OBRAS DE MÁRCIA X. E OS TRAÇOS DA ARTISTA SIGNIFICANDO A ARTE E SE SIGNIFICANDO EM SUAS PRODUÇÕES

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OBRAS DE MÁRCIA X. E OS TRAÇOS DA ARTISTA SIGNIFICANDO A ARTE E SE SIGNIFICANDO EM SUAS PRODUÇÕES

Lucas Benatti (UEM) Renata Marcelle Lara (UEM) [email protected]

Resumo O presente estudo está orientado teórica e metodologicamente pela Análise de Discurso de vertente francesa, na perspectiva de Michel Pêcheux. Apresenta como objetivo geral investigar, na/pela produção artística de Márcia X., traços da artista que a significam e significam a arte em seu trabalho entre as décadas de 1980 e 2000. Para tanto, como material de análise destinado à constituição do corpus discursivo, a pesquisa parte de fotografias, vídeos e textos das/sobre as obras Cellofane Motel Suite (1985), Fábrica Fallus (1992-2005) e Desenhando com terços (2000). Como resultado, busca-se a visualização discursiva de Márcia X. no/pelo imbricamento artista-obra se significando e significando a arte em sua obra. Palavras-chave: Análise de Discurso. Arte. Márcia X. Obras artísticas.

Introdução Este resumo expõe a construção de um projeto de pesquisa a ser executado/vinculado ao projeto de pesquisa docente Mídia, Urbano, Arte e Cultura em Discurso, este em andamento na Universidade Estadual de Maringá desde 2013. Também se relaciona com o projeto de pesquisa científica “O corpo feminino como discurso na performance Lovely Babies, De Márcia X.” que está sendo desenvolvimento com auxílio da Fundação Araucária. Na condição de teoria e método, o projeto apresenta a Análise de Discurso de vertente francesa, fundada por Michel Pêcheux, e especificidades da vertente praticada no Brasil, com Eni Orlandi, como norte para todo o percurso de investigação. A temática, formulada com base em tal referencial, visibiliza traços da artista Márcia X. significando a arte e se significando em suas produções como objeto a ser pesquisado. Para tanto, objetiva-se investigar, na/pela produção artística de X., traços da artista que a significam e significam a arte em seu trabalho

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entre as décadas de 1980 e 2000, interrogando-se, na forma de problema de pesquisa, de que forma Márcia X., no/pelo imbricamento artista-obra, significa sua obra e se significa como obra. Para responder a tal interrogação, objetiva-se, especificamente, abordar o panorama geral de arte no Brasil durante os anos de 1980 e 2005 que permita compreender

o

trabalho

artístico

de

Márcia

X.,

entre

aproximações

e

distanciamentos daquilo que era produzido nesse período; levantar as obras de X. que sejam mais características na sua prática artística em relação aos movimentos artísticos compreendidos entre essas décadas; por fim, observar no/pelo imbricamento artista-obra, a prática artística de Márcia X. no momento em que ela significa a obra e se significa como obra. Para construção do corpus analítico, selecionamos do percurso artístico de Márcia X. três trabalhos: a performance Cellofane Motel Suite, de 1985, a série de instalações e objetos que compõem a obra Fábrica Fallus, desenvolvida de 1992 a 2005, e a performance Desenhando com terços, de 2000. A escolha desses trabalhos se justifica por caracterizar, a priori, três momentos distintos da produção artística de X: 1980, com o predomínio da performance como crítica à arte produzida na época e um retorno à arte conceitual das décadas de 1960 e 1970; 1990, com uma vasta produção de instalações e objetos cuja temática permeia o feminino, o religioso, a sexualidade, os papéis de gênero, entre outros; 2000, com um retorno à performance, mas com um maior cuidado visual e plástico, atingindo uma abordagem mais crítica na proposta de suas produções. Percurso teórico Para a Análise de Discurso (AD), como evidencia Ferreira (2005), o discurso é o objeto teórico da disciplina. Segundo a autora, ele “[...] se produz socialmente através de sua materialidade específica (a língua); prática social cuja regularidade só pode ser aprendida a partir da análise dos processos de sua produção, não dos seus produtos” (FERREIRA, 2005, p.13). O discurso é, como aponta Orlandi (2012, p. 21), referenciada em Pêcheux, “efeito de sentidos entre locutores” – diferenciando-se, portanto, totalmente da noção saussuriana de parole/fala.

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A teoria do discurso de Michel Pêcheux, como aponta Marlene Teixeira (2005, p. 16), “dedica-se a pensar os efeitos de sentido no discurso. Sua preocupação nunca foi a questão ‘O que isso significa?’, mas como se instituem efeitos de sentido no discurso, no encontro entre a língua, o efeito-sujeito e a história”. O sujeito, segundo Ferreira (2005), é constituído na relação com os outros, nunca sendo a origem do discurso ou fonte única do sentido. O sentido só pode ser constituído em referência às condições de produção, “[...] uma vez que muda de acordo com a formação ideológica de quem o (re)produz, bem como de quem o interpreta” (FERREIRA, 2005, p. 21). Como esclarece a autora, para a AD o sentido “[...] está sempre em curso, é movente e se produz dentro de uma determinação histórico-social [...]” (FERREIRA, 2005, p. 21). Dessa forma, sabendo que essa pesquisa se caracteriza pelo seu caráter analítico, respaldado na Análise de Discurso, e que uma análise discursiva não se faz sem as condições de produção do material pesquisado, abordamos, sequencialmente, sobre os conhecimentos históricos e artísticos que envolvem o período em que se deu a produção artística de Márcia X.

A artista

Segundo Ricardo Basbaum (2005), Márcia Pinheiro de Oliveira era o verdadeiro nome da performer carioca Márcia X. A artista iniciou seu trabalho na década de 1980, dando ênfase à execução de obras efêmeras, num momento, como aponta Amaral (2006, v.1), em que os jovens artistas abandonavam a arte conceitual produzida nas décadas anteriores e tomavam as técnicas mais tradicionais de arte, especialmente a pintura, como sua principal forma de expressão artística. Márcia caminha na contramão ao que era produzido artisticamente na época, utilizando seu corpo como principal meio expressivo de sua arte. Isso pode ser demonstrado em sua performance Cellofane Motel Suite, executada em parceria com o artista Alex Hamburger, em 1985, na Bienal do Livro na cidade do Rio de Janeiro. Como aponta Basbaum (2005), na performance em questão, os artistas

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desafiaram os espaços de arte e revoltaram o público a ponto de a ação terminar com o sistema de segurança do evento apontando uma arma para a dupla. Por volta da metade da década de 1980, conforme Amaral (2006, v.3, p. 249), “gradativamente, a importância que a pintura adquiria nos primeiros anos da década cederia lugar ao retorno ao objeto, à instalação em particular [...]”. A arte brasileira da década de 1990, para a autora, apresenta um retorno ao conceitual. Os mais diversos materiais são utilizados na produção desse período, sendo marcado pela permissividade e infinidade de possibilidades na criação. É a partir da década de 1990 que Márcia X. se dedica mais intensamente à produção de objetos e instalações; em uma primeira análise, observa-se, uma confluência entre artista e sistema de arte da época. Quanto ao conteúdo de suas obras, nota-se, nesse período, que a artista volta-se mais a questões relacionadas à sexualidade e a representações de gêneros, ressignificando objetos populares e deslocando-os de seus contextos de produções iniciais, como é o caso de sua instalação-objeto Fábrica Fallus, iniciada em 1990, na qual a artista faz uso de objetos sexuais e os caracteriza como objetos infantis. No que tange à arte dos anos 2000, ela demonstra, a princípio, seguir o caminho aberto pelos artistas em 1990, dando ênfase à pluralidade e infinidade de possiblidades de técnicas e conteúdos expressivos da arte. Quanto à produção de X., em meados dos anos 2000, Márcia retoma as abordagens performáticas, dessa vez conjugada com a produção de peças e instalações. Suas obras adquirem uma estética mais etérea, distanciando-se da histeria de seus primeiros trabalhos. O religioso, o feminino, o sagrado e o profano são temas recorrentes em grande parte de suas performances, como é o caso de Desenhando com Terços, em que Márcia X., vestida de camisola branca, utiliza 400 terços para realizar desenhos de pênis no chão de uma sala de aproximadamente 20 metros quadrados.

Considerações finais Ao nos depararmos com o percurso artístico-obra de X., podemos verificar a presença de certas regularidades estéticas e conceituais na maneira em que a artista concebeu suas criações. Regularidades que, a princípio, se mostram em três

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fases/categorias distintas: Crítica aos espaços de arte (década de 1980); Discussões sobre gênero e sexualidade (década de 1990); Religiosidade introvertida (a partir dos anos 2000). A proposta de investigação deste projeto surge, exatamente, nesse ponto onde se fixam os pressupostos conteudistas e do mundo logicamente estabilizado, buscando se questionar a respeito de tais regularidades a partir da Análise de Discurso e compreender de que forma Márcia X. no/pelo imbricamento artista-obra, significa sua obra e se significa como obra. Referências AMARAL, Aracy A. Textos do Trópico de Capricórnio: artigos e ensaios (19802005): Modernismo, arte moderna e o compromisso com o lugar. São Paulo: Ed. 34, 2006. 1 v. ______. Textos do Trópico de Capricórnio: artigos e ensaios (1980-2005): Bienais e artistas contemporâneos no Brasil. São Paulo: Ed. 34, 2006. 3 v. BASBAUM, Ricardo. Percursos de Alguém Além de Equações. In: ASSOCIAÇÃO CULTURAL VIDEOBRAISL. Cadernos Videobrasil. São Paulo: Associação Cultural Videobrasil, 2005. FERREIRA, Maria Cristina Leandro. Glossário de Termos do Discurso. Porto Alegre: Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005. MÁRCIA X. Disponível em: < http://www.marciax.art.br/mxObra.asp?sMenu=2&sObra=47>. Acesso em: 27 out. 2014. ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. 10. ed. Campinas: Pontes, 2012. TEIXEIRA, Marlene. Análise de Discurso e Psicanálise: Elementos para uma abordagem do sentido no discurso. 2. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.

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