupam do tema da guerra civil e da escravidão. As discordâncias se dão quanto às origens do conflito, suas demandas e seu impacto a longo prazo na constituição da sociedade estadunidense.
Entretanto, a separação mais evidente centra-se no delicado tema da relação Guerra Civil e abolição. Sobre este tema, a historiografia tradicional, procura ocultar o estreito vínculo entre o conflito e a questão abolicionista. Para tanto, foca sua análise em aspectos relacionados, sobretudo, à institucionalização das tropas e seus aspectos formais. Estes estudos baseiam-se em vasta correspondência, focando nos grandes feitos das tropas negras e destacando as interações entre brancos e negros. Paralelamente, as obras inseridas nesta linha interpretativa procuram ressaltar e imortalizar a imagem de líderes do conflito como os grandes heróis da reconstrução nacional.
Outras vertentes historiográficas emergiram dessas abordagens, tais quais o neo-revisionismo, que mesmo alegando desprendimento do antigo revisionismo ainda reiterava que os conflitos que levaram a secessão eram facilmente evitáveis. Entretanto, é a partir da década de 1960 que uma alternativa a essas interpretações deterministas emerge com força na produção norte-americana sobre o tema. Uma segunda grande corrente - a que se propõe a trabalhar de forma mais sensível o trauma da escravidão - assume o vínculo entre abolição e a guerra e trata de desvendar seus meandros. Esta linha historiográfica é assumida por historiadores como Eugene Genovese, Ira Berlin e Edward Redkey, que procuram compreender aspectos do processo histórico de emancipação dos escravos através do olhar daqueles que vinham de um passado de escravidão, apreendendo a variedade e complexidade de suas experiências. Esses autores propõem uma saída ao dualismo interpretativo estabelecido na historiografia: pensar a guerra como um "antagonismo multifacetado" no qual o principal ponto de desacordo versa à respeito da destruição da escravidão.
Propondo contar a história dos anos de opressão escravista e de sua imbricada relação com o conflito seccional - no qual centenas de escravos e ex-escravos perderam a vida - a partir da visão dos negros que vivenciaram este conturbado período e deixaram suas impressões em diários e cartas, esta linha historiográfica sugere um resgate da dimensão humana a partir do luto. Essa atividade mental procura resgatar o sentido da experiência destrutiva da escravidão e, desta forma, levar à superação de todo o sofrimento, dor e perda que a escravidão trouxe à comunidade afro-americana. Para tanto, esses historiadores se propõe narrar para reconhecer a humanidade dos escravos e seus descendentes que durante séculos sofreram com o estigma do etnocentrismo americano.

Considerações Finais

Os crimes que o sistema escravista perpetuou agrediram de forma inumana os negros, negando-lhes, desta forma, sua própria humanidade. Um escravo significava uma mercadoria, um investimento rentável ao seu senhor. Sendo o valor do escravo um valor puramente econômico eles eram, em alguma medida, supérfluos. Quando tornados dispensáveis os homens perdem sua dignidade e sua natureza humana é desfigurada.
Privados por décadas de relatar suas próprias experiências, os ex-escravos e seus descendentes deixaram de ser atores de sua própria história e assim foram privados de seu "poder originário", o de narrar a si mesmos. É igualmente desta privação que surgem os abusos do uso da memória e do esquecimento que dificultam o processo de superação do trauma.
Por outro lado, a carga física e emocional de um sistema tão brutal quanto o escravista levou muitos cativos a desenvolveram um profundo senso de compromisso com a emancipação, tornando-se testemunhos da força que um ideal de liberdade pode ter. Essa memória de luta e comprometimento pode ser resgatada a partir de uma historiografia que se proponha a narrar a história do ponto de vista dos "outros".
Revisitar memórias traumáticas, como da escravidão, é fundamental e não consiste em um campo esgotado. A vasta produção norte-americana sobre o tema somente muito recentemente passou a privilegiar uma história da escravidão contada a partir da visão dos próprios cativos. Para além dessa questão, o sentido que um evento traumático assume não está estabelecido definitivamente e é preciso revisitá-lo constantemente, narrá-lo e compreende-lo com o auxilio de dispositivos da cultura histórica como o perdão e o luto.
Assim, o trabalho que vem sendo desenvolvido desde a década de 1960 ainda tem muito a ser explorado. Inúmeras obras vem sendo editadas e o ponto de vista dos escravos sobre a escravidão e a guerra começaram a ser narrados também em campos como o cinematográfico e literário. Desta forma, no horizonte de uma cultura cunhada sob a égide de ideais etnocêntricos e do preconceito racial, a comunidade negra norte-americana começa a revisitar seu trauma e vislumbrar perspectivas de um futuro que se deseja menos desigual.






Referências Bibliográficas

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